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História, racismo e luta política



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História, racismo e luta política

Até sua morte, em 1986, Diop publicou diversos livros sobre história e cultura negras. Neles, criticava as concepções eurocêntricas e revelava novas evidências sobre a importância da África para o desenvolvimento da humanidade. Foi uma figura pública essencial à construção de uma identidade africana, baseada em pesquisas solidamente comprovadas.

O movimento pan-africanista, desde a década de 1930, impulsionou a afirmação de uma unidade africana e formulou críticas às visões racistas de alguns intelectuais europeus. Muitos ativistas eram poetas e escritores que se tornaram, posteriormente, líderes políticos nos seus países de origem.

Diop não produziu apenas uma crítica ideológica à dominação colonial, mas sistematizou uma teoria inovadora, fundamentada em vasta pesquisa histórica e arqueológica, que levou os especialistas europeus e norte-americanos a reconsiderarem a maioria de suas conclusões sobre o Egito antigo e, portanto, sobre a importância e a influência das culturas negras para a formação de civilizações mediterrâneas, como a greco-romana.

No trecho a seguir, Diop explica a importância da cultura egípcia para os povos africanos.

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A estrutura da realeza africana, em que o rei é morto, real ou simbolicamente, depois de um reinado de duração variável - em torno de oito anos -, lembra a cerimônia de regeneração do faraó, através da festa de Sed. Os ritos de circuncisão já mencionados, o totemismo, as cosmogonias, a arquitetura, os instrumentos musicais, etc., também são reminiscências do Egito na cultura da África Negra. A Antiguidade egípcia é, para a cultura africana, o que é a Antiguidade greco-romana para a cultura ocidental. A constituição de um corpus de ciências humanas africanas deve ter isso como base.

DIOP, Cheikh Anta. Origem dos antigos egípcios. In: História Geral da África II. África Antiga. Editado por Gamal Mokhtar. 2. ed. Brasília: Unesco, 2010. p. 32.

A partir de vestígios arqueológicos, de esculturas e objetos antigos, Diop sintetizou suas conclusões sobre a origem negra (negroide) do povo egípcio e indicou que pessoas representadas como "brancas" (semitas ou indo-europeias) eram caracterizadas como estrangeiras ou prisioneiras.

[...] as representações dos homens do período proto-histórico, e mesmo do período dinástico, são absolutamente incompatíveis com a ideia de raça egípcia difundida entre os antropólogos ocidentais. Onde quer que o tipo racial autóctone esteja representado com alguma clareza, ele é nitidamente negroide. Em parte alguma elementos indo-europeus ou semitas são representados como homens livres, nem mesmo como cidadãos comuns a serviço de um chefe local. Eles aparecem invariavelmente como estrangeiros submetidos. As raras representações encontradas trazem sempre marcas inequívocas de cativeiro: mãos atadas atrás das costas ou amarradas sobre os ombros. Uma estatueta protodinástica representa um prisioneiro indo-europeu com uma longa trança, de joelhos e as mãos atadas ao corpo. As características do próprio objeto mostram que ele devia ser o pé de um móvel e representava uma raça conquistada. A representação é, com frequência, deliberadamente grotesca, como ocorre com outras figuras protodinásticas, mostrando indivíduos com o cabelo trançado à maneira que Petrie denomina rabo de porco (pigtail). Na tumba do rei Ka (I dinastia), em Abidos, Petrie encontrou uma plaqueta representando um indo-europeu cativo, acorrentado, com as mãos atrás das costas. Elliot-Smith acha que o indivíduo representado é um semita.

DIOP, Cheikh Anta. Origem dos antigos egípcios. In: História Geral da África II. África Antiga. 2. ed. Brasília: Unesco, 2010. p. 9.

LEGENDA: Escultura em ébano, gesso e ouro representando a rainha egípcia Tiye, esposa de Amenhotep III e mãe de Akhenaton, 18ª dinastia, cerca de 1403-1365 a.C.

FONTE: Werner Forman Archive/Bridgeman Images/Keystone Brasil/Museu Egípcio, Berlim, Alemanha.






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