Olhares da História 2 Brasil e mundo


A Revolta dos Malês (Bahia, 1835)



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A Revolta dos Malês (Bahia, 1835)

O Brasil começou a receber africanos do tronco linguístico iorubá, da África Ocidental, principalmente no século XIX. Malê era um termo usado para designar os africanos muçulmanos que sabiam ler e escrever em



Leituras

Boxe complementar:

Nos dois textos a seguir, o historiador Marcos Ferreira de Andrade destaca a importância da Revolta de Carrancas, a diversidade étnica e cultural dos participantes e a afirmação de um projeto de liberdade no contexto imperial brasileiro.

Negros rebeldes em Minas Gerais

Os escravos da família Junqueira se apropriaram, a seu modo, do contexto de disputas entre a elite que estava colocado naquele instante. Apropriaram-se até mesmo dos apelidos que os membros da elite utilizavam para desqualificar ou enquadrar seus oponentes. O depoimento de Maria Joaquina do Espírito Santo, mulher parda, agregada e moradora na fazenda Bom Jardim, é revelador, nesse aspecto. O grupo de escravos, liderados por Ventura, que se dirigiu para aquela fazenda, na noite do dia treze, passou pela casa da testemunha. Depois de ameaçá-la, exigiu que lhes entregasse logo as espingardas que havia na casa. Um dos escravos que fazia parte do grupo, o preto Antônio Benguela, "pulava no seu terreiro e batia nos peitos dizendo para ela e seu companheiro: Vocês não costumam falar nos caramurus, nós somos os caramurus, vamos arrasar tudo".

ANDRADE, Marcos Ferreira de. Imprensa moderada e escravidão: o debate sobre o fim do tráfico e temor do haitinismo no Brasil Regencial (1831-1835). Disponível em: www.escravidaoeliberdade.com.br/site/images/Textos4/marcosferreiradeandrade.pdf. Acesso em: 1º fev. 2016.

Dos 31 escravos indiciados no processo de insurreição de 1833, dos quais constam referência à origem, nove (29%) eram crioulos, 17 (54%) eram africanos procedentes da África Centro-Ocidental e dois, da África Ocidental. Embora a revolta de Carrancas contasse com a participação majoritária de escravos de origem africana, o envolvimento dos crioulos foi bastante significativo, sendo que dois deles foram processados como "cabeças" no crime de insurreição. [...]

A diversidade étnica e o número expressivo de crioulos em algumas propriedades dos Junqueira também não representaram um impedimento para que os escravos se tornassem "parceiros" e a experiência do cativeiro e a expectativa da liberdade parecem ter sido os elementos que contribuíram para a associação entre os cativos. [...]

Por fim, cabe destacar algumas das medidas adotadas pela elite provincial e imperial, em virtude do temor instaurado pela Revolta de Carrancas. Uma delas, refere-se às atitudes tomadas por proprietários, autoridades, parlamentares e o governo da Regência ao se utilizarem de "estratégias de desinformação e censura" para evitar o pânico entre a população e uma onda sucessiva de novos levantes. Porém, a mais drástica e de maior repercussão foi a punição exemplar dos escravos rebeldes, que desencadeou um intenso debate no parlamento e senado, durante dois anos, dando origem a uma nova jurisprudência acerca da pena de morte aplicada a escravos rebeldes, ou seja, a lei de 10 de junho de 1835.

ANDRADE, Marcos Ferreira de. Rebeliões escravas no Império do Brasil: uma releitura da revolta de Carrancas - Minas Gerais - 1833. Disponível em: www.escravidaoeliberdade.com.br/site/images/Textos5/andrade%20marcos% 20ferreira%20de.pdf. Acesso em: 1º fev. 2016.

Fim do complemento.



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árabe. De acordo com o historiador João José Reis, "o termo malê deriva de imale, que significa muçulmano em iorubá". (REIS, João José. O sonho da Bahia muçulmana. Revista de História. Disponível em: www.revistadehistoria.com.br/secao/dossie-imigracao-italiana/o-sonho-da-bahia-muculmana. Acesso em: 3 nov. 2015.)

Na preparação do levante, os escravos muçulmanos, liderando diversos grupos de outras crenças, se organizaram para tomar o poder e instalar "uma Bahia só de africanos". Há quem afirme que um dos projetos era escravizar "brancos" e mestiços ou crioulos, estes vistos como cúmplices dos senhores.

No levante, que durou apenas alguns dias, não houve invasões, saques nem atentados contra senhores e suas famílias. Mesmo assim, as forças do governo reprimiram a revolta com violência.

A repressão estancou a adesão ao levante em Salvador e impediu que os revoltosos realizassem o plano de chegar até os engenhos e libertar os negros da zona rural. Derrotados, quase todos os cerca de 600 africanos que aderiram à revolta foram punidos com rigor: alguns dos líderes foram executados e os demais, castigados publicamente com açoites, prisões e deportações.

Assim como em Minas Gerais (Carrancas), a Revolta dos Malês, na Bahia, aumentou os temores de "haitianismo" - como os poderes estabelecidos denominavam os levantes de escravos, que lembravam a rebelião no Haiti, ocorrida décadas antes. Leia abaixo trechos de dois artigos do jornal Aurora Fluminense, entre fevereiro e março de 1835, que expunham esses temores.






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