Oficinas terapêuticas: a “Roda de Leitura Reflexiva” Atividade realizada nas comunidades terapêuticas


O parentesco entre o movimento antimanicomial e as ct’s



Baixar 72,59 Kb.
Página2/10
Encontro17.10.2018
Tamanho72,59 Kb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10
O parentesco entre o movimento antimanicomial e as ct’s.
Questões relacionadas ao tratamento do dependente químico vinculam-se de forma estreita à luta antimanicomial, movimento que despontou na década de 1980 e mobilizou familiares, usuários, e trabalhadores da saúde mental com o intuito de lutar pela criação de uma Política de Saúde Mental Brasileira. Observamos que o desejo, ─ utópico para alguns ─, de pôr fim aos manicômios e construir novas formas de atenção para os portadores de saúde mental, se tornou realidade. Nesse novo milênio, observamos variados avanços nas formas de cuidado, que se direcionam para a reinserção psicossocial e respeito aos direitos humanos.

Variadas experiências exitosas contribuíram para com a construção dessa nova clínica em saúde mental, na qual os usuários, antes asilados, destituídos de direitos e privados do exercício de sua cidadania, passaram a ter suas vozes ouvidas, e a participar ativamente da rede de políticas públicas. Os portadores de transtorno mental contam, na atualidade, com serviços como os CAPS I, II, III, álcool e drogas, CAPSad e infanto-juvenil CAPSi. Os CAPS III e os CAPSad III funcionam 24 horas. Essas conquistas no campo da saúde mental não seriam possíveis, também, sem a criação de leis que assegurassem os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais graves, e esses direitos foram extensivos aos transtornos relacionados ao uso de substâncias psicoativas2.

Compreendemos que a simples transposição dos modelos de atenção em saúde mental, os CAPS, para o território da atenção em dependência química, especialmente o tratamento realizado dentro das Comunidades terapêuticas, não seria viável por variados motivos. Primeiramente, por que as comunidades terapêuticas, embora tenham se beneficiado com o movimento da luta antimanicomial, não derivam desse, entes, tem a sua origem, como a conhecemos, segunda metade do século XX.

O ministro luterano americano Frank Buchman, foi um dos pioneiros no tratamento da dependência química no modelo comunitário, ele fundou a First Century Christian Felowship, organização religiosa que pregava um retorno à inocência da igreja cristã primitiva. Essa organização religiosa concebiam os transtornos mentais e o alcoolismo como sinais de “destruição espiritual”. Buchman incluía nas práticas da First Century Christian Felowship, “a ética do trabalho, o cuidado mútuo, a orientação partilhada, e os valores religiosos da honestidade, da pureza, do altruísmo e do amor, o autoexame, a reparação, e o trabalho conjunto” (KEER-CORRÊA; MAXIMIANO, 2013, p. 39). Observemos que, no germe da ideia das comunidades terapêuticas está a religiosidade, o trabalho conjunto, o autoexame e uma serie de valores que se mantém até hoje.

O movimento criado por Buchman se expandiu e alcançou outros países. Foi na Escócia que surgiu o termo “comunidade terapêutica”, criado pelo psiquiatra Maxwell Jones. Às práticas criadas por Buchman, Jones acrescentou a humanização da equipe cuidadora, buscando novas formas de ajudar os seus pacientes, ele procurou desmistificar a autoridade dos profissionais, com o intuito de diminuir as resistências e aproximá-los daqueles que necessitavam de tratamento. Maxwell Jones é reconhecido como “precursor do conceito fundamental de comunidade como método de tratamento de substâncias psicoativas” (KEER-CORRÊA; MAXIMIANO, 2013, p. 40). À abordagem de mutua ajuda, foram agregadas novas abordagens como a motivacional e a prevenção de recaída. Em 1959, na Califórnia, Estados Unidos, Charles (Chuck) Dederich deu início do programa Synanon, a partir das experiências vivenciadas no movimento Alcoólicos anônimos3 (AA). A Comunidade terapêutica Synanon, além das vertentes espiritual e filosófica, integrou no seu programa os doze passos e as doze tradições, bem como as abordagens terapêuticas e filosóficas vigentes na época, como o existencialismo e a psicanálise. Nesse modelo o objetivo era, além de manter a pessoa sóbrio, levá-la a mudar de vida. Buscando afastar as pessoas em tratamento das influencias que as levavam ao consumo de drogas, o Synanon oferecia aos dependentes em tratamento, um ambiente residencial de 24 horas. Desde então surgiram novas CT’s com programas mais articulados, como a CT Daytop Village, 1963. Os modelos surgidos na América do Norte foram transplantados para a Europa, América Latina, África e Ásia, e grande parte desses tinham como modelo o Programa Synanon, e se desenvolveram com a participação de líderes comunitários, membros do clero, políticos e profissionais de saúde. Segundo Keer-Corrêa e Maximiano (2013, p. 41), as gerações subsequentes de CT’s conservaram muito dos elementos propostos pela Synanon, entretanto, variadas alterações foram se processando e dando forma a modelos diferenciados de CT’s.

Observamos que as CT’s, desde a sua nascente, apresentam flexibilidade nas suas propostas, o que facilitou com que na década de 1970, elas se multiplicassem sem qualquer tipo de regulamento. A precariedade de algumas CTs chamou a atenção para a necessidade de se estabelecer padrões básicos de funcionamento. Em 2001, a Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), adotou a Resolução de Diretoria Colegiada (RDC) nº 101, regulamento técnico para as comunidades terapêuticas. Nesse mesmo ano, 2001, a Secretaria Nacional sobre Drogas (SENAD) realinhou a política vigente no país, surgiram daí novas Resoluções, como a RDC nº 3, de 2005.





Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10


©psicod.org 2017
enviar mensagem

    Página principal