Oficinas de Conscientização à não-violência: discutindo gênero e sexualidades resumo


Em diálogo nos transformamos todos: as ações realizadas



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Em diálogo nos transformamos todos: as ações realizadas
O primeiro cine-debate aconteceu no dia 06 de maio de 2017, na Casa de Cultura Vaca Profana - Passo Fundo/RS1, com a proposta de refletirmos conjuntamente acerca da violência nos espaços educacionais, o filme Depois de Lúcia foi utilizado como propulsor do debate para o compartilhamento das vivências dos presentes. Considerado do gênero drama, o filme traz ao debate a questão do bullying, por meio da exibição das vivências sofridas por Alejandra (Tessa Ia), uma adolescente de 15 anos, em seu ambiente escolar. O cenário da história acontece na cidade do México, local onde ela e o seu pai decidem morar depois da morte acidental de sua mãe: Lucia. No entanto, as relações abusivas a qual a personagem central sofre, infelizmente, ocorrem nos mais diversos locais de ensino, nos mais diversos níveis. Uma das análises possíveis a serem realizadas, refere-se ao jogo de disposição das câmeras e das personagens, que no decorrer do filme nos transmitem o sentimento constante de aflição e incômodo, pela falta de diálogo e escuta ativa entre as personagens principais.

A metodologia do cine-debate foi a seguinte: exibição do filme, com posterior fala propulsora de debates e relatos de caso, que proporcionou às mulheres presentes que se sentissem encorajadas em compartilhar e refletir sobre suas experiências com essa forma de abuso. Cerca de 20 pessoas participaram da atividade, que se estendeu por duas horas depois da exibição do filme. Foi possível notar que a violência machista é presença constante na vida de toda mulher, e que falar sobre ela, tornando-se consciente do processo de opressão que vivenciamos, é o primeiro passo para a busca de libertação. Refletindo sobre a atividade, percebemos a necessidade de incluir-se avisos de gatilhos2, devido as cenas fortes e impactantes de violência e desumanização total da personagem central do filme.

O segundo cine-debate aconteceu no dia 07 de junho de 2017, no saguão da Faculdade de Artes e Comunicação/UPF, onde foi exibido o filme: Billy Elliot, proporcionando a reflexão sobre a diferenciação entre identidade de gênero e orientação sexual. A atividade foi construída em parceria com o Ponto de Cinema, outro projeto de extensão da Universidade de Passo Fundo. Billy Elliot é um filme que exibe a trajetória de um menino de 11 anos que vive com os familiares no interior da Inglaterra, o pai e o irmão, ambos operários grevistas, e a avó, única presença feminina na família. Incentivado pelo pai a lutar boxe, o menino se encanta pelas aulas de balé que acontecem na mesma academia. Com o auxílio da professora e muita determinação consegue o apoio da família e uma bolsa para uma grande companhia de dança. Seguindo a metodologia anterior de divulgação foi criado o evento nas redes sociais. Filme esse mais leve, no que diz respeito a cenas de violência em comparação ao filme anterior, contudo, não menos problematizador. Gerou novamente ótimas reflexões a respeito do tema tratado, apesar da forte chuva, no momento de início da exibição do filme, que aconteceu no Faculdade de Artes e Comunicação. Cerca de 10 pessoas participaram da ação.

Billy Elliot impulsiona a discussão acerca dos papéis de gênero, pois desconstrói os estereótipos de masculinidade e feminilidade, proporciona o discernimento entre identidade de gênero e orientação sexual. Isso porque o personagem opta por uma profissão construída social e culturalmente como feminina, o balé. A história representada no filme, além de esteticamente bonita, não cai nos estereótipos associados a homens bailarinos, trazendo leves menções a heterossexualidade do menino desconstrói a ideia pré-concebida de que para exercer “funções femininas” o sujeito precisa ser homossexual.

A partir disto, o filme nos possibilitou distinguir uma série de conceitos envolvidos nos debates de gênero, que são muitas vezes causa de confusão. Debatemos as diferenças entre identidade e expressão de gênero, sexo e orientação sexual. Em relação ao sexo biológico, podemos ser homem (indivíduos que nascem com pênis, cromossomos XY, testículos), mulheres (indivíduos que nascem com vagina, cromossomos XX, ovários, útero) e intersex (ou hermafrodita), que são os indivíduos que nascem com ambos os órgãos genitais e cromossomos, e cuja identificação é difícil. Ao nascermos nos são impostas formas de comportamento e papéis a desempenhar, mas nem todas as pessoas assimilam essa imposição, de modo que algumas sentem que aquilo que se exige delas não corresponde à forma como se sentem. Muitas pessoas que nascem com pênis e cromossomos XY se identificam mais com as características impostas às mulheres, e muitas pessoas com vaginas e cromossomos XX se sentem mais pertencentes ao gênero masculino, elas são o que a literatura reconhece como transgêneros. E há ainda pessoas que não se sentem pertencentes a nenhum destes gêneros, elas negam estas distinções e circulam entre um e outro, são fluídas (genderqueer). Isso é o que denominamos identidade de gênero, aquilo que as pessoas sentem dentro de si, no seu interior, aquilo com que elas se identificam. Identidade de gênero não tem a ver com sexo biológico, mas sim com o gênero com que a pessoa se identifica.

Além da identidade de gênero, também existe algo que chamamos de expressão de gênero, que é o modo como a pessoa se expressa para os outros, na sua vida em comunidade. A expressão de gênero é aquilo que podemos ver, é aquilo que as pessoas demonstram com suas ações, seus comportamentos, sua forma de se vestir e de interagir com outras pessoas. Alguém pode ter uma identidade de gênero feminina, sentir-se mulher, mas mesmo assim não agir conforme aquilo que a sociedade espera de uma mulher, ou seja, ter uma expressão de gênero masculina.

Nós muitas vezes atribuímos essas diferenciações entre as pessoas à biologia. Entretanto, o comportamento humano é muito mais moldado pelas condições socioambientais do que por instintos. Nossa atividade sexual, por exemplo, não se resume a biologia, ela é simbólica, capaz de refletir quem somos e o que sentimos (GIDDENS, 2012). A maioria das pessoas em todas as sociedades é heterossexual, isto significa que elas buscam pessoas do sexo oposto para relacionamentos afetivos e sexuais, a isso denominamos de orientação sexual. É enganoso pensar que a orientação sexual de alguém é uma opção, ninguém escolhe a quem amar, assim como a identidade de gênero também não é uma escolha. A orientação sexual é resultado de uma interação complexa entre fatores biológicos e sociais (GIDDENS, 2012), e nem mesmo os pesquisadores da área sabem ao certo explicá-la. Orientação sexual diz respeito àqueles a quem amamos e por quem nos sentimos atraídos sexualmente, podemos ser heterossexuais (pessoas que sentem atração pelo sexo oposto), homossexuais (pessoas que sentem atração pelo mesmo sexo) ou bissexuais (pessoas que sentem atração pelos dois sexos).

É importante entendermos que todas essas características não são inter-relacionadas. A sociedade espera de todas as pessoas que obedeçam a um padrão. Espera-se que quem nasce mulher se sinta mulher, se comporte como uma mulher, obedecendo aos papéis instituídos para cada sexo, e se sinta atraída sexualmente por homens, mas isso nem sempre acontece. As pessoas que não correspondem a esse padrão são julgadas e discriminadas por algo que não está ao seu alcance modificar. Por isso, consideramos que ações que possibilitem o debate acerca destas questões são imprescindíveis, na medida em que auxiliam as pessoas a refletir sobre a temática, e assim, manter a mente aberta e exercitar a empatia, compreendendo as vivências e sentimentos do outro sem julgá-lo ou recriminá-lo apenas por ser quem é.

As atividades desenvolvidas nos CRAS nos dias 05, 14 e 26 de julho e 18 de agosto de 2017, diferenciam-se das anteriores por contemplarem indivíduos em situação de vulnerabilidade social. Nas duas primeiras datas, o público integrante das oficinas foi composto por adolescentes, entre 13 e 17 anos. Tendo como objetivo desconstruir os papéis sociais pré-concebidos de homem e mulher, a oficina desenvolveu-se a partir dos seguintes passos metodológicos: exibição do vídeo Qual é meu gênero?3, de autoria da Youtuber Louie Ponto, explicando a respeito “dos manuais de instruções presentes nas caixinhas de meninos e meninas”, em seguida, solicitamos que escrevessem e depositassem na caixinha oposta a seu gênero a sua resposta para a pergunta: se você fosse do gênero oposto o que faria? Dessa maneira, as pré-concepções e pré-conceitos sobre os estereótipos de gênero dos adolescentes foram utilizados como elementos fomentadores de debate e discussão.

O primeiro grupo era formado por aproximadamente 20 adolescentes de 14 a 18 anos. Iniciamos a elaboração do desenvolvimento metodológico da oficina, bem como, os recursos e estratégias a serem utilizados. O material utilizado foi papel e caneta, duas caixas e o vídeo supracitado exibido no Datashow. Realizadas as devidas apresentações, propomos a pergunta a ser respondida pelos adolescentes em um pedaço de papel: Se você fosse do gênero oposto o que faria? O papel era colocado na caixinha correspondente, rosa para os meninos, e azul para as meninas. Posteriormente, exibimos o vídeo e através dele dialogamos com as respostas do grupo, problematizando determinados papéis de gênero estabelecidos.

O segundo grupo contou com a presença de 16 adolescentes, entre 15 e 17 anos, assistidos pelo CRAS central de Passo Fundo. O início da atividade contou com a presença da psicóloga responsável Aletéia Pinto, na oportunidade, a mesma explicou nossa participação dentro das propostas do CRAS, além de pedir a colaboração dos adolescentes. Decorrida as devidas apresentações e respondida à questão, percebeu-se que a princípio os estudantes demostraram uma certa resistência, no entanto, no decorrer da atividade, a interação passou a ser maior.

Durante a exibição do vídeo evidenciou-se a atenção dada a ele, embora com o som baixo. Iniciamos a leitura das respostas, pois as mesmas nos propuseram um excelente recurso pedagógico, expressando as concepções de homem e mulher dos participantes. Fomos surpreendidos pelas respostas dos meninos presentes com a primeira caixa aberta, nelas obtivemos como respostas as seguintes afirmações:



“Ia ser uma vadia. ”

“Se eu fosse uma menina eu iria ser uma vagabunda. ”

“Iria ser puta. ”

Iniciamos problematizando os conceitos e os entendimentos de puta, vagabunda e vadia. Mesmo sem a assinatura, os adolescentes procuravam responder e defender suas colocações. Procuraram colocar que entendiam esses conceitos como prostitutas. Surgindo a questão da “escolha” pela e da legalização da prostituição, da liberdade sexual consentida apenas aos meninos.

Quanto a caixa dos meninos contendo as respostas das meninas. Encontramos as seguintes respostas:


“Sair de noite e voltar de madrugada”

“Se fosse menino queria andar de skate”

“Se fosse menino queria usar boné”

Respostas essas que revelam os privilégios masculinos, incentivando os mesmos a prática de esportes, ou a possibilidade de sair sozinho à noite e voltar quando assim decidir, sem medos ou preocupações, como sofrer um abuso sexual ou estupro. Foi importante a introdução sobre o tema da masculidade compulsória, e como isso afeta os homens, exibindo o vídeo Precisamos falar com os homens, disponível no youtube4.


A última oficina de conscientização realizada no CRAS II, proporcionou ao público, composto por trabalhadores de serviços gerais, a possibilidade de refletir sobre a violência doméstica. Levando em consideração os atores envolvidos, o planejamento da atividade cuidou de não exigir o exercício da escrita. Sendo assim, o desenvolvimento metodológico deu-se a partir da construção coletiva de uma árvore da violência contra a mulher, divido em 3 grupos: raízes, tronco e frutos, respectivamente debatendo as origens, a sustentação e os resultados da violência.

Depois das devidas apresentações, iniciou-se a construção da conscientização a respeito da violência contra a mulher, por meio da análise e explicação do “iceberg” da violência de gênero. Abordar a violência contra a mulher não é tarefa simples. Há pelo menos três desafios que devem ser considerados. O primeiro deles é referente, justamente, a como conceituamos violência. Quando falamos de violência tendemos a associá-la à violência física, mas é necessário destacar que o termo violência é composto por uma gama bem maior de elementos, que não se restringem a agredir fisicamente outro indivíduo. A Organização Mundial da Saúde, no Relatório Mundial sobre Violência e Saúde, define violência como:


[...] uso intencional da força física ou do poder real ou em ameaça, contra si próprio, contra outra pessoa, ou contra um grupo ou uma comunidade, que resulte ou tenha qualquer possibilidade de resultar em lesão, morte, dano psicológico, deficiência de desenvolvimento ou privação (KRUG et al., 2002, p. 5).

Tal definição não reduz violência à agressão física, mas também a considera como coação, ameaça e qualquer tipo de postura ou atitude que venha a desencadear danos psicológicos à vítima. Podemos imaginá-la como um iceberg, a ponta que emerge é a agressão física que, não raras vezes, resulta em homicídio e vem acompanhada de insultos, gritos, abusos, violações, ameaças. Essas são as violências visíveis, que podem ser constatadas por qualquer pessoa que conviva com a vítima ou, simplesmente, esteja presente no local em que ocorrem. Há ainda as formas invisíveis, a parte do iceberg que está submersa, dentre elas encontramos a humilhação, a chantagem emocional, a desvalorização, a depreciação, a culpabilização. E, ao olharmos para o caso mais específico da violência contra a mulher, encontramos ainda formas muito sutis, inerentes ao funcionamento de nossa sociedade, marcadamente patriarcal. Podemos citar a publicidade, o humor e a linguagem sexistas, o controle, a anulação e a invisibilidade da mulher.

Reduzir a violência contra a mulher à agressão física é negligenciar todos os outros tipos de sofrimentos a que são submetidas em decorrência do machismo, tão arraigado em nossa sociedade e que, seguidamente, ainda que não leve à morte, tem como consequência o adoecimento físico e/ou psíquico. Deste modo, constata-se a importância de trabalhar com um conceito amplo de violência, que não negligencie suas diversas facetas nas vivências cotidianas do ser mulher.

O segundo desafio, que está diretamente ligado ao primeiro, é referente ao reconhecimento da violência. Pelo fato de que, comumente, associamos violência apenas à agressão física, muitas mulheres não têm consciência do quanto estão sendo violentadas cotidianamente, em seus trabalhos ou em suas relações afetivas, familiares e sociais. E, mais do que isso, existe uma naturalização de comportamentos violentos.

Heise (1994, p. 47-48) considera a violência contra mulher “um fenômeno extremamente complexo, com raízes profundas nas relações de poder baseadas no gênero, na sexualidade, na auto-identidade e nas instituições sociais [...] em muitas sociedades, o direito (masculino) a dominar a mulher é considerado a essência da masculinidade”, o que tende a naturalizar ainda mais as condutas opressoras por parte dos homens, legitimando-as como o comportamento que se espera deles.

Joan Scott (1990) define gênero como a organização social das relações entre os sexos. Sabemos que as relações em nossa sociedade são marcadamente dominadas por homens. Há escassos registros históricos de sociedades matriarcais, mas a predominância é o patriarcado. Isso explica uma naturalização de comportamentos submissos por parte das mulheres e uma dificuldade de identificar a violência e a opressão a que são submetidas. Para Scott (1990) gênero abrange a construção social do que é característica de cada sexo biológico. Essa construção é tão arraigada que acaba sendo “naturalizada”, acarretando uma dominação sobre os indivíduos. De Souza e Brandão (2008), em seu estudo sobre Como é ser adolescente do sexo feminino na periferia?, constatam que as meninas entrevistadas se sentem oprimidas, mas se deixam oprimir por acreditarem que não possuem direito de fala.

As participantes não relataram de forma explícita se se sentem discriminadas no cotidiano, mas, de acordo com os relatos, nota-se uma constante discriminação/opressão “naturalizada”, que talvez dificulte a identificação desse tipo de situação, retratada na fala de Luana, a seguir, quando diz que é normal o pai mandar na filha: “Acho que pai é normal, mas já vivi situações de irmão, amigo, querer mandar: – ‘Quem é você para falar o que vou fazer?’ - ‘Ôxe, minha filha, estou fazendo isso para o seu bem’. – ‘Mas tá querendo mandar, você não é nem meu irmão...’”
O trecho acima deixa claro que as participantes da pesquisa reconhecem a opressão, mas a consideram natural. O pai, tanto quanto o irmão, detém um poder que pode ser exercido sobre elas. Mais do que isso, nota-se que não há relatos explícitos da discriminação/opressão no cotidiano, o que confirma o segundo desafio de trabalhar com violência contra a mulher: o não reconhecimento desta violência, ou a concepção de que ela é “natural”.

O terceiro desafio enfrentado por quem trabalha com a temática está relacionado a heterogeneidade e complexidade das mulheres brasileiras. Será que podemos realmente falar em violência contra a mulher, como se tivéssemos uma categoria homogênea e consensual aplicável ao conceito mulher. Ser mulher branca, classe média, nos grandes centros, com curso superior e emprego formal é diferente do ser mulher negra, pobre, na periferia, empregada doméstica sem carteira assinada, que é diferente de ser mulher transexual, ou prostituta, diferente ainda de ser mulher na lida do campo, agricultora, analfabeta.

Dos 100 milhões de mulheres brasileiras, 50 milhões se declaram pretas ou pardas. Destas 39,9% estão em situação de pobreza. Em 2009, 61,3% dos beneficiários do Bolsa Família eram mulheres negras. 26% dos domicílios urbanos das periferias são liderados por elas. Elas representam 61% das mulheres assassinadas no país. Das empregadas domésticas brasileiras, 61,6% são negras, pobres, com baixa escolaridade e a maioria sem vínculo trabalhista formalizado. A mulher negra tem um rendimento médio de R$ 760,27 a menos que o homem negro. A mulher branca ocupa posição superior ao do homem negro, mas ainda não atinge o homem branco. Apenas 10,9% das mulheres negras chegam ao ensino superior e 9% atingem cargos de chefia em empresas5.

É inegável que a violência contra a mulher, como Heise (1994) mesmo aponta em seus estudos, ocorre em todos os grupos socioeconômicos. Entretanto, queremos levantar a hipótese de que a forma como é vivenciada difere conforme a classe social e a cor da pele. Para iniciar essa problematização apresentaremos um estudo de Emanuelle Silva, Roberto Torres e Tábata Berg, publicado no A Ralé Brasileira (2009), de Jessé Souza, sob o título de A miséria do amor aos pobres. Os autores apontam para o fato de que, seguidamente, tudo que resta a uma população que não possui sequer condições dignas de vida é o ideal do amor romântico e da erotização, que se colocam como sentido da vida, contrapostos a humilhação cotidiana que sofrem em outras esferas. Salienta-se as condições de vida dos sujeitos que foram alvo dessa pesquisa: não há condições básicas de saneamento, falta alimentos e as condições de moradia são absolutamente precárias, soma-se a isso o cenário de violência e a banalização do estupro. Diante destas condições objetivas como construir um ambiente de afeto no lar?

Jessé Souza (2009, 49) problematiza:
Em muitas famílias da “ralé” brasileira é comum também a naturalização do estupro. As mulheres, especialmente, são estimuladas [...] a um início prematuro da vida sexual, permitindo que sejam facilmente instrumentalizadas sexualmente pelos pais, padrastos, tios, irmãos mais velhos etc. Há 60 anos Florestan Fernandes havia detectado o mesmo estado de coisas. Qual o sentido de autoconfiança que é possível para esses seres humanos que só aprenderam a usar e serem usados? Que tipo de relação consigo mesmos? Que tipo de relação com os “outros”?
Silva, Torres e Berg (SOUZA, 2009) apontam para o fato de que, sendo o amor romântico e a erotização o sentido da vida, as mulheres dessa classe social que Jessé Souza nomeia ralé, buscam desesperadamente o amor dos homens, mas essa busca vem marcada pela recusa do afeto, seja para o amor romântico, seja para amizade. As mulheres da “ralé” são hipersexualizadas e se colocam constantemente em jogos de sedução, nos quais são vistas como meros objetos. Concebem o sexo como uma moeda de troca, desprovido de afetividade, e tem na sexualidade seu único bem.

O sexo, nas classes baixas, submetidas a condições completamente indignas, serve como válvula de escape, na qual ainda se pode encontrar prazer. Entretanto, para as mulheres acaba por se transformar em mais um reprodutor da violência de gênero. Visto como moeda de troca, depois de concedido não lhes resta nada, a mínima dignidade que possuíam é perdida, e o que se segue é a humilhação. “Essa” já não tem nada a oferecer. De modo que, mesmo quando o sexo é consensual, depois de efetivado é dominado por uma violência simbólica. Jessé Souza (2009) destaca aqui a diferença de classe. Os pais da classe média criam seus filhos lhes atribuindo valor em si, eles já possuem autoestima. Assim, a beleza da adolescente de classe média é para contemplação, não apenas para o uso sexual.

A violência é cotidiana e sempre presente, sendo reproduzida de geração em geração, como podemos ver no trecho que segue:

Ao falar com orgulho do avô de 86 anos, Jane tenta, mas não consegue disfarçar a tristeza por saber que aquele velhinho contador de “causos”, que aguarda ansiosamente a morte como conta em confidência à neta — “ah esse ano eu acho que eu vou morrer, tô velho já, quero ficar perto da minha velha lá, quero ficar com ela...” —, quando jovem espancava os filhos e a mulher. Seu Chico dava continuidade aos maus-tratos que o pai de Dona Aparecida a fazia sofrer desde a infância. Homem das mãos fortes e do “coração duro”, sempre a espancou, e ela nunca soube realmente o motivo. Só o tempo e a perda da força física puderam corroer a virilidade sádica e egoísta que fazia Chico submeter mulher e filhos aos seus caprichos e animosidades. A tirania que construiu sob a força e a expressão sempre inabaláveis foi ruindo com a proximidade da morte. E as doenças e a fraqueza física foram milagrosas em ressuscitar em Chico aquele “aconchego paternal” que Jane nunca encontrou no pai. Mas o olhar desolado da neta não esconde o medo de que, como a avó e a mãe, ela também caia nas mãos de um homem impiedoso como fora a vida toda o avô (SOUZA, 2009, p. 149).


Para estas mulheres a agressão e a violação são parte do dia a dia, de tal modo que se torna difícil conceber um relacionamento livre disso. Não existe espaço para o afeto e o sexo, quando não é forçado, é utilizado como barganha. Fica claro no modo como as duas meninas entrevistadas relatam sua primeira vez, ambas não queriam, mas cederam como “prova de amor”, em busca do afeto que não tiveram em seus lares, e que tampouco conseguiram no sexo. Vale destacar que o sexo não é apenas desprovido de afeto para essas mulheres, mas também de prazer. “Ela continuava sem gostar de sexo, mas agora aquela culpa e dor do início já não existiam mais — era só uma casca —, ela nada sentia” (SOUZA, 2009, p. 155).

Levando em conta estas questões, nos propusemos a debater com o grupo de trabalhadores de serviços gerais, oriundos da periferia de nossa cidade, a questão da violência contra a mulher. Conduzimos a dinâmica da “árvore da violência”, sua escolha ocorreu por proporcionar uma maior participação e interação dos participes na oficina. Com o total de 18 participantes, foram formados 3 grupos com 6 integrante cada, o primeiro grupo de discussão, levantou e teorizou a respeito das raízes da violência, o segundo grupo responsável pelo tronco da árvore da violência, consequentemente no terceiro construímos os frutos da violência de gênero. Com o objetivo de empoderar as participantes, solicitamos que em cada grupo, uma participante ficasse responsável de trazer a discussão do pequeno grupo para o grande grupo.


Nessa etapa, o contato mais próximo com os indivíduos proporcionou que os mesmos trouxessem relatos de casos próximos de violência contra a mulher, na família, vizinhos, ou com eles próprios. Durante a construção da teorização a respeito das consequências dessa violência em especifico, duas mulheres expuseram que recentemente sofreram violência de seus parceiros, ambas saíram dos lares que viviam até então e denunciaram. Um terceiro relato, no entanto, gerou uma maior discussão a respeito dos motivos que levam as mulheres a não denunciarem e retornarem à casa do agressor, uma vez que a relatante expôs a seguinte situação: sua vizinha apanhava muito do marido, homem mais jovem e atraente com quem tinha dois filhos, que segundo ela já reproduziam a violência vivida em casa. Um certo dia, depois de muito gritar por ajuda, ela (a relatante), chamou a polícia, bem como, interviu na agressão, impedindo que continuasse. No entanto, insistia em dizer que sua atitude “não havia adiantado nada”, porque a vítima da agressão se recusou a fazer o B.O. e retornou imediatamente ao lar. No grupo onde discutíamos, estava presente uma das psicólogas do CRAS II, que auxiliaram na problematização do caso, além de questionar a afirmação que não “valera de nada”, e que “não adianta se meter”, afirmações essas trazidas pela mesma.

Depois da teorização a respeito do tema respectivo a cada grupo, etapa essa que teve a duração aproximadamente de 20 minutos, voltamos a nos reunir em círculo para as considerações e montagem da árvore. Obtivemos como respostas as seguintes colocações:


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