Obras Seletas Volume 7



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Jornal do Brasil, 9 de junho de 1893.

 

A ESPIONAGEM



 

     O punhal de Calisto, o secreta, expediu duas mortes. Outras vítimas, malferidas, curam lentamente, no hospital, os estragos do ferro assassino. Quando as cutiladas cicatrizarem, é provável que na consciência difluente desta sociedade digna de sua sorte, deste povo homogêneo de seu governo, se haja desbotado a última impressão do escândalo sangrento. O mecanismo da solidariedade oficial trabalhará então sutilmente, para atenuar a responsabilidade ao serventuário público imolado por uma exageração inoportuna das qualidades profissionais. E o suor do contribuinte continuará a subsidiar a instituição destinada a estripá-lo, num dia de azar, a qualquer canto de rua.


     Não conviria, entretanto, que o fato mergulhasse de todo no esquecimento, antes de lhe estudarmos ao menos os aspectos d’arte, que a sua fisionomia revela. A mão daquele agente não é a de um loiraça no ofício. A perícia magistral daqueles golpes, convergentes sempre à região inferior do tronco humano, onde as entranhas se oferecem sem o obstáculo do osso à faca do cortador, está denunciando a competência do artista. O magarefe e o anatomista talham na carne morta, inerte. O vivissector imobiliza primeiro a vítima na banca do laboratório, para não errar o alvo no meneio da lanceta. O cirurgião opera sobre o paciente insensibilizado como o auto­psista no cadáver. Só o capoeira tem no punho a vibração infalível da flecha contra o pássaro no vôo; só ele disseca o homem vivo e livre na plenitude do movimento e da defesa, com a certeira instantaneidade do escalpelo na mesa de anatomia.
     Quando, porém, não bastassem, para confirmação deste juízo, os caracteres da profissão, impressos nas circunstân­cias do crime (crime, ou excesso de zelo?), aí estava, para acabar com a dúvida, a navalha, o instrumento típico dessa especialidade fluminense, encontrada nas mãos do matador.
     De tempos a esta data há de ter notado o público que a capoeiragem como que se despede de nós. Esse fenômeno coincide paralelamente com a multiplicação do serviço secreto. Dir-se-ia que influências benfazejas da ação policial contribuíram decisivamente para esse resultado. De onde poderiam concluir os publicistas oficiais que esses executores das proe­zas clandestinas da polícia têm uma função providencial, como a do sapo, nos brejos de hortaliça, contra certos animál­culos daninhos. Mas, se considerarmos que não há notícia, até hoje, de um rasgo de hostilidade por parte do secreta contra o capoeira, ao passo que, por outro lado, o capoeira acaba de descobrir-se embiocado no secreta, não será precipitada a inferência de que entre o capoeira e o secreta houve apenas fusão, ou transformação evolutiva. Um era a lagarta do outro. A ninfa deixou o casulo, transfigurada pela investidura de uma dignidade útil. O navalhista empregou-se numa profissão honesta, pôs a sua destreza ao serviço da ordem, e fez sociedade com o Código Penal. É a política da conciliação e do juízo. Duas potências andavam em rixa: o olho da Rua do Lavradio e o cambapé do Largo de Santa Rita. Estão aliados na paz da república. As praças esvaziaram-se; porque o merecimento desses cidadãos, ingratamente retribuído e desconhecido noutros tempos, passa a ser aproveitado agora em seguir a pista aos malfeitores de nossa ordem. Ora graças que já um habitante desta capital pode ter a certeza de que, se deixar um dia os intestinos na calçada, não será por obra de algum réu de polícia.
     Este consórcio tem a seu favor tradições históricas da mais alta linhagem. Quem não conhece as glórias de Vidocq, o célebre Vidocq? Vagabundo, histrião, desertor, falsário, calceta, o famoso aventureiro acabou por oferecer os serviços à ordem pública, no primeiro império, demonstrando, em grave memória dirigida ao Barão Pasquier, que, “para descobrir ladrões, é preciso tê-lo sido”. Acolhido pela administração imperial, foi preposto como chefe à brigada de segurança. Mais tarde, regressando à França os Bourbons, foi ele quem quebrou a martelo as espigas que fixavam a estátua de Napoleão na coluna Vendôme, e lhe amarrou os tirantes, que deviam lançá-la por terra. Chefe de segurança em 1817, em remuneração de tamanhos serviços, Vidocq comandava, em 1821, um corpo de agentes, todos antigos galés, ou antigos hóspedes das penitenciárias, como ele. E, ainda em 1830, o governo de Luís Filipe não se desdenhou de utilizá-lo. Verdade seja que, dessa vez, os truques do ofício deram no chão, em momentos, com uma vida inteira de espionagem vitoriosa. Para demonstrar a imprescindibilidade de seu concurso ao prefeito da polícia, Gisquet, - o dedicado sustentáculo das três coroas que reinaram, neste século, sobre aquele país, fez tramar um roubo por vários apaniguados seus, todos antigos habitantes das prisões. Os salteadores foram presos, e o maquinador do crime agraciado com o lugar de alta confiança, que cobiçava, à frente da polícia reservada. Mas um dos seus instrumentos viu-se colhido na rede, preso, condenado a dois anos de cadeia. O caso fez estrondo. A imprensa, de mais a mais, maligna sempre, descobrira, e explorava umas parecenças de mau efeito entre a cabeça do armador do crime e a do monarca. Vidocq foi demitido, e um decreto, de 15 de novembro de 1833, dissolveu-lhe a brigada, estabelecendo que ninguém mais poderia ser admitido ao serviço policial sem boa folha corrida.
     Já se vê que, rememorando este episódio, não podemos aconselhar à república a imitação do precedente Orléans, quanto à última parte: a resolução imprudente, em que a autoridade abriu mão de um meio, tão necessário aos povos morigerados e aos governos honestos, de fazer dos inocentes criminosos, quando o bem público o exija. Uma polícia, que não disponha de recursos eficazes, para desembaraçar limpamente o governo de seus inimigos, é tolice. A república, entre nós, felizmente, sabe repelir com horror os exemplos da realeza, quando eles podem ensinar-nos os preconceitos vulgares da legalidade e da decência, e adotá-los com sofreguidão, quando apadrinham abusos corajosos, ou escândalos brilhantes. O modelo, portanto, cuja recomendação naturalmente se colige das nossas escavações policiais, é o do sistema Vidocq, nobilitado pelo consenso do primeiro império, da Restauração e da monarquia de julho. Não queremos ir até à Nápoles do rei Bomba. Não. Seria presunção quase irreverente ao culto dos antepassados, de que podemos aproximar-nos, sem ter a imodéstia de pensar em rivalizá-los.
     Os secretas, já se vê, são de boa estirpe. A Constituição não lhes permite foro de nobreza. Mas uma árvore de costado regada pelas virtudes oficiais de tantas gerações de grilhetas pode bem zombar das formas de governo, estendendo sobre todas a sombra indiferente da sua proteção.




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