Obras Seletas Volume 7



Baixar 0,67 Mb.
Página5/44
Encontro17.10.2018
Tamanho0,67 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   44
Jornal do Brasil, 22 de maio de 1893.

 

JACOBINOS E REPUBLICANOS



 

     Ouvimos dizer que o Jornal do Brasil exagera a importância ao cogumelo jacobino. Porque o agárico descorado rasteja à flor do chão, porque não precisa de luz para a medrança, porque assimila os elementos do ar segundo um processo respiratório diferente do nosso, imaginam que o parasita é indiferente à nossa higiene, que as criaturas superiores podem fitá-lo com desprezo, que a evolução da vida é indiferente ao desenvolvimento minúsculo deste comensal. Mas desde a ferrugem das searas, desde o mofo dos rosais, desde a gangrena úmida dos batatais até o poliporus que esfarela em humus as madeiras de construção, a natureza nos está mostrando que os mais soberbos palácios, na estrutura poderosa dos seus vigamentos, não podem rir do criptógamo destruidor, cuja família se distribui do pinheiro à violeta, nutrindo-se ora das matérias decompostas, ora dos organismos vivos. O tortulho, às vezes microscópico, tem venenos solúveis, para levar a morte ao estômago do homem, filtros, para deformar as folhas das plantas, apetites, para se apascentarem nos cadáveres dos insetos, dissolventes, para arruinarem os troncos do arvoredo. Mínimo, dilata-se por propagação; superficial, destrói pelo contac­to; anêmico, demuda e amofina pela convivência os corpos mais robustos.


     A república, vegetação nova, mal arborescente ainda, foi invadida, antes da frutescência e da infloração, pela praga desse devastador, pior que o oídio das vinhas, sob a forma do jacobinismo. Do terriço, próprio ao solo das revoluções, onde esfervilham as ignorâncias, as presunções e os despeitos, o mal estendeu-se às ramas, onde as nódoas características vão-se destacando bem visíveis. Acudir-lhe em tempo é melhor do que deixá-las lavrar crescentemente a superfície ainda ilesa.
     O elemento jacobino, quem não o ouviu, em 10 de abril, embocar o clarim do triunfo, em torno do governo, e fanfarrear nas festas da proscrição, quando era honra o insulto aos perseguidos, nobreza a espionagem, função cívica o beleguinato? Quem não o ouviu advogar a sistematização legislativa da lei marcial? Quem não se lembra do frenesim, com que ele aplaudiu as delegações de arbítrio ao chefe do estado? Quem não o admirou fazendo cauda à polícia nessa orgia de invasões da polícia no direito particular, na competência do Código Comercial, na alçada da magistratura? Qual é o salto do poder por sobre a lei, que ele não recebeu esfregando as mãos? Qual foi a notícia de violências que ele não acolheu com a exor­tação a violências maiores? Quem senão ele se enfuriou com a nossa resistência ao célebre alistamento republicano? Quem concebeu a idéia nefasta da reeleição do marechal Floriano Peixoto? Quem acoroçoa constantemente a desordem, toda a vez que a desordem bajula a ditadura? Quem reedita aqui a flux a pólvora dos ódios de importação contra a propriedade, a riqueza, o capital, que fizeram a civilização americana? Agora mesmo o título de jacobino não acaba de ser levantado como brasão na frontaria de um clube político? E a mocidade, as classes populares vão bebendo avidamente o licor da loucura nessa propaganda, a que a tumidez da paixão supre a ausência do talento, do gosto e do siso.
     Porque a espuma desses acessos ainda não é ensangüentada, não se segue que devamos conservar-nos quedos e desacau­telados. Os crimes da epilepsia são inesperados e subitâneos. O bom médico diagnostica pelos pródromos, e previne-se contra as eventualidades fatais. O jacobinismo é um produto moral de certos sentimentos e de certas teorias. Dadas as teorias mães, aventados os sentimentos suspeitos, é precavermo-nos em tempo contra as possibilidades da manifestação aguda.
     Ora, as atitudes e os princípios deste arremedo indígena da demagogia francesa reproduzem fielmente os caracteres do original. “Convencer não é o que o jacobino procura: basta-lhe dominar. Não discute: condena; e, se persistem, excomunga. Divergir dele ao pensar não é incorrer em erros de apre­ciação, nos quais não se envolva a integridade pessoal: é pra­vi­dade, digna de castigo, rematada traição. Se um argumento o embaraça, não há que hesitar: trunca-o, omite-o, ou finge não entendê-lo. Se o desesperam, elimina o adversário à força de leis de exceção, quando o pode, ou por processos de exceção, se lhe falece outro meio. Tem um direito para si mesmo, outro para os demais, uma linguagem para o revés, outra para a vitória. Tratando-se de si, toda a liberdade é pouca; para os outros qualquer é demasiada. Mais fraco, brada contra a perseguição; mais forte, oprime. Declama contra o despotismo, que o magoa; serve ao que lhe aproveita. Seu temperamento intelectual inibe-o de encontrar a verdade; porque, mais ainda que o comum da gente, ele interpõe sempre um ódio, ou um capricho, entre si e o homem, que tem de julgar. Em saindo de suas maquinações subterrâ­neas para a luz do sol, já não enxerga, como as aves da noite: míngua-lhe em vista o que lhe sobra em perversidade. Em sua estimativa, o fim justifica os meios; as coisas, para ele, são conforme prestam, não conforme são; do que lhe rende, nada é crime; nada é virtude, se lhe prejudica. Assim com as pessoas: dos puros tudo é santo; dos impuros, tudo condenável. Um dia Robespierre fazia a Meillan o elogio de certo Desfieux, sujeito de notória improbidade. - Mas o vosso Desfieux é conhecido como um velhaco. - Não importa; é um bom patriota. - Ora! um falido fraudulento! - É um bom patriota!” E não lhe pôde arrancar outras palavras.
     Se os amigos nunca têm vício, os inimigos nunca têm merecimento. Tudo é lícito contra eles: até imputar-lhes os atentados, que os próprios acusadores cometeram: os algozes de Vergniaud não assacavam aos girondinos os morticínios de setembro?
     Dizem os que estudaram essa chaga da revolução francesa que, “em falta de caridade e justiça, a inveja é a divindade do jacobino. Qualquer superioridade lhe é suspeita, qualquer ascendente individual acirra-lhe a desconfiança e ao depois o ódio. Quem quer que se eleve é um ditador, que urge banir da lei: ditador, Mirabeau; ditador, Lafayette; ditador, Vergniaud. A universal mediocridade, sob um nível de dominação sectária, ou rapace, este, na concepção do jacobino, o ideal da democracia.”
     Quereis ver como essa escola histórica entende a verdade e a consciência? Os girondinos, na conferência do Caen, recusam a proposta realista de angariar recursos na Inglaterra, declarando não poderem adotar um plano contrário ao sistema republicano. Pois bem: o jacobinismo os executa, por haverem maquinado contra a unidade e a indivisibilidade da república! O moço Montmorin é arrastado ao tribunal revolucionário, e condenado, porque lhe descobriram em casa, a dezenas de léguas de Paris, no retiro da sua obscuridade, uma bengala de estoque, indício transparente de reivindicações restauradoras. Um opulento agente de câmbio em cujas águas-furtadas se encontraram velhas côdeas de pão, sofre a morte, por ter conspirado a fome contra o povo. Duas mulheres, uma de oitenta anos, outra paralítica, sobem ao cadafalso acusadas de evasão com escalada para assassinar os convencionais.
     Poderão argüir-nos de forçar a comparação. Será justo o reparo? Sim, se estabelecerem que a gravidade de um crime se determina pela importância de seus efeitos materiais. Não, se confessarem que as ações humanas se aquilatam pela natureza de seus elementos morais. Quem não sente a rasoira jacobina nessa hostilidade, ora surda, ora violenta, que solapa e farpeia os melhores nomes da nossa revolução? Quem não percebe a moral dos libelos de Fouquier-Tinville na encenação oficial da mazorca de abril? Quem não reconhece a eqüidade dos processos revolucionários de suspeição política nessas provas da conjuração dos desterrados de 1892, nas quais o olhar de um magistrado apenas poderia achar o corpo de delito da imoralidade dos delatores?
     Vede a capacidade anedótica das celebridades do tempo, das Egérias da atualidade, e dizei-nos se não dão a lembrar a frase de Sieyès: “Os que não deviam ter a incumbência de nada, encarregam-se obstinadamente de tudo.” Os padres da seita, que apaixona os nossos puritanos, mandaram derribar campanários, porque violavam a igualdade. A comuna de Paris cogitou em queimar a biblioteca da cidade, por ter tido o cognome de régia. Lavoisier pede alguns dias de vida, para concluir uma experimentação química. “A república”, responde Dumas, “não precisa de químicos.” O filho de Buffon cuida salvar-se, declinando o nome do pai. Entregam-no ainda mais depressa ao verdugo. Um tribuno místico exclama, arengando ao povo: “O cor Jesu! O cor Marat! Coração Sagrado de Jesus! Sagrado coração de Marat! tendes o mesmo direito às nossas homenagens.” Ao que atalha um ouvinte: “Ora falar em Jesus... Tolices!”
     Eis os jacobinos, dos quais Gensonné dizia: “Se salvarem a coisa pública, é por instinto animal, como os gansos do Capitólio.” Danton, na sua prisão, os definiu, dizendo: “Não há um só deles, que entenda de governo.” E quem os conhecia melhor do que Danton? “Ditadores ridículos é o que vós sois”, escarrava Carnot nas faces de Saint-Just. Eis o retrato da confraria atroz, que impôs à revolução a ditadura da ignorância, da malvadez e da improbidade, que matou a república, preparando a prostituição do diretório e o absolutismo do império, e que ainda hoje assombra o mundo por seus crimes, por sua corrupção e por sua imbecilidade.
     Vale a pena de desenterrar exemplos tais, e transfundi-los, um século depois, no sangue dos vivos? fazer dessa herança precita o patrimônio comum das repúblicas? instilá-la, na escola pública da imprensa, à alma do povo, sedenta de novidade e de ação? fabricar desses ingredientes uma opinião, entregar a essa opinião o governo, confiar a esse governo a liberdade?
     Estroinices, rapaziadas, destemperos inocentes, dizem, encolhendo os ombros, certos personagens, cuja fleuma seria digna de estudo. Riem-se do jacobino que não trouxer o cadafalso às costas, como o músico ambulante o realejo. Não querem ver que dessas pataratices violentas se compõe o coro das violências oficiais, a jurisprudência das suas justificações, e que essa orquestra insensata oferece o perigo terrível de alentar, num governo entregue às alucinações da fraqueza, uma tensão de luta, de provocação, de intransigência pertinaz, de aventurosas temeridades. É pouca essa gente? Mas notai o caso congênere no berço da demagogia contemporânea. “Alguns espertos apoderam-se da França, martirizam-na em nome da liberdade, impõem-lhe a tirania da insciência, da ociosidade, da devassidão e do crime. Não eram muitos: em Paris uns cinqüenta, sustentados por uns cinco ou seis mil apaniguados. Nenhum homem superior, entre os chefes; entre os adeptos, alguns indivíduos do povo. Mas adeptos e chefes, quase todos presunçosos e ignaros, famintos de importância, ou de estrépito, sem probidade, nem escrúpulos, sempre agitados e agitantes.” E a França, a grande França, pôde cair nas garras dessa minoria odiosa e repulsiva. Que diremos do Brasil, onde os reivindicadores dessa sucessão histórica têm conquistado, por beneplácito do governo, o privilégio de ousar tudo?
     Não, não convém deixar que a enxurrada engrosse. É necessário chamar a postos os interesses conservadores, e considerar no abismo, que separa a demagogos de democratas, e jacobinos de republicanos.
     O espírito jacobino é a negação do verdadeiro espírito republicano.




Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   44


©psicod.org 2017
enviar mensagem

    Página principal