O rei do brasil



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CHATÔ:


O REI DO BRASIL

FERNANDO MORAIS


Copyright (c) 1994 by Fernando Morais
Capa e projeto gráfico:

Hélio de Almeida


Foto da capa:

José Medeiros/Arquivo O Estado de Minas

Tratamento gráfico da capa:

Nelson Mielnik / Graphbox


Preparação:

Marcos Luiz Fernandes


Índice remissivo:

Beatriz Calderari de Miranda


Revisão:

Cecilia Ramos

Eliana Antonioli

Ana Maria Barbosa

Carmen S. da Costa

2 ª edição


5ª reimpressão

1ª edição (1994) com 1 reimpressão


Dados Internacionais de Catalogação na Publicaçãu (cie)

(Câmara Brasileira do Livro, sn, Brasil)


Morais, Fernando,1946-

Chatô : o rei do Brasil, a vida de Assis Chateau-

briand / Fernando Morais. São Paulo : Companhia das

Letras,1994.


Índices para catálogo sistemático:

7. Brasil : Jornatistas : Biografìa 420.5

1996

Para Marina


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André Malraux alimentava a ilusão de escrever a biografia do Chi-

quinho Matarazzo, mas eu consegui demovê-lo dessa rematada bes-

teira. Acho que, como vingança, tentou escrever um livro sobre

a minha vida, mas acabou desistindo. Depois foi a vez do padre

Dutra, que cercava parentes meus pelas esquinas, em busca de in-

formações para compor um romance sobre a minha vida. Quem

também andou bisbilhotando as minhas misérias, com planos de

imortalizar-me em papel, foi a princesa Bibescu, da Romênia, edi-

tora e escritora. Os três fracassaram, mas a todos eu havia feito

uma modesta exigência: a obra teria que começar descrevendo a ce-

na em que eu e minha filha Teresa aparecíamos nus, sentados na foz

do rio Coruripe, comendo bispos portugueses, tal como fizeram

meus ancestrais caetés, quatro séculos atrás. O deslumbrante pi-

quenique, que já povoou alguns delirios meus, seria a forma ideal

de divulgar a origem do meu sangue amerindio na Europa.

Assis Chateaubriand

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1


Inteiramente nus e com os corpos cuidadosamente pintados de verme-

lho e azul, Assis Chateaubriand e sua filha Teresa estavam sentados no chão,

mastigando pedaços de carne humana. Um enorme cocar de penas azuis de

arara cobria os cabelos grisalhos dele e caía sobre suas costas, como uma

trança. O excesso de gordura em volta dos mamilos e a barriga flácida, es-

condendo o sexo, davam ao jornalista, a distância, a aparência de uma velha

índia gorda. Pai e filha comiam com voracidade os restos do bispo Pero Fer-

nandes Sardinha, cujo barco adernara ali perto, na foz do rio Coruripe, quan-

do o religioso se preparava para retornar à pátria portuguesa. Quem apuras-

se o ouvido poderia jurar que ouvia, vindos não se sabe de onde, acordes do

Parsifal, de Wagner. No chão, em meio aos despojos de outros náufragos,

Chateaubriand viu um exemplar do Diário da Noite, em cujo cabeçalho era

possível ler a data do festim canibal:15 de junho de 1556. De repente o dia

escureceu completamente e ele sentiu algo úmido e frio encostado em seu

pescoço.

O delírio fora interrompido pelo gesto do enfermeiro que esfregava um

chumaço de algodão embebido em iodo na garganta do paciente. Ao lado, o

cirurgião duvidara que aquele homem - o interno número 4695 - tivesse

67 anos, como informava a ficha do hospital. A pele alva era lisa, quase fe-

minina, sem rugas nem estrias, contrastando com o pescoço pequeno e gros-

so, típico de nordestino. Através da janela de dez por dez centímetros corta-

da no centro do lençol cirúrgico que cobria o corpo da cabeça aos pés, só era

possível ver, além do pescoço, as pontas salientes das clavículas. O rosto es-

tava inteiramente oculto pelo lençol, sob o qual se desenhava o formato da

máscara de baquelita que envolvia o nariz e a boca do paciente, dando ao

perfil a aparência de um focinho. O tecido branco cobria parte de um tubo

de borracha sanfonada que estava ligado a um tambor de aço, de cujo inte-

rior o único pulmão vivo do doente tentava desesperadamente sugar oxigê-

nio para manter o organismo funcionando. A respiração estava ficando crí-

tica, e se a cânula da traqueostomia não fosse introduzida logo, as chances de

sobrevivência do paciente seriam nulas. O indicador e o polegar esquerdos

do médico esticaram a pele abaixo do pomo-de-adão, escolhendo o anel da

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FERNANDO MORAIS


traquéia que seria secionado pela incisão. Estendida para o lado, num gesto

mecânico, a mão direita recebeu o bisturi, cuja lâmina em forma de meia-lua

brilhava à luz forte do refletor preso no teto. Quando o cirurgião encostou o

aguçado fio de navalha na garganta do doente, acabou a luz do hospital e a

sala foi tomada por completa escuridão.

- Puta que pariu! - o médico levantou a mão direita num solavanco,

como se tivesse levado um choque. - Mais um segundo e eu degolava o ho-

mem!


Indiferente ao palavrão, uma enfermeira saiu pela sala cirúrgica tatean-

do o ar em busca da maçaneta da porta:

- Vou mandar ligar o gerador de emergência, doutor.

Antes que ela conseguisse sair, a luz voltou junto com o ruído de um ge-

rador que começava a funcionar no porão da clínica. Mal-humorado, o mé-

dico dava ordens:

- Esterilizem os instrumentos de novo. Enfermeiro, me dê mais iodo,

vamos começar tudo outra vez.

Não houve tempo para começar nada. O gerador engasgou uma, duas

vezes, a luz piscou e apagou de novo. O médico desabafou, a voz filtrada pe-

la máscara de linho que cobria metade do seu rosto:

- Não é possível! Alguém rogou praga neste sujeito. Se ele escapar des-

ta, não morre nunca mais.

Inerte sobre a mesa de operação, imerso em coma profundo, jazia o jor-

nalista Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo, um dos homens

mais poderosos do Brasil. Ele fora transportado para a elegante clínica Dou-

tor Eiras, no bairro de Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro, na manhã do

dia anterior, 26 de fevereiro de 1960, sob a falsa suspeita de estar sofrendo

um infarto. O diagnóstico errado levou-o diretamente ao pronto-socorro car-

diológico. Ao tentar reanimá-lo, um jovem médico de plantão comprimiu-

lhe com tal força o tórax que uma das costelas trincou. Chateaubriand não

reagiu à agressão, nem deu qualquer sinal de que fosse recobrar os sentidos.

Assustado com a responsabilidade de ter nas mãos a vida de alguém tão im-

portante, o estagiário pediu que chamassem com urgência o próprio dono

do hospital. Meia hora depois chegaria um homem alto, magro, de nariz

comprido, aparência melancólica e ombros curvados - o médico Abrahão

Ackerman, um dos sócios da clínica e o mais famoso e festejado neurocirur-

gião brasileiro.

Ackerman cruzou cabisbaixo a pequena multidão de repórteres, políti-

cos e mulheres elegantes que se amontoavam nos jardins em busca de notí-

cias do ilustre moribundo. Atravessou sozinho a recepção, sumiu em uma

porta e minutos depois reapareceu vestido de guarda-pó branco, levando na

mão direita uma maleta de couro negro. Caminhou até o setor de cardiolo-
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CHATÔ, O REI DO BRASIL


gia e já encontrou Chateaubriand cercado por uma dúzia de médicos e en-

fermeiros. Sem cumprimentar ninguém, ordenou:

- Tirem a roupa dele.

Enquanto os enfermeiros se esforçavam para mover aquele corpo iner-

te e despi-lo do terno de linho branco, Ackerman tirou da malinha um pe-

queno instrumento de metal brilhante, como uma colher de café de cabo des-

proporcionalmente longo. Deu dois passos até a cama e iniciou um exame

clínico sumário. Ao abrir as pálpebras do doente, deparou com duas pupilas

baças que pareciam anunciar que aqueles olhos jamais veriam de novo o que

quer que fosse. Mexeu a própria cabeça alguns centímetros para o lado, pa-

ra permitir a incidência da luz do refletor sobre os olhos opacos,arregalados

por seus dedos. Os cantos da boca de Ackerman caíram, dando à atenta e si-

lenciosa platéia o primeiro indício de que a coisa ali não ia bem. Deu um pas-

so, parou diante dos joelhos de Chateaubriand e martelou de leve sob cada

uma das rótulas com o instrumento de metal, testando os reflexos: nada. Ne-

nhum músculo se movia, nada respondia ao estímulo. Tirou um estetoscó-

pio da maleta, fechou os olhos como se aquilo o ajudasse a ouvir melhor e

auscultou o peito pálido do jornalista em vários lugares. Voltou à mesa late-

ral e olhou radiografias e papéis com resultados de exames. Com o ar cada

vez mais preocupado, agachou diante da sola dos pés do doente e passou a

dar batidas suaves na junção dos dedos com a planta dos pés, horizontal-

mente, na expectativa de que, como acontece com os macacos e os bebês re-

cém-nascidos, os dedos agarrassem instintivamente o estilete roliço. Tentou

em vão uma, duas, várias vezes, ora num pé, ora no outro. Derrotado pela

inércia do corpo, Ackerman pôs-se de pé e, grave, anunciou o diagnóstico:

- Infelizmente não foi um infarto. Ele apresenta sinal de Babinski nos

dois pés. Isso significa que o doutor Assis Chateaubriand sofreu uma lesão

neurológica grave, provavelmente uma trombose dupla, que afetou seu cé-

rebro bilateralmente. Tudo indica que ele esteja tetraplégico. O edema pare-

ce ter provocado também um distúrbio respiratório profundo: um dos pul-

mões já não funciona. Ele não vai sobreviver.

Os raros amigos íntimos e os auxiliares mais próximos de Chateau-

briand já suspeitavam, nos últimos meses de 1959, que sua saúde não ia bem.

Exímio remador e nadador, avesso à bebida e aos cigarros - que detestava

-, gabava-se às gargalhadas de ter uma "saúde muar ". Em setembro daque-

le ano, no entanto, ele surpreendera a todos com um gesto que pareceu um

presságio do que lhe aconteceria cinco meses depois: para espanto generali-

zado, assinou uma escritura pública doando a 22 empregados 49% do con-

trole acionário do maior império de comunicações jamais visto na América
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FERNANDO MORAIS


Latina, os Diários e Emissoras Associados. A imprensa internacional noti-

ciou que um "milionário excêntrico" havia dado um conglomerado de no-

venta empresas de presente a trabalhadores: dezenas de jornais, as princi-

pais estações de televisão, 28 estações de rádio, as duas mais importantes

revistas para adultos do país, doze revistas infantis, agências de notícias,

agências de propaganda, um castelo na Normandia, nove fazendas produti-

vas espalhadas por quatro estados brasileiros, indústrias químicas e labora-

tórios farmacêuticos, estes encabeçados pelo poderoso Schering. Dias antes

do anúncio da partilha ele, que nove anos antes tinha sido o pioneiro na ins-

talação da televisão na América Latina, inaugurara a Tv Piratini, em Porto

Alegre, a sexta de sua cadeia e a primeira do Cone Sul. A colossal rede de co-

municações se estendia do alto do rio Madeira, nos confins da selva amazô-

nica, até Santa Maria da Boca do Monte, nas vizinhanças do Uruguai. Para

alguns, a doação de um patrimônio tão valioso a empregados era "mais uma

loucura do Chatô", como era conhecido. Outros imaginavam que, vendo a

morte se aproximar, Chateaubriand decidira se antecipar ao destino e resol-

ver em vida o problema da sucessão nas suas empresas.

Embora ele jamais admitisse ter qualquer problema de saúde, os amigos

comentavam discretamente, entre si, que os sintomas de distúrbios se torna-

vam cada vez mais freqüentes. No começo de fevereiro o jornalista Carlos

Castello Branco, colunista de sua revista O Cruzeiro, cruzou com o patrão na

ante-sala da diretoria do Banco Nacional de Minas Gerais e ouviu o comen-

tário do dono do banco, o mineiro José de Magalhães Pinto:

- Está acontecendo alguma coisa com o Chateaubriand. Ele engordou

muito ultimamente e está com um ar meio aparvalhado. Na idade dele, isso

pode ser um mau sinal.

A amiga paulista Maria da Penha Miiller Carioba chamou a atenção do

jornalista mais de uma vez para o inchaço no rosto, os esquecimentos imper-

doáveis em alguém de memória tão atilada e a repetição desconcertante de

um antigo cacoete: os cochilos em público. Ao longo da vida, espetáculos

teatrais e discursos solenes sempre funcionaram como sonífero infalível para

Chateaubriand, que costumava deixar de sobreaviso Irany, o fiel secretário

particular que ele arrastava para onde fosse, a fim de evitar vexame maior:

- Enquanto for apenas um cochilo, deixe-me dormir em paz que eu

acordo logo. Quando eu começar a roncar muito alto, chute minha canela

sob a mesa.

Agora, entretanto, ele ressonava ao despachar com auxiliares, cochilava

durante a assinatura de contratos importantes, já dormira até no meio de

uma audiência com o presidente da República. Interrompia grosseiras des-

composturas nos subalternos com o queixo enfiado no peito, olhos fechados,

roncando - à sua frente, surpreso, o funcionário não sabia se ia embora ou

se esperava de pé até que o patrão acordasse para encerrar o sermão. Depois


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


vieram as vertigens. Em ambientes abertos ele andava normalmente, mas os

espaços fechados, estreitos, faziam-no caminhar como um bêbado. Para ven-

cer os quinze metros que iam do seu caótico gabinete ao elevador do prédio

de O Jornal, na rua Sacadura Cabral, no centro do Rio de Janeiro, perdia o

prumo e camboleava, quase trombando nas paredes. Os que suspeitavam

de problemas circulatórios ou vasculares e se atreveram a aconselhar uma

visita ao médico tiveram o desprazer de ver um bicho raivoso. Nesses mo-

mentos ele se transtornava. Rangia os dentes com tal violência que o ruído

chegava a incomodar o interlocutor; sapateava os pequenos pés no chão e

berrava palavras metralhadas com um sotaque nordestino tão carregado que

poucos entendiam o que dizia. Aí também era possível conhecer outro ses-

tro peculiar - quando queria agradar, adoçar, o tratamento era "vosmecê".

Para ofender, "senhor" ou "senhora", sempre:

- O senhor se meta com a sua vida. Não preciso de médicos e muito

menos de conselhos.
Reconhecia a grosseria e recuava às gargalhadas:

- Estou muito bem, imagine. Quem pode atestar minha boa saúde são

as mulheres. As mulheres! Não se preocupe, eu vou morrer no ar, vou explo-

dir dentro de um avião, em pleno ar!

Indiferente às advertências, seguia como se nada o ameaçasse. Dividia

o tempo entre a embaixada do Brasil em Londres - cargo para o qual havia

sido nomeado pelo presidente Juscelino Kubitschek no final de 1957 - e o

comando de seus negócios no Rio e em São Paulo. Para desconforto do mi-

nistro das Relações Exteriores, seu velho amigo Horácio Lafer, o tempo que

passava no Brasil era infinitamente maior que o dedicado à embaixada. Al-

tos funcionários de carreira do Itamaraty, inconformados com a entrega de

um dos mais importantes postos da Chancelaria a um estranho à corporação,

eram os primeiros a ironizar seu desempenho:

- Quem somar os dias que Chateaubriand passou em Londres nesses

três anos descobrirá que na verdade ele é embaixador do Brasil na Inglater-

ra há apenas três meses - debochavam -, mas o Foreign Office prefere as-

sim. Estando no Brasil ele causa menos constrangimentos à Chancelaria bri-

tânica.


Sua impaciência em permanecer na Inglaterra o tempo exigido pelo car-

go fez com que, sendo ele o embaixador de direito, o posto fosse exercido de

fato pelo ministro-conselheiro Antônio Borges Leal Castello Branco, irregu-

laridade freqüentemente denunciada pelos jornais que lhe faziam oposição.

Chateaubriand dedicava a estas e outras críticas o mais olímpico desprezo.

No máximo, repetia o clichê:

- Isso é coisa de comunistas, de índios botocudos. Gentinha atrasada,

esses jornalistas brasileiros. Pensam como africanos...


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FERNANDO MORAIS


Por mais tentadores que fossem os encantos da "Corte de Saint James",

como ele se referia à Inglaterra, era a sedução exercida pela política brasilei-

ra que o atraía permanentemente para o eixo Rio-São Paulo. Sobretudo na-

quele final de 1959: no ano seguinte haveria eleições presidenciais e em pou-

cos meses seria inaugurada a chamada "obra do século "- Brasília, a nova

capital brasileira, uma cidade nascida do nada, construída no meio do mato

em três anos por Kubitschek. Mesmo sendo devedor ao presidente por sua

nomeação para um dos mais cobiçados empregos do Brasil, Chateaubriand

tornou-se um adversário público da mudança da capital. Ainda que permi-

tisse a seus jornais cobertura jornalística simpática ao empreendimento, ele

pessoalmente, em artigos assinados, era implacável nas críticas ao presiden-

te, a quem chamava de "o faraó Kubitschek". Alheio à ingratidão, Juscelino

mantinha-o em Londres. Era um jogo que interessava a ambos: ter como em-

baixador na Inglaterra um ácido crítico de sua obra mais importante soma-

va pontos à imagem que Kubitschek cultivava com carinho especial - o pre-

sidente queria passar à história como um democrata, um estadista generoso,

que não guardava ressentimentos pessoais. Chateaubriand, por seu lado,

alimentava o mito de que seus jornais podiam defender posições opostas às

do dono - muito embora essa aparente liberalidade editorial escondesse uma

velha tática que ele adotava com habilidade havia meio século: acender uma ve-

la para cada santo e, assim, garantir ao seu império sempre uma porta aber-

ta em cada lado.

Mesmo tendo jurado, de maneira teatral, jamais pôr os pés na futura ca-

pital do Brasil, à medida que se aproximava a data da inauguração ele foi

mudando de posição, argumentando que o mal maior - a construção - já

estava feito e agora não restava outra alternativa senão ocupar a cidade. No

fim do ano já era um defensor de Brasília. Na noite de Natal, enquanto ves-

tia o smoking para ir a um jantar da alta sociedade carioca, brigou com seu

amigo e principal repórter, David Nasser, exatamente porque o jornalista

atacara a nova capital em artigos publicados na revista O Cruzeiro:

- Todo mundo já reconhece a grandeza de Brasília, de Furnas, de Três

Marias. Só você insiste em ser contra, turco maldito. Só você, com esse seu

eterno pessimismo. Por quê? Por que não muda de idéia, como eu mudei?

- Porque tenho a minha opinião.

- Opinião? Se você quer ter opinião, compre uma revista.

- Se o senhor está precisando de um jornalista sem opinião, compre um

de salário mínimo. Eu me demito.

Chateaubriand largou sobre a cama a camisa nova, da qual catava alfi-

netes, e bateu carinhosamente no ombro do empregado:

- Não faça uma coisa dessas. Um louco como o Juscelino não merece o

fim da nossa amizade. Estou lhe pedindo, por favor.
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#
CHATÔ, O REI DO BRASIL


Nasser sabia que aquela conversa era uma espécie de jogo não combina-

do entre os dois. Ele se gabava de ter sido anti-Dutra quando o patrão era

dutrista, anti-Vargas quando Chateaubriand defendia a permanência de

Vargas, e agora atacava Kubitschek em pleno idílio do chefe com Juscelino.

David Nasser ficou. Semanas depois Chateaubriand sairia a público para de-

fender o presidente da "campanha pertinaz" que lhe movia O Estado de S.

Paulo, que ele passara a chamar ironicamente de "o porta-voz do esquerdis-

mo udenista" :

- O Estado agora deu de negar tudo o que a administração Kubitschek

tem promovido pelo progresso do Brasil. Se alguém nesta terra tomasse a sé-

rio os vaticínios desse jornal, o abismo já haveria tragado este país. A sorte é

que os leitores olham os articulistas do Estado como uma fauna delirante, re-

crutada entre o que o paroxismo partidário tem de mais doentio.

Se Assis Chateaubriand estava mal, como suspeitavam seus amigos, is-

so não transparecia em seus escritos e muito menos em sua febril atividade

política. Quando foi nomeado embaixador em Londres, tentou em vão man-

ter a cadeira de senador pelo estado do Maranhão, embora a Constituição

fosse clara quanto à ilegalidade de alguém ocupar simultaneamente os dois

cargos. Assumiu em Londres sem ter renunciado ao mandato parlamentar,

que acabou sendo extinto pela Mesa do Senado. Mas continuou fazendo po-

lítica como se ainda fosse senador. O mesmo Kubitschek que ele defendera

semanas antes era insultado nos primeiros dias de 1960 nas páginas de seus

jornais. "Em vez de perturbar a vida da Brazilian Traction, que tanto tem fei-

to por este país", escreveu, "o presidente deveria se dedicar a arranjar titica

de galinha para adubar nossos cafezais. Trabalhe duro, forte e feio em titi-

ca de galinha, presidente, que é o melhor que pode haver em matéria de es-

terco para a recuperação dos nossos cafezais." As vésperas da trombose, cha-

mava Kubitschek de "pateta alvar ' porque o presidente prometera pôr fim

à condição do Brasil de fornecedor de matérias-primas para os países indus-

trializados:

- Nesse ponto, minhas divergências com o presidente Kubitschek sem-

pre foram as maiores e mais profundas. Por toda parte, na Inglaterra, me

apresento com orgulho como produtor de algodão, café, milho, arroz e ma-

mona. Se depender de mim, o Brasil continuará por mais trinta anos como

produtor preferencial de matérias-primas.

Exageradamente elegante, Kubitschek responderia ao artigo malcriado

com um convite para o jornalista ir a Brasília, ainda não inaugurada, partici-

par da recepção que o governo ofereceria no Palácio da Alvorada ao presi-

dente dos Estados Unidos, Dwight Eisenhower, que ali iniciaria uma viagem

oficial de quatro dias pelo Brasil. A deferência era completa: na manhã de

terça-feira, 23 de fevereiro, Chateaubriand embarcou no avião presidencial

em companhia da primeira-dama, Sarah Kubitschek, com destino à futura


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#
FERNANDO MORAIS


capital. No avião ia também um velho amigo seu, o banqueiro Walther Mo-

reira Salles, então embaixador do Brasil em Washington. Dias antes, ao che-

gar ao Brasil para preparar a viagem de Eisenhower, Moreira Salles lera uma

notinha em O Jornal, certamente escrita por Chateaubriand, em que era cita-

do como "dono da segunda fortuna do Brasil". Mineiro discreto, avesso a

coisas desse tipo, ele aproveitou a viagem para cobrar do amigo a referência

provocadora:

- Chateaubriand, por que você escreveu aquela bobagem? Você sabe

que nem é verdade e sabe também que eu não gosto dessas coisas...

Ele admitiu o crime e, sem risos, revelou que a causa era a informação

que chegara a seus ouvidos de que o Moreira Salles, o sólido banco do em-

baixador, andara arranjando dinheiro para o jornal Última Hora, de seu ar-

quinimigo Samuel Wainer:

- Foi só uma advertência, Walther. Você sabe que neste país há dois

homens de quem eu tenho ciúmes como se fossem mulheres: você e o Eugê-

nio Gudin. E você anda me corneando com o Samuel Wainer.

Ao chegarem a Brasília, um aguaceiro desabava sobre a cidade - e foi

com a barra das calças salpicada de lama que Chateaubriand almoçou com

o presidente e o general Juraci Magalhães, governador da Bahia. Às duas da

tarde, Kubitschek convidou os dois para o acompanharem na saudação que

faria pelo rádio do helicóptero presidencial a Eisenhower, cujo avião já se

aproximava da cidade. O presidente estava extremamente cordial:

- Chatô, apesar da chuva o vôo vai permitir que você veja o lago

em toda a sua extensão, e lhe dará uma boa perspectiva da cidade. Venha co-

nosco.

No pátio externo do palácio o coronel-aviador Múcio Scorzelli, piloto do



helicóptero, informou que um dos dois convidados teria de ficar em terra,

pois o aparelho não comportava quatro passageiros. Kubitschek discordou:


- Se só dois podem embarcar, coronel, leve o Juraci e o Chatô. Eu sigo

de carro para a base aérea e aguardo o presidente Eisenhower lá.

E dirigindo-se a Chateaubriand:

- Você será o primeiro brasileiro a cumprimentar o presidente dos Es-

tados Unidos. Saúde-o em meu nome.

Chateaubriand cumpriu emocionado - num inglês com forte acento

paraibano - a missão que lhe fora atribuída pelo presidente e, de quebra, foi

colocado na primeira fila das autoridades que receberam Eisenhower na ba-

se aérea. Passou o resto da tarde na casa de Israel Pinheiro, diretor da Nova-

cap, a estatal encarregada da construção da cidade, deliciando-se com um de

seus passatempos prediletos, uma criação de beija-flores em cativeiro. Saiu

de lá e visitou os dois prédios que suas empresas construíam em Brasília pa-

ra a instalação do Correio Braziliense e da Tv Brasília. À noitinha foi ao hotel,

tomou banho e vestiu-se com o apuro que a recepção exigia: apesar do calor


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CHATÔ, O REI DO BRASIL

infernal que fazia no Planalto Central, vestiu um terno preto de lã inglesa,

enfiou na cabeça um chapéu gelot e tocou para o Palácio da Alvorada. Ten-

do recusado o carro oficial que Kubitschek pusera à sua disposição, passou

o dia montado em um estropiado jipe da reportagem dos Associados, o mes-

mo que agora o levava para jantar com o presidente dos Estados Unidos.

Um inusitado contingente de policiais brasileiros e americanos havia si-

do mobilizado para garantir a segurança de Eisenhower no Brasil. No Rio de

Janeiro temiam-se hostilidades por parte da União Nacional dos Estudantes,

a uNE, em apoio à revolução cubana. O governo paulista, por sua vez, anun-

ciara que 7 mil policiais civis e militares estariam de prontidão nas ruas da

cidade no dia 25 para manter a ordem durante as seis horas em que o presi-

dente Eisenhower permanecesse em São Paulo, onde só o governador e mais

ninguém - jornalistas inclusive - poderia chegar a menos de quinze me-

tros do visitante. Nem a futura capital federal - na realidade apenas um gi-

gantesco canteiro de obras - ficou a salvo do rigor imposto pela segurança

norte-americana. A caminho do palácio Chateaubriand pôde ver soldados e

policiais à paisana espalhados por prédios em obras, escondidos sob viadu-

tos inacabados, falando em radiocomunicadores portáteis atrás de moitas de

capim. No portão onde terminava a alta grade de arame que cercava o palá-

cio havia soldados do Exército armados de metralhadoras, fuzileiros navais

norte-americanos, policiais espalhados por todos os cantos. O jipe não pôde

passar. Um policial brasileiro aproximou-se e ordenou que Chateaubriand

descesse e exibisse sua credencial. Sem capa ou guarda-chuva que o prote-

gesse, ele já saiu do veículo indignado:

- Eu nunca carreguei um documento em toda minha vida! Sou o Assis

Chateaubriand, embaixador do Brasil na Inglaterra e diretor dos Diários As-

sociados!

Um agente americano que ouvia a conversa se intrometeu:

- Imprensa? Não entra. Este é um jantar privativo. Retire-se.

Colérico, o que piorava ainda mais seu inglês, Chateaubriand berrava:

- Não se atreva, seu moleque, não se atreva! Sou convidado do presi-

dente da República. Fui o primeiro brasileiro a saudar o presidente Eisen-

hower hoje. Me dê licença que vou entrar. Tenho pressa.

Podia ser quem fosse, mas sem identificação não entrava. Chateau-

briand perdeu a paciência. Gritou palavrões ininteligíveis em português e

inglês e decidiu ir embora dali. Quando subia no jipe alguém veio do palá-

cio em seu socorro. Era o seu velho amigo coronel Vernon Walters, membro

do staff militar de Eisenhower, acompanhado do chefe da Casa Civil da Pre-

sidência da República, José Sette Câmara. A notícia do tumulto na portaria

chegara aos ouvidos de Juscelino e os dois estavam ali para desfazer o equí-

voco. Contrafeito, Chateaubriand aceitou entrar apenas para cumprimentar

os dois presidentes. Inventou uma desculpa para recusar o jantar, deixou ra-


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#
FERNANDO MORAIS


pidamente o salão palaciano, subiu no jipe e tocou para o aeroporto. Embir-

rado com a desfeita, nem sequer passou no hotel para pegar a mala e deci-

diu não retornar ao Rio no Viscount presidencial. No improvisado balcão da

Panair retirou um dos dois bilhetes que estavam sempre reservados em seu

nome em todos os vôos da empresa - domésticos e internacionais - e em-

barcou de volta para o Rio. Minutos após a decolagem do Constellation, per-

guntou à aeromoça em que ponto da viagem já se encontravam. Ao ouvir a

resposta, pediu folhas de papel, baixou a mesa do encosto do banco diantei-

ro, enfiou os dedos no bolsinho superior do paletó, tirou um toco de lápis,

lambeu a ponta do grafite e iniciou, pela última vez, um ritual diário que já

durava meio século - escrever à mão o artigo do dia seguinte, datando-o do

local onde se encontrasse: "Bordo do Bandeirante da Panair do Brasil

(entre Brasília e Dores do Indaiá, Minas Gerais) - 23 de fevereiro".

A luz voltou definitivamente ao hospital logo depois dos dois blecautes

e a cirurgia pôde ser concluída com êxito - quer dizer, a cânula foi introdu-

zida sem maiores problemas na traquéia, embora o paciente permanecesse

em coma. Desde o dia anterior os médicos ocultavam da opinião pública a

gravidade do quadro divulgando boletins oficiais que falavam apenas em


"crise hipertensiva" , mas já se sabia que Chateaubriand estava condenado.

Para manter as aparências, sua rede de jornais havia publicado, depois do

texto escrito no avião, dois artigos velhos, localizados em gavetas da reda-

ção: "A juriti de Mayfair ', escrito em setembro do ano anterior, e "A revolu-

ção da água no México e na Índia", feito dez dias antes em sua fazenda Rio

Corrente, no interior de São Paulo. Apesar do sigilo, notícias de seu estado

real circulavam por todo canto. A clínica Doutor Eiras, um vasto conjunto de

casarões de dois pavimentos cercados por palmeiras e árvores frondosas,

tornara-se pequena para receber tanta gente. A informação bateu em Lon-

dres, e a primeira visita ilustre a aparecer na clínica foi o embaixador britâ-

nico no Brasil, Geoffrey Wallinger, trazendo duas mensagens. A primeira

era do secretário de Estado para Assuntos Estrangeiros, Selwyn Lloyd. Em-

bora a diplomacia britânica visse com alívio a perspectiva de que Chateau-

briand deixasse a embaixada em Londres, Wallinger simulou emoção ao

chegar ao hospital e, britanicamente, transmitiu "sinceros votos de que sua

saúde possa ser recuperada brevemente". A outra mensagem, disse o embai-

xador aos repórteres, vinha "de minha graciosa soberana, a rainha Elizabeth

II". Preocupada com as notícias que recebera em Buckingham, sua majesta-

de enviava ao embaixador brasileiro, "em meu nome e no do povo da Co-

munidade Britânica, votos do mais pronto restabelecimento". Para produzir

tão escassas palavras, o gabinete real pedira à embaixada britânica no Rio

que enviasse um informe ao Foreign Office com um resumo da situação em


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


que Chateaubriand se encontrava. No extenso documento que Londres rece-

beu, redigido e assinado pessoalmente por Wallinger, o embaixador britâni-

co ressaltava a importância política do doente, que era tratado, com surpre-

endente intimidade, por "Chateau":

Sua enfermidade tem sido estampada nas manchetes de todos os jornais e vei-

culada em todas as emissoras de rádio do país, e o interesse geral que o seu es-

tado de saúde desperta dá uma medida da influência colossal que ele exerce no

Brasil. Conversei com muitas pessoas a respeito de Chateau - com seus amigos

e com seus implacáveis inimigos -, e o denominador comum entre os seus co-

mentários foi que, se ele fosse afastado do panorama brasileiro, esse panorama

inevitavelmente sofreria enormes transformações. Um industrial muito influen-

te fez os seguintes comentários, os quais correspondem a uma espécie de avalia-

ção racional do homem: - Chateau é respeitado, mas com o tipo de respeito en-

gendrado pelo medo e não pela afeição.

No decorrer dos últimos anos, parte de sua antiga impetuosidade em ques-

tões políticas foi atenuada, e sua influência na política local tem sido, de modo

geral, salutar. Nem o presidente nem a oposição podem ignorá-lo, e se hoje te-

mos pessoas como Horácio Lafer e Sebastião Paes de Almeida no governo, e um

homem como Walther Moreira Salles como embaixador em Washington, a res-

ponsabilidade cabe a Chateau. Esses não são os homens que Juscelino e Augus-

to Frederico Schmidt gostariam de haver colocado nesses postos; porém, fazer

de Chateau um inimigo teria sido por demais perigoso, até mesmo para o go-

verno de fato no poder. A desaparição deste personagem deve, por conseguin-

te, causar um enorme impacto no país.

O presidente Juscelino Kubitschek aparecera em pessoa no fim da tar-

de, após determinar que sua mulher, Sarah, e o vice-presidente da Repúbli-

ca, João Goulart, fizessem visitas diárias em seu nome. Dois funcionários dos

Diários Associados foram encarregados de receber e transformar em notícia

os 5 mil telegramas que haviam chegado até então de todas as partes do

mundo com votos de pesar pela tragédia que se abatera sobre o jornalista.

Um grupo de elegantes senhores com aparência de estrangeiros apareceu à

tarde e foi imediatamente cercado pelos repórteres que imaginavam tratar-

se de médicos vindos do exterior para assistir o doente, ou membros da co-

mitiva de Eisenhower. Houve certa decepção quando se identificaram: era a

diretoria do Centro Europa Livre, uma associação anticomunista de antigos

dirigentes políticos do Leste europeu apeados do poder pelos socialistas de-

pois da guerra: Jan Reisser, ex-ministro tcheco; Alexandre Nicolaef, ex-

ministro da Bulgária; Peter Olins, ex-ministro da Letônia; Frikas Meiras,

ex-ministro da Lituânia; e Tadeus Skowronski, ex-ministro da Polônia. A

pouca familiaridade com a língua portuguesa - ou apenas um ato falho-

levou Reisser, o presidente do Centro, a cometer uma gafe com os jornalis-

tas: na saída do hospital, disse que estava ali "para apresentar os pêsames à

família desse gigante da luta anticomunista". Os europeus eram espiados a
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FERNANDO MORAIS


distância por um grupo de desafetos: a direção da Associação dos Carrega-

dores de Malas do Aeroporto de Congonhas, de São Paulo, ligada aos comu-

nistas, que fora ao Rio visitar o passageiro que durante longos anos lhes

garantira as mais generosas gorjetas. O governador de Nova York, Nelson

Rockefeller, telefonara duas vezes aos médicos pe.dindo notícias do amigo

doente. Telegramas vindos de câmaras municipais de todo o país anuncia-

vam sessões solenes em homenagem ao enfermo e a aprovação de leis dando

o nome dele a ruas e praças. Antecipando-se à morte, algumas cidades comu-

nicavam ter dado a Assis Chateaubriand "o título póstumo de cidadão hono-

rário". A inspiração para tais iniciativas pode ter partido de seus próprios

empregados. Em Belo Horizonte, por exemplo, o diretor geral dos Associa-

dos, Pedro Aguinaldo Fulgêncio, já havia recebido e cumprido a ordem vinda

do Rio de mandar as duas emissoras locais, as rádios Guarani e Mineira, to-

car apenas música clássica durante todo o dia. Em pleno sábado de Carnaval.

As listas de registro de visitantes espalhadas pelos jardins e salas de es-

pera da clínica exibiam, no fim do dia, centenas de nomes de ex-presidentes

da República, deputados, intelectuais, banqueiros, industriais, militares, di-

plomatas, jornalistas e, em número muito superior ao de homens, mulheres,

muitas mulheres. Mulheres de todas as idades e origens sociais, mulheres

belíssimas e mulheres decrépitas queriam saber se ele ia sobreviver. Cober-

tas de jóias, elegantes mulheres do society vindas de várias capitais brasilei-

ras e até do exterior não disfarçavam o ciúme com que olhavam para atrizes,

coristas, ex-misses, cantoras, bailarinas e prostitutas de luxo do Rio e de São

Paulo que circulavam desenvoltas pelos jardins do hospital. Mais que os ho-

mens, as mulheres pareciam sinceramente abaladas com o desastre que

ameaçava o homenzinho que agonizava num quarto atrás daquelas paredes

amarelas. Mesmo sabendo que nenhum ruído perturba alguém em estado de

coma, após a traqueostomia os médicos, por força do hábito, transferiram

Chateaubriand para um anexo da clínica mais afastado e tranqüilo, chamado

"Chalé Olind". Ali, onde imaginavam que ele estaria a salvo do burburinho

provocado por visitantes e repórteres, instalaram uma tenda de oxigênio e

equipamentos de emergência no quarto amplo, com vista para um bosque de

jequitibás. Todos passaram a aguardar o desfecho final.

Já era noite fechada quando os cinco médicos contratados pelos Diários

Associados se reuniram mais uma vez em volta do leito do moribundo. Ao

cabo de um exame demorado e minucioso, Ackerman, que funcionava como

chefe da equipe, pediu que chamassem ao quarto a alta direção dos Asso-

ciados. Na realidade, a "alta direção" do império sempre fora uma única

pessoa, o próprio doente. Na ausência dele, e por uma espécie de direito ad-

quirido, pois nada formalizava esse status, três homens de sua confiança res-

pondiam pela cadeia: seu primo Leão Gondim de Oliveira, diretor da revista

O Cruzeiro e dos Laboratórios Schering, João Calmon, responsável pela praça


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


do Rio de Janeiro e por um feudo que ia dessa cidade até a fronteira norte do

país, pulava o Centro-Sul e englobava o Rio Grande do Sul, e Edmundo

Monteiro, que dirigia São Paulo, Paraná e Santa Catarina, embora detivesse

o título de "diretor geral" dos Associados. A chamada dos médicos revelou

que a luta pelo poder começara com o rei ainda vivo. A rigor, apenas os três

deveriam subir, mas a sala foi tomada por diretores de outras áreas, repór-

teres sem cargos de direção mas amigos do chefe, colegas de Chateaubriand

na Academia Brasileira de Letras. Além deles, a maioria dos 22 beneficiados

com a doação das ações feita cinco meses antes também se sentiam donos-

e surgiram de todos os pontos do país para garantir que fosse cumprida a úl-

tima vontade do imperador. Quem não conseguiu chegar a tempo mandou

avisar que estava a caminho. Um silêncio excitado e ansioso tomou a sala

quando um dos médicos, instruído por Ackerman, pôs-se a ler a "observa-

ção médica" oficial que, por um lapso, acrescentara um ano à idade real do

paciente:

- Paciente: Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo, bran-

co, 68 anos, desquitado. O exame neurológico comprovou a ocorrência de

acidente vascular encefálico, que provocou coma, tetraplegia, miose intensa,

paralisia do véu e das cordas vocais. Foi identificado sinal de Babinski bila-

teral. A angiografia revelou lesão do tronco cerebral e comprometimento da

porção inicial da basilar e do ramo espinhal anterior. Radiografias indicam a

existência de enfisema pulmonar, bronquiectasias e secreção mucopurulen-

ta abundante. Exames para localização do bacilo de Koch revelaram resulta-

dos negativos.

Ninguém ali precisava saber o que significava bronquiectasia ou Ba-

binski bilateral para entender o que tinha acontecido: o Velho Capitão, como

os bajuladores gostavam de tratá-lo, estava indo embora. Delicado, Acker-

man traduziu para um português mais inteligível o que fora lido por seu as-

sistente:

- O doutor Assis sofreu uma trombose cerebral dupla. Os recursos

mais modernos da medicina foram utilizados para apurar a extensão do

quadro. Ele está completamente paralítico do pescoço para baixo, perdeu o

paladar e a voz. Um pulmão ficou inteiramente inutilizado. Lamento infor-

mar aos senhores que o estado dele é crítico. Vou retirar-me para redigir um

boletim médico tornando pública a traqueostomia de urgência a que ele foi

submetido hoje.

Na saída Ackerman pegou Edmundo Monteiro pelo braço. O médico

sabia que oficialmente Chateaubriand tivera três mulheres, de quem tinha se

separado e com as quais não se dava mais. Os filhos brigavam entre si e es-

tavam, em graus diferentes, rompidos com o pai. Na dúvida sobre com

quem tratar da questão mais delicada, decidiu recorrer à formalidade - e
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FERNANDO MORAIS


formalmente Edmundo Monteiro era o diretor geral. Ackerman levou-o pa-

ra outra sala e, com o ar ainda mais melancólico, anunciou:

- Doutor Edmundo, os médicos que assistem o doutor Assis são unâ-

nimes: ele está sobrevivendo vegetativamente. É um milagre que tenha re-

sistido até agora. Quero informar-lhe que ele tem poucas horas de vida. Co-

mo dirigente das empresas, o senhor pode providenciar os funerais.

Monteiro achou natural que coubesse a si a honra de enterrar o chefe.

Tirando Austregésilo de Athayde - que afinal não tinha cargo de direção no

império -, o amigo mais antigo de Chateaubriand era ele. Quantos, como

ele - aí incluídos o presidente da República, as amantes, os filhos, os Roc-

kefeller, a rainha Elizabeth -, quantos puderam tratar o doutor Assis de

"Chatô" sem ouvir um palavrão como resposta? Aquele era um privilégio

que tinha custado caro. Só ele sabia o que vivera desde a longínqua véspera

da Revolução de 30, quando, menino de treze anos, fora à redação dos Diá-

rios, em São Paulo, pedir um emprego de contínuo. Nada mais natural, por-

tanto, que o dr. Ackerman o chamasse para enterrar Assis Chateaubriand.

Cabelos lisos e glostorados grudados na cabeça, bigodinho fino sobre os lá-

bios, o pequenino Edmundo Monteiro - que conseguia ser ainda menor que

o chefe que morria - parecia um gigante ao entrar no quarto onde estava

Chateaubriand. O tom com que pediu para que a maioria dos presentes se

retirasse dava idéia de quem é que estava mandando. Juntos, ele, João Cal-

mon, Leão Gondim e Austregésilo de Athayde começaram a acertar os deta-

lhes do enterro. Edmundo defendia que o corpo fosse velado no plenário do

Senado Federal, de onde o funeral sairia para o Cemitério São João Batista.

Athayde foi contra:

- Ele era um imortal, tem que ser velado na Academia Brasileira de Le-

tras, isso é uma tradição. O Salão dos Poetas Românticos já está preparado

para receber o corpo. Além disso, ele já não era mais senador, deixou o Se-

nado há três anos para assumir a embaixada em Londres.

Alguém telefonou ao vice-presidente da República, João Goulart, que

era também o presidente do Senado, e descobriu-se que o regimento interno

da casa previa situações como aquela: o privilégio de ser velado no plenário

da Câmara Alta era extensivo aos ex-senadores. Àquela altura o grupo já ti-

nha de novo se ampliado, a cama do doente estava outra vez cercada por

uma dúzia de pessoas. A referência à embaixada em Londres fez surgir ou-

tra alternativa, proposta não se sabe por quem:

- Se ele morreu como embaixador do Brasil, o enterro não tem que sair

nem do Senado nem da Academia, mas do Itamaraty.

Um repórter político tomou a iniciativa de procurar o prefeito do ainda

Distrito Federal, Sá Freire Alvim, e pedir um caminhão do Corpo de Bom-

beiros para transportar o ataúde. O prefeito respondeu que não, que um ho-

mem como Chateaubriand precisava ser levado "à sua última morada" num


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


blindado militar, que ele próprio se encarregaria de conseguir com o mare-

chal Odílio Denys, que tinha assumido o Ministério da Guerra duas sema-

nas antes. A questão do local do velório, no entanto, ainda não estava resol-

vida. Optou-se afinal, por uma solução salomônica: o corpo seria velado no

Senado, mas para que a Academia e o Ministério das Relações Exteriores não

fossem esquecidos, ele seria sepultado com o fardão de imortal e o féretro

passaria pela porta do Itamaraty antes de seguir para o cemitério. Todos es-

tavam de acordo até que alguém lembrou que, tendo ingressado na imorta-

lidade cinco anos antes, Chateaubriand havia engordado bastante:

- Vamos precisar tomar emprestado o fardão de outro acadêmico. O

dele não entra mais no corpo.

Agora ele já não era mais Chateaubriand, dr. Assis ou embaixador, mas

"o corpo", embora clinicamente ainda estivesse vivo. E todas as providên-

cias para que o corpo chegasse gloriosamente ao Cemitério São João Batista

tiveram de ser revistas quando Edmundo Monteiro chamou a atenção dos

demais para o óbvio: era sábado de Carnaval e o enterro ia ser realizado no

Rio de Janeiro. Como é que um cortejo aberto por um blindado militar levan-

do um morto ilustre poderia atravessar a cidade sem trombar com escolas de

samba, blocos de sujos, bêbados sambando pelas ruas? Não haveria o risco

de acontecer uma provocação? E se os foliões decidissem acompanhar o en-

terro como se seguissem um bloco carnavalesco? Foi preciso refazer todo o

roteiro para evitar que o caráter solene do funeral fosse comprometido pela

orgia.

Foi aí que Chateaubriand voltou a ouvir. Não se tratava de um milagre,



mas sem que ninguém percebesse ele viveu por alguns minutos um fenôme-

no médico conhecido como "superficialização do nível de consciência", que

costuma ocorrer em pacientes submetidos a anestesia geral e em vítimas de

acidentes violentos. Sem que a pessoa saia totalmente do coma, um de seus

sentidos - em geral a audição - volta a funcionar por instantes. Mesmo

embriagado pelo efeito dos remédios e pelo choque da trombose, Chateau-

briand começou a escutar tudo o que se dizia à sua volta. Podia identificar

perfeitamente a voz de Athayde anunciando que ia para casa preparar o dis-

curso fúnebre. "No dia em que nos conhecemos", dizia ele, "Chateaubriand

e eu combinamos que o primeiro que morresse seria saudado pelo outro na

beira da cova." Ao perceber que o sepultamento de que falavam era o seu,

realidade, delírio e fantasia se misturaram, deixando-o aterrorizado. Fune-

ral, que funeral? Será que aqueles imbecis não percebiam que ele estava vi-

vo? Já ia mandá-los de volta aos estábulos, como fizera milhares de vezes ao

longo da vida, quando percebeu que não tinha voz. Quis mexer os braços,

mas nada se movia. Os olhos! Bastaria um olhar severo e eles perceberiam

na hora a besteira que estavam fazendo. Nada, o negrume tomava conta de

tudo. Nem mesmo os pensamentos ele conseguia organizar direito. Longe


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FERNANDO MORAIS


de trazer luz, cada tentativa de abrir os olhos custava um esforço brutal e só

aumentava a terrível sensação de vertigem, em que ele parecia rolar no vá-

cuo de uma espiral negra, sem fim. Nem a memória se agarrava ao que quer

que fosse. A cena da antropofagia, em que ele e a filha comiam o bispo Sar-

dinha, se confundia com outra, onde aparecia um menino pálido e magro

como uma lagartixa, sentado sozinho sobre uma pedra grande, no meio da

caatinga. O menino tentava falar, mas a voz não saía, cortada por uma ga-

gueira atroz. Em seguida voltavam a vertigem, os pedaços do bispo, a espiral,

o negrume. Desistiu de tentar entender onde estava e o que lhe acontecera.

À sua volta as pessoas continuavam falando. Reconheceu a voz de seu

querido amigo Antônio Sanchez Galdeano contando alguma coisa sobre as-

fixia e pulmão de aço. Alguém comentava a maior tragédia aérea no Brasil

até então, ocorrida dois dias antes na baía da Guanabara: um Dc-6 da Mari-

nha dos EuA, que transportava a banda dos fuzileiros navais americanos

(que tocaria durante a visita de Eisenhower), chocou-se no ar com um Dc-3

da Real Aerovias, matando 67 pessoas, entre elas todos os músicos da ban-

da. A voz de Galdeano e a referência a fuzileiros americanos reavivaram al-

guma coisa perdida no fundo da memória de Chateaubriand. Resolveu ten-

tar de novo recapitular o que lhe acontecera antes da escuridão, mas era

constantemente interrompido por mais escuridão, pela fantasia do bispo

português e pela imagem do menino gago, sozinho e tentando falar. Fuzilei-

ros! Ele tinha batido boca com fuzileiros navais na porta do Palácio da Alvo-

rada! Mas quando tinha sido aquilo? Usou o que lhe restava de energia

para livrar-se da escuridão e do menino gago e conseguiu reconstituir frag-

mentos da cena recuperada pela lembrança. Depois da humilhação na porta

do palácio, atravessara o gramado com Vernon Walters e Sette Câmara. Ou-

vira pedidos de desculpas do chefe do Cerimonial e caminhara emburrado,

a passos rápidos, até a mesa principal, onde se encontravam Kubitschek e

Eisenhower. A memória guiava-o em direção à cara sardenta e sorridente do

presidente americano quando, no meio do salão, alguém o tomara pelo bra-

ço, tentando saudá-lo. Era o general pernambucano Dantas Barreto, que o

metera no xadrez em 1911, em Recife. Nesse instante uma nuvem de horror

tomou conta dos pensamentos de Chateaubriand. Dantas Barreto? Mas Dan-

tas morrera em 1931! Um defunto de trinta anos, fardado e bebendo vinho

com Juscelino e Eisenhower? Mas então, meu Deus, aquela gente que con-

versava à sua volta tinha razão: ele tinha morrido mesmo. Ali devia estar

apenas sua alma, ou que nome tivesse o que restara de seu espírito ainda não

desencarnado. O choque provocado pela certeza da própria morte levava-o

de volta ao coma total. A audição começou a desaparecer outra vez, o negru-

me estava tomando conta de tudo. Ele ainda conseguiu identificar outra voz

que chegara - era o médico Antônio da Silva Mello, seu colega de Acade-

mia, o irônico amigo de infância que entrava na sala da clínica. Calvo, enor-


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#
CHATÔ: O REI DO BRASIL


mes suíças sob as orelhas, pincenê pendurado na ponta do nariz, Silva Mel-

lo olhou o corpo por alguns minutos e dirigiu um solene pedido aos pre-

sentes:

- Antes de enterrá-lo, não se esqueçam de mandar cortar os culhões e



doá-los à Academia Nacional de Medicina para pesquisas. Talvez a ciência

consiga explicar o que é que as mulheres viam de tão especial nesse sujeito.

Segundos antes de mergulhar de novo na escuridão eterna, Chateau-

briand viu pela última vez o menino branquelo lutando contra a gagueira.

Só então percebeu que o garoto era ele mesmo, aos sete anos. Sentiu uma

profunda piedade de si próprio e entendeu a imagem como sua derradeira

despedida do mundo dos vivos. Sua hora finalmente tinha chegado.
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A gagueira não tinha sido a única mazela a infernizar a infância do me-

nino que assombrou os resquícios de memória de Chateaubriand. Além de

gago ele era feio, raquítico, amarelo e opilado. A cor da pele - a "palidez

goianense" - denunciava os três séculos da malária ancestral que desfigu-

rava a população de Goiana, pequena cidade da Zona da Mata pernam-

bucana de onde viera todo o seu ramo materno. Ele próprio tinha nascido

alguns quilômetros acima, na margem paraibana do açude que separava os

dois estados nordestinos. No lado sul da represa estava Bom Jardim, em Per-

nambuco, e na parte de cima, já na Paraíba do Norte, ficava a cidade de Um-

buzeiro, nome do modesto conjunto de casas onde ele nascera. Com o correr

do tempo, Umbuzeiro carregaria duas glórias e um insólito orgulho: era a

terra natal de Chateaubriand e de Epitácio Pessoa e produzira um povo

que se gabava de primeiro matar, depois discutir. Os mais pacatos diziam

com candura que não era bem assim. Ali ninguém matava ninguém pura e

simplesmente. Quando entendia necessário, Deus Nosso Senhor é quem de-

cidia eliminar alguns galhos decrépitos da espécie humana. Como procu-

ravam viver em comunhão com o céu, os umbuzeirenses se encarregavam

de cumprir a vontade divina e abatiam esses galhos. Mas quase sempre era

sem dor e com misericórdia.

Os pais de Chateaubriand, Francisco José e Maria Carmem, tinham se

casado muito jovens, pouco antes da proclamação da República. No dia em

que ele nasceu, 4 de outubro de 1892 - Dia dos Animais e de são Francisco

de Assis -, o casal já havia tido o primogênito, Jorge. A devoção da mãe ao

padroeiro do dia facilitou a escolha do nome do bebê, um nome comum

como as centenas de nomes de santos dados a meninos do Nordeste. O so-

brenome - Chateaubriand Bandeira de Melo -, no entanto, além de lhe

emprestar uma opulência familiar que a seca e as vicissitudes haviam devas-

tado décadas antes, ocultava a raiz do tronco materno, Guedes Gondim,

e exibia extravagância européia pouco comum naqueles confins no final do

século xix. Esquisito e impronunciável para a maioria das pessoas do lugar,

o Chateaubriand de seu nome nascera singelamente de um gosto do avô pa-

terno. Admirador do poeta e pensador francês, o fazendeiro e plantador de

algodão José Bandeira de Melo comprara em meados do século uma escola


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CHATÔ, O REI DO BRASIL.


na região de São João do Cariri, na Paraíba, e batizara o estabelecimento com

o sonoro nome de Colégio François René Chateaubriand. Custou pouco pa-

ra que ele ficasse conhecido como "o seu José do Chateaubriand". E menos

ainda para a corruptela popular se encarregar de comer a contração e ele vi-

rar apenas José Chateaubriand. Apesar de difícil, o nome se incorporou ao

dono com tal força que ao nascer-lhe o primeiro filho, Francisco José, ele não

hesitou em registrá-lo com o sobrenome francês. Com o segundo foi mais

simples: ele batizou-o nada menos que com o nome de Chateaubriand Ban-

deira de Melo.

A natureza das coisas indicava que Francisco de Assis nasceria em casa

abastada. Pelo lado do pai ele teria a contabilizar nomes como o de João Ca-

pistrano Bandeira de Melo, conselheiro do Império, governador do Ceará e

de Minas Gerais. Herculano Bandeira de Melo, primo de seu pai que se apre-

sentava como "o único cavalheiro saído dos canaviais do mato pernambuca-

no", tinha larga folha de serviços prestados à Coroa. Depois de ter sido se-

nador imperial, foi ele quem iniciou, como governador de Pernambuco-

ou "presidente de estado", como eram denominados os governadores esta-

duais até 1930 -, a dragagem e modernização do porto de Recife e a cons-

trução dos serviços de esgotos da cidade. O sangue materno vinha dos Ma-

rinho Falcão, dos Correia de Oliveira e dos Guedes Gondim, poderosos so-

brenomes de senhores de engenho cuja pronúncia revelava a propriedade

de incalculáveis populações de escravos e de latifúndios que atravessavam

estados. Mas a vida quis que fosse diferente. Ao arrasar os algodoais do Ca-

riri, a seca de 1877 decretou a falência dos Bandeira de Melo. Neto e bisneto

de donos de muita terra e muito dinheiro, o advogado Francisco José Chate-

aubriand Bandeira de Melo era um modesto juiz municipal em Umbuzeiro

em outubro de 1892, quando nasceu Francisco de Assis, seu segundo filho.

Um rígido orgulho o impedia de aceitar ajuda do sogro Urbano Gon-

dim, capitão da Guarda Nacional e próspero fazendeiro em Timbaúba, do

lado de lá da divisa pernambucana. O máximo a que consentiu foi receber

um favor do conselheiro João Alfredo no início de sua carreira. Festejado na-

cionalmente como líder da abolição da escravatura, o pernambucano João

Alfredo ocupava pela segunda vez a presidência do Conselho do Império,

em 1888, ano em que o pai de Chateaubriand se formou em direito. Maria

Carmem Gondim havia sido criada por uma irmã do conselheiro. Ao conhe-

cer o jovem Francisco José, ainda estudante, João Alfredo entendeu que era

a hora de juntar de novo os Bandeira de Melo com os Guedes Gondim-Cor-

reia de Oliveira, raízes que já haviam se cruzado gerações antes. Ao promo-

ver o casamento dos dois, João Alfredo cedeu ao nepotismo e ofereceu ao

rapaz um dos mais cobiçados presentes com que poderia sonhar um recém-

formado bacharel nordestino: o cargo de promotor público em Goiana, terra

da noiva e do próprio conselheiro. Mas o emprego duraria pouco - o tem-


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fERNANDO MORAIS


peramento difícil e a vocação nômade de Francisco José logo o tirariam de lá.

Aprovado em concurso, deixou Goiana e ingressou na magistratura. A ca-

rência de comarcas na Paraiba fazia dele uma espécie de juiz itinerante, que

exercia a profissão assinando sentenças em lombos de burros e balcões de

farmácias pelo interior do estado. Assim, o filho mal chegaria a conhecer

Umbuzeiro. Chateaubriand nem havia feito o primeiro aniversário, em

meados de 1893, quando o pai foi destacado para ássumir o juizado munici-

pal de Ingá do Bacamarte, meia dúzia de léguas ao norte de sua cidade na-

tal. Ali ele viveu até 1896.

O menino custou a começar a falar, e a dificuldade que tinha para pro-

nunciar uma frase inteira provocava risos nos adultos e em Jorge, o irmão

mais velho. Demorou para a família descobrir que aquilo não era um encan-

to comum às crianças de sua idade: ele já estava beirando os três anos quan-

do os pais entenderam que o menino era gago. Se a feiúra e a magreza não o

faziam diferente dos amigos - ali quase todos eram feios e magros -, a ga-

gueira da infância o transformaria num tímido incurável, arredio e envergo-

nhado. Foi nessa época que o pai, cansado das dificuldades e da vida de ci-

gano que o cargo lhe impunha, decidiu mudar-se com a família para Recife.

Tentando demovê-lo da idéia, o Partido Republicano ofereceu-lhe uma cadei-

ra de deputado federal pela Paraíba. O surpreendente Francisco José rejeitou

o presente alegando que preferia criar vacas leiteiras numa pequena chácara

que alugara nas redondezas da capital. Cedeu o mandato parlamentar para o

irmão mais moço, Chateaubriand, argumentando que, embora o caçula fosse

médico e não tivesse qualquer vocação para a política, "era o melhor orador

da família". Juntou a mulher e os dois filhos e tocou para a cidade grande.

Foi no sobrado de azulejos da rua da Aurora, em Recife, onde mora-

vam, que nasceram seus dois outros filhos, Oswaldo e Urbano Ganot. A fa-

mília vivia com dificuldades, mas ninguém se lembra de algum dia ter falta-

do comida em casa ou escola para as crianças. Mesmo transformado em

criador e vendedor de leite, o pai preservava o refinamento intelectual dos

antepassados. Os quatro filhos cresceram ouvindo à noite, em casa, saraus

de música e de poesia. Um barulho metálico acordava Assis Chateaubriand

toda madrugada. Ele já sabia de onde vinha o ruído, mas sempre repetia o

gesto de chegar os olhos à beira da janela do quarto para ver o pai, que ain-

da não completara trinta anos, descarregar da carroça os enormes latões-

chamados garibáldis - cheios de leite. Antes de o sol nascer o ex-juiz e qua-

se deputado ia até o sítio e trazia para a porta da casa na cidade, puxando

pelo cabresto uma parelha de mulas, a enorme carroça, repleta de latões. Ali

os distribuidores os recolhiam para entregar o produto aos consumidores,

de porta em porta. Na hora do almoço o pai devolvia a carroça ao sítio e

retornava com a capanga de couro repleta de cédulas miúdas que desamas-
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FERNANDO MORAIS


sava esticando uma a uma sobre a mesa. Separado por valores, o maço de di-

nheiro era entregue religiosamente a d. Maria Carmem, a tesoureira da casa.

A agressividade de Recife, os meninos estranhos e o movimento de tan-

ta gente desconhecida só fizeram aumentar ainda mais a timidez de Cha-

teaubriand. Se os irmãos Jorge, Oswaldo e Ganot podiam ser vistos no meio

de bandos de moleques, brigando nas ruas, tomando banho de mar e empi-

nando papagaios, o raquítico Francisco de Assis passava os dias agarrado à

saia da mãe. Já se tinha tentado de tudo para fazê-lo engordar um pouco: re-

gimes especiais, canjas, suco retirado de músculo de boi. Durante meses ele

foi obrigado a tomar vidros e mais vidros do enjoativo leite maltado Horlick,

"A Nutricious Food-Drink for all Ages", que um marinheiro trazia em cai-

xas no vapor que vinha do Sul, mas nada deu resultado. Os médicos

tranqui-

lizavam a família: não havia por que se preocupar com a magreza dele, aqui-

lo não era doença. Mas quanto à gagueira podiam desistir, que a medicina

ainda não tinha descoberto a cura para tal moléstia. Ele teria de conviver pa-

ra sempre com a sofreguidão de tentar completar cada frase, cada palavra.

Aconselhados por amigos e parentes, os pais experimentavam mezinhas e

tratamentos domésticos para superar o problema. Punham-no diante de um

espelho para que se visse tentando falar corretamente; apagavam as luzes, à

noite, para ver se na escuridão a voz se animava a sair como a dos irmãos;

obrigavam-no a conversar com outros gagos, na esperança de que o diálogo

pudesse curar um deles. Mas nada dava certo. Ao contrário, ele ficava mais

irritado, emburrava e chegava a passar dias sem abrir a boca a fim de não

pronunciar nem uma sílaba. No dia que tentaram obrigá-lo a falar com pe-

quenas pedras sob a língua - um método infalível, diziam, que já havia

curado milhares de gagos pelo mundo -, ele começou a tossir, engasgou e

por pouco não morreu asfixiado.

O único e efêmero progresso havia sido obtido tempos antes pela pa-

ciência e pelo desvelo do pai. Foi quando se anunciou que o afamado com-

positor paulista Carlos Gomes estava para chegar a Recife. O autor de O gua-

rani chegaria a bordo de um vapor em trânsito para Belém do Pará, onde

seria empossado como diretor do Conservatório Musical do Estado - e ci-

dade em que, meses depois, acabaria falecendo. No caminho o navio faria

uma escala em Recife, e o maestro seria homenageado com um almoço em

Olinda na casa de Eugênio Samico, grande amigo de Francisco José e, como

ele, um apaixonado da música. Encarregado de dar as boas-vindas ao visi-

tante, o pai de Chateaubriand, encheu de elogios meia folha de papel e deci-

diu que quem faria a saudação ao maior músico brasileiro seria o filho gago.

Sem gaguejar. Passou as tardes seguintes lendo o texto para o menino. Lia

uma palavra e pedia que ele a repetisse. Lia mais uma e esperava até que o

garoto pudesse repetir as duas. Trancados num cômodo nos fundos da casa,

os dois passaram as tardes naquele maluco exercício de cura e amor. Depois
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CHATÔ: O REI DO BRASIL.


de dez dias de esforço de ambos - houve um dia em que o nervosismo do

pequeno foi tanto que ele urinou nas calças -, a saudação tinha sido intei-

ramente decorada. No dia do almoço, diante da basta cabeleira branca de

Carlos Gomes, Chateaubriand não se aterrorizou com a possibilidade de es-

quecer alguma palavra ou de voltar a gaguejar. Seu único medo era urinar

na roupa de marinheiro que a mãe costurara especialmente para a ocasião.

Única criança no meio de tantos adultos, ele levantou-se a um sinal do pai,

caminhou até a mesa do maestro e repetiu a mensagem inteira. Sem esque-

cer, sem gaguejar e sem molhar as calças. O pai beijou-o emocionado e co-

chichou no seu ouvido:

- Quem quase mijou nas calças fui eu, meu filho.

Sem saber que tinha acabado de assistir a um milagre, Carlos Gomes le-

vantou-se, beijou a fronte do menino e ofereceu-lhe de presente a única coi-

sa que havia ao alcance da mão: uma laranja-cravo retirada do meio de uma

fruteira posta sobre a mesa. Guardando absoluto silêncio depois de tanto su-

cesso, Chateaubriand ficou com o pai até o fim da tarde na casa de Samico.

Juntos acompanharam o cortejo que levou o compositor de volta ao porto e

depois tomaram o rumo de casa. A notícia da cura já havia chegado à rua da

Aurora. D. Maria Carmem garantia que a graça alcançada era fruto das no-

venas que ela e as amigas da Ordem Terceira de São Francisco haviam feito.

O santo tinha ouvido suas preces. Quando os dois entraram na casa, a mãe

atirou-se em prantos aos pés do menino. De mãos postas ao céu, agradeceu

a são Francisco de Assis pela bênção. Mas a emoção generalizada durou

pouco. Maria Carmem pediu que o filho contasse com suas próprias pala-

vras como tinha sido a façanha do almoço. Chateaubriand tentou falar uma,

duas, três vezes, e desistiu. Continuava tão gago quanto antes.

A família deixou passar alguns meses depois do episódio para voltar a

insistir na técnica da memorização de textos curtos como maneira de curar a

gagueira, mas nunca mais teve sucesso. Com o correr do tempo, chegou

a hora de enviar o filho à escola. No começo de 1898, como já tivesse quase

seis anos, os pais o matricularam em uma escola pública do bairro. Cuidado-

samente recomendado para a professora como uma criança nervosa e pro-

blemática, Chateaubriand nem chegou a completar a primeira semana de

aula. Poucos dias após o início do curso, um bedel do grupo escolar veio tra-

zê-lo de volta à mãe. Vítima de deboches e brincadeiras dos colegas, ele sim-

plesmente desistiu de falar o que quer que fosse dentro da classe. De gago

ele estava se transformando em mudo. Traumatizados com o sofrimento do

filho, Francisco José e Maria Carmem procuraram outras escolas, contrata-

ram sucessivas professoras particulares que tentavam alfabetizar o garoto

em casa, mas nada deu certo. Ele se tomava de pânico na presença de es-

tranhos e, além de não pronunciar uma só palavra, punha-se a chorar. Os
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FERNANDO MORAIS

pais se renderam. Muito mais grave do que ter um filho analfabeto era ter

um filho infeliz.

Quando faltava um ano para virar o século, Chateaubriand ganhou uma

irmã adotiva, Judite, que os pais decidiram criar. Ela se incorporou à família

quando o pai, aborrecido com a vida de produtor e vendedor de leite, deci-

diu prestar um concurso federal para o cargo de conferente de alfândega.

Mais afeito à música e às letras do que às matemáticas, Francisco José aca-

bou obtendo classificação tão medíocre que só lhe restaram duas alternati-

vas igualmente incômodas: assumir a chefia da seção alfandegária em Porto

Alegre, no Sul do país, ou em Belém, no extremo norte. O problema é que

qualquer uma delas implicaria separar-se temporariamente da família, já

que seria um desatino mudar-se para tão longe com a mulher, os quatro fi-

lhos e a filha adotiva. Acabou optando por Belém do Pará. Mas antes de par-

tir tomou uma decisão que mudaria a vida do filho complicado: durante o

período em que o pai ficasse fora, o menino seria criado pelo avô materno,

Urbano Gondim, em Timbaúba. Esta, na verdade, era uma antiga prescrição

do médico da família, segundo o qual "a vida selvagem" talvez fosse o me-

lhor remédio tanto para a gagueira quanto para o raquitismo do garoto.

Depois de passar um dia inteiro com a cara colada no vidro da janela do

trem em que embarcara em Recife, Chateaubriand foi apanhado na estação

de Camutanga por Genoíno, capanga do avô, e levado de carroça para Tim-

baúba. As propriedades do capitão Urbano compreendiam um engenho de

açúcar em Sapé e outro em Lagoa Cercada, a fazenda Manoel de Matos, de

algodão e raras cabeças de gado, no vilarejo de Rosa e Silva, e a fazenda prin-

cipal, Mocós Velho, toda plantada de cana-de-açúcar e que ficava em Tim-

baúba, onde ele passaria a viver a partir daquele dia. A rigor, o município de

Timbaúba é que tinha sido edificado dentro das terras do capitão. Tudo mar-

geando um e outro lado do rio Capibaribe Mirim.

As primeiras semanas no mato mostraram que o médico talvez tivesse

razão. Para alguém que sofrera tanto com a disciplina, os modos e a gente

empertigada de Recife, viver feito bicho era como entrar no paraíso. Para

substituir os almofadinhas que tanto o insultavam na capital, ele adotara co-

mo companheiros na fazenda a gente mais simples do mundo: os filhos de

colonos, meeiros e modestos empregados do avô. No lugar dos emprnados

Cavalcanti, Bezerra e Menezes, dos novos amigos ele não sabia sequer o pri-

meiro nome. Eles agora eram o Sirigóia, o Dedo Mole, o Toinho Venta de Bo-

de, o Juca do Padre e o Canela Preta. Todos, como ele, analfabetos. Antes de

o dia clarear Chateaubriand saía da casa-grande carregado de bolas de gude

e pipas - que lá se chamavam bisarronas - e só voltava à noite. Frequen-

temente chegava em casa com a cara e as pernas escalavradas por brigas fe-

rozes com quem insistisse em rir da gagueira que nem ali o abandonara.
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FERNANDO MORAIS


Um dia o capitão Urbano chamou-o a um canto e, com o ar severo de

quem ia anunciar algo muito importante, sentenciou:

- Gagueira é vergonha. Quanto mais vergonha de falar você tiver, mais

gago você vai ficando. O único jeito de curar isso é falar sozinho. Falar até

cansar, até secar a saliva, mas sozinho. De hoje em diante você vai passar al-

gumas horas do dia sentado na pedra Preta, na beira do rio, falando consigo

mesmo. Se isso não o curar, pode desistir que é porque Deus quis que você

ficasse desse jeito para o resto da vida.

No princípio ele de fato sentia muita vergonha, mas era de ficar ali con-

versando com ninguém. Falava baixo, com receio de que o vissem e espa-

lhassem que o neto do capitão tinha ficado doido. Mas acabou se acostuman-

do. Pa ssou a inventar interlocutores imaginários, com quem tentava falar

sem engasgar. Conversava com o pai, com os amigos ausentes, com a mãe,

com a avó Jesuína, com os irmãos, com as filhas do capitão, suas tias. Mas es-

ses exercícios vocais diários não o importunavam tanto. Afinal, aquilo era a

única disciplina a que tinha sido obrigado, e que acabaria resultando eficaz.

No mais era perambular com aqueles que o avô chamava de "a canalha do

engenho", os seus novos amigos. Apanhavam canários-da-terra e os treina-

vam para as selvagens rinhas, jogavam bola de gude, nadavam, pescavam.

E provocavam os adultos. Na porta da venda de Pedro Salvador, o bando

declamava em coro, para depois fugir às carreiras:
Tengo, terengo, tengo

Maravia


Pedro pelou a mãe

Na água fria


Contra os desafetos os versos beiravam a obscenidade. Benedito Sin-

frônio era o dono do mais cobiçado mangueiral de Timbaúba, que ele guar-

dava empunhando uma rudimentar espingarda de sal. Cada investida dos

moleques contra as árvores carregadas de frutos era respondida com tiros

certeiros que costumavam deixar as costas e as pernas em carne viva por

semanas. Para ele havia uma cantiga especial:

Calango, tango

Do calango da lacraia

A mulher do Benedito

Foi peidar, cagou na saia


Autoritário e rabugento, o avô se preocupava cada vez mais com a me-

tamorfose do neto. Quando o menino chegou a Timbaúba ele tinha a certe-

za de estar diante de um santo. Mas em muito pouco tempo as más compa-

nhias e a absoluta falta de freios o haviam transfigurado. Puxando os pêlos

da própria barba, o capitão Urbano rosnava pela casa, o dedo acusador

apontado em sua direção:


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


- Isto nunca será um homem de verdade! Deus Nosso Senhor se apiede

de minha filha, que botou no mundo um canalhinha destes, para vergonha

e maldição da família! Onde já se viu um Guedes Gondim desmoralizar a ca-

sa-grande, envergonhar sua gente?

Os domingos começavam com o avô o obrigando, a poder de cascudos,

a acompanhá-lo à igreja:

- Anda, capeta. Hoje você vai pedir perdão a Deus por viver tão pró-

ximo de Satanás.

À noite, ao levar as três últimas filhas solteiras ao baile dominical, era o

velho quem ditava que ritmos poderiam ser executados pelos músicos. Pa-

ra irritação das filhas - e das demais freqüentadoras dos bailes, que nada ti-

nham a ver com o moralismo do capitão -, ele já chegava avisando:

- Baile freqüentado por uma Guedes Gondim só pode ter quadrilha e

lanceiro. Figurado, nem pensar.

O problema é que o chamado "figurado" - os schottisch, as polcas e os

pas-de-quatre - era exatamente o ritmo que permitia aos pares dançar de

mãos dadas e, num descuido dos pais, arriscar um beijo. Mesmo sabendo

que ninguém, nem os músicos nem qualquer convidado, se atreveria a deso-

bedecer suas ordens, os bailes deixavam o capitão Urbano inquieto. Vigilan-

te com as filhas, quando perdia o neto de vista já sabia onde encontrá-lo. Da-

va a volta nos fundos da casa onde sempre se realizavam aquelas festas

para flagrá-lo trepado no telhado de um curral de cabras, espiando pelo al-

to da janela as moças de cócoras no banheiro, fazendo xixi. Toda vez que is-

so acontecia, ele era levado para casa arrastado pela orelha. A avó Jesuína

era a única a se compadecer da sorte do neto:

- Urbano, um dia você ainda vai matar o Francisquinho. Ele é muito

fraquinho, não come direito, não pode suportar castigos tão violentos.

O avô, no entanto, estava convencido de que chegara a hora de se livrar

do estorvo:

- Nós somos os únicos responsáveis por isto. Minha filha nos entregou

um menino civilizado e vai receber de volta um tarado, um pequeno ban-

dido.


A avó discordava. Francisquinho chegara a Mocós Velho doente do cor-

po e da cabeça, e graças aos exercícios de falar sozinho agora era um meni-

no normal:

- Hoje ele é uma criança como qualquer outra. Se aos nove anos ele não

sabe ler nem escrever, isso não é problema nosso, ele não veio aqui para ser

alfabetizado. O que vale é que ele chegou aqui gago e será devolvido falan-

do como qualquer mortal. O menino está pronto para ser amansado, mas is-

so quem tem obrigação de fazer é a mãe dele.

Curado ou doente, santo ou demônio, isso pouco importava para o avô.

A verdade é que não queria mais a responsabilidade de ter o neto crescendo


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FERNANDO MORAIS


como um bicho sob seus olhos. Genoíno foi o encarregado de concretizar a

expulsão do paraíso, levando-o de volta a Recife. Só ao chegar à capital é que

soube que a família trocara a velha casa da rua da Aurora, à beira do Capi-

baribe, por outra no bairro de Dois Irmãos, nas imediações do açude do mes-

mo nome e de outro, menor, chamado açude do Prata. Casualmente o pai se

encontrava em Recife com a família, licenciado por uma semana de seu tra-

balho em Belém. Foi ele quem mais se surpreendeu com a cura da gagueira

do menino. Impaciente, querendo sair logo para conhecer as redondezas do

lugar onde iria viver, Chateaubriand mal teve tempo de ouvir o pai contar

que, além dos afazeres na alfândega, ele trabalhava na capital paraense co-

mo redator do jornal O Noticias, de Alcides Bahia, e que tinha se tornado pes-

soa de excelentes relações no Pará:

- Sou amigo íntimo do governador do estado, Augusto Montenegro-

gabava-se - e freqüentador assíduo do palácio.

Revelou. também que, apesar de levar uma vida boa, estava tentando

usar a influência política dos amigos para transferir-se de volta para a alfân-

dega de Recife. O filho recém-chegado estava pouco interessado naquela

aborrecida conversa de adultos, queria mesmo era ganhar logo a rua. Ao ten-

tar escapulir, foi impedido pela mãe. Insistiu, bateu o pé, fez birra e só foi im-

pedido quando ela decidiu aplicar-lhe a primeira surra da vida. A liberdade

a que ele se habituara em Timbaúba tinha chegado ao fim. Apanhou no pri-

meiro dia, no segundo, no terceiro. Disposto a não se curvar à disciplina ma-

terna, apanhava uma vez por dia. Mas nãu se entregou. A mãe concluiu que

a única maneira de conseguir manter o filho em casa era trancá-lo a chave

em um cômodo sem janelas. Chateaubriand só pensava e só desejava a vol-

ta a Timbaúba. Lá, apesar da severidade do avô, ele era livre, fazia o que bem

entendesse. Em Recife sentia-se um escravo da mãe, dos irmãos, da ama Ro-

salina. Aquilo não era uma casa, mas um pátio de prisão. Nenhum rigor, en-

tretanto, era suficiente para mantê-lo longe da rua. Ele logo se incorporou

aos bandos de pequenos desocupados que passavam os dias enfurnados nas

matas em redor do açude Dois Irmãos. Nadava, roubava frutas, seviciava

pequenos animais domésticos, empinava bisarronas.

Quando estava de passagem pela cidade, o pai insistia na velha cateque-

se cultural, imaginando que as artes poderiam ter o condão de afastá-lo

daquela vida delinqüente. Nesses saraus - que não chegavam a ser exata-

mente um castigo para ele -, o filho era levado a ouvir intermináveis decla-

mações de poesia nas casas dos amigos, sessões de solfejo e até maçantes lei-

turas de originais de trechos de livros que jamais seriam publicados. Nos fins

de semana em que Francisco José se encontrava em Recife, o filho era lava-

do, escovado e vestido a caráter para acompanhar o pai à casa do engenhei-

ro Ernesto Brotherhood, no bairro de Apipucos. Ali juntavam-se, nos sába-

dos à noite, comerciantes, industriais, usineiros de cana e simples boêmios

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CHATÔ, O REI DO BRASIL


que tinham no amor pela música uma característica comum. Chateaubriand

era a única criança a ter o privilégio de ouvir e ver funcionando uma moder-

nidade sem similar no Nordeste, que o dono da casa exagerava ao garantir

ser a única do Brasil: uma victorola - nome tirado do fabricante, a Casa Vic-

tor inglesa -, inexplicavelmente chamada pelos pernambucanos de "zono-

fone" e que alguns garantiam chamar-se, na verdade, gramofone. Recém-

chegados de navio, discos de óperas italianas e francesas, de marchas e de

sinfonias magnetizavam o grupo até o nascer do sol.

Mas bastava o pai tomar o navio rumo a Belém para o menino se juntar

de novo à sua quadrilha. Transformado em típico moleque de rua, ele era o

oposto do garoto amedrontado, gago e encolhido que deixara Recife poucos

anos atrás. Num único ponto ele permanecia o mesmo. Aos dez anos de ida-

de, continuava tão analfabeto como antes. Assim, Chateaubriand já era qua-

se um rapazinho quando manifestou pela primeira vez algum interesse pela

leitura. Os rudimentos das primeiras letras lhe foram transmitidos por dois

paraibanos - Manoel Távora Cavalcanti e Álvaro Rodrigues Campos - e

pelo tio Antônio Feliciano Guedes Gondim, que visitavam com freqüência a

casa da família em Dois Irmãos. Exemplares velhos do Diário de Pernambuco

e do Jornal de Recife, abandonados no porão da casa, foram sua primeira car-

tilha. Ele passava ao largo dos artigos e notícias para se fartar com os anún-

cios - ou " manteigas " como eram chamados. Carregava no bolso, recortado,

o primeiro "manteiga" que conseguiu ler inteiro - um pequeno classificado

da agência funerária Casa Agra, situada no largo do Carmo, de propriedade

de Joca Arara, que além de papa-defunto também era literato e cronista do jor-

nal, e que teria seu estabelecimento imortalizado em poema de Augusto dos

Anjos. O "manteiga" era composto de uma única frase, que dizia: "Ali vai Jo-

ca Arara: os caixões de defuntos na frente e os seus bichos roendo". Quando

descobriu, com a ajuda do tio, que os "bichos " do anúncio se referiam à fau-

na cadavérica, Chateaubriand passou a exibir o pequeno recorte aos amigos,

como um troféu ao humor negro.

A alfabetização improvisada se processou com surpreendente rapidez

para quem até então parecia alimentar profunda indiferença por qualquer

coisa impressa em letra de fôrma. Em pouco tempo já era capaz de ler o jor-

nal inteiro, e daí para aprender a escrever e fazer contas foi um pulo. Força-

dos pela alta dos aluguéis, os pais decidiram, tempos depois, mudar-se de

novo para o outro lado da cidade: desta vez o destino era Olinda. Foi ali que

a mãe resolveu contratar os serviços de um vizinho belga, monsieur Alphon-

se Debrot, que ia todas as manhãs à casa da rua do Carmo dar aulas de con-

versação em francês para a família. Quando o pai estava em Recife, também

se incorporava à classe. O curso doméstico produziu uma situação insólita:

oficialmente analfabeto, já que nunca tinha posto os pés regularmente em
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FERNANDO MORAIS


qualquer escola, Chateaubriand passou a arranhar um francês inusitado pa-

ra um garoto naquelas circunstâncias.

Mas tanto o curso do professor Alphonse como a passagem por Olinda

teriam curta duração. A umidade do litoral e o excesso de trabalho com os

filhos acabariam abatendo d. Maria Carmem. Os primeiros sintomas de que

algo não ia bem com a saúde da mãe foram as dores no peito. Logo ela co-

meçou a perder peso, a tossir seco. O pai, preocupado, veio mais uma vez de

Belém em socorro da família. Uma consulta superficial ao médico revelou o

temido diagnóstico: manchas escuras tomavam-lhe os dois pulmões, sinal de

que uma tísica brutal se avizinhava. Se ela não fosse retirada logo do litoral,

seu tempo de vida seria muito curto. Mais eficiente do que qualquer remé-

dio, prescreveu o médico, o ideal seria levá-la imediatamente para uma re-

gião alta e de clima seco. Francisco José lembrou-se de um lugar belíssimo

que ele vira algumas vezes nas viagens de trem de Recife para a Paraíba.

Com a construção da estrada de ferro, em 1888, aquele lugarejo, batizado

com o nome de Chã de Carpina, ainda no estado de Pernambuco, tinha sido

transformado em entroncamento de duas linhas. Um ramal saía à esquerda,

em direção a Nazaré da Mata e depois Itabaiana. O outro dava em Limoei-

ro. O que havia no lugar, além da modesta estação ferroviária, era apenas

um pequeno comércio em volta de um campo desmatado a golpes de foice.

A grande capoeira que cercava o local, situado a duzentos metros de altitude,

garantia clima ameno, de baixas temperaturas, exatamente o que o médico re-

ceitara para a cura da esposa. O único inconveniente do lugar não seria obs-

táculo para o aventureiro Francisco José: lá não havia sequer uma casa em

condições de receber uma família de bem. Mas isso era um detalhe sem im-

portância: com a ajuda de amigos, ele próprio construiria a casa em pouco

tempo.

E assim foi. A mulher, os quatro filhos e a filha adotiva foram instalados



provisoriamente na casa de parentes, em Nazaré da Mata, até que a constru-

ção ficasse pronta. O modelo da casa, que ele chamava de "estilo norman-

do", tinha sido copiado de uma fotografia tirada de uma revista estrangeira.

Em volta, Francisco José plantou com suas próprias mãos um pequeno bos-

que que impedisse o progresso de violentar o saudável clima local, típico da

região da Mata Seca. Já com a mulher e os filhos morando lá, ele conseguiu

mais uma licença na alfândega de Belém para realizar um capricho. Tomou

um vapor para o Rio de Janeiro e, com a ajuda do conselheiro João Alfredo,

conseguiu nos viveiros do Jardim Botânico mudas de árvores frondosas pa-

ra o bosque em torno da casa nova. Ao retornar poucos dias depois a Per-

nambuco, levou no porão de carga do navio sua preciosa bagagem: centenas

de pequenos cestos de vime contendo mudas de sucupira e de martinézia

mexicana, que plantou nas imediações da casa, duas a duas, como uma co-

luna militar. Ao cavoucar o chão para enfiar as mudas vindas do Rio, Fran-


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


cisco José traçava, sem o saber, uma alameda que ainda estaria viva na vira-

da do milênio, cem anos depois.

Nem o governador nem os amigos importantes tiveram força suficiente

para arranjar transferência de Belém para Recife. Cada vez mais envolvido

com o aglomerado que ia nascendo em volta da casa, em Chã de Carpina, ele

se tornou ainda mais ausente do trabalho na alfândega. Quando as árvores

cresceram e começaram a encher-se de folhas, ele passou a dizer que mora-

va na "floresta dos leões" - uma homenagem a João Souto Maior, líder re-

belde da Revolução de 1817, apelidado "Leão do Tejucopapo", e a seus se-

guidores, os "leões", que se haviam refugiado naquele lugar depois de uma

escaramuça com as tropas da Metrópole. Como acontecera antes com o seu

próprio sobrenome, aos poucos Floresta dos Leões deixou de ser a toponí-

mia apenas da casa de Francisco José para se tornar o nome do lugar, como

um todo. Ninguém mais se referia a Chã de Carpina, mas apenas a Floresta

dos Leões. Para reforçar, encheu a vila de leões esculpidos em madeira,

bronze, cimento, gesso. Leões de todos os estilos e tamanhos podiam ser vis-

tos por quem chegasse ali: da estação de trens até a entrada do pequeno ce-

mitério, nenhum lugar foi esquecido. Apesar dos protestos generalizados

contra denominação tão esdrúxula, ele insistia em só chamar o vilarejo pelo

nome que lhe dera, e brigava com quem se atrevesse a dizer que vivia - ou

estava - em Chã de Carpina. Nas páginas do Reacção, jornalzinho que ele

criou e dirigia, era enorme a confusão dos pequenos anunciantes que depen-

diam do reembolso postal para suas vendas: alguns se diziam estabelecidos

em Carpina, mas a maioria já imprimia em seus anúncios o novo apelido do

lugar, mesmo sabendo que Floresta dos Leões era um endereço inexistente,

que não constava dos guias do Correio. Em 15 de dezembro de 1901 o per-

sistente Francisco José Chateaubriand Bandeira de Melo conseguiu sua gran-

de vitória: naquele dia a prefeitura de Pau d'Alho, município ao qual o lu-

gar estava ligado, baixou a lei nº 12, transformando Chã de Carpina em

distrito e mudando-lhe o nome para Floresta dos Leões. E foi com este nome

que o distrito transformou-se em vila, em 1909, e em município, em 1928.

Maior que a paixão de Francisco José por Floresta dos Leões, entretan-

to, era seu feroz jacobinismo paraibano. Afastado havia muitos anos da Pa-

raíba, radicado em Pernambuco, casado com uma pernambucana e pai de

dois filhos nascidos em Recife, ele tratava a Paraíba com um bairrismo pas-

sional, que chegava ao paroxismo. Freqüentemente reclamava com a mulher

do risco que significava criar os filhos longe daquilo que chamava "o centro

de gravidade paraibano":

- Mais um pouco e estas crianças vão perder todo o contato com a ter-

ra de seus antepassados.

Como era impossível despachar a mulher, os quatro rapazes e Judite pa-

ra a Paraíba, dois anos depois de a família ter chegado a Floresta elegeu-se


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FERNANDO MORAIS


Chateaubriand para a repatriação. Não foi uma escolha casual: os pais ha-

viam conseguido que ele, que não tinha feito o curso primário, ingressasse

no primeiro ano de ginásio, com a condição de que fosse aprovado em um

exame de admissão. Para Francisco José, nada mais adequado para os prepa-

ratórios do que uma boa estada na Paraíba. Foi assim que no final de 1903 As-

sis Chateaubriand mudou de endereço mais uma vez. Graças a uma gentile-

za de sir Christopher Raw, engenheiro inglês, embarcou de graça num trole

da Great Western até depois de Itabaiana, onde terminavam os trilhos da fer-

rovia. No ponto final das obras da Western já o esperavam o tio e padrinho

Chateaubriand Bandeira de Melo, médico em Campina Grande, um menino

com um jumento para carregar as malas e Galante, o cavalo que ia levá-lo.

Os meses em Campina Grande foram quase todos passados no casarão

do tio Chateaubriand. O médico decidiu encurtar o cabresto do sobrinho,

certo de que aquela era a última chance que este teria de se civilizar: se não

entrasse no ginásio, estava fadado a morrer chucro. Em poucos meses o me-

nino precisou assimilar tudo o que deixara de aprender em quatro anos de

curso primário abandonado. Ele passava as manhãs e as tardes, com a ajuda

de uma professora, lendo cartilhas e livros de português, aritmética e geo-

grafia e cosmografia do Brasil. Ao saber que do exame constaria uma prova

de língua estrangeira opcional - poderia ser francês ou inglês -, ele sentiu-

se à vontade para escolher o francês, valendo-se dos rudimentos adquiridos

nas aulas de monsier Alphonse. À noite sempre havia algum parente para

vir tomar-lhe a lição. Quando não era o tio Chateaubriand, vinha sua mulher

laiá Bandeira de Melo. A familiaridade com as letras trazia consigo alguns

benefícios: antes de dormir, ele já conseguia ler escondido, à luz de um can-

deeiro de azeite, exemplares ensebados dos versos fesceninos de Bocage e as

Palavras cirricas de Albino Forjaz Sampaio.

O pouco tempo que sobrava da vida de estudante - ou de cascabulho,

como se dizia então - ele aproveitava em novas atividades: inspirado pelo

velho Escobar Gallieni, um amigo da família, apaixonou-se por colecionar

selos. Sempre que podia, ia à casa do amigo idoso para ver as novidades vin-

das de Madagascar, da Europa, da Índia. De lá fazia uma visita ao fórum pa-

ra assistir aos julgamentos presididos por seu primo, o juiz Barnabé Gondim,

um homem de olhos azuis e enorme carapinha vermelha - um assa, como

diziam no Nordeste - que atribuía suas características físicas a remoto pa-

rentesco com invasores holandeses. Pelo fórum desfilava diariamente aos

olhos do garoto uma fauna sem igual: desde homens acusados de pequenos

furtos até grandes latifundiários defendendo o direito de multiplicação, ma-

nu militari, de suas propriedades. E muitos doidos. Toda vez que surgia um

acusado cujo comportamento fugia dos pachorrentos valores locais, era mais

simples classificar o infeliz como louco e condená-lo ao hospício. Muitos

anos depois um deles, inconformado com a sentença, acabaria assassinando


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


o juiz Barnabé num acesso de fúria. Mas a grande estrela do tribunal era o

promotor Ascendino Carneiro da Cunha, grande orador, homem de princí-

pios rígidos e campeão de batalhas judiciárias. Numa região em que se ma-

tava por quase nada, ele era implacável com qualquer trabuqueiro que tives-

se a má sorte de se sentar num banco dos réus à sua frente. O promotor era

a figura predileta de Chateaubriand. Apesar do calor escaldante do lugar, ele

se vestia como um dândi britânico: fraque, calças listradas, cravo na lapela,

luvas e polainas. E se dirigia aos meninos chamando-os de boy. Campina

Grande se deliciava com os modos do doutor Ascendino, assim como não

entendia os hábitos e os horários de outro tio de Chateaubriand, o fazendei-

ro Antônio Guedes Gondim. Para os metódicos camponeses e agricultores

que viviam na cidade, era incompreensível que o velho Gondim - que se

apresentava como descendente de normandos - acordasse todos os dias às

nove da manhã, tomasse o café às dez, almoçasse às três da tarde e só fosse

jantar às dez da noite. Nà enorme mesa de refeições de sua casa-grande, em

Paraguaçu, nunca havia menos de 25 convivas. Para facilitar o entendimen-

to das coisas, os campinenses inventaram uma explicação para aquela vida

exótica. "São costumes espanhóis ", diziam.

Os meses passados em Campina Grande correram rápido. No começo

de novembro ele retornou a Recife e no fim do mês enfrentou a banca de se-

leção do ginásio da Escola Naval. Chateaubriand teve um desempenho pífio

em português e aritmética, recebendo como classificação um medíocre "Sim-

plesmente ". Com o "Plenamente" obtido em francês, geografia e cosmogra-

fia do Brasil, conseguiu média suficiente para ser admitido. No dia 22 de no-

vembro de 1904, aos doze anos, ele deixava oficialmente de ser analfabeto.
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3
A qualidade da educação que o filho receberia não era exatamente a

principal preocupação de Francisco José. Ele não ocultava de ninguém que

seu grande temor era "a contaminação do menino pela fraqueza dos bárba-

ros da fronteira meridional" - os pernambucanos. Com a ajuda de parentes

e amigos da família, Chateaubriand foi encarregado de conseguir uma casa

para viver em Recife. Tinha de ser lugar limpo, asseado,

freqüentado por fa-

mílias e nas proximidades de alguma escola. Naturalmente, não podia ser

nada caro. Poucos dias depois de iniciar a procura avisou ao pai que tinha

escolhido uma boa pensão - para ser mais convincente, usou o termo "ir-

reprochável", ao descrever o lugar -, de propriedade de Raimundo de

Oliveira, chefe aposentado da estação de trens de Cinco Pontas. Rigoroso e

moralista, Oliveira seria o guarda exemplar das virtudes de um estudante

adolescente. Mas o pai nem o deixou acabar de falar:

- De forma alguma. Não posso deixá-lo nas mãos de alguém que nun-

ca viu Cabaceiras nem conhece Catolé do Rocha. Você terá que ficar sob a

curatela de um paraibano.

O pai decidiu resolver pessoalmente o problema e viajou para Recife.

Juntos, foram dar num sobrado senhorial da rua do Imperador, em cujo tér-

reo funcionava a empresa João Rufino & Cia., um grande armazém de arma-

rinho por atacado. Deu a volta por trás do balcão, abraçou um dos donos e

apresentou-o ao filho:

- Este é o José Pessoa de Queiroz, um paraibano de verdade, com san-

gue na guelra. Além de paraibano, teve a ventura de nascer em Umbuzeiro,

como você. É com ele que você vai morar.

Pessoa de Queiroz era sócio de João Rufino da Fonseca na loja e mora-

va com a família no quarto e último andar do prédio. A sem-cerimônia de

Francisco José foi recebida com naturalidade pelo amigo:

- Terezinha e eu receberemos o Francisquinho com muito prazer. O

terceiro andar está vazio e nós podemos instalá-lo hoje mesmo.

Eram aposentos régios para um menino. Com grandes janelões dando

para a rua, o amplo salão do terceiro andar foi transformado em quarto de

dormir e sala de estudo, com uma mesinha, uma cadeira e um candeeiro. Sa-

bendo que o hóspede era um matuto, armou ao lado da cama uma rede
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CHATÔ, O REI DO BRASIL


branca, trazida do Maranhão. Luxo raro naquela época, o quarto dispunha

também de um banheiro próprio. Para deixar o filho mais à vontade, Fran-

cisco José tomou uma assinatura de refeição para que ele almoçasse e jantas-

se todos os dias no Rio Hotel, perto da casa de Pessoa. E todas as manhãs

d. Terezinha aparecia no quarto com uma bandeja com café, leite, beiju, ta-

pioca e angu de milho fresquinhos. Ao se recolher, à noite, o garoto notava

que as rosas do jarro ao lado da cama tinham sido trocadas.

Desinteressado do ginásio, Chateaubriand levava uma vida escolar pí-

fia, como se aquilo fosse uma obrigação da qual devesse se livrar o mais de-

pressa possível. Latim, história universal, química e geometria não desper-

tavam nenhum apetite nele. Passou a devorar jornais e a freqüentar grupos

de poetas e literatos mais velhos do que ele. Pela mão de Pessoa de Queiroz,

aproximou-se dos frades do Convento de São Francisco, com os quais come-

çou a aprender as primeiras noções da língua alemã. Uma noite surpreendeu

os amigos declamando, em um alemão incompreensível, o que supunha ser

o passeio de Fausto, de Goethe. Cada vez mais percebia, entretanto, que se-

ria impossível fazer cursos e freqüentar rodas sem dinheiro. Como a escola

só lhe tomava parte do dia, achou que era hora de arranjar trabalho. Confi-

denciou o plano a um dos poucos amigos que fizera na escola, Severino Pe-

reira da Silva, um ano mais novo que ele e recém-chegado de Taquaritinga

do Norte, no sertão pernambucano. Como o outro também estivesse à pro-

cura de emprego, decidiram batalhar juntos. Um funcionário da João Rufino

& Cia. contou-lhes que um armazém de tecidos próximo dali estava preci-

sando de vendedores. Na manhã seguinte os dois já se encontravam a pos-

tos atrás do balcão da Othon Mendes & Cia., de metro e tesoura na mão, cor-

tando pano. Quando Chateaubriand lhes deu a notícia, em uma de suas

visitas à Floresta dos Leões, os pais tentaram demovê-lo daquela loucura-

afinal, ele tinha apenas doze anos -, mas nada conseguiram. Convencida de

que o filho não deixaria o trabalho, a mãe, ainda doente, aconselhou-o a apli-

car direito o salário e não dissipá-lo em bobagens:

- Faça um curso de música, que a educação mu.sical é imprescindível.

Aprenda a tocar bombardino. Estou organizando uma bandinha familiar e

você poderá se incorporar a ela em poucotempo. O Jorge e o Oswaldo estão

aprendendo flauta, o Ganot já sabe tocar tuba, seu pai aprende violino e eu

toco piano. Quando você vier a Floresta, poderemos fazer saraus para os

amigos.


Com seu primeiro salário comprou o tal bombardino e contratou uma

professora para três aulas semanais de uma hora. Não tinha muita queda pa-

ra a música, mas não queria fazer uma desfeita à mãe e resolveu tentar. O

que lhe interessava de verdade eram as leituras. Jornais, romances, revistas,

ensaios, ele lia o que lhe caísse nas mãos. Além do curso de alemão, que pro-

gredia com rapidez, retomou as aulas de francês com o mesmo professor

Al-
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FERNANDO MORAIS


phonse que freqüentara sua casa na rua do Carmo, em Olinda. E foi da boca

dos franciscanos que soube da existência, em Recife, de um verdadeiro te-

souro abandonado: em um casarão da Magdalena, perto do Prado, jazia uma

preciosa biblioteca de livros alemães, que tinha sido deixada por seu dono,

um desconhecido de quem só se sabia ter morrido em circunstâncias miste-

riosas. Uma noite, jantando com amigos do pai no restaurante do hotel, ou-

viu um dos participantes da mesa contar que tanto a casa como os livros

haviam pertencido a um seu concunhado, Cirilino Magalhães, genro do vis-

conde de Rio Formoso. Acometido de uma crise de melancolia depressiva du-

rante uma viagem de navio para o Rio de Janeiro, Cirilino pediu ao barbeiro

do vapor uma navalha emprestada para cortar um fio de cabelo que o inco-

modava. Caminhou até o portaló e de um só golpe abriu a própria garganta

de um lado ao outro. Chateaubriand tentou simular pesar diante da tragédia,

mas não conseguiu ocultar a alegria de ter chegado tão perto da solução do

mistério. Ao pedir permissão para consultar os livros da biblioteca, recebeu a

surpreendente resposta do homem:

- Meu filho, pode carregar tudo. É um presente e uma homenagem à

memória do doutor Cirilino. Aqueles livros não têm utilidade para nós.

Quantas pessoas falam alemão em Pernambuco? Pode passar lá amanhã

com uma carroça e levar tudo.

Os frades não haviam exagerado. Eram centenas de volumes primoro-

samente encadernados em couro, contendo coleções de dicionários, obras-

primas da poesia e da filosofia e o que havia de melhor na literatura germâ-

nica. Ao alcance da mão estava tudo de Goethe, tudo de Schiller, tudo de

Heine, tudo de Nietzsche. Ao folhear, ao acaso, um volume de baladas de

Goethe, encontrou uma pequena anotação a lápis no canto da página: "A as-

siduidade com que Goethe faz menção à araucária brasileira". Seguiu as

marcações nas margens e viu que o falecido dono da biblioteca havia anota-

do mais de trinta passagens em que o poeta revelava seu interesse pela ár-

vore nacional. Tomou outro volume, correu as páginas com os dedos e viu

mais e mais rabiscos a lápis. Além de preciosa, a biblioteca já vinha anotada!

O tempo disponível das semanas seguintes foi todo consumido com o pre-

sente, devidamente limpo, organizado e transportado para o seu quarto na

casa dos Pessoa de Queiroz. O usufruto da raridade foi dividido com os

franciscanos, que o ajudavam a traduzir os trechos mais difíceis.

A familiaridade com as coisas do espírito transformava a escola e o em-

prego em atividades cada vez mais aborrecidas. Do ginásio ele não tinha

mesmo como se livrar, mas o trabalho no atacadista de tecidos tornara-se um

suplício insuportável. Chamou o amigo Severino, que entrara junto com ele

na Othon Mendes & Cia., e propôs que deixassem juntos o emprego. Severi-

no discordou, argumentando que lá eles poderiam continuar estudando e,
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CHATÔ, O REI DO BRASIL


além disso, ganhavam relativamente bem. Ambos eram pobres e tinham

obrigação de ser prudentes. Mas Chateaubriand já sabia o que queria:

- Severino, ser prudente é antes de tudo ser medíocre. Vamos passar o

resto da vida com os cotovelos plantados nesse balcão, cortando pano. Se vo-

cê quer dedicar sua vida a ser o homem da tesourinha, eu não tenho voca-

ção para isso. Vou-me embora amanhã mesmo.

Na verdade, ele tinha resolvido deixar o armazém várias semanas antes.

O que o prendera lá nos últimos tempos era o vizinho que ocupava o prédio

em frente à loja: a redação e as oficinas do Jornal Pequeno, um diário funda-

do no último ano do século XIX. Quando o gerente descuidava, Chateaubriand

atravessava a rua e invadia a redação. Lá ele se deixava hipnotizar pelo tra-

balho dos repórteres, redatores e, sobretudo, pela mágica dos gráficos catan-

do os tipos de metal para compor, letra por letra, o jornal que ia ser lido por

milhares de pessoas. Sua realização não estava entre as peças de chita e ca-

roá empilhadas no atacadista, mas do outro lado da rua. Certa noite entre-

ouviu uma conversa de José Pessoa de Queiroz com um amigo, em que seu

hospedeiro dizia: "Quem manda na imprensa pernambucana são os Lund-

gren, os maiores anunciantes do Nordeste". Conversando com outras pes-

soas, ele descobriu que aquilo era a pura verdade. Industriais têxteis, senho-

res de engenhos, criadores de cavalos de raça, os Lundgren mandavam na

imprensa e em quem mais quisessem no Nordeste. Pois então, decidiu, os

Lundgren é que lhe dariam o emprego.

Confiante, Chateaubriand inverteu a lógica e pediu suas contas na Othon

Mendes sem saber sequer se seria recebido pelos milionários de origem es-

candinava de quem até então mal tinha ouvido falar. Saiu do antigo empre-

go, passou em casa, vestiu o único terno que tinha no guarda-roupa, pegou

o chapéu e caminhou até a porta do casarão cercado de muros da rua Padre

Roma. Sentou-se num banco de pedra existente na porta da casa e lá perma-

neceu horas ao sol, esperando que alguém da família entrasse ou saísse. No

final da tarde encostou na porta um Decauville - o único automóvel exis-

tente no Nordeste, dizia-se - guiado por um motorista que levava a seu

lado, empinada, d. Ana Louise Lundgren. A matriarca do clã dirigia pes-

soalmente duas indústrias da família, a Companhia de Tecidos Paulista e a

Pernambuco Powder Factory, das quais nasceria, anos depois, um império

de comércio varejista espalhado por todo o país com o nome de Casas Per-

nambucanas. Quando ele chegou perto do veículo, a mulher perguntou:

- Quem é você?

- Sou o Chateaubriand Bandeira de Melo, de Floresta dos Leões. A se-

nhora pode me atender um minuto?

A mulher mandou que ele entrasse. Lá dentro, morto de constrangi-

mento, com o chapéu posto sobre os joelhos, disse o que pretendia:

- Estou aqui para lhe pedir um emprego, uma colocação.


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FERNANDO MORAIS


- Mas como é que vou lhe dar um emprego se nem o conheço? O que

você sabe fazer? De onde mesmo você disse que vem? Como é seu nome?

Embaraçado com o interrogatório, ele balbuciou sobrenomes de pessoas

conhecidas que poderiam dar informações a seu respeito, falou de parentes

importantes, mas acabou não conseguindo dizer o que tinha repetido tantas

vezes na longa espera. Louco para se ver livre daquela situação e sem se atre-

ver a confessar que estava ali para pedir um emprego de jornalista, acabou

dizendo a única frase que lhe veio à cabeça:

- Aceito fazer qualquer tipo de serviço...

Expedita, Ana Louise liquidou a conversa na hora:

- Está bem. Você vai trabalhar como copeiro aqui em casa.

Agora não tinha mais conserto. Desempregado, só lhe restava aceitar o

que a mulher oferecera. Profundamente arrependido da imprudência que

cometera ao pedir demissão da loja, concluiu que tinha deixado de ser bal-

conista com a ilusão de virar jornalista e acabara como mordomo de milio-

nários. No primeiro dia de trabalho a patroa mandou que tirassem suas me-

didas para fazer um uniforme e foi logo ensinando a ele que tipo de talheres

se usava ao servir peixe, que vinho deveria acompanhar tais e quais pratos,

como se servia à francesa, em que posição os copos deveriam ser postos à

mesa. Chateaubriand aprendeu que se podia beber champanhe a qualquer

hora do dia ou da noite sem receio de parecer provinciano. A única exigên-

cia da elegância era abrir a bebida sem estrondo, e para isso bastava pres-

sionar o polegar esquerdo no vão do fundo da garrafa e soltar a rolha sua-

vemente, com o polegar e o indicador direitos. À noitinha, todos os dias, ele

tinha de registrar em um caderno grosso os gastos diários com a casa. De-

pois de uma semana de trabalho a patroa chamou-o au escritório:

- Meu filho, tenho observado seu jeito de trabalhar, suas conversas

com os outros empregados, sua letra no caderno de contabilidade. Você é

muito desenvolto, muito bem preparado para estar trabalhando como copei-

ro. Isto é um desperdício. Você não prefere trabalhar lá na administração da

indústria?

Ele sentiu-se encorajado a desfazer o mal-entendido do primeiro dia:

- Na verdade eu vim aqui para lhe pedir um emprego num dos jornais

da cidade. Eu falo um pouco de alemão, um pouco de francês, estou estu-

dando filosofia com os padres. Mas este foi o emprego que a senhora me ofe-

receu, e como eu já tinha me demitido do armazém de tecidos fiquei com

vergonha e decidi aceitar. Se a senhora quer saber a verdade, eu não quero

continuar sendo mordomo. Não tenho vergonha de fazer o serviço, mas não

é essa a carreira que escolhi.

Ele nem chegou a experimentar o dólmã de brim branco e botões dou-

rados que usaria no trabalho doméstico. Na manhã seguinte já estava na rua

do Rosário, diante da mesa de José de Godói e Vasconcelos, diretor da re-


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


cém-fundada Gazeta do Norte, vespertino criado nos últimos dias de 1906 por

um grupo de jornalistas, empresários e intelectuais pernambucanos. Vascon-

celos, que Chateaubriand descobriu ser um velho amigo de seu pai, relutou

muito antes de aceitá-lo como funcionário do jornal. Espantado com a ma-

greza e a baixa estatura do rapazinho, imaginava estar diante de uma crian-

ça. Ele mostrou a caderneta escolar para provar que já tinha quase quinze

anos e disparou, sem gaguejar, suas qualidades: um pouco de francês, um

pouco de alemão, filosofia com os padres, Goethe, Schiller. Para impressio-

nar o jornalista, tinha deixado deliberadamente sobre a mesa, bem visíveis,

um exemplar da Revue des Deux Mondes e um de Les Annales, que tomara em-

prestados com o professor Alphonse para ler em casa. E arrematou:

- Tenho recortados e guardados em casa mais de quatrocentos artigos

escritos por Carlos de Laet. E li todos, meu senhor.

Deu resultado. Nem tanto por se tratar de um colecionador de artigos

do polemista carioca, naturalmente, mas Vasconcelos se rendeu e o contra-

tou. Nas primeiras semanas Chateaubriand atuou mais como publicitário do

que como jornalista: era ele quem dava forma aos anúncios classificados-

os "manteigas" - que eram entregues por clientes no balcão à entrada do

prédio. Só depois é que passou a escrever notinhas curtas sobre fatos desim-

portantes ocorridos na cidade. A ele cabia também revisar, três vezes por se-

mana, as provas dos melosos poemas de autoria de um certo Charles

Khoury, que o jornal publicava inexplicavelmente em francês, tal como eram

entregues à redação. A Gazeta do Norte era um jornal curioso. No primeiro

número os donos anunciaram que seu projeto era combater "as tripudiantes

oligarquias mascaradas que vicejam em todos os estados na ostentação cri-

minosa de seu predomínio nefasto". Mas no mesmo editorial "prometiam

volver também nossas vistas para o lado dos fatos que envolvem os gran-

des e respeitáveis interesses das classes conservadoras". A indefinição edito-

rial podia ser medida pela edição do terceiro aniversário do governo do de-

sembargador Segismundo Antônio Gonçalves, ocorrido em abril de 1907,

pouco depois da admissão de Chateaubriand na redação. Ao lado de rasga-

dos elogios ao caráter e à administração do governador, o jornal lamentava

que, ao mesmo tempo, "o comércio definha, a indústria fecha suas fábricas,

a lavoura sucumbe e o povo emigra, sem trabalho e sem esperança".

Foi nessa época que seu pai conseguiu afinal ser transferido de Belém

para a alfândega de Recife, mas passou a viver em Floresta dos Leões, junto

com a família. Diariamente ele deixava Floresta no trem da manhã, chegava

a Recife pouco antes do almoço, passava um par de horas no porto e às três

da tarde já estava na estação ferroviária, embarcando de volta para casa. De

vez em quando passava no jornal para ver o filho, e, nas raras ocasiões em

que dormia em Recife, podia ser visto à noite nas palestras organizadas na
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FERNANDO MORAIS


redação do Jornal Pequeno por seu proprietário, Tomé Gibson. Acabava apa-

recendo na alfândega apenas uma ou duas vezes por semana.

Chateaubriand via o comportamento do pai com apreensão e pressentia

que ele acabaria tendo problemas com seus superiores. Nas rodas da cidade

já se comentava que havia qualquer coisa contra ele, algo como um proces-

so, ou uma denúncia, circulando pela burocracia federal em Recife. Mesmo

estando com o espírito preparado, levou um choque quando alguém lhe en-

tregou, na rua, uma plaquete de quarenta páginas impressa nas oficinas do

Diário de Pernambuco, encimada pelo título assustador: "Proezas do chefe de

seção Chateaubriand de Melo nas alfândegas do Pará e de Pernambuco".

Tratava-se de um longo e minucioso dossiê contra o pai, assinado pelo coro-

nel Manuel Pinto da Fonseca, inspetor do Ministério da Fazenda. Os dois ha-

viam se tornado inimigos no Pará, quando o pai acusara o coronel de ter

recebido como propina, de um fornecedor de material para as obras da al-

fândega, um luxuoso serviço de cristal e prata importado da Europa, avalia-

do em dez contos de réis. A partir de então Pinto da Fonseca dedicaria seus

dias a vigiar pessoalmente os deslizes do desafeto - tarefa que não deman-

dou grande esforço. O filho tinha ouvido falar da briga dos dois, mas não po-

dia imaginar que uma futrica de barnabés terminasse em escândalo público.

Sentado num canto da redação, correu ansiosamente os olhos pelo livrete.

Era um relatório sobre as atividades do pai no serviço público, seguido da

transcrição de dezenas de telegramas enviados pelo inspetor ao ministro da

Fazenda, Davi Campista, contendo críticas funcionais a Francisco José. O fo-

lheto começava acusando-o de incompetência e absenteísmo e relacionava

várias suspensões que recebera como punição por não comparecer ao traba-

lho. Só então Chateaubriand entendeu por que o pai dispunha de tanto tem-

po para cuidar de Floresta dos Leões ou, quando trabalhava em Belém, para

estar tantas vezes com a família em Recife. "Esse desequilibrado que se au-

to-intitula um 'Leão da Floresta' fez mais", dizia a denúncia, "liderando mo-

vimentos de agitação e anarquia na alfândega contra a inspetoria." Entre os

delitos de que o coronel Pinto da Fonseca acusava o pai, na passagem deste

pela alfândega do Pará, havia desde "esbanjamento de dinheiro público na

compra de limpa-penas" até a reintegração de um funcionário, anteriormen-

te demitido pelo inspetor, "que havia sido condenado pelo crime de pede-

rastia". .

O relatório terminava falando da grande paixão de Francisco José por

Floresta dos Leões: "Haja o que houver, esteja onde estiver, sejam quais fo-

rem as suas obrigações na alfândega de Recife, às três horas da tarde há de

forçosamente abandonar tudo para tomar o trem que deve conduzi-lo a Flo-

resta dos Leões, que constitui o objeto principal de sua monomania. Ali resi-

diu e continua a residir, e diz abertamente que só aceita o emprego no Mi-

nistério da Fazenda com a condição de poder morar lá. Passa quase todos os


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


dias à porta da repartição ou percorrendo o comércio à cata de donativos pa-

ra o monumento que pretende erigir aos heróis pernambucanos em Floresta

dos Leões - dos quais ele se intitula o rei. Funcionário desequilibrado, co-

mo todos o reconhecem, alardeia não temer nem recear coisa alguma en-

quanto dispuser do apoio do senador Herculano Bandeira de Melo - e não

foi debalde que promoveu recepção festiva ao senhor presidente da Repúbli-

ca em Floresta dos Leões. Pela sua reconhecida inépcia e inaptidão, é inteira-

mente inútil em qualquer cargo, muito principalmente no de chefe de seção.

A bem da decência e da disciplina, venho rogar a Vossa Excelência, senhor

ministro, que se digne de retirar desta alfândega referido chefe de seção".

Chateaubriand respirou aliviado ao terminar a leitura. Apesar da dure-

za com que o pai era tratado, não havia no documento nada que atingisse

sua honra. As maiores acusações eram quase ingênuas e referiam-se a traços

de personalidade que ele via como virtudes - a excentricidade e a paixão

por Floresta dos Leões. Ao encontrar-se com o velho dias depois, na casa de

Pessoa de Queiroz, perguntou se ele já tinha visto o livrete e recebeu como

resposta um sorriso:

- Esse coronel é um maníaco, meu filho. Não dê importância ao que

ele diz.

Aparentemente o ministro da Fazenda pensava da mesma forma, pois,

apesar da veemência da denúncia, Francisco José permaneceu no posto, e

sem mudar seu comportamento. Como se nada tivesse acontecido, deixava

a alfândega todos os dias às três da tarde para tomar o trem para Floresta

dos Leões. A vida do pai continuava a mesma, mas a de Chateaubriand es-

tava na iminência de mudar mais uma vez. O pagamento do salário no jor-

nal começou a atrasar, os anúncios de empresas que dependiam do governo

estadual tornavam-se raros. Os artigos de Godói e Vasconcelos mostravam

que o fim do matutino estava próximo. "Contra nossa riqueza produtiva que

diminui, inventam-se novos impostos; contra a nossa liberdade política, as-

sestam-se as baterias constitucionais", escrevia ele. "É visível a soma de sa-

crifícios que tenho feito para manter a Gazeta do Norte, que, enquanto estiver

sob a minha direção, há de mostrar ao público as escandalosas negociatas, os

indecentes arranjos dessa administração sem escrúpulos que arrasou o poder

econômico do estado." Em 27 de julho de 1907 Vasconcelos reuniu os funcio-

nários para informar que naquele dia o jornal circularia pela última vez.

Chateaubriand iria amargar um longo período de desemprego. A pou-

ca experiência acumulada no jornal era insuficiente para pleitear um lugar

nos grandes diários da cidade, e os pequenos não tinham condições de pa-

gar salário decente a ninguém. Ao saber que a Gazeta tinha fechado as por-

tas e o filho estava com dificuldade de conseguir emprego, o pai se sentiu à

vontade para chamá-lo para uma conversa séria. Num jantar no Rio Hotel,
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aconselhou-o a aproveitar a oportunidade e dedicar-se com afinco aos pre-

paratórios para ingressar na Faculdade de Direito. Dali a alguns meses ele

terminaria o ginásio e o melhor que faria era guardar aquele tempo para

entrar com brilho na universidade. Francisco José assegurou que voltaria a

pagar todas as suas despesas em Recife, compromisso que abandonara a pe-

dido do filho quando este começou a trabalhar no jornal. A contragosto Cha-

teaubriand aceitou a proposta - mesmo porque não tinha alternativa -,

deixando claro ao pai, no entanto, que bastaria garantir o pagamento das re-

feições no hotel. Para suas despesas pessoais, ele faria bicos na cidade e ar-

ranjaria algum dinheiro.

Com prazer ele se entregou inteiramente aos livros durante mais de um

ano. Quando se cansava das aulas de filosofia e dos compêndios de direito

em alemão e francês, mergulhava na leitura dos grandes articulistas da épo-

ca, cujos trabalhos recortava e guardava para ler em pacotes nos intervalos

dos estudos. Nesse período, leu tudo o que escreveram os mais importantes

nomes da imprensa de Pernambuco e do Sul, como Alcindo Guanabara,

Eduardo Salamonde, Carlos de Laet - de cujos artigos já era colecionador

- e mesmo Rui Barbosa, que não militava então na imprensa diária. Aos

poucos foi adquirindo, com aqueles autores, a convicção de que, mesmo em

um ensaio publicado num jornal diário, o raciocínio transformado em argu-

mento era muito mais sólido que o mais contundente adjetivo. Ao ser apre-

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CHATÔ, O REI DO BRASIL


tado pelo amigo Pedro Paranhos à obra de Eduardo Prado, leu com avi-

a Ilusão americana, os Fastos da ditadura, os estudos sobre Anchieta e a co-

ação jesuíta. Formado em Paris e sobrinho-neto do barão do Rio Bran-

co, Paranhos não apenas indicava leituras para Chateaubriand, mas também

familiarizava o amigo com os bons modos europeus. Referindo-se a ele co-

mo "o fidalgo da caatinga", Chateaubriand o anunciava como sendo o res-

ponsável por sua evolução da barbárie para a civilização. "Pedroca Paranhos

foi quem me ensinou maneiras e savoir faire. Até conhecê-lo eu era cru, e a

partir daí comecei a perder minha natureza anti-social", dizia. "Antes disso,

eu não passava de um barbatão da caatinga, um garrote que nunca levou fer-

ro. Foi Pedroca quem me ferrou e marcou meu couro para a vida civilizada."

Leu tudo o que caiu em suas mãos e ainda conseguiu tempo para dar aulas

particulares, escrever pequenos artigos para jornais e, com isso, levantar al-

gum dinheiro.

Com os olhos voltados apenas para os jornais, terminou o ginásio com

um desempenho abaixo do medíocre. Quando recebeu o histórico escolar

que acompanhava o diploma, leu sem surpresa que das dez matérias cons-

tantes do currículo ele tinha recebido "Plenamente" apenas em francês e in-

glês. Em letras vermelhas o boletim trazia, adiante das oito disciplinas res-

tantes, a palavra "Simplesmente ". Seu objetivo, entretanto, era outro. O esforço

que fizera ao longo de tanto tempo seria recompensado no dia 2 de novem-

bro de 1908, quando recebeu o resultado do exame de habilitação ao curso

jurídico e social da Faculdade de Direito. Ele tinha sido aprovado com grau

nove em filosofia do direito e seis em direito romano. As notas obtidas resul-

tavam de uma tática deliberada: ele aprofundou-se em filosofia do direito,

aproveitando a facilidade de ler alemão fluentemente, para garantir assim a

admissão, ainda que recebesse nota baixa na segunda matéria. Agora ele po-

deria dedicar-se ao estudo de direito romano sem a ansiedade que o exame

provocava.

A notícia de que Chateaubriand, encerrados os preparatórios, já estava

de novo disponível para o trabalho - e procurando emprego - chegou aos

ouvidos do jornalista Pedro Avelino, amigo de seu pai. Avelino localizou-o

no sobradão dos Pessoa de Queiroz para segredar-lhe que um grupo de in-

telectuais da cidade, liderados pelo professor Henrique Augusto Millet, es-

tava preparando o lançamento de um novo jornal para os próximos dias. O

Pernambuco - assim se chamaria o diário - já tinha três andares alugados

nas imediações do rio Capibaribe e em poucas semanas o jornal estaria nas

ruas. Se quisesse trabalhar como aprendiz, Avelino arranjaria o emprego. O

salário não seria lá essas coisas, mas revelando talento para a profissão logo

ele seria promovido. No íntimo Chateaubriand sentia-se ofendido por rece-

ber um convite para ser "aprendiz" e ganhar meio salário, mas não podia jo-

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FERNANDO MORAIS
gar fora a oportunidade de voltar a uma redação. No último dia do mês de

novembro ele estreava como aprendiz de repórter de O Pernambuco. Quan-

do circulou o primeiro número do jornal, ficou constrangido diante dos ami-

gos e dos frades do convento, a quem falara com entusiasmo sobre o novo

emprego, ao ver que fora esquecido pelos patrões. Na primeira página, sob

o título "Os nossos", o diário publicou os nomes dos componentes da reda-

ção "para facilitar-lhes a entrada nos lugares até onde seja lícito penetrar um

representante da imprensa e para evitar que pessoas inteiramente estranhas

à nossa tenda de trabalho ilaqueiem a boa-fé do público, dizendo-se envia-

das do Pernambuco sem de fato o serem". Passou os olhos na lista e não en-

controu o seu nome.

Arrependeu-se de ter aceito o emprego de aprendiz. A discriminação

deixou-o irritado, mas não havia mais remédio, ele ia continuar no jornal. A

vida nova de universitário o arrebatava. Ele já não se apresentava mais às

pessoas envergonhado de ser apenas um colegial - agora era um acadêmi-

co de direito. Nem sempre era necessário declinar a condição. Na época es-

tava em voga entre os universitários andar de fraque, cartola, polainas e até

de luvas - igualzinho ao promotor de Campina Grande que ele silenciosa-

mente ridicularizara. Chateaubriand não resistiu à moda. Juntou o dinheiro

que tinha guardado, conseguiu mais algum com o pai e providenciou uma

farpela como exigia a etiqueta acadêmica. Não dispensou sequer o plastrom,

peitilho duro de fustão engomado. Ele planejava dedicar todas as suas ener-

gias ao curso. Invejando a fama dos grandes juristas do Rio, imaginava ter-

minar a faculdade com brilho, embarcar para o Sul e montar uma poderosa

banca na capital da República. Com o passar do tempo, porém, a vida no jor-

nal ia aumentando a sedução sobre ele. Não que isso o fizesse relegar a fa-

culdade a segundo plano. Ao terminar o primeiro período letivo, estava en-

tre os alunos com o melhor aproveitamento da classe - nas provas finais,

sua nota mais baixa tinha sido oito, em direito constitucional. Nas outras dis-

ciplinas - direito internacional público, direito civil, direito internacional

privado e diplomacia - recebera grau nove. Mas a tentação continuava no

jornalismo. Sem deixar o trabalho no Pernambuco, conseguiu publicar cola-

borações regulares sobre agricultura e pecuária no jornal A Cidade, de Naza-

ré da Mata, nas imediações de Floresta dos Leões.

Foi nessa época que Chateaubriand viveu sua primeira e platônica pai-

xão. A moça se chamava Amélia Jansen de Almeida Castro, sobre quem ele

pôs os olhos pela primeira vez na casa de Lily Bandeira de Melo, prima de

seu pai. Ele já tinha ouvido o pai falar da avó dela, Ana Jansen, de cuja famí-

lia se aproximara em Belém do Pará. Lily, a prima - que era ferrenha adep-

ta do espiritismo -, soube que Chateaubriand andava "com indagações fi-

losóficas sobre a existência de Deus" e resolveu convidá-lo para uma das
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FERNANDO MORAIS


sessões espíritas que organizava em sua casa, num segundo andar da rua Fi-

lipe Camarão, em Recife. Ele já havia lido tudo o que havia nas livrarias da

cidade sobre Allan Kardec, Gabriel Delannee e Katie King, mas reagira com

esnobismo àquele mundo povoado de fantasmas:

- À exceção da metafísica germânica, as forças anímicas secretas me

deixam frio, indiferente.

Lily insistiu dizendo que identificara em Chateaubriand vocações me-

diúnicas, e que tais virtudes não podiam ser desperdiçadas. "Não adianta

vocês tentarem reeducar almas penadas por meu intermédio", ele respondia,

"pois no meu subterrâneo só vão encontrar feras primitivas e monstros sub-

versivos." Acabou cedendo aos apelos e freqüentando o centro por algumas

semanas. Para frustração de Lily, a única alma a interessá-lo ali não era a dos

mortos, mas a de Amélia. A insuperável timidez, todavia, o impedia de apro-

ximar-se da moça. Quando ela deixou de ir ao centro espírita ele também

desapareceu de lá. Durante alguns meses alimentou a esperança de um dia

criar coragem e abordá-la. Leu poetas românticos para memorizar versos e

ter alguma coisa original a dizer-lhe, mas a vergonha era maior que a pai-

xão. O encanto morreu sem que a jovem tivesse ouvido dele uma só pala-

vra de amor. Amélia acabaria casando-se com um amigo de Chateaubriand.

E dela ele só voltaria a ter notícias muitas décadas depois, quando se tor-

naria amigo dos netos de sua irmã, Hortênsia, que se casara sucessivamente

com os empresários Alberto Monteiro de Carvalho e Olavo Egídio de Souza

Aranha.

Chateaubriand associava a timidez à sua fragilidade e à total inaptidão



para qualquer esforço físico. Ele não se animava a fazer nenhuma ginástica.

Passava a vida estudando e trabalhando, mas invejava nos amigos - que

eram muito poucos - o gosto e a disposição para os esportes. Ia da Facul-

dade de Direito para o jornal e de lá para casa, passando ao largo dos bailes

e farras freqüentados pelos colegas. Não fumava e muito raramente aceita-

va uma taça de vinho ou champanhe. Durante os cinco anos em que viveu

na casa dos Pessoa de Queiroz, jamais aceitou um convite para subir um lan-

ce de escadas e almoçar com o casal e as filhas, tal era seu embaraço, mesmo

diante de pessoas amigas. Trazendo no rosto um ar de tristeza eterna, ves-

tia-se sempre como um velho, de terno e chapéu pretos. Ao ser apresentado

a Gilberto Amado, seu contemporâneo de faculdade e redator do Diário de

Pernambuco, apenas apertou-lhe a mão e pronunciou duas ou três palavras

gentis. Ao afastar-se, ouviu o jovem polemista perguntar:

- Quem é esse magrelo elétrico que parece um calango assustado?

Não se ressentia por não ser um boêmio festeiro, mas lamentava que a

timidez o impedisse de praticar esportes. Não conseguia nem nadar em pú-

blico, coisa que o atraía desde os tempos do Capibaribe Mirim, em Timbaú-

ba. Ir à praia significava exibir sob a camiseta o peito fino como um caniço e


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


revelar aos passantes sua saúde precária. A timidez o estava transformando,

confessava aos amigos, "num neurosado puro, dominado por uma saraban-

da de fantasmas". Ao completar dezessete anos imaginou que o remédio

para seus males poderia estar no Exército. Sem consultar ninguém, alistou-

se como soldado do 34" Batalhão de Infantaria do quartel de Peixinhos, em

Recife. Mas de novo a saúde seria um obstáculo. Dois carimbos azuis da jun-

ta médica do quartel selaram a exclusão: "saúde insuficiente" e "estatura fí-

sica inferior aos padrões exigidos pelas Forças Armadas". Humilhado, deci-

diu que iria servir o Exército de qualquer maneira. Ao contrário dos rapazes

de sua idade, que recorriam aos amigos influentes para escapar do recruta-

mento, ele foi bater às portas de Pedro Paranhos para conseguir a anulação

do laudo que o impedira de prestar o serviço militar. Semanas depois apre-

sentava-se fardado ao capitão Irênio Silva, comandante do batalhão de in-

fantaria.

Se não mudou em nada sua aparência, à primeira vista a exaustiva roti-

na militar ajudou muito a romper com a timidez - ou pelo menos com a

vergonha de praticar esportes. Mas no primeiro exercício de marcha feito

pela tropa achou que ia morrer. Era um trajeto de vinte quilômetros pelo

mato. Antes de chegar à metade começou a sentir vertigens, a visão ficou

turva, o ar não chegava aos pulmões. Ao perceber que ele arquejava de can-

saço, o capitão Irênio aproximou-se e aconselhou:

- Menino, saia de forma e tome o trem de volta para o quartel.

Apesar de ofegante, Chateaubriand recebeu a ordem como um insulto,

uma chicota da. Disciplinadamente, rejeitou a sugestão do chefe:

- Capitão, em nome do meu dever de soldado, não posso aceitar a aju-

da que o senhor me oferece. Vou continuar a caminhada.

Foi a pé até o fim da marcha, mas seus superiores perceberam que seria

desumano tratá-lo como um jovem normal. O comandante do quartel, coro-

nel Alberto Gavião Pereira Pinto, chamou-o para uma conversa e ofereceu-

lhe funções administrativas, mais compatíveis com sua saúde. Ele rejeitou:

- Eu me alistei voluntariamente no Exército para aprender a obedecer

e a mandar. Não sou doente e não quero ser tratado assim. Não posso abrir

mão de praticar todos os exercícios que são impostos à tropa.

O coronel decidiu por uma solução intermediária. Ele passaria a dirigir

o jornalzinho do quartel, chamado O Fundão, e faria palestras para a tropa

sobre grandes batalhas militares. Para não perder o contato com os soldados,

continuaria participando dos exercícios mais leves e poderia escolher algum

esporte para praticar regularmente. Um ano depois, ao cruzar pela última

vez os portões do 34" Batalhão de Infantaria, se não era um campeão, Cha-

teaubriand pelo menos já podia se considerar um exímio praticante de esgri-

ma. A timidez nãu tinha sido de todo vencida, mas deixara de ser, como no
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FERNANDO MORAIS


passado, uma doença. E, se um ano de dura disciplina não fora suficiente

para ensiná-lo a obedecer, sem dúvida nenhuma ele aprendera a mandar.


A moda na imprensa brasileira na virada do século não era a notícia,

mas a polêmica. Jornalista que decidisse fazer carreira como grande editor

ou como repórter de talento estava condenado a desaparecer sob a poeira da

obscuridade. Quem tivesse planos de brilhar, que preparasse a pena e arran-

jasse alguém para combater. A polêmica era o palco ideal para o exercício da

elegância, da erudição e, quase sempre, da ferocidade no ataque. Verdadei-

ro teste de resistência, sua importância podia ser medida pelo tempo que du-

rasse, com os dois contendores de pé. Uma polêmica que só resistisse um

mês não era digna do nome. Mais do que o conteúdo, foi o tempo de dura-

ção que imortalizou, por exemplo, a guerra de palavras entre o jurista Ernes-

to Carneiro Ribeiro e Rui Barbosa em torno do projeto de Código Civil do

presidente Campos Sales, no segundo ano do século. A rigor, o assunto não

deveria ultrapassar as paredes dos tribunais e da Câmara dos Deputados,

mas foi nas páginas dos jornais que os dois duelaram. A arenga durou até

1905. Foi assim que o Brasil alfabetizado se emocionou, como nas lutas de

boxe, com disputas memoráveis como "Carlos de Laet contra Camilo Caste-

lo Branco", "Júlio Ribeiro contra o padre Sena Freitas " ou "Hemetério José

dos Santos contra Machado de Assis". Iniciada a peleja, os litigantes estavam

qualificados a se apresentar em público não apenas como jornalistas ou ad-

vogados, mas como "polemistas". E quanto mais notável fosse a vítima da

polêmica, tanto maior seria o prestígio do polemista.

No auge da chamada Campanha Civilista, em 1910, quando Rui Barbo-

sa disputava a Presidência da República com o marechal Hermes da Fonse-

ca, Chateaubriand já havia deixado o Pernambuco e trabalhava no Jornal do

Recife, diário de propriedade de Luís de Faria. Embora não houvesse diferen-

ças essenciais nas propostas dos dois candidatos a presidente, Rui Barbosa

ainda desfrutava as glórias de seu desempenho na conferência internacional

da Holanda, de onde voltara como o "Águia de Haia". O pequenino baiano

anunciava que o Brasil vivia uma guerra entre a pena (ele) e a espada (o ma-

rechal). Em defesa do voto secreto, percorreu o Brasil realizando conferên-

cias públicas e inaugurando prática inédita por aqui - uma campanha elei-

toral. A disputa dividiu o país. No Rio de Janeiro, partidários do

hermismo


usavam as colunas do Jornal do Comercio e de A Imprensa para combater Ma-

nuel de Oliveira Lima, escritor e diplomata pernambucano ligado a Rui Bar-

bosa. Membro da Missão de Propaganda e de Expansão Econômica do Brasil

na Europa, Oliveira Lima era acusado de usar o posto oficial, em conferên-

cias internacionais, para empurrar o Brasil para posições antiamericanas.
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CHATÔ, O REI DO BRASIL


Tratava-se de uma típica polêmica federal, que jamais passaria pela pro-

víncia. Mas, quando os ecos dela aportaram em Recife, Chateaubriand decidiu

apresentar-se como voluntário naquela guerra, sem ter sido convocado por

ninguém. Ele sabia que na verdade o que importava não era a vítima dos ata-

ques, mas a eleição presidencial e os dois candidatos. Além de concordar com

as posições de Oliveira Lima, havia outro dado a justificar sua intromissão na-

quela peleja de gigantes: o ofendido era um pernambucano, que precisava ser

defendido por um nordestino. Mesmo conhecendo-o superficialmente, Cha-

teaubriand alimentava a distância grande admiração pelo gordíssimo e ferino

diplomata, um maníaco pela atividade epistolar que chegava a escrever 1600

cartas por ano aos amigos. Sua intenção não era esgrimir com o Jornal do Com-

mercio ou com Alcindo Guanabara, seu antigo ídolo e diretor de A Imprensa.

Nem sequer a defesa de Oliveira Lima o seduzia tanto. O que ele queria era

bater-se com o hermismo.

Quando saiu publicado no Jornal do Recife, seu primeiro artigo, intitula-

do "Em defesa do sr. Oliveira Lima", foi recebido com olímpica indiferença

pelo público. Os leitores nem mesmo sabiam quem era o "A. Bandeira de

Melo" que o assinava. Três dias depois, no entanto, outro artigo aparecia no

jornal com a mesma assinatura e sob o mesmo título. Só então se percebeu

que alguém - o tal A. Bandeira de Melo - decidira meter Pernambuco na-

quela briga nacional com dureza nunca vista, nem nas melhores polêmicas

do Rio de Janeiro. Advertido por amigos, o "coronel" Faria, dono do jornal,

logo decidiu: não haveria um terceiro artigo nem o autor continuaria traba-

lhando no jornal. Indignado, acabou pessoalmente com o atrevimento. Cha-

mou Chateaubriand à sua sala e passou-lhe uma descompostura:

- Sua linguagem rude não cabe em nosso jornal, seu Bandeira de Melo.

Seus artigos ferem a linha de conduta e a orientação política do Jornal do

Re-


cife.

- O senhor não tem que se amedrontar com minha linguagem, coronel.

Meu objetivo não são os homens de bem, mas apenas certos judas da vida

nacional.

- Quem o senhor imagina que é para usar o meu jornal em insultos ao

ex-ministro da Guerra? O senhor não sabe que eu sou hermista, que este é

um jornal hermista? Só mesmo em Pernambuco um frangote de dezessete

anos se dá a petulância de enfiar-se numa questão como essa e de se imis-

cuir nos problemas internacionais do Brasil.

Chateaubriand ainda tentou argumentar, mas o velhote já tinha decre-

tado o fim de tudo aquilo:

- Gostaria que o senhor se considerasse posto para fora deste jornal a

pontapés.

Inconformado, tentou arranjar outro veículo para publicar a série abrup-

tamente interrompida, mas ninguém quis mexer naquele vespeiro. Temeroso
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FERNANDO MORAIS


de que sua estréia na polêmica pudesse abortar por falta de palco, bateu em

todos os jornais da cidade. Mas, assim como os três partidos políticos locais,

também a imprensa pernambucana estava toda comprometida com o her-

mismo. Chateaubriand não entregou os pontos: juntou suas economias, pe-

diu dinheiro emprestado aos amigos e mandou imprimir por conta própria

um folheto de quarenta páginas, contendo os dois artigos que causaram sua

demissão e mais os sete seguintes, que tinham sido censurados. O título do

trabalho era o mesmo dos artigos: "Em defesa do sr. Oliveira Lima". Admi-

rador de Camilo Castelo Branco, mandou imprimir na capa palavras do pan-

fletário português: "Este país é uma calamidade, acorrentado a um pelouri-

nho de opróbrio". Aproveitou o prefácio para "zurzir o sr. Luís de Faria" e

tornar públicas as razões que o levaram a pagar do bolso a publicação de ar-

tigos que a imprensa local rejeitara.

Ele acusava os dois jornais cariocas de funcionar "à custa das achegas

dos cofres públicos " e defendia Oliveira Lima com fervor: "Não é possível

deixar ser assim vilipendiado um brasileiro de caráter, simplesmente, só e só

porque ele se recusou, altiva e dignamente, a receber no balcão da Europa os

trinta dinheiros com que deveria acovardar-se ante a grimpa do militarismo

recidivo". Quanto à questão central do debate - o antiamericanismo de Oli-

veira Lima -, Chateaubriand sustentava que "o perigo americano reside na

desmedida ascendência moral, política e econômica dos Estados Unidos so-

bre todo o continente" . Esbanjando surpreendente erudição para um adoles-

cente, citava Renan, Nietzsche, Cantù e Bluntschli para argumentar que o

Brasil, fruto da mistura de negros, índios e portugueses, deveria ver com

cautela a aproximação com us Estados Unidos: "Sabe-se do ódio que os nor-

te-americanos têm ao negro. O linchamento e a fogueira são processos sumá-

rios para matar-se os filhos da raça maldita. Um preto criminoso ali rara-

mente vai ao tribunal. Uma multidão ululante, com alguns paus de lenha e

uma lata de querosene - esse é o júri que aguarda o infrator da lei. Isso não

é justiça, dizemos nós. Mas é yankee, forçoso é obtemperar".

Segundo Chateaubriand, a polêmica ocultava o ódio hermista ao civilis-

ta Oliveira Lima, que por razões de princípio se recusara a receber na esta-

ção de Bruxelas o futuro presidente da República. E, se a questão era o mili-

tarismo, então que se discutisse o militarismo sem rodeios. Para isso, era

preciso ir às raízes do problema no Brasil, coisa que ele fazia, ao encerrar o

folheto, com indagações provocadoras: "Que foi a proclamação da Repúbli-

ca, senão uma revoluçãu de quartéis, uma rebelião da tropa? Quem melhor

do que o marechal Floriano Peixoto encarnou o militarismo, o privilégio da

classe, o ódio ao civil?".

À repercussão foi imediata. Pernambuco silenciara diante dos ataques a

um filho ilustre que, afinal, fora defendido por um moleque nascido na Pa-

raiba. Até os mais fiéis defensores do marechal Hermes da Fonseca viram-se


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


obrigados a reconhecer a coragem e o atrevimento do garoto. Semanas de-

pois que o folheto circulou em Recife, Ulisses Costa, antigo redator-chefe de

A Cidade, de Nazaré da Mata, abriu-lhe as portas mais difíceis da imprensa

pernambucana, conseguindo para ele um emprego de redator do Diário de

Pernambuco. O salário de cem mil-réis - nenhuma fortuna, mas muito di-

nheiro para alguém de dezessete anos - permitiu que ele abandonasse as

aulas de lógica e psicologia que dava diariamente na Associação Cristã de

Moços. Ainda saboreando a glória do panfleto, recebeu um convite para ga-

nhar trezentos mil-réis mensais como articulista do Jornal Pequeno. Os dois

diários eram hermistas declarados, mas ninguém queria perder a oportuni-

dade de ter em suas páginas, devidamente policiado, o pequeno demônio

paraibano. Mesmo consagrado em Pernambuco como polemista, Chateau-

briand não se deu por satisfeito. Ao visitar seu amigo Pedro Paranhos, co-

mentou que tudo aquilo não passava de provincianismo:

- Uma boa polêmica tem que ser travada no Sul, ou não terá repercus-

são nacional. E isso é só uma questão de tempo. Vou temperar o aço do meu

florete e ficar em guarda, porque não tarda muito e o inimigo aparece.
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Chateaubriand já havia recusado vários convites para disputar cargos

eletivos. Justamente em 1951, quando decidiu que queria ser senador, não

era ano de eleições. Nem aquele, nem o próximo, nem o seguinte. Inconfor-

mado, resolveu pedir socorro ao amigo Drault Ernanny, que andava de na-

moro com o presidente Getúlio Vargas. Embora fosse dono de uma empre-

sa petrolífera, Drault era, paradoxalmente, um conhecido defensor dos

planos de Vargas de estatizar a exploração de petróleo no país - circunstân-

cia que nos últimos meses lhe abrira as portas do Palácio do Catete. No final

daquele ano, poucas semanas depois de tomar a decisão, o jornalista foi à

casa do amigo em busca de uma intermediação com o presidente:

- Seu Drault, andei dando um balanço na trajetória dos Associados e o

resultado do inventário é de encher os olhos: já temos dezenas de jornais e

estações de rádio, duas televisões, uma editora de livros e a revista mais im-

portante da América do Sul.

O banqueiro paraibano apenas olhava, curioso por saber aonde aquela

conversa ia chegar, enquanto o jornalista caminhava pela casa, falando sem

parar e gesticulando de maneira teatral:

- Ou seja, temos tribunas impressas, tribunas radiofônicas e até essas

mágicas tribunas televisivas. Temos tudo? Não, seu Drault, não temos. O

que falta ao time dos Diários Associados é uma tribuna convencional, uma

caixa de sabão onde eu possa subir e falar em nome da nossa cadeia. Por que

é que faço todos esses rodeios? Para lhe comunicar que refleti bastante e de-

cidi que vou ser senador.

Drault Ernanny festejou a decisão de Chateaubriand, mas este chamou-

lhe a atenção para o obstáculo legal:

- O problema é que a próxima eleição para o Senado, que renovará um

terço daquele parlamento, só vai acontecer em outubro de 1954, daqui a qua-

se três anos, e eu queria ser senador já.

O outro reagiu com espanto:

- Esse não é apenas "um problema" como você pensa, Chateau-

briand. É a Constituição do país que estabelece isso. Se só vai haver eleições

em outubro de 1954, você só poderá disputar a sua vaga no Senado naque-

la data. Esse é um obstáculo insuperável, que nem Vargas nem ninguém

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CHATÔ, O REI DO BRASIL
Até então os dois haviam coexistido pacificamente na redação da revis-

ta, dirigida por Veríssimo e que tinha como colaboradores, entre outros, Ma-

chado de Assis, Joaquim Nabuco, Graça Aranha e o próprio Sílvio Romero.

As três dezenas de palavras, porém, foram suficientes para pôr fim ao armis-

tício. Indignado, Romero passou a fustigar Veríssimo em artigos publicados

em jornais. Quando não havia o que criticar na obra do outro, decaía para

ofensas pessoais, chegando a debochar da cor parda da pele de Veríssimo.

Os ataques eram eventualmente respondidos por este, mas a polêmica só to-

maria vulto muito tempo depois, quando Veríssimo publicou pela editora

Garnier o livro Que é literatura?. Ao final de ensaios sobre Sainte-Beuve, Rus-

kin e Nietzsche, Veríssimo destina as últimas sessenta páginas do livro a res-

ponder à campanha que Romero lhe movia. Tratando-o de "matuto ", "paxá

da crítica indígena" e "manipanço provinciano", acusa Romero de ter passa-

do trinta anos refazendo sempre a mesma obra, a própria obra: "Em país al-

gum, em literatura alguma, talvez nenhum autor se tenha tanto citado a si

mesmo como o senhor Sílvio Romero. Dificilmente se lhe encontrará uma

página em que Sílvio Romero não cite Sílvio Romero. Jamais se viu tão ex-

traordinário caso de masturbação intelectual".

Leitor e simpatizante do autor, Chateaubriand acompanhava a distân-

cia a guerrilha de farpas, e exultou quando finalmente chegou à Livraria

Francesa de Recife o exemplar do livro de Veríssimo que havia encomenda-

do. Conhecendo bem o ofendido, entretanto, comentou com os amigos per-

nambucanos que o agressor podia se preparar para o pior:

- Para escrever a resposta, Romero vai molhar sua pena em ácido sul-

fúrico. Estamos diante de um embate de paquidermes, meus senhores!

Só muitos meses depois, já em 1910, entretanto, é que apareceriam nas

livrarias recifenses os primeiros exemplares da réplica de Sílvio Romero. Ela

veio sob a forma do livro Zéverissimações ineptas da critica (repulsas e desaba-

fos), publicado pela lusitana Editora do Porto. Ansioso, Chateaubriand co-

meçou a leitura encostado ao balcão da Francesa. Sem prefácio, prólogo ou

introdução, o autor ia direto à garganta do inimigo, nas primeiras linhas:

"Não costumo ler o sr. José Veríssimo, principalmente depois do seu último

concurso de história geral e do Brasil, em que se revelou duma ignorância

abaixo de qualquer classificação. Já dantes raramente o lia, por causa da cha-

teza de suas idéias, a confusão de seu espírito, o tom rebarbativo de seu es-

tilo, a irritante pretensiosidade de seu dogmatismo, disfarçado entre conjun-

ções e advérbios contraditórios ". Meia dúzia de páginas adiante e ele era

ainda mais duro: "Anda, Zezé, pede auxílio ao Capistrano, o famigerado, e

vem; quero esmagar-te de vez, patureba".

Ele fechou o volume e comentou com o livreiro Manuel Nogueira:

- Pelo jeito, é puro curare. É letal.
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FERNANDO MORAIS


Correu à redação do Jornal Pequeno e em um par de horas já tinha lido

todas as 180 páginas. Era material corrosivo, como jamais se publicara em

qualquer polêmica anterior. Veríssimo era chamado de "tucano da literatu-

ra brasileira", "Zebríssimo" e tratado como um ignorante: "Ele não com-

preende a etnografia, nada sabe de mitologia, de crítica religiosa, de econo-

mia política, de direito, de moral, de ciência social - o que importa dizer, é

um incompetente para julgar a vida intrínseca de um povo. Zé Veríssimo, no

seu atraso, nunca entendeu a moderna crítica sociológica, por mim introdu-

zida no Brasil. Aprende, Zé, abre os olhos, estuda, lê coisas sérias. A cada

capítulo a fuzilaria se intensificava. Ironizando a análise da obra de Nietzsche

feita por Veríssimo, Romero dizia que "em 1868, quando no Recife eu e meus

amigos líamos Comte, Littré, Buckle, Scherer, Taine, Max Mizller, Renan, Va-

cherot, ele não passava de um caborezinho de onze anos. José Veríssimo an-

dava ainda pescando tartarugas no Amazonas ou tomando açaí em Belém

quando eu e Tobias já tínhamos saído do positivismo". Como golpe de mi-

sericórdia, apelava ao racismo: "E quem se atreverá a duvidar, no Brasil, que

um mulato escuro como o sr. José Veríssimo, o nosso pardo Zezé, por exem-

plo, não é um latino e que os latinos do século v não eram mais arianos?"

Atordoado com o que acabara de ler, Chateaubriand correu à sala de

Tomé Gibson, diretor do jornal, para anunciar que tinha decidido se intro-

meter entre as duas locomotivas que se chocavam. Com o livro na mão,

ameaçou:


- Seu Gibson, vim comunicar-lhe que escolhi o seu jornal para respon-

der a este filho da puta.

Saiu de lá diretamente para as tiras - as compridas aparas de papel em

que escreviam os redatores. No dia seguinte o Jornal Pequeno começava a pu-

blicar seus cinco artigos, todos intitulados "A morte da polidez" e assinados

pelo nome que o consagrara na polêmica anterior - A. Bandeira de Melo.

Ele chamava o "livreco" de Silvio Romero de "Romerizações ineptas da crí-

tica" e se referia ao autor como "um exibicionista, um bufão, um espalhafa-

toso que elegeu a grosseria e o desaforo como armas de combate entre ho-

mens de letras". Provocador, dizia que "o sr. Romero supõe-se o maior e

melhor crítico nacional - estólido fora convencê-lo da inanidade de tão es-

tulta pretensão". Ao longo dos artigos, disseca a História da literatura brasilei-

ra, de Romero, para provar que o crítico nada sabia da língua alemã, ao con-

trário do que alardeava nos ataques a Veríssimo. Conta 21 citações em

alemão e acusa Romero de tê-las subtraído de obras traduzidas para o fran-

cês: "Ele escamoteou corajosamente em livros franceses citações em alemão

para no-las dar, já de segunda mão, como flores novas e frescas, colhidas no

luxuriante vergel de Goethe, de Wundt e confrades ". Mais grave que tudo

isso, assegurava, era o fato de o crítico ter se transformado em um "assassi-

no" com a publicação do livro contra José Veríssimo. Segundo Chateau-

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CHATÔ, O REI DO BRASIL


briand, Romero já havia trucidado as oligarquias em seus artigos e encerra-

va a lista de homicídios decretando o fim da amabilidade no Brasil: "Sílvio

Romero estrangulou a metafísica, supliciou o romantismo, matou a polidez

".

Publicado o último artigo no Jornal Pequeno, mãos anônimas se encarre-



garam de fazer chegar ao Rio, pelo primeiro vapor, a série completa. O pró-

prio Chateaubriand jamais ficaria sabendo quem patrocinou o gesto, mas a

verdade é que semanas depois já se encontrava em todas as livrarias da ca-

pital o livro A morte da polidez, de A. Bandeira de Melo. Na capa, em lugar do

nome da editora, estava escrito "Edição de alguns amigos", que os aliados

de Sílvio Romero diziam ser apenas um disfarce, já que a edição teria sido

paga por José Veríssimo. Quando soube que seus artigos tinham sido trans-

formados em um livro que estava sendo devorado pelos luminares do Rio,

Chateaubriand se preparou, aguardando o tão esperado ataque do crítico.

Os ecos do sucesso que o livro fazia no Sul não o entusiasmavam. O que ele

desejava ardentemente era bater-se com Sílvio Romero. Como aquecimento

para a luta maior, desancou o jornalista e poeta Osório Duque Estrada, au-

tor da enigmática letra do Hino Nacional brasileiro, que saíra em defesa de

Romero nas páginas do Correio da Manhã. As semanas se passavam e nenhu-

ma notícia da resposta de Sílvio Romero chegava a Recife. Nem chegaria ja-

mais. Antes de reagir, o crítico teve a cautela de informar-se com amigos de

Recife sobre a identidade do misterioso A. Bandeira de Melo. Ao saber que

o autor da petulância era um pirralho, um terceiranista de direito de Recife,

dedicou-lhe apenas um humilhante post-scriptum nas suas "Provocações e

debates " publicadas no Jornal do Commercio: "Condeno-o ao perpétuo des-

prezo, que é o que merece a audácia de um aspirante da literatura. Jamais

me ocuparei da sua pessoa ou de seus fracassados pendores críticos e literá-

rios". Para Chateaubriand aquilo era o fim. O sonho de tornar-se um pole-

mista nacional morrera provisoriamente nas cem páginas do seu livrinho.

O baque provocado pelo desfecho da frustrada polêmica só seria ame-

nizado pelo retorno da família a Recife. Com a mãe curada da tuberculose, o

pai decidira vender a casa de Floresta dos Leões e voltar com os filhos para

a capital. Embora o tio-avô Herculano Bandeira de Melo tivesse sido eleito

governador do estado três anos antes, em 1908, seu pai se recusava a aceitar

qualquer facilidade vinda da política oficial, permanecendo como fiscal da

alfândega. Para manter a família em Recife, a solução foi empregar todos os

filhos. Jorge, o mais velho, obteve uma vaga de conferente no Ministério da

Fazenda. Oswaldo foi trabalhar com o irmão jornalista como revisor do Diá-

rio de Pernambuco, e Ganot, o caçula, virou entregador de cartas do Correio.

A segurança da vida familiar só tinha um inconveniente: a mãe exigia que

todos os filhos - ele inclusive - lhe entregassem seus salários no fim do


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FERNANDO MORAIS


mês, e era ela quem administrava o destino do fundo comum da família. Pri-

meiro vinham as despesas da casa, o aluguel, a escola dos pequenos. Só o

que eventualmente sobrasse é que era redistribuído entre os quatro rapazes.

Já freqüentador das rodas da intelectualidade pernambucana, Chateau-

briand se sentia constrangido por ter de pedir dinheiro à mãe para as despe-

sas mais simples.

Embora tratado em casa como uma criança, sua vida profissional era

cada vez mais a de um adulto. Ao contrário do que decretara Sílvio Romero,

o desprezo a que fora condenado não seria tão perpétuo. Seu nome cresceu

em Pernambuco, intelectuais importantes aproximavam-se dele, e até a co-

luna de questões filológicas, que ele assinava uma vez por mês no Diário com

o pseudônimo de "Orosco ", passou a ser citada regularmente pelo grande

lingüista Said Ali no Jornal do Commercio, no Rio. À noite escrevia artigos de

fundo para o Diário de Pernambuco e para o Jornal Pequeno e durante o dia fa-

zia reportagens para o último. Seu prestígio, somado ao fato de que falava

francês e alemão, dera-lhe o privilégio de ser o entrevistador permanente

de toda personalidade importante que passasse pela cidade, escala obrigató-

ria na rota dos transatlânticos entre o Brasil e a Europa. Pelo menos uma vez

por semana ele embarcava numa pequena alvarenga que o levava a bordo

dos navios atracados na baía. Quando a permanência dos transatlânticos em

Recife era mais demorada, ele fazia as vezes de cicerone para o entrevistado

ilustre que quisesse conhecer a cidade. Foi assim que se tornou amigo de

personagens como o historiador Capistrano de Abreu, o político Maurício

Nabuco e o industrial Delmiro Gouveia, ou de estrangeiros que acabariam

tendo papel importante na sua vida, no futuro, como o milionário canaden-

se Alexander Mackenzie, da poderosa empresa Brazilian Traction. Em geral

as entrevistas eram feitas no próprio barquinho, para onde o entrevistado

era descido dentro de uma cesta amarrada por cordas ao convés dos navios.

Em uma dessas ocasiões, ao mostrar a cidade ao escritor Graça Aranha, Cha-

teaubriand apresentou Heloísa, filha do autor de Canaã, a seu patrão Fran-

cisco Rosa e Silva, dono do Diário de Pernambuco. Embora o grande chefe da

política pernambucana fosse 38 anos mais velho que Heloísa, então uma me-

nina de dezesseis anos, pouco tempo depois os dois acabariam se casando.

A vida transcorreu sem grandes tropeços até o dia 3 de abril de 1911,

quando ele sofreu o seu primeiro grande golpe. Ao chegar em casa à noite,

depois do fechamento do jornal, deu com o cadáver do pai estirado sobre

uma cama. Um infarto o matara minutos antes. A mãe e Jorge tentavam con-

solar os irmãos menores, vizinhos entravam e saíam. Alguma defesa inte-

rior contra a dor o impedia de pensar na morte e na ausência do velho - ele

só conseguia se preocupar com as providências que precisaria tomar para

garantir-lhe um enterro digno. Nos últimos anos Chateaubriand chegara a

ficar cismado com o surpreendente e rápido envelhecimento de Francisco


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


José - não tendo ainda chegado aos cinqüenta anos, o pai adquirira em pou-

co tempo a aparência de um ancião, com a cabeça e os vastos bigodes intei-

ramente brancos. Mas nada disso o levara sequer a imaginar que algum pro-

blema de saúde o estivesse afetando. Agora, ali, diante do pai morto, ele se

esforçava para não se punir pelos momentos que deixaram de estar juntos,

pelo tempo que dedicara aos livros e ao trabalho em prejuízo de um conví-

vio maior com o pai que ele conhecera tão pouco. A única maneira de não se

martirizar com aqueles pensamentos era assumir o lugar que lhe cabia a par-

tir daquele momento, o de chefe da família.

Consultou a mãe e soube que as economias acumuladas nos últimos

meses somavam quinhentos mil-réis, a quarta parte do dinheiro necessário

para pagar um enterro decente. Correu à casa de Manoel Medeiros, gerente

do Banco de Crédito Real de Pernambuco, e tomou com ele um empréstimo

de um conto e quinhentos mil-réis, amortizáveis em oito meses. Quando

chegou à Casa Agra para ajustar o enterro com Joca Arara, o dono da fune-

rária o tranqüilizou:

- Já está tudo pago e providenciado, inclusive o aluguel das charretes

para os acompanhantes. O prefeito Arquimedes de Oliveira e o doutor José

Pessoa de Queiroz passaram aqui antes do senhor e deixaram tudo acertado

comigo.


Francisco José teve um funeral de luxo, a que compareceram as figuras

mais ilustres da política e da inteligência de Recife. À saída do cemitério,

Chiquinho Rosa e Silva, filho de Francisco Rosa e Silva, chamou Chateau-

briand a um canto:

- Meu amigo, o melhor remédio para superar uma perda como esta é

o trabalho. Vem agitação política por aí e vamos precisar de gente de con-

fiança. Venha conversar comigo hoje à noite, em casa.

Depois de jantar com a mãe e os irmãos, caminhou até o casarão da rua

Benfica. Chiquinho, seu companheiro de redação no jornal, foi direto ao as-

sunto: temia-se que a oposição estivesse preparando em segredo a candida-

tura do general Dantas Barreto ao governo do estado, nas eleições do final

do ano. De Paris, onde se encontrava, o conselheiro Rosa e Silva escrevera ao

filho determinando que ninguém tomasse nenhuma atitude antes de sua

volta, mas que já fossem se preparando para a possibilidade de enfrentar nas

urnas o ministro da Guerra do presidente Hermes da Fonseca. Quando quis

saber o que deveria fazer, Chateaubriand ouviu uma resposta irônica:

- Por enquanto, nada. Apenas continuar tratando a oposição a sal e sol

no Diário e, se possível, no Jornal Pequeno também. Vamos esperar as ordens

do Conselheiro.

Francisco de Assis Rosa e Silva, o "Conselheiro" , era o mais acabado

modelo de oligarca nordestino. Milionário, ele se distinguia dos tradicionais

coronéis do interior do Brasil apenas pelos bons modos e pelo verniz de cul-


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FERNANDO MORAIS


tura adquiridos nas freqüentes viagens à Europa. Na virada do século che-

gara a exercer interina e precocemente a Presidência da República em subs-

tituição ao paulista Campos Sales, de quem era vice-presidente constitucio-

nal. Antes disso, com 38 anos, fora presidente da Câmara dos Deputados e,

logo depois, ao ser eleito vice-presidente da República, assumira a presidên-

cia do Senado. Dono do Diário de Pernambuco, Rosa e Silva passou a contro-

lar com mão de ferro a política pernambucana a partir de sua primeira elei-

ção para a Câmara Federal em 1894. Mesmo a distância - que tanto podia

ser o Rio de janeiro ou Paris -, desde 1896 vinha fazendo sucessivamente,

sem exceção, todos os governadores do estado: Joaquim Correia de Araújo,

Antônio Gonçalves Ferreira, Segismundo Antônio Gonçalves e, agora, o tio-

avô de Chateaubriand, Herculano Bandeira de Melo, todos eleitos pelo Par-

tido Republicano de Pernambuco para cumprir as ordens do cacique. Entre

a robusta maioria que fizera na Câmara Estadual estava seu filho Chiquinho,

que os adversários preferiam chamar maliciosamente de "Rosinha". Dos

trinta deputados que compunham a Câmara, apenas três não lhe deviam

obediência. Mas era no Senado Estadual - órgão instituído pela Constitui-

ção de 1891- que os números exibiam com maior eloqüência seu poder: lá

todos os quinze membros eram rosistas, eleitos sob sua tutela. Seu poder era

tamanho que os candidatos à Presidência da República costumavam dizer

que "quem tem Rosa tem o Norte do Brasil - sem Rosa ninguém se elege,

contra Rosa ninguém governa". Ao descrevê-lo, Gilberto Amado dizia tra-

tar-se de "um dândi de olhos de um azul intenso, riscados por um piscar

contínuo, que fuzilavam secos. De seu rosto, rodeado de barba crespa casta-

nho-claro, bem tratada, emanava dignidade ".

Para arrostar a política do "Napoleão do Norte ", o Partido Republicano

Conservador foi buscar um herói de guerra que pouca gente sabia que tinha

nascido em Pernambuco. O general Emídio Dantas Barreto deixara seu esta-

do natal ainda adolescente, ao migrar para o Sul. No Rio, alistou-se como vo-

luntário para combater na Guerra do Paraguai, de onde retornou com a pa-

tente de oficial, concedida por bravura em combate. Em 1891 passou poucos

meses em Recife como major do Exército, ocupando a chefia do II Distrito

Militar. Seu nome só iria aparecer nos jornais no final de 1910, já general-de-

divisão, quando o presidente Hermes da Fonseca anunciou que ele seria o

seu ministro da Guerra.

A candidatura de Dantas acabou sendo lançada um mês depois da mor-

te do pai de Chateaubriand, num grande comício na cidade de Jaboatão. De

sua ampla casa nos arredores de Paris, Rosa e Silva simulou indiferença,

mandando dizer que talvez até pudesse vir a apoiá-lo. "Afinal, não há diver-

gências maiores a nos separar", dissera ele, "já que somos ambos hermistas

,

caranguejos do mesmo balaio." Ninguém acreditou na mensagem vinda da



França - até as pedras das ruas sabiam que o lançamento da candidatura do
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CHATÔ, O REI DO BRASIL


General era uma afronta a Rosa e Silva, e que sua eventual eleição seria o fim

do rosismo. Na verdade, nem o próprio Rosa acreditava que alguém se atre-

vesse a sair candidato ao governo de Pernambuco sem antes pedir sua bên-

ção. Três meses depois, no entanto, o Partido Republicano Conservador lan-

çou oficialmente o nome de Dantas Barreto, não deixando dúvidas de que se

tratava de uma candidatura de oposição. Surpreso e incrédulo, Rosa e Silva

embarcou de volta ao Brasil.

Trazendo a bordo o ilustre passageiro, o Amazon chegou a Recife no dia

31 de agosto, mas para surpresa geral não atracou no porto, permanecendo

parado na barra. Para aumentar o clima de mistério, Rosa e Silva não desem-

barcou, ordenando que fossem levados a bordo seus homens de confiança: o

governador Herculano Bandeira de Melo, o deputado Estácio Coimbra, pre-

sidente da Câmara Estadual, e seu filho Chiquinho. Este conseguiu infiltrar

Chateaubriand na pequena delegação, argumentando com o pai que o jovem

se tornara um aliado fiel do rosismo e "um dos jornalistas pernambucanos

mais temidos no Rio de Janeiro ". O Diário de Pernambuco anunciou a volta de

seu dono ao país em noticiário que ocupava inteiramente a primeira e a se-

gunda páginas, clichês com a foto de Rosa e Silva e até versos encomenda-

dos às pressas a um poeta local para saudar seu retorno a Pernambuco. A ex-

citação da cidade, que já fervilhava com o acontecimento, aumentou ainda

mais quando à noitinha um pequeno escaler do transatlântico encostou no

cais e um marujo do navio saiu para recolher pijamas nas casas dos novos

passageiros, um sinal evidente de que os quatro iam dormir a bordo. Duran-

te três dias a vida de Recife girou em torno do dinossauro de metal que

boiava na barra e da interminável reunião que, dentro dele, se desenrolava

secretamente nos três camarotes de Rosa e Silva. No dia 2 de setembro o por-

to se encheu de curiosos para esperar o barquinho que trazia todos para a

cidade, enquanto o Amazon ligava os motores e zarpava novamente. Para es-

panto geral, na pequena embarcação estavam apenas Chiquinho, o governa-

dor Herculano de Melo, Estácio Coimbra e Chateaubriand: Rosa e Silva se-

guira no navio para desembarcar apenas na escala seguinte, em Maceió, e

retornar por terra a Recife.

Só três dias depois, em 5 de setembro, ardendo de curiosidade, é que os

pernambucanos tomaram conhecimento do primeiro fruto da conspiração

no Amazon: o governador Herculano Bandeira de Melo renunciou ao cargo

alegando razões de saúde. Mas isso era apenas o começo. Seu sucessor cons-

titucional, o presidente do Senado Estadual, Antônio Pernambuco, repetiu o

gesto, renunciando por idênticas "razões de saúde". Declarado vago, o car-

go passou a ser ocupado pelo deputado Estácio Coimbra, presidente da Câ-

mara Estadual. Estava posta em prática a tática concebida por Rosa e Silva

para tentar derrotar Dantas Barreto. Assustado com as notícias da enorme

repercussão da candidatura do general entre a população, o conselheiro te-


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FERNANDO MORAIS


mia que nos três meses que os separavam das eleições (marcadas para o dia

7 de dezembro) o nome do general pudesse crescer muito e que ele acabasse

se elegendo. Para encurtar o prazo, ordenou as duas renúncias. Com a va-

cância do cargo de governador, as eleições tinham de ser convocadas para

dali a sessenta dias. Toda a operação fora montada para roubar a Dantas Bar-

reto trinta dias de uma campanha que já começava a arrebatar o estado. As

renúncias e a convocação das eleições para 5 de novembro, porém, não cau-

saram tanto impacto quanto a decisão mais explosiva tomada no navio: para

disputar com Dantas Barreto, Rosa e Silva decidira dispensar intermediários

e sair ele próprio candidato a governador de Pernambuco.

A campanha se desenrolou sob enorme emoção. Carregando a bandei-

ra da luta contra a oligarquia rosista, o Partido Republicano Conservador

conseguiu, apesar do nome, transformar o general num símbolo das reivin-

dicações dos pobres, em oposição à elite chique que Rosa e Silva encarnava.

No dia 5 de novembro de 1911 as eleições transcorreram com os partidários

de Dantas acusando os rosistas de corrupção, fraude e violência em todo o

estado. Dois dias depois, Chateaubriand preparava uma edição especial de

doze páginas do Diário de Pernambuco para festejar o 86ó aniversário do jor-

nal - o mais antigo da América Latina - e proclamar a vitória de seu pro-

prietário: Rosa e Silva fora eleito governador com 21613 votos, contra 19 385

dados a Dantas Barreto. Na noite anterior, quando circulou pela cidade a no-

tícia de que o jornal iria anunciar a vitória de Rosa e Silva, uma pequena

multidão se postou diante do prédio, ameaçadora. Quando finalmente a edi-

ção foi às ruas, na manhã do dia 7, o número de pessoas tinha aumentado

muito. Os populares ameaçavam incendiar o prédio, com os jornalistas lá

dentro, se o jornal continuasse a ser distribuído. Convocada por Rosa e Sil-

va, a milícia estadual postou trinta soldados armados de carabinas nas jane-

las do edifício, conseguindo intimidar os manifestantes. Grupos armados de

paus, pedras e revólveres, no entanto, seguiam os entregadores, seqüestra-

vam os pacotes de jornais e organizavam fogueiras por toda a cidade. A con-

flagração começava.

Dantas Barreto recusava-se a aceitar os resultados da eleição, alegando

que o governo fraudara o pleito em todo o estado. Como exemplo, os dan-

tistas denunciavam que na cidade de Triunfo o descaramento tinha sido tan-

to que a oposição só conseguira obter um solitário voto. O Diário de Pernam-

buco se transformara em símbolo do rosismo e era para lá que a malta se

dirigia, vinda de todos os cantos. Aterrorizada, a direção suspendeu a distri-

buição do jornal, que ficou mais dois dias sem circular. No terceiro dia Cha-

teaubriand decidiu que o jornal tinha de voltar às ruas. Mesmo sendo, de

longe, o mais jovem de toda aquela gente - ele mal acabara de completar

dezenove anos -, parecia ser o mais corajoso de todos. Rugia pela redação

semi-abandonada pelos funcionários assustados:


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


- Fechem o partido, retirem a candidatura, resistam, façam o que qui-

serem, mas um jornal não pode ficar sem circular. Isto é uma covardia. Nós

vamos nos cobrir eternamente de vergonha se os leitores ficarem mais um

dia sem ler o Diário.

Conseguiu convencer o dono, seu filho Chiquinho e os demais dirigen-

tes políticos e acabou rodando uma edição magra, de apenas quatro páginas.

Segundo ele, o tamanho não importava. Algum jornal tinha de sair daquelas

oficinas e ser distribuído. Quando os carregadores, na manhã do dia 10, co-

meçaram a sair às ruas, os primeiros tiros foram disparados do meio da mul-

tidão contra as paredes do edifício. Os praças postados nas janelas respon-

deram ao fogo atirando para o alto, mas o povo não recuava. A poucos

metros tropas do Exército assistiam a tudo impassíveis, dando o primeiro si-

nal de que o presidente da República talvez estivesse com Dantas. Quando

a tensão diminuiu, a tropa federal ocupou o prédio, retirando de lá os pra-

ças da Polícia Militar que o guardavam. Da rua, o povo aplaudiu quando os

oficiais obrigaram a deixar o edifício, em fila indiana e de mãos postas à ca-

beça, 29 cangaceiros armados, metidos em gibões de couro e com talabartes

de cartuchos cruzados no peito, que tinham sido trazidos do interior por

partidários de Rosa e Silva. A ação dos soldados do Exército animou ainda

mais os opositores de Rosa e Silva: para eles, o gesto era um sinal claro de

que o marechal Hermes da Fonseca tinha tomado partido a favor de seu ex-

ministro da Guerra.

O Diário ficou mais duas semanas sem circular. Com medo de serem lin-

chados pelo povo, os três diretores - Chiquinho Rosa e Silva, Artur Albu-

querque e Ulisses Costa - decidiram não sair mais de casa e entregaram a

direção do jornal a Chateaubriand. Convencido do perigo que significava

deixar o prédio altas horas da noite, ele buscou no porão a velha cama de um

vigia e colocou-a na redação, onde passou a dormir. Comandando o peque-

no grupo que decidiu resistir, andava permanentemente com uma pistola

Mauser calibre 38 presa à cintura. No dia 24, imaginando que o clima de ter-

ror pudesse estar chegando ao fim, Chateaubriand tirou mais uma edição do

Diário. Na verdade era apenas uma reprodução do jornal que o povo impe-

dira de circular no dia 10, trazendo como única novidade um editorial que

ele escrevera, intitulado "Vitória digna". Insistindo na tese de que as urnas

já haviam decidido o pleito e que agora restava apenas cumprir a liturgia

exigida pela lei e fazer o Congresso Estadual referendar a vitória de Rosa e

Silva, o artigo estimulava os rosistas a resistir: "O general Dantas Barreto de-

clara que, se o Congresso não respeitar a vontade do povo, o povo fará o seu

reconhecimento. O veredicto do Congresso terá que ser respeitado, e se con-

tra ele insurgir-se o caudilhismo anarquizador, seremos nós que aconselha-

remos as vítimas desse grande crime a correrem às armas pela defesa da li-

berdade e da autonomia de Pernambuco ". O editorial nem chegou a ser lido:


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FERNANDO MORAIS


antes de chegar às mãos dos leitores, toda a edição foi queimada nas ruas por

populares. Inconformado, ele mandou rodar o mesmo clichê no dia seguin-

te, e de novo pilhas de jornais foram transformadas em fogueiras por toda a

cidade.


Com o agravamento cada vez maior da situação, ficava claro que as tro-

pas do Exército, comandadas pelo general Carlos Pinto, amigo de Dantas, es-

tavam estimulando o povo a derrubar o governo estadual e dar posse ao

candidato derrotado nas urnas. O chefe da guarnição federal já não escondia

de ninguém que estava decidido a impedir que o Congresso referendasse o

nome de Rosa e Silva. Quem deveria ser empossado imediatamente era seu

camarada de armas. De mera escaramuça entre facções políticas, a situação

adquiriu contornos de uma guerra, com o número de mortos em Recife e no

interior aumentando a cada dia. De vassoura em punho - os partidários de

Dantas eram conhecidos como "vassouristas" -, hordas de populares rola-

vam pelas cidades, ameaçadoras, exigindo que o Congresso reconhecesse o

general como governador eleito. Uma manhã Chateaubriand foi chamado ao

palácio por Estácio Coimbra. Quando entrava no gabinete do governador, o

prédio foi sacudido por pesado bombardeio - eram as tropas do general

Pinto, forçando Coimbra a abandonar o governo. Mesmo em inferioridade

numérica, a modesta guarda palaciana reagia. Com a cabeleira negra assa-

nhada, o governador empunhou um fuzil, entregou outro a Chateaubriand

e ordenou com firmeza que ele abrisse fogo contra o local de onde vinha o

ataque. Cacos dos cristais das janelas, despedaçados pelos tiros, se espalha-

vam pelos tapetes do gabinete. A balaceira durou dez minutos, mas Cha-

teaubriand diria mais tarde que tinha a impressão de que estava ali havia ho-

ras. Coimbra parecia tranqüilo:

- Não se preocupe, Bandeira, que isto é só intimidação. Eu não sairei

daqui.


Quando o fogo terminou, o governador explicou que tinha uma impor-

tante missão política para o jovem: procurar Chiquinho Rosa e Silva em seu

nome e convencê-lo a não embarcar para a Europa naquela noite, como se

comentava pela cidade. Para o governador, a situação não era tão sombria

que justificasse a deserção do filho do candidato eleito:

- Já temos gente no Rio diminuindo a pressão do governo federal so-

bre Pernambuco; e o presidente Hermes acabará aceitando Rosa e Silva

como o eleito. Precisamos que o Congresso Estadual referende logo nosso

candidato, e a presença de Chiquinho é essencial. Não apenas pela falta que

seu voto pode fazer, já que muitos deputados e senadores fugiram, com

medo da multidão. É também uma questão moral, ele é o filho de Rosa e Sil-

va, não pode fugir. Se ele for embora, não fica mais ninguém aqui.

Chateaubriand saiu do palácio e tomou um bonde em direção à casa dos

Rosa e Silva. Por onde passava, via multidões dando vivas a Dantas Barreto.


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


Tomado de pânico em meio ao fanatismo generalizado - se fosse reconhe-

do como um rosista, o linchamento seria inevitável -, enterrou o chapéu

na cabeça, baixou os olhos e meteu-se entre a turba. Atravessar uma cidade

tomada pelos inimigos, no entanto, revelou-se um risco desnecessário. Chi-

quinho Rosa e Silva não só estava decidido a partir como pediu a Chateau-

briand que transmitisse a Coimbra um conselho - o governador também

deveria abandonar o poder e a cidade imediatamente:

- A situação é irremediável, as tropas federais vão empossar Dantas de

qualquer maneira. Não temos como ou com quem resistir. Não temos polí-

cia, não temos povo e acho que já não temos nem deputados nem senadores.

Diga a Coimbra que embarco hoje à noite. Está tudo perdido.

Na volta a situação tornara-se ainda mais tensa. Havia focos de incên-

dios em vários pontos da cidade e multidões mais numerosas nas ruas.

Quando chegou perto do Palácio do Campo das Princesas, a segunda ofen-

siva das tropas federais estava rebentando. Preocupado com a sorte de Está-

cio Coimbra, Chateaubriand aproximou-se de um popular armado de cara-

bina que ajudava os soldados na fuzilaria contra o palácio. Fingindo ser

partidário de Dantas, perguntou ao livre-atirador se "o filho da puta"

continuava lá dentro. O homem disse que não, que Coimbra havia fugido

para a Chefatura Estadual de Polícia, de onde tentava resistir. O fogo agora

era para forçar a guarda palaciana a se render. Chateaubriand conseguiu se

esgueirar pelos muros da cidade até o local onde Coimbra se escondera e, ao

transmitir-lhe o resultado da visita a Chiquinho, percebeu no rosto do gover-

nador os sinais da derrota. Sem os Rosa e Silva, a resistência perdia o sentido.

Naquela mesma noite Estácio Coimbra tomava o veleiro Aquidabã em

direção a Maceió. E, antes mesmo que Chiquinho chegasse a Paris, sua pro-

fecia se concretizava: dos 45 membros do Congresso Estadual, trinta fugi-

ram. Os quinze restantes não hesitaram em referendar o nome de Dantas

Barreto como governador eleito. Empossado no dia 19 de dezembro, o gene-

ral decidiu acertar contas com o que restava do rosismo em Pernambuco. A

violência contra a imprensa era grande, mas, mesmo sabendo que dirigia um

jornal identificado como uma das últimas marcas de Rosa e Silva no estado,

Chateaubriand não entregou os pontos. No dia 18 de janeiro de 1912 ele pôs

de novo o Diário nas ruas, agora denunciando o regime de terror que a polí-

cia estadual impusera aos aliados de Rosa e Silva. O jornal era permanente-

mente guardado por policiais à paisana que revistavam quem entrava e saía.

Anunciantes e até cobradores que aparecessem por lá eram ameaçados pela

polícia na porta do prédio.

No começo de fevereiro Chiquinho Rosa e Silva retornou da Europa e

reassumiu a direção do Diário. Duas semanas depois de sua chegada, um jor-

nalista foi espancado quando entrava no jornal, e no dia 23 de fevereiro uma

tropa armada invadiu a redação para levar presos Chiquinho e Chateau-


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FERNANDO MORAIS


briand. Os dois passaram três dias metidos dentro de uma caixa-d'água sub-

terrânea cheia de baratas, com os pés atolados no lodo até o joelho. Sem luz,

sem alimentação e sem poder sequer sentar, acabaram sendo libertados da

mesma maneira como tinham sido presos: sem nenhuma explicação. Os dois

saíram da cadeia direto para a redação, onde escreveram longa reportagem

contando em detalhes a violência de que tinham sido vítimas. Quando a edi-

ção estava pronta para ser impressa, o jornal foi invadido por um grupo de

paisanos armados de barras de ferro, destruindo tudo o que encontravam

pela frente. Móveis, máquinas, impressoras, linotipos, nada restou intacto. O

Diário submergiu naquela noite para só reaparecer um ano depois, vendido

a novos donos. O inacreditável inquérito poliçial instaurado para apurar o

empastelamento conseguiu o prodígio de provar que o atentado tinha sido

praticado pela própria direção do jornal. Na conclusão final, o delegado de-

clarou que o Diário havia recorrido "à suprema coragem dos vencidos: o

suicídio". Apontou como mandante da "autodestruição" seu proprietário,

Francisco de Assis Rosa e Silva, e como um dos autores o repórter Francisco

de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo, auxiliado por seu irmão Urbano

Ganot Chateaubriand.


Sem o emprego no Diário e respondendo a dois processos criminais mo-

vidos por Dantas Barreto, Chateaubriand levou pouco tempo para voltar à

rotina de antes. O salário que recebia no Jornal Pequeno era insuficiente para

mantê-lo e ajudar a criar os irmãos, e ele conseguiu um emprego de cinqüen-

ta mil-réis mensais como correspondente em Recife de um certo O Jornal, de

São Luís do Maranhão, e mais alguns trocados enviando noticiário irregular-

mente para o jornal A Noite, do Rio. Contrafeito, teve de voltar a dar suas

aulas de lógica e psicologia na Associação Cristã de Moços. Para ele, nada

era tão aborrecido e irritante como responder às perguntas dos ignorantes

alunos da ACM. As horas vagas entre o trabalho e a Faculdade de Direito

eram consumidas na esgrima e em sua nova emoção, as brigas de galos. Seu

trabalho como jornalista o aproximara de Arthur, marido de Ana Louise

Lundgren, que era um dos maiores galistas do Brasil, além de criador de ca-

valos puros-sangues. Meses antes Lundgren havia importado da Inglaterra

por 10 mil libras esterlinas o reprodutor Péricles, vencedor do Derby britâ-

nico. Chateaubriand recebeu de presente do industrial dois galos machos de

excelente pedigree - um bretão e um espanhol - e uma fêmea índia, para ti-

rar crias. Aos sábados, se não estivesse nadando ou empunhando um flore-

te no quartel de Cinco Pontas, podia ser visto nas rodas de apostas das ri-

nhas de Recife tentando melhorar o orçamento familiar à custa do sangue

das aves. Com o retorno da tranqüilidade à vida política do estado, Estácio


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


Coimbra voltara a viver em Recife e sonhava abrir um novo jornal "para

reacender a chama civilista", mas eram apenas planos.

Durante quase dois anos a atividade principal de Chateaubriand residiu

apenas no Jornal Pequeno. Sabendo que ele passava dificuldades, o diretor

Tomé Gibson ofereceu-lhe setenta mil-réis extras pela cobertura da tempora-

da lírica de 1913. O jornalista achou graça nas palavras do chefe, por saber

que era exagero chamar de "temporada lírica" uma atividade bissexta, que

acontecia em Recife muito irregularmente. Parada obrigatória dos grandes

transatlânticos internacionais, se um navio transportando uma companhia

estrangeira se visse na emergência de fazer uma escala mais demorada em

Recife, a temporada lírica estava inaugurada. Naquele ano, entretanto, havia

de fato um calendário prévio, e grupos vinham de fora especialmente para se

apresentar na cidade. A familiaridade com os sons do gramofone nos saraus

a que o pai o levava mais as aulas de música a que a mãe o obrigara a assis-

tir eram toda a formação de que dispunha para se meter a ser crítico lírico.

Mas sua estréia ocorreu sem problemas. De fraque, ocupou o camarote alu-

gado pelo jornal no Teatro Santa Isabel para ouvir Clara della Guardia, so-

lista de uma companhia italiana de comédias, interpretar a Gioconda de

D'Annunzio. Quem leu a coluna de Chateaubriand no jornal, no dia seguin-

te, imaginou estar diante de um velho freqüentador das temporadas euro-

péias: "Della Guardia não é uma intérprete à altura de Tina de Lorenzo ou

de Maria Melato", escreveu, "mas há nela tanta distinção, tão fina com-

preensão de seus papéis, ao par de um timbre tão perfeito de voz, que ao sair

do teatro o espectador leva a certeza de haver sentido palpitar uma das sen-

sibilidades femininas mais discretas e gentis". Na apresentação seguinte,

Madame Butterfly, foi tamanho o encanto do jornalista pela intérprete do pa-

pel-título, "la signorina Levy", que a crítica acabou resvalando o ridículo:

"Não se trata aqui de homenagear a beleza singular da senhorita Levy, mas

apenas de reconhecer-lhe o talento invulgar e irrecusável para o canto lírico.

A fina sensibilidade pernambucana exige sua permanência em nossas terras

por mais tempo. Só temos a lamentar que Puccini não esteja vivo e de passa-

gem pelo Recife para encorajá-la a só representá-lo, só Puccini, sempre Puc-

cini". Só depois de encerrada a temporada, já com os setenta mil-réis no bol-

so, é que ele soube que os galanteios à "signorina Levy" poderiam ter-lhe

custado caro. Quem patrocinara a viagem da companhia italiana a Pernam-

buco tinha sido o industrial Delmiro Gouveia - menos pelo amor à ópera do

que por um antigo romance que mantinha desde a Europa com a cantora.

Foi também como repórter do Jornal Pequeno que Chateaubriand pôde

realizar um sonho quase impossível a qualquer outro mortal na época, e que

o conquistaria para sempre: voar. Um ano antes ele já tivera a oportunidade

de entrar numa barquinha de vime e sobrevoar Recife num balão pilotado

pelo português Ferramenta, um maluco que percorria o mundo desafiando


77

#
FERNANDO MORAIS


a lei da gravidade. Agora chegava à cidade o francês Lucien Deneau com um

avião de verdade, engenho que o povo só tinha tido a oportunidade de ver

de longe, meses antes, quando passou sobre a capital pernambucana o ita-

liano Gino Sanfelice dirigindo uma máquina inidentificável a distância. Sem

autonomia para grandes aventuras, o avião do francês, um Blériot, não che-

gou à cidade voando, mas prosaicamente amarrado ao convés do paquete

Mucury. A maior distância percorrida até então por algum aparelho voador

tinha sido o trajeto entre Paris e Roma. Chateaubriand foi a bordo ver a

aeronave e, mais do que por suas características técnicas, interessou-se pelo

fato de que a máquina tinha assento duplo, capaz de levar um passageiro

além do condutor. À noite, durante a recepção que o Jockey Club ofereceu

ao visitante, frustrou-se ao saber que tinha chegado tarde no pedido de ca-

rona: Gonçalves Maia, também do Jornal Pequeno, havia cercado Deneau no

hotel e acertara com ele um vôo-reportagem no Blériot. Ao medir com os

olhos a estatura e o peso do piloto francês, Chateaubriand resolveu jogar

sujo e perguntou:

- Qual é a capacidade de carga do seu monoplano?

- No máximo 150 quilos - respondeu o francês.

- Desculpe se sou indiscreto, mas quantos quilos o senhor pesa, mon-

sieur Deneau?

- Cem quilos. Por que tantas perguntas?

- Se o senhor pesa cem quilos, estaremos na iminência de uma tragé-

dia quando seu avião decolar com Gonçalves Maia a bordo. Ele pesa seten-

ta quilos. O voluntário para o vôo encontra-se à sua frente, e pesa apenas 48

quilos. Sou eu: muito prazer.

Não podia haver argumento mais definitivo. A ciumeira que isso gerou

no jornal foi tão grande que se conseguiu uma balança do matadouro muni-

cipal para que todos os repórteres se pesassem, teste que só fez consolidar

sua posição - ele era mesmo o mais raquítico de toda a redação. Nas três se-

manas que antecederam o vôo ele dedicou-se apenas ao Blériot e a seu pilo-

to. A cada quatro, cinco dias, saía uma reportagem sobre outro aspecto

da novidade, já devidamente desembarcada e estacionada na raia do hipó-

dromo, de onde decolaria. Chateaubriand descreveu as pesquisas que ti-

nham levado o brasileiro Alberto Santos Dumont, seis anos antes, a se trans-

formar no primeiro ser humano a levantar do chão um aparelho mais

pesado do que o ar, relatou aos leitores os raids organizados na Europa nos

últimos anos, os acidentes. Na última reportagem da série, explicou em de-

talhes o que era o Blériot - um motor de cinqüenta cavalos e sete cilindros

que levantava uma armação de cedro e alumínio coberta por um encerado

de linho betuminoso, pesando ao todo quatrocentos quilos. Com dois passa-

geiros a bordo - pesando ambos, no máximo,150 quilos, ele sublinhara -,
78

#
CHATÔ, O REI DO BRASIL


a Blériot podia desenvolver uma velocidade de até cem quilômetros por

hora.


Todas as noites ele ia para o hall do hotel desfrutar, junto com Deneau,

a glória de ser o primeiro pernambucano - não seria o segundo brasileiro?,

alguém indagou - que experimentaria, como dissera num dos artigos, "a

empolgância de uma perspectiva toda nova, absolutamente desconhecida".

Até que afinal chegou o dia 10 de junho. Para o povo de Recife, ele era a pes-

soa mais importante, não o francês que dali a alguns dias embarcaria sua ge-

ringonça num navio e nunca mais apareceria por lá. Apanhado em casa de

manhã por Deneau, assustou-se com a chuva que caía sobre a cidade, mas o

francês o tranqüilizou: o avião decolaria assim mesmo. No meio das milha-

res de pessoas que se aglomeravam no Jockey, deu-se ao luxo de passar di-

reto pelo governador Dantas Barreto, ignorando a mão amistosa que o gene-

ral lhe estendia. A reação das pessoas variava à medida que ele caminhava

com Deneau em direção ao aparelho. Um soldado agarrou-o pelo braço e o

exibiu para os circunstantes, gritando:

- Aqui está! É este o menino que vai subir!

Uma mulher arrastando uma penca de filhos decepcionou-se:

- Mas é esse moleque chocho, mirrado, franzino que vai voar? Pensei

que fosse um homem...

Uma linda moça, alta, de pele clara, aproximou-se dele, segurou-lhe o

pulso esquerdo com uma das mãos e com a outra amarrou nele uma meda-

lhinha de ouro, com a imagem de uma santa. Com um sorriso, desejou-lhe

boa viagem:

- Não tenha medo, ela vai protegê-lo.

O vôo foi curto, mas emocionante. Saíram do prado e tomaram a dire-

ção do bairro de Afogados, depois voltaram e acompanharam o leito do rio

Capibaribe até o Brum. Ao passar sobre o centro da cidade, o piloto meteu a

mão dentro de um alforje que trazia sob o banco e atirou para cima centenas

de cartões-postais contendo sua foto e trazendo no verso a inscrição: "Souve-

nir de mon passage à Pernambuco. M. Deneau". Retornaram para Santo Amaro

e tomaram o rumo da Estrada de Ferro de Olinda, onde deveriam pousar.

Como havia gente demais na esplanada destinada ao pouso, o francês,

preocupado, gritou para Chateaubriand que se descessem ali na certa mata-

riam muita gente. O avião fez um vôo rasante, mas o povo não arredava pé

do lugar. Quando faltava pouco para tocar o chão, subiu de novo. De Olin-

da o Blériot tocou rumo a Recife. A intenção de Deneau era pousar no pátio

da Faculdade de Direito, mas lá outra multidão impedia a aterrissagem. De-

pois de algumas voltas sobre a cidade, acabaram pousando ali mesmo-

com grande risco para o piloto e seu passageiro e para os curiosos. Para evi-

tar que alguém fosse atropelado, Deneau fez o avião ziguezaguear sobre a
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FERNANDO MORAIS


pista, o que acabou jogando-o contra um barranco, onde por fim parou com

uma das asas arrebentadas.

No dia seguinte o Jornal Pequeno publicaria duas reportagens. Uma, me-

nor, era assinada por Gonçalves Maia, o que perdera o lugar no avião, que

começava se lamentando "por pesar 68 quilos, em vez dos 48 do sr. Cha-

teaubriand, desta folha". Em seu artigo de meia página, intitulado "A minha

impressão de um vôo de aeroplano", Chateaubriand parecia ter retornado

de outro planeta. Feita na primeira pessoa, a reportagem revelava a emoção

de ver Recife do alto: "Até a preparação para a aterrissagem, eu não sentira

nada. A contemplação do panorama da cidade me absorvera por tal forma a

atenção que eu não cogitara se tinha nervos para me tocar de outras emo-

ções que não esta, de uma esplêndida beleza. A atitude é de um embeveci-

mento religioso, não da cidade com suas pontes, mas diante do oceano ru-

moroso quebrando-se nos arrecifes, em espumas lúcidas, e sobretudo dos

arrabaldes, enchendo de reminiscências antigas e de uma poesia bíblica nos-

sos olhos admirados ". O único momento em que o pânico ameaçou a viagem

foi quando o avião caiu cerca de duzentos metros, "como num precipício",

para preparar o pouso. As mãos de Chateaubriand se crisparam instintiva-

mente, o aparelho e os dois passageiros pareciam precipitar-se irremediavel-

mente para o chão. Ele gritou, mas percebeu que o ruído do motor e o ven-

to forte produzido pela hélice impediam que Deneau ouvisse qualquer som

vindo do banco traseiro. O medo só passou quando o avião estabilizou de

novo para aterrissar. O susto contribuiu para que ele terminasse seu artigo

com emoção indescritível: "Eu não saberia exprimir a sensação que infeliz-

mente não posso pormenorizar aqui, tanto ela é forte, empolgante e violen-

ta. Espero experimentar tal emoção ainda outra vez na vida" - um fecho

premonitório para alguém que, décadas depois, viria a ser o civil brasileiro

com o maior número de horas voadas em toda a história da aviação. No ban-

quete de despedida oferecido a Deneau, ele seria ainda mais enfático. Trans-

formado no centro das atenções dos convidados, gesticulava e anunciava em

voz alta: "Sou outro homem depois desse vôo! Uma modesta máquina me

fez transcender mais que anos e anos de estudo de filosofia e da alma huma-

na. O dia 10 de junho de 1913 marca a grande mudança na minha vida!".
80

5

A primeira grande mudança na sua vida só começaria a acontecer, na



verdade, dois anos depois - e nada teria a ver com aviões. Caminhando pe-

los corredores da Faculdade de Direito - que ele havia deixado vários me-

ses antes, ao terminar o curso -, Chateaubriand viu um pequeno edital que

tinha sido pregado no quadro de avisos no dia anterior: "Termo de abertu-

ra. Ao 1º de maio de 1915, nesta secretaria da Faculdade de Direito de Reci-

fe, foram abertas as inscrições para o concurso de professor de filosofia do

direito e direito romano, de acordo com o disposto no artigo número 43 do

decreto nº 11530. O diretor ". Para ele, o anúncio do concurso coincidia com

um período de absoluta descrença e enorme falta de apetite pelo jornalismo.

Depois da escaramuça com Dantas Barreto, a única experiência gratificante

que vivera na profissão tinha sido a breve passagem pelo Estado de Pernam-

buco. O jornal fora criado por Rosa e Silva e Estácio Coimbra em 1913 para

reorganizar a oposição a Dantas e juntar os cacos do Partido Republicano de

Pernambuco, escorraçado da política pernambucana pelo novo governo.

Para fazê-lo foram chamados os mais ilustres perseguidos de 1911. A valen-

tia com que Chateaubriand se portara na batalha que se seguiu à derrota de

Rosa e Silva seria premiada com um convite para acumular os dois postos

mais importantes do Estado, e ele foi nomeado redator-chefe e secretário de

redação.

Em sua curta passagem pelo jornal ele revelou talento e firmeza, mesmo

quando isso significava ter de discutir diariamente com os patrões para con-

vencê-los a publicar ou cortar determinados temas. Foi assim que Chateau-

briand transformou o Estado em instrumento de propaganda da luta armada

que, no Ceará, o padre Cícero Romão Batista liderava contra o governo mi-

litarista local. Padre Cícero - ou "Padim Ciço", como o tratavam os milha-

res de beatos armados que o seguiam - acabaria depondo o coronel que go-

vernava o Ceará, assumindo provisoriamente o poder estadual. A oposição

intransigente que fazia nas páginas do jornal ao popularíssimo governo de

Dantas Barreto custou a Chateaubriand mais um "processo de responsabili-

dade por crime de imprensa", movido contra ele pelo general, do qual seria

absolvido no Superior Tribunal de Justiça.

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FERNANDO MORAIS
Foi como diretor do Estado que ele conheceu o quaker norte-americano

Percival Farquhar, dono da Rio de Janeiro Light & Power, da Companhia Te-

lefônica Brasileira, da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, das ferro-

vias Mogiana e Paulista, em São Paulo, da Port of Pará - proprietária do

porto de Belém do Pará - e da Amazon Development Land Colonization

Co. Assim como acontecia com suas ferrovias construídas na Rússia czaris-

ta, suas minas de carvão na Europa Central e seus engenhos de açúcar em

Cuba, Farquhar dirigia as empresas brasileiras de Paris, Nova York ou da

Pensilvânia, onde mantinha a sede de seu império internacional. Do gover-

no brasileiro ele recebera como doação 60 mil quilômetros quadrados de ter-

ras para colonização, área que décadas depois viria a constituir o estado do

Amapá. Chateaubriand foi encarregado de entrevistar o magnata a bordo do

Amazon, no porto de Recife, quando o milionário tinha acabado de realizar

sua mais ousada epopéia tropical: a construção, no meio da selva amazôni-

ca, da ferrovia Madeira-Mamoré. No ano anterior, os portuários de Belém

haviam organizado uma paralisação para protestar contra o surto de febre

amarela que eclodiu na cidade, e Farquhar contratou o melhor: mandou cha-

mar o cientista Osvaldo Cruz, que em 1906 erradicara a mesma peste no Rio

de Janeiro, para sanear Belém e combater os focos de malária surgidos entre

os trabalhadores da Madeira-Mamoré. Defensor da internacionalização da

economia brasileira - o que logo transformaria Chateaubriand em seu alia-

do incondicional -, Farquhar acreditava que nenhum país poderia se de-

senvolver sem bons hotéis e cozinheiros refinados. Como o Brasil do come-

ço do século não dispunha de nenhuma das duas qualidades, ele próprio

tomou a iniciativa de equipá-lo. Construiu em São Paulo a elegante Rotisse-

rie Sportsman e o Hotel Guarujá, no litoral paulista, e importou da cozinha

do Elysée Palace Hotel, de Paris, o chef Henri Gallon. Quando os dois se co-

nheceram, o americano tinha acabado de comprar o terreno do antigo Con-

vento da Ajuda, no Rio de Janeiro, onde pretendia construir um hotel "capaz

de deixar o Waldorf Astoria parecido com uma tapera amazônica". Além de

se transformar, poucos anos depois, no principal advogado dos interesses

brasileiros da holding Brazil Railway, Chateaubriand acabaria roubando de

Farquhar o chef Gallon, que seria seu mordomo até o fim da vida.
A passagem pelo Estado de Pernambuco, porém, não lhe traria apenas

bons amigos. Quando Rui Barbosa, chefe inconteste do civilismo, começou a

aproximar-se do general Dantas Barreto, Chateaubriand defendeu junto a

Rosa e Silva e Estácio Coimbra o rompimento público do jornal com o

"Águia de Haia". As humilhações impostas por Dantas ao Diário de Pernam-

buco e a cada um deles, individualmente, ainda estavam muito frescas para

serem esquecidas apenas porque Rui Barbosa decidira fazer uma aliança po-

lítica. As discussões dentro do jornal eram intermináveis, pois com exceção

de Chateaubriand todos estavam de acordo em que seria uma temeridade
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CHATÔ, O REI DO BRASIL


brigar com "o homem que encarna a cabeça do sistema solar da inteligência

brasileira", como advertira Rosa e Silva. Chateaubriand fincou pé e acabou

convencendo os patrões. Encarregado de escrever o artigo de fundo que

anunciava a ruptura, precisou se conter para manter o alto nível, e terminou

reconhecendo que a decisão tinha "um sentido de amargor e melancolia pelo

afastamento da companhia de um guia providencial como Rui Barbosa". O

processo de rompimento fora extremamente desgastante para ele, que saiu

do episódio convencido de que para Rosa e Silva e Coimbra o jornal era ape-

nas um instrumento para intervir na política local, e nada mais. Apesar de

ter sobrevivido no posto após a luta contra Rui Barbosa, Chateaubriand, iro-

nicamente, deixaria o jornal meses depois motivado por uma insignificante

crise interna. Ele vetara a publicação de uma carta do jornalista Martinho

Garcez em defesa de seu sogro, o ex-governador Segismundo Antônio Gon-

çalves, que tinha sido atacado pelo jornal. Os donos do Estado determinaram

que a carta deveria ser publicada. Aborrecido, Chateaubriand simplesmente

limpou as gavetas de sua mesa e demitiu-se do jornal.

Nos meses seguintes, sua única ligação com o jornalismo eram os arti-

gos que vez por outra publicava no Jornal Pequeno. Graças à influência de

Al-

berto Groschke, casado com uma Lundgren, associou-se a um escritório de



advocacia local, ao qual passou a dedicar-se em tempo integral. Foi assim

que o inesperado concurso aberto pela Faculdade de Direito despertou-lhe a

tentação de abandonar de vez as redações para fazer carreira como advoga-

do e professor. Como as inscrições se encerrariam dali a três meses, no final

de agosto de 1915, e as provas se realizariam em setembro, ele teve tempo

suficiente para se preparar. Nesse meio tempo, começou a namorar Maria da

Penha Lins de Barros Guimarães, a Poli, conhecida como uma das moças

mais bonitas e elegantes de Recife. Amiga de jovens intelectuais como Ma-

nuel Bandeira, José Lins do Rego e Gilberto Freyre, Poli se orgulhava de

"nunca ter alisado um banco de escola". Falava francês e inglês com fluên-

cia, conhecia os clássicos da literatura, mas tinha sido educada por precep-

tores, sem nunca ter sido obrigada ao desconforto de aprender nada coleti-

vamente, em uma sala de aula comum. Magra, alta e de pele singularmente

alva para uma região tórrida como o Nordeste, ela já havia despertado arre-

batadoras paixões em rapazes de Recife. A lenda contava que o principal ci-

nema da cidade, o Politeama, tinha sido batizado assim como uma forma

pouco sutil encontrada pelo dono para cortejá-la, já que o nome poderia tam-

bém ser lido como "Poli te ama". Sua entrada nos bailes do Clube Interna-

cional, aos sábados, era aguardada por um numeroso "sereno" - o grupo

de populares que se postava à entrada do clube para admirar a distância as

mulheres da alta sociedade. Apesar de tantos encantos, Poli chegara aos 29

anos sem ter se casado, fato que, para os padrões de uma época em que as


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FERNANDO MORAIS


moças começavam a procurar marido aos catorze, a transformava inevita-

velmente em solteirona.

Quando Chateaubriand, inscrito para o concurso, começou a freqüentar

todas as noites o casarão dos Guimarães, na rua da União, o boato correu a

cidade: ele estava namorando Poli com segundas intenções. A intriga dizia

que ele só se animara a desencalhar uma moça mais velha - ela tinha seis

anos mais que ele - para se aproximar do pai dela, diretor da Faculdade de

Direito, e do irmão, professor Genaro Guimarães, que, além de membro da

Congregação da escola, integrava a banca examinadora do concurso. Ao sa-

ber da futrica, Chateaubriand reagiu indignado e anunciou que os dois esta-

vam noivos:

- Já pedi a mão de Poli ao professor Joaquim de Barros Guimarães e o

casamento está marcado para dezembro deste ano, independentemente do

resultado do concurso. Quem está difundindo essas calúnias contra mim é

um bisbilhoteiro que atende pelo nome de general Dantas Barreto. O único

sentimento que me move é o amor a Poli.

Ninguém jamais saberia se o amor era o único sentimento que movia

Chateaubriand. Mas, se a intimidade com a família de Poli lhe dava alguma

esperança de passar no concurso sem dificuldades, um inesperado obstácu-

lo veio perturbar seus planos de tornar-se catedrático de direito romano. No

último dia das inscrições um nome bem conhecido seu apareceu pregado no

quadro de avisos da faculdade como candidato à mesma cadeira: Joaquim

Pimenta. Cearense do sertão de Inhamuns, seis anos mais velho que Cha-

teaubriand, ateu, marxista e anticlerical, Pimenta conseguia conjugar as qua-

lidades de refinado filósofo com uma ativa militância no nascente movimen-

to operário pernambucano. Sua sombra aparecia invariavelmente por trás

das agitações grevistas locais, fossem elas de maritimos, cortadores de cana,

motorneiros de bondes ou empregados da britânica Pernambuco Tramway.

Chateaubriand já havia se defrontado com ele quatro anos antes, na campa-

nha que levou Dantas Barreto ao governo do estado. Promotor público em

Recife, Pimenta renunciou ao cargo como protesto contra a corrupção eleito-

ral atribuída a Rosa e Silva e aderiu por inteiro à luta pela posse de Dantas.

Ao assumir o governo, o general nomeou-o secretário da Instrução Pública

do estado. Além do preparo intelectual, Joaquim Pimenta contava com uma

vantagem sobre Chateaubriand: era livre-docente em direito, circunstância

que funcionaria como uma espécie de voto de Minerva, na remotíssima hi-

pótese de o concurso terminar empatado.

As suspeitas de que Chateaubriand seria favorecido por seus amigos da

banca examinadora, somadas ao fato de que dois inimigos políticos iriam se

defrontar na disputa da cátedra, atraíram para o concurso um inusitado in-

teresse da população. O que estava em questão, diziam os jornais, não era a

cadeira de direito romano, mas o poder de Dantas Barreto novamente fusti-


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


gado por Rosa e Silva. Terminadas as provas escritas, os dois foram subme-

tidos separadamente ao exame oral. Sorteados os pontos, Chateaubriand

dissertou sobre a tese "O interdicto uti possidetis" e Pimenta sobre "Nomolo-

gia jurídica e seus sistemas: arbitrarismo, naturalismo físico e fenomenis-

mo". Ninguem acreditou no que lia, semanas depois, quando a Faculdade

de Direito fez publicar o resultado do concurso: "Verificado que cada candi-

dato obteve seis votos, foi pelo senhor diretor Sofrônio Portela desempatada

a votação em favor do sr. Francisco de Assis Chateaubriand". Se o empate já

causaria espanto, a ousadia da banca ao decidir em favor de Chateaubriand

se transformou em notícia de primeira página de todos os jornais do dia se-

guinte - a maioria, naturalmente, contrária ao resultado do concurso. Se-

gundo a imprensa, Sofrônio Portela dera inicialmente seu voto a Pimenta,

como determinava a lei, e chegara a mandar lavrar a ata com o resultado. Só

depois, "cedendo a sugestões estranhas", é que resolvera desempatar em fa-

vor de Chateaubriand. Os estudantes de direito reuniram-se em ruidosa as-

sembléia na faculdade e enviaram um telegrama de protesto ao presidente

da República, Venceslau Brás: "Maioria corpo discente Faculdade Direito

protesta esbulho candidato Joaquim Pimenta, livre-docente, merecedor lu-

gar concurso. Resultado político deturpa justiça dentro próprio templo do

direito".

Ouvido pelos jornais, Pimenta disse apenas que "promoveria os meios

legais" para reaver seus direitos preteridos. Tratado pela imprensa governis-

ta como "frangote explorador do rosismo" e "frou-frou das saias elegantes ",

Chateaubriand era acusado de ter sido classificado "apenas por dedicações

afetivas" - alusões explícitas ao fato de estar de casamento marcado com a

irmã de um de seus examinadores. Ele recusou-se a dar declarações à im-

prensa, alegando que não iria discutir "a decisão de uma corte inatacável

como a Congregação da Faculdade de Direito de Recif". Joaquim Pimenta

recorreu do resultado, exigindo que a lei fosse cumprida e ele nomeado ca-

tedrático de direito romano. Dantas Barreto enviou um telegrama ao presi-

dente da República, subscrito por ele e por Manuel Borba, governador elei-

to que tomaria posse dali a dois meses, dando conta ao chefe da nação de seu

desacordo com a decisão da faculdade de nomear Chateaubriand. Simulta-

neamente ao recurso dirigido à Congregação, Pimenta enviou outro ao mi-

nistro da Justiça, Carlos Maximiliano, autor da reforma que instituíra a exi-

gência da livre-docência para desempate em concursos de cátedra. Ao saber

que engrossava a conspiração para tomar-lhe o lugar conquistado, Chateau-

briand não pensou duas vezes e resolveu bater às portas de quem, em últi-

ma instância, iria decidir a questão: o presidente da República. Consciente

de que sua peregrinação por gabinetes do Rio seria demorada, fez uma cole-

ta de dinheiro entre os amigos ricos de Recife para pagar a passagem e co-

brir as primeiras despesas que tivesse no Distrito Federal. Do comendador


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FERNANDO MORAIS


português José Maria de Andrade, provedor da Santa Casa de Misericórdia,

recebeu, além do auxílio em dinheiro, uma ajuda providencial: uma carta de

apresentação dirigida ao empresário Ernesto Pereira Carneiro, sócio da fir-

ma Mendes & Cia. na propriedade do Jornal do Brasil. Deixou Recife às car-

reiras, mal tendo tempo de se despedir da família na casa da rua da Aurora.

Encheu uma mala de roupas, juntou documentos e, na saída, transferiu ao ir-

mão Oswaldo a responsabilidade de cuidar e alimentar seus bichos de esti-

mação - um casal de ferozes jacamins, aves que o pai trouxera da Amazô-

nia e que ele usava como guardas da casa. Deixou com a mãe um bilhete de

despedida para ser entregue à noiva e partiu.

Ao desembarcar do vapor no Rio de Janeiro, na segunda semana de ou-

tubro de 1915, Chateaubriand teve noção da tempestade que o esperava na

capital. A caminho do hotel, comprou jornais do dia - A Época e a Gazeta de

Noticias - e viu que a disputa pela cátedra era o assunto da imprensa cario-

ca, transformada no "caso Chateaubriand-Pimenta". O recurso de Pimenta

ao ministro, os telegramas de Dantas Barreto e dos estudantes ao presidente

da República, os protestos em Recife contra sua nomeação, estava tudo

transcrito nos diários. O agora deputado federal Gonçalves Maia - o mes-

mo que perdera para ele o lugar no avião de Deneau - dava entrevistas con-

denando o resultado do concurso, que atribuía "à politicagem que invade o

ensino". O primeiro aliado que buscou para montar a contra-ofensiva foi

José Veríssimo. Hipocondríaco incurável, o crítico combinou de se verem na

Farmácia Werneck, na rua da Quitanda, seu ponto predileto para encontros.

Habituado a enfrentar adversários, Veríssimo sugeriu em poucos minutos

a estratégia ideal para derrubar o trabalho disparado de Recife contra Cha-

teaubriand:

- Primeiro você tem que ganhar a imprensa, e isso não será difícil. Mui-

ta gente aqui já conhece seu nome. Depois vamos bater à porta de alguns fi-

gurões que possam levar seu caso ao Palácio do Catete. Sem a simpatia do

presidente da República você morrerá à míngua aqui no Rio.

Rabiscou num pedaço de papel alguns nomes e endereços importantes

e antes de se despedir pegou na prateleira um vidro de remédio e entregou-o

a Chateaubriand:

- Você deve estar com bronquite, está com o peito chiando muito. Leve

esse vidro de xarope Famel e tome uma colherzinha quatro vezes ao dia. É

infalível.

Na manhã seguinte, Veríssimo pegou-o no hotel para uma visita ao con-

de Afonso Celso, a quem pediriam um parecer jurídico sobre o caso, que fa-

riam chegar às mãos do presidente. Ao recebê-los em sua casa, o autor do fa-

moso Por que me ufano do meu pais já tinha notícias da pendenga. Algumas

pessoas de Recife - entre elas Tomé Gibson, do Jornal Pequeno - tinham te-
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CHATÔ, O REI DO BRASIL


legrafado pedindo seu apoio para Chateaubriand. Afonso Celso se dispôs a

redigir o parecer e, apressado, tratou de dispensar os visitantes:

- Posso começar a escrever amanhã mesmo, mas seria importante que

o professor chateaubriand viesse ao Rio para conversarmos pessoalmente.

Foi o próprio interessado quem desfez o equívoco:

- Senhor conde, não há dois Chateaubriand nessa briga, mas um só, e

sou eu mesmo.

Afonso Celso se espantou:

- Você? Mas então foi um pirralho de três arrobas quem saiu em defe-

sa do Veríssimo na polêmica contra Sílvio Romero? Pois então, meu filho,

pode contar comigo. O parecer sai em poucos dias.

Durante um mês Chateaubriand não teve descanso. Pela mão de Verís-

simo, foi sendo levado à presença dos mais notáveis nomes da política e da

inteligência do Rio de Janeiro e de São Paulo. E assim acabou tornando-se

amigo e tendo como seus defensores figurões como o político e escritor pau-

lista Alfredo Pujol, o senador Virgílio de Melo Franco e seu filho Afrânio, o

jurista Pedro Lessa - ministro do Supremo Tribunal que era conhecido

como o "Marshall brasileiro", numa referência ao grande jurista norte-ame-

ricano John Marshall. Na casa de Lessa emocionou-se ao ser apresentado a

seu ídolo Capistrano de Abreu (que, como repórter, conhecera superficial-

mente em Recife) e mal se agüentou nas pernas quando o constitucionalista

cumprimentou-o "pela coragem de haver liderado o rompimento do Partido

Republicano de Pernambuco com Rui Barbosa". Além do apoio oferecido

por Ernesto Pereira Carneiro, conseguiu ressuscitar uma velha amizade per-

nambucana com o jornalista Luís Gomes, pai do jovem cadete Eduardo Go-

mes, para assegurar-se de que no Jornal do Brasil não sairia uma linha que

pudesse prejudicar sua cruzada pela cátedra. Lembrou que anos antes fora

correspondente em Recife de A Noite, do Rio, jornal que agora vinha assu-

mindo discretamente a defesa de Joaquim Pimenta. Decidiu procurar pes-

soalmente o ex-patrão para tentar atraí-lo para sua causa. Irineu Marinho

ouviu pacientemente sua versão do caso até o fim para tranqüilizá-lo:

- Foi muito importante o senhor ter vindo aqui. Estou acompanhando

sua demanda desde o começo e vejo nela a eiva da política local. Estou con-

vencido de que a razão está com o senhor e não mais permitirei a publicação

dos telegramas que temos recebido do Recife em defesa do outro candidato.

Chateaubriand quis saber se era necessário deixar algum documento do

processo na redação, mas Marinho já estava ganho:

- Vá lutar por sua nomeação tranqüilo quanto a este front. Darei ao pe-

lotão de fuzilaria do convés deste vespertino a ordem para cessar fogo con-

tra o senhor.

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#
FERNANDO MORAIS


Em sua peregrinação pelas mais ilustres casas do Rio, o jovem nordes-

tino estava colocando em prática um projeto deliberado que ele confessara a

alguns amigos:

- Para um moço pobre que chega da roça aqui no Rio, o capital mais

importante que ele tem que levantar são as relações com gente influente. Se

conseguir isso, depois é só colocar essas relações para render juros. Daí em

diante a vida se encarrega da minha sorte.

Ele percebeu que os juros começavam a surgir quando jornalistas pas-

saram a procurá-lo para falar da briga. Nas entrevistas, Chateaubriand tra-

tava da questão com bom humor, insistindo em que a "campanha mofina"

que moviam contra ele não passava de "simples querelle d'allemand, que mais

me tem divertido do que impressionado". A Gazeta de Noticias porém, con-

tinuava publicando todos os dias extensa correspondência vinda de Pernam-

buco em defesa de Pimenta. Vicente Piragibe, que tinha sido preso por Dan-

tas em Recife na refrega de 1912 e que agora era deputado e dono do diário

A Época, abriu as colunas de seu jornal para que Chateaubriand se defendes-

se dos ataques do outro diário. Ele acabou acertando que publicaria um ar-

tigo semanal em A Época enquanto estivesse no Rio, pelo que receberia re-

muneração suficiente para sua manutenção na capital. O primeiro versava

sobre as conseqüências da morte do líder político gaúcho Pinheiro Machado.

Era um trabalho ligeiro, escrito sem maiores preocupações. Mas três dias de-

pois, ao abrir as páginas do paulista O Estado de S. Paúlo, ele quase perdeu a

fala: seu artigo era elogiado por Júlio Mesquita! Para um jovem jornalista re-

cém-chegado da província, um elogio de Mesquita significava o salvo-con-

duto indispensável à entrada no olimpo da imprensa nacional. Tendo como

portador Alfredo Pujol, de quem se tornara amigo, Chateaubriand enviou

uma carta de agradecimento ao diretor do Estado: "Seu artigo faz aos paulis-

tas uma apresentação triunfal deste modesto nortista que lê diariamente

seu jornal desde 1910", escreveu. "Ganhá-lo como padrinho em São Paulo é

uma dessas fortunas extraordinárias, que só uma alma de elite como a sua

poderia propiciar a um jovem e obscuro jornalista provinciano." Poucos dias

depois, soube por Pujol que a carta tivera o condão de transformar Mesqui-

ta em um novo e poderoso aliado na luta pela conquista da cátedra. Para co-

roar a vitória, na semana seguinte outro artigo seu era elogiado na coluna do

escritor e político Félix Pacheco no Jornal do Commercio.

Apesar de tudo, ele ainda estava muito longe de ser uma unanimidade

entre os cariocas. Além da campanha diária na Gazeta, o jornalista e escritor

Paulo Barreto - o João do Rio - massacrava-o em colunas publicadas em

O Pais, na Cazeta de Noticias e no Rio Jornal. Indignado com a injustiça que te-

mia cometer-se contra Joaquim Pimenta, o escritor decretou que só silencia-

ria quando Chateaubriand, derrotado na disputa, deixasse definitivamente

o Rio de Janeiro. Ao saber que João do Rio era conhecido pelos desafetos


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#
CHATÔ, O REI DO BRASIL


como "Cascavel", Chateaubriand anunciou que iria "introduzir métodos pa-

raibanos nas polêmicas cariocas". Conseguiu que um amigo lhe trouxesse do

laboratório do Asilo de Alienados de Recife uma cascavel de verdade e en-

viou-a ao jornalista dentro de uma caixa de chapéus, embrulhada para pre-

sente e acompanhada de um amável cartão. Á campanha chegou ao fim, mas

João do Rio jamais saberia que o remetente tomara o cuidado de mandar se-

car as glândulas venenosas da serpente antes de despachá-la à redação do

jornal.
Dois meses depois de seu desembarque no Rio, Chateaubriand enten-

deu que chegara a hora de levar a questão ao presidente da República, antes

que as articulações originárias de Pernambuco pusessem tudo a perder.

Preocupado com a desenvoltura com que ele circulava pelo Rio, Dantas Bar-

reto conseguira mobilizar três membros do governo federal, os ministros

Carlos Maximiliano, da Justiça, e o pernambucano José Bezerra, da Agricul-

tura, e mais o presidente do Conselho Superior do Ensino, Brasílio Macha-

do. A única solução que o governador pernambucano aceitava para o caso

era a anulação pura e simples do concurso pelo presidente, seguida da aber-

tura de um novo edital. Para Dantas, qualquer outra saída seria recebida

como uma derrota política pessoal, com todos os inconvenientes que isso

significaria para o presidente. O governador confidenciara a amigos que

Chateaubriand pagaria agora a humilhação de tê-lo feito "suar três camisas"

ao ler o manifesto de rompimento do PRP com Rui Barbosa, redigido pelo jor-

nalista. Desfrutando de indiscutível popularidade, o general Dantas Barreto

ascendera à condição de político de prestígio nacional. Com a morte do se-

nador Pinheiro Machado, fundador e comandante do Partido Republicano

Conservador, seu nome surgia naturalmente como candidato à sucessão de

Venceslau Brás. Para enfrentá-lo, Chateaubriand sabia que tinha de buscar

socorro junto aos pesos-pesados da capital federal. Arrebanhou seis parece-

res a favor de sua nomeação, assinados pelo jurista Pedro Lessa, pelo escri-

tor Afonso Celso, pelos políticos Afrânio de Melo Franco, Esmeraldino Ban-

deira e Manuel Vilaboim, e por seu conterrâneo mais ilustre, o senador

Epitácio Pessoa. Com a ajuda do deputado Vicente Piragibe, conseguiu que

fosse afinal marcada a audiência com o presidente Venceslau Brás. Na últi-

ma hora ainda ganhou outro forte aliado para sua causa, o almirante Alexan-

drino de Alencar, ministro da Marinha. No dia da audiência, uma vistosa co-

mitiva formada por Pedro Lessa, Afrânio de Melo Franco e Álváro de

Carvalho subiu com ele as escadas do Palácio do Catete.

Venceslau Brás ouviu-o, como o próprio Chateaubriand diria depois,

"com um mutismo de frade de pedra". Teatral, o jornalista gesticulava, dis-

cursava, levantava-se da cadeira, derramando sobre o presidente uma tor-
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#
FERNANDO MORAIS


rente de argumentos. Falou das perseguições de que tinha sido vítima, dos

atentados, prisões, do terror e da censura a que Dantas submetera o jornal

que ele dirigia em Pernambuco. Do outro lado da mesa, o mineiro de gros-

sos bigodes negros apenas escutava, sem sequer assentir com a cabeça. De

seus acompanhantes, apenas o ministro Pedro Lessa falou:

- Presidente, estou aqui para dar meu testemunho a respeito da limpi-

dez do direito desse rapazola e para matar a intriga e os mexericos que en-

volvem sua pessoa.

Quando o tempo previsto para a audiência se esgotava, Chateaubriand

entregou uma pasta ao presidente da República:

- Aqui estão opiniões sobre este caso, assinadas por seis dos mais ilus-

tres e honrados homens públicos deste país. Junto a elas anexei, para poupar

o tempo de vossa excelência, um memorial de treze linhas que redigi e que

sintetiza as minhas razões.

Na verdade o memorial tinha sido escrito pelo advogado Aníbal Ma-

chado, mas Chateaubriand, ao se levantar da cadeira, insistiu na autoria do

documento:

- Escrevi apenas treze linhas, presidente. O memorial não tem mais

porque tem tudo.

Venceslau Brás só abriu a boca quando os quatro já se preparavam para

sair. Foi solene:

- Deixe comigo os pareceres. Se me convencer de que tem um direito

líquido, nenhuma força será bastante forte para impedir seu provimento na

cadeira de professor da faculdade de Pernambuco. Agirei neste caso como

agiria dom Pedro II.

Alguns dias depois da audiência Chateaubriand foi localizado, tarde da

noite, na redação de A Época e levado às carreiras para a Rotisserie America-

na, onde políticos, jornalistas e juristas o aguardavam para festejar. Um de-

les trazia nas mãos uma cópia manuscrita do telegrama que o presidente da

República enviara naquela tarde ao governador Dantas Barreto e a seu su-

cessor Manuel Borba. Em treze linhas, Venceslau Brás mudava o curso da

vida de Chateaubriand:


Telegrama n 59, de 8 de dezembro de 1915.

General Dantas Barreto e doutor Manuel Borba

Recife

A Lei do Ensino, em seu artigo 48, obriga o Governo a nomear o candidato



que obteve lugar em concurso; o artigo 49 acrescenta que o ministro confirmará

o veredictum da Congregação ou mandará proceder a novo concurso, isto, no

caso de grave irregularidade, que não houve no concurso procedido na faculda-

de daí. A vista, portanto, dos termos expressos na lei, o Governo não tem a fa-

culdade de escolher outro candidato que não seja o indicado pela Congregação,

e, por isso, vai ser feita a nomeação do doutor Assis Chateaubriand. Sinto, por

isso, não poder atender aos desejos dos amigos. Afetuosas saudações,

V. Brás


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


Chateaubriand viu-se obrigado a permanecer mais trinta dias no Rio a

fim de atender a todos os convites para festas, jantares e coquetéis comemo-

rativos da grande vitória. Para dar conta dos compromissos, tinha de supe-

rar a incurável timidez. Ele confidenciava aos amigos que "tolerar a vida so-

cial consiste em verdadeira calamidade para mim, que preferia o trabalho

intelectual e uma existência mais caipira". Mas a alta sociedade e a intelec-

tualidade pareciam querer estender para sempre a satisfação de ter conse-

guido, por meio daquele magriço que falava obsessivamente, esmagar o po-

der e o populismo do general Dantas Barreto. Ninguém se referia a Joaquim

Pimenta como derrotado, mas só ao governador de Pernambuco. Como se a

volta de Chateaubriand a Recife pudesse levar embora o símbolo vivo da vi-

tória contra Dantas, os novos amigos o aconselhavam a fixar-se definitiva-

mente no Rio, abandonando o que tinha sido, a rigor, o único objetivo de

toda a campanha - a cátedra de direito romano. "O que estava em jogo não

era um empreguinho em Pernambuco, mas uma batalha moral e política

contra o PRC, e nós vencemos", diziam. "Você não pode jogar pela amurada

de um vapor o prestígio que conquistou na cápital federal para voltar a dar

aulas em Recife e escrever artigos em jornais da província." Donos de jornais

tentavam convencê-lo a permanecer no Rio com sedutores convites. juristas

afamados ofereciam-lhe sociedade em respeitadas bancas de advocacia, mas

ele resistia à tentação de ficar. Atordoado com o inesperado estrelato, con-

fessou a José Veríssimo:

- Durante todo esse tempo, sempre tive a convicção de que venceria a

parada contra Dantas. Mas só agora me dei conta de que jamais cheguei a me

imaginar de pé em frente a um bando de alunos, dando aulas de direito ro-

mano.


Veríssimo se alegrou com o que imaginava ser o anúncio da decisão de

permanecer no Rio, mas Chateaubriand tratou de esclarecer que tinha resol-

vido partir:

- Não sei onde será o meu futuro, mas agora tenho que voltar. Eu se-

rei eternamente amaldiçoado pelos pernambucanos se não retornar a Recife.

No dia 3 de janeiro de 1916 dezenas de pessoas se postaram no porto de

Recife para receber de volta aquele que, embora fosse paraibano, teria as gló-

rias de um vitorioso filho da terra. Procurando capitalizar eleitoralmente as

comemorações, o deputado federal Estácio Coimbra embarcou com Cha-

teaubriand no vapor que saíra do Rio dias antes e recebeu com ele os aplau-

sos quando a pequena alvarenga levou-os do navio ao porto. Do cais a cara-

vana seguiu até a matriz da Piedade, em Santo Amaro, onde o padre Abel

Pequeno - que contribuíra com um conto de réis na coleta de fundos para

a viagem ao Rio - celebrou missa "em ação de graças pelo regresso do maior


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FERNANDO MORAIS


intelectual nordestino". No primeiro banco da igreja ficaram Coimbra, a mãe

do homenageado, seus três irmãos e Poli, que ele só pudera cumprimentar

com um aceno, a distância. Presente em todos os atos, o diretor Sofrônio Por-

tela anunciou que a Congregação da Faculdade de Direito tinha sido convo-

cada para reunir-se no dia 5 e dar posse a Chateaubriand como catedrático

de direito romano.

Nos dias que se seguiram, os jornais locais transcreveram artigos publi-

cados pela imprensa do Sul que revelavam detalhes da batalha política pela

nomeação. Em todas as notícias, Chateaubriand era tratado com exagerados

elogios que o descreviam como "o verdadeiro Leão do Norte" ou "o Davi

paraibano que destruiu Dantas, o Golias do populismo". O Jornal Pequeno re-

produzira com destaque "A hora que passa", o último artigo que ele escre-

vera para A Época, na véspera do regresso, agradecendo a acolhida que o Sul

lhe dera e o apoio que recebera da inteligência carioca. Ele ainda publicaria

dois artigos no Jornal Pequeno - um intitulado "Um presidencialista de ver-

dade", elogiando o comportamento de Venceslau Brás no caso, e outro cha-

mado "A flauta de Ariel", em que agradecia o empenho de Félix Pacheco a

seu favor na disputa da cátedra.

O destino não daria tempo a Chateaubriand sequer para decidir o que

faria em Recife. Ele havia recebido propostas para associar-se a escritórios

locais de advocacia, para dirigir jornais, para abrir novos diários, para dedi-

car-se exclusivamente às aulas da Faculdade de Direito. Ainda consultava

amigos sobre que rumo tomar quando foi procurado por Ana Louise Lund-

gren, de quem fora mordomo por alguns dias, com um convite para retornar

ao Rio. As empresas da família sustentavam uma demanda judiciária que

havia começado anos antes em Recife, e que de recurso em recurso pousara

agora nas barras do Supremo Tribunal. Para defendê-la na corte federal, a

parte contrária recorrera aos serviços de outro umbuzeirense, o ex-ministro

e candidato declarado à Presidência da República Epitácio Pessoa. A expec-

tativa era de que o processo ainda duraria alguns meses antes da decisão fi-

nal, e as indústrias da família não poderiam ficar a descoberto no Distrito Fe-

deral, enquanto os adversários contavam com a vigilância de um advogado

residente no Rio. Ana Louise resumiu o objetivo da conversa: o nome esco-

lhido pelos Lundgren para enfrentar Pessoa no Supremo tinha sido o seu.

Surpreso, Chateaubriand tentou recusar a proposta, alegando que não pode-

ria opor-se a alguém que tinha sido um dos articuladores de sua vitória no

caso da cátedra. Além disso, reconhecia que ainda não tinha estatura sufi-

ciente para duelar com o experimentado advogado paraibano. A milionária

contra-atacou com um argumento irrecusável: Chateaubriand receberia vin-

te contos de réis mensais durante sua permanência no Rio, fora os honorá-

rios advocatícios. Vinte contos era um dinheirão, o dobro do que ele gastara
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CHATÔ, O REI DO BRASIL


para viver confortavelmente durante os três meses que passara na capital fe-

deral. Decididamente aquela era uma proposta irresistível, e ele aceitou.

Menos de um mês depois de sua chegada a Pernambuco ele estava de

novo arrumando as malas para retornar ao Rio. Dois dias após desembarcar

em Recifi recebera solenemente o título de doutor e fora empossado como

professor catedrático - cargo que lhe custara tanto esforço e que ele, ironi-

camente, não chegaria jamais a exercer por um só dia. Às vésperas do em-

barque, tomou coragem e foi à casa de Poli para enfrentar o problema que

vinha martelando sua cabeça nas últimas semanas: desmanchar o breve noi-

vado. O turbilhão em que se envolvera após o regresso o impedira de falar

com ela mais demoradamente, mas era chegada a hora de resolver tudo.

Chateaubriand foi recebido com tal frieza por Poli que não teve coragem

para sugerir o fim do romance. Deu voltas e mais voltas e terminou dizendo

a ela que sua permanência no Sul poderia perdurar por um ano - "ou até

mais, pois a burocracia judiciária é imprevisível", reforçou sem muita con-

vicção. Ao fim de tantos rodeios, propôs "a melhor solução para ambos":

adiar por um ou dois anos o casamento que, pelas promessas anteriores, já

deveria ter se realizado em dezembro. Ambos pareciam saber que aquilo era

apenas uma cena teatral, e que ele jamais regressaria a Pernambuco. Sem

mover um músculo do rosto, Poli ouviu a arenga lembrando-se das intrigas

que circularam pela cidade quando começaram a namorar. Manteve a ele-

gância durante todo o tempo, sem pronunciar uma sílaba, mas estava mor-

tificada com o que acabara de ouvir. Despediu-se de Chateaubriand esfor-

çando-se para não deixar transparecer que estava à beira de um choque

emocional. Ainda assim, foi ela quem teve coragem de pôr fim a tudo. Le-

vantou-se e, sem estender-lhe a mão para um cumprimento final, encerrou o

assunto:

- Eu entendi tudo, Chateaubriand. Não haverá mais casamento, nem

agora nem nunca. Passe bem.

Entrou em casa silenciosamente e trancou-se no quarto que, por lon-

gos anos, seria sua clausura. Poli só voltaria a pôr os pés na rua em 1926, dez

anos depois.


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#

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Chateaubriand não mentira o tempo todo em seu último encontro com

Poli. Ele tinha sido honesto pelo menos ao prever a duração de sua perma-

nência no Rio. O processo capengou por mais de um ano pelos meandros do

Supremo e só chegou ao fim em meados de 1917. Demorou muito, mas ter-

minou com uma vitória espetacular dele sobre Epitácio Pessoa. Mesmo con-

trafeito com a derrota para um iniciante, Pessoa reagiu com bom humor ao

encontrar Chateaubriand nos corredores do fórum:

- Não foi uma derrota minha, mas uma vitória de Umbuzeiro.

Ele voltou a Pernambuco assim que saiu a sentença e, ao reunir a famí-

lia Lundgren em Recife para transmitir a boa notícia, comunicou também

que decidira abrir mão da remuneração a que teria direito pelo trabalho

como advogado - até então ele recebera apenas os vinte contos mensais

para sua manutenção no Distrito Federal. Os clientes insistiam em pagar,

mas ele foi de uma sinceridade desconcertante ao justificar a recusa:

- Prefiro tê-los eternamente como meus devedores. Melhor do que ter

o dinheiro dos Lundgren é ter os próprios Lundgren para sempre dentro do

meu embornal.

Depois de tantos meses de convívio com a atmosfera cosmopolita da ca-

pital federal, Recife já não significava mais que uma cidadezinha de provín-

cia para ele. Decidido a mudar-se definitivamente para o Rio, liquidou os

compromissos em Pernambuco, entre os quais incluiu seu desligamento for-

mal do PRP. Dias antes de partir, em meados de setembro, recebeu um bilhe-

tinho em que o industrial Delmiro Gouveia agradecia um artigo que ele es-

crevera no Rio e mandara publicar na imprensa local sob o título "Uma

resposta a Canudos". Nele Chateaubriand elogiava a força empreendedora

de Gouveia como a única alternativa para a industrialização do Nordeste e

para manter a região a salvo de revoltas populares como a de Canudos, ocor-

rida duas décadas antes. Delmiro Gouveia, que fora seu adversário na guer-

ra contra o rosismo em 1912, acabaria por aproximar-se dele tempos depois.

Industrial têxtil aliado ora a grupos italianos ora a norte-americanos, ele se

transformara no flagelo dos interesses britânicos que dominavam o mercado

da fabricação de linhas de costura no Brasil. Apesar de não ter tido uma edu-

cação formal, era um homem muito perspicaz, dono de um refinamento que
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CHATÔ, O REI DO BRASIL


atualizava regularmente nas férias que passava em sua elegante villa de Ná-

poles, na Itália - e cuja propriedade ocultava "para não ser tomado por um

desperdiçador por estes matutos daqui ". Ao ler "Uma resposta a

Canudos",

enviara ao jornalista o bilhete de poucas linhas, escrito com dificuldade:

"Doutorzinho, você sabe escrever tão bonito da gente que este pobre matu-

to nem tem como agradecer-lhe. Aqui houve sertanejo que chorou ". Como-

vido, Chateaubriand resolveu fazer uma "despedida telúrica " do Nordeste:

pediu ao usineiro Costa Azevedo, o Tenente, que reunisse para um almoço

em sua fazenda de Mussurepe os poucos amigos que deixaria em Pernam-

buco: Frederico Lundgren, José Maria de Andrade, Pedro Paranhos, Ma-

nuel de Brito e Delmiro Gouveia, entre outros. No dia da reunião, convocou

Múcio Leão, Justino Vaz de Oliveira e Tancredo Bandeira de Melo para lhe

fazerem companhia. Tomaram o trem até Limoeiro e dali caminharam a pé,

pelo mato, os quarenta quilômetros que os separavam da propriedade de

Tenente. Passadas algumas semanas, Chateaubriand, já instalado no Rio, re-

ceberia a notícia de que seu almoço de despedida fora a última aparição pú-

blica de Gouveia: dias depois ele seria assassinado, supostamente a mando

dos industriais britânicos que se atrevera a enfrentar.

Chateaubriand chegou ao Rio precedido por uma fama de que poucos

brasileiros da época podiam desfrutar tão precocemente. Com 25 anos re-

cém-completados, era visto como a grande fulguração, o nome que se desta-

cava daquilo que a preconceituosa elite do Sul chamava de "o exército do

Norte " - os intelectuais que migravam para o Rio em busca do sucesso. Ele

sobrevivera à repressão de Dantas Barreto sem se submeter à humilhação de

ter de fugir de Pernambuco, como haviam feito seus chefes do PRP; forçara o

partido a abandonar Rui Barbosa e redigira o manifesto de rompimento com

o "Águia de Haia". Vencera Joaquim Pimenta depois de revelar dotes de ex-

perimentada raposa política, ao mobilizar até o presidente da República em

sua defesa; fora o adolescente que ousou provocar a vaidade de Sílvio Ro-

mero; advogado recém-formado, impusera a Epitácio Pessoa uma amarga

derrota nas barras do Supremo. Esquecendo o desprezo com que tratava os

nortistas, a inteligência da capital federal sentia-se orgulhosa de que ele ti-

vesse "abdicado do posto de vice-rei do Nordeste para vir fazer carreira no

Rio como um comum ", como dissera uma nota de A Época. Desconfiado do

farfalhar que cercava o novo personagem da vida carioca, o poeta Olavo Bi-

lac comentou que se tratava efetivamente de "um talentoso publicista ", mas

que as pessoas deviam tomar cuidado com ele: "Chateaubriand tem brilhan-

tes na cabeça, mas carrega cascalhos nos bolsos ". Profético, Bilac garantia

que o jovem nordestino não se mudara de Recife em busca apenas de uma

banca de advocacia ou de espaço nos jornais: "Ninguém traz um arsenal in-

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FERNANDO MORAIS
telectual como o que dizem ter para gastá-lo em panfletos ou na tribuna-

o destino desse moço aqui no Rio é o poder ".

Ele próprio, no entanto, dizia aos amigos que estava apenas em busca

de "uma alavanca" que garantisse seus primeiros anos no Rio:

- Se conseguir um ponto de apoio para sobreviver por aqui durante

um ou dois anos já estarei satisfeito. Depois vou pensar no que fazer.

Disposto a consolidar a poderosa rede de relações pessoais que começa-

ra a montar na campanha pela cátedra, decidiu que tão cedo não trabalharia

como empregado em nenhum jornal. Queria dedicar-se à advocacia, ganhar

algum dinheiro e aproximar-se de pessoas influentes. A alavanca apareceu

logo, sob a forma de uma pequena mesa de madeira instalada numa salinha

alugada nos altos da Casa Crashley, na rua do Ouvidor. Ali passou a fun-

cionar seu escritório de advocacia, e já no primeiro dia começavam a chegar

clientes enviados por seus dois protetores, Afrânio de Melo Franco e Alfre-

do Pujol, donos respectivamente das duas maiores bancas do Rio e de São

Paulo. Semanalmente publicava notas políticas em A Época, no Jornal do Com-

mercio e no Correio da Manhã. A convite de Júlio Mesquita, chegou a publicar

artigos no Estadinho, o vespertino lançado dois anos antes pelo Estado de

S. Paulo. Embora escrevesse regularmente sobre política internacional, o

triunfo dos bolcheviques no final da Revolução Russa mereceria dele um

único artigo, publicado no Correio da Manhã, em que Chateaubriand se es-

pantava com o romantismo dos comunistas: "Há qualquer coisa de tocante

na inocência sinistra com que o russo cândido e imaginativo se dispõe a rea-

lizar a experiência coletivista", escreveu. "Os homens que se estraçalham em

guerra civil agora na Rússia matam-se por um ideal. E a absorção mais com-

pleta da personalidade pelo interesse coletivo." Seu alvo predileto continua-

va a ser Rui Barbosa. Em seus artigos gabava-se de ser "um dos vagos bra-

sileiros que combatem Rui, a ele e à sua belicosidade de armazém de secos e

molhados". Indiferente à adoração nacional pelo baiano célebre, rotulava-o

como "um político regional, de discurso caipira cheio de pieguismo

aliadó-

filo". Em plena Primeira Guerra Mundial, acusava Rui de "oferecer tudo à



França, à Inglaterra e à Rússia, menos aquilo de que precisam, que é solda-

do e espingarda". Aparentemente, entretanto, seu interesse pelo jornalismo

se resumia aos artigos. Observava a distância a modernização da imprensa

do Rio e de São Paulo: as empresas construíam sedes próprias, importavam

equipamento sofisticado, as cores chapadas começavam a aparecer nos diá-

rios. Os caudalosos artigos - as "várias ", como eram conhecidos - que en-

chiam páginas e páginas de jornais começavam a dar lugar a temas da atua-

lidade, que os autores chamavam solenemente de "inquéritos".

Sua sala de visitas se dividia entre o escritório da rua do Ouvidor, a

mesa cativa na Rotisserie Americana, onde almoçava e jantava todos os dias,

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CHATÔ, O REI DO BRASIL


e o amplo apartamento que alugara para viver no elegante Hotel dos Estran-

geiros. O hotel se transformara no lugar da moda dos políticos por ter sido

o palco, anos antes, do assassinato de Pinheiro Machado, ocorrido em seu sa-

guão principal. Nesses lugares ele ficou amigo de uma fauna variada, que ia

de gente como o industrial Jorge Street, os políticos mineiros Antônio Carlos

e José Bonifácio Ribeiro de Andrada, a músicos como Catulo da Paixão Cea-

rense, passando por figuras como o conde Modesto Leal, milionário portu-

guês a quem os desesperados recorriam para tomar empréstimos a "juros es-

corchantes" de 8% ao ano. Aproximou-se também de outro nobre - na

época era comum adquirir-se no Vaticano, a preços razoáveis, títulos de no-

breza -, o conde paulista Sílvio Álvares Penteado, e em pouco tempo sua

mesa na Rotisserie era freqüentada pelos nomes mais requisitados da inteli-

gência e, sobretudo, do dinheiro carioca e paulista. Seu companheiro insepa-

rável passou a ser o jovem engenheiro Eugênio Gudin, diretor da Brazil Rail-

way, com quem dividia diariamente um assento nos bondes cariocas. Os

dois haviam se conhecido anos antes em Pernambuco, quando Gudin dirigiu

a instalação das linhas da Pernambuco Tramway & Power. E foi em meados

de 1918 que Gudin ouviu o amigo falar, pela primeira vez, de seus planos

para o futuro. Chateaubriand havia pedido seu aval para um empréstimo

que tomaria no Banco Germânico. O dinheiro, confessou, seria utilizado na

compra de um luxo descabido para a época: um automóvel. Mais precisa-

mente, uma espetacular baratinha Panhard Levassor francesa, com carroce-

ria desenhada por Labourdette, que ele vinha cobiçando desde que fora lan-

çada na Europa. Cauteloso, Gudin perguntou se não seria imprudência

tomar dinheiro emprestado para dissipá-lo na compra de um carro de luxo.

Como a advertência vinha do avalista, Chateaubriand sentiu-se na obrigação

de ser sincero:

- Seu Gudin, eu só advogo para ganhar dinheiro e comprar um jornal.

Acha que andando de bonde e fazendo vida de classe média inspiro con-

fiança aos acionistas da futura gazeta? O carro próprio é hoje o melhor índi-

ce de prosperidade. O importante não é ter dinheiro, mas transmitir a ilusão

de que ele não anda longe de mim.

Diante do espanto de Gudin, arrematou, teatral:

- A fortuna não anda mais a pé, mas de automóvel. E se for uma Pan-

hard, tanto melhor. As sociedades vivem de mitos. Quero que a burguesia

alimente o mito da minha petulante fortuna, porque é dessa burguesia que

precisarei, muito em breve.

Gudin deu o aval, mas não conseguiu guardar o segredo. Logo circula-

va pela praça a notícia de que Chateaubriand queria montar ou comprar um

jornal. Pedro Lessa e Afonso Vizeu, que tinham projeto idêntico, foram pro-

curá-lo com uma proposta pronta: queriam associar-se a ele para montar um

diário de dezesseis páginas, "leve, cintilante, com editoriais que não tives-

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FERNANDO MORAIS


sem mais que trezentas palavras e noticiário pulverizado em pílulas minús-

culas". Cada um dos três sócios teria um terço do controle da empresa - e

os donos da idéia emprestariam a Chateaubriand a parte dele, que seria

amortizada aos poucos, com os lucros do jornal. Delicadamente ele pulou

fora do projeto, pretextando que seria temerário montar um jornal de deba-

tes como o que se imaginava, sendo um dos donos "um gênio vulcânico e

panfletário" como Pedro Lessa:

- Isto nunca será um jornal, mas um paiol de pólvora de combustão es-

pontânea.

A Gudin ele confessou a verdadeira razão da recusa em associar-se aos

dois:

- O que eu mais almejo é ter um diário, seu Gudin. A proposta deles



era muito tentadora e os dois são meus amigos. Mas jornal é como mulher:

não dá para dividir com sócios. Prefiro esperar mais tempo e ter um sozinho.

Enquanto a oportunidade não surgia, ele investia na advocacia. Sua

fama chegou aos ouvidos de alguém que conhecera anos antes: Alexander

Mackenzie, presidente da holding Brazilian Traction, que por meio da Light

& Power controlava bondes, luz, gás e energia em várias capitais brasileiras.

Ao final de um jantar com Mackenzie no Automóvel Club, Chateaubriand ti-

nha sido contratado para representar, em processo que corria no Supremo, o

"polvo canadense", como os nacionalistas radicais chamavam o grupo es-

98

#


CHATÔ, O REI DO BRASIL
trangeiro. Chateaubriand já conhecia bem a trajetória da Light no Brasil, em-

presa que em diversas ocasiões ele mesmo defendera espontaneamente dos

ataques da esquerda em artigos publicados em Recife e no Rio. No Supremo

ele teve como adversário o renomado jurista Manuel Vilaboim, mas acabou

repetindo a façanha da demanda anterior e saiu vitorioso. Quando Macken-

zie chamou-o para os cumprimentos de praxe e para o acerto de honorários,

Chateaubriand recorreu à mesma conversa que usara com os Lundgren e re-

cusou-se a receber o dinheiro, acumulando mais alguns juros no banco de re-

lações que aos poucos ia construindo:

- Tornar-se amigo de um gigante da estatura de sir Alexander Macken-

zie é a maior remuneração que poderia almejar um brasileiro que luta como

eu pelo desenvolvimento de seu país. A conta já está paga.

A conta não estava paga, como Mackenzie perceberia anos depois, mas

pelo menos daquela vez o industrial não precisou desembolsar um vintém.

Insistindo em oferecer alguma retribuição, Mackenzie terminou por contra-

tá-lo como advogado fixo da banca da Brazilian Traction, o que o levaria a

fechar o escritório da rua do Ouvidor.

Semanas depois Chateaubriand era convocado por Nilo Peçanha, minis-

tro das Relações Exteriores, para uma audiência. Durante duas horas, foi

submetido a dura sabatina pelo ministro a respeito da política exterior do

Brasil e sobre interpretação de tratados internacionais. Como estavam em

campos opostos no essencial - Peçanha era pró-aliados, Chateaubriand era

germanófilo -, discordaram a respeito de quase todos os temas abordados.

Ao final da conversa, o ministro atirou:

- Estou precisando de um nome para ocupar o cargo de consultor de

leis de guerra no ministério e queria alguém que tivesse a coragem de diver-

gir dos meus pontos de vista. Se o emprego lhe interessar, o lugar é seu.

O emprego interessava muito, e o Palácio do Itamaraty, onde funciona-

va a Chancelaria brasileira, era um excelente lugar para plantar a ponta de

mais uma alavanca. Sua passagem por lá, porém, duraria menos de um ano.

A perspectiva de fazer jornal novamente, mesmo como empregado, voltaria

a tentá-lo meses depois. Instalado em um prédio novo na recém-construída

avenida Central, o Jornal do Brasil importara linotipos, máquinas novas para

impressão e um moderno sistema de clicheria. Nos últimos anos seus donos

vinham tentando adaptá-lo aos moldes da melhor imprensa estrangeira,

transferindo os pequenos anúncios para a primeira página, como faziam os

diários norte-americanos, e imprimindo o cabeçalho em cores. Mas as refor-

mas técnicas não se refletiam no essencial, que era a vendagem. Mesmo ocu-

pando parte do "mais alto edifício da América do Sul" e dispondo do mais

completo parque gráfico do Brasil, o jornal vendia muito pouco. Sócio majo-

ritário do Jornal do Brasil, o conde pernambucano Ernesto Pereira Carneiro
99

#
FERNANDO MORAIS


entendia que, depois das reformas implantadas pelos antigos sócios, sua

missão era rechear o jornal com o melhor material humano disponível na

praça. Era preciso arranjar um grande jornalista para transformar a melhor

gráfica no melhor jornal do país. A escolha acabou recaindo sobre o jovem

que ele ajudara a se instalar no Rio anos antes e que se transformara na gran-

de estrela da cidade.

Convertido à tese que defendia a internacionalização cada vez maior da

economia brasileira, Chateaubriand recusou o convite. Veemente, respon-

deu a Pereira Carneiro que não via sentido em trabalhar em um jornal que

"açoitava o capital estrangeiro" e se referia à ferrovia Madeira-Mamoré

como "um enclave ianque que ameaça a soberania brasileira":

- Não entendo como o senhor, um industrial moderno e esclarecido,

permite que essa corja de socialistas transforme seu diário numa trincheira

contra o desenvolvimento. Com essa gente eu não posso trabalhar.

Pereira Carneiro garantiu-lhe "carta branca para tirar o jornal da poei-

ra". Sabia de sua competência profissional e lhe daria liberdade para mudar

o que quisesse, com a condição de fazer do Jornal do Brasil um veículo impor-

tante e respeitado. Ele acabou aceitando o convite, e escreveu que iria "cons-

tituir um corpo de colaboradores de elite para dar brilho às páginas desta fo-

lha". Para que não restasse dúvida a respeito da linha editorial que pretendia

implantar, seu primeiro convidado foi o engenheiro Pires do Rio, que tinha

sido inspetor federal justamente no "enclave ianque" de Farquhar, a ferrovia

Madeira-Mamoré. Para o cargo de conselheiro do jornal, chamou João Tei-

xeira Soares, assessor de Mackenzie na direção da Brazilian Traction. Tirou

José Carlos Rodrigues da direção do Jornal do Commercio para, junto com To-

bias Moscoso, ajudá-lo a reformar a redação. O tom moderado seria dado

por outros membros do "corpo de elite " que Chateaubriand atraiu para o

jornal, como o conde Afonso Celso e seu antigo ídolo Carlos de Laet. De Re-

cife mandou chamar um companheiro da "despedida telúrica" de Pernam-

buco, Múcio Leão. Em pouco tempo o jornal recuperava prestígio, voltava a

vender bem e se tornava de novo um empreendimento economicamente

saudável. Além de dirigir e orientar o Jornal do Brasil, ele escrevia artigos

diários - sempre a lápis, pois jamais aprenderia a lidar com as ainda raras

e modernas máquinas de escrever que Pereira Carneiro importara para a re-

dação.

Chateaubriand trabalhava todos os dias até de madrugada. Sua única



diversão era freqüentar, em companhia do chinês Fu Shi-kai, uma casa de fu-

mantes de ópio na Lapa carioca. Quando alguém indagava se era um consu-

midor da droga asiática, ele explicava que não, que ia à casa por mera

curiosidade, "para ver o veneno sutil penetrar no cérebro dos consumidores

e dourar-lhes a fisionomia com uma alegria ingênua de criança". No mais,

mantinha os hábitos morigerados da juventude em Recife, alheio a festas e à


100

CHATÔ, O REI DO BRASIL


boemia. Acordava sempre antes de o sol nascer, pegava seu skiff no Club

Guanabara e remava até alto-mar. Quando o dia clareava, tomava um breve

banho de sol em Copacabana e nadava por meia hora. Retornava ao clube,

treinava um pouco de esgrima, saía para um rápido expediente no escritório

de Mackenzie e ia para a redação. O banho de mar era um costume raro no

Rio de Janeiro da época - só se freqüentava a praia regularmente a conse-

lho médico. Além dele, a única presença constante à beira-mar era a de um

rapaz moreno, cabeçudo, que aparecia todas as manhãs em Copacabana.

Curioso, Chateaubriand acabou se aproximando do ex-seminarista pernam-

bucano, que descobriu chamar-se Belarmino Austregésilo de Athayde:

- Você é nadador profissional?

- Não, venho aqui apenas tomar um sol e dar umas braçadas.

- Receita médica?

- Não, na verdade eu freqüento a praia para flertar com as mulheres.

Belarmino também era jornalista - trabalhava em A Tribuna, do mato-

grossense Antônio Azeredo da Silveira - e isso facilitou a aproximação. A

partir do primeiro encontro, todas as manhãs Chateaubriand passava com

sua Panhard para pegá-lo em casa e irem juntos à praia. Logo identificaram

divergências políticas: enquanto Chateaubriand escrevia a favor dos Impé-

rios Centrais, Belarmino defendia as democracias, a França e a Inglaterra.

Mas ambos gostavam do mar e de mulheres, e era isso que importava, não

as discrepâncias filosóficas. Certa manhã Belarmino ficou sentado na areia

olhando as moças que passavam na calçada, enquanto o amigo nadava mar

adentro. O tempo passava e Chateaubriand não voltava. O outro ficou preo-

cupado, começou a juntar gente e nada de o amigo aparecer. Quando por

fim conseguiu arranjar um salva-vidas que o socorresse, Chateaubriand vol-

tava calmamente para a areia, como se nada tivesse acontecido. Simulando

tranqüilidade, Belarmino recebeu-o com humor negro:

- Eu já estava aqui ensaiando o discurso que teria de fazer à beira da

sua cova.

Chateaubriand gostou da brincadeira e sugeriu que estabelecessem ali o

que a moda ditava - um pacto:

- Então estamos combinados: se eu morrer primeiro, você faz o discur-

so no meu túmulo. Se você partir antes, eu fico encarregado de despedi-lo do

mundo.

Os pactos fúnebres estavam em voga no Rio. O poeta Aníbal Teófilo e



seus colegas de saraus, por exemplo, haviam pactuado que o primeiro deles

a morrer deveria ter o peito banhado com gotas do perfume francês Idéal

dentro do caixão. A morte de Teófilo - assassinado a tiros por Gilberto

Amado - fez desaparecer das perfumarias os estoques de Idéal, e a direção

do cemitério precisou intervir para que o funeral do poeta não se transfor-

101


#
FERNANDO MORAIS
masse numa festa. Por muitos anos o Idéal tornou-se o perfume da moda en-

tre os intelectuais do Rio.

Decorreram poucos dias para que Chateaubriand temesse ter chegado a

hora de cumprir o pacto feito com Athayde. No começo daquele ano de 1918,

o navio inglês Demerara atracou no porto do Rio trazendo a bordo a mais

destruidora epidemia que o mundo jamais vira até então, a gripe espanhola,

e o amigo cearense caiu de cama contaminado pela doença. Em quatro me-

ses a praga tinha deixado um rastro de 20 milhões de mortos nos países por

onde passara, e no Brasil o surto se alastrava com rapidez incontrolável. Em

poucas semanas só as cidades do Rio e de São Paulo já haviam contado mais

de 25 mil mortos. Em um só dia morreram 1200 pessoas no Rio. Durante

duas semanas, Chateaubriand e mais dois gráficos - os três únicos a não

contrair a gripe no prédio da empresa - tiveram de fazer sozinhos o Jornal

do Brasil. Igualmente deserta, a redação do maior jornal de São Paulo, o Es-

tado, ficou entregue a apenas dois redatores que se mantiveram a salvo, Leo

Vaz e Monteiro Lobato. Uma noite, ao fechar na gráfica a magra edição do

jornal do dia seguinte, Chateaubriand soube que a mulher de seu amigo

Afrânio de Melo Franco acabara de morrer contaminada pela doença. O es-

tupor nacional, entretanto, só chegaria ao clímax nos primeiros dias de 1919,

quando os jornais noticiaram que o paulista Rodrigues Alves, recém-eleito

presidente da República, tinha sido abatido pela gripe. Mas a terrível pande-

mia, que não fizera distinção entre poderosos e populares, decidiu poupar o

"Caboclo" Belarmino, como Chateaubriand o apelidara. Recuperado, ele

apareceu na redação do Jornal do Brasil para comunicar ao amigo que sobre-

vivera:

- Meu caro Chateaubriand, quem escapa de praga que mata até presi-



dente da República está fadado a viver para sempre. Pode rasgar seu discur-

so, porque na minha sepultura você não vai falar.

No Brasil a gripe espanhola deixou como saldo 300 mil mortos e uma

enorme crise política. A Constituição determinava que, caso o presidente

morresse antes da posse, novas eleições deveriam ser convocadas - e foi as-

sim que o mineiro Delfim Moreira, vice de Rodrigues Alves, assumiu interi-

namente até que o novo chefe da nação fosse eleito. Seu curto governo ter-

minou apelidado de "regência republicana", pois quem mandava de

verdade era seu ministro da Viação e Obras Públicas, Afrânio de Melo Fran-

co. Rui Barbosa recusou o convite do governo para chefiar a delegação bra-

sileira à Conferência de Paz de Paris, que redundaria no Tratado de Versa-

lhes. Em seu lugar, à frente de um navio repleto de assessores, secretários,

ministros e respectivos familiares, acabou seguindo para a França Epitácio

Pessoa, então ministro aposentado do Supremo. Sepultado o presidente que

nem chegara a ser empossado, Rui tornou pública a verdadeira razão da re-

cusa, anunciando sua candidatura à sucessão presidencial. Chateaubriand já


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


começava a organizar sua infantaria para combater o baiano ilustre quando

seu conterrâneo e amigo Epitácio Pessoa convocou os jornalistas de agên-

cias noticiosas em Paris para comunicar que iria disputar a Presidência com

Rui Barbosa.

Pereira Carneiro já havia decidido colocar o Jornal do Brasil a serviço da

campanha do chefe civilista quando Chateaubriand lembrou-lhe o entendi-

mento que haviam feito quando ele assumiu a direção da empresa: ele teria

total liberdade para determinar a linha política, e quando isso gerasse diver-

gências com o dono, a diretoria seria convocada para deliberar. O conde acei-

tou a ponderação e, nos dias que antecederam a reunião, Chateaubriand de-

dicou-se a fazer proselitismo contra Rui, tanto em conversas com os diretores

que decidiriam a questão, como em duríssimos artigos que publicava diaria-

mente no jornal. Para ele Rui Barbosa fora durante a guerra, um belicoso

pela metade, que defendia a entrada do Brasil no conflito mas não a belige-

rância ativa ". Relembrou a campanha que fizera contra a indicação de Rui

para a chefia da delegação que iria à França. Na época, sustentara que não

fazia sentido mandar a Versalhes um embaixador que relembrasse o "papel

medíocre " que o Brasil tivera na guerra. Para dar combate duro ao adversá-

rio, deixava de lado até suas convicções germanófilas. "Não consta da litera-

tura da primeira conflagração mundial", escreveu, "uma única página em

que Rui Barbosa proponha a mobilização de um corpo expedicionário que

desembarcasse na França e atirasse contra o militarismo prusso-germânico."

Para Chateaubriand, um jornal que se prezasse não podia fazer a campanha

de alguém que tinha levado o Brasil a passar para o mundo a imagem de

uma nação acovardada e ambígua. Pereira Carneiro se curvou aos argumen-

tos do empregado e decidiu que o Jornal do Brasil permaneceria neutro na

campanha presidencial. Nem a obra literária de Rui escaparia da ironia do

cutelo de Chateaubriand: "Rui Barbosa é para mim, que conheço mal os fós-

seis da língua portuguesa, um dos mais notáveis escritores estrangeiros do

nosso atual idioma", escreveu no Correio da Manhã. "Leio-o de dicionário em

punho."

Quando se aproximava o dia da convenção que formalizaria a candida-



tura de Rui Barbosa, Júlio Mesquita decidiu ir em pessoa ao Rio para anun-

ciar o apoio de seu jornal ao baiano. Pediu a Pedro Lessa que promovesse

um encontro com Chateaubriand para manifestar frente a frente a indigna-

ção com que recebera a campanha feita contra seu candidato nas páginas do

Jornal do Brasil. Chateaubriand, que não o conhecia pessoalmente, ficou im-

pressionado com a simplicidade do dono do maior jornal do país, como re-

velaria tempos depois: "Mesquita desembarcou do trem na Central e hospe-

dou-se num quarto sem banho do Hotel Avenida. Recebeu-me sem paletó,

sentado numa cama de solteiro. Ninguém poderia ser mais destituído de ga-

las e, até mesmo, do mais singelo conforto ". A acolhida, entretanto, nada


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FERNANDO MORAIS


teve de afetuosa. O paulista foi polido o tempo todo, mas tratou Chateau-

briand com dureza. Encerrou a curta conversa sem um sorriso:

- Meu respeito pelo seu talento permanece, mas o senhor deve saber

que estou indignado com suas agressões ao doutor Rui Barbosa.

À noite Chateaubriand retornou ao Avenida. Sem considerar a frieza

com que fora recebido à tarde, entrou no quarto do dono do Estado levando

na mão uma raridade: uma garrafa de vinho Mosela alemão, safra de 1911,

para presentear ao adversário momentâneo:

- Doutor Júlio, seu gesto comigo em 1915 transformou-me para sem-

pre em seu escravo. Consegui esse vinho com o velho Mengt, do Hotel Inter-

nacional, para que o senhor, ao bebê-lo, esqueça as grosserias deste bugre

paraibano.

Desconcertado com o gesto, Mesquita resmungou:

- Muito obrigado. Quando chegar a São Paulo vou mandar-lhe uma

garrafa do vinho Flor de Lis. Mas continuo considerando desrespeitosa a

maneira como o senhor vem tratando Rui Barbosa.

A objeção de Mesquita não refreou a iracunda campanha de Chateau-

briand contra Rui. Impedido pela neutralidade de Pereira Carneiro de con-

tinuar a atacá-lo pelo Jornal do Brasil, conspirava em todas as frentes onde

identificava alguém solidário ao candidato adversário. Todas as noites, an-

tes de dormir, ele batia à porta do ex-ministro Nilo Peçanha, agora seu vizi-

nho de quarto no Hotel dos Estrangeiros, para tentar demovê-lo do apoio

que prometera a Rui Barbosa. O argumento era sempre o mesmo: aquela era

uma candidatura morta, pois Epitácio Pessoa ganharia as eleições sem tirar

os pés de Versalhes.

Setuagenário, Rui tentou sem êxito ressuscitar a Campanha Civilista-

era difícil justificar o civilismo desta vez, contra um adversário civil - e aca-

bou concentrando sua plataforma em uma novidade chamada "questão so-

cial". Pela primeira vez no Brasil alguém tão respeitado falava em "democra-

cia social". Buscou apoio nas idéias do ex-presidente americano Abraham

Lincoln, para sustentar a precedência do trabalho sobre o capital, defendeu

com veemência o liberalismo em praça pública, mas o destino corria por ou-

tros caminhos. A falta de unidade entre São Paulo e Minas Gerais em torno

de sua candidatura - basicamente apoiada pelo Rio de Janeiro - acabaria

dando a vitória a Epitácio Pessoa. Que, como Chateaubriand previra, elegeu-

se sem sair da França. A ascensão do paraibano de Umbuzeiro à Presidência

da República quebrava uma tradição de quase três décadas, que mantivera

o cargo sucessivamente nas mãos de mineiros ou paulistas, dando curso à

chamada "política do café-com-leite". Salvo a solitária exceção feita ao gaú-

cho Hermes da Fonseca, desde 1894 a presidência vinha sendo aritmetica-

mente atribuída aos dois estados: dos seis presidentes eleitos no período,

três eram mineiros e três paulistas.


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CHATÔ. O REI DO BRASIL


A primeira das inúmeras crises militares do governo de Epitácio Pessoa

eclodiu pouco depois da posse. A iniciativa foi do próprio presidente, ao co-

meter a imprudência - única em toda a história da República - de no-

mear um paisano, o engenheiro e historiador Pandiá Calógeras, para o Mi-

nistério da Guerra. Os protestos da oficialidade contra a presença de um

civil no mais alto posto militar do país agitavam os quartéis quando o minis-

tro agravou a crise com o anúncio da contratação de uma missão militar

francesa para "aperfeiçoar técnica e profissionalmente o Exército brasileiro".

Irredutível às exigências de que demitisse Calógeras, Pessoa não só o man-

teve no cargo como apoiou publicamente a decisão, anunciando que a mis-

são francesa já estava contratada e seria chefiada pelo coronel Maurice Ga-

melin, ex-membro do estado-maior do marechal Joffre na Primeira Guerra

Mundial. Amigo de Calógeras desde 1916, quando este amargava o ostracis-

mo a que fora atirado por Venceslau Brás, Chateaubriand saiu em defesa do

ministro. Em artigos assinados diariamente no Jornal do Brasil e no Correio da

Manhã, declarou guerra "a tudo quanto é misoneísta e jacobino, dentro e fora

do Exército, que combata a vinda da missão". Identificou um dos raros ofi-

ciais que apoiavam a contratação, o coronel Genserico de Vasconcelos, e con-

tratou-o como assessor para assuntos militares da redação do Jornal do Brasil.

Para Chateaubriand, a presença da missão no Brasil era "a única possibilida-

de de apressar-se a educação profissional do nosso corpo de oficiais, que em

contato com uma cultura mais avançada vão conter o processo de desinte-

gração do Exército, roído pelo vírus da politicagem". Quando Gamelin em-

barcou na França com destino ao Brasil, Chateaubriand festejou com um ar-

tigo: "A batalha contra velhos coronéis e generais reiúnos já está ganha. Só

um grande chefe de elite como o coronel Gamelin poderá transformar nossa

força de terra em um corpo robusto, disciplinado, leal à Constituição e fiel à

pátria. Quem se opõe à missão francesa são os arruaceiros de quarteladas".

A vitória reforçava seu prestígio junto ao presidente, algo que ele havia de-

monstrado na montagem do governo: além de ter participado da indicação

de Calógeras para o ministério, Chateaubriand conseguira fazer José Pires

do Rio, seu assessor no Jornal do Brasil, ministro de Viação e Obras Públicas,

responsável por todas as construções do governo federal no país.

Em meados de 1919, Afrânio de Melo Franco convidou Chateaubriand

para se incorporar a um grupo de intelectuais cariocas que tinham fretado

todo um vagão de trem para ir a São Paulo assistir à estréia da peça teatral

O contratador de diamantes. Escrita por Afonso Arinos, a peça permanecera

inédita após a morte do autor, ocorrida três anos antes. Agora os paulistas

decidiam montá-la em grande estilo no Teatro Municipal só com amadores,

escolhidos a dedo entre a elite cafeeira de São Paulo. O cenógrafo era o pin-


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FERNANDO MORAIS


tor José Wasth Rodrigues, retratista oficial da alta sociedade paulista. O con-

tratador era representado por Eduardo Aguiar de Andrada, e o papel de

d. Branca ficou para Eglantina Penteado da Silva Prado. A certa altura do es-

petáculo a orquestra regida por Francisco Mignone atacava um minueto, e o

público veria saindo de trás das cortinas dezesseis mocinhas e dezesseis ra-

pazes - entre os quais era possível identificar o jovem Júlio de Mesquita Fi-

lho e sua futura mulher, Marina Vieira de Carvalho. O fidalgo português era

Gofredo da Silva Telles e o ouvidor, René Thiollier. Temia-se que, com a ma-

ciça presença de elegantes no palco, não sobrasse ninguém para assistir ao

espetáculo, e que as portas do Municipal tivessem de ser abertas para o

povo.

A única participação do povo, na verdade, quase estragou a festa dos



barões do café. Na véspera do dia previsto para a estréia,10 de maio, as cos-

tureiras das casas de moda e confecção de São Paulo jogaram um jato de

água fria no entusiasmo da Paulicéia anunciando uma greve geral por au-

mento de salários - tinham finalmente chegado a São Paulo as temidas

"mudanças sociais" inspiradas na Revolução Russa. Sem os "lindíssimos

costumes" de que a imprensa tanto falava, não haveria peça alguma. A firme

intervenção do prefeito Washington Luís - um dos maiores entusiastas da

montagem teatral - pôs fim ao odioso movimento paredista. Mas a estréia

precisou ser adiada até que as costureiras obtivessem o aumento exigido.

Fechadas as cortinas - sob aplausos generalizados, claro -, a trupe e

os convidados vindos do Rio foram homenageados com um banquete no ca-

sarão de Alfredo Pujol, na rua Pirapitingui. O dono da casa aproximou-se de

uma das atrizes amadoras, a adolescente Iolanda Penteado, de dezesseis

anos, e cochichou em seu ouvido:

- Quero apresentar-lhe um rapaz nortista que é um gênio. Ele veio do

Rio com o Afrânio e está aqui em casa.

Iolanda ainda estava vestida à Luís XV, com uma peruca coberta de tal-

co sobre a cabeça, quando conheceu Chateaubriand. Segundo ela mesma di-

ria depois, "ele ficou tonto" diante de sua beleza. Iolanda revelaria também

que, apesar de tê-lo achado "um rapaz não muito bonito", tinha ficado hip-

notizada por sua conversa. Chateaubriand convidou-a para caminharem

juntos pelos jardins e foi ali mesmo, um par de horas após conhecê-la, que

lhe propôs casamento. Ao recusar de chofre, Iolanda não imaginava que

aquele seria apenas o primeiro pedido - apaixonado por ela até o fim da

vida, Chateaubriand voltaria a repeti-lo, sempre em vão, dezenas de vezes.

Ao retornar ao Rio e comentar em uma roda da Livraria Leite Ribeiro que

havia recebido um "não" de Iolanda - "uma verdadeira princesa austría-

ca", dizia -, Chateaubriand ouviu uma confissão do aviador Alberto San-

tos Dumont:

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CHATÔ, O REI DO BRASIL
- A recusa dela a seu pedido me consola. Quando Iolanda rejeitou mi-

nha proposta de casamento, meses atrás, achei que fosse por causa da dife-

rença de idade, pois sou trinta anos mais velho que ela. Mas se ela disse não

a você, que é um jovem, está tudo explicado: Iolanda não deve gostar de ho-

mens que andam com a cabeça nas nuvens, como nós dois.

Ao findar a segunda década do século, Chateaubriand já era alguém ab-

solutamente integrado à refinada vida intelectual e política do Rio de Janei-

ro. Por alguns meses chegou a ser presidente de uma empresa de seguros, a

Sotto Mayor & Araújo Costa, embora não detivesse uma única ação da com-

panhia. Conspirava na Rotisserie Americana, tomava chá com Mackenzie e

Arno Pierson - os homens da Light - no britânico Club Central e jogava

boliche com Capistrano de Abreu no Clube Germânia. Num desses encon-

tros, Capistrano pediu que ele intermediasse um favor junto a Pereira Car-

neiro:


- Chateaubriand, eu não conheço esse conde pernambucano, mas sou-

be que ele, além de ser um homem educado, conta seu dinheiro por milha-

res de contos. Você poderia convencê-lo a mandar copiar a parte dos textos

do Conselho Ultramarino português relativos à Capitania de Pernambuco e

imprimi-los na tipografia do jornal. Ele pagaria a um bom copista entre cem

e duzentos mil-réis por página e prestaria um serviço relevante à nossa

cultura.

A edição acabou não saindo, mas pouco tempo depois Capistrano esta-

va de novo às voltas com Chateaubriand, desta vez para tentar impedi-lo de

concorrer à Academia Brasileira de Letras na vaga de Olavo Bilac, que mor-

rera meses antes. Mário Alencar, Alfredo Pujol e Miguel Couto decidiram

que ele tinha "o corte e o talhe" exigidos pela mais ilustre confraria brasilei-

ra. Ao saber do projeto, Capistrano, Pedro Lessa e Júlio Mesquita se junta-

ram para demover o jovem de 27 anos daquela aventura. Chamaram Cha-

teaubriand para uma conversa antes mesmo que ele tivesse tempo de aceitar

o convite para a disputa. Capistrano foi encarregado de resumir o que o gru-

po pensava daquilo - e o fez com poucas palavras, sem a menor cerimônia:

- Soubemos que você está ensaiando para entrar na Academia, a mes-

ma Academia que seus artigos tanto açoitam. Vimos dizer-lhe que somos

contra.


Chateaubriand tentou brincar, dizendo que, como paraibano, era inso-

lente e extrovertido demais para uma casa tão austera:

- O humor brusco da Paraíba não se concilia com o ambiente fino e

agradável de uma sociedade acadêmica como aquela.

Capistrano não estava para conversa e deixou isso claro:
- É uma sem-vergonhice de sua parte querer entrar naquele bródio de

cinqüenta meias-patacas. Pois bem: essa idéia tem nosso integral repúdio. Se


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FERNANDO MORAIS


pelo menos ali estivessem alguns quinhentões baianos... Não caia nessa as-

neira, não nos decepcione.

A advertência fora tão dura que ele percebeu que não tinha saída. Se ce-

desse à tentação de virar imortal, abalaria suas relações com os três amigos.

Decidiu comunicar a desistência ao grupo que o lançara, agora ampliado

pela presença do jornalista Félix Pacheco. Chateaubriand fez um longo e sin-

cero discurso, insistindo em que para ele as letras não eram um meio para o

aprimoramento do espírito, mas "a ferramenta de trabalho de um operário"

que viera ao Rio para ganhar a vida:

- Sei que tenho familiaridade suficiente para conversar com Goethe,

Schiller, Molière, Renan, Machado de Assis e Alencar. Mas é preciso que vo-

cês saibam que, honestamente, lido com as palavras para sustentar uma fa-

mília de onze pessoas que vive em torno de minha mãe viúva, no Recife. A

Academia vai matar minhas ambições de homem de ação.

Félix Pacheco rebateu que aquelas palavras escondiam o verdadeiro sen-

tido da recusa - a soberba:

- O Rio já te deu tanta coisa... Tu surgiste aqui com um estridor tão

violento, com uma luminosidade tão grande que perdeste a vontade de de-

sejar algo mais. O que queres na verdade é fazer da renúncia à Academia um

traço da tua originalidade. Para seres original, desdenhas a Academia.

O médico e educador Miguel Couto insistiu em que o jornalista, embo-

ra nunca tivesse produzido uma sílaba de ficção, era "um literato de calibre

muito superior ao da maioria dos imortais da Academia", mas Chateau-

briand deu a conversa por encerrada:

- É aí que todos vocês se equivocam com relação à minha profissão. O

jornalismo é uma arte que nos divorcia completamente da literatura. O ho-

mem de imprensa é a mais viva contradição do escritor. Nós, jornalistas, não

passamos de índoles descritivas. Somos no máximo coloristas dos fatos, se

quiserem, mas nunca, jamais, criaturas de imagens e de idéias. Meus pensa-

mentos não estão na Academia, eu lhes asseguro.

Capistrano de Abreu era o único de todos - os contrários e os favorá-

veis à candidatura - a saber que os pensamentos de Chateaubriand de fato

não estavam na Academia. Certamente já não estariam nem mesmo no Bra-

sil, a julgar pela carta de apresentação que o próprio Capistrano enviaria em

março de 1920 a um amigo que vivia na Alemanha:

[...) Chateaubriand embarca este mês para Berlim e pedir-lhe-ei que, se puder, o

procure. De pequena estatura, glabro, nasceu em Umbuzeiro, na Paraíba, como

o Epitácio. Tem menos de trinta anos, é docente da Faculdade de Recife. Veio ao

Rio há uns três anos por negócios de advocacia. Aqui foi ficando, primeiro

numa comissão da Secretaria do Exterior, depois como jornalista. Colabora no

Correio da Manhã, por cuja conta vai agora à Alemanha para um semestre. É re-
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CHATÔ, O REI DO BRASIL


dator-chefe do Jornal do Brasil, que fundou Rodolfo Dantas, comprou Rui e nele

manteve uma campanha brilhantíssima contra Floriano. Muito tempo ficou nas

mãos dos filhos do geógrafo Cândido Mendes, agora está nas do conde Pereira

Carneiro. Chateaubriand é jornalista honesto, moderado e culto. É germanófilo

como o Correio da Manhã; vários de seus artigos têm sido traduzidos no Deuts-

che Zeitung, de São Paulo. Ele irá muito recomendado pela colônia.


109

7
Não passava pela cabeça da maioria dos donos de jornais, na imprensa

brasileira do começo do século, gastar dinheiro mandando repórteres fazer

coberturas fora do país. Na verdade, nem fora de seus estados. O comum era

os próprios patrões - ou seus amigos e parentes com pendores para as le-

tras - aproveitarem viagens de turismo e recreio ao exterior para, na volta,

publicar suas impressões nos diários. As raríssimas exceções tinham ocorri-

do quando da assinatura do Tratado de Versalhes, na França, que estabele-

ceu as condições para o fim da Primeira Guerra Mundial. Daí, certamente, o

espanto com que Chateaubriand recebeu o inusitado convite feito por Ed-

mundo Bittencourt, o dono do Correio da Manhã, naquela tarde de novembro

de 1919. Bittencourt chamou o colaborador do jornal para um chá na varan-

da de seu casarão à beira da praia, em Copacabana, e fez a proposta sem ro-

deios: o Correio queria que ele passasse um ano na Alemanha, escrevendo arti-

gos e fazendo entrevistas com os vencidos da Primeira Guerra. Chateaubriand

quis saber por que ele tinha sido o escolhido, e recebeu como resposta um

rasgado elogio:

- Escolhi o melhor. Eu não poderia mandar nessa missão um jornalis-

ta médio ou um sofrível. E o melhor que eu conheço é você. A Alemanha é

um país central, de onde você poderá circular com desenvoltura pela Euro-

pa. Reconheço que o salário não é grande coisa, mas será suficiente para você

se manter com dignidade.

Ele tinha sido chamado para ocupar o cargo de secretário-geral do cen-

so nacional que seria realizado no Brasil no ano seguinte, mas aquela era

uma oportunidade única. Chateaubriand não se cansava de dizer em público

que o Correio tinha sido o único jornal brasileiro "a conservar a altivez e a li-

berdade diante da torrente de calúnias contra os vencidos de hoje". Para ele,

o Tratado de Versalhes era "um crime da força bruta e da arrogância a res-

peito do qual nunca fui neutro". Sua simpatia pela Alemanha era tal que

João do Rio - o mesmo que recebera dele a cascavel embrulhada para pre-

sente - acusava-o abertamente de ser um agente a soldo de Berlim. Não po-

deria haver melhor patrão, portanto, para germanófilo tão radical. Bitten-

court pretendia que Chateaubriand viajasse ainda naquele ano, mas passaram

várias semanas até que ele se desfizesse de tantos compromissos no Rio-

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CHATÔ, O REI DO BRASIL


ele já não trabalhava mais no Jornal do Brasil, mas continuava escrevendo ar-

tigos para outros diários - e só em março de 1920 seu navio atracaria na Itá-

lia, primeira escala européia antes de instalar-se na Alemanha.

Foi de uma Roma com quase todos os serviços em greve, e onde estava

só de passagem, que Chateaubriand enviou sua primeira e curta entrevista

- a reprodução de uma conversa mantida com Guglielmo Marconi duran-

te um chá no Grande Hotel. Era um trabalho insosso, cujo único mérito foi

ter conseguido fazer falar o inventor do telégrafo sem fio, conhecido como

um homem inacessível à imprensa. De inesperado, só o bom humor com que

o taciturno Marconi encerrou a entrevista. Quando Chateaubriand quis sa-

ber se o físico trabalhava em algum novo invento, ele respondeu que estava

tentando falar pelo rádio com o planeta Marte, mas sem muito sucesso-

"pois parece que a greve já atingiu os radiotelegrafistas do outro mundo".

Em companhia do embaixador Souza Dantas fez uma rápida viagem a Flo-

rença e de lá partiu finalmente para Berlim, onde pretendia fixar residência

pelos doze meses seguintes.

A partir de abril de 1920, o Correio da Manhã passaria a publicar dois ar-

tigos semanais assinados por Chateaubriand. Em troca de algumas libras a

mais, recebeu o convite para que o material fosse publicado simultaneamen-

te no diário La Nación, de Buenos Aires. Além disso, a cada dez dias o Cor-

reio trazia uma longa entrevista feita por ele com um personagem da vida

alemã. O primeiro da série foi o industrial Walther Rathenau, dono do con-

glomerado AEG. Logo na abertura da entrevista o jornalista revelou a surpre-

sa que lhe causara a simplicidade da sala de trabalho de Rathenau, o maior

fabricante europeu de turbinas, locomotivas, lâmpadas e automóveis: "O ga-

binete do presidente da AEG tem a sobriedade de uma cela de trapista", es-

creveu Chateaubriand, "que lembra mais uma sala de meditação que de tra-

balho". Depois dele desfilaram pelas páginas do jornal os perfis do economis-

ta Georg Gothein, ministro do Tesouro da República de Weimar, do panfle-

tário Maximilian Harden, diretor do semanário Zukunft, dos generais Hoff-

mann, Von der Goltz e Von Gallwitz, do banqueiro Bernard Dernburg, dos

cientistas Wassermann e Haber, diretores do Kaiser Wilhelm Institut, presi-

dido pelo físico Albert Einstein, que naquele ano receberia o prêmio Nobel

de física. A cada entrevistado Chateaubriand pedia contatos, bilhetes e car-

tas de apresentação para tentar chegar perto de quatro personagens conhe-

cidos pela ojeriza que tinham por jornalistas: os marechais Hindemburgo e

Ludendorff, o almirante Tirpitz e o teórico marxista Karl Kautsky, festejado

internacionalmente como o herdeiro político de Friedrich Engels.

Em meados do ano, durante breve viagem a Paris, o jornalista recebeu

no hotel a visita de um certo conde de Carapebus, que o procurava em nome

da Família Real brasileira. A princesa Isabel, filha de d. Pedro II e autora da

lei que abolira a escravatura no Brasil, mandava convidar Chateaubriand


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FERNANDO MORAIS


para passar um fim de semana no castelo da família em Eu, no Noroeste da

França. Durante os anos em que trabalhara no Rio de Janeiro, ele encabeçara

uma campanha, por meio de artigos no Correio da Manhã e no Jornal do Brasil,

pela revogação do decreto que banira a Família Imperial do território brasi-

leiro. Durante a disputa pela Presidência da República, meses antes, Chateau-

briand arrancara de seu conterrâneo Epitácio Pessoa o compromisso de que,

eleito presidente, ele revogaria o decreto. Vitorioso, Pessoa telegrafou ao ami-

go para anunciar que a promessa estava cumprida: "Umbuzeiro está vitorio-

so nessa jornada. A revogação do banimento da Família Imperial vai ser um

dos meus primeiros atos como presidente da República". Ao saber que esta-

va na França o jovem que liderara a campanha em favor de sua anistia, a prin-

cesa e o seu marido, o conde d'Eu, quiseram conhecê-lo de perto.

Chateaubriand acabou passando não dois, mas seis dias no Castelo d'Eu

e passeando em companhia da princesa pelos campos da Normandia. Para

não emocioná-la demais - quase uma octogenária, de cabelos inteiramente

brancos, Isabel acabaria falecendo poucas semanas após aquele encontro -,

ele ocultava a real situação em que se encontravam os negros no Brasil, para

muitos dos quais a libertação não passara de um pedaço de papel. Frequen-

temente ela voltava ao assunto:

- E então, doutor Assis, o que foi feito dos negrinhos que vendiam co-

cada, tapioca e beijus nas ruas de Petrópolis em 1888?

Chateaubriand desconversava, dissimulado:

- Vão bem, alteza, os seus negrinhos vão muito bem.

Da França ele embarcou para uma temporada em Londres. Era seu pri-

meiro vôo em um avião comercial - um moderno Junker de alumínio, de

três motores e oito lugares, que nem de longe lembrava o minúsculo Blériot

em que se aventurara sete anos antes pelos céus de Recife. Embora empre-

gado do Correio da Manhã, Chateaubriand continuava mantendo boas rela-

ções com o conde Ernesto Pereira Carneiro, dono do Jornal do Brasil e seu an-

tigo patrão. E o pretexto para realizar a viagem tinha sido um telegrama que

ele recebera do conde, que se encontrava na capital inglesa, convidando-o

para um almoço em que o jornalista e empresário pernambucano seria ho-

menageado por um grupo de lordes. Esnobe, o conde dizia a Chateaubriand

que ele seria "o único convidado desse lado daí do canal para o ágape"-

o que ele chamava de "esse lado daí do canal" era a Europa continental. A

recepção seria na City, o que obrigou o convidado a já embarcar em traje

protocolar. Maneco Mendes Campos, um amigo brasileiro que vivia em Pa-

ris, achava uma insensatez alguém "vestir um fraque e atravessar o canal da

Mancha em um aeroplano, sob nevoeiro fechado, só para comer um pedaço

do presunto de York que lord Mayor oferece a um fidalgo pernambucano".

Com planos de passar algumas semanas em Londres, Chateaubriand to-

mou um quarto no elegante Hotel Claridge's, para onde acabou arrastando


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


Pereira Carneiro. Ele se deliciava com a ingenuidade do conde, que, apesar

de experimentado jornalista, não resistia ao assédio dos repórteres da im-

prensa de mexericos sociais da City. Tempos depois Chateaubriand descre-

veria em um artigo a atmosfera que cercava o dono do Jornal do Brasil na Eu-

ropa:
A imprensa de reportagens remuneradas, a cuja disposição Ernesto Pereira Car-

neiro deliberou ficar, é universal, existe em toda a Europa. A reputação de dis-

pensador generoso de publicidade do conde, segundo constatei, já atravessara

o Atlântico. Ele era um mantenedor ultramarino de jornais. Ao desembarcar em

Lisboa, segundo me confessou, se vira envolvido por um cardume de espertos

enquêteurs, peritos na arte de reportagens a mil-réis forte o centímetro. Imagi-

nem um conde sul-americano, jornalista, armador, com mais de 1 milhão de li-

bras nos bancos da City, como tinha o nosso santo conde! Não era um fidalgo

que dava às praias do Tâmisa, mas uma baleia tropical, que assanhava a cobiça

e o faro dos repórteres do subjornalismo britânico. Entrei uma manhã no belo

salão de visitas do apartamento amarelo de Afonso xIII, que ele ocupava, quan-

do o doce Ernesto se deixava extirpar voluptuosamente por dois ágeis jornalis-

tas londrinos. Liquidado o conde, marcharam para mim.
Marcharam em vão. Malandro, o que mais divertia Chateaubriand era

provocar a burguesia britânica. Todas as manhãs ele se escarrapachava em

um dos confortáveis sofás centrais do lobby principal do Claridge's para fo-

lhear, escandalosamente, seu exemplar do Daily Worker, o jornal do Partido

Comunista inglês, adquirido, junto com outras publicações, num quiosque

das proximidades. Indignados, os hóspedes do hotel - banqueiros, políti-

cos, financistas da City - eram obrigados a testemunhar diariamente aque-

le acinte. E quanto mais cara feia aparecesse, mais Chateaubriand provoca-

va - ao dobrar as páginas do jornal, abria os braços e balançava as folhas no

ar, como se estendesse um lençol.

Um dia a coisa entornou e Chateaubriand foi procurado em seu quarto

por um funcionário com um ultimato da direção: os moradores permanen-

tes se queixavam muito da provocação feita com o Daily Worker, todas as ma-

nhãs, e ele teria de se mudar do hotel. Ele protestou, gritou, reclamou, mas

foi tudo em vão: em 24 horas precisava liquidar as contas e deixar o Clari-

dge's. Sem acreditar no que ouvia, tomou o elevador e bateu à porta da suí-

te que o ex-primeiro-ministro Lloyd George alugava para escrever as suas

Memórias de guerra. O político britânico não entendeu o que é que ele tinha

a ver com aquele problema e, portanto, entendia menos ainda por que aque-

le rapaz pequenino e de fala incompreensível se atrevia a bater à sua porta

para reclamar de um funcionário de hotel. Ainda assim resolveu ouvir a con-

fusa história até o fim. Chateaubriand contou em detalhes o que aconte-

cera, e insistiu em que não era um gesto provocativo, até porque ele lia vá-
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FERNANDO MORAIS


rios jornais no saguão do hotel todos os dias, e não apenas o Daily Worker.

E garantiu:

- Não tenho pendores comunistas, mas em uma nação democrática

ninguém pode impedir-me de ler um jornal comunista.

Lloyd George acabou por concluir que, de fato, o hotel cometia uma in-

justiça com o rapaz. Tirou o robe, colocou paletó e gravata e desceu à gerên-

cia do hotel investido da autoridade de ex-comandante supremo das forças

aliadas na Primeira Guerra Mundial. Lá chegando, apenas comunicou que,

se Chateaubriand fosse expulso, ele também deixaria sua suíte definitiva-

mente. O hotel não teve outra alternativa senão engolir o impertinente hós-

pede sul-americano. Que, de pirraça, a partir daquele dia passou a ler exclu-

sivamente o Daily Worker no saguão do Claridge's, guardando os jornais

conservadores para ler no quarto.

Para alívio da direção do hotel, entretanto, o desconforto duraria pou-

co. Semanas depois Chateaubriand resolveu fazer as malas e voltar para Pa-

ris, levando consigo o conde Pereira Carneiro. Na véspera da partida, jantou

com o antigo e o novo patrão, Edmundo Bittencourt, que estava de passa-

gem pela Inglaterra. O dono do Correio da Manhã disse estar muito satisfeito

com o trabalho que o repórter realizava na Europa, mas era portador de um

convite para que ele retornasse ao Brasil. O novo governador de Pernambu-

co, José Bezerra Cavalcanti, decidira fazer um agrado a Bittencourt e coloca-

ra à disposição do Correio uma cadeira de deputado federal - e o nome in-

dicado pelo próprio ofertante para ocupá-la era o de Chateaubriand. "Embora

me sinta ufano da minha condição de brasileiro diante de um convite desses,

recuso sem pestanejar", ele respondeu. "O Parlamento não faz parte dos meus

sonhos."


De volta à capital francesa, espantou-se, semanas depois, quando Ernes-

to Pereira Carneiro - um conde papalino, católico praticante e marido fide-

líssimo - pediu sua companhia para "conhecer Montmartre por dentro". O

conde esclareceu, desde logo, que não pretendia "espojar-se no vício, mas

apenas flertar com ele, ver como era a cara de Satanás". Chateaubriand mal

conhecia o bairro boêmio de Paris, pois, quando não ia ao teatro ou à ópera,

dormia sempre às dez da noite, e precisou recorrer a um especialista na ma-

drugada parisiense, o amigo Maneco Mendes:

- Maneco, não acredito no que ouvi daquela boca que recende a santi-

dade. Se o conde me tivesse dito que ia arrebentar os miolos com dois tiros

de uma garrucha do Pajeú de Flores, eu não me assustaria tanto.

Apesar do espanto, mandaram preparar uma ceia para três no cabaré

Abbaye de Theléme, onde passariam juntos a última noite de Chateaubriand

em Paris. Os dois encomendaram aos donos da casa a presença de algumas

"ladies britânicas de alto coturno" para animar a festança. No fim da noite

,

ao se recolherem ao Hotel Royal, Chateaubriand e Maneco comentavam que


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


o conde saíra daquela abadia do pecado tão puro quanto entrara. Seu único

delito tinha sido o exagerado consumo de champanhe. "O que o conde Pe-

reira Carneiro queria era medir a força de sua própria beatitude ", gargalha-

va Chateaubriand. "Eu sabia que nenhuma das falenas que borboleteavam

naquela boate lograria seduzir o Xenócrates pernambucano."

O retorno de Chateaubriand a Berlim coincidiu com a presença na capi-

tal alemã do marxista Kautsky, que vivia na Áustria. O jornalista já havia

tentado entrevistá-lo antes. Desembarcou na cidade e simplesmente bateu à

porta da casa de Kautsky. A mulher deste recebeu-o cordialmente, mas foi

taxativa: o marido não falava com jornalistas. Não ia ser diferente agora, ele

percebeu ao ser recebido por madame Kautsky à porta do amplo apartamen-

to da Windscheidstrasse. Polida, ela disse que a entrevista não seria possível:

- Tudo o que meu marido tem a dizer ele escreve e publica nos jornais,

meu jovem.

Chateaubriand não se conformou:

- Confesso que essa maneira de receber um colega estrangeiro não me

parece muito recomendável para um apóstolo do socialismo. Tenho encon-

trado hospitalidade diferente na residência dos representantes mais exalta-

dos da burguesia e do capitalismo...

Diante da renitente negativa da mulher, tentou uma última jogada:

- Desta vez tenho informações que talvez interessem ao senhor

Kautsky. Entrevistei ontem o economista August Müller, ex-ministro do In-

terior, e ele contou-me, em primeira mão, que está embarcando para a Rús-

sia nos próximos dias, à frente de uma missão de industriais teutónicos. Meu

jornal só publicará essas informações daqui a alguns dias, mas eu terei o

maior prazer em reproduzir para seu marido tudo o que o doutor Miiller me

disse.

O golpe baixo deu certo, e valeu a Chateaubriand três horas de entrevis-



ta com aquele a quem os dirigentes soviéticos se referiam como "o renega-

do", o homem cujo sobrenome iria parar na capa do livro A revolução prole-

tária e o renegado Kautsky, escrito por Lenin em 1918. Ao final da entrevista

(que renderia uma página inteira no Correio da Manhã), Kautsky inverteu os

papéis e passou a interrogar Chateaubriand sobre a política no Brasil: quan-

tos deputados tinha a direita no Brasil? Ela era reacionária como a da Ale-

manha? Quantos partidos socialistas existiam no Parlamento brasileiro?

Chateaubriand disse ter sentido enorme dificuldade para responder àquele

"terrível quebra-cabeça", e só encontrou uma maneira de resumir, para um

Karl Kautsky de olhos arregalados, o que era o Parlamento brasileiro:

- Doutor Kautsky, o Poder Legislativo no meu país é quase sempre um

seio de Abrahão, largo, generoso, onde todos os deputados só aspiram a

um objetivo: a bem-querença do Poder Executivo.
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FERNANDO MORAIS


Animado com o sucesso da entrevista no Brasil, Chateaubriand partiu

em direção a sua próxima presa: o general Erich Ludendorff, ex-chefe do es-

tado-maior de Hindemburgo na Primeira Guerra que, três anos depois, se

juntaria a Hitler no comando do fracassado putsch de Munique. Quando sou-

beram que aquele pequenino brasileiro viajaria a Munique pára entrevistar

Ludendorff, os correspondentes da imprensa americana em Berlim reagiram

com gargalhadas. Alguns deles chegaram a apostar que ele voltaria à capital

de mãos abanando. O que os americanos não sabiam é que aoembarcar no

trem noturno com destino à Baviera, Chateaubriand levava na pasta a cópia

de uma carta de recomendação que outro entrevistado, o general Von der

Goltz - que lutara ao lado de Ludendorff na batalha de Tannenberg -, en-

viara ao superior. O autor da apresentação enchera o repórter de confiança,

ao despachá-lo para Munique:

- Com esta carta nas mãos o senhor, como no Fausto, irá até o Reino das

Madres, e verá tudo.

O trem atrasou quase cinco horas, não tinha aquecimento, a noite esta-

va gelada, e só de madrugada é que Chateaubriand arranjou um leito para

descansar um pouco. Quando conseguiu falar pelo telefone de Munique com

a casa do general, em Ludwigshohe, uma voz mal-humorada disse que Lu-

dendorff o esperara até dez minutos antes, como tinha sido acertado, e tive-

ra de sair para só retornar às 18h45. Na hora exata, depois de rodar

vinte mi-

nutos de táxi até a villa em que vivia o militar, um criado o introduziu ao

salão principal da casa - descrito minuciosamente na reportagem -, onde

Ludendorff entrou em seguida. Sem apertar-lhe a mão, sem dar boa-noite, o

general, vestindo um puttee de pano cinzento, tinha no peito um guardana-

po branco e em uma das mãos uma faca de comida, que ele brandia como se

fosse uma espada. Aproximou-se de Chateaubriand e disse raivoso, autori-

tário:

- O senhor está aqui desde a manhã. Como aparece a estas horas da



noite na minha casa, se a carta do general Von der Goltz fala em um compro-

misso entre três e quatro da tarde? Imagino que o senhor deve ter dissipado

seu tempo pela cidade. Tenho visitas, não posso mais recebê-lo. Retire-se,

por favor.

"Ele brandia a faca e avançava para o repórter num ímpeto de felino as-

sanhado ", escreveria Chateaubriand no jornal. "Tudo isso foi dito num tom

de quem convida para a briga. Fiquei atônito. As mãos tremeram-me. Enca-

rei o general e vi-o de sobrecenho carregado, os olhos cheios de ira. Perma-

necemos alguns segundos a olhar um para o outro, sem dizer palavra, jogan-

do uma cena muda. Ouvi um bater de pratos. Certamente jantavam. O meu

ímpeto era dar de costas àquele bruto e partir. Pensei, entretanto, na fortuna

que me sorria de poder entrevistar-me com o antigo primeiro quartel-mes-

tre, e decidi tomar Ludendorff como ele era: um selvagem bravio e cru." O
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CHATÓ, O REI DO BRASIL


nervosismo provocado pela cena era tal, Chateaubriand diria depois, que

seu maior medo era não conseguir pronunciar uma só palavra em alemão.

E falar em francês ali certamente poria tudo a perder. Tomou coragem e

avançou:


- Senhor general, meu trem atrasou várias horas e eu tive dificuldades

para me comunicar por telefone com sua casa. Se estou aqui a esta hora é

porque de sua casa me deram essa orientação. Peço desculpas pelo atraso in-

voluntário e faço um apelo para que o senhor me receba amanhã.

Ainda "de arma na mão" mas já mais calmo, o general cedeu:

- Venha às onze da manhã. Economize o dinheiro do táxi e venha de

trem de Munique até aqui. O trem chegará às 11h05, e da estação até minha

casa o senhor gastará cinco minutos a pé.

Como a entrevista já estava garantida, ele não resistiu à tentação de fa-

zer mais uma provocação, como vingança pelo sermão que fora obrigado a

ouvir:

- Prefiro vir de táxi mesmo, general. A crise do carvão está desmorali-



zando a proverbial pontualidade dos trens alemães.

A antipatia do repórter pelo personagem parece ter durado pouco. Na

entrevista publicada pelo Correio - a primeira concedida pelo militar desde

que abandonara o Estado-Maior alemão -, apesar de ressalvar que a pri-

meira impressão tinha sido "abominável", Chateaubriand apresenta Luden-

dorff apoteoticamente, como o "César loiro da Alemanha", o "Ubirajara ful-

vo ", "o homem que fez tremer o mundo quando desencadeou a ofensiva de

1918 como um terremoto, abalando a Europa dos Alpes às costas flamen-

gas". O general falou horas e horas a respeito de quase tudo, previu equivo-

cadamente que Lenin cairia em poucos meses e ao final enviou uma mensa-

gem manuscrita "aos compatriotas brasileiros de estirpe alemã", transformada

em clichê e reproduzida pelo jornal.

Naquela mesma noite Chateaubriand tomou o Expresso Oriente de Mu-

nique para Karlsruhe, onde dormiu e de onde partiu na manhã seguinte, a

caminho de Saint-Blasien, na Floresta Negra, para a entrevista com o almi-

rante Alfred von Tirpitz. Animado pela entrevista com Ludendorff, ele foi ao

encontro do almirante sem nenhum arranjo prévio, confiando apenas em

uma carta de apresentação que fora enviada àquele por seu genro, Karl von

Hasseler, secretário da embaixada do Reich em Roma, a quem Chateau-

briand tinha sido apresentado logo ao chegar à Europa. A carta não tivera

resposta e, além disso, o jornalista sabia que só muito excepcionalmente os

militares alemães que mais se celebrizaram na Primeira Guerra Mundial re-

cebiam jornalistas. E quase nunca abriam exceção aos representantes de paí-

ses que tivessem participado da guerra contra a Alemanha. Em resumo,

tudo jogava contra o sucesso da empreitada.
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FERNANDO MORAIS


Ao se registrar na portaria do hotel de Karlsruhe, Chateaubriand perce-

beu que, além de todas as dificuldades, seu sobrenome também conspirava

contra a entrevista. O gerente tinha sido gentilíssimo até o momento em que

ele pediu um pedaço de papel para redigir um telegrama a Von Tirpitz, pre-

venindo-o de sua chegada no dia seguinte a Saint-Blasien para o pretendido

encontro. Já fazia alguns meses que o jornalista deixara de assinar "A. Ban-

deira de Melo ", substituindo-o pelo nome com que ficaria conhecido, "Assis

Chateaubriand" ou simplesmente "A. Chateaubriand". Ao pegar o papel

para transmitir a mensagem e ver o sobrenome francês na assinatura, o ho-

mem voltou-lhe abruptamente as costas, dizendo em voz alta para outro

funcionário:

- Não me espanta o cinismo desses franceses ao vir procurar o almi-

rante, meses depois de querer enfiar sua cabeça no laço de uma forca. O que

me envergonha como alemão é saber que Von Tirpitz os recebe e agasalha...


Escaldado com o ocorrido em Munique, chegou cedo a Saint-Blasien-

uma estação de cura para tuberculosos aos pés da Floresta Negra - e só teve

tempo de deixar as malas no hotel, tomar um rápido drinque em um dancing

para se aquecer e pegar o táxi em que escalaria a ladeira rumo à casa do al-

mirante. Para sua surpresa quem atendeu à porta foi o próprio Tirpitz... mas

para avisar que não haveria entrevista alguma:

- Doutor Chateaubriand, nós fomos criminosamente atingidos pelo

Tratado de Versalhes, que nos desarmou. A leste temos os inimigos russos,

a oeste temos os inimigos britânicos. Eu o recebo em minha casa em atenção

ao pedido do meu genro, mas não posso dar entrevistas a jornalistas de paí-

ses que romperam relações ou que combateram a Alemanha. Seria impa-

triótico.

Enquanto abria apressadamente a pasta, de onde tirava recortes de jor-

nais, Chateaubriand partiu para a ofensiva:

- Almirante, meu único fuzil é a minha caneta, e todas as vezes que a

usei para falar do grande conflito eu o fiz em favor da Alemanha. Critiquei

meu próprio país por nossa pusilanimidade durante a guerra. Tenho aqui

recortes do meu jornal para que o senhor aprecie a orientação do Correio da

Manhã quanto à política estrangeira do Brasil. Trago também um artigo que

publiquei em alemão no Deutsche Zeitung, excelente diário editado em São

Paulo pelo meu amigo Rodolfo Troppmair, que não deixa dúvidas quanto às

minhas convicções. E trouxe para o senhor, ainda que em português, algu-

mas das entrevistas que realizei nos últimos meses na Europa. Por estes es-

critos, o senhor verá que eu não sou um inimigo.

Era mais um militar que se rendia. Dias depois o Correio da Manhã pu-

blicava duas páginas inteiras com a entrevista que começava descrevendo a

vegetação que cercava a casa de Tirpitz, da Floresta Negra: "Aqui nada há

que recorde a Prússia amarga, de solo exausto e pobre, de natureza rude e


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


severa. Aqui é uma féerie de verdura transparente, de vegetação luxuriante,

de terra fresca e doce, de céu poético e azulado, como se o iluminasse um

raio de sol da Itália. O automóvel que me levava conduziu-me através do la-

birinto da floresta, galgando as estradas em ziguezague, de onde víamos pe-

nhascos e precipícios que lembram as pedras atormentadas do Rio de Janei-

ro". No meio das massudas colunas de texto um clichê exibia mais um

manuscrito em alemão - que desta vez Chateaubriand arrancara de Tirpitz,

agradecendo "a boa conduta dos alemães, no Brasil, durante a guerra".

Quando regressou, triunfante, a Berlim, Chateaubriand foi aconselhado

por médicos a liquidar, com uma cirurgia, um velho problema de rinite que

o clima europeu agravara. Nem o cirurgião que o operou - o cientista de ul-

tradireita Gustavo Killian, do Kaiser Wilhelm Institut - conseguiria escapar

de uma entrevista. Aproveitando os encontros que tiveram nos dez dias em

que permaneceu convalescente no hospital, Chateaubriand entrevistou-o

para uma reportagem sobre o avanço da medicina e da ciência na Alemanha

do pós-guerra.

Essa obsessão jornalística de querer transformar em notícia tudo o que

estivesse ao alcance de sua mão acabaria, ironicamente, sendo a causa do en-

cerramento abrupto de sua experiência como correspondente na Europa. Ao

receber em Berlim um pacote contendo os exemplares de duas semanas do

Correio da Manhã, ele deu com uma minúscula nota - um "tópico", como

chamavam na época - que o deixou indignado. Na verdade tratava-se de

uma brincadeira ingênua do jornalista Pedro da Costa Rego, ironizando o es-

tilo Chateaubriand de trabalhar. Os jornais haviam noticiado que o rei Jor-

ge II, da Grécia, fora hospitalizado depois de ser mordido por um macaco.

Sem assunto para encher sua coluna, Costa Rego escreveu que muito prova-

velmente àquela hora Chateaubriand estaria entrevistando o macaco... Ele

saiu apressado do hotel e foi à estação telegráfica, de onde transmitiu uma

mensagem a Edmundo Bittencourt exigindo que o autor do deboche fosse

punido - uma ilusão, já que Costa Rego era o poderoso secretário de reda-

ção do Correio e o braço direito de Bittencourt. Como não recebesse respos-

ta, simplesmente fez as malas e pediu demissão do jornal. Telegrafou de

novo ao Brasil comunicando a decisão e pedindo a dilatação, por mais al-

guns dias, do prazo já vencido de sua carta de crédito na Europa. Temendo

que a burocracia e a dificuldade de comunicações o prendessem por muito

tempo na Alemanha, tomou mil libras emprestadas com o jornalista Theo-

dor Wolff, deputado e diretor do Berliner Tageblatt, e partiu. O retorno repen-

tino acabou impedindo-o de fazer aquela que imaginara ser a mais impor-

tante de todas as entrevistas que planejara - com o marechal Hindemburgo.

Ele já havia viajado a Hamburgo, em agosto, para um encontro previamen-

te acertado com o militar, mas lá chegando a entrevista teve de ser desmar-

cada. Adiado para fins de novembro, o encontro acabaria não acontecendo.


119

#
FERNANDO MORAIS


No dia 15 de novembro de 1920, Chateaubriand estava em alto-mar, a bor-

do de um transatlântico inglês, a caminho do Brasil.

Mal pôs os pés no Rio de Janeiro, Chateaubriand já tinha emprego ga-

rantido. O conde Pereira Carneiro, que acabara de assumir o controle do Jor-

nal do Brasil, comprando a parte da empresa Mendes & Cia., chamou-o

para ocupar o lugar de redator-chefe, o mesmo que ele deixara meses antes,

ao partir para a Europa. Mais uma vez, entretanto, ele nem esquentaria di-

reito a cadeira no novo trabalho. Nos primeiros dias de junho de 1921, pediu

as contas a "seu Ernesto ", como tratava o conde. As razões de sua saída nun-

ca ficaram muito claras. Em um artigo publicado meses depois, ele insinuou

que o diretor-tesoureiro do jornal teria sugerido um substancial aumento em

seu salário em troca do apoio à candidatura do mineiro Artur Bernardes à

Presidência da República. Chateaubriand teria recusado a oferta - "apesar

de acumular algumas dezenas de contos de dívidas " - e pedido demissão.

Mais tarde voltaria ao tema, dizendo que saiu ao perceber que o conde iria

mesmo colocar o jornal a serviço da candidatura de Bernardes. Ambas as

versões seriam satisfatórias se na campanha eleitoral o Jornal do Brasil não ti-

vesse ficado ao lado do fluminense Nilo Peçanha e, portanto, contra Artur

Bernardes.

Seja como for, ele acabou indo buscar refúgio, de novo, no frondoso es-

critório de advocacia de Afrânio de Melo Franco. A decisão fazia parte de

uma estratégia: ao retomar a profissão de advogado, que tinha sido a sua

"alavanca" ao chegar ao Rio, Chateaubriand pretendia dar passos decisivos

na realização de seu antigo sonho de ter o próprio jornal. Com essa idéia fixa

na cabeça ele passou os três anos seguintes acumulando relações e dinheiro.

Uma vez que cavar dinheiro parecia cada dia mais difícil, investia na am-

pliação de seu cartel de amizades influentes - uma maneira um pouco mais

lenta de chegar ao que lhe interessava. Para se aproximar da próspera colô-

nia alemã, organizou uma campanha de arrecadação de fundos para o setor

de pesquisas científicas do Kaiser Wilhelm Institut, de Berlim, que acabou

rendendo, em dois meses de trabalho,140 contos de réis - ou 4 mil libras

esterlinas.

Em uma de suas viagens de trabalho a São Paulo, Chateaubriand rece-

beu uma chamada telefônica que parecia ter vindo do céu: do outro lado da

linha estava o conde Francisco Matarazzo, o homem mais rico do Brasil. Dois

anos antes, na sua primeira passagem pelo Jornal do Brasil, o jornalista aten-

dera um homem que entrara na redação pedindo que se noticiasse, ainda

que discretamente, a morte por acidente, ocorrida na Itália, do jovem Erme-

lino Matarazzo, filho do conde. Como que iluminado pelo instinto, o próprio

redator-chefe resolveu redigir um caprichado obituário, e assinou embaixo.


120

#
CHATÔ, O REI DO BRASIL


Comovido com a homenagem, Matarazzo telefonava agora para agradecer

pessoalmente. Apanhou Chateaubriand no centro da cidade e levou-o a vi-

sitar algumas de suas fábricas. No final do dia ofereceu-lhe um jantar na

enorme casa térrea de colunas brancas instalada no meio de sua villa da ain-

da pacata avenida Paulista. Quando o cabriolé o deixava à porta do Hotel

Esplanada, à noite, o milionário chamou Chateaubriand a um canto para ofe-

recer-lhe um raro privilégio. Estendeu-lhe a ponta de seu próprio paletó e

sussurrou:

- Doutor Assis, o senhor foi muito generoso com o meu finado filho.

Desculpe a intimidade, mas esta é uma superstição da Calábria, na Itália,

onde eu nasci. Esfregue as pontas dos dedos aqui no meu paletó, que é para

eu passar-lhe um pouco da minha sorte.

Passou. Ali nascia uma amizade sólida e rendosa - pelo menos para

Chateaubriand - que duraria até a morte do conde, em 1937. Dividendos

menores, mas igualmente originários de boas amizades, ele já vinha colhen-

do no Rio de Janeiro. Alfredo Pujol indicou seu nome a Raoul Dunlop, pre-

sidente da Liga do Comércio do Rio (futura Associação Comercial), e ele foi

contratado como consultor jurídico da entidade, trabalho que se resumia a

dar pareceres sobre processos judiciais. Com a pilha de processos aumentan-

do a cada dia sobre sua mesa, sentiu necessidade de um auxiliar. Pediu au-

torização a Melo Franco para colocar mais uma mesinha num canto do escri-

tório e instalou ali, recém-chegado do Nordeste, seu irmão Oswaldo, que

acabara de se formar em direito. Rabugento, encrenqueiro e depressivo

(Chateaubriand chamava-o, meio por carinho, meio por ironia, de "Mimo-

so '), Oswaldo se metera em uma briga com o governador da Paraíba, Sólon

Barbosa de Lucena, e foi obrigado a se demitir do cargo de promotor de Jus-

tiça e abandonar o estado. Mas a passagem dele pelo Rio seria curta. Valen-

do-se do prestígio do irmão mais velho, poucas semanas depois Oswaldo

conseguia ser nomeado procurador da República em São Paulo.

Chateaubriand terminaria o ano de 1921 em grande estilo, com o lança-

mento de seu livro Alemanha, um cartapácio de quase quinhentas páginas,

no qual o jornalista reeditou os melhores artigos e entrevistas feitos no ano

anterior na Europa. Tanto a idéia da publicação do livro como praticamente

todo o trabalho de seleção do material, composição e impressão tinham sido

iniciativa do empresário alemão Paulo Beck, que se encantara com o autor

ao ler seus artigos no Jornal do Brasil e no Correio, ainda antes da viagem. Até

o custo da edição - ao todo, vinte contos de réis - ficara por conta do ad-

mirador. Para surpresa de Beck, do editor - o lusitano Álvaro Pinto, da AI-

manak Laemmert - e até do autor, o livro foi um sucesso de vendas. Tanto

que, além de pagar todos os custos de produção, ainda rendeu a Chateau-

briand outros vinte contos de réis.

121


#
FERNANDO MORAIS
Vinte contos, entretanto, ainda era dinheiro insignificante para a reali-

zação do sonho de ser dono de um jornal. O importante, enquanto o dinhei-

ro não vinha, era ir engordando o rol de amigos influentes. E foi por volta

dessa época que a mão do destino o guiou até o mais influente deles. Ale-

xander Mackenzie chamou-o para um encontro no escritório da Light, e lá

chegando deu com um velho conhecido seu: o industrial americano Percival

Farquhar.

No ano anterior, em uma de suas viagens a Paris, Chateaubriand janta-

ra uma noite no casarão da avenue Iéna em que Farquhar vivia sozinho, ser-

vido por catorze criados. O dono da casa recebeu-o de fraque e calça listra-

da, e quando os garçons começaram a servir o jantar o convidado espantou-se

com a lista impressa que lhe foi posta diante dos olhos, contendo as centenas

de marcas de vinhos disponíveis na adega da casa, cujo dono era abstêmio.

Farquhar vinha de uma vitoriosa viagem a Moscou, onde convencera Lenin

a renovar as concessões que suas empresas tinham na Rússia, desde os tem-

pos do czar, de exploração de ferrovias (que ele mesmo construíra) e poços

de petróleo em Baku, capital da recém-criada República Socialista Soviética

do Azerbaijão, às margens do mar Cáspio.

No escritório da Light, no Rio, Chateaubriand deparava com o mesmo

Farquhar de antes: além de seco, taciturno, incapaz de um sorriso, ao contrá-

rio do jornalista, que já falava com absoluta fluência, o industrial era gago.

Ele foi direto ao assunto:

- Doutor Assis, o Mackenzie chamou-o aqui porque o doutor Afonso

Pena Júnior, advogado das minhas empresas no Brasil, vai assumir a direção

do Banco do Brasil e terá de nos abandonar. Gostaria que o senhor assumis-

se o lugar dele.

Chateaubriand sabia do que se tratava e achava que aquela era uma

guerra perdida - guerra em que Farquhar estava metido no Brasil havia vá-

rios anos. Uma empresa de mineração de propriedade dele, a Itabira Iron

Ore Company, havia adquirido na região de Natividade, no vale do rio

Doce, em Minas Gerais, uma área de mais de 3 mil alqueires, em cujo subso-

lo calculava-se que estivesse escondido um tesouro de mais,de 1 bilhão de

toneladas de minério de ferro. Simultaneamente, Farquhar assumira o con-

trole acionário da Estrada de Ferro Vitória-Minas, caminho natural para o

escoamento do minério até o Espírito Santo. Uma persistente campanha de

setores nacionalistas combatia a entrega de concessões como aquela a gru-

pos estrangeiros. Os adversários de Farquhar sustentavam que, se abrisse a

exploração das jazidas de minério de ferro a grupos internacionais, o país

iria sofrer, dois séculos depois, sangria idêntica à provocada pelo ciclo do

ouro: exauridas as reservas, as empresas retornariam a seus países de ori-

gem, em prejuízo da economia brasileira. Um dos mais destacados líderes do

movimento nacionalista era um advogado mineiro que se elegera deputado


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#
CHATÔ, O REI DO BRASIL


federal por duas vezes e que agora era governador de Minas Gerais e candi-

dato declarado à Presidência da República: o mesmo Artur Bernardes que

Chateaubriand dizia ter sido a causa de sua saída do Jornal do Brasil. Bernar-

des se recusava terminantemente a autorizar que fosse assinado o contrato

permitindo a Farquhar a exploração da monumental jazida. Se Chateau-

briand assumisse a causa, era com Bernardes que iria se haver. Homem de

poucas palavras, Farquhar queria apenas saber se ele aceitava o convite: sim

ou não? Por todas as razões, ele deveria simplesmente dizer sim. O cliente

era milionário e a causa, para as convicções de Chateaubriand, era justíssi-

ma, patriótica. Meses antes ele escrevera vários artigos acusando seu amigo

e presidente Epitácio Pessoa de "jacobino ultranacionalista". por ter "come-

tido o crime de lesa-progresso" ao estatizar o porto de Rio Grande e as fer-

rovias da Compagnie Auxiliaire des Chemins de Fer du Brésil, de Porto Ale-

gre, cujo controle acionário o próprio Farquhar havia adquirido em 1910. Em

1911 Farquhar investira as primeiras 300 mil libras de lucro da Auxiliaire na

construção de ramais que a ligassem às linhas da Argentina Railway e da

Uruguay Railway, ambas controladas por ele.

Ao contrário do americano, Chateaubriand era um homem de muitíssi-

mas palavras, e à proposta seca respondeu com um espetáculo de retórica:

- Seu Farquhar, se um feiticeiro do direito como Afonso Pena Júnior

não conseguiu arrancar esse contrato do governador Bernardes, como é que

o senhor imagina que um jagunço como eu vai obter esse milagre? Vou ser

sincero, seu Farquhar: estou convencido de que Bernardes, assim como não

assinou o contrato com Afonso Pena, não o assinará comigo. Quer saber

mais? Esse contrato ele não assina com ninguém.

- Doutor Assis, tenho grande necessidade de seus serviços. Quero ape-

nas que o senhor me responda: aceita ou não aceita?

- Se é assim, não é convite, é intimação. Não cabe relutância e eu acei-

to entrar nessa guerra.

- Muito obrigado. Quanto é que seus serviços vão custar, doutor

Assis?

- Seu Farquhar! Para mim o senhor é um serviço público! Se todo mês



eu dôo meus honorários de professor licenciado de direito para a compra de

livros para a biblioteca da faculdade, como é que poderia cobrar do senhor?

Lutar para que o senhor explore o ferro de Minas Gerais não é uma causa co-

mercial, é uma cruzada cívica! Estar a seu serviço é para mim uma obriga-

ção nacional.

Farquhar não caiu na armadilha:

- Muito obrigado pelas palavras, doutor Assis, mas minhas empresas

não aceitam colaboração não remunerada. O senhor estabeleça o valor de

seus honorários e indique a casa bancária em que eles devem ser depositados.
123

#
FERNANDO MORAIS


Nos dez meses seguintes Chateaubriand jogou com Artur Bernardes um

interminável braço de ferro. O que era uma modesta oposição provincial à

assinatura do contrato de permissão acabou se transformando em uma cam-

panha nacional, que contava com o apoio de políticos de expressão, como o

senador paulista Alfredo Ellis, e de industriais do porte de Jorge Street. Para

os nacionalistas, Assis Chateaubriand passou a ser o símbolo da entrega das

riquezas brasileiras. Não um advogado, mas o testa-de-ferro da Itabira Iron

no Brasil. Irredutível em suas posições, Bernardes não concordava com o

projeto de Farquhar de construir em Minas uma usina siderúrgica capaz de

produzir 150 mil toneladas anuais de aço. Para um empreendimento que exi-

giria investimentos de 42 milhões de dólares, Farquhar dera parceria a inves-

tidores de Nova York, Londres, Amsterdam e Paris. Nada disso parecia con-

vencer o governador mineiro. Nas reuniões que tinha em Belo Horizonte

com Chateaubriand, Bernardes insistia em que, para os interesses nacionais,

o que convinha era a manutenção do sistema então vigente - o estímulo à

instalação de várias pequenas usinas, cuja construção deveria ser precedida

de uma exigência: os empreendimentos podiam ser controlados por capitais

privados ou estatais, desde que brasileiros. "A grande siderurgia estrangei-

ra", dizia ele a Chateaubriand, "matará a pequena, que é um patrimônio do

povo mineiro." Em relatório enviado a Farquhar, Chateaubriand contou que

"custou enorme esforço conter uma crise de apoplexia" quando ouviu, no

meio de um despacho, esta declaração de princípios do governador mineiro:

- O senhor não acha que estaremos fazendo coisa mais útil ao Brasil,

guardando esses depósitos de ferro por mais trezentos anos? Que patrimô-

nio não iríamos legar aos nossos compatriotas...

Chateaubriand tentava argumentar que seria preferível, então, vender o

ferro para os estrangeiros, convertê-lo em ouro e capitalizá-lo:

- Com isso podemos legar aos nossos compatriotas um pico do Itabira

não como uma montanha de ferro, mas como um maciço de ouro puro!

Quando começava a declamar a boa receptividade com que as empre-

sas de Farquhar eram tratadas na maioria dos países ("Até na Rússia de Le-

nin, governador!", ele se exaltava, "até na Rússia de Lenin!"), Bernardes res-

pondia com indiferença:

- Não posso ter apreço por uma empresa estrangeira que quer esbura-

car Minas Gerais, doutor Assis...

Desesperado com a renitência do governador, Chateaubriand apelou

para um golpe baixo: com a ajuda de Henry L. Hunt, um empregado de Far-

quhar nos Estados Unidos que vinha freqüentemente ao Brasil dar apoio téc-

nico às demandas políticas e judiciais do patrão, forjou em uma gráfica do

Rio um recorte de notícia saída em um jornal norte-americano. Era uma en-

trevista - que nunca tinha existido, claro - em que o presidente dos EuA,

Calvin Coolidge, anunciava com todas as letras ser francamente favorável à


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#
CHATÔ. O REI DO BRASIL


importação, pelos Estados Unidos, de minério de ferro de países fornecedo-

res de matérias-primas. Os dois fizeram chegar às mãos do governador a no-

tícia fraudada, na esperança de que a garantia de um grande mercado com-

prador, como os Estados Unidos, pudesse fazê-lo mudar de idéia. Nada:

Bernardes leu com absoluta indiferença o recorte de jornal, que alguém con-

trabandeara para sua pasta de despachos diários, antes de atirá-lo à cesta de

lixo.

Por alguma misteriosa razão, depois de um ano de negociações que não



saíam do lugar, Chateaubriand percebeu sinais de que Bernardes estava

prestes a abrandar sua inflexibilidade. Ele desconfiava de que o governador,

candidato a presidente, pretendia arrefecer a imagem de nacionalista intran-

sigente e, ao mesmo tempo, cortejar o indispensável apoio do presidente Epi-

tácio - que estava longe de ser o xenófobo a que Chateaubriand se referira

- para sua campanha. O que era apenas uma suspeita se confirmaria em

pouco tempo. Bernardes mandou avisar que autorizaria a assinatura do con-

trato, tal como Farquhar pretendia, mas que o imposto estadual por tonelada

exportada, que era de trezentos réis, seria decuplicado para três mil-réis.

Por mais absurdo que pudesse parecer um governante multiplicar por

dez, da noite para o dia, o valor de um imposto, Bernardes imaginava ter

dado um xeque-mate em Farquhar e Chateaubriand: a decisão jogava por

terra as acusações de intransigência e agora, se o empreendimento não fosse

implantado, seria por decisão de Farquhar, não dele. Chateaubriand ainda

tentou, em vão, reduzir o tributo estadual para mil-réis por tonelada. Ape-

sar de indignado com o golpe que sofrera, em 1922 cumpriu sua obrigação

como advogado e telegrafou a Farquhar transmitindo o que chamou de "ex-

torsiva proposta" do governador mineiro. Para seu espanto - e, muito pro-

vavelmente, de Artur Bernardes -, Farquhar mandou responder que acei-

tava a exigência. E mais: já tinha mandado refazer o projeto para instalar

uma siderúrgica com capacidade para produzir não 150 mil, mas 250 mil to-

neladas de aço por ano.

Maus fados, no entanto, pareciam perseguir os negócios de Farquhar no

Brasil. Embora o governo acabasse assinando o contrato, o Tribunal de Con-

tas da União recorreu a filigranas jurídicas e não aceitou registrá-lo, alegan-

do que descumpria a legislação brasileira. E mesmo tendo tido sua validade

reconhecida por meio do decreto 5568, assinado por Washington Luís em

novembro de 1928, o contrato acabou sendo declarado caduco por Getúlio

Vargas em 1931. Persistente, Farquhar ainda investiria no Brasil, criando a

Companhia Aços Especiais Itabira - Acesita, empreendimento cujo contro-

le acionário cairia nas mãos do Banco do Brasil em 1952. Destino idêntico ao

que fora dado à Itabira Iron Ore, que depois de passar às mãos de um gru-

po nacional transformou-se, durante a Segunda Guerra Mundial, na Compa-

nhia Vale do Rio Doce, uma empresa estatal. Como, aliás, sonhava o gover-


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FERNANDO MORAIS


nador Artur Bernardes. E para indignação eterna de Chateaubriand, que

amaldiçoou o episódio até o último dia de sua vida.

Se não davam para realizar o sonho de comprar um jornal, os honorá-

rios recebidos de Farquhar eram mais que suficientes para satisfazer seu

luxo preferido, os carros elegantes. Além de pagar a dívida contraída para

comprar a Panhard, adquirida de segunda mão de Celina, mulher do milio-

nário Lineu de Paula Machado, o dinheiro permitiu-lhe montar uma peque-

na frota: importou uma segunda Panhard, zero quilômetro, comprou do em-

presário Carlos Guinle um Rolls-Royce usado e mandou trazer de São Paulo

um Du Pont que um grupo de industriais importara dos Estados Unidos

para dar de presente ao deputado Júlio Prestes, o qual recusara a gentil ho-

menagem. Anos depois Chateaubriand diria que "a esplendorosa frota de

máquinas de alto bordo" era essencialmente destinada a transportar "os

acionistas potenciais da minha futura cadeia de jornais". Enquanto estes não

apareciam, ele se deliciava à vertiginosa velocidade de 130 quilômetros por

hora no areal que cercava a lagoa Rodrigo de Freitas e pelas recém-abertas

avenidas do Rio de Janeiro. A seu lado iam os amigos Manuel Vilaboim, o

cirurgião Maurício Gudin, o industrial Olavo Egídio de Souza Aranha, a so-

prano Maria Melato e quando estava no Rio a "princesa austríaca" Iolanda

Penteado, agora casada com Jaime da Silva Telles.

Quando soube que o general Cândido Rondon pretendia fazer, em com-

panhia do ministro da Guerra, Pandiá Calógeras, e de Capistrano de Abreu,

uma viagem de vistoria dos postos militares do vale do Paraíba, em São Pau-

lo, Chateaubriand ofereceu-se para transportar o grupo em um de seus bóli-

dos. O austero militar mato-grossense rejeitou a oferta, mas ele insistiu com

Calógeras que queria ir junto, "ainda que fosse como mero ordenança" do

general. Rondon levou a sério a pilhéria e, nos primeiros dias da viagem de

trem, tratou o jornalista como a um subalterno de caserna, que estranhou ser

chamado não por seu nome, mas apenas por "impedido" - termo usado

por oficiais para tratar os soldados rasos colocados a seu serviço pessoal.

Para diversão de Calógeras e Capistrano, Rondon a cada parada do trem se

dirigia a ele com ordens secas: "Impedido, pegue minha bagagem"; "Impe-

dido, transmita estas mensagens pelo telégrafo". Ao longo dos dez dias de

duração da viagem - que Chateaubriand insistia em chamar de "bandeira"

-, os dois acabaram se tornando amigos, ligados por um interesse comum,

os índios. Anos antes o general havia feito os primeiros contatos com cain-

gangues, nhambiquaras, pauatês, tacuatês e urumis. E, como chefe da Co-

missão de Linhas Telegráficas do Exército, organizara uma expedição pelo

rio Amazonas, da qual fizeram parte o ex-presidente dos Estados Unidos

Theodore Roosevelt e um grupo de etnólogos do Museu de História Natural


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


de Nova York. Encerrada a excursão pelo vale do Paraíba, o "impedido"

conseguira convencer Rondon a criarem, juntos, um Clube Sertanista, desti-

nado a "preservar as culturas dos nossos selvagens". Anos depois Chateau-

briand diria que a idéia do clube só não floresceu por uma razão, que, na ver-

dade, stava se tornando uma obsessão sua: eles não dispunham de um

jornal para apoiar o projeto.

De volta ao Rio, Chateaubriand seria convidado pelos escritores Antô-

nio de Alcântara Machado e Graça Aranha e pelo deputado Manuel Vila-

boim para participar de uma aventura que tramavam, juntamente com um

grupo de artistas e intelectuais paulistas: uma semana de arte moderna, a ser

realizada em São Paulo no mês seguinte, fevereiro. Chateaubriand andava

meio escaldado com a leviandade dos intelectuais. Pouco tempo antes, con-

fidenciara ao escritor Humberto de Campos um segredo que ouvira do in-

ventor Santos Dumont: o "pai da aviação" estava apaixonado por uma mu-

lher casada. O objeto do secreto amor do maior herói brasileiro era "a

fabulosamente linda" madame Lettelier, mulher do diretor do diário pari-

siense Le Journal. "Trata-se de uma paixão lírica, casta e idílica", ironizara

Chateaubriand, "mas Santos Dumont não pensa em outra coisa." Para seu

desespero, dias depois o segredo apareceria escancarado em uma coluna as-

sinada por Humberto de Campos em A Gazeta.

Assim, quando Alcântara Machado, Graça Aranha e Vilaboim surgiram

com aquela conversa, foram recebidos a pedradas. O que os três imagina-

vam que seria "um marco na vida intelectual do Brasil", um acontecimento

destinado a tirar a poeira da cultura nacional, não passava, para Chateau-

briand, de "uma maluquice despropositada". Só aceitou ouvi-los, pacien-

temente, para tentar demover com desdém os "modernistas" que o procu-

ravam:

- Essa semana de arte de vocês não abalará coisíssima alguma. Será no



máximo uma semana de secos e molhados. Não contem comigo, que não

quero me meter em nenhum bas-fond acadêmico.

Os três insistiam que era essencial ele participar. Na tentativa de tê-lo

como cúmplice, Graça Aranha deu-lhe o privilégio de ler, em primeira mão,

a "bomba" que preparava para a semana paulista: a conferência intitulada

"A emoção estética na arte moderna", que tanto escândalo iria produzir um

mês depois, em São Paulo. Ao final da leitura, Chateaubriand livrou-se do

maço de papéis como se aquilo estivesse contaminado. Partiu para cima do

autor, a quem tratava pelo prenome, de dedo em riste:

- Zé Pereira, vocês enlouqueceram. Isto não é arte, não é literatura: é an-

ticapitalismo puro. Vocês vão urrar contra o dinheiro e contra a influência da

cultura portuguesa no Brasil? Pois façam-no sozinhos. Não contem comigo.


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FERNANDO MORAIS


Graça Aranha irritou-se com a reação do amigo:

- Que horror, Chateaubriand, você está é com medo das conseqüên-

cias da semana entre seus amigos milionários, que são todos conservadores.

- É verdade, esta é a pura verdade - assumiu sem constrangimentos.

- Não quero desagradar o capitalismo. É com ele que estou metido. Sou ex-

clusivamente um homem em busca de um jornal que seja o primeiro, o pai

de uma fieira de outros. Como é que vou achar meu velocino de ouro andan-

do atrás de um bando de desocupados que pretendem escandalizar exata-

mente o mercado a que se dirige o meu sonhado jornal? Minha intuição diz

que este país está sendo virado de pernas para o ar, e vocês estão querendo

contribuir para isso. Portanto, eu repito: não contem comigo nem para a se-

mana, nem para o dia, nem para o minuto da arte moderna.


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Se falhou na avaliação da Semana de Arte Moderna - que decidida-

mente não foi "uma semana de secos e molhados" -, a intuição de Chateau-

briand estava certa quanto às reviravoltas que o Brasil começaria a viver em

1922. Em março daquele ano um barbeiro, um operário, dois funcionários

públicos, um eletricista, dois alfaiates e um gráfico, liderados pelo jornalista

Astrojildo Pereira, fundam no Rio o Partido Comunista do Brasil. Quatro

meses depois, na madrugada de 5 de julho, Chateaubriand testemunharia de

perto a elevação da temperatura política a níveis insuportáveis. Na noite do

dia 4 ele saiu do Hotel dos Estrangeiros e, como fazia costumeiramente, foi

até a sede do Ministério da Guerra buscar o ministro Calógeras para jantar.

Ao entrar no gabinete soube que um grupo de oficiais, liderados pelo capi-

tão Euclides Hermes (filho do marechal e ex-presidente Hermes da Fonseca),

acabara de tomar o quartel do Forte de Copacabana. Era a primeira reação a

um decreto do presidente Epitácio Pessoa, baixado dias antes, fechando o

Clube Militar e mandando prender seu presidente, o marechal Hermes. En-

tre os revoltosos estavam nomes que o Brasil se habituaria a ouvir nas déca-

das seguintes, como os tenentes Eduardo Gomes, Siqueira Campos, Juarez

Távora e Odílio Denys. À uma e meia da madrugada, ao lado do ministro,

Chateaubriand ouviu o estrondo do primeiro tiro de canhão disparado do

Forte de Copacabana. Em seguida viriam mais canhonaços, desta vez contra

o quartel-general do Exército, na ilha das Cobras, o arsenal da Marinha e o

Túnel Novo.

Quando o dia clareou, tentativas de levante ocorridas na Vila Militar e

na Escola Militar já haviam sido esmagadas pelo governo. Calógeras man-

dou a artilharia pesada da Fortaleza de Santa Cruz bombardear o forte, mas

os rebeldes resistiram durante todo o dia aos disparos de canhão. Insone,

Chateaubriand não saía de perto do ministro. Na madrugada do dia 6, com

a situação aparentemente sob controle do governo, ouviu Calógeras exigir

do capitão Euclides, por telefone, a imediata rendição dos sublevados. Eucli-

des e Siqueira Campos decidem abrir os portões do forte e deixar sair os que

quisessem se render. A maioria debanda, só permanecendo lá dentro uma

décima parte dos trezentos amotinados.

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FERNANDO MORAIS
Da baía, dois couraçados aumentam o bombardeio contra o forte. Cha-

teaubriand ouve outro telefonema, em que Calógeras dava um ultimato ao

capitão Euclides, que decide parlamentar pessoalmente com o ministro, mas

ao chegar lá é preso. Calógeras deixa o ministério de carro, levando consigo

o coronel Malan d'Angrogne, o capitão Castro e Silva e Chateaubriand. Vi-

sitam o Forte do Vigia, onde os tiros vindos do quartel amotinado tinham

deixado vários mortos, e tocam para Copacabana. "Na praia eu assisti de

perto aos últimos combates ", Chateaubriand escreveria depois, "e pude ver

a areia ainda quente, embebida do sangue dos bravos que sucumbiram de

um lado e de outro."

No forte, os poucos oficiais que ainda resistiam decidem dividir entre si

os 29 pedaços de uma bandeira do Brasil, picada a canivete, e saem para um

combate suicida com os 3 mil soldados das tropas que cercam a região. Na

caminhada pela avenida Atlântica alguns se dispersam, outros são presos.

Restam dezoito militares, aos quais se junta Otávio Correa, um civil que as-

sistia a tudo a distância e que resolveu aderir à insurreição. Cercado por

mais de 3 mil soldados do governo, o grupo vai sendo dizimado, e ao final

são presos os dois únicos sobreviventes: Eduardo Gomes e Siqueira Campos.

Embora nunca tenha ficado claro qual era o número exato de militares que

haviam deixado o quartel a pé, de fuzil nas mãos, o episódio entra para a his-

tória como a Revolta dos Dezoito do Forte. Dos mortos de Copacabana nas-

cia um movimento militar que iria influir decisivamente na vida brasileira

nas quatro décadas seguintes, o tenentismo.

Mas a primeira conseqüência política do levante já seria sentida no dia

seguinte, quando o país despertou sob estado de sítio. A expectativa geral

era de que o período de exceção seria breve e duraria no máximo até novem-

bro, quando tomava posse como presidente da República um velho conheci-

do de Chateaubriand, que havia sido eleito em março: Artur Bernardes. Só

que a posse veio, mas a democracia não. E, para desespero de quem, como

Chateaubriand, passara a ter um desafeto como presidente da República,

não viria tão cedo: Bernardes carregaria em sua biografia o triste privilégio

de ter sido o único presidente brasileiro a exercer todo o seu mandato com o

país sob estado de sítio, sucessivamente renovado.

Chateaubriand não precisaria esperar muito tempo para sentir sobre

sua cabeça o peso da mão do novo presidente. Tinham se passado poucos

dias da posse quando ele achou que seu arsenal já acumulara munição sufi-

ciente para a realização do velho sonho: comprar seu próprio jornal. E come-

çou sonhando alto. Depois de fazer uma oferta de compra de A Noite (rejei-

tada por seu dono, Irineu Marinho), ele ouvira falar que tanto o Jornal do

Brasil como o Jornal do Commercio estavam à venda, e se interessou pelo pri-

meiro. Pediu que Alfredo Pujol falasse em seu nome com o dono do jornal,

mas o resultado foi desanimador. O conde Ernesto Pereira Carneiro negou


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


que quisesse vender o Jornal do Brasil. Para fazer uma oferta que o seduzisse

seria necessário, segundo palavras de Pujol, muito mais dinheiro do que to-

das as alavancas de Chateaubriand conseguiriam arrecadar:

- Tire o seu cavalo da chuva: lá no escritório do seu Ernesto eu pude

ver o último balanço de uma de suas empresas, a Companhia de Comércio

e Navegação. Só nela ele tem um patrimônio de 93 mil contos!

Chateaubriand desconfiava de que por trás das duas recusas poderia es-

tar a mão do presidente da República, preocupado com o risco de deixar

uma arma tão poderosa como um jornal nas mãos do adversário. Mais cau-

teloso, pediu a Raoul Dunlop para entabular negociações com o comenda-

dor lusitano Antônio Ferreira Botelho, dono do Jornal do Commercio, mas re-

comendou expressamente que seu nome fosse omitido do negócio. Desta

vez foi diferente: o jornal de fato estava à venda, e o preço pedido - 4500

contos de réis - estava dentro do que Chateaubriand imaginava ser sua ca-

pacidade de arrecadação. Agindo com total discrição para não despertar a

atenção de Artur Bernardes, obteve uma opção de compra (sempre em nome

de Dunlop, o suposto interessado) e conseguiu que Júlio Mesquita mandas-

se ao Rio Ricardo Figueiredo, gerente do Estado de S. Paulo, para auditar a si-

tuação administrativa e financeira - o que na época se chamava "examinar

a escrita" - da empresa. Em poucas semanas estava tudo pronto para a as-

sinatura do contrato de venda. Chateaubriand já se sentia o dono do quase

centenário Jornal do Commercio, fundado em 1827 pelo bonapartista Pierre

Plancher, editor francês de Voltaire, que se exilara no Brasil com a ascensão

de Carlos x ao trono francês.

Seus temores não eram infundados. Às vésperas do fechamento do ne-

gócio, o comendador Botelho procurou Dunlop para comunicar-lhe que a

opção estava cassada e que o jornal não seria vendido. "Pode não parecer

uma atitude muito correta da minha parte", disse Botelho, "mas eu não te-

nho como resistir às pressões de um presidente da República que acaba de

tomar posse e que governa um país sob estado de sítio." Não foi difícil des-

cobrir o autor da inconfidência. Valendo-se das relações que ainda mantinha

no jornal onde fizera carreira e que dirigira anos antes, o recém-nomeado

ministro das Relações Exteriores Félix Pacheco - o mesmo que tentara fazer

de Chateaubriand um "imortal", lançando-o candidato à Academia Brasilei-

ra de Letras - conseguiu uma cópia da opção e a exibiu ao presidente da Re-

pública:


- Doutor Bernardes, está vendo esta opção?

Por trás do pincenê, o presidente olhou aquilo com desinteresse:

- Sim. O que há de mais nisso?

- Doutor Bernardes, Raoul Dunlop é o pseudônimo de Assis Chateau-

briand. E Chateaubriand, o senhor sabe, é o pseudônimo de Percival Far-

quhar e de Alexander Mackenzie. Estes serão os verdadeiros donos do jor-


131

#
CHATÔ, O REI DO BRASIL


nal que Chateaubriand vai comprar pela mão de Dunlop. Imagino que o se-

nhor, um patriota, não permitirá que um dos jornais mais antigos do conti-

nente caia nas mãos da Itabira Iron e da Light.

Enquanto relia a folha de papel, Bernardes caminhava pela sala, como

se falasse sozinho:

- Esse Chateaubriand é inacreditável. Todos nós temos um mito brasi-

leiro: o deste é Caxias, o daquele é Floriano, o outro tem Rui Barbosa. Os he-

róis do mundo de Chateaubriand são Farquhar, Pierson, Mackenzie, Herbert

Couzens. Agora anda de namoro com um tal engenheiro Billings. Nunca o

vi pronunciar o nome de um brasileiro como objeto de sua admiração.

Voltou-se para Pacheco e anunciou:

- Esse negócio não vai se realizar.

Só um ano depois é que Chateaubriand entenderia o motivo da traição

do conservador Félix Pacheco, que agira menos por razões políticas que pes-

soais: em 1923 o autor da intriga compraria, ele próprio, o Jornal do Commer-

cio. Desolado e sem ter a quem recorrer, poucos dias após a fracassada com-

pra do jornal Chateaubriand ainda tentaria ir à forra contra o presidente que

sepultara seu sonho. Em julho de 1922 o deputado federal Raul Fernandes

fora eleito governador do estado do Rio de Janeiro derrotando, por 33 mil

votos a 16 mil, o "tenente" Feliciano Sodré. Ligado ao ex-presidente Nilo Pe-

çanha, adversário de Artur Bernardes, Raul Fernandes preocupava-se com

os rumores de que o novo presidente iria decretar intervenção federal no es-

tado, impedindo sua posse. O caminho para isso já vinha sendo preparado

por Sodré, que alegava que sua derrota tinha sido fruto de fraude eleitoral

promovida pelos partidários do vencedor.

Faltavam poucos dias para a transmissão do cargo, marcada para 31 de

dezembro, quando Raul Fernandes contratou os serviços de Chateaubriand

e do advogado Levi Carneiro para entrarem no Supremo Tribunal Federal

com um pedido de habeas-corpus que garantisse sua posse. Para surpresa de

Chateaubriand, o Supremo impôs uma derrota ao presidente ao acatar o pe-

dido e determinar que Fernandes fosse empossado no dia 31, juntamente

com os deputados eleitos para a antiga Câmara Estadual, agora já denomi-

nada Assembléia Legislativa. Mas a alegria de Chateaubriand, de novo, ia

durar pouco. Insistindo na tese da fraude, Feliciano Sodré empossou a "sua"

assembléia e tomou posse ele próprio como governador. Durante dez dias o

estado do Rio viveu a absurda situação de ter dois governadores e duas as-

sembléias legislativas. Era o pretexto de que Bernardes precisava: alegando

que um estado não podia viver sob tão caótica duplicidade de poderes, no

dia 10 de janeiro de 1923 o presidente nomeou Aurelino Leal interventor fe-

deral no estado, anulou as eleições de julho e convocou um novo pleito-

que seria vencido por quem? Pelo mesmo Feliciano Sodré.

133


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FERNANDO MORAIS
Se aos 31 anos já conseguira inimigos tão poderosos como o rabugento

presidente da República, em 1924 Chateaubriand tinha acumulado enorme

prestígio do outro lado - e era inegavelmente uma figura influente entre

políticos e empresários das, na época, chamadas "classes conservadoras".

Ainda não podia ser considerado um milionário, mas tinha dinheiro sufi-

ciente para mudar-se para um luxuoso apartamento de três dormitórios e co-

zinha no Copacabana Palace Hotel, um colosso cinematográfico construído

um ano antes pelo empresário Otávio Guinle com cimento alemão, mármo-

re italiano, cristais tchecos e talheres franceses e que tinha sido inaugurado

pelo rei Alberto da Bélgica. Para a nova casa Chateaubriand levou consigo

os mordomos franceses Thérèse e Henri Gallon, que surrupiara de Farquhar.

Um indicador de poder para a época, seu nome apareceria naquele ano pela

primeira vez nos arquivos do Foreign Office, incluído no relatório anual que

a embaixada inglesa enviava a Londres sobre as principais personalidades

brasileiras. Segundo o perfil enviado à Inglaterra, tratava-se de "jornalista

íntimo do ex-presidente Epitácio Pessoa, atualmente trabalhando como ad-

vogado para a Brazil Traction Company e para a Itabira Company '. O infor-

me resumia as refregas de Chateaubriand com Artur Bernardes, sublinhan-

do que, na opinião do presidente, ele era "um homem perigoso por estar

intimamente ligado ao capital estrangeiro - e o presidente alimenta um

ódio sem medidas ao capital estrangeiro em geral".

Mesmo sem ser bonito, Chateaubriand não era mais o ser amarelo e do-

entio da infância. E, apesar de continuar franzino e não ter crescido muito-

mal passava de 1,60 m de altura -, ele não se transformara tampouco em

um homem feio. Ainda assim, o encanto e o magnetismo que exercia sobre

as mulheres eram proporcionais ao sucesso que fazia no jornalismo e na ad-

vocacia. Suas incursões nas chamadas "respeitosas relações com moças de

família", no entanto, podiam ser contabilizadas nos dedos de uma só mão:

descontado o silencioso encanto por Amélia Jansen, a freqüentadora do cen-

tro espírita de Recife a quem não conseguira dirigir uma sílaba, ele vivera

apenas o polêmico romance com Poli, a paixão permanente e nunca corres-

pondida por Iolanda Pentea do e, já morando no Rio, um fugaz flerte com a

filha de Alfredo Pujol. Sua principal diversão eram as mulheres "de reputa-

ção menos ortodoxa", as "falenas", como ele próprio as definia. Eram coris-

tas, bailarinas de dancings, atrizes - atividades a que poucas moças de famí-

lia se arriscavam, naquele começo de século.

Agora, porém, ele se flagrava de novo apaixonado por uma "moça de

família", desta vez uma linda francesinha. Fazia alguns anos que Chateau-

briand jogava olhares compridos sobre a moça, passageira freqüente do bon-

de da Light que ele e Eugênio Gudin tomavam diariamente, ainda no tempo

das vacas magras. Depois de muita insistência ele acabou conseguindo se

aproximar de Jeanne Paulette Marguerite Allard, vinte anos, funcionária da


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


Casa de Câmbio e Exportação Daubonne, que se mudara da França para o Bra-

sil quatro anos antes, acompanhando os pais, Angeline Gabison e Hyppolyte

Auguste Allard. O pai era um renomado architecte décorateur francês, premia-

do em diversas exposições na Europa, que viera ao Brasil para ser o gerente

das indústrias Betanfelle, fabricante de móveis de estilo no Rio de Janeiro.

O namoro, que durava alguns meses - um exagero, para os padrões de

Chateaubriand -, coincidiu com a revolução de julho de 1924, em São Pau-

lo. Naquele mês o general reformado Isidoro Dias Lopes reabriria a ferida da

guerra entre Bernardes e os militares, mantendo sob o controle de rebeldes

não apenas um quartel, como acontecera em Copacabana, mas toda a capi-

tal paulista. E desta vez a duração do levante não seria contada em horas,

como no Rio. Foram necessárias três semanas de fuzilaria e pesados bombar-

deios aéreos sobre São Paulo para retomar a cidade. Obrigados a marchar

para o Sul, os militares revoltosos acabariam se juntando a outras tropas de

insurretos levantadas pelo capitão do Exército Luís Carlos Prestes no Rio

Grande. Nascia ali um movimento épico da história política brasileira - e

uma dor de cabeça que acompanharia Bernardes por todo o seu governo

-, a Coluna Prestes. Como acontecia com tudo que pudesse fustigar Bernar-

des, a revolta de São Paulo foi apoiada por Chateaubriand. Além de se ma-

nifestar publicamente a favor dos paulistas, ele organizou um grupo de ami-

gos para cercar de gentilezas o jornalista Júlio Mesquita durante todo o

tempo em que este esteve preso pelo governo no Hospital do Exército, no

Rio, sob a acusação de ter ficado ao lado da rebelião.

São Paulo ainda fumegava sob a artilharia dos aviões do governo fede-

ral quando Chateaubriand cruzou na rua do Ouvidor com o jornalista Sabóia

de Medeiros. Com ar de conspirador, Medeiros puxou-o para um vão de

porta e sussurrou:

- Acabo de estar com o Toledo Lopes...

Chateaubriand reagiu aos berros:

- Aquele mulato aça com fumaças de inglês? Não o suporto!

Olhando para os lados, com medo de que alguém os ouvisse, Medeiros

continuou:

- Fala baixo! Acabei de estar com o Toledo Lopes e ele me disse que

quer vender O Jornal.

Os olhos de Chateaubriand cintilaram:

- De verdade? Mas isso é como uma baleia que encalha numa praia de

famintos! Aquele caloteiro deve a turcos e suíços, mas sou obrigado a reco-

nhecer que O Jornal é uma folha que me seduz...

O "mulato aça" era o baiano Renato Toledo Lopes, jornalista que não

chegava a ser uma das estrelas do Rio, e a folha que seduzia Chateaubriand

era um matutino quase recém-nascido, se comparado ao centenário Jornal do

Commercio que Bernardes o impedira de comprar. O Jornal fora fundado cin-


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#
FERNANDO MORAIS


co anos antes por Lopes, à frente de uma dissidência de jornalistas que ha-

viam abandonado o Jornal do Commercio por divergências com Félix Pacheco.

Nas rodas intelectuais da cidade comentava-se que Lopes entrara no negó-

cio com modestos cinqüenta contos de réis, e na realidade apenas empresta-

ra seu nome para os verdadeiros donos do empreendimento: Pandiá Caló-

geras, Arrojado Lisboa e Pires do Rio, "idealistas a serviço da siderurgia

estrangeira no Brasil", comentou ironicamente o jornalista Mário Hora (o

proprietário nominal, pelo menos, era de fato Toledo Lopes). Desestimula-

dos de seu projeto pela eleição do ultranacionalista Artur Bernardes, teriam

dado o jornal de mão beijada (ou vendido "na bacia das almas", como se di-

zia) a Toledo Lopes.

Pouco comum àquela época, o título escolhido era uma deliberada pro-

vocação contra o Jornal do Commercio, a que ninguém se referia por seu ver-

dadeiro nome. Os leitores chegavam à banca e simplesmente pediam:

- Me dê "o jornal" de hoje.

O jornaleiro já sabia que se tratava do Jornal do Commercio. Aproveitan-

do-se da fama criada pelo outro, decidiram batizar o novo diário apenas com

o nome de O Jornal. Por medida de economia (o que desmente a tese de que

ele seria um mero testa-de-ferro de entreguistas endinheirados), Lopes for-

mou uma equipe quase que só de amigos familiarizados com as letras - en-

tre eles o jovem ensaísta Sérgio Buarque de Holanda e o refinado crítico

Al-


ceu Amoroso Lima, que já no primeiro número estrearia como crítico

literário assinando a coluna "Bibliografia". Jornalistas mesmo, com experi-

ência no ramo, havia na redação apenas dois: o dono e o português Vitorino

de Oliveira, até então o braço direito de Irineu Marinho em A Noite. Escrito

em linguagem pomposa, mesmo tendo adquirido prestígio entre as elites O

Jornal sobreviveu por cinco anos sem nunca atingir tiragens expressivas, até

que Toledo Lopes decidiu passá-lo adiante.

Com um olho fixo na baleia que dera à sua praia e o outro grudado em

Artur Bernardes, Chateaubriand repetiu a operação e de novo recorreu a

Al-


fredo Pujol para intermediar o negócio. Ao saber que, somados o patrimônio

e o passivo da empresa, Toledo Lopes pedia 6 mil contos de réis pelo jornal,

Chateaubriand sapateou e rangeu os dentes:

- Usurário filho da puta! Ele quer me tosquiar! Ele quer me vender por

6 mil contos um jornal que lhe custou cinqüenta contos! São 120 vezes mais!

Mesmo esperneando, ele pediu outra vez emprestado a Júlio Mesquita

o gerente paulista para "levantar a escrita" do jornal, e acabou convencido

de que o preço não era assim tão estratosférico. Toledo queria à vista, como

"sinal prévio", trezentos contos de réis - que não seriam devolvidos se o ne-

gócio não prosperasse. Passados sessenta dias, mais 1500 contos. Os 4200

contos restantes seriam pagos em quinze prestações mensais, acrescidas de

juros bancários. Chateaubriand inventariou as economias que tinha deposi-


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


tadas em bancos, resultado principalmente de seu trabalho para Percival

Farquhar. No lugar dele, qualquer pessoa com um pingo de bom senso teria

desistido da compra: raspadas todas as contas bancárias, seu patrimônio fi-

nanceiro alcançava 170 contos de réis - ou seja, 3% do que o jornal custava.

Seu dinheiro não era suficiente sequer para pagar a entrada.

Mas a história de Chateaubriand, diria décadas mais tarde um de seus

melhores amigos, era "a história da dívida". De algum lugar aquele dinhei-

ro haveria de sair. Antes de mais nada, entretanto, ele precisava arranjar os

130 contos que faltavam para o sinal prévio. Conseguiu o empréstimo sem

juros na Casa Sotto Mayor, a maior atacadista de tecidos do Rio, com o com-

promisso de saldá-lo dali a noventa dias. O dono da empresa, seu amigo

Cândido Sotto Mayor, acenou com outro auxílio: se o empréstimo fosse li-

quidado no prazo, ele se comprometia a tirar mais algum dinheiro do pró-

prio bolso para "comprar um lote de ações" e contribuir com o pagamento

do restante da dívida. Chateaubriand sabia que a aparente generosidade

ocultava o temor de que a letra de câmbio que ele assinara não representas-

se suficiente garantia do pagamento. Para seduzi-lo a honrar o compromis-

so, o credor oferecia um prêmio pela pontualidade.

Para levantar em dois meses os 1500 contos restantes Chateaubriand te-

mia o pior: ter de se sujeitar aos juros proibitivos de um agiota - ou seja,

cair nos braços do conde Modesto Leal. Os amigos tentaram demovê-lo da

idéia maluca, advertindo-o de que a agiotagem era uma bola-de-neve rolan-

do contra o tomador do dinheiro: quanto mais ele pagasse juros, mais a dí-

vida crescia. Mas as semanas se passavam e o dinheiro não aparecia. Depois

de percorrer três ou quatro bancos, descobriu que tinha crédito na praça mas

que isso não refrescava muito a situação, já que o empréstimo só sairia se

apresentasse como avalista o dono de uma fortuna proporcional à cordilhei-

ra de dinheiro pretendida. E ninguém seria insano o suficiente para avalizar

um empréstimo daquele vulto tomado por alguém que declaradamente não

tinha como pagá-lo.

O prazo imposto por Toledo Lopes chegava ao fim sem que o dinheiro

aparecesse, quando Júlio Mesquita, já em liberdade, chamou-o para uma

conversa em seu quarto do Hotel Glória. O paulista foi direto ao assunto:

- Doutor Assis, ponha o pé no mundo, suma. Vá arranjar quem lhe ga-

ranta os 4200 contos das prestações.

Atônito, sem entender o que se passava, ele esclareceu:

- Mas doutor Júlio, não adianta lutar pelos 4200 contos. Ainda não con-

segui levantar nem os 1500 que vencem dentro de poucos dias. Acho que

vou perder os meus 170 e os 130 de Sotto Mayor.

Júlio Mesquita tranqüilizou-o:

- Insensato, não perca tempo contando-me histórias. Sente o pé no

mundo e vá buscar o dinheiro para o restante do compromisso, porque eu


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FERNANDO MORAIS


acabei de desgraçar um pai de família. Convenci o Pujol a endossar seus

papéis.


Chateaubriand correu ao escritório de Pujol para assinar promissórias

do empréstimo bancário que estavam sendo avalizadas antes mesmo de se-

rem preenchidas. Ao chegar lá, encontrou o jurista "com calos na língua" de

tanto lamber selos - indispensáveis naquela época para que qualquer papel

tivesse valor legal. Alfredo Pujol recebeu-o com um gracejo:

- Não sei que mal eu fiz à Providência para que ela me tornasse amigo

de dois malucos como você e o Mesquita. Ele recomendou que eu fizesse um

seguro de vida de 1500 contos, e se você não pagar o empréstimo eu simples-

mente rebento os miolos e salvo minha família da miséria.

Chateaubriand sabia que só mesmo a autoridade patriarcal que Mesqui-

ta exercia sobre Pujol seria capaz de convencer o advogado a arriscar parte

significativa de seu patrimônio - os 1500 contos que estavam sendo avali-

zados naquele momento (equivalentes, em 1994, a mais de 1 milhão de dó-

lares) seriam suficientes, por exemplo, para se importar dos Estados Unidos,

na época, uma frota de mais de duzentos luxuosos automóveis Chevrolet

Voltinette, o carro da moda no Rio. Aquele era um empréstimo que poderia

virar fumaça em poucos meses, e se isso acontecesse jamais seria quitado.

Mais do que ele, Pujol sabia disso, e recomendou que Chateaubriand tratas-

se de conseguir meios para pagar em dia as quinze prestações restantes. Sua

esperança de não ter de arcar com a dívida de que era fiador residia nisso:

com o jornal funcionando haveria pelo menos alguma garantia de entrada

de dinheiro - e, portanto, de que o empréstimo seria honrado.

Chateaubriand entendeu que era chegada a hora de começar a gastar o

abstrato capital que tão cuidadosamente acumulara durante uma década no

Rio e em São Paulo: as amizades. As tais classes conservadoras não queriam

um jornal equilibrado, que defendesse "os grandes interesses nacionais"?

Então, que pagassem por isso. Mas não era do seu temperamento simples-

mente "pedir dinheiro" aos incontáveis amigos influentes que fizera desde

1915. Ainda sem ser dono de nada, mas sentindo que O Jornal estava prati-

camente ao alcance da mão, saiu em campo vendendo ações de uma imagi-

nária Sociedade Anônima O Jornal, que só existia na sua cabeça. Na primei-

ra porta em que bateu o resultado foi animador: Raoul Dunlop não só

garantiu a "compra" de cinqüenta contos em ações como ainda se compro-

meteu a arranjar mais um grupo de "acionistas" no Rio. Na segunda, melhor

ainda. O poderoso empresário carioca Guilherme Guinle, presidente da

Companhia Docas de Santos, "subscreveu" 150 contos do capital da futura

empresa.

A conselho de Júlio Mesquita, Chateaubriand viajou para São Paulo,

instalou seu quartel-general no melhor hotel da cidade, o Esplanada, atrás

do Teatro Municipal, e dali saía todos os dias em busca de subscritores. A


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CHATÓ, O REI DO BRASIL


primeira investida paulista foi pífia. Jorge Street (que pessoalmente não

comprou uma única ação) levou-o à casa de Basílio Jafet, dono da Estampa-

ria Ipiranga, e o resultado da visita foram minguados dez contos de réis. Mas

sua sorte em São Paulo ia mudar. O conde Sílvio Álvares Penteado ficou com

cinqüenta contos e, a exemplo de Dunlop, transformou-se em "agente" de

Chateaubriand entre os empresários paulistas. Outro "nobre", o conde As-

drúbal do Nascimento, presidente da Cervejaria Antarctica, desembolsou

110 contos. José Carlos de Macedo Soares, presidente da Associação Comer-

cial de São Paulo, mais cinqüenta contos. Levando nas mãos uma carta de

apresentação de Álvaro de Carvalho, Chateaubriand desceu a serra do Mar

e em Santos foi à procura do cafeicultor e exportador Vicente de Almeida

Prado. O fazendeiro ouviu sua exposição em silêncio e ao final sacou o talão

de cheques. Preencheu uma folha e entregou ao visitante:

- Estes vinte contos são pela apresentação do meu amigo e parente Ál-

varo de Carvalho.

Assinou mais outra folha:

- E estes outros vinte contos são a homenagem que os cafeicultores

paulistas devem ao jornalista do Norte que tanto conhece café e que com tan-

to brilho e competência o defende.

Como um exímio contorcionista, Chateaubriand conseguia tomar di-

nheiro tanto dos que se sentiam representados por sua oposição ao governo,

como Almeida Prado, como daqueles que apoiavam Artur Bernardes, como

o industrial paulista Roberto Simonsen. E foi Simonsen quem fechou com

chave de ouro sua peregrinação por São Paulo, ao comprometer-se pessoal-

mente com a compra de cinqüenta contos em ações e ainda acenar com a

possibilidade de vir dinheiro mais grosso:

- Vou organizar uma subscrição entre os empresários de São Paulo.

O senhor pode contar com pelo menos vinte vezes mais do que acaba de

receber.

Já estava na sua conta bancária o dinheiro resultante do aval de Pujol

para a segunda prestação, que cimentaria o negócio. E aparentemente não

haveria problemas para o pagamento das quinze parcelas seguintes: ainda

que o jornal não desse um mísero real de lucro, se as prometidas doações-

ou melhor, as "vendas de ações" - se materializassem, a dívida estaria li-

quidada. Pontualmente na data estipulada - 30 de setembro -, Assis Cha-

teaubriand comprou um cheque visado na Casa Bancária Boavista no valor

de 1500 contos de réis. Uma montanha de dinheiro equivalente a uma vez e

meia o capital do banco que recebia o depósito. Os donos do estabelecimen-

to, Alberto Boavista e o barão de Stavedra, pediram a Chateaubriand que só

entregasse o cheque a Toledo Lopes no final da tarde: eles queriam que o di-

nheiro dormisse pelo menos aquela noite no banco, para engordar o balan-

ço de setembro, fechado no último dia do mês.


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FERNANDO MORAIS


Ainda que não fosse uma informação pública, a notícia de seu projeto

de comprar O Jornal estava longe de ser um segredo. Chateaubriand morreu

convencido de que Artur Bernardes só soube do negócio horas depois de ele

ter assumido formalmente a posse da empresa - embora alguns de seus co-

laboradores, como Alceu Amoroso Lima e Nelson Werneck Sodré, susten-

tassem que na realidade o presidente da República sabia de tudo e acompa-

nhara cada passo da operação, mas decidira fazer vista grossa à realização

da compra. A convicção de Chateaubriand de que conseguira enganar o pre-

sidente se baseava principalmente na legislação da época: os jornais eram so-

ciedades anônimas constituídas por ações ao portador, o que permitia dissi-

mular quem era o real proprietário da empresa. De qualquer forma, a

caminho da rua Rodrigo Silva, onde ficava o jornal, ele pegou Austregésilo

de Athayde e só então revelou o segredo ao amigo:

- Caboclo, venha comigo que nós vamos tomar posse de O Jornal. Aca-

bei de comprar aquele diário e quero você como testemunha na hora de sa-

cramentar o negócio.

Com o consentimento ou não de Bernardes, às oito da manhã de 30 de

outubro de 1924 Assis Chateaubriand atravessou as oficinas instaladas no

térreo do pequeno prédio de quatro andares da rua Rodrigo Silva, subiu o

primeiro lance de escadas, passou sem cumprimentar ninguém pela reda-

ção, no primeiro andar, subiu a pé mais dois pavimentos e sentou-se na ca-

deira que até então pertencia a Renato Toledo Lopes. Aos 32 anos ele reali-

zava o sonho de ser dono de um jornal. E começava a sonhar mais alto ainda:

aquele seria apenas o primeiro de uma cadeia de diários que ia gerar filho-

tes por todos os cantos do país.

Chateaubriand assumiu a direção de O Jornal com o estrondo das tem-

pestades de verão da Paraíba. Como se quisesse deixar bem claro que vinha

para ficar, para presidir a nova empresa ele chamou ninguém menos que o

ex-presidente Epitácio Pessoa. Uma das diretorias foi entregue a Alfredo Pu-

jol e a outra a Rodrigo Melo Franco de Andrade, o responsável pela coleta

de dinheiro em Minas Gerais. Cercado pelas três mais luzidias estrelas da

política, do direito e da intelectualidade, trabalhou freneticamente nas suas

primeiras semanas como dono de jornal. Antes mesmo de substituir o nome

de Toledo Lopes pelo seu, no frontispício do jornal, começou a caçar colabo-

radores de renome. No Brasil, só O Pais e O Imparcial, assinantes do serviço

integral da agência de notícias americana United Press, publicavam regular-

mente artigos assinados sobre política e cultura internacionais. Mas eram as-

sinaturas de analistas da própria agência, nomes pouco conhecidos do pú-

blico. Chateaubriand resolveu inovar e, após breve troca de telegramas,

trouxe para as páginas de O Jornal nomes cobiçados internacionalmente,


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


como o prêmio Nobel de literatura Rudyard Kipling, o ex-presidente francês

Raymond Poincaré e o ex-premiê britânico Lloyd George - o mesmo que

anos antes salvara sua hospedagem no Claridge's, em Londres.

Entre os astros domésticos, manteve os nomes mais significativos da

equipe do antigo dono, como Alceu Amoroso Lima, e contratou como cola-

boradores regulares Capistrano de Abreu, Afnnso Taunay, Fidelino de Fi-

gueiredo, Miguel Couto, Carlos de Laet e Humberto de Campos - este pu-

blicava um conto semanal no rodapé do jornal. De São Paulo importou um

jornalista que já era conhecido em todo o país pelo sucesso de seus

quatro li-

vros infantis, o jovem José Renato, que em homenagem ao avô adotava o

nome de José Bento Monteiro Lobato. Criou uma sucursal paulista e para di-

rigi-la convidou Plínio Barreto, que por dois anos fora responsável, com Jú-

lio Mesquita e Alfredo Pujol, pela Revista do Brasil. Para tratar de assuntos

econômicos e financeiros vieram Pandiá Calógeras, Paulo Castro Maya e o

engenheiro Ferdinando Laburiau. Quando Epitácio Pessoa, preocupado com

as finanças da empresa, quis saber onde o jornal iria arranjar dinheiro para

pagar tanta gente importante, Chateaubriand não esquentou a cabeça:

- O senhor está colocando o carro na frente dos bois. Um princípio ba-

silar do capitalismo diz que primeiro a pessoa trabalha, e só depois recebe.

Vamos deixá-los trabalhar em paz, depois se vê como pagá-los.

Os temores de Pessoa não eram infundados. Pouco tempo depois de

contratado, Capistrano de Abreu daria o primeiro passo para a construção

da fama que acompanharia Chateaubriand para o resto da vida - a de mau

pagador. Em um discreto bilhete dirigido a Calógeras, Capistrano se quei-

xou de que "não era justo o Xatô" - era assim que ele grafava o apelido do

amigo - "pagar em dia os quatro artigos mensais de Carlos de Laet", ao

passo que ele ainda não vira a cor do dinheiro "de um jornal que se esgota

em poucas horas". Sob pressão, Chateaubriand mandou pagar-lhe quinhen-

tos mil-réis, mas tanto a cobrança quanto a preocupação de Epitácio Pessoa

deixaram-no com a pulga atrás da orelha. Se quisesse mesmo levar avante o

plano de fazer O Jornal espalhar filhotes pelo Brasil afora, não seria com o di-

nheiro da venda em bancas que iria realizar o sonho.

Familiarizado com a imprensa estrangeira, Chateaubriand sabia que

para dar lucros um jornal deveria ter, além de leitores, anunciantes. "Temos

uma das mais pobres e mesquinhas imprensas do mundo", ele repetia para

quem aparecesse em sua sala de trabalho. "E sabem por quê? Porque pos-

suímos uma indústria e um comércio que não anunciam." Tentava pessoal-

mente convencer seus amigos industriais a aderir à moda da propaganda,

mas era bater em ferro frio. Tornou-se um cruzado que fazia pregações so-

bre "a autoridade da imprensa britânica":

- Essa autoridade nasce da independência econômica, que por sua vez

é fruto de um volume de publicidade paga, que assegura milhões de libras
141

#
FERNANDO MORAIS


anualmente a qualquer um dos periódicos de Londres, Liverpool e Man-

chester. Quando surgiu o rádio na Inglaterra, o governo proibiu anúncios no

novo veículo, temendo que o desvio das verbas de propaganda comprome-

tesse a autoridade e o prestígio da imprensa escrita.

Chateaubriand insistia em sublinhar as vantagens que as indústrias te-

riam se anunciassem o que produziam, mas industriais poderosos, como o

conde Francisco Matarazzo, ouviam aquela arenga com ceticismo e desinte-

resse:


- Doutor Assis, eu não sou contemporâneo dessa tal de propaganda-

dizia o conde. - Se meus filhos quiserem vender com anúncios, não me opo-

rei. Mas eu sou de outra era.

O próprio Chateaubriand sabia que a ignorância não era só dos poten-

ciais anunciantes. Mesmo os grandes jornais brasileiros ainda viviam na ida-

de da pedra da publicidade e da propaganda. Não havia no país sequer meia

dúzia de agências de propaganda. Eram a de Pedro Didier e Valentim Har-

ris, A Ecléctica, de Jocelyn Bennaton e João Castaldi, a Petinatti, de Francis-

co Petinatti, e mais nada. Até mesmo os outdoors só apareceriam no Brasil

cinco anos depois, produzidos pelo tipógrafo italiano Amedeo Vigianni - e

ainda assim sob a forma de toscos cartazes ovais, tão pequenos que podiam

ser pregados nos postes de luz. O máximo a que se tinha chegado era a figu-

ra do agente individual de reclames, uma espécie de corretor que levava os

raros anúncios para os jornais e ganhava uma comissão sobre o faturamen-

to. A composição dos anúncios era feita pelos tipógrafos nas próprias gráfi-

cas dos jornais - nada muito diferente dos "manteigas" da adolescência

pernambucana de Chateaubriand. Propaganda feita em "estéreos", nome

com que eram conhecidos os clichês, era raríssima. As fábricas estrangeiras

instaladas aqui eram uma exceção - e entre elas a americana General Mo-

tors inaugurou uma "agência" interna própria, chamada Seção de Propagan-

da, onde trabalhavam cinco pessoas, encarregadas de criar, produzir e for-

necer a seus revendedores cartazes e folhetos.

Foi Van Dyck, presidente da filial brasileira da indústria de lâmpadas

General Electric, que, sabendo da obsessão de Chateaubriand pelo assunto,

chamou sua atenção para um turista que passava férias no Rio: o americano

Fitz Gibbon, chefe do Departamento de Propaganda do New York American,

matutino publicado em Nova York pela cadeia do czar da imprensa dos Es-

tados Unidos, William Randolph Hearst. Talvez valesse a pena visitá-lo no

hotel, sugeriu Van Dyck, para se aconselhar sobre como lidar com o proble-

ma da publicidade nos jornais brasileiros. Chateaubriand marcou um almo-

ço com Fitz Gibbon no Copacabana Palace. Antes que a sobremesa chegas-

se, Fitz Gibbon - "o primeiro perito em propaganda a aparecer nesta terra",

diria Chateaubriand - havia decidido demitir-se do grupo Hearst e mudar-se
142

#
CHATÔ, O REI DO BRASIL


para o Rio, onde criaria, dias depois, o Departamento de Propaganda de

O Jornal. Com expressas recomendações do novo dono do matutino:

- O senhor vem para o Brasil para me ajudar a acabar com o jornalis-

mo doutrinário, contemporâneo do século passado. Com sua ajuda, quero

estabelecer métodos norte-americanos de vender mercadorias por intermé-

dio da imprensa diária. Vamos impor aos magazines novas formas de fazer

seus anúncios. Quem não vier atrás de nós vai morrer de fome, seu Gibbon.

Enquanto não começavam a pingar os anúncios arrancados por Gib-

bon, Chateaubriand ia dando a O Jornal uma cara nova. Convidou para ser

redator-chefe o "Caboclo", Belarmino Austregésilo de Athayde. Para secretá-

rio de redação contratou o jornalista Azevedo Amaral, que era redator-che-

fe do Correio da Manhã, e sugeriu a ele que começasse a substituir os intermi-

náveis e soníferos artigos que ocupavam meia, uma e até duas páginas por

uma novidade que fazia muito sucesso na imprensa dos Estados Unidos-

as reportagens. A primeira delas causou furor entre os leitores e tratava de

um personagem cuja sombra acompanharia Chateaubriand por muitas dé-

cadas: o coronel e etnólogo inglês Percy Fawcett, que surgira no Brasil acom-

panhado de um filho e de um ajudante para "libertar a população" de uma

suposta Atlântida encravada na Amazônia brasileira, uma sociedade de 10

mil anos de existência, povoada por brancos e implantada sobre o maior veio

de ouro do planeta. Quando O Jornal se interessou pelo assunto, Fawcett já

se embrenhara pela selva adentro - de onde, aliás, jamais retornaria. Mas o

talentoso Azevedo Amaral mandou ouvir as dezenas de pessoas que haviam

estado com Fawcett antes da partida, o que foi suficiente para que o próprio

redator-chefe do jornal escrevesse uma emocionante série de reportagens in-

titulada "Haverá uma Atlântida brasileira?". O material foi publicado contra

os conselhos de Cândido Rondon, que conhecera Fawcett e a quem conside-

rava "uma combinação de embusteiro e louco, um megalomaníaco alucina-

do que está atrás de ouro ou apenas de se promover na Europa".

Vivendo a delicada situação de estar rompido com o governo, Chateau-

briand decidiu consolidar suas relações com as fatias restantes do poder-

onde quer que elas estivessem. Ao visitar o influente d. Sebastião Leme, ar-

cebispo coadjutor do Rio de Janeiro, ouviu um pedido do prelado: já que O

Jornal mantinha há muitos anos uma coluna diária sobre o protestantismo,

por que não criar outra, sobre o catolicismo? A única exigência que a Igreja

fazia, se o pedido fosse atendido, é que as duas colunas saíssem em lugares

diferentes do jornal, nunca lado a lado. O agnóstico e incréu Assis Chateau-

briand fez um discurso de carola para responder ao pedido, mas seu lingua-

jar deixou o bispo de olhos arregalados:

- Eminência, essa coluna foi criada pelo afro-brasileiro Toledo Lopes,

antigo dono do jornal. Como todo híbrido, esse mulato pachola gostava de

exibir independência, e por isso teimava em manter essa coluna protestante.


143

#
FERNANDO MORAIS


Mais do que isso, ele cevou na redação uma malta de energúmenos espíritas

e protestantes, só para atacar o clero e apoquentar vossa eminência.

Não precisava tanto, mas Chateaubriand continuou:

- Não sou homem de meias medidas, eu vou ao cabo. A coluna católi-

ca vai ser criada, mas vai permanecer sozinha, monopolística em nossa casa.

A partir de amanhã estão rifados todos os gemidos calvinistas e allankarde-

quianos no meu diário.

Ao chegar à redação e contar, às gargalhadas, o diálogo com o arcebis-

po, ele garantia:

- A partir de hoje, estamos atolados no coração de dom Sebastião Leme

e da Igreja até o último dia de nossas vidas!

Depois do afago ao poder espiritual da Igreja, estava na hora de fazer

um cafuné ao poder secular do capital. Inaugurando uma prática que seria

marca registrada de seus jornais ao longo dos anos, Chateaubriand lançou a

primeira de suas célebres "campanhas". E, como era a primeira, o objeto da

homenagem tinha de ser, naturalmente, o poder a que ele precisaria recorrer

nos momentos de dificuldades mais materiais: tratava-se de uma campanha

para estimular a população a fazer uso intensivo do cheque. Uma campa-

nha significava que o assunto ia ser tema de seguidas reportagens no jornal,

de enquetes e pesquisas com os interessados e, muitas vezes, de concursos

de que os leitores participavam preenchendo cupons publicados em O Jor-

nal. Antes que o ano terminasse, Chateaubriand ainda mandaria fazer cam-

panhas pela preservação dos monumentos históricos brasileiros; contra a ca-

restia; contra as emissões desenfreadas de moeda pelo governo; contra a

inflação (que na época mal passava de 1 % ao mês); a favor da criação de um

Instituto de Defesa do Café e, finalmente, contra o entesouramento de moe-

da - e a favor de maior crédito oficial ao comércio e à indústria.

Apesar de continuar fazendo clara oposição a Bernardes, Chateau-

briand mantinha relações cordiais com políticos que apoiavam o presidente,

entre os quais se encontrava o deputado federal gaúcho Lindolfo Collor, que

era também redator-chefe de O Pais. E foi Collor quem o procurou para di-

zer que um colega seu da Câmara Federal queria conhecer de perto o jorna-

lista do Norte que tanta polêmica provocava no Rio. O deputado chamava-

se Getúlio Dorneles Vargas. Chateaubriand foi visitar Vargas no

apartamento

em que este morava com a família no Hotel Wilson, na praia do Flamengo.

A conversa durou um par de horas, e o jornalista se impressionou com

a cultura e a vivacidade do político gaúcho de pouco mais de quarenta anos,

que se apresentava como "um spenceriano, um positivista individualista, ao

contrário de meus conterrâneos Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros,

comtistas ortodoxos" . Disse que, como assinante do jornal argentino La Na-

ción, lera com grande interesse os artigos e entrevistas que o jornalista en-

viara da Europa. Ao perguntar pelos planos de Chateaubriand para o futuro,
144

#
CHATÔ, O REI DO BRASIL


Vargas ouviu-o dizer que nos próximos meses queria criar um vespertino

novo no Rio de Janeiro e, logo em seguida, montar ou comprar um jornal em

São Paulo e outro em Minas Gerais, dando início a uma cadeia nacional de

informação. A pronúncia da palavra "nacional" fez brilhar os olhos do de-

putado:

- Mais do que qualquer outra coisa, este país precisa de instituições



que lhe dêem unidade. Cada estado brasileiro é uma ilha voltada de costas

para as outras, como se fossem países diferentes. A cadeia de jornais que tu

projetas pode ser um embrião da unidade nacional por que eu tanto luto. Se

precisares de ajuda para a realização de seus planos, podes contar comigo.

Ao descrever o encontro para os colegas de redação, Chateaubriand dis-

se que Getúlio "seria até uma pessoa agradável, não fosse o cheiro do charu-

to fedorento que mantém o tempo todo na boca, como uma chupeta de

bebê ". Apesar da aversão ao fumo, Chateaubriand teria de suportar o vício

do gaúcho pelos meses seguintes, quando este se tornou assíduo freqüenta-

dor da redação de O Jornal, ao final das sessões do Congresso. Mas um ob-

servador que pudesse prever o futuro diria que Chateaubriand ainda seria

obrigado a conviver com os charutos de Vargas não apenas por meses, mas

até a morte do homem que acabara de conhecer.
145

9
Para espanto de todos que de alguma maneira haviam se metido naque-

la aventura, em meados de 1925 O Jornal era um indiscutível sucesso. Espan-

to de todos, menos de Chateaubriand. Ele sabia o que estava fazendo e aon-

de queria chegar. Como resultado da catequese de Fitz Gibbon, em menos

de um ano o faturamento de publicidade tinha dobrado. Boa parte das vin-

te páginas diárias estava coberta por anúncios da Antarctica, da General Mo-

tors, da companhia Sul-América de Seguros, de várias casas bancárias, de

distribuidoras de combustíveis e de inúmeros, incontáveis laboratórios, bra-

sileiros e estrangeiros: eram anúncios de remédios para eczemas, para en-

gordar, para emagrecer, para tosse, bronquite e rouquidão, para curar go-

norréia, para expelir vermes, para mulheres que tinham pouca (ou muita)

menstruação. Um estrangeiro que pousasse os olhos sobre aquele mar de

anúncios - alguns exageradamente grandes, outros microscópicos - ima-

ginaria tratar-se de uma publicação dirigida a médicos ou a pacientes de

hospitais. E o leitor que conhecesse, mesmo superficialmente, a história de

seu dono ficaria intrigado com um inexplicável mistério: quase um ano de-

pois de passar às mãos de Chateaubriand, O Jornal não tinha recebido um

único anúncio da Light. A surpresa era maior para os que sabiam que nessa

área o "polvo canadense" não tinha meias medidas. Ao buscar a noiva, que

era telefonista da direção da Light, o jovem jornalista Mário Hora, por exem-

plo, viu um dossiê revelador dos métodos da empresa para tratar os jornais

de oposição. Numa pasta estavam colados os recortes das campanhas feitas

contra a Light, com uma anotação a lápis, no pé da página: "Campanha ini-

ciada no dia tal, e terminada no dia tal. Pagos ao jornal: tantos contos de

réis". Ao lado do nome de cada jornal e cada revista, estava registrada a

quantia desembolsada para silenciá-los. Se pagava até aos inimigos, por que

Mackenzie não estaria ajudando a um de seus melhores amigos e protetores?

Mesmo sem os anúncios da Light, as finanças do jornal iam muito bem,

a ponto de permitir que as prestações fossem saldadas religiosamente em

dia. Aproveitando a bonança, no começo de 1926 Chateaubriand decidiu fa-

zer uma experiência para testar a receptividade do mercado ao seu projeto

de lançar um vespertino. Durante algumas semanas O Jornal, que não circu-

lava às segundas-feiras, passou a sair nesse dia, no meio da tarde, sob a for-


146

#
CHATÔ, O REI DO BRASIL


ma de vespertino. O fracasso do empreendimento levou-o a suspender a

nova edição um mês depois de lançada.

Chateaubriand retornou à política de reforçar a redação com colabora-

dores de renome. Passaram a assinar artigos regulares, além dos que tinham

sido chamados no ano anterior, nomes como os de Afrânio Peixoto, do ban-

queiro José Maria Whitaker, de Virgílio de Melo Franco, e até de Herbert

Moses, que, embora fosse da equipe de A Noite, dividia com Neto dos Reis

uma coluna publicada no concorrente sob o título de "Aviação nacional",

uma das favoritas de Chateaubriand. Com a série "Os diálogos de mr. Slang",

Monteiro Lobato passou a colaborar regularmente com O Jornal até o ano se-

guinte, quando seria convidado a trabalhar na missão comercial brasileira

nos Estados Unidos. Apesar de admirá-lo, Chateaubriand se queixava da fal-

ta de assiduidade e do comportamento boêmio do escritor paulista. Lobato

aparecia no jornal para entregar sua coluna e "ficava horas por lá, fazendo

ponto na redação, conversando e cavaqueando com os colegas", reclamava

o patrão.

Reconciliado com os modernistas de quem escarnecera em 1922, Cha-

teaubriand convidou alguns deles para o jornal, que agora tratava por "mi-

nha taba": para dirigir a recém-aberta sucursal de Belo Horizonte, chamou o

jovem advogado Milton Campos. Este arrastou consigo, para escrever sobre

literatura, outro modernista mineiro, um ainda obscuro poeta chamado Car-

los Drummond de Andrade. Da "semana de secos e molhados" ainda se in-

corporaria a O Jornal o paulista Oswald de Andrade, que em seu artigo de

estréia anunciou que estava ali para "passar em revista as últimas produ-

ções literárias da mocidade futurística da Paulicéia". Para não deixar dúvi-

das quanto à sinceridade com que abraçava a onda modernista, o próprio

Chateaubriand assinou um artigo de primeira página saudando a pintora

Tarsila do Amaral como uma "mulher dinâmica do mundo superindustria-

lizado em que vivemos, e que está traduzindo, com insolência, o frenesi da

expansão paulista". E durante a viagem do "escritor futurista" italiano Filip-

po Tommaso Marinetti ao Brasil Chateaubriand insistiu em ser o cicerone

oficial do visitante - que chegou a levar, acompanhado por intelectuais e es-

trelas do café soçaite, para uma inusitada visita a um terreiro de quimbanda

no alto de uma favela carioca. Todos, claro, devidamente protegidos por sol-

dados armados de espingardas. Depois de mostrar São Paulo ao visitante,

publicou uma entrevista maluca sobre Marinetti feita com Juó Bananére,

pseudônimo do engenheiro Alexandre Marcondes Machado, que infligia pâ-

nico aos poderosos e governantes não por seus projetos politécnicos, mas

pelo sarcasmo de seus versos e crônicas, escritos num idioma próprio, uma

mistura de português e italiano - tal como era falado pelos imigrantes ita-

lianos em seus primeiros dias de Brasil. Na entrevista, Chateaubriand trata

Bananére com toda a seriedade:

147

#
FERNANDO MORAIS


Daqui a duzentos anos, quando o português e o italiano forem, em São Paulo,

como o hebraico e o sânscrito, dois idiomas mortos, lidos por eruditos, será na

prosa ágil de João Bananére, o precursor, que as gerações futuras

terão com-

preendido a linguagem do futurismo. Avistei-o há três dias a fim de ouvi-lo e

resumir-lhe as impressões sobre o futurismo. Vou transmitir a palestra que tive

com ele no próprio idioma pitoresco em que ele me falou. Fala, Bananére:

"As minha impressô supra du Marinetti? lo axo chi o Marinetti é um núma-

ro! Fui illo chi inventô o futurismo, u Mussolino i a modinha da Maricota sai da

Xuva. A primeira circunferenza che illo fiz inzima du u Gazino, fui una billeza!

Aparicia a fêra do Largue do Arroche. Tenia batata, tumato, banana, pexe pn-

dre, uova con pintigno, ecc., ecc. [...] U futurismo é una tinria literaria chi man-

da a prantá batata tuttas tradiçó, a storia, u passato i tutto chi é veglio. Tutto chi

é veglio non presta i a gente deve agiugá fora. U paio, a maia, i u avô da genti,

quano fica veglio a genti devi turcê o piscoço e agiugá nu lixo. U nRn i u Gurreiu

Baolistano chi giá stó podri di veglio pricisa agiugá fora tambê".


Bananére, ele próprio um filofascista, termina a entrevista ironizando os

pendores mussolinistas de Marinetti:


"U Marinetti stive nu migno saló i axó u succo! Illo vai cavá pra mim u lugáro

de barbieri ufficiale du Muçsolino. Io fiquê tó intusiasmato chi até fiz un verso

futturiste prelle:
Vai-si a primèra pomba disrertata!

U Marinetti é una gavargadura!

Quano vem u garadura

lo vô vê qui bixo dei i giá vorto.


A lua uem sainn

U sulr tarnbr urm vinu

1 us dois s'iracontráro!

Deu u giacaré c'oa cabra!


lo cumpré um Forde

1 ir Xico cumprô una eRua marella

In vô mistiçá ella.
Gurro vê se dista passoca sai un presidentino

Bra ista ripubliga avacagliada.

Abaxo Piques, venti di Mussolinário

Di mila vcnti seis."


Chateaubriand aproveita a estada em São Paulo para escrever uma sé-

rie sobre o modernismo paulista, na qual se destacava a entrevista com "um

forte pintor russo, Lázaro Segall", que a milionária mecenas Olívia Guedes

Penteado havia contratado "para pintar um pavilhão de sua casa, consagra-

do ao culto da modernidade ". Para o jornalista, "só mesmo a metrópole de
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#
Francisco Matarazzo e Pereira Ignacio pode demonstrar tal entusiasmo pela

arte moderna".

Seu interesse central, entretanto, continuava voltado para o que chama-

va "o caráter cosmopolita" que queria imprimir ao jornal. Mas os artigos es-

peciais, quase todos comprados com exclusividade do New York American

Syndicate, acabavam transmitindo ao leitor mais atento a impressão de que

reinava no jornal uma enorme confusão ideológica, pelo menos no plano in-

ternacional: durante uma semana, por exemplo, O Jornal era a única publica-

ção brasileira onde se podiam ler textos escritos por Leon Trotsky, fundador

do Exército Vermelho soviético e ex-comissário da Guerra da uRss. Às vés-

peras de entrar nas fatais listas de inimigos de Stalin, Trotsky assinou uma

série de artigos que ocupavam sempre o lugar mais nobre do jornal, o lado

direito do alto da primeira página. Isso numa época em que ainda nem ha-

via trotskistas no Brasil - o primeiro e mais notório deles só apareceria por

aqui quatro anos depois: o respeitado crítico de arte Mário Pedrosa. Mas,

logo depois de Trotsky, Chateaubriand publicaria, com igual destaque, uma

caudalosa história do fascismo assinada pelo próprio Benito Mussolini.

Como repique, a personalidade internacional seguinte seria um fiel seguidor

das idéias de Mussolini, o general falangista espanhol Primo de Rivera.

Esses extensos tijolaços nacionais e estrangeiros continuavam dando ao

jornal a aparência gráfica de um diário oficial. Tentando refrescar essa ten-


149

#

FERNANDO MORAIS


dência, Chateaubriand aumentou de vinte para 24 o número de páginas,

agora divididas em dois cadernos, sendo o segundo freqüentemente impres-

so em cores. Em abril de 1925 uma nova experiência foi feita, e o segundo ca-

derno foi impresso nas oficinas do La Nación, em Buenos Aires, em rotogra-

vura, técnica ainda desconhecida dos diários brasileiros. Na cobertura da

morte do aviador português Sacadura Cabral, o jornal usou fartamente a cli-

cheria para reproduzir fotos do morto e do avião com que pretendia dar a

volta ao planeta. Além de se preocupar com a estética, Chateaubriand insis-

tia nas reportagens: seu primo Rafael Correa de Oliveira (neto do conselhei-

ro João Alfredo, que dera o primeiro emprego a seu pai) é colocado no en-

calço da Coluna Prestes, e pela primeira vez o público lê na grande impren-

sa algo que até então só aparecia em panfletos políticos: entrevistas em que

os chefes rebeldes descrevem suas refregas contra as forças regulares do go-

verno federal. Encantado com o lado romântico e aventuresco de Prestes, a

quem se referia nos artigos como "o fogoso capitão gaúcho", e sabendo que

a divulgação dos movimentos da Coluna era mais uma maneira de azucri-

nar o presidente da República, Chateaubriand já havia contratado antes o

general Nestor Sezefredo dos Passos para, sob o cauteloso pseudônimo de

"General Z.", assinar artigos no jornal analisando do ponto de vista militar

a marcha rebelde que se transformara na maior dor de cabeça do governo

Bernardes.

Além de Rafael Correa de Oliveira, outros repórteres do jornal - como

Azevedo Amaral e o mineiro Luís Amaral - voltariam a acompanhar a Co-

luna pelo interior do país e a publicar novas séries contando as peripécias

daquele endemoniado exército de trôpegos que as mais bem equipadas for-

ças de Bernardes jamais conseguiriam vencer. Lidas obrigatoriamente pelos

censores do ministro da Justiça, Afonso Pena Júnior (a quem Chateaubriand

substituíra como advogado de Farquhar), as reportagens costumavam sair

- quando eram liberadas - até um mês depois de escritas. Indignado com

a propaganda oficial, que comparara Luís Carlos Prestes ao cangaceiro Vir-

gulino Ferreira, o "Lampião", Chateaubriand revida na primeira página de

O Jornal: "O ministro da Justiça, que tanto se preocupa em censurar, não de-

via permitir a ignomínia dessa comparação. Lampião é um bandido, um sal-

teador vulgar, um miserável que assassina para roubar, um degenerado que

se fez cangaceiro a fim de dilapidar os bens e tirar a vida de seus semelhan-

tes. O capitão Prestes é um revolucionário, e, enquanto não for julgado por

um juiz civil ou um conselho de guerra, faz parte do Exército brasileiro. O

raid do capitão Prestes valerá pela tenacidade e pelo arrojo do soldado-me-

nino de 26 anos, bravo, ardente, pugnaz, como decerto o Brasil não tinha vis-

to nada comparável".

Como se tal atrevimento não fosse suficiente provocação contra o

presi-


dente, Chateaubriand ainda abriria nas páginas de O Jornal uma subscrição

pública destinada a coletar dinheiro dos leitores para ajudar os rebeldes,


150

#
CHATÔ, O REI DO BRASIL


soma que seria entregue a Prestes e Miguel Costa (seu companheiro no co-

mando da Coluna) pessoalmente por seu irmão Oswaldo Chateaubriand e

pelo repórter Luís Amaral. O exemplo dado por Chateaubriand acaba sendo

seguido por Irineu Marinho, em A Noite, e por Edmundo Bittencourt no Cor-

reio da Manhã. O gesto de Chateaubriand fica registrado no diário do histo-

riador oficial que acompanhou toda a trajetória da Coluna, o "bacharel fe-

roz" Lourenço Moreira Lima:
O dr. Luís Amaral, representante d'O Jornal, nos levou a primeira importância ad-

quirida pela grande subscrição nacional feita para nos socorrer - auxílio esse que

recebemos com o maior prazer, porque foi uma manifestação inequívoca de que

o povo brasileiro aplaudia a campanha que empreendêramos na defesa de suas

liberdades mais caras. [...] Conosco já estivera o dr. Correa de Oliveira, também

representante d'O Jornal, a quem se devem as fotografias tiradas da Coluna [...).


Quando a exaurida Coluna ameaça chegar ao fim, O Jornal despacha

mais repórteres ao exterior para ouvir seus comandantes. Em carta enviada

a Siqueira Campos (um dos sobreviventes da revolta do Forte de Copacaba-

na, em 1922), Prestes conta como foi seu encontro com os jornalistas de Cha-

teaubriand: "No dia 24 de fevereiro aqui chegaram o dr. Rafael C. de Olivei-

ra, que pôde observar um dos momentos mais críticos de nossa vida

revolucionária [...). Prontos, nus, doentes e feridos, terminando uma longa

marcha a pé, tendo atravessado trinta léguas de pantanal. As fotografias en-

tão tiradas são o melhor testemunho. A minha, então, é a de um verdadeiro

jagunço [...]. O dr. Luís Amaral, também representante de O Jornal, esteve

aqui alguns dias. Tirou algumas fotografias que devem ser publicadas. Deu-

me notícias tuas, do general Miguel e de João Alberto". A insistência de Cha-

teaubriand em promover Prestes e defender com tanto entusiasmo a anistia

"a todos os revoltosos, desde 1922", acabaria redundando na primeira e mais

ruidosa baixa nas hostes de O Jornal. O presidente da empresa, Epitácio Pes-

soa, acabaria pedindo demissão do cargo. Motivo: "O desgosto de presidir

um diário que advogava o perdão de rebeldes militares que cometeram o cri-

me de sublevação contra três administrações" - inclusive a sua própria.

Mas nem só de política poderia viver um jornal que vendia 40 mil exem-

plares e se gabava de ter quase 3 mil assinantes, espalhados por dezenove

estados e territórios - liderados por Minas, com 985 assinaturas, o Distrito

Federal, com 377, e São Paulo, com 349. Apesar do ar ainda carrancudo,

dado pelos artigos nacionais e estrangeiros, O Jornal certamente começava a

cair no gosto da população. Um diretor da Casa Pacheco, um dos maiores

magazines varejistas cariocas, conta em entrevista que suas vendas dobra-

ram em poucos meses, e assegura que o maior retorno desse salto é prove-

niente dos anúncios feitos em O Jornal. E foi pensando nesses leitores - afi-

nal, eles é que estavam garantindo a prosperidade de seu empreendimento


151

#
FERNANDO MORAIS


- que Chateaubriand decidiu, sem qualquer cerimônia, se apropriar do que

ele considerava "uma grande campanha" do concorrente A Noite.

Dois anos antes, em 1923, o jornal de Irineu Marinho promovera, em

parceria com a Revista da Semana, um concurso popular para descobrir "a

mulher mais linda do Brasil". As eliminatórias estaduais levaram 24 intermi-

náveis meses até que um júri, formado pelo caricaturista Raul Pederneiras,

pelo pintor Batista da Costa e pelo escultor Correia Lima, escolheu, entre

mais de trezentas finalistas, a jovem santista Zezé Leone, que logo depois se

tornaria atriz de cinema. Alegando que A Noite e a Revista da Semana tinham

plagiado uma idéia em voga fazia muitos anos nos Estados Unidos, Cha-

teaubriand não teve cerimônia em registrar em nome de O Jornal a marca
"Miss Brasil" - um concurso de beleza que se realizaria anualmente sob os

auspícios do jornal como "uma homenagem à nossa mais linda patrícia".

Estava enganado quem supusesse que o furto iria desencadear uma

guerra entre ele e Marinho. Este, passadas poucas semanas, decidia vender

A Noite, após quinze anos à frente do jornal, e lançar um novo diário no Rio

de Janeiro, levando consigo Herbert Moses e Antônio Leal da Costa. E, ape-

sar da experiência fracassada de Chateaubriand, o grupo decidira pôr nas

ruas um vespertino. Para escolher o nome do futuro jornal, Marinho valeu-

se de um original concurso: qualquer pessoa poderia depositar sua sugestão

em urna colocada no Liceu de Artes e Ofícios. O nome que obtivesse o

maior número de indicações seria o escolhido, e o autor - ou autores - da

sugestão receberia como prêmio uma assinatura gratuita, durante um mês,

da nova publicação.

Quem leu O Jornal nos trinta dias que durou a promoção do antigo dono

de A Noite ficou com a impressão de que aquela era mais uma "campanha"

de Chateaubriand. Na verdade o que ocorreu é que, sabendo que Irineu Ma-

rinho já não dispunha de um veículo para divulgar o concurso (ele deixara

A Noite brigado com o novo dono, Geraldo Rocha, a quem acusava de ter lhe

passado a perna), Chateaubriand deu ordens para que seu jornal se encarre-

gasse de difundir, por meio de reportagens diárias - intituladas "Um bom

nome para um bom jornal" -, a promoção que iria escolher o título do novo

vespertino. Ao final de um mês, foi O Jornal que tornou público o resultado:

apuradas 26 520 sugestões, os nomes mais votados tinham sido, pela ordem,

Correio da Noite, O Globo, Última Hora, Jornal da Noite, A República, Diário da

Noite, A Reação, O Tempo, O Cruzeiro e A Tarde. O título Correio da Noite, esco-

lhido por 3382 pessoas para aquele que, décadas depois, seria um dos qua-

tro maiores jornais do país, não pôde ser adotado, pois já estava registrado

em nome de alguém. A escolha acabou recaindo sobre o segundo colocado,.

e assim foi batizado pelos 3080 leitores que haviam sugerido O Globo. O

dono do jornal mal teve tempo de ver de pé o novo vespertino, lançado na

última semana de julho: no dia 21 de agosto morria Irineu Marinho. Seu fi-
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CHATÔ, O REI DO BRASIL


lho Roberto, de apenas 21 anos, decidiu passar a direção do jornal a Euricles

de Matos para só assumi-la cinco anos depois, com a morte deste.

A experiência frustrada do início de 1926 com a circulação vespertina de

O Jornal, somada à ocupação do espaço, no Rio, pelo lançamento de O Globo,

fez com que Chateaubriand voltasse os olhos para São Paulo - cidade onde

estava o dinheiro e onde, por coincidência, havia um jornal à venda. Era o

Diário da Noite, um vespertino com poucos meses de vida, que havia sido

fundado no começo de 1925 por Plínio Barreto, Rubens do Amaral e Leo Vaz

(o mesmo que, junto com Monteiro Lobato, sobrevivera à gripe espanhola na

redação do Estado em 1918). Ao saber que o jornal ia mal das pernas, Cha-

teaubriand tomou o Cruzeiro do Sul, trem noturno que ligava o Rio à capital

paulista, e amanheceu com sua tenda armada no Hotel Esplanada.

Desta vez sem intermediários, saiu em campo para se entender com os

donos do Diário da Noite, que não pediam muito pelo jornal - cerca de um

terço do que lhe custara O Jornal. Antes de bater o martelo, foi até a fazenda

de Júlio Mesquita, em Louveira, no interior de São Paulo, pedir a bênção do

dono do Estado para o novo negócio. Só depois de receber o nihil obstat do

patriarca da imprensa paulista é que saiu em busca de dinheiro. O prestígio

e o poder acumulados em dez meses de funcionamento de O Jornal o anima-

ram a repetir a operação que fizera em setembro do ano anterior. Desta vez

assestou suas baterias contra empresários, industriais e agricultores paulis-

tas - só para Carlos Leôncio "Nhonhô ' Magalhães, presidente da Socieda-

de Rural Brasileira, conseguiu "vender" quarenta contos de ações. Como o

novo jornal estava instalado em São Paulo, sentiu-se "no dever" de bater no-

vamente às portas de Guilherme Guinle - um carioca, sim, mas afinal ele

era o dono da Companhia Docas de Santos. Ao ver o empresário preencher

um cheque de 75 contos, exclamou:

- Os astros estão a nosso favor, doutor Guinle. O valor que o senhor

está pagando por esse lote de ações do Diário da Noite é exatamente o que o

falido New York Times custou, trinta anos atrás, a Alfred Ochs. Estamos no

bom caminho!

Guinle sabia com quem estava falando:

- Esqueça as ações, Chateaubriand. Isto é filantropia, é dinheiro a fonds

perdu.


Com a ajuda de Rodrigo Melo Franco, Chateaubriand obteve mais algu-

mas contribuições em Minas Gerais. E o dinheiro que faltava para assumir a

propriedade do jornal ele levantou vendendo antecipadamente a seus clien-

tes preferenciais - bancos, companhias de seguros, laboratórios - páginas

e páginas de anúncios que seriam publicados por meses a fio tanto no Diário

da Noite, que ainda não lhe pertencia, quanto em O Jornal. No dia 2 de junho

de 1925, embora seu nome ainda não aparecesse no cabeçalho nem no expe-

diente, o Diário da Noite era propriedade de Chateaubriand, que manteve Plí-


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FERNANDO MORAIS


nio Barreto e Rubens do Amaral como diretores e Leo Vaz como redator-

chefe. A marca do novo dono apareceria em poucos dias, com o jornal com-

batendo, solitária mas encarniçadamente, o projeto do governo federal de

construir um segundo porto no estado de São Paulo, na cidade de São Sebas-

tião. Para Chateaubriand aquilo era uma insensatez, uma imbecilidade,

uma demência, uma chapada ignorância, uma coceira maluca. "Uma vaidade

de gente que não sabe dar valor ao dinheiro público" . Os defensores da idéia

o acusavam de estar apenas pagando, em reportagens e editoriais, a dinhei-

rama que lhe dera Guilherme Guinle, dono da Docas de Santos, que se sen-

tia ameaçado pelo projeto. Mesmo assim, a tese de Chateaubriand saiu ven-

cedora, e o porto nem chegou a sair do papel.

Menos de seis meses após mudar de mãos, o jornal que capengara des-

de a fundação exibia uma invejável robustez econômica: antes de terminar o

ano, apresentava lucros de 311 contos. Tanto dinheiro transformava-se em

um insondável mistério, a julgar pelo que afirmaria, décadas depois, Ed-

mundo Monteiro, que jura ter mantido fechada num cofre, durante anos, a

cópia de um lançamento de caixa datado do primeiro dia de funcionamento

do jornal sob a nova direção. Segundo ele, lá estava escrito: "Formação de ca-

pital: fulano, tantos contos, beltrano, tantos contos, sicrano, tantos contos.

Total em caixa, duzentos contos". O lançamento seguinte, feito no mesmo

dia, registrava uma retirada de dinheiro feita pelo irmão do dono: "Emprésti-

mo ao dr. Oswaldo Chateaubriand: duzentos contos". Para Monteiro, aquela

era uma prova indiscutível de que "oficialmente a nova empresa nasceu e que-

brou no dia de sua fundação - e este seria o retrato mais fiel da história dos

nossos jornais".

Ainda que fruto de algum inexplicável milagre, a verdade é que o Diá-

rio da Noite tinha mesmo apurado ao longo dos primeiros meses os tais 311

contos anunciados como "lucro". Pois foi com esse dinheiro que Chateau-

briand alugou a sede da antiga Rotisserie Sportsman, na rua Líbero Badaró,

nos baixos do viaduto do Chá, e transferiu para lá o jornal, devidamente

equipado por uma recém-adquirida rotativa Albert - um prodígio da enge-

nharia capaz de rodar por hora 30 mil exemplares de um caderno de dezes-

seis páginas, duas das quais em cores. Do propalado lucro do Diário da Noi-

te ainda sobrou dinheiro para que Chateaubriand adquirisse de Monteiro

Lobato e transferisse para São Paulo a respeitada Revista do Brasil, que pas-

sou a ser dirigida por Rodrigo Melo Franco de Andrade.

Não se imagine, porém, que tamanha abastança fosse um privilégio do

braço paulista dos negócios de Chateaubriand. No Rio de Janeiro O Jornal

exibia opulência semelhante ou até maior que a do Diário da Noite. Para o jor-

nal carioca foi comprada uma máquina ainda mais sofisticada que a Albert

que fazia tremer o velho prédio do vale do Anhangabaú: uma Hoe de alta

velocidade, novinha em folha, capaz de imprimir duas vezes e meia mais


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


jornais que a máquina instalada em São Paulo - ou seja, 72 mil exemplares

por hora, continuamente. Quando os técnicos acabaram de aparafusar a im-

pressora no chão do andar térreo do prédio do jornal, Chateaubriand dava

voltas e voltas em torno dela, dando-lhe tapinhas como quem bate no lom-

bo de um puro-sangue premiado. Para expressar tanta admiração, recorria

ao superlativo nordestino:

- Isto não é um prelo, é um despotismo! Um despotismo, meus se-

nhores!


Importado dos Estados Unidos, o despotismo foi apresentado aos leito-

res através de uma edição comemorativa do centenário do nascimento de

d. Pedro II e sobre o desenvolvimento da indústria no Brasil. O calhamaço

quebrava dois recordes da imprensa brasileira: até então nenhum jornal ti-

nha posto na rua uma edição com 68 páginas, assim como nenhum veículo

jamais conseguira vender, num só dia, um volume tão grande de publicida-

de como a estampada em O Jornal de 2 de dezembro de 1925.

A compra de um novo jornal em São Paulo e da Revista do Brasil, a im-

portação de máquinas caras e sofisticadas, a edição especial de O Jornal-

tanto barulho acabou despertando a serpente que dormia no Palácio do Ca-

tete e que, aparentemente, tinha decidido deixar Chateaubriand em paz. A

verdade é que, simulando indiferença aos negócios do adversário, Artur

Bernardes, por meio de informantes plantados dentro do jornal, vinha acom-

panhando secretamente, desde setembro do ano anterior, os detalhes de to-

das as operações realizadas pela empresa. O presidente era informado, ho-

ras depois, de cada real que entrava ou saía do prédio da rua Rodrigo Silva.

A primeira suspeita nasceu quando ele fez as contas do dinheiro levantado

por Chateaubriand para a compra de O Jornal. Somou os 170 contos que o

jornalista tirara do próprio bolso, os 130 tomados à Sotto Mayor, os 1500 ava-

lizados por Alfredo Pujol, acrescentou o que havia sido apurado na venda

de ações para os empresários mineiros, paulistas e cariocas e mais as presta-

ções que haviam sido pagas a Toledo Lopes: tudo junto não chegava a 4500

contos. Se o jornal fora vendido por 6 mil contos, a conclusão era cristalina:

os 1500 contos que faltavam tinham sido dados por Mackenzie. Ou por Far-

quhar, Billings, Couzens ou Pierson, tanto fazia. Era dinheiro estrangeiro

controlando a opinião pública por intermédio de um jornal brasileiro - o

que, na cabeça do presidente da República, justificava a inexplicável ausên-

cia de anúncios da Light, por exemplo, em O Jornal.

Nos primeiros dias de dezembro Chateaubriand, ao entrar no elevador

de um banco no centro da cidade, lá cruzou com o geólogo Arrojado Lisboa,

que já foi perguntando:

- Você já sabe que estão preparando sua saída de O Jornal?


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FERNANDO MORAIS


Chateaubriand achou que se tratasse de uma brincadeira, mas por pre-

caução não quis tratar daquele assunto em um elevador cheio de estranhos

e disfarçou o espanto:

- Algumas ações estão sendo negociadas, mas é a meu pedido.

- Não é isso. Um diretor do jornal está comprando ações em seu nome.

É uma ofensiva violenta, e com dinheiro do governo federal.

Chateaubriand nem chegou a sair do elevador. Voltou ao térreo e che-

gou ofegante à sua sala no jornal. Abriu sôfrego o cofre que ficava num can-

to e, aí sim, quase teve um infarto: seu mais precioso documento - a exten-

sa lista de acionistas que haviam contribuído para a compra de O Jornal-

tinha sido furtada. Pediu a Austregésilo de Athayde que convocasse uma

reunião de todos os acionistas que estivessem na cidade. No final da tarde

estavam lá duas dezenas de industriais, banqueiros, comerciantes e juristas.

A maioria deles já havia vendido suas ações a um diretor do jornal - cujo

nome Chateaubriand jamais revelaria -, que dizia estar comprando os pa-

péis em seu nome. A operação era facilitada pela legislação vigente, que es-

tabelecia que eram ao portador as ações das sociedades anônimas. Lívido,

ele começou a disparar telefonemas para acionar quem pudesse ajudá-lo a

entender o que estava acontecendo. Antes que a noite caísse já elucidara o

mistério: o dinheiro para a compra das ações tinha saído dos cofres do Ban-

co do Brasil. E a ordem para liberar os milhares de contos havia partido do

próprio presidente da República.

Pelo plano engendrado no Palácio do Catete, Bernardes pretendia ad-

quirir sorrateiramente o controle acionário da Sociedade Anônima O Jornal,

destituir seu dono e depois revender a empresa ao antigo proprietário, Re-

nato Toledo Lopes. Se a trama viesse a público, o presidente diria desconhe-

cer a operação, cuja responsabilidade seria assumida por Toledo Lopes.

Além disso, comprar ações de uma empresa e assumir o controle dela não

era nenhum crime. Com a ajuda de Athayde, Eugênio Gudin e Afonso Vi-

zeu, Chateaubriand contabilizou a extensão do estrago feito por Artur Ber-

nardes. Por suas contas, o plano tinha sido abortado a tempo: o pacote de

ações compradas a mando do presidente não chegara aos 50% do capital-

insuficiente, até aquele momento, pelo menos, para tirar o jornal de suas

mãos.


No mesmo dia Chateaubriand redigiu a convocação de uma assembléia

geral dos acionistas, com a finalidade de mudar os estatutos da empresa e

eleger nova diretoria. Para realizar tais mudanças, precisaria ter a seu lado

dois terços dos acionistas. Se marcasse a assembléia para o dia seguinte, re-

duziria o tempo que Bernardes teria para comprar mais ações - mas, com

as precárias comunicações daquele tempo, corria o risco de não conseguir

reunir todos os acionistas que ainda não tinham sido procurados pelos ho-

mens do governo que se anunciavam como seus intermediários. Se chamas-


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


se a assembléia para duas semanas depois garantiria a presença de todos,

mas ampliaria o prazo de que o governo dispunha para manobrar. Havia até

o risco de o presidente, valendo-se dos instrumentos de exceção que o esta-

do de sítio lhe franqueava, cometer alguma tropelia jurídica e simplesmente

proibir a reunião. Ficou no meio-termo e convocou a assembléia para cinco

dias depois. Chateaubriand varou a noite dando telefonemas e despachando

emissários para todos os cantos, com dois objetivos: primeiro, advertir os

acionistas para que não vendessem suas ações a ninguém que os procurasse

em seu nome, já que aquilo era "uma operação de despejo " movida contra

ele pelo presidente da República, "um crocodilo que prepara as mandíbulas

para me triturar" . Quem quer que os procurasse falando em seu nome deve-

ria ser tratado como um "traidor miserável". E depois, claro, ele queria se as-

segurar da presença de todos na assembléia geral. Certo de que Toledo Lo-

pes estava servindo como a "mão do gato " de Bernardes, em toda a conjura,

terminava os telefonemas com um alerta:

- Cuidado com o crioulo, que ele certamente está por trás disso. O que

esse macaco quer é transformar O Jornal num segundo Diário Oficial a servi-

ço de Bernardes aqui na capital.

Ao falar com os acionistas (que descobriu, perplexo, serem dezenas e

dezenas), Chateaubriand enfrentou de tudo. Enfureceu-se com os que nem

quiseram atendê-lo e insultou os que se acovardaram - Bernardes, que ain-

da tinha um ano de governo pela frente, sempre empunhando a ameaçado-

ra espada do estado de sítio, fazia terrorismo mandando espalhar a notícia

de que não permitiria que a assembléia se realizasse. Alguns, como Darke de

Mattos e Gabriel Bernardes, que aparentemente tinham vendido suas ações

sabendo do golpe, voltaram atrás e aderiram a Chateaubriand. A blitzkrieg

para salvar o jornal da rapina do governo acabaria rendendo a Chateau-

briand um inesperado saldo de quase 2700 contos, dinheiro colocado nas

suas mãos para a eventualidade de ser necessário recomprar algum pacote

de ações vendido aos homens de Bernardes. Um dos que, além de apoiá-lo

politicamente, abriram seus talões de cheques foi o cafeicultor Carlos Leôn-

cio "Nhonhô" Magalhães. Ele não só depositou na conta do jornalista algu-

mas centenas de contos, como ainda deixou mais 3500 contos à disposição de

Chateaubriand, "reservados para alguma emergência". A gentileza de Ma-

galhães veio acompanhada de uma frase de efeito:

- Esta não é uma guerra de Assis Chateaubriand contra Bernardes. É a

guerra do café e dos cafeicultores contra um presidente mofino, um inimigo

jurado do café.

Recebeu uma resposta à altura:

- E eu vejo que não estou falando com um reles fazendeiro, mas com

um brasileiro de peito cabeludo!
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FERNANDO MORAIS


Cinco dias depois, a assembléia era instalada às dez da manhã, na pró-

pria sede do jornal. Para presidi-la foi escolhido por aclamação o veterano e

respeitado Francisco Sales, membro do grupo que, décadas antes, fundara

com Américo de Campos e Rangel Pestana a Provincia de São Paulo. Uma pas-

sada de olhos nos presentes permitia contabilizar a confortável maioria que

o grupo de Chateaubriand detinha. Lá estavam, entre outros, Epitácio Pes-

soa, Alfredo Pujol, vários Melo Franco, Carlos Leôncio de Magalhães, José

Maria Whitaker, o novo presidente da Liga Comercial do Rio, Araújo Fran-

co, e seu antecessor, Raoul Dunlop, Afonso Vizeu, Gabriel Bernardes, Aus-

tregésilo de Athayde, Herbert Moses, Eugênio Gudin, Darke de Mattos, Ar-

rojado Lisboa, Sabóia de Medeiros. Encarregado de fazer discretamente a

contagem de votos, Athayde circulou pelo salão repleto e depois cochichou

no ouvido de Chateaubriand: a assembléia tinha número suficiente para de-

liberar e eles detinham os dois terços indispensáveis à pretendida mudança

dos estatutos.

No final da tarde, depois de sete horas ininterruptas de reunião, a bata-

lha tinha sido vencida. A partir daquele momento todo acionista que quises-

se passar adiante suas ações - que continuavam, por exigência legal, sendo

papéis ao portador - deveria ter anuência prévia da maioria simples do res-

tante dos sócios. A nova diretoria da Sociedade Anônima O Jornal foi anun-

ciada sob palmas: Epitácio Pessoa aceitara ser reconduzido à presidência

abandonada meses antes, Alfredo Pujol era o novo vice-presidente. Virgílio

de Melo Franco e Assis Chateaubriand tinham sido eleitos diretores. A as-

sembléia foi encerrada com um emocionado discurso feito de improviso por

Chateaubriand:

- O caso de O Jornal, é preciso que se diga, não foi uma operação legí-

tima e comercial de compra de ações no mercado do Rio e de São Paulo. Não.

Foi um assalto levado a cabo com todas as armas da perfídia. As ações foram

adquiridas falsamente em meu nome. Seria descrer do Brasil se três ou qua-

tro valdevinos sem escrúpulo pudessem abocanhar um diário do timbre mo-

ral do nosso para transformá-lo em vassoura de negocistas, em balcão ignó-

bil de interesses espúrios e inconfessáveis.

Mesmo sem ter citado uma só vez o nome de Bernardes no discurso, As-

sis Chateaubriand saiu dali anunciando que havia imposto "uma nova, do-

lorosa e humilhante derrota ao mais poderoso presidente que o Brasil tivera

em todos os tempos". Nem ele mesmo, porém, acreditava nas últimas pala-

vras. Passadas algumas semanas o Brasil elegeria novo presidente e Bernar-

des já não amedrontaria mais ninguém. Afinal, fora o próprio Chateau-

briand quem, no mês de agosto, dera um "furo de reportagem " em todos os

jornais concorrentes, ao anunciar em primeira mão que Washington Luís Pe-

reira de Souza, senador paulista e ex-governador do estado, iria disputar a

Presidência da República nas eleições de março de 1926 pelo Partido Repu-


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


blicano Paulista, tendo como candidato a vice o mineiro Fernando Melo

Viana. Quando O Jornal e o Diário da Noite deram a notícia, o vice-presiden-

te da República, Estácio Coimbra - o governador interino de Pernambuco

com quem Chateaubriand resistira ao tiroteio na guerra contra Dantas Bar-

reto - achou que o jornalista tinha perdido o juízo:

- Chateaubriand, aposto minha cabeça como o noticiário que você pu-

blicou não passa de fantasia. O que ouço diariamente de Bernardes é o opos-

to do que aparece nos seus jornais. Depois da revolução de 5 de julho, o pre-

sidente não pode nem ouvir falar na possibilidade de ver um paulista

governando o Brasil. A má vontade dele com São Paulo é corrosiva.

- Aposta a cabeça? Pois então prepare-se para terminar seus dias deca-

pitado.


A "fantasia" dada com exclusividade iria se materializar no dia 15 de

março de 1926, quando Washington Luís e Melo Viana se elegeram sem con-

correr com ninguém, disputando sozinhos as eleições, praticamente sem ad-

versários. Os oito meses que naquela época separavam a eleição da posse do

presidente da República transformaram Bernardes em uma carta fora do ba-

ralho. Mesmo gabando-se de ser um homem que "não chutava perna de alei-

jado ", Chateaubriand ainda preparava uma despedida triunfal para seu ad-

versário em fim de governo.


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Ao dar cabo ao breve noivado com a francesa Jeanne Paulette Allard, em

fins de 1924, pela segunda vez, em uma vida tão pobre de amores, Chateau-

briand desfazia um romance às vésperas do casamento. A européia Jeanne

reagiu sem o radicalismo pernambucano de Poli, mas se sentiu igualmente

insultada. Afinal, Chateaubriand chegara a acompanhá-la ao cartório para

autorizar os proclamas públicos, última providência legal antes da celebra-

ção do casamento. Ao contrário de Poli - que respondera ao desgosto tran-

cando-se em casa por dez anos -, a jovem Jeanne simplesmente fizera as

malas e voltara para a França. E foi certamente por conhecer a vida afetiva

pregressa de Chateaubriand - e, acima de tudo, sua incontrolável vocação

para a infidelidade amorosa - que seus amigos imaginaram ouvir uma pi-

lhéria quando, em 1926, ele anunciou que no dia 2 de junho se casaria com

Maria Henriqueta Barrozo do Amaral, de 21 anos.

Filha do juiz Zózimo Barrozo do Amaral e dona de deslumbrante bele-

za, a alvura de sua pele acabaria tornando-a conhecida apenas como "Maria

Branquinha". Tamanha era a formosura da melancólica jovem que ela des-

frutava um privilégio disputado por qualquer moça da época: ter no primei-

ro lugar da interminável fila de seus requestadores um dos mais fulgurantes

astros do modernismo, o poeta pernambucano Manuel Bandeira. Redator de

O Jornal, Bandeira desafiava a fúria de Chateaubriand ao adotar como musa

inspiradora de seus poemas a futura mulher do patrão. Mais do que isso-

comentava-se à sorrelfa nas rodas intelectuais -, Bandeira alimentava pela

bela Branquinha profunda porém prudente e silenciosa paixão.

Tão espantoso quanto a notícia de que Chateaubriand iria se casar foi o

casamento em si. Ao contrário da extravagância e do barulho que envolviam

tudo o que ele fazia, aquela mais se assemelhava, para usar a frase de efeito

que o jornalista tanto repetia, "a uma cerimônia de monges trapistas". Na

manhã do dia 2, como prometera, Chateaubriand saiu sozinho do Copaca-

bana Palace e foi diretamente para a elegante casa da noiva, na rua Marquês

de Olinda, em Botafogo. Lá o esperavam, além da moça, seus pais e o juiz de

paz Ernesto Berg, apenas os dois padrinhos exigidos por lei: pela noiva, Vir-

gílio de Melo Franco, e da parte do noivo o médico Antônio da Silva Mello.

Mais ninguém. Encerradas as formalidades, sem festa, sem champanhe e


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


sem notícia nos jornais, os dois retornaram ao hotel onde ele vivia. Entre pi-

lhas de presentes, encontraram, preso a um cartão de Sir and Lady Mackenzie,

um embrulho contendo uma raridade de museu: um serviço de chá de pra-

ta inglesa que tinha pertencido à rainha Anne, da Inglaterra. Passaram no

Copacabana Palace as duas primeiras semanas de casados e só então toma-

ram o Rolls-Royce de Chateaubriand e tocaram para um hotel em Campos

do Jordão, no contraforte paulista da serra da Mantiqueira, onde um aparta-

mento já os esperava para a lua-de-mel.

Na primeira manhã da viagem de núpcias, Maria Henriqueta levantou-

se mais cedo, banhou-se e saiu para passear nas cercanias do hotel. Quando

retornou, Chateaubriand já tinha tomado banho e fazia o desjejum na sala

contígua ao quarto de dormir. Ela caminhou até o banheiro e percebeu que

uma das toalhas de banho permanecia intata, pendurada no cabide. Voltou

e advertiu-o, delicadamente mas com firmeza:

- Chateaubriand, você se enxugou na mesma toalha que eu. Vamos es-

tabelecer uma coisa desde já: neste casamento cada um terá sempre a sua

própria toalha de banho e de rosto.

Ela já havia descoberto muitas outras esquisitices do marido na noite

anterior, ao desfazer a mala de viagem dele: as roupas tinham sido atiradas

lá dentro a esmo, emboladas e amarrotadas, transformando a mala em um

ninho de guaxos. Como um menino apanhado em flagrante, ele reconheceu,

humilde, que "uma das muitas coisas que não sabia nesta vida era fazer ma-

las". Ao tentar arrumar as roupas, ela deparou com três camisolões e uma

estranha touca presa por um elástico a algo que parecia um pequeno coador

de café. Temerosa de que aquilo escondesse alguma perversão secreta do

marido, interrogou-o, preocupada:

- Chateaubriand, que maluquices são estas aqui?

Sem nenhum constrangimento ele explicou que os camisolões eram

aquilo mesmo que ela estava vendo: apenas camisolões de dormir que usa-

va desde garoto - "muito mais confortáveis que qualquer pijama". E a ou-

tra peça não era um sutiã, como ela poderia imaginar: era uma espécie de

queixeira que o médico recomendara que ele usasse para manter a boca fe-

chada durante o sono e corrigir a respiração e o ronco noturno. Mas não era

só isso. Ao lado do amontoado de roupas, ocupando quase metade da mala,

a esposa deu com resmas de papel de jornal em branco, cortadas no tamanho

de uma carta e dispostas em várias pilhas cintadas com cartolina. Num can-

to da mala, presos por um elástico, dez lápis pretos. Já bem-humorada, Ma-

ria Henriqueta continuava intrigada com os hábitos do marido:

- E para isto aqui, Chateaubriand, qual é a explicação que você vai dar?

Para que trazer tanto papel e lápis para a lua-de-mel?

- Trabalho, Branquinha. O que me espera nas próximas semanas é tra-

balho, muito trabalho.


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


Ele de fato passou dias rabiscando freneticamente. Escrevia sempre a lá-

pis, na frente e no verso do papel, e ia empilhando aquilo no chão, ao lado

da mesinha onde trabalhava. A mulher não perguntava nada, só olhava.

Três semanas depois de terem chegado às frias montanhas da estância pau-

lista, retornaram ao Rio felizes e gratificados pela fecundidade da lua-de-

mel: Chateaubriand carregava no banco de trás do carro as insólitas pilhas

de papel descobertas pela mulher na noite de núpcias, agora inteiramente

cobertas por garranchos que lembravam algo recém-inventado pela ciência

- os traços de um eletrocardiograma. Eram os originais do livro Terra desu-

mana, sobre Artur Bernardes - que ele escrevera em tão pouco tempo e pre-

tendia transformar no "funeral de luxo com que sepultarei esse defunto mi-

neiro". Maria Henriqueta ainda não sabia, mas já levava na barriga um filho

de Chateaubriand.

As exéquias de Bernardes ainda iam demorar um pouco. Ao saber do

teor do livro, o presidente fez chegar aos ouvidos do autor, por intermédio

de amigos comuns, que não hesitaria um instante em fazer uso dos poderes

que lhe dava o estado de sítio para censurá-lo: pura e simplesmente o livro

seria proibido de circular. Só no dia 30 de outubro, quando faltavam duas se-

manas para a posse do novo presidente, é que Chateaubriand se animou a

mandar os originais para as oficinas de O Jornal - onde Umberto Porta era

o único linotipista capaz de decifrar sua letra incompreensível para a maio-

ria das pessoas. No dia em que Terra desumana chegou às livrarias, seu prin-

cipal personagem era apenas um cidadão comum, incapaz de qualquer vin-

gança.


As primeiras linhas do prefácio sugerem uma obra amena, escrita "na

solidão das montanhas suaves de Campos do Jordão, a 1650 metros acima

do mar, muito acima das coisas humanas, longe do torvelinho das paixões

coletivas". A placidez, porém, começa e termina nesse parágrafo. Logo em

seguida, denuncia que não publicara o livro antes "porque o regime de sítio

e a censura à palavra escrita impossibilitavam a livre manifestação do pen-

samento sobre os atos e a pessoa do dr. Bernardes". Ironizando os momen-

tos de liberdade concedida em que o presidente afrouxara a censura - hia-

tos dos quais muitas vezes ele próprio fora beneficiário -, Chateaubriand se

comparava ao escravo da lenda árabe, cuja língua tinha sido cortada pelo vi-

zir Mahaseb, que constantemente o provocava: "Anda, fala", dizia o senhor,

"de que te queixas?".

Com pouco mais de duzentas páginas, Terra desumana (cujo subtítulo

era A vocação revolucionária do presidente Artur Bernardes) começa com uma

análise da personalidade de Bernardes: a ausência nele de traços tímidos e

pacatos, típicos dos mineiros, se explicava por sua origem, a Zona da Mata

- região de gente rude, que no século passado carregava o estigma de pro-

duzir os mais duros e intratáveis senhores de escravos. Dizia-se que a pior


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FERNANDO MORAIS


ameaça que se podia fazer a um escravo que cometesse repetidas faltas era

prometer vendê-lo "a um senhor da Zona da Mata". A isso se somava, para

a formação do caráter de Bernardes, escreveu Chateaubriand, a educação re-

ligiosa que ele recebera no também mineiro Seminário do Caraça - famoso

pela dureza medieval e pela intolerância com que tratava os alunos. Só al-

guém nascido e criado nessas condições, especulava o jornalista, seria capaz

de confessar desconsolado, a um amigo, depois de quatro anos na Presidên-

cia da República: "Foi-se o meu quatriênio e eu ainda não acabei de me vin-

gar de todos".

Nem o próprio autor conseguia entender como escapara ileso do inimi-

go cuja ferocidade agora denunciava: "A mim mesmo, há dois anos, faço

esta interrogação: por que o dr. Bernardes não me prendeu, se me julga um

traidor da Pátria? Por que, quando desfechou o golpe da compra das ações

de O Jornal, não me mandou para a ilha da Trindade?". Aos poucos, pacien-

te e minuciosamente, Chateaubriand vai passando o bisturi sobre o seu de-

funto. O permanente mau humor do presidente explicava-se facilmente: ele

"não tolera o Rio de Janeiro", sentimento que confessara anos antes, ao su-

gerir a mudança da capital do país para o interior de Goiás. "Aos olhos bea-

tos do presidente", debochou, "o carioca é um sátiro que anda por estas

praias úmidas, verdadeiro ninho de beijos, a ofender a moral com a impu-

dência de sua nudez pecaminosa ; é um malandrim que vive a desacreditar

o prestígio da autoridade."

O esquartejamento é lento: Bernardes foi o único responsável por todas

as revoltas militares ocorridas no país nos quatro anos anteriores; seu jaco-

binismo econômico atrasou em décadas a vida do país ("Na sua cabeça fuzi-

la a preocupação constante do chamado perigo yankee - e eu não consigo

conceber o Brasil senão como o futuro núcleo dos Estados Unidos na Amé-

rica do Sul"); a imoralidade e a perseguição política foram as duas únicas

marcas deixadas no país por seu governo ("Tivemos presidentes que fizeram

coisas perversas. Outros perpetraram atos imorais. O dr. Bernardes foi o úni-

co que fez coisas perversas e imorais ao mesmo tempo"). Para Chateau-

briand não há dúvida, trata-se de um doente mental: "O presidente tem

surtos

delirantes, que não passam despercebidos aos que friamente o examinarem



com olho de psiquiatra. O dr. Artur Bernardes abandonou o governo, mas a

carcaça de sua obra política continuará a contaminar a nação".


E a primeira crítica publicada sobre Terra desumana é francamente con-

trária ao livro. Para surpresa de todos, ela sairia publicada no primeiro do-

mingo seguinte ao lançamento no próprio O Jornal, e assinada por um velho

amigo do autor: Austregésilo de Athayde. O "Caboclo" sabia que punha em

risco o emprego e a pele, mas não se acovardou. Varias vezes, disse ele, caíra

nas suas mãos um documento menos fiel à realidade que aquele livro: "O

único, indisfarçável objetivo do autor é apresentar o presidente Bernardes
164

#
FERNANDO MORAIS


como um monstro", escreveu Athayde, "uma criatura tarada, daquelas que

ficam na história espantando as gerações - a fria encarnação do tirano com

o sadismo do ódio e da vingança". Sabendo que Chateaubriand pudera de-

dicar tempo e tranqüilidade para escrever o livro, Athayde não poupa o ami-

go: "O olhar agudo que Assis Chateaubriand lançou sobre a obra de Bernar-

des trai o impressionismo do jornalista, método que faz do homem de imprensa

um eterno improvisador de idéias, arrastado a pronunciar-se em poucas ho-

ras sobre temas complexos que exigem a seriedade de longas meditações.

Chateaubriand não pôde escapar a essa espécie de fatalidade de que todos

somos vítimas mais ou menos acentuadas".

O imprevisível e contraditório Chateaubriand decepcionou os que espe-

ravam um tiro, uma surra ou, no mínimo, uma carta de demissão como tro-

co à insolência. A resposta viria três dias depois sob a forma de um civiliza-

do artigo de primeira página em O Jornal. Afirmando sentir enorme prazer

em discutir com us críticos sinceros de sua obra - "mesmo que essa crítica

esteja no terreno diametralmente oposto, em que Austregésilo de Athayde se

coloca para julgar a obra do presidente Bernardes" -, Chateaubriand

recor-


re ao bom humor para responder: "Athayde é um grande cético e um irôni-

co maior ainda, que trouxe de oito anos da vida de seminário o íntimo de-

sengano do Eclesiastes". Só isso, na sua opinião, explicaria o fato de o amigo

"olhar com o mesmo e tranqüilo ceticismo tanto o presidente Bernardes

quanto os que hoje pretendem arrasar o chefe de Estado". Chateaubriand

termina o artigo com uma sarcástica autocrítica: "Seria mesquinho se eu ti-

vesse escrito um livro para destruir o presidente Bernardes - um homem

que já estava no ocaso e que eu tinha certeza de que nenhuma força huma-

na poderia mais galvanizá-lo para voltar a ter qualquer parcela de poder na

vida pública do Brasil".

No domingo seguinte, O Estado de S. Paulo traz uma crítica elogiosa ao

livro, assinada por Plínio Barreto. E na edição de dezembro da Revista do Bra-

sil aparece uma resenha que à primeira vista poderia despertar suspeitas, já

que seu autor, como Chateaubriand, também detestava Bernardes. No arti-

go, Rodrigo Melo Franco de Andrade afirma que o livro era vela demais

para tão minúsculo defunto. Como se concordasse com a autocrítica publi-

cada em O Jornal, Melo Franco dizia que Terra desumana acabava sendo, no

fundo, uma obra de lisonja ao ex-presidente: "Chateaubriand empresta,

realmente, tanta importância a Artur Bernardes que este acaba parecendo

uma figura capital de nossa história republicana". E discorda do vaticínio de

que "a carcaça" do ex-presidente ainda exerceria profunda influência sobre

a vida do Brasil: "Isto seria atribuir honra e estimação demais a um bacharel

que a fortuna conduziu aos empurrões ao Catete - apenas um bom-moço,

com tão poucas letras quanto os outros que andam por aí. Como poderia a

mentalidade de um bacharel medíocre e neurastênico resistir, sem equilí-
166

#
CHATÔ, O REI DO BRASIL


brio, ao domínio absoluto de 30 milhões de homens? Se lhe confiassem, al-

gum tempo antes, sete ou oito rapazes a encaminhar na vida, talvez ele os

acomodasse razoavelmente arranjando-lhes empregos públicos. Mas 30 mi-

lhões de brasileiros eram demais para o sr. Bernardes. Ele perdeu a

cabeça".

No fim da crônica, afirma que o subtítulo do livro poderia muito bem ter sido

eliminado: "O que o sr. Chateaubriand chama a sua 'vocação revolucioná-

ria', no fundo, não tem nada de vocação - tem tudo de improviso".

Duas edições - de "oito milheiros" cada, esclareciam. os repetidos

anúncios do livro publicados em O Jornal e no Diário da Noite - evaporaram

nas livrarias em poucas semanas. Só então é que apareceria na praça não

mais uma crítica - mas outro livro para responder a Térra desumana. Amigo

de Bernardes e filho de um eminente conselheiro do Império, José Júlio Sil-

veira Martins pôs nas livrarias Noção do Agredido - Em resposta ao Terra desuma-

na. Em duzentas páginas, defende o "nacionalismo patriótico" do ex-presi-

dente e afirma, com todas as letras, que Chateaubriand não escreveu seu li-

vro para defender idéias, mas apenas como vingança, por ter sido impedido

por Bernardes de ganhar algumas centenas de milhares de libras de comis-

são pelo fracassado contrato com a Itabira Iron Ore. Para Silveira Martins,

Chateaubriand nunca passou de "patrono do sindicato Itabira e advogado

dos judeus da City: no imenso deserto moral de Terra desumana, só um oásis

ergue para os céus a copa de suas palmeiras - é a Itabira! Chateaubriand

desconhece os negocinhos de cinqüenta ou cem contos. Numa transação, ou

ganha quinhentos contos ou não ganha nada. Os outros costumam dizer:

desgraça pouca é bobagem. Chateaubriand modificou o refrão e diz: dinhei-

ro pouco é tolice".

Terra desumana, de qualquer forma, só viria a ser consagrado como obra

séria muito tempo depois da morte de Chateaubriand, ao ser qualificado por

Wilson Martins, em sua História da inteligência brasileira, como o livro "mais

devastador escrito contra Artur Bernardes ou, de fato, contra qualquer pre-

sidente brasileiro. É um dos panfletos mais brilhantes de nossa literatura po-

lítica, escrito com inteligência vibrante e incomparável agudeza, análise pro-

funda de um caráter e desenho de uma mentalidade como jamais se havia

feito no país - e como ninguém voltaria a fazer depois dele".


Com o fim do "consulado bernardesco", como Chateaubriand se referia ao

governo que terminava em novembro de 1926, o país tinha tudo para supor

que afinal iria viver um período de paz. Antítese do emburrado e irascível Ar-

tur Bernardes, o "paulista" (que na verdade nascera em Macaé, no Estado do

Rio) Washington Luís era um festeiro desenvolvimentista ("governar é abrir es-

tradas" era seu lema) que não parecia querer encrenca com ninguém. O primei-

ro sinal de que a paz não era apenas retórica foi dado pelo novo presidente no
167

#
FERNANDO MORAIS


dia de Ano-Novo, ao decretar o fim do estado de sítio que durara mais de qua-

tro anos. A mais sonora resposta ao gesto do presidente viria em pouco mais

de um mês: no começo de fevereiro de 1927, depois de derrotar sucessivamen-

te dezoito generais à frente de tropas federais, a invicta Coluna Prestes atraves-

sa a fronteira brasileira, se interna nas selvas bolivianas e depõe armas ao ma-

jor Carmona Rodó, representante do governo boliviano, pondo termo à mais

longa marcha militar de que se tem notícia. A histórica foto batida em Puerto

Gaiba mostra o major César Barón, comandante do destacamento boliviano,

Luís Carlos Prestes, Miguel Costa e Lourenço Moreira Lima, escrivão oficial da

marcha. No centro da fotografia, de óculos, botas de cano longo e um bloco de

anotações na mão, o repórter Luís Amaral, do Diário da Noite.

Usufruindo do clima de liberdade reinante - que ninguém poderia ju-

rar quanto tempo duraria -, Chateaubriand coloca O Jornal e o Diário da Noi-

te na liderança de uma nova campanha, que chamava de "movimento cívi-

co" pela concessão de anistia aos combatentes da marcha, exilados na Bolí-

via e que já começavam a se dispersar para o Paraguai e a Argentina. Essa sepa-

ração seria o primeiro indício de que em pouco tempo os principais coman-

dantes da Coluna estariam em campos políticos opostos. Chateaubriand dá

ordens a seus diretores para que os dois jornais iniciem outra campanha, que

acabaria adquirindo expressão nacional, de coleta de dinheiro para ajudar a

manter os combatentes e seus familiares no exílio. Diariamente publicam lis-

tas de nomes de leitores de todo o Brasil, acompanhados das respectivas

contribuições. Luís Amaral é o encarregado de entregar a Prestes, na Bolívia,

a primeira remessa de dinheiro obtida: dezessete contos de réis. Como retri-

buição Prestes autoriza a publicação em O Jornal e no Diário da Noite de um

pacote com duzentas páginas de diários e gráficos da Coluna entregues ao

repórter. O material sai com estrondo nos jornais, na série intitulada "Ouvin-

do e falando a Luís Carlos Prestes, o condottiere fascinante da Coluna" - far-

tamente ilustrada com os mapas, fotografias e desenhos das figuras de Pres-

tes e Miguel Costa. Prestes doa a Luís Amaral, para fazer finanças, sessenta

exemplares do boletim O Libertador, órgão oficial da Coluna, dos quais 25 são

repassados a O Globo e os restantes rifados por O Jornal a cinco mil-réis o bi-

lhete. "Alguns dos jornais da campanha", garante o redator, "ainda estão

salpicados pelo sangue vertido pelos patriotas." Os compradores das rifas,

às centenas, têm seus nomes publicados diariamente - embora boa parte

deles preferisse se ocultar atrás de iniciais ou simplesmente como "um anô-

nimo". Em meio à cobertura é noticiada com todo destaque a visita que

d. Leocádia Prestes, mãe do "Cavaleiro da Esperança", faz à redação de O

Jornal para agradecer o apoio à luta do filho. A cortesia rende mais um arti-

go assinado por Chateaubriand no dia seguinte.

As duas campanhas - de arrecadação de fundos e pela anistia - são

reforçadas por artigos quase diários do dono dos jornais, sempre assinados


168

#
CHATÔ, O REI DO BRASIl


e publicados na primeira página. Invariavelmente sobra chumbo para Ber-

nardes. Chateaubriand afirma ser injusto que o ex-presidente "que ensan-

güentou o Brasil, que dilapidou a fortuna pública, mande-se para a Europa

com seus cúmplices de mazorca, e que permaneçam no exílio ou no fundo

das masmorras os que se rebelaram contra esse novo Cola de Rienzo. Sus-

tenta que, para "arrastar Luís Carlos Prestes à barra de um tribunal, será pre-

ciso, antes, fazer o mesmo com o sr. Artur Bernardes ". E sugere ("se isso não

fosse honra demais para tão lamentável criatura") que o ex-presidente seja

mandado para a prisão e depois, então, tentasse se beneficiar da anistia rei-

vindicada. Além de editoriais assinados, Chateaubriand publica algumas

vezes, sob a aparência de anúncios pagos, inexplicáveis artigos identificados

como "A pedidos ". Nestes, o tom é ainda mais venenoso: "O Brasil inteiro

conhece Artur Bernardes, o degenerado a quem um manicômio aguarda em

breve, o miserável que, por sadismo, pôs a prêmio por quinhentos contos de

réis a cabeça do capitão Prestes. O ex-presidente é, em resumo, um lamentá-

vel inválido de espírito, um degenerado moral com fenômenos já alarman-

tes de paralisia". O Jornal publica também artigos assinados por Juarez Tá-

vora, ex-comandante da Coluna e agora preso na ilha da Trindade, que

tinham sido censurados nos últimos dias do estado de sítio.

Se a campanha de fundos renderia bons frutos - além dos dezessete con-

tos anteriores, Oswaldo Chateaubriand é encarregado de levar mais 25 contos

para Prestes repartir entre seus camaradas -, a outra não deu em nada. Tida

como certa depois da deposição de armas na Bolívia, a anistia não viria no

primeiro ano do governo Washington Luís. Nem no segundo, nem no últi-

mo. É certo que o novo presidente tinha revogado o estado de sítio, fechado

o presídio da ilha da Trindade, libertado os presos políticos sem processo e

os jornalistas incursos na Lei de Imprensa. Por mais quatro anos, porém, os

rebeldes - não apenas os da Coluna, mas todos os que se levantaram con-

tra o governo federal desde a revolta do Forte Copacabana, em 1922 - conti-

nuariam a amargar a cadeia, a clandestinidade ou o exílio. A obsessão de

Chateaubriand, de um lado, em arrancar a anistia do governo - movido,

aparentemente, mais pela repulsa a Bernardes do que por qualquer outra ra-

zão - e, de outro, a intransigência de Washington Luís em não anistiar

quem quer que fosse acabariam por azedar as relaçôes do turbulento jorna-

lista com o novo presidente.

Depois foi a vez de Washington Luís jogar querosene na fogueira, ao

transferir para Porto Alegre e logo em seguida simplesmente demitir Oswal-

do Chateaubriand do cargo de procurador da República em São Paulo. Wash-

ington Luís se sentia atingido pelos artigos escritos no Diário da Noite por Os-

waldo (um anti-semita de maus bofes, neurótico, sem o talento do irmão

famoso mas com uma fúria dez vezes maior), embora jamais viesse a admi-

tir que essa era a razão verdadeira da demissão. Assim, acabou arranjando


169

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FERNANDO MORAIS


um pretexto jurídico para alegar que o cargo de procurador da República era

incompatível com o de diretor de jornais.

O Chateaubriand mais poderoso saiu em defesa do irmão, desmasca-

rando o artifício utilizado por Washington Luís. Até um advogado de porta

de cadeia sabia que o país parava para discutir lana-caprina: num extremo o

líder do governo no Congresso Nacional, deputado Manuel Vilaboim, gas-

tava horas e horas na tribuna mais importante do Brasil garantindo que

aquele era um ato administrativo corriqueiro do presidente, que nada tinha

de vendeta política. No outro, Assis Chateaubriand escrevia intermináveis

tripas de papel em seus dois jornais para sustentar que Oswaldo nào era di-

retor da empresa, mas apenas gerente administrativo do Diáriu da Noite: "O

sr. Washington Luís é uma dessas baleias que o arrivismo político do Brasil

fez, há oito meses, dar à praia do Flamengo, junto à ponte do Catete", mar-

retava. "Na escuridão do sítio, quando toda a gente andava às apalpadelas,

uma noite o sr. Bernardes recolheu o pesado cetáceo que agora o sr. Vilaboim

é obrigado a carregar às costas, o dorso arqueado, suportando o ônus dessa

carga sobre os ombros." Para ele, o decreto de demissão do irmão tinha sido

assinado "pela pena rombuda de um coronel literário, esse pobre advogado-

zinho de Batatais". A verdade é que um funcionário público do décimo esca-

lão consumiu dias e dias de energia do presidente da República, de sua ban-

cada no Congresso e de dois importantes jornais para nada: Washington Luís

não voltou atrás e Oswaldo Chateaubriand perdeu o emprego.

Perdeu um e ganhou outro melhor, pois o irmão, de pirraça, resolveu

colocá-lo no posto que o presidente o acusava de ocupar, o de diretor do jor-

nal. Após a morte de Júlio Mesquita, Plínio Barreto fora convidado para

substituí-lo na direção do Estado de S. Paulo, deixando o comando do Diário

da Noite. Com a ida de Oswaldo para a direção, que dividia com Rubens do

Amaral, o Diário da Noite, até então tateando em busca de uma linha

edito-

rial mais definida, foi se transformando, aos poucos, em um jornal popular.



Ao contrário do irmão mais velho, O Jornal, que cada dia mais se firmava

como "um diário das classes conservadoras". Os grandes crimes faziam a

alegria da redação do jornal paulista. A seçãu "Última hora" (nome de que

se apropriara, depois de ser preterido no concurso para a escolha do título

de O Globo) passou a ser o destino das pequenas

notícias policiais que apa-

reciam na hora de fechamento do jornal: o suicídio da atriz Nina Sanzi, a sur-

ra pública dada pela população em um governador japonês que não cum-

pria as promessas de campanha, o arrombamento de um cofre na rua São

Bento, um cliente que chamou a polícia para protestar contra uma conta ex-

cessivamente alta no rendez-votrs Ba-ta-clan, de Joanita Bell. Uma boa histó-

ria policial, como o assassinato de um diretor da Standard Oil por jagunços,

no sertão nordestino, sustentava dias e dias de reportagens mais extensas.

Não importava muito que a notícia fosse falsa: a prisão do cangaceiro Lam-


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CHATô, O REI DO BRASIL


pião pelas forças de Luís Carlos Prestes rendeu repetidas páginas no jornal

- mesmo que a Coluna já estivesse exilada na Bolívia e o mitológico canga-

ceiro só viesse a cair nas mãos da polícia, morto, dez anos depois. Mas como

o Diário da Noite detinha os direitos de publicação dos artigos comprados

para O Jornal, esse mar de sangue convivia pacificamente com as séries lite-

rárias de Monteiro Lobato, entrevistas com o modernista Augusto Frederico

Schmidt e com o escritor espanhol Miguel de Unamuno feitas por Di Caval-

canti e caudalosos artigos do político ultranacionalista Plínio Salgado de

exaltação "do tipo nacional".

A mobilidade de Oswaldo à frente do Diário da Noite se explicava tam-

bém por um acontecimento que obrigaria Chateaubriand a dedicar menos

tempo a São Paulo: em março daquele 1927 nascera seu filho com Maria

Branquinha, um menino a que deram o nome de Fernando Antônio Cha-

teaubriand Bandeira de Melo. Com o nascimento de Fernando, Chateau-

briand decidiu mudar-se do hotel e comprar de Celina Guinle de Paula Ma-

chado uma das mais belas casas do Rio de Janeiro, conhecida como a Vila

Normanda - que, apesar do luxo e do requinte com que fora construída, era

utilizada apenas um ou dois meses por ano como "casa de verão " da famí-

lia Guinle de Paulá Machado. De frente para a praia de Copacabana e ocu-

pando a metade do quarteirão formado pela avenida Atlântica e pelas ruas

Siqueira Campos e Figueiredo Magalhães, a Vila Normanda era um casarão

de três pavimentos, revestido de pedra emoldurada por madeira entalhada

à mão. No enorme gramado que a cercava, um bosque de coqueiros dava à

européia arquitetura uma aparência tropical. Nunca se soube exatamente

quanto Chateaubriand pagou (e se pagou) pela casa, mas seus inimigos es-

palharam a futrica segundo a qual, depois da mudança do jornalista para lá,

seus aposentos - salões, oito dormitórios, adega - recendiam a hipotecas e

duplicatas vencidas.

Nada desmentia tais suspeitas, mas o certo é que dinheiro - ou, pelo

menos, crédito - já deixara de ser problema para Chateaubriand havia mui-

to tempo. Para festejar o bicentenário da introdução do café no Brasil, por

exemplo, O Jornal quebrara seu próprio recorde, colocando nas ruas uma

edição comemorativa de 192 páginas - mais da metade delas ocupada por

anúncios. Decidido a mudar a sede de O Jornal, Chateaubriand namorava o

velho prédio da fábrica de doces Colombo, situa do na rua Treze de Maio.

Seu plano era derrubar a fábrica e ali levantar um prédio. Mas, para que o

negócio se justificasse, seria necessário alargar um quarteirão da Treze de

Maio, que, apesar de registrada oficialmente como uma rua naquele trecho,

não passava de uma viela. Chateaubriand contratou um engenheiro, convo-

cou os demais donos de imóveis das imediações e fez uma proposta ao pre-

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CHATÔ, O REI DO BRASIL


feito do Distrito Federal, Antônio Prado Júnior: se a prefeitura alargasse o

quarteirão, receberia dos proprietários dos imóveis daquele trecho, como

contrapartida, uma faixa de 55 metros de extensão por quinze metros de fun-

do. Negócio fechado.

Os ventos pareciam tão favoráveis que Chateaubriand chegara a virar

banqueiro por poucos dias, ao adquirir (também não se sabe exatamente

como) 55% do controle acionário do Banco do Comércio, do Rio de Janeiro.

Menos de uma semana depois de comprá-las, arrependeu-se e passou as

ações adiante. Na mesma ocasião ocorrera-lhe que, se os laboratórios farma-

cêuticos eram os maiores anunciantes de seus jornais, aquilo era um claro si-

nal de que davam dinheiro. Por que, então, não comprar um deles?

Pelo menos naquela época, no entanto, suas atenções estavam voltadas

mesmo era para o nunca abandonado sonho de ter uma rede nacional de veí-

culos de comunicação. Ao saber que o Diário de Noticias, de Porto Alegre,

agonizava por falta de recursos, achou que era hora de colocar um pé no Rio

Grande do Sul. O que os donos do jornal lhe ofereciam era uma subscrição

de ações para aumento do capital da empresa que lhe daria o controle abso-

luto do diário. O negócio estava na iminência de ser fechado quando o jovem

deputado federal gaúcho Osvaldo Aranha conseguiu brecar as negociações.

Aranha temia que por trás da ambição de montar uma cadeia nacional de

jornais e revistas estivesse oculto algum plano político de Chateaubriand

com vistas à sucessão de Washington Luís, em 1930. O suposto candidato

poderia até nem ser o próprio jornalista, imaginava o deputado. Mas, com

jornais estrategicamente plantados em algumas capitais brasileiras, aquele

nortista baixinho poderia complicar os projetos que um pequeno grupo de

gaúchos, liderados por Getúlio Vargas, tramava para as eleições presiden-

ciais de 1930. O melhor era não correr riscos, e Aranha preferiu, por seguran-

ça, fazer gorar a compra do Diário de Noticias.

Por excesso de zelo ou desinformação, Osvaldo Aranha atirava no ad-

versário errado. Ao invés do que ele imaginava, desde os primeiros encon-

tros na redação de O Jornal as relações entre Chateaubriand e Vargas pare-

ciam crescer assentadas sobre sólido cimento. Os insultos que o jornalista

com freqüência dirigia ao presidente da República pareciam não afetar os la-

ços que uniam Chateaubriand a Getúlio, que, afinal, era o ministro da Fazen-

da de Washington Luís. Mais do que isso, a guerra contra o presidente não

interrompeu as visitas freqüentes que o ministro continuava fazendo publi-

camente à redação de O Jornal - nem impediam que Chateaubriand o visi-

tasse duas ou três vezes por semana, à noite, em sua casa da ladeira do As-

curra. Vargas acabaria se transformando em privilegiada fonte de notícias

políticas para Chateaubriand, para declarado ciúme de Lindolfo Collor, que

não escondia esse sentimento de ninguém:
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FERNANDO MORAIS


- Eu sou redator-chefe de O Pais, um jornal governista. Sou o porta-voz

do governo na Câmara Federal e líder da bancada gaúcha no Congresso. E

como é que eu tomo conhecimento das notícias do Ministério da Fazenda?

Lendo O Jornal, um diário de oposição. E por que isso? Porque o confidente

do ministro é o dono desse jornal de oposição.

Muitas vezes a informação era passada a Chateaubriand apenas para

municiá-lo, com a promessa de não publicar nada, como acontecera em

agosto daquele ano. Vargas o chamara à noite para uma conversa em sua

casa após o jantar. Como sempre, caminhavam pelo jardim, onde os intriga-

va uma misteriosa lápide funerária cravada entre as flores, eom dizeres es-

critos em holandês - que depois Alzira, a filha de Getúlio, descobriria ser o

túmulo do general holandês Van Henndorp, ex-comandado de Napoleão,

que terminara seus dias naquela casa e que os Vargas supunham, equivo-

cadamente, que ali tivesse sido sepultado. Mais uma vez Chateaubriand su-

portou estoicamente as baforadas do charuto cubano até que Vargas tirou do

bolso e exibiu ao jornalista um pedaço de papel. Era o telegrama com que o

governante gaúcho Borges de Medeiros comunicava que ele, Getúlio Vargas,

seria o candidato do PR ao governo do Rio Grande. Aquela informação não

podia ser publicada, mas Chateaubriand poderia usá-la como moeda de tro-

ca em seus contatos políticos.

Passados alguns dias, Vargas reuniu a bancada gaúcha no Congresso

para ler e tornar público o telegrama de Borges de Medeiros. Lindolfo se roía

de inveja pelos corredores do Palácio Tiradentes:

- Isto é uma miséria. Só hoje os deputados gaúchos tomaram conheci-

mento de um segredo político dessa transcendência. E sabem quando o nor-

tista Chateaubriand viu o original desse telegrama? Há três dias!

Foi também graças a Getúlio, de outra feita, que Chateaubriand deu em

primeira mão uma notícia da área militar que nenhum jornal tinha. Candi-

dato a deputado, o tenente João Cabanas, egresso da Coluna Prestes, conse-

guira um habeas-corpus do Supremo Tribunal para fazer um comício na cida-

de mineira de Juiz de Fora - já que o comandante militar da região, general

Nepomuceno Costa, anunciara que a palavra de Cabanas estava proibida em

sua área. Indignado com a decisão judicial, o general não teve dúvidas em

assestar suas baterias verbais contra a mais importante corte do país, acusan-

do os juízes de estarem "a serviço do comunismo". Depois disso, os repórte-

res de todos os jornais - inclusive O Jornal, naturalmente - estavam atrás

da confirmação de um boato que circulava pelo Rio: o general Nepomuceno

teria recebido uma punição do ministro da Guerra, general Nestor Sezefre-

do dos Passos (o mesmo "General Z." que assinara secretamente artigos so-

bre a Coluna em O Jornal), pelas agressões verbais dirigidas ao Supremo.

Ninguém conseguia nada: o suposto punido fechou o bico, e o ministro proi-

biu qualquer declaração da área militar sobre o assunto. Chateaubriand ten-


174

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CHATÔ, O REI DO BRASIL


tou, em vão, arrancar alguma informação de seu antigo analista militar, mas

não foi sequer recebido pelo ministro. Decidiu então recorrer a Vargas. Na-

quela noite haveria um jantar oferecido por Washington Luís a um governa-

dor do Norte, a que compareceriam os ministros da Fazenda e da Guerra.

Vargas nao conseguiria obter do general Sezefredo alguma luz? À uma e

meia da manhã toca o telefone na redação de O Jornal. Do outro lado da li-

nha Getúlio disse apenas a Chateaubriand: "Pode escrever - o general foi

punido". No dia seguinte o furo dado em manchete por O Jornal saía no ar-

tigo de Chateaubriand - que, moleque, atribuía a fonte de sua informação

"a um repórter secreto que nosso diário mantém no governo federal".

É impossível afirmar que razões levaram Chateaubriand, a partir de en-

tão, a colocar seus jornais, e sobretudo o influente O Jornal, escancaradamen-

te a serviço de Vargas. Pode ter sido apenas uma retribuição aos favores que

lhe prestava o gaúcho - afinal, à época apenas mais um político de impor-

tância regional. Mas a raiz desse apoiu poderia muito bem estar no apurado

olfato político de Chateaubriand, capaz de farejar, a anos ou quilômetros de

distância, a canoa certa em que embarcar. A verdade é que Getúlio Vargas

passaria a ser o objeto freqüente e preferencial de seus artigos de primeira

página em O Jornal e no Diário da Noite paulista.

Assim, ainda em novembro de 1927, quando Vargas nem sequer havia

deixado o Ministério da Fazenda para assumir o governo do Rio Grande do

Sul, Chateaubriand já se põe a ressaltar suas qualidades de estadista, "um

desses temperamentos de que tanto o Brasil precisa para restabelecer a har-

monia da República". E deixa claro que está falando de um homem corajo-

so. Incensa Getúlio e mói tanto o presidente Washington Luís como seu su-

cessor em São Paulo, o governador Júlio Prestes: "O ministro Vargas não é

um desses bons-moços capazes de ver a guerra civil em seu estado como o

fizeram Washington Luís e Júlio Prestes em 1924 - que se asilaram pacata-

mente em fazendas de Itapetininga, até onde não chegava nem a notícia da

revolta militar na capital paulista e muito menos o estrondo das granadas

que arrebentavam na cidade. Getúlio Vargas foi um ator corajoso e frio da

guerra civil". Quem leu seu artigo sobre a posse de Getúlio no governo do

Rio Grande do Sul, em 25 de janeiro de 1928, certamente acreditou que Cha-

teaubriand estava delirando. À exceção de cerimônias de posses de governa-

dores de estados importantes como Minas e São Paulo, escreveu, "o Brasil

ainda não tinha registrado tanto estridor como a transmissão de poder que

hoje se verifica no Rio Grande". De olho em um pleito presidencial que

aconteceria dali a dois anos, afirmava que Vargas estava colocado entre as



duas grandes forças que prometiam entrechocar-se na sucessão presidencial

- "a corrente reacionária", representada por São Paulo, e a "liberal", dus

políticos mineiros. Se essa contradição viesse a levar o Brasil a um confron-

to, "Getúlio Vargas será a única ponte para que todos atravessem". O fim do


175

#
FERNANDO MORAIS


artigo parece a súmula de um processo de beatificação: "Apesar de ter saído

das entranhas mirradas e sequinhas de Borges de Medeiros, Vargas é a no-

vidade que o Brasil saúda como o novo sol".

Seu vaticínio sobre o risco de um choque entre mineiros e paulistas logo

começou a tomar forma. Se Getúlio alimentava sonhos presidenciais, Antô-

nio Carlos Ribeiro de Andrada, governador de Minas, também parecia afiar

seu canivete com vistas a 1930. E não era só ele. Em reuniões políticas e so-

ciais, o presidente Washington Luís deixava escapar que o governador pau-

lista Júlio Prestes era "um nome interessante" para uma disputa que parecia

se avizinhar prematuramente. Logo após ser empossado no governo do Rio

Grande do Sul, Vargas recebeu Chateaubriand em Porto Alegre para uma

entrevista jornalística. Ao final da conversa, contou que sua primeira

viagem

como governador seria a São Paulo, a convite de Júlio Prestes. Chateau-



briand assustou-se com a desenvoltura do governador paulista e perguntou

a Getúlio por que ele não aproveitava para ir também a Minas Gerais. "Pela

simples razão de que não fui convidado", respondeu Vargas, "talvez pela

circunstância de que eu e o governador Antônio Carlos ainda não nos conhe-

cemos pessualmente, só isso."

Antes mesmo de embarcar de volta para o Rio, Chateaubriand telegra-

fou a Afrânio de Melo Franco pedindo-lhe que revelasse com urgência o epi-

sódio a Antônio Carlos, insistindo em que era "vital que Vargas fosse convi-

dado a estender sua viagem a Minas". Ao entrar na redação de O Jornal, já

encontrou Afrânio à sua espera:

- Falei com Antônio Carlos e ele pede que você seja o portador oficial

do convite a Getúlio.

Chateaubriand recusou a honraria, alegando que daquela maneira ia

parecer um convite formal e desdenhoso. Sugeriu que o porta-voz do gover-

nador mineiro fosse o irmão de Antônio Carlos, José Bonifácio, que além do

parentesco era deputado e líder da bancada de Minas Gerais na Câmara Fe-

deral. Semanas depois, na recepção a Vargas no Palácio da Liberdade, sede

do governo mineiro, Chateaubriand não escondia o entusiasmo por ter sido

"o santo Antônio que alcovitou um namoro que pode mudar a cara do

Brasil".
176

11
Para tentar entender pelo menos um dos ingredientes da paixão de que

Chateaubriand foi tomado por Getúlio Vargas, é preciso recuar um pouco e

rever os episódios que antecederam o retumbante lançamento da revista

Cruzeiro (assim mesmo, sem o O inicial, que só seria acrescentado tempos de-

pois), ocorrido em dezembro de 1928. Um ano antes, quando Getúlio ainda

era ministro da Fazenda, Chateaubriand, frustrado com a malograda com-

pra do Diário de Noticias de Porto Alegre, resolveu ousar de novo. Já que não

dava para ampliar sua rede em direção ao Sul, por que não pensar em um

produto que atingisse o Brasil inteiro? Por meio de amigos soube que o jor-

nalista português Carlos Malheiros Dias planejava lançar uma revista de cir-

culação nacional. No meio do caminho faltara dinheiro e o lusitano começa-

va a desistir. Ao tomar conhecimento disso, Chateaubriand quis saber quanto

custaria ressuscitar o projeto, lançar a revista e indenizar Dias pelos gastos já

realizados. Não era tanto dinheiro, já que Cruzeiro não dispunha de gráfica

própria e, assim, o investimento inicial não era nenhum despropósito: com

quinhentos contos de réis ele assumiria o controle integral da empresa que

formalmente já existia - e que, ironicamente, mesmo não sendo dona de

uma única linotipo, chamava-se Empresa Gráfica Cruzeiro S.A.

É claro que quinhentos contos não assustavam alguém que, como ele, já

havia se metido em negócios muito mais vultosos. Afinal, aquilo era um ter-

ço do empréstimo que Pujol avalizara. O único problema é que, pouco ou

muito, Chateaubriand não tinha esse dinheiro. Nem esse nem qualquer ou-

tro. Ou, ainda: Chateaubriand nunca tinha dinheiro algum. Tinha prestígio,

tinha "alavancas ", começava a ter poder, mas dinheiro que era bom, nada.

Quem tinha dinheiro eram os banqueiros, os industriais, os comerciantes, os

usineiros de açúcar do Nordeste e os cafeicultores de São Paulo. Mas sobre-

tudo os banqueiros. Os agricultores viviam se lamentando porque chovia

demais ou porque chovia de menos - mas, chovesse ou fizesse sol, ele nun-

ca vira um banqueiro chorar miséria. Nem mesmo dos mineiros, famosos

pela avareza, Chateaubriand podia se queixar. Ao contrário, costumava di-

zer que Minas Gerais era o seu "Vaticano do crédito": lá o dinheiro era sem-

pre pródigo, e, quando a vida o compelia ao pecado mortal do atraso no pa-

gamento de uma letra, o perdão acabava vindo.
177

#
FERNANDO MORAIS


Antes de bater às portas d.o Vaticano, entendeu que talvez fosse mais

eficiente recorrer àquele a quem todos os banqueiros - mineiros ou não-

obrigatoriamente prestavam reverência: o ministro da Fazenda, seu amigo

Getúlio Vargas. A revista que ele descreveu para o ministro nada tinha a ver

com a dos planos de Malheiros Dias: a Cruzeiro de Chateaubriand era uma

revista com papel da melhor qualidade, repleta de fotografias, contaria com

os melhores articulistas e escritores do Brasil e do exterior, e assinaria todos

os serviços estrangeiros de artigos e fotografias. Impressa em quatro cores

pelo sistema de rotogravura, a revista teria de ser rodada em Buenos Aires,

já que a qualidade das gráficas brasileiras estava "abaixo do nível das africa-

nas". E tinha mais: Cruzeiro seria semanal, com tiragem de 50 mil exempla-

res (e não os 27 mil imaginados por Malheiros), que circulariam em todas as

capitais e principais cidades do Brasil. Os olhos de Vargas faiscavam. Sem

qualquer protesto de Chateaubriand, acendeu um robusto Santa Damiana e

foi direto ao que interessava:

- De quanto tu precisas para pôr a revista nas ruas em doze meses?

- Com 250 contos eu assumo imediatamente o controle da empresa,

que já está montada. O resto do dinheiro eu arranco nas primeiras semanas

de circulação. Tenho a promessa de contratos de publicidade com a Antarc-

tica, a Sul-América de Seguros, a fábrica de vitrolas e rádios Victor e a estam-

paria América Fabril. Com a revista nas ruas, triplico isso em dois dias. Eu

vou vender pessoalmente os anúncios nobres, impressos em cores.

Getúlio caminhou pela sala e sorriu:

- Tu és um homem de sorte. Daqui a meia hora vou receber em au-

diência o banqueiro Antônio Mostardeiro, um compadre do Sul que nomeei

presidente do Banco do Brasil. Ele vai te arranjar esses 250 contos. E esse di-

nheiro não vai ser do Banco do Brasil. Mostardeiro vai te emprestar dinhei-

ro do Banco da Província, que é dele.

Mostardeiro entrou na sala na hora marcada, acompanhado de Correa

e Castro, diretor da carteira de câmbio do banco oficial. Getúlio expôs ao

presidente do Banco do Brasil o projeto de Chateaubriand e enfiou-lhe a

faca:


- Coronel Antonico, o nosso jornalista precisa de um empréstimo ime-

diato de quinhentos contos de réis. Assim que o negócio dele começar a ren-

der, ele te paga. Eu garanto a operação.

Todos se espantaram: o banqueiro pelo pedido inesperado e Chateau-

briand pelo equívoco cometido por Getúlio, que podia pôr tudo a perder: na

verdade 250 contos eram mais do que suficientes para fechar o negócio. Quis

corrigir a cifra, mas Getúlio fez um gesto com a mão para que silenciasse.

Mostardeiro tentou refugar, disse que precisava de alguns dias para consul-

tar seus diretores, mas Vargas insistiu:

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CHATÔ, O REI DO BRASIL
- Não, Antonico, tu não entendeste. Isso é negócio para ser fechado

agora, nesta mesa. Essa revista vai ser um bacamarte para nossos planos po-

líticos futuros.

A reunião durou pouco e Mostardeiro só aceitou fechar o negócio ali, à

queima roupa, depois de reduzir o valor inicial do empréstimo à metade.

Chateaubriand podia contar com o dinheiro depositado em sua conta três

dias depois. Getúlio se levantou para acompanhá-lo até a porta do elevador,

e no caminho o jornalista quis corrigir o engano de cifra:

- Ministro, quinhentos contos é o valor total do negócio. Eu só preciso

de 250 contos.

Vargas deu uma gargalhada:

- E surpreendente que alguém como tu seja tão mau comerciante.

Quando quiseres tomar dinheiro de um banqueiro, tens que pedir o dobro

do que necessitas. Os banqueiros sempre emprestam a metade do que lhes

pedem. Se tu abres a boca naquele momento, receberias apenas 125 contos.

Vai comprar a nossa revista.


Mas nem tudo eram rosas na vida de Chateaubriand. Proporcional ao

poder e à influência que adquiria, começava a nascer uma cáustica e sistemá-

tica oposição a tudo o que ele fazia e às causas que defendia. O primeiro veí-

culo a congregar inimigos de Chateaubriand tinha surgido em julho de 1927

em São Paulo. Era o Diário Nacional, órgão oficioso do Partido Democrático,

organização de oposição criada em 1926 por um grupo de paulistas que um

ano depois decidiram colocar um jornal nas ruas. Tendo à frente o jornalista

Paulo Duarte, os advogados Adriano Marrey Júnior e Vicente Rao, e o histo-

riador Paulo Nogueira Filho, entre outros, nos primeiros meses de funciona-

mento o Diário Nacional chegou a compartilhar com os jornais de Chateau-

briand a defesa de causas comuns - como a exaltação à Coluna Prestes e a

exigência de anistia para os combatentes.

Mas parou aí. Por trás de tudo que Chateaubriand ou suas empresas fi-

zessem, o jornal descobria algum deslize, um negócio mal contado. Paulo

Duarte garantia que a compra da Vila Normanda tinha origens obscuras:

dos seiscentos contos que custou "o palácio da avenida Atlântica" (10% do

total pago pela compra de O Jornal), quatrocentos teriam vindo de uma ope-

ração escusa com o banco Crédit Foncier e os outros duzentos teriam sido

obtidos por Oswaldo, irmão de Chateaubriand, por meio de uma venda de

terras no bairro do Jaraguá, na capital paulista. Paulo Duarte cavocou cartó-

rio por cartório em São Paulo e descobriu que não havia nem nunca tinha ha-

vido qualquer imóvel registrado em nome de Oswaldo Chateaubriand-

quer dizer, tratava-se de uma história inventada. Quando não tinha munição

própria, o Diário Nacional transcrevia artigos dos jornalistas Mário de Brito e
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FERNANDO MORAIS


Mattos Pimenta, militantes do diretório fluminense do PD e redatores do mo-

ralista e ultraconservador A Ordem, jornal da direita católica publicado no

Rio. Foi de lá que saiu a série de artigos escritos por Mattos Pimenta denun-

ciando a operaçãu que estaria por trás da compra do terreno da rua Treze de

Maio, pelo qual Chateaubriand havia pago 2 mil contos de réis (mais duzen-

tos contos de impostos, transmissão e escritura). Desse total, segundo o

jor-

nal,1500 contos tinham vindo das burras do conde Modesto Leal, que exigi-



ra como garantia a hipoteca das máquinas de O Jornal, do terreno e até do

prédio a ser edificado nele. O dinheiro restante Chateaubriand teria "arran-

cado" do Banco de Crédito Real de Minas Gerais, um banco controlado pelo

governo mineiro. Mattos Pimenta denunciava que o mesmo imóvel já hipo-

tecado ao Conde Modesto Leal tinha sido novamente penhorado ao governo

de Minas. Para retribuir a ilegal generosidade, Chateaubriand, garantia o

jornal, escrevera "alguns artigos endeusando o governador de Minas, Antô-

nio Carlos, e submeteu subitamente O Jornal [...] à candidatura Antônio Car-

los à Presidência da República". Ou seja, além de denunciar Chateaubriand

por ganhar dinheiro com um negócio lesivo aos cofres do Estado, acusavam-

no de estar traindo Getúlio Vargas, com quem estava cada dia mais compro-

metido, e trabalhando pela candidatura de Antônio Carlos. O Diário

Nacio-

nal afirmava também que, quando apertado para explicar a origem dessa



dinheirama, Chateaubriand alegava ter feito um contrato antecipado de pu-

blicidade com a companhia de seguros Sul-América no valor de 12 mil con-

tos de réis - "contrato que ele jamais exibe a quem quer que seja", dizia o

jornal, "pela simples razão de que nunca existiu".

Em vão Paulo Duarte tentou atrair para a guerra de guerrilha contra

Chateaubriand seu amigo Júlio de Mesquita Filho, que com a morte do pai,

ocorrida em 1927, assumira a direção de O Estado de S. Paulo. Julinho, como

era conhecido, não quis entrar numa briga que não era sua nem de seu jor-

nal. Decepcionado com o que considerou um recuo do amigo, Paulo Duarte

registraria em suas memórias: "Fora isso, jamais a menor nuvem sombreara

a minha amizade com Julinho ". Quanto a Chateaubriand, este parecia tratar

com ferina e estudada indiferença os ataques recebidos. "Muitos desses que

agora nos acusam", escreveu em uma nota, "são rapazes que há pouco tem-

po viviam dia e noite postulando trabalho em nossos jornais. Como jamais

levantei a voz para subalternos meus, recebo esses resmungos com cordura

e urbanidade."

E as agressões, de fato, se circunscreviam aos donos dos jornais. Em um

mercado de trabalho tão estreito, era comum que o redator que à noite escre-

vesse uma nota contra Chateaubriand no Diário Nacional fosse escalado, du-

rante o dia, para respondê-la em seu segundo emprego nas páginas do Diá-

rio da Noite - o que ocorria, por exemplo, com o jovem crítico Geraldo

Ferraz, que trabalhava como repórter à tarde no primeiro e à noite marcava


180

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FERNANDO MORAIS


o cartão de ponto no segundo como "cozinheiro" - nome dado aos redato-

res encarregados de juntar notícias de várias origens e transformá-las em um

único texto.

Nessa época retornou da França a ex-noiva Jeanne. Embora já o encon-

trasse casado e pai de um filho, ela o convidou para ser padrinho de seu ir-

mão caçula e temporão, o pequenino Gigil. Chateaubriand afeiçoou-se ao ga-

roto, a quem buscava freqüentemente na casa dos pais para passear de barco

e, às vezes, para passar os domingos no casarão da avenida Atlântica em

companhia do filho - mais novo que Gigil, Fernando tinha então quase três

anos. Era comum que Gigil dividisse com o padrinho pesadas cerimônias

oficiais - como receber alguma delegação de fora na estação da Central do

Brasil, ao som de furiosas bandas de músicas - ou amenos passeios pela ele-

gante Rotisserie Americana, na rua do Ouvidor. Aos domingos Gigil era le-

vado até o Club Guanabara, onde Chateaubriand guardava seus dois novos

barcos - um double sculler suíço e uma piroga canadense -, e saíam mar

adentro. Quando Fernando não podia estar junto, Chateaubriand apanhava

ao acaso um dos meninos que zanzavam pelas imediações do clube para fa-

zer companhia a Gigil.

Na hora do embarque, para não ter de pisar nas águas mefíticas da

Companhia de Saneamento City que cercavam o Guanabara, os garotos

eram levados até o barco nos braços de Benedito, um parrudo mulato parai-

bano, dublê de chofer e guarda-costas de Chateaubriand. Se Gigil se queixas-

se do fedor da água e, repugnado, tapasse o nariz, Chateaubriand dava gar-

galhadas dizendo o que, aos ouvidos do menino, soava como uma tara

olfativa:

- Que é isso, meu filho? Respira fundo que isso é puro oxigênio, é ozo-

na! Isso é tonificante!

Maníaco por disciplina, o padrinho obrigava Gigil (e que criança mais

estivesse com eles, fosse Fernando, fosse um garoto apanhado na rua) a cum-

primentar todos os que passavam com uma saudação em japonês, incom-

preensível para os pequenos: "Banzai Nipon!" (Viva o Japão!). Era a sua ma-

neira de homenagear o país que ele considerava o exemplo máximo da

disciplina. E repetia para os meninos, durante o passeio, coisas igualmente

ininteligíveis para crianças daquela idade:

- Temos que ser bismarckianos, meus filhos. Bismarckianos! Todo mun-

do tem que ter um norte na vida, e para isso é preciso ser disciplinado, é pre-

ciso ser bismarckiano!

Enquanto ele remava - em geral atravessavam a baía até a Fortaleza de

Santa Cruz e voltavam -, os meninos ficavam encarregados de manter a
182

#
CHATÔ, O REI DO BRASIL


proa do barco apontada na direção do Corcovado. Irritava-se quando algum

deles fazia algo errado, mas Gigil e Fernando testemunhariam que bastava

aparecer um rabo-de-saia para fazer naufragar a bismarckiana disciplina de

Chateaubriand. Mais de uma vez, quando havia mulher bonita por perto-

qualquer beldade que passasse nas imediações, a bordo de algum iate -, os

garotos viram Chateaubriand se confundir com remos, cordas e lemes e aca-

barem todos dentro da água, tentando desvirar o barco capotado. Se o erro

era de responsabilidade de um dos garotos, ele se irritava até ranger os den-

tes e repetia a frase reveladora de seu caráter paradoxal:

- Adoro ser professor, mas detesto ensinar!

Mas não era sempre que ele podia dedicar tempo ao filho e ao afilhado.

Enquanto uma equipe preparava o lançamento de Cruzeiro, o que incluía fre-

qüentes viagens a Buenos Aires para arranjar uma gráfica que imprimisse a

revista, ele voltou a dividir seu tempo entre o Rio e São Paulo, animado com

o sucesso que o Diário da Noite fazia. A vida nômade, sem endereço perma-

nente, obrigava-o a passar semanas inteiras na capital paulista, o que às ve-

zes levava sua mulher a só conseguir comunicar-se com ele por cartas. Aris-

tocrática, Maria Henriqueta remetia a São Paulo ou deixava em sua mesa de

trabalho bilhetes em que não escondia o constrangimento de precisar lhe pe-

dir dinheiro para as despesas mais banais:


Chateaubriand :
Você não imagina o quanto me constrange ser obrigada a lhe aborrecer com

esses meus pedidos. Não sei se por causa da vida agitada que o Fernandinho

leva ou por qualquer outra razão, volta e meia me sinto atacada por uma eleva-

ção de temperatura renitente que vem à tarde e que, embora não passe de 37,5

a 38 graus, me deixa totalmente deprimida, sem ânimo para nada. Por expe-

riência já constatei que só com alguns dias de bom clima e muito repouso con-

sigo combater. Habitualmente costumo ir para Campos do Jordão, mas dessa

vez penso que, devido ao coração, o médico prefere Teresópolis por ser menos

alto.

Os hotéis de lá regulam uma diária em 180 mil-réis. Penso que três contos da-



riam bem para quinze dias, o que já é mais que suficiente. Tenho a certeza de

que você não se aborrecerá com isso e desde já, como sempre, lhe fico imensa-

mente grata.
Maria
Em meio à desordenada administração que impunha às suas empresas,

de São Paulo mesmo ele dava ordens para que fosse concedido um "vale" à

esposa - o que fazia com freqüência até para si próprio, para ter algum di-

nheiro no bolso, obrigando a criação de uma confusa e infernal contabilida-

de paralela. Nada disso tinha importância para ele, que só pensava na polí-
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#
FERNANDO MORAIS


tica e na expansão das empresas. E estas, apesar da desorganização, pare-

ciam navegar em mar de almirante.

Mesmo firmando-se cada vez mais como um jornal popular, de crimes

e escândalos, o Diário da Noite se transformava também em uma usina de jo-

vens talentos. Rubens do Amaral tinha sido nomeado redator-chefe e, para

se juntar a Flávio de Carvalho, Geraldo Ferraz, Di Cavalcanti e ao comunis-

ta catarinense Brasil Gerson, ele trouxera do Rio Rafael Correa de Oliveira

para substituir Mário Pedrosa (que fora mandado para um estágio na Ale-

manha pelo Partido Comunista, ao qual aderira em 1926). Depois da série de

reportagens que escrevera sobre a Coluna Prestes, Rafael tinha se transfor-

mado na grande revelação da imprensa. No meio daquela fauna de anar-

quistas, comunistas e modernistas, chamavam a atenção a elegância e os

educados modos britânicos do jovem estudante de direito Oscar Pedroso

Horta, que começara no jornal com uma seção de xadrez e depois se trans-

formaria em colunista social homiziado sob o pseudônimo de "Athanásio

Torres ". Isto, claro, para desespero de Chateaubriand, que, embora cortejas-

se o dinheiro dos ricos, vociferava pela redação dizendo "corar de vergo-

nha" ao ler as colunas dos jornais dedicadas à alta sociedade:

- Não há viajante nessas colunas que não seja "ilustre" e que não tenha

"engrandecido o nome do Brasil no estrangeiro". Não há delegado brasilei-

ro, mesmo nos congressos mais pífios, que não tenha tido uma "brilhante

atuação". Nas seções mundanas dos jornais, o adjetivo transformou-se numa

instituição calamitosa.

As diferenças de personalidade entre os irmãos Assis e Oswaldo acaba-

vam se refletindo no dia-a-dia do jornal. Certa vez, Oswaldo - a contragos-

to, mas cumprindo ordens expressas de Chateaubriand - escalou Geraldo

Ferraz para cobrir a segunda exposição de Lasar Segall em São Paulo. Embo-

ra o dono considerasse "um escândalo" o jornal não ter publicado nada sobre a

mostra, Oswaldo ainda resistia ao transmitir a orientação ao repórter:

- Geraldo, esse pintor russo é doido varrido. Portanto não exagere nas

tintas. Neste jornal, lugar de louco é na página policial, não na cultural.

Quando Ferraz entregou a reportagem ao chefe, Oswaldo ainda re-

clamou:

- A nota está conforme o Assis quer, mas para mim está louvaminhei-



ra demais. Insisto em que o homem é doido mesmo.

Tanto essas contradições diárias na vida do jornal como a heterogênea

formação política dos repórteres e redatores que trabalhavam lá refletiam a

controvertida personalidade de Assis Chateaubriand. Ele próprio surpreen-

dia seus leitores. Em uma segunda-feira sufocava-os com um maçudo artigo

sobre política internacional. Na quarta-feira saltava, com igual veemência,

para ataques corrosivos a um decreto que, alegando que a gravidez compro-

metia o desempenho profissional no magistério, pretendia proibir as profes-


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


soras de escolas públicas de se casarem. No amplíssimo leque de suas prefe-

rências, na quinta-feira voltava à política e na sexta gastava todo o seu arti-

go de primeira página desancando um minúsculo anúncio, publicado no

próprio Diário da Noite, em que um leitor oferecia dois contos de réis a quem

lhe conseguisse um emprego no Banco do Brasil.

Quando tentava explicitar melhor seu norte ideológico, a confusão só

aumentava. Em artigos sucessivos, ora dizia que suas empresas só existiam

"como instrumento da ação conservadora para a defesa dos interesses da

produção brasileira". Ora criticava o governo federal "por acreditar em pa-

tranhas que querem convencer as autoridades brasileiras da existência de

uma conspiração bolchevista, prestes a estourar entre nós ", e protestava ao

ver que "o direito de reunião dos nossos trabalhadores vem sendo perturba-

do por incursões intempestivas da polícia, com disparos de tiros a esmo que

acabam matando operários inermes". Quando os artigos de Mussolini e Pri-

mo de Rivera se tornavam muito freqüentes, deixando no ar a suspeita de

simpatias pelo extremismo que germinava na Europa, era taxativo: "Ne-

nhum diário tem divergido mais do fascismo do que nós. Se o sr. Mussolini

possui admiradores da obra de tirania que exercita dentro de seu país, esses

admiradores não se encontram em nossas colunas".

Mas quem se dispusesse a ler com maior acuidade e atenção os artigos

de Chateaubriand talvez pudesse identificar ali os primeiros indícios de uma
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#
FERNANDO MORAIS


má fama que o perseguiria até após a morte. Em algumas ocasiões, seus jor-

nais pareciam deixar de ser a "alavanca" que ele tanto proclamava, para se

assemelharem mais a uma gazua. A primeira vítima visível da afiada ferra-

menta seria o conde Matarazzo, seu senhorio no prédio ocupado pelo Diário

da Noite, no vale do Anhangabaú, em São Paulo. Algum mal-estar contra o

conde nascera de sua decisão de quase nunca anunciar nos jornais de Cha-

teaubriand - embora nisto nada houvesse de pessoal contra o dono, mas

apenas a convicção de que suas indústrias prescindiam da eficiência da tão

propalada publicidade. Mas a situação se agravava toda vez que o contador

do império Matarazzo comunicava que o valor do aluguel seria corrigido-

ou simplesmente quando tentava cobrar pagamentos atrasados que se acu-

mulavam por meses e meses. Sempre que isso acontecia, o Diáriu da Noite-

e nunca O Jornal, que era o jornal "sério" - saía às ruas com uma tijolada no

industrial italiano, como esta:


O sr. Matarazzo não paga, nem aos seus operários nem au Brasil, um pequeno

juro do privilégio de ser milionário. Visitei há muitos anos a sua maior fábrica, em

companhia do filho, sr. Matarazzo Júnior, e tive uma sensação de desolação pelo

que de desinteresse naquela casa se me deparou pela sorte do operariado. Que

diferença enorme entre a conduta de um Jorge Street, na fábrica Maria Zélia, e

a do sr. Matarazzo na Maria Ângela! Esse deslize lamentável da obra do conde

Matarazzo, em grande parte, é fruto das idéias rudimentares do velho indus-

trial. O conde Matarazzo, como chefe de indústria, ficou em 1840 e 1850.

Não

tem muito nítida a noção do respeito à dignidade dos homens que trabalham



como operadores anônimos do nosso esforço; desconhece o sentido da palavra

filantropia, que outros patrões hrasileiros, como os srs. Jorge Street e Guilherme

Guinle têm ensinado, ou como fazem os americanos. O conde Matarazzo não

cora ao confessar, de público, que se aproveita da deplorável inconsciência do

nosso trabalhador - não faz, por exemplo, o que a Light está praticando no Riu

e em São Paulo [...]. Em síntese, o conde Matarazzo continua na pré-história da

indústria.
O conde Francisco Matarazzo - que não gostava de anunciar nos jor-

nais de Chateaubriand e insistia em receber em dia seus aluguéis - era "um

milionário privilegiado", um industrial de "idéias rudimentares", não tinha

respeito pela dignidade dos operários - ou seja, o leitor do Diário da Noite

estava diante do homem das cavernas. E os outros empresários e suas indús-

trias? Bem, os Laboratórios Alvim e Freitas (por mera casualidade, grandes

anunciantes de O Jornal e do Diário da Noite) eram um exemplo de moderni-

dade - segundo Chateaubriand pudera apurar, com seus próprios olhos,

em reportagem feita pessoalmente por ele naquela empresa. A norte-ameri-

cana General Electric (que só naquele ano iria gastar mais de mil contos em

publicidade) era uma indústria preocupada com o conforto de seus trabalha-

dores - "exemplo que vem de suas unidades instaladas nos Estados Uni-


186

#
CHATÔ, O REI DO BRASIL


dos, que empregam mais de 70 mil pessoas". E a Light? Sobre a empresa di-

rigida por Mackenzie, Chateaubriand encerraria um artigo com uma antoló-

gica, definitiva afirmação: "No mês vindouro a Light &Power completa

mais um ano de atividade no Brasil. Fora outro o nível mental da nossa gen-

te e esse dia deveria ser feriado nacional".

Indiferente à repercussão que enormidades como essa causavam entre

seus adversários, Chateaubriand se preparava, no final de 1928, para a mais

estrondosa promoção realizada por suas empresas até então: o lançamento

de Cruzeiro. No final da tarde de 5 de dezembro, quando a avenida Rio Bran-

co fervilhava de gente que deixava o trabalho ou saía às ruas para as primei-

ras compras de Natal, 4 milhões de folhetos - três vezes o número total de

habitantes do Rio - foram atirados do alto dos prédios sobre a cabeça dos

passantes. Os volantes anunciavam o breve aparecimento de uma revista

"contemporânea dos arranha-céus", uma revista semanal colorida que "tudo

sabe, tudo vê". Muitos dos panfletos traziam reproduzidos, no verso, anún-

cios que seriam veiculados na nova publicação. Por conta de um contrato de

permuta realizado com o americano William Melniker, diretor no Brasil da

Metro Goldwyn Mayer, a revista publicaria anúncios regulares do estúdio

americano em troca da exibição, antes de toda película da MGM distribuída

para qualquer ponto do país, de um curtíssimo filme feito em Buenos Aires

mostrando uma máquina de rotogravura imprimindo exemplares de Cruzei-

ro. Todo aquele conjunto de ações se constituía, garantira Fitz Gibbon a Cha-

teaubriand, "no mais moderno processo americano de infiltração na cons-

ciência dos consumidores".

No dia 10 de dezembro, por fim, consegue-se um verdadeiro milagre

para um país cujas comunicações ainda estavam na idade da pedra: a revis-

ta Cruzeiro estava nas bancas de Belém a Porto Alegre, simultaneamente.

Além de usar caminhões, barcos e trens, Chateaubriand fretou um bimotor

- o Aiko, da companhia francesa Latécoère - para que nenhuma cidade

importante fosse esquecida pela distribuição. Como se quisesse esbanjar

competência, até nos principais pontos-de-venda de Buenos Aires e Monte-

vidéu havia repartes da revista - da mesma edição em português que cir-

culava no Brasil. Os dois primeiros exemplares a chegar às mãos de Cha-

teaubriand foram mandados para Getúlio Vargas e para o padrinho e patrocinador

Antônio Mostardeiro.

Na capa do número um, em fundo azul emoldurado por uma tarja pra-

teada, publicou-se um desenho hiper-realista do rosto de uma moça com ar

vamp, unhas cintilantes, sombra nos olhos e boquinha pintada, como se so-

prasse um beijo para seus 50 mil leitores. Completando a atmosfera fatal, so-

bre o rosto da melindrosa esvoaçavam as cinco estrelas de prata do Cruzei-

ro do Sul que haviam inspirado o nome da revista. No editorial sem assinatura
187

#
FERNANDO MORAIS


da primeira página, a direção prometia uma publicação bem mais ingênua

do que sugeria o ar lascivo da moça da capa: esclarecia que, se um jornal

pode ser o órgão "de um partido, de uma facção, de uma doutrina", uma re-

vista como Cruzeiro, no entanto, seria um instrumento de educação e de

cultura: "Onde se mostrar a virtude, animá-la; onde se ostentar a beleza,

admirá-la; onde se revelar o talento, aplaudi-lo; onde se empenhar o pro-

gresso, secundá-lo".

A publicidade do primeiro número prenunciava tempos de vacas mui-

to gordas para Chateaubriand. Quase metade das 64 páginas estava repleta

de anúncios. Além de páginas inteiras em cores oferecendo os automóveis

Lincoln, as novas vitrolas da Victor (que já tinham evoluído das "victorolas

" do


século passado para "Victrolas Ortophonicas") e filmes da Metro Goldwyn

Mayer, havia um mar de anúncios, onde se vendia de tudo. Produtos de be-

leza para mulheres ("Rugas? Rugol! E adeus rugas!" Se o remédio não fun-

cionasse, o anunciante acenava com um prêmiu de consolação: 3 mil dólares

para a mulher que comprovasse a ineficácia de Rugol), elegantes jóias da fi-

lial da britânica Mappin & Webb e, como sempre, remédios, muitos remé-

dios. Curiosamente, as quatro primeiras páginas estavam cobertas de minús-

culos anúncios classificados de hotéis - hotéis chiques e pensões vagabun-

das -, o que por muitos anos se tornaria uma praxe na revista.

No miolo, impressos em sofisticado papel cuchê e ilustrados por foto-

grafias em abundância, artigos, reportagens e contos traziam, sob o título,

um inexplicável e preciso registro: o tempo necessário para o leitor ler cada

um deles. Por exemplo, a leitura da entrevista exclusiva com o presidente de

Portugal, Oscar Carmona (feita por Rocha Martins, "nosso colaborador em

Lisboa"), iria demandar treze minutos e vinte segundos. O conto "Salva pelo

amor", de Phyllis Duganne, era mais longo: 26 minutos e vinte segundos. A

reportagem sobre a realização do filme Helena de Tróia (da MGM, claro), dez

minutos redondos. A reportagem "Como se domam as feras" - na verdade

um conjunto de fotos encimadas por legendas extensas - podia ser lida em

brevíssimos cinco minutos e seis segundos. O texto recordista era uma entre-

vista com Luiz Seel, pioneiro da produção de desenhos animados no Brasil.

O leitor gastaria 38 minutos e dezessete segundos para aprender os segredos

da animação dos bonecos Mutt & Jeff pelo cinema americano.

Se a mania maluca de publicar o tempo de leitura morreu no primeiro

número, tanto a revista quanto a prosperidade que ela ostentava pareciam

ser definitivas. As sucessivas edições de Cruzeiro engordavam a cada sema-

na com anúncios e mais anúncios. Muitas vezes o leitor ficava em dúvida

so-


bre se determinada matéria publicada pela revista era uma reportagem in-

formativa ou um anúncio pago, disfarçado de jornalismo. Quando não era

"A maior inauguração do ano" (na verdade apenas a abertura do novo pré-

dio da companhia de cigarros Souza Cruz), podia ser a página inteira de fo-


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#
FERNANDO MORAIS


tos e texto dedicada à nova seção de contratos da velha amiga Light & Po-

wer. Mesmo para um jornalismo tão ingênuo como o que se fazia no Brasil

do final dos anos 20, onde talvez aqueles assuntos fossem de fato de interes-

se para a época, aquilo cheirava a matéria paga. Diante da insistência dos ini-

migos - quase todos os dias vinha chumbo de A Ordem e do Diário Nacional

- que queriam porque queriam ver os tais anúncios oriundos do fantástico

contrato com a Sul-América, estes acabaram aparecendo, e em todos os nú-

meros da revista. Os da Sul-América e os da Lacta, da cervejaria Antarctica,

da América Fabril, da Victor e de dezenas de laboratórios. Alguns exibiam o

privilégio de ter brasileiros célebres como garotos-propaganda. Uma página

inteira das Casas Isnard, anunciando rádios, estampava em fotografia po-

sada ninguém menos que o embaixador do Brasil na Liga das Nações e ex-

ministro das Relações Exteriores Afrânio de Melo Franco "e candidato ao

prêmio Nobel da paz sintonizando o seu Philco modelo 45-C, o rádio dos ar-

tistas célebres, políticos eminentes, jornalistas cultos, militares ilustres, in-

dustriais abastados e amadores exigentes ". Anúncios mais recatados ofere-

ciam "às damas na nossa sociedade" a moderna toalha sanitária Modess,

capaz de evitar dissabores e "resguardar os vestidos de fazendas mais leves

e delicadas".

A cornucópia em que pareciam ter se transformado os negócios de Cha-

teaubriand - não só na revista, mas o dinheiro parecia surgir copiosamen-

te também no Diário da Noite e em O Jornal - aguçou a legítima aspiração de

uns poucos e mais ingênuos "acionistas" (os pioneiros que haviam contri-

buído para montar os alicerces da rede que começava a nascer) de receber al-

gum dividendo daqueles empreendimentos. Quando o paulista Elói Chaves,

por exemplo, tentou discretamente saber se as ações que adquirira já haviam

dado algum filhote, ouviu de Chateaubriand uma resposta sem qualquer

acanhamento:

- Minhas empresas já pagam dividendos a seus acionistas. Mas são di-

videndos cívicos! Cada tostão que caiu em nossos alforjes foi multiplicado

,

sim. E é distribuído todos os dias. Não individualmente, mas a toda a nação,



através de idéias. Veja a severidade com que mergulhamos na campanha

pelo voto secreto no Brasil. São esses os dividendos físicos que, pelo menos

por enquanto, pretendemos distribuir.

Aos que o acusavam de receber recursos de origens escusas, Chateau-

briand reconhecia, em editoriais assinados, que estava mesmo em uma maré

de fartura, mas que aquilo não o transformara num argentário mesquinho.

"O dinheiro só nos preocupa como um meio", insistia, "como um instru-

mento para pagar bons serviços destinados à feitura impecável dos nossos

veículos." Não era o destino do dinheiro, contudo, o que a limentava a ima-

ginação dos inimigos, mas a origem dele. Para esta interrogação também

Chatea ubriand tinha resposta, que publicava com todos os efes e erres: "O
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CHATÔ, O REI DO BRASIL


dinheiro nos chega por três únicas vias: a publicidade, as assinaturas e a ven-

da avulsa". O destino e a origem não eram suficientes para satisfazer a curio-

sidade dos desafetos? O importante era saber quanto faturavam os veículos

do pequeno conglomerado que eles já chamavam de "o consórcio Chatô"?

Nenhum problema. Descontados os tais 12 mil contos da Sul-América, que

geravam tanta desconfiança - e que ele não contabilizava por considerá-lo

um "contrato futuro", teoricamente suscetível de ser rompido a qualquer

momento -, havia muito, mas muito dinheiro entrando no caixa de suas

empresas, como ele próprio esclareceria em um artigo escrito no começo de

1929: "No ano passado essas três fontes (publicidade, assinaturas e venda

avulsa) nos deram quase 4500 contos de lucro líquido. Se 1929 terminar

como está começando para nós, o grupo de empresas liderado por O Jornal

terá uma receita líquida de 12 mil contos de réis".

Ou seja: em valores corrigidos para 1994, Chateaubriand pretendia en-

fiar no bolso, no final daquele ano, sem contar o "contrato futuro" da Sul-

América, uma montanha de dinheiro de aproximadamente 8,5 milhões de

dólares de altitude. Tamanha abundância, porém, não significava que ele es-

tivesse pagando as monumentais dívidas que assumira, já que o dinheiro

que entrava ficava mesmo era nos seus próprios negócios. Como o próprio

dono explicava: "Esses recursos nos permitiram instalar recentemente na

Alemanha, como correspondente permanente de O Jornal, o jornalista Sérgio

Buarque de Holanda. E são esses mesmos recursos que vão pagar a viagem

e as despesas do nosso colaborador Mozart Monteiro, que partiu ontem para

a Rússia como o primeiro jornalista brasileiro a fazer uma minuciosa, hones-

ta e desinteressada série de reportagens sobre a república dos sovietes

". O


resto, destemperava, "o resto é inveja de uma concorrência dirigida por si-

baritas, que quanto mais se encharcam de champanhe nas Noites, mais min-

guam seus jornais".

O soberano desprezo com que tratava inimigos, adversários e concor-

rentes não ocultava a obsessão de que Chateaubriand estava tomado: refor-

çar sua presença no Rio e em São Paulo e ampliar a sua rede de veículos de

comunicações por todo o país, com os olhos postos no pleito de 1930. Para

chegar lá, entrou em 1929 enfiando o pé na porta do mercado de São Paulo.

Na primeira semana de janeiro estava nas bancas o Diário de S. Paulo, o "jor-

nal sério" que ele vinha preparando sigilosamente para os paulistas. Só no

lançamento, no dia 5 de janeiro, é que se tomou conhecimento do plano se-

creto que o próprio dono arquitetara: além do reparte destinado à venda

avulsa, mais 30 mil exemplares foram impressos e distribuídos gratuitamen-

te pelo correio a uma lista de pessoas residentes em todo o estado. A promo-

ção iria durar um mês. As listas dos destinatários vinham sendo obtidas dis-
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FERNANDO MORAIS


cretamente pelo próprio Chateaubriand nos meses anteriores: eram os mai-

lings de clientes de seus amigos industriais e empresários, associados de en-

tidades de classes, pequenos e médios comerciantes que faziam parte dos ca-

dastros das grandes indústrias paulistas. No dia seguinte, mais uma lista de

30 mil nomes era acrescentada à primeira. No dia 7 de janeiro o Diário de S.

Paulo tinha, além dos exemplares cujas manchetes eram apregoadas pelos

jornaleiros e donos de quiosques de rua, uma tiragem de 90 mil jornais cir-

culando por todo o estado. Cada um desses jornais distribuídos de graça tra-

zia impresso um cupom para que o leitor, ao final do primeiro mês de gra-

tuidade, fizesse sua assinatura - desta vez, naturalmente, paga do próprio

bolso.

Para dirigir o Diário de S. Paulo, Chateaubriand trouxe do Rio o jornalis-



ta potiguar Orlando Dantas, de 35 anos. Cosmopolita, familiarizado com a

imprensa norte-americana (ele vivera nos Estados Unidos no final dos anos

10 para fazer um curso na fábrica de máquinas de escrever Underwood),

Dantas trabalhara nos últimos meses como diretor de publicidade de O Jor-

nal, em substituição ao americano Fitz Gibbon, que retornara aos Eua. Mas

Orlando Dantas ficaria em São Paulo e no Diário por pouco tempo: um ano

depois, por divergências com Chateaubriand, ele deixaria o jornal para fun-

dar o seu próprio Diário de Noticias no Rio de Janeiro. No novo jornal paulis-

ta, seus dois lugares-tenentes eram Rubens do Amaral, transferido do Diário

da Noite, e José Jobim, também contratado no Rio de Janeiro.

O prato de resistência do número de estréia do Diário de S. Paulo foi uma

inacreditável entrevista concedida com exclusividade a Chateaubriand pela

maior glória nacional, o aviador Santos Dumont. Famoso não só por seu in-

vento, mas também pela aversão a jornalistas, o "pai da aviação" foi torren-

cial - e deu a Chateaubriand um furo jornalístico internacional: no final do

mês ele embarcaria para a Suíça para finalizar as experiências com seu novo

e revolucionário engenho, uma máquina que prometia ser tão espantosa

quanto o avião que o celebrizara mundialmente: o Transformador Marciano.

O delirante invento, detalhou Santos Dumont, consistia em um par de asas

a serem adaptadas aos ombros dos seres humanos. Através da eletroterapia,

o aparelho transmitiria energia suplementar aos músculos, o que permitiria

que o usuário subisse escarpas, ladeiras e montanhas sem nenhum esforço

físico adicional. Santos Dumont esclareceu que queria viajar logo para Saint-

Moritz, na Suíça, para aproveitar o final da neve - terreno mais apropriado

para experiências que, realizadas em superfície dura, poderiam causar da-

nos irreparáveis a seus pilotos de provas. Maravilhado com a "bomba" que

tinha nas mãos, Chateaubriand festejava antecipadamente o sucesso do apa-

relho: "Quem tiver amanhã nas omoplatas o Transformador Marciano", as-

segurou, "poderá galgar o Pão de Açúcar como se andasse na avenida Pau-

lista". Embora de grande impacto jornalístico, a entrevista não parecia ter


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


colhido o inventor brasileiro em seus melhores momentos. Santos Dumont

concluiu seu depoimento com outra afirmação surpreendente: ele descarta-

va com absoluta segurança que a aviação pudesse se transformar no melhor

meio de transporte para a ligação entre o Rio e a capital paulista.

Poucas semanas depois de lançado, o Diário de S. Paulo, aparentemente

contrariando os planos do dono de fazer dele um jornal sisudo, passaria a

publicar semanalmente, em página inteira, a Revista de antropofagia - Segun-

da dentição. A primeira versão (ou dentição) do órgão oficial dos modernis-

tas deixara de circular no começo do ano por falta de recursos. E, para sur-

presa de todos, iria receber amparo exatamente daquele que com tanta

veemência excomungara, anos antes, o nascimento do modernismo. A inclu-

são no jornal, aos domingos, da Revista de antropofagia, acabaria gerando uma

crise na redação. Às centenas, conservadores leitores do interior do estado

pediam o cancelamento de suas assinaturas, inconformados com o escárnio

produzido semanalmente pelos modernistas em um diário que se pretendia

sério. Em meio a carrancudos editoriais sobre a cafeicultura e a pecuária, o

leitor deparava com incompreensíveis slogans como "Leia Durkheim!", ou

com frases de Oswald de Andrade como "Tupy or not tupy, that is the ques-

tion", ou "Quatro séculos de carne de vaca, que horror!". Temeroso de que

o movimento antiantropofágico se disseminasse - e pudesse ameaçar a ti-

ragem do jornal -, Orlando Dantas ameaçou suprimir a página semanal.

Para espanto dos modernistas, foi Chateaubriand quem lhes assegurou abri-

go no jornal, dando ordens para que a página permanecesse. Chateaubriand

voltaria á surpreendê-los quando o mesmo Oswald de Andrade tentou falar

em um congresso de cafeicultores da Sociedade Rural Brasileira. Herdeiro,

pelo casamento com Tarsila, de um cafezal no interior de São Paulo, Oswald

se sentiu no direito de usar a palavra no encontro dos fazendeiros, mas só

conseguiu pronunciar a primeira meia dúzia de palavras: "Sou a voz de um

encalacrado", começou, "num congresso de encalacrados". Bastou isto para

que ele fosse arrancado do palco sob vaias - e a íntegra de seu discurso,

"Uma voz da lavoura", só seria conhecida no dia seguinte, publicada como

matéria paga no jornal Estado de S. Paulo. Chateaubriand não perdoou os mo-

dernistas pela ingratidão: quando precisavam de apoio, batiam às suas por-

tas. Mas, na hora de publicar um anúncio de página inteira, o escolhido era

"o jornal do Julinho" - dizia a Geraldo Ferraz, a quem acusava de ter "dor-

mido no ponto " e deixado escapar o anúncio. Quando Ferraz retrucou que

era um intelectual e que arranjar anúncios não era sua função, Chateau-

briand levou-o a um canto e esclareceu:

- Mas Geraldo, francamente: nós teríamos pago a você uma gorda co-

missão!


Assim como surpreendia ver encartada no Diário de S. Paulo a Revista de

antropofagia - Segunda dentição, os leitores ficavam intrigados com uma co-


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FERNANDO MORAIS


luna que surgiu no jornal intitulada "O ponto de vista do PRP". Não fazia

sentido para ninguém encontrar, em um diário escandalosamente getulista,

uma coluna sempre aberta ao Partido Republicano Paulista, que todos já sa-

biam que iria enfrentar o gaúcho nas eleições do ano seguinte. Aos que o

acusavam de estar fazendo "o jogo do pau de dois bicos" - isto é, colocan-

do um pé em cada canoa - Chateaubriand respondia candidamente que

aquilo "era coisa do Antoninho". Um dos líderes modernistas e efetivamen-

te ligado ao perrepista Júlio Prestes, o escritor Antônio de Alcântara Macha-

do tinha sido um dos defensores da publicação e manutenção do vade-mé-

cum antropofágico no Diário de S. Paulo. E, segundo Chateaubriand, era dele

a responsabilidade pela inexplicável permanência da quinta-coluna de Júlio

Prestes e do PRP no jornal.

Mas não era só no amparo aos modernistas que se podia identificar a

peculiar simpatia de Chateaubriand pelas artes. Logo que Cruzeiro se firmou

como a grande revista nacional - o que ocorreu poucos meses depois de seu

lançamento -, o dono deu ordens para que fosse instituído pelo semanário

um concurso de contos e novelas destinado a descobrir, nacionalmente, no-

vos talentos na literatura. O pífio prêmio em dinheiro que era oferecido ao

vencedor - cem mil-réis - era uma insignificância mesmo para os padrões

da época. Mas a verdadeira consagração dos dez primeiros classificados es-

taria em ver seus trabalhos publicados na revista, ilustrados pelos artistas

mais renomados da casa, todos laureados com medalhas de ouro em salões

europeus: Marques Júnior, Henrique Cavalleiro, Carlos Chambelland e Os-

valdo Teixeira.

Foi tão grande o interesse despertado pelo concurso (cujo júri era com-

posto "pela redação") que poucas semanas depois a revista foi obrigada a

mudar as regras e suspender a recepção de originais. Em tão escasso espaço

de tempo, mais de quatrocentos trabalhos tinham chegado à redação, "surgi-

dos tanto dos grandes centros de cultura como dos mais apagados recantos

da província". Incapaz de ler e julgar criteriosamente aquela maçaroca de

papel vinda de todo o país, Cruzeiro anunciou: "Somos obrigados a suspen-

der o registro da recepção dos contos para o julgamento final dos enviados

até esta data, de modo a não criar para os concorrentes uma situação de lon-

ga e modesta expectativa".

Entre os dez finalistas, chamavam a atenção dois nomes, não apenas

pela alta qualidade dos contos, mas também por serem autores muito jovens,

que pela primeira vez veriam um escrito seu publicado em letra de fôrma.

Um deles, que concorrera com o conto intitulado "Satânia", era um aluno de

dezoito anos do Colégio Militar do Rio de Janeiro que vivia em uma repúbli-

ca de estudantes da Tijuca. O outro tinha 21 anos e, como acontecia com a

maioria dos rapazes de sua geração, mudara-se do interior de Minas Gerais

para fazer o curso superior em Belo Horizonte, onde estudava medicina.


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


Como o regulamento não fazia objeções a isso, ele concorrera com três

contos, aos quais deu nomes bastante insólitos para um autor que viera do

sertão mineiro: "Kronos kai Anágke", "O mistério de Highmore Hall" e "Ca-

çadores de camurças". O aluno do Colégio Militar, autor de "Satânia" (e que

iria penar durante meses para arrancar os míseros cem mil-réis do caixa de

Chateaubriand), era o futuro general e historiador marxista Nelson Werneck

Sodré. O mineiro de Cordisburgo, que anos depois seria consagrado como

um dos maiores escritores da língua portuguesa, se chamava João Guima-

rães Rosa.
195

12
Depois de sustentar por várias semanas que Chateaubriand tinha vendi-

do sua alma ao governador mineiro por 1500 dinheiros, foi com enorme de-

sapontamento que os editores do Diário Nacional leram o editorial do dia 15

de janeiro de 1929 do Diário de S. Paulo. Com uma penada de setenta linhas

assinadas, Chateaubriand jogou por terra a tese defendida com tanta vee-

mência pelos jornalistas que ele, terrível, chamava de "os pedês do Po" - um

jeito grosseiro de insultá-los com o diminutivo francês de "pederasta":


Outros estados da Federação, e não apenas São Paulo e Minas, também têm o

direito de aspirar à Presidência da República. Não fica bem ao respeito da igual-

dade que deve prevalecer entre todas as unidades federativas que duas delas se

arroguem o direito de dispor para os seus estadistas a cadeira do Catete. Desde

1894, só duas vezes, e por bambúrrio, é que os presidentes da República não saí-

ram de São Paulo e Minas.

Alguém poderia ter dúvidas, até aqui, do que ele queria dizer? Se tinha,

bastava chegar ao final do artigo para deixar de ter. Ali Chateaubriand ia ao

caroço da questão, e sem meias palavras deixava claro de onde deveria vir o

seu candidato à Presidência:


Vamos experimentar outros estados com os seus estadistas. Há entre eles al-

guns, como o Rio Grande, com uma tradição de escrúpulo administrativo, de

respeito pelos dinheiros públicos, de antifilhotismo que a República está muito

carecida de ver transplantada à órbita federal.


Era a primeira vez que alguém cometia a insolência de vir a público pro-

por o fim da chamada política do café-com-leite, que por quatro décadas,

como ele próprio assinalara, garantira aos estados de Minas Gerais e de São

Paulo um revezamento quase ininterrupto na chefia da nação, ignorando as

lideranças do resto do país. Nesse período, só duas exceções haviam quebra-

do a regra - em 1910, com o marechal gaúcho Hermes da Fonseca, e em

1918, com Epitácio Pessoa, seu conterrâneo de Umbuzeiro. Todos os demais

presidentes eram mineiros ou paulistas.

Equivocava-se também quem imaginasse que, ao defender a candidátu-

ra gaúcha, Chateaubriand estivesse, agora, traindo o governador mineiro

que o socorrera, em circunstâncias tão obscuras, com os tais 1500 contos. Na
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CHATÔ, O REI DO BRASIL


realidade o artigo apenas tornava público, ainda que de forma dissimulada,

o resultado de uma conspiração em que Chateaubriand se metera pessoal-

mente meses antes, para convencer o governador Antônio Carlos a três gra-

ves decisões que iriam mudar o rumo da história do Brasil: primeiro, retirar

sua própria pré-candidatura à Presidência; segundo, rejeitar qualquer solu-

ção proposta pelo Palácio do Catete para dar continuidade à política do café-

com-leite; e, por fim, apoiar o nome de Getúlio Vargas como candidato de

oposição a Washington Luís. Obscurecido na maioria dos livros sobre a his-

tória da Revolução de 30, o papel desempenhado por Chateaubriand para

convencer Antônio Carlos - fato a que nem o próprio jornalista jamais se re-

feriria - só acabou merecendo um breve registro, décadas depois, perdido

em meio às memórias do então deputado federal e ex-vice-governador de

Vargas no Rio Grande, João Neves da Fontoura, um dos mais expressivos lí-

deres da Aliança Liberal, nome dado à coligação inicialmente composta por

gaúchos, mineiros e paraibanos.

Três semanas antes, o jornalista passara a noite de Natal de 1928 com o

governador Antônio Carlos no Palácio da Liberdade, em Belo Horizonte. O

que parecia ser apenas uma confraternização cristã foi de fato uma exausti-

va reunião de mais de quatro horas para tratar exclusivamente da sucessão

presidencial. Ao final da conversa o governador tinha aceito os três pontos

propostos por Chateaubriand. A importância do resultado daquela aparen-

te visita natalina teria sido coberta pelo pó da história oficial, não fosse o de-

poimento deixado por João Neves da Fontoura:
Foi Assis Chateaubriand um dos primeiros a entrar na conspiração política, e

com o vigor, a paixão e o dinamismo que sempre imprimiu a todas as suas cam-

panhas. Amigo de Antônio Carlos, teimava em mostrar-lhe que a vitória de Mi-

nas sobre o Catete dependia de que os insurretos arvorassem uma bandeira: a

candidatura gaúcha. Ele ainda não possuía a verdadeira frota de jornais em todo

o país, mas os multiplicava com o dom de sua prodigiosa ubiqüidade.

Em janeiro de 1929 Chateaubriand regressou de uma de suas constantes via-

gens a Belo Horizonte. Lá se entretivera a fundo com o sr. Antônio Carlos acer-

ca da sucessão do sr. Washington Luís. De volta, procurou os irmãos João e Fi-

lipe Daudt de Oliveira, pondo-os ao corrente da importante conversa, cujos

termos estava autorizado por Antônio Carlos a transmitir aos chefes gaúchos.

Em conseqüência, a pedido de Chateaubriand, João escreveu a Vargas em

meados de janeiro, relatando o teor da palestra entre Antônio Carlos e Chateau-

briand. Informava assim:1) que Antônio Carlos vetaria frontalmente a candida-

tura Júlio Prestes; 2) que não teria candidato mineiro; 3) que, como indicação do

Catete, aceitaria um rio-grandense; 4) que adotaria o nome de um líder gaúcho

para opor, em luta, a uma candidatura oficial paulista.

Aquela comunicação impressionou fundamente o espírito de Vargas.


O abusado editorial do Diário de S. Paulo, portanto, nada mais era que o

capítulo seguinte da conversa no Palácio da Liberdade, quando ficou acerta-


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FERNANDO MORAIS


do também que aquela seria a posição a ser defendida, a partir de então, pe-

los jornais de Chateaubriand. Sem que o nome do governador gaúcho tives-

se sido expressamente citado uma só vez, tudo apontava numa só direção:

em 1930 Washington Luís e Júlio Prestes iriam enfrentar Getúlio Vargas nas

urnas.

Passaram-se poucos dias do primeiro editorial sinalizando a orientação



pró-Vargas quando apareceu na sala de Chateaubriand em São Paulo um

"velho amigo" seu, homem de "sólidos recursos". O nome do personagem

iria para o túmulo com Chateaubriand, mas não a razão que o levara àquela

visita ao dono do Diário da Noite e do Diário de S. Paulo. O misterioso visitan-

te oferecia ao jornalista o que ele chamaria de "a mais voluptuosa proposta

que alguém jamais me fizera" : comprar seus dois jornais de São Paulo já en-

tão conhecidos apenas como "os Diários"), O Jornal e a revista Cruzeiro "por

uma fortuna que poucos homens neste país, individualmente, têm o privilé-

gio de possuir ". Em português fluente, o que o personagem propunha é que

Chateaubriand pusesse alguns milhares de contos de réis no bolso e tivesse

uma pacata e eterna aposentadoria na Europa - o que, além de todas essas

vantagens, o livraria dos aborrecimentos diários que só os donos de jornais

conhecem. Aos amigos a quem revelou a história, Chateaubriand disse que

ficou em dúvida "se enfiava uma peixeira nos miúdos daquele desinfeliz ou

se fazia uma boutade". Como esfaquear milionários (pelo menos no sentido

estrito da palavra) ainda não era sua especialidade, ele pegou o visitante

pelo braço e conversou delicadamente com ele, andando em passos lentos,

em direção ao janelão da sala, de onde se descortinava todo o vale do Anhan-

gabaú:

- Entendo a proposta que o senhor me faz não como um vulgar cala-



boca. Nem mesmo como um bom negócio comercial. O que o senhor me traz

é uma sugestão nietzschiana: qual de nós não sonha terminar seus dias nas

lombadas do Vesúvio, como propunha Nietzsche?

O visitante chegou a imaginar que o negócio ia sair, mas Chateaubriand

continuou:

- Todos, menos eu! Eu troco as fraldas das montanhas vesuvianas pela

praça do Patriarca! - dizia, escancarando os braços para o vale e indagan-

do ao milionário:

- O senhor acha possível comprar, ainda que pela fortuna que me ofe-

rece, o vale do Anhangabaú?

Ante a resposta negativa e assustada, continuou, apontando o indicador

para um ponto do vale:

- Para servir a interesses de indivíduos ou de clãs, o senhor faria uma

oferta, qualquer que seja, por aquele monumento de bronze ao maestro Car-

los Gomes?

Novo não, desta vez mais assustado. Chateaubriand prosseguia, agora

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CHATÔ, O REI DO BRASIL


falando alto e gesticulando como se discursasse para uma platéia - mas

bem-humorado, deixando deliberadamente em dúvida se tudo aquilo não

seria pura ironia:

- Pois então diga aos seus amigos que o mandaram aqui que nossos

jornais são como o vale do Anhangabaú, a praça do Patriarca, o busto de

Carlos Gomes: são bens públicos, fora do comércio! É aí que reside a força

desses instrumentos de progresso moral e material da pátria brasileira que

são os nossos jornais. É aí que reside a mística invencível dos rapazes que fa-

zem O Jornal, a revista Cruzeiro e os Diários aqui em São Paulo.

Se leu o Diário da Noite e O Jornal dos dias seguintes, o suposto emissário

de Washington Luís e Júlio Prestes teve motivos de sobra para colocar em

dúvida a condição de "bens públicos " daqueles diários. Provavelmente amea-

çado por novas cobranças, Chateaubriand passou quatro dias seguidos azu-

crinando a vida do conde Matarazzo. Primeiro exigia que o Juizado de Meno-

res inspecionasse as fábricas do industrial italiano, "onde crianças trabalham

em regime de escravidão", ganhando quinhentos réis mensais por nove ho-

ras diárias de trabalho. "Quanta sordidez, quanta miséria moral", vergas-

tava, "não deverá existir no coração que assenta sua prosperidade nessa

ignóbil exploração do trabalho infantil." Os artigos seguintes acusavam o

magnata de praticar dumping no mercado açucareiro, em prejuízo da econo-

mia (e dos usineiros) de Pernambuco: "O sr. Matarazzo é um mero ganha-

199


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FERNANDO MORAIS
dor de dinheiro, que se rala tanto pela sorte da lavoura pernambucana quan-

to da do Marrocos, do Tibete ou da própria Itália".

A leitura dos editoriais assinados por ele quase sempre transmitia ao

leitor a impressão de estar vendo alguém girar indiscriminadamente uma

afiada navalha amarrada à ponta de um barbante. Com a mesma candência

usada para investir contra o maior industrial brasileiro, ele avançaria, dias

depois, sobre a madre superiora do Colégio Sion, em Laranjeiras, no Rio, que

decidira proibir a matrícula da menina Abigail Izquierdo Ferreira, de nove

anos, pelo pecado de ser filha do ator de teatro Procópio Ferreira - criança

que décadas depois, sob o pseudônimo de Bibi Ferreira, seria reconhecida

como uma das maiores atrizes brasileiras. "A tese da religiosa não é apenas

desumana, é anticristã", fustigava Chateaubriand. "Será que Jesus discrimi-

naria, entre essas garotinhas, as que são filhas de atores teatrais e as que são

filhas dos banqueiros da rua da Alfândega, ou dos industriais da tecelagem

da rua da Candelária?" Em meio à defesa da pequena Abigail, Chateau-

briand realizava uma verdadeira hipérbole literária para, de raspão, bater de

novo em seu alvo predileto, o conde Matarazzo: "O teatro, como qualquer

profissão, pode ser moral ou imoral. Tudo depende de quem a exerce. O sr.

Francisco Matarazzo, açambarcando gêneros de primeira necessidade para

vendê-los ao povo mediante preços exorbitantes, com lucros excessivos,

transforma o comércio, por exemplo, numa profissão imoral". E concluía

com uma dose de moralismo quase tão prande quanto a da madre superio-

ra: "Nada autoriza um colégio a repelir a matrícula a uma pequerrucha só

porque seus pais fazem vida de palco. E, se o ator Procópio Ferreira é um

boêmio, na sua arte, não seria um começo de arrependimento ele ter ido, em

pessoa, buscar um colégio de educação religiosa, para à sua sombra tutelar

deixar a filha pequenina?".

Mas tanto o conde, que ainda padeceria durante muito tempo na ponta

do lápis de Chateaubriand, quanto as freirinhas do Colégio Sion (que se

mantiveram irredutíveis e não aceitaram matricular Bibi Ferreira) acabariam

passando para segundo plano naquele ano de 1929. A intransigência de

Washington Luís em fazer seu sucessor levaria gaúchos e mineiros a supe-

rar suas divergências (tanto um como outro estado pretendiam que o cabe-

ça da chapa saísse de seu território) - e o namoro alcovitado por Chateau-

briand entre Antônio Carlos e Getúlio Vargas acabou selando o pacto entre

os dois que levaria à criação da Aliança Liberal. Como já havia confessado a

Chateaubriand no Natal do ano anterior, Antônio Carlos acabaria abrindo

mão publicamente de sua candidatura, permitindo que Vargas fosse o can-

didato a presidente. Consultado sobre como reagiria quando o Catete lhe pe-

disse apoio à chapa oficial, o governador João Pessoa, da Paraíba, respondeu

com uma única palavra, que se transformaria no lema da bandeira daquele
200

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CHATÔ, O REI DO BRASIL


estado: "Nego". Era a senha de que mineiros e gaúchos tanto precisavam

para atrair a Paraiba para o movimento oposicionista que vinham arquite-

tando. Um ano antes do embate eleitoral as chapas já estavam montadas: in-

sistindo na política do café-com-leite, o PRP do presidente da República iria

lançar Júlio Prestes como candidato. Cumprindo a profecia que Chateau-

briand fizera quando Vargas assumiu o governo do Rio Grande do Sul, a

Aliança Liberal se preparava para lançar o próprio Vargas como candida-

to a presidente. Seu vice seria o autor do "Nego" - João Pessoa, governa-

dor da Paraíba, sobrinho do ex-presidente Epitácio Pessoa e, como este e

Chateaubriand, também um umbuzeirense.

Apesar de dezessete dos vinte estados brasileiros da época terem deci-

dido apoiar a chapa oficial, era patente o crescimento da Aliança Liberal.

Mas o sucesso dos comícios que a agremiação realizava pelos estados - car-

regando principalmente a bandeira da anistia aos punidos desde 1922 - de-

pendia de órgãos de imprensa que repercutissem a agitação política contra

o Catete. O movimento oposicionista já contava com a simpatia dos maiores

jornais do Rio e de São Paulo, mas Chateaubriand insistia em que isso não

era suficiente: mais que a mera aquiescência, era preciso jornais declarada-

mente militantes, que assumissem como sua a causa aliancista. E isso, garan-

tia, só quem podia dar era ele. Com essa conversa acabou arranjando meios

para, em menos de um ano, duplicar sua rede. Primeiro teve de superar a

enorme antipatia que alimentava por Osvaldo Aranha ("um incendiário per-

manentemente zangado") e convencê-lo da importância, para o movimento,

de que ele, Chateaubriand, assumisse a propriedade e modernizasse o letár-

gico Diário de Noticias, de Porto Alegre. Envolvente e astucioso, Chateau-

briand não apenas conseguiu contornar o azedume do gaúcho como os pri-

meiros cinqüenta contos dados a Leonardo Truda, dono do jornal (de um

total de quatrocentos contos que custara o Diário de Noticias), saíram do cai-

xa da Aliança Liberal e foram pagos pessoalmente por Osvaldo Aranha - o

mesmo que meses antes abortara o negócio, temendo que aquilo fosse uma

tentativa dos mineiros de pôr os pés no Rio Grande.

Mas Chateaubriand queria mais. Além de Cruzeiro e de O Jornal, a pra-

ça do Rio, ele sustentava, precisava de um diário que chegasse aos trabalha-

dores. Um jornal, como o Diário da Noite de São Paulo, voltado para as gran-

des massas populares. De novo a Aliança Liberal se encarregou de levantar

os recursos. E desta vez o responsável por "levar o pimpolho à pia batismal",

como escreveria Chateaubriand anos depois, foi João Neves da Fontoura.

Neves foi o encarregado de fazer com que uma imprecisa bolada de dinhei-

ro - teria sido algo entre trezentos e quatrocentos contos - chegasse às

mãos de Chateaubriand para que ele imediatamente colocasse nas ruas o

novo jornal carioca. Que, como o de São Paulo, foi batizado com o nome de

Diário da Noite.

201

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FERNANDO MORAIS


Agora faltava Minas. "Como fazer uma conspiração sem Minas?", inda-

gava Chateaubriand a cada chefe aliancista que encontrava. "E como cons-

pirar com Minas sem ter um grande jornal para defender essa conjura lá,

atrás daquelas montanhas?" Se a Aliança Liberal quisesse, o jornal estava

prontinho, e para comprá-lo só faltava um detalhe: dinheiro. Era o Estado de

Minas, que Pedro Aleixo, jovem professor de direito, montara um ano antes

em sociedade com dois amigos, e cujas dívidas o estavam levando à falência.

Os contatos entre Aleixo e Chateaubriand foram feitos pelo correspondente

do jornal mineiro no Rio, o modernista Milton Campos, que havia sido con-

tratado no ano anterior como redator de O Jornal. Somados o rombo de dívi-

das acumuladas, mais as máquinas e o pequeno prédio no centro de Belo

Horizonte, Pedro Aleixo e seus sócios queriam setecentos contos de réis para

entregar o jornal. Como estava instalado na capital do "Vaticano do crédito",

seria bem mais fácil conseguir recursos - fosse com os generosos banquei-

ros mineiros ou pela venda de ações a empresários locais. Nem era dinheiro

vivo que Chateaubriand precisava dos aliancistas, mas apenas a segurança

de que, em uma emergência, a campanha garantiria uma forma de pagar as

dívidas.


O sinal verde foi dado pessoalmente por Getúlio Vargas, ao final de

uma reunião da Aliança Liberal no Rio de Janeiro, e no dia seguinte Cha-

teaubriand embarcou no trem Vera Cruz para Belo Horizonte junto com Mil-

ton Campos. Arranjado o dinheiro, foi até a redação do jornal e ouviu a cho-

raminga generalizada: em um ano de funcionamento o jornal não pegara-

espantosamente, o veículo preferido dos mineiros era o Minas Gerais, o diá-

rio oficial publicado pelo governo do estado. As esperanças de arranjar

anúncios, então, já haviam sido abandonadas no meio do caminho. Todas as

tentativas de conseguir assinantes tinham sido em vão. Quando o último jor-

nalista acabou de falar, Chateaubriand deu um tapa na mesa: "Era isso mes-

mo que eu esperava: comprar um cemitério", exclamou, para assombro dos

mineiros que olhavam com desconfiança aquele homenzinho de terno de li-

nho branco, sapato bariri de duas cores e uma gravata que ia até quase o

joelho. Disse que para acabar com aquela pasmaceira ele ia transformar o Es-

tado de Minas num "curral de petiços" - pequenos cavalos, expressão que

incorporara do vocabulário gaúcho de Vargas.

Ali mesmo anunciou o nome dos cinco rapazes que escolhera para "de-

senterrar os fantasmas deste campo-santo": eram todos mineiros, todos ad-

vogados ou estudantes de direito e todos muito jovens. Décadas depois, um

deles se transformaria em um dos maiores advogados brasileiros, o outro se-

ria senador e ministro, dois seriam vice-presidentes da República e o quarto

se elegeria presidente do Brasil sem governar um só dia. Milton Campos-

o mais velho dos "petiços", então com 29 anos - seria o redator-chefe do jor-

nal, cargo que acumularia com a direção da sucursal mineira de O Jornal.


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


Para secretário de redação Chateaubriand convidou um estudante de direi-

to que lhe tinha sido recomendado pelo governador Antônio Carlos: Tancre-

do Neves, de dezenove anos. Como presidente da empresa, resolveu manter

o ex-dono do jornal, Pedro Aleixo, de 28 anos, que no ano anterior tinha sido

o vereador mais votado da capital mineira. O diretor seria o advogado Da-

rio de Almeida Magalhães, 21 anos, que já trabalhava no jornal desde a sua

fundação, um ano antes. Para o cargo de gerente, foi convidado um peque-

nino advogado de 28 anos, José Maria Alkmin, que acabara de deixar seu

emprego de repórter no diário oficial.

Antes que o entusiasmo aliancista esfriasse, Chateaubriand ainda ten-

tou abocanhar o Correio do Povo, também de Porto Alegre, mas de novo Os-

valdo Aranha - prevendo sabiamente que o crescimento do jornalista po-

deria trazer-lhes dores de cabeça - iria se interpor e impedir o negócio. Da

capital gaúcha ele passou um curto telegrama para João Neves da Fontoura,

no Rio, matando no nascedouro o que considerava "uma excessiva ganân-

cia" do jornalista - a inclusão do Correio no pequeno conglomerado, que já

era chamado de "consórcio": "Deputado João Neves - Hotel Glória - Rio

- Ontem avião Nyrba viajou Alexandre Alcaraz fim negociar com Chateau-

briand entrada Correio para consórcio. Precisas intervir evitando esta transa-

ção, inconveniente neste momento. Afetuosamente, Osvaldo Aranha". Mes-

mo já sendo dono de um poderoso arsenal de propaganda e opinião - seis

jornais diários e uma revista de circulação nacional -, Chateaubriand pre-

tendia voar ainda mais alto. E, sempre que possível, no vácuo do foguete em

que se transformara a Aliança Liberal. Antes que o ano de 1929 terminasse ele

contrataria a empresa paulista Oscar Flues & Cia. para importar dos Estados

Unidos cinco monumentais impressoras de rotogravura em quatro cores-

as primeiras que o Brasil veria - para rodar a revista Cruzeiro e imprimir su-

plementos coloridos de seus jornais do Rio, São Paulo e Minas Gerais.

A atividade jornalística não inibia sua aberta participação política. Re-

presentando a Paraíba (onde não punha os pés havia anos), em setembro ele

foi incluído entre os delegados à Convenção Nacional da Aliança Liberal que

iria sacramentar a chapa Getúlio Vargas-João Pessoa. E a militância em

uma organização de caráter frentista como a Aliança o sujeitava a um per-

manente exercício de tolerância com antigos adversários e inimigos. Assim

como havia sido escolhido convencional pela Paraíba, Pernambuco tinha no-

meado, entre outros, Joaquim Pimenta (seu concorrente na disputa pela ca-

deira de direito romano, em Recife) e seu arquiinimigo de 1911, o agora ma-

rechal Dantas Barreto. Realizada no Palácio Tiradentes, sede da Câmara

Federal, a convenção foi presidida pelo governador mineiro, recebido com

honras de chefe de Estado. Todos ali sabiam, afinal, que a Aliança só fora

possível graças ao desprendimento de Antônio Carlos, que abrira mão de

sua candidatura. Para introduzi-lo no plenário foi nomeada uma comissão


203

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FERNANDO MORAIS


de notáveis representando sete estados. Pela Paraíba o escolhido foi Cha-

teaubriand. Para seu desprazer, o representante de Pernambuco era Dantas

Barreto, e o de São Paulo, o advogado Marrey Júnior, membro da turma dos

"pedê do Po" que tanto o fustigavam nas páginàs do Diário Nacional.

O prestígio de que Chateaubriand desfrutava junto ao alto comando alian-

cista não era apenas um reconhecimento aos serviços prestados por seus jor-

nais e por Cruzeiro à causa da Aliança Liberal. Ele era efetivamente conside-

rado um dos membros do primeiro e mais fechado círculo da conspiração,

privilégio que muitas vezes torturava sua alma. Conviver com segredos e

não publicá-los no jornal era a negação absoluta daquilo que ele mais se or-

gulhava de ser: um repórter. Se tivesse conhecimento de que um emprega-

do seu agia como ele se via obrigado a agir, não pensaria duas vezes para bo-

tar o sujeito no olho da rua. Muitas vezes ele não resistia à tentação, e sua

metade jornalista falava mais alto que o Chateaubriand político.

Em agosto tinha sido assim. Semanas depois do chamado Pacto do Ho-

tel Glória, quando Vargas e Antônio Carlos chegaram a um acordo sobre a

candidatura do governador gaúcho, os senadores e deputados que se opu-

nham à candidatura Júlio Prestes se reuniram a fim de escolher uma comis-

são executiva para o movimento e deliberar sobre como a cisão seria torna-

da pública. Decidiu-se que o deputado João Neves da Fontoura, em nome de

todos, faria um pronunciamento na Câmara Federal. Famoso pela oratória

brilhante, João Neves nunca escrevia um discurso, falando sempre de impro-

viso. A gravidade daquela comunicação, no entanto, o obrigava a escolher,

medir, pesar e escrever previamente cada palavra a ser usada na tribuna. Ele

terminava de redigir à mão o discurso, sublinhando em vermelho as expres-

sões mais contundentes, quando Chateaubriand apareceu no seu quarto do

Hotel Glória, no Rio. Neves pediu que o jornalista desse uma olhada final

nos três últimos e mais fortes parágrafos do discurso. Sabendo que tinha um

furo nacional na mão, Chateaubriand decorou, uma por uma, cada palavra

dos três parágrafos. No dia seguinte, quando João Neves encerrava solene-

mente o discurso-bomba, o Diário de S. Paulo já circulava desde cedo com a

notícia que reproduzia, com rigorosa e surpreendente precisão, cada vírgu-

la e cada ponto de exclamação do final da fala do deputado gaúcho:

Direi, finalmente, senhor presidente, que, com as âncoras levantadas antes de

cortarmos as amarras que ainda nos prendem à paz política, na hora em que de-

mandamos o mar alto e revolto no qual as tempestades serão a colheita dos ven-

tos semeados, a tripulação exclama pela última vez: a bandeira que vamos içar

é flâmula de paz e não de guerra!

Marchamos para buscar nas últimas ramificações da vontade pública os im-

perativos da nação! Vencidos num pleito liso, reconheceremos com prazer a

nossa derrota; mas, vencedores, ninguém nos arrebatará o prêmio de tamanhos

sacrifícios, ninguém conseguirá esbulhar o país na sua escolha! Somos a maio-

ria hoje; seremos, talvez, a unanimidade amanhã.

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CHATÔ, O REI DO BRASIL
De qualquer forma, mesmo nos momentos inquietos da batalha cívica, não

nos esqueçamos, brasileiros, de que afinal somos todos irmãos!


O furo valeu-lhe o apelido de "Boca Rota", o boquirroto com quem se

deveria tomar mais cuidado, mas a repercussão e o impacto que o discurso

causou seriam maiores que a gravidade da inconfidência, afinal perdoada

pelos aliancistas. O que havia de importante era a advertência explicitada

por Neves em nome da Aliança Liberal: se houvesse fraude nas eleições, o

presidente e seu candidato podiam se preparar para a guerra. E guerra, pelo

menos para Chateaubriand, não era uma figura de retórica - ele achava que

õ movimento ia terminar em revolução. Além dele, Osvaldo Aranha, Virgí-

lio de Melo Franco e João Neves tinham as mesmas preocupações. Enquan-

to estes começavam a buscar contatos com os "tenentes" de 1922 e de 1924

que estivessem dispostos a se preparar para uma eventual resistência arma-

da, Chateaubriand não tinha mais dúvidas de que a crise desaguaria em

guerra civil. E para isso era preciso ter tropas regulares à mão. Sem consul-

tar ou pedir autorização a ninguém, como era do seu feitio, viajou outra vez

para Belo Horizonte para uma nova conversa reservada com o governador

Antônio Carlos no Palácio da Liberdade. Entrou no gabinete e foi direto ao

assunto:

- Devemos cuidar de nos organizar para a guerra civil, que cada dia

parece mais inevitável.

- E que medida você acha que devemos tomar? - indagou o governa-

dor mineiro.

- Testar a Força Pública mineira. Sentir o que ela vale e como deve ser

melhorada, se for necessária para emprego posterior. A primeira providên-

cia a tomar é conversarmos secretamente com o coronel Bertoldo Klinger,

um brilhantíssimo soldado, e, se ele aceitar, nomeá-lo comandante ad hoc da

polícia militar de Minas. Ele se encarregaria de deixar a tropa em estado de

semiprontidão, para qualquer eventualidade.

Klinger era um militar gaúcho que, embora acusado de ter simpatias pe-

los rebeldes de 1924, em São Paulo, acabaria sendo destacado para enfrentar,

sem sucesso, a Coluna Prestes no interior do Mato Grosso. Suas relações com

o jornalista vinham do período em que substituiu o general Sezefredo dos

Passos como titular da coluna de assuntos militares de O Jornal, que assina-

va como "Um observador militar " ou como "Comandante Nobre de Gus-

mão ". Entusiasmado, Chateaubriand parecia torcer para que a campanha

eleitoral terminasse em sangue:

- A operação tem que ser simultânea: quando o coronel Klinger arran-

car de Minas à frente das tropas da Força Pública, Vargas estará subindo de

Porto Alegre. Podemos tentar conseguir o apoio de Juarez Távora no Norte.

Mas mesmo sem os nortistas, mineiros e gaúchos marcharemos juntos con-
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FERNANDO MORAIS


tra o Distrito Federal. O governador pode se preparar, pois essa será a nos-

sa única alternativa.

Antônio Carlos concordou com as preocupações de Chateaubriand e

autorizou-o a intermediar um encontro secreto entre Klinger e dois dirigen-

tes da Aliança Liberal: Afrânio de Melo Franco e Osvaldo Aranha.

- Se é para ser secreto, governador, o melhor é marcarmos esse encon-

tro para o lugar menos suspeito do Brasil para uma conspiração militar: o es-

critório de um agiota amigo meu, o conde Modesto Leal.

Antônio Carlos achou a sugestão absurda e sugeriu que o contato fosse

feito no escritório de Afrânio na rua Buenos Aires, no centro do Rio. Os pla-

nos militares de Chateaubriand, entretanto, iriam tropeçar em enormes difi-

culdades. A começar do próprio Klinger, que ouviu pacientemente o convite

do jornalista e dos dois chefes da Aliança, e dias depois respondeu por meio

de carta que pediu que Chateaubriand entregasse a Aranha e Melo Franco.

Ele se recusava a participar da trama. Além de dizer que a milícia mineira

"não precisava de ninguém de fora" para treiná-la, Klinger desconfiava estar

sendo arrastado não para a preparação de uma eventual guerra civil, mas

para ajudar o grupo de aliancistas a organizar um golpe militar, independen-

temente e talvez até mesmo antes da realização das eleições de março de

1930. Bem ou mal, Bertoldo Klinger poderia ser substituído por outro militar,

mas um problema maior sepultaria no nascedouro a aventura planejada por

Chateaubriand. Antônio Carlos se deu conta de que não fazia sentido levar

adiante o plano sem a concordância expressa dos dois líderes máximos da

Aliança, que eram o candidato a presidente e seu vice. Ele próprio falaria

com Getúlio, mas antes pediu a Chateaubriand para sondar João Pessoa.

O governador da Paraíba foi convidado para um chá na Vila Norman-

da. Chateaubriand transmitiu-lhe sua convicção de que a campanha liberal

iria "terminar em um desfiladeiro subversivo":

- Vamos ganhar as eleições, mas essa gente vai nos passar a perna e

nos vencerá no bico de pena, na fraude, no voto roubado. Nós dois somos

paraibanos, somos umbuzeirenses e sabemos como se responde a isso: a

bala.
Segundo palavras do próprio dono da casa, João Pessoa "deu um pulo

de gato do sofá em que se encontrava" ao ouvir falar em subversão, tiros,

guerra civil. Com os olhos arregalados, rejeitou de pronto a proposta de mi-

litarização do movimento defendida por Chateaubriand:

- Prefiro ver o senhor Washington Luís ou o senhor Júlio Prestes pas-

sarem vinte anos no Palácio do Catete a jogar o povo numa guerra entre

irmãos.


Chateaubriand tentava interrompê-lo, mas não conseguia. João Pessoa

estava irredutível:

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CHATÔ, O REI DO BRASIL


- O senhor Washington Luís está nos humilhando a todos, humilhou-

me pessoalmente ao degolar a bancada paraibana na Câmara Federal, mas

entre isto e pegar em armas vai uma distância enorme. Esse Getúlio Vargas

é quem deve estar enfiando essas idéias na cabeça de vocês. Outro dia, ao fi-

nal de uma reunião, espantou-se ao saber que eu não ando armado. Não

contem comigo, repito. Entrei nessa briga para derrotá-los no voto, não na

bala. E, se essa proposta progredir, eu abandono a candidatura.
Fracassada a tentativa militar, Chateaubriand transformou o espaço que

ocupava na primeira página de seus seis jornais em um paiol de provocação

a Washington Luís e a seu delfim, o governador Júlio Prestes. Aceitou de

bom grado que a cobertura política fosse orientada a distância pelo jurista

mineiro Francisco Campos, o "Chico Ciência ", eminência parda da campa-

nha aliancista, mas em sua coluna assinada escrevia o que lhe dava na telha.

Fazia artigo atrás de artigo em defesa da anistia a Prestes, que, como muitos

de seus camaradas, ainda estava exilado na Argentina. Qualquer deslize do

governo era pretexto para uma semana de acusações e críticas ao Catete.
Para bater em Washington Luís, até os comunistas, que Chateaubriand

via com temor e desconfiança, tornavam-se aliados. No dia em que a polícia

do Distrito Federal dissolveu a porretadas uma concentração organizada

pelo clandestino Partido Comunista a favor da Aliança Liberal no centro do

Rio, o presidente teve de engolir o editorial intitulado "O sertão da Cinelân-

dia". Nele Chateaubriand dizia ironicamente que não era "digno de um cabo

de guerra da valentia do presidente da República" o que a polícia tinha fei-

to na avenida Rio Branco: "Garantidos pela Constituição, que assegura a to-

dos os cidadãos o direito de pacificamente se reunirem sem armas, algumas

centenas de operários, homens e mulheres, congregaram-se na praça públi-

ca. O pau roncou com uma valentia que tanto teve de cobarde como de efi-

ciente. Foi assim que o absolutismo russo abriu as portas do império dos

tzares a Lenini" . Para Chateaubriand, no entanto, mais perigosa que o comu-

nismo era a "repressão irracional" realizada por ordens do presidente: "Pela

Constituição, os comunistas estão garantidos na propaganda pacífica dos

seus ideais. Todavia eles acham-se tolhidos pelo governo do exercício desse

direito. O comunismo no Rio de Janeiro é uma aspiração de meia dúzia de

iluminados. Não duvido da sinceridade desses líderes. Mas a perseguição

cria o martírio, e o martírio cria a dedicação, o fanatismo, a

lenda ".
Com o desenrolar da campanha aliancista, os artigos davam a impres-

são de terem sido escritos conforme o público que se quisesse atingir. Para

indispor Washington Luís com os militares, Chateaubriand passava dias

ampliando e repercutindo, em sua coluna, pequenos episódios que, a rigor,

não mereceriam mais que uma pequena nota política. Quando a polícia de

São Paulo prendeu para um interrogatório o tenente Djalma Dutra, ex-ofi-

cial da Coluna, por exemplo, seguidos artigos denunciaram o governo por


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FERNANDO MORAIS


tê-lo metido "num xadrez imundo e tirado suas vestes para que, inteiramen-

te nu, ele ficasse exposto à humilhação diante de outros presos, gatunos, de-

sordeiros e ébrios em cuja companhia se achava trancafiado". Aonde Chateau-

briand queria chegar? Moral da história: "A túnica de um oficial simboliza,

por assim dizer, a imagem da pátria. A afronta que a macula fere a própria

honra nacional". Uma pequena notícia (publicada por seus próprios jornais)

de que o também tenente prestista Siqueira Campos, "transformado em co-

ronel revolucionário", teria entrado na cidade mineira de Araguari coman-

dando mil homens da Força Pública mineira, a fim de invadir São Paulo, era

atribuída por Chateaubriand "ao ridículo sr. Washington Luís, que está

inundando o país de boatos revolucionários ". Nem seu amigo e ex-colabora-

dor em O Jornal, o general Sezefredo dos Passos, agora ministro da Guerra,

escapava do cutelo: "O general Sezefredo está deslumbrado com o presiden-

te só porque este nomeou-o ministro da Guerra. Quem nunca comeu mela-

do... O ministro não consegue ver a dignidade do Exército nem a honra do

Brasil; só enxerga o ventre faminto de escândalos da política pessoal do ab-

solutismo sem entranhas do sr. Washington Luís ".

Quando os agricultores de São Paulo reclamavam da situação econômi-

ca do país, com dois ou três telefonemas Chateaubriand arranjava munição

para infernizar o candidato oficial: "O pintinho Júlio Prestes, que o chante-

cler do Catete aquece sob suas asas (pois aquele não tem personalidade nem

vontade), abandonou São Paulo como um rebanho faminto, entregue à sua

própria sorte. Os fazendeiros erram pelas ruas da capital sem saber o que fa-

çam, porque ninguém pode voltar às suas propriedades com as mãos va-

zias, sem um tostão para pagar os colonos. São os desesperados do café, que

estão sendo tratados como mendigos pelo governo atual, que os arruinou".

De quem é a culpa pela situação franciscana dos cafeicultores paulistas? De

Júlio Prestes e de seu chefe, o presidente da República, "esse coveiro que en-

controu a libra a trinta contos e deixa-a a cinqüenta contos, quatro anos de-

pois". Se o afago tinha de ser dirigido não às "classes conservadoras ", mas à

patuléia, Chateaubriand assumia publicamente a co-autoria, junto com An-

tônio Carlos, João Neves e Lindolfo Collor, do capítulo da plataforma da Ali-

ança Liberal que propunha, pela primeira vez no Brasil, a criação de uma le-

gislação trabalhista - a "pedra angular do manifesto aliancista".

Os diretores e editores de suas publicações recebiam, simultaneamente,

ordens para que toda a rede fosse colocada à disposição da campanha elei-

toral aliancista. Já circulando com o O inicial, O Cruzeiro inundava páginas e

páginas com coberturas fotográficas de rigorosamente tudo o que fizesse a

dobradinha Getúlio Vargas-João Pessoa: para cada página dedicada à du-

pla Júlio Prestes-Vital Soares, Getúlio e João Pessoa recebiam sete, oito pá-

ginas repletas de fotografias. Até mesmo um desinteressante chá oferecido

por d. Darcy Vargas, mulher de Getúlio, às damas da sociedade gaúcha


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


recebia farta cobertura da revista. Depois de uma edição autoproclamada

como "histórica", quase inteiramente dedicada à publicação das fotos de

centenas de jovens de todo o país que disputariam as eliminatórias do con-

curso de Miss Brasil, O Cruzeiro viu sua tiragem subir para perto de 80 mil

exemplares semanais. Só havia uma forma de os partidários da candidatura

oficial aparecerem naquele que era o grande fenômeno editorial do país: pa-

gar, na boca do caixa da revista, anúncios promovendo os feitos do governa-

dor paulista. Como pagavam, os perrepistas eram tratados com a mesma

atenção dada a qualquer anunciante: algumas das ilustrações utilizadas pela

dupla Júlio Prestes-Vital Soares eram feitas e assinadas pelo melhor artista

da casa, o professor Carlos Chambelland.

O comportamento dos jornais diários não era diferente. Enquanto a ca-

ravana aliancista era invariavelmente recebida com "demonstrações extraor-

dinárias de regozijo público ", os comícios e concentrações organizados pe-

los partidários de Júlio Prestes redundavam sempre em "ruidoso fracasso".

Em São Paulo, a infração de uma mera portaria trabalhista municipal pelos

jornais governistas A Gazeta e Folha da Manhã (que ignoraram a decisão da

prefeitura de proibir a circulação de vespertinos aos domingos) era suficien-

te para que Oswaldo Chateaubriand abrisse uma campanha contra "as gaze-

tas sabidamente ligadas ao Catete que oferecem suas colunas à causa do sr.

Júlio Prestes". Um inesperado e hilariante reforço à Aliança Liberal seria

dado pelo humorista Aparício Torelly, o "Aporelly " - que depois de 1930

se autoconcederia o título de "Barão de Itararé". Dono desde 1926 do satíri-

co A Manha (uma brincadeira com o título do diário carioca A Manhã), Apo-

relly fechou seu jornal em 1929 e passou a publicá-lo todas as semanas como

encarte do Diário da Noite do Rio - que no final daquele ano já vendia mais

de 120 mil exemplares diários. Sob o lema "Quem não chora não mama", A

Manha atacava Júlio Prestes com a mais ferina das armas, o humor: "Para se

ter uma vaga idéia do fervor cívico que levantou por toda a parte o nome do

sr. Júlio Coluna Prestes, basta dizer que até os loucos do Juqueri não escapa-

ram à qualificação. Segundo fontes fidedignas, podemos asseverar que os

dementes foram fotografados em grupos, para fins eleitorais, e enviados ao

Comitê Sílvio de Campos pró-Júlio Prestes ".

As doses de humor da campanha, no entanto, ficariam restritas às in-

continências de Aporelly. No mês de fevereiro, a menos de trinta dias do

pleito, dois graves acontecimentos elevariam a temperatura política à incan-

descência. No dia 6 uma caravana oficial chefiada por Fernando Melo Viana

(vice-presidente da República e candidato a governador de Minas) fazia co-

mícios em Montes Claros, no norte mineiro. O grupo fazia parte da Concen-

tração Conservadora, nome sob o qual se organizaram, em Minas Gerais, os

partidários da candidatura Júlio Prestes. Ao passar em frente à casa de Ti-

burtina Alves, mulher do deputado estadual João Alves e fanática militante


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


da Aliança Liberal, a caravana foi atacada a tiros - supostamente por jagun-

ços a mando da mulher do deputado. Em meio ao tiroteio, a mirrada Tibur-

tina aproximou-se do vice-presidente da República e aplicou-lhe sucessivas

sapatadas",ferindo-o com violência no rosto e na cabeça. Para que a comiti-

va pudesse fugir - levando consigo quatro mortos e catorze feridos, entre

estes Melo Viana -, o trem precisou retornar de marcha a ré até Bocaiúva, a

cidade mais próxima. Pretendendo tirar proveito político do atentado e sob

a proteção de seus próprios capangas, Manuel Carvalho de Brito, presiden-

te da Concentração Conservadora, retornou no mesmo dia a Montes Claros,

tomou de assalto o telégrafo da cidade e passou a enviar mensagens ao go-

verno federal e aos jornais que o apoiavam, divulgando nacionalmente o in-

cidente. A situação acalmou-se no dia seguinte, com a chegada de forças fe-

derais à cidade. O episódio tinha tudo para morrer aí, mas quando a notícia

chegou a O Jornal, no Rio, Chateaubriand urrava pela redação, sacudindo o

telegrama no ar, como uma bandeira:

- Temos o que precisávamos! Dona Tiburtina é a Joana d'Arc da

Aliança Liberal! Vamos transformar essa mulher na Anita Garibaldi do vale

do São Francisco! Quero abrir fotos dela em todos os jornais. Quero uma fo-

tografia colorida de dona Tiburtina na capa de O Cruzeiro, de bacamarte na

mão !


Por maiores que fossem os desejos do jornalista, Tiburtina Alves era

apenas uma enfermeira gorducha que um dia, por mera casualidade, dera

uma surra de sapato no vice-presidente da República. A heroína que Cha-

teaubriand queria fabricar não existia. O herói do mês iria aparecer dali a al-

guns dias, milhares de quilômetros ao norte de Montes Claros, no interior da

Paraíba, e para desespero dos aliancistas estava do outro lado, aliado a Jú-

lio Prestes. Inconformado com a política anticoronelista e com os altos im-

postos cobrados pelo governador João Pessoa, o fazendeiro e "coronel" José

Pereira, da cidade de Princesa, a quatrocentos quilômetros da capital parai-

bana, armou 2 mil jagunços, assumiu o controle da cidade e decretou a ins-

talação da República de Princesa. A encrenca armada por José Pereira ainda

iria durar meses, mas o impacto de sua eclosão acabou minimizado por um

importante mas previsível fato político ocorrido no dia seguinte ao início de

sua aventura: a eleição para presidente da República.

A primeira edição do Diário da Noite de São Paulo do dia 1º foi rodada

logo depois do almoço e trazia uma manchete anódina, que não dizia abso-

lutamente nada: "A memorável batalha eleitoral de hoje". Quando a segun-

da edição foi impressa, no meio da tarde, as urnas ainda não tinham sido fe-

chadas. Mas sua manchete não deixava dúvidas de que os aliancistas, além

de admitir que tinham perdido as eleições, estavam se preparando para o


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FERNANDO MORAIS


confronto: "A fraude campeou livremente e graves violências perturbam, no

interior do estado, a ordem do pleito". Na terceira edição, noturna, uma

única palavra, em enormes tipos de caixa, repisava a denúncia da tarde:

"Fraude!".

Com pequenas diferenças, foi assim em todos os jornais de Chateau-

briand. Embora roubar no resultado de eleições fosse parte integrante da

vida política brasileira - algo tão normal naquele tempo quanto a própria

existência de eleições -, era a primeira vez que a fraude eleitoral virava

manchete de jornais, e era tratada como se fosse um crime. E, se efetivamen-

te foi por meio de fraude que Júlio Prestes venceu (o paulista recebeu 1,1 mi-

lhão de votos, contra 737 mil dados a Vargas), ela não parece ter acontecido

de um lado só. Só o roubo explicaria que no Rio Grande do Sul, por exem-

plo, Getúlio tivesse quase 300 mil votos, contra inacreditáveis 982 dados a

Júlio Prestes. O operário Minervino de Oliveira, candidato a presidente pelo

Pcs, recebeu uma votação insignificante. No primeiro editorial escrito após o

fechamento das urnas, Chateaubriand afirmou que como resultado da "pun-

ga imposta ao país" o que se tinha não era uma eleição, mas uma reeleição,

"tão profundos são os vínculos de subordinação da pessoa do sr. Júlio Pres-

tes à do atual chefe do Executivo ". Para que não pairassem dúvidas a respei-

to do que propunha, escreveu que o PRP tinha batido "os seus próprios recor-

des de fraude eleitoral" - deixando claro que o resultado era inaceitável: "A

Aliança Liberal praticaria um crime contra a nação brasileira se depusesse as

armas neste instante. Porque se não resistirmos agora, daqui a três anos nem

os espectros dos cemitérios quererão formar com os políticos brasileiros para

defender o povo contra o polvo do poder ilegítimo ". E encerrava declaran-

do guerra ao governo federal: "À Aliança toca um dever: impor o seu candi-

dato, com a mesma decisão que o presidente da República quer nos impor o

candidato de seus interesses domésticos". O resultado oficial da eleição ain-

da nem havia sido proclamado e a Revolução de 30 já estava começando.
212
13
A mais célebre proeza de Amâncio dos Santos tinha sido grudar com

um prego, no tronco de uma árvore, a língua de um rapaz que andara falan-

do mal da honra de sua irmã. A façanha acontecera anos antes, quando ele

ainda morava no interior da Paraíba, mas essa e outras lendas que corriam

sobre sua ferocidade deslumbravam Chateaubriand - e foram decisivas

para que o jornalista o contratasse como guarda-costas. Além da alma, tam-

bém os braços de Amâncio pareciam duros como o aço. Para demonstrá-lo,

ele agachava-se, estendia-os como duas cadeiras e mandava que Fernandi-

nho se sentasse num deles e Gigil no outro. Para espanto geral, ficava de pé

e esticava os braços, como dois grossos caibros de pau, com cada menino

sentado de um lado. Se isso não fosse currículo suficiente, ele ainda tinha a

oferecer a pontaria certeira. "Com um 38 na mão seu Amâncio é um Átila,

não conheço ninguém igual", gabava-se Chateaubriand às gargalhadas

,

"mas sua especialidade são as surras de chicote."



Os serviços do ex-guarda do serviço de segurança da Estrada de Ferro

Central do Brasil tornaram-se necessários depois que Chateaubriand come-

çou a receber telefonemas anônimos com ameaças de morte. Por via das dú-

vidas, além da tranqüilizadora presença de Amâncio (que passou a andar 24

horas por dia grudado no patrão, silencioso e de chapéu desabado sobre os

olhos), o jornalista decidiu levar sempre à cintura um velho revólver calibre

38. Mas nem o revólver nem Amâncio impediriam a primeira reação aos ar-

tigos diários pregando a resistência da Aliança Liberal contra o resultado das

eleições. Dez dias depois da derrota de Vargas para Júlio Prestes, Chateau-

briand deixou a redação de O Jornal por volta da meia-noite e mandou o mo-

torista Benedito levá-lo para casa no enorme Cadillac preto que comprara

meses antes. Tanto a mulher como o filho dormiam no andar superior da

Vila Normanda. A única pessoa acordada na casa era o mordomo Henri Gal-

lon, a quem Chateaubriand pediu que lhe servisse uma caneca de caldo de

feijão e outra ao capanga, este sempre a um metro de distância. Vestiu o ca-

misolão, meteu a touca na cabeça e deitou-se na cama do quarto que ocupa-

va sempre, no andar térreo. Amâncio cochilava em um colchão atravessado

no corredor, fechando a entrada da porta do quarto - qualquer pessoa que

tentasse invadir o dormitório teria de passar sobre seu corpo. As quatro e
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FERNANDO MORAIS


meia da manhã, Chateaubriand foi acordado por Gallon: Afrânio de Melo

Franco acabara de telefonar comunicando que tinham colocado fogo no pré-

dio em construção da rua Treze de Maio. Correram todos para lá e viram que

os bombeiros tinham sido eficientes: o fogo não chegara a comprometer ne-

nhuma parte vital da obra, apenas queimara andaimes e destruíra paredes

recém-levantadas. O prejuízo maior seria o atraso de pelo menos seis meses

na inauguração do prédio, prevista inicialmente para o mês de maio.

As primeiras investigações da polícia tentaram atribuir a responsabili-

dade pelo incêndio ao descuido de algum operário, mas no artigo escrito na

manhã seguinte Chateaubriand insistia em que o fogo era obra de "mãos cri-

minosas ". Se o objetivo dos autores do atentado era intimidá-lo, o tiro saíra

pela culatra. "Queiram ou não queiram os incendiários autores da traição

que sofremos esta madrugada, a têmpera dos homens que fazem os nossos

jornais é de bronze ", escreveu, para terminar desafiador: "A adversidade

nos enrijece os músculos, nos adestra o pulso. Viver perigosamente, desa-

fiando cada dia a inveja dos fracos - só assim vale a pena subjugar a vida."

E nas semanas que se seguiram os artigos cresceram em agressividade. O ex-

presidente e agora senador Epitácio Pessoa concedeu uma explosiva entre-

vista ao Jornal do Commercio reforçando as denúncias de corrupção e fazendo

duras críticas a Washington Luís. Pessoa citava, como exemplo do escândalo

que tinha sido a apuração, o resultado das urnas em Osasco, nas imediações

da capital paulista: embora houvesse ali apenas 3 mil eleitores registrados,

Júlio Prestes recebera nada menos que 6 mil votos. Apesar de enciumado por

ter sido "furado" por uma entrevista de um amigo dada a um jornal concor-

rente, Chateaubriand não deixou de repercutir o fato em suas colunas - e

em um artigo de apenas 28 linhas destilou truculência ainda maior que a do

entrevistado:
[...] O sr. Epitácio Pessoa foi de uma infinita piedade. Piedade desse infeliz, des-

se desgraçado Washington Luís, que o senador paraibano reduziu a escombros,

a frangalhos, a farrapos, a cacos, a pó de traque e que, depois de roto, espatifa-

do, pisado, ralado, moído, esfarelado, o sr. Epitácio Pessoa sacode no meio da

rua e entrega à irrisão nacional como uma carcaça de primeiro magistrado a que

nenhum brasileiro, nenhum cidadão deve a mais pequenina sombra de estima,

quanto mais de respeito. O que resta do presidente da República é uma miserá-

vel massa de poeira.


Sempre insistindo na tese de que a vitória de Júlio Prestes nas urnas ti-

nha sido vergonhosamente roubada por ordem e sob a proteção de Washing-

ton Luís ("Só em São Paulo", afirmava, "falsificaram-se por ordem do gover-

no mais de 50 mil votos para o candidato do presidente "), Chateaubriand

tentava estimular os setores mais agressivos da Aliança Liberal a não aceitar

os resultados pacificamente. Para elevar ainda mais a temperatura política, o

imbróglio de José Pereira e seus jagunços prosseguia em Princesa, sem sinais
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CHATÔ, O REI DO BRASIL


visíveis de que o governo federal conseguisse (ou quisesse, já que os revolto-

sos se levantavam contra João Pessoa) pôr fim à revolta. Para responder às

acusações de que estava protegendo o levante do "coronel", Washington

Luís pôs em prática uma esperta jogada política: pediu autorização ao Con-

gresso para realizar intervenção federal não apenas na cidade sob controle de

Pereira, mas em todo o estado da Paraíba - era a forma legal de ter sob seu

punho um dos tripés da oposição ao governo federal, João Pessoa. Como o

Congresso negou a autorização pedida, o presidente reforçou os efetivos fe-

derais no estado e postou um navio de guerra no litoral paraibano.

Chateaubriand acusou Washington Luís, com as medidas que tomara,

de realizar uma intervenção branca na Paraíba, o que violava todas as leis do

país. "Os destacamentos federais foram dispostos", denunciou, "de forma a

dar proteção ostensiva, descarada e cínica aos cangaceiros de José Pereira."

O mesmo Exército "que quarenta anos atrás se recusara a perseguir escra-

vos, hoje foi transformado pela mais desbragada politicagem", provocava o

jornalista, "em guarda-costas dos Lampiões do Nordeste, da camorra de

Princesa". Para indignação de Chateaubriand, Antônio Carlos reagiu decla-

rando que aguardava "o desdobramento da atitude do presidente ", e Getú-

lio, ainda mais moderado, manifestou esperanças de que "o glorioso Exérci-

to não praticasse excessos". Chateaubriand investiu contra seus próprios

aliados, escrevendo que a nação esperava de ambos que apontassem o pre-

sidente como réu "por esse inominável delito", e não declarações "inocentes

e cândidas " como as que tinham feito: "Já que o presidente intervém nos

negócios internos da Paraíba para proteger o cangaço, o que se espera de ho-

mens como Vargas e Antônio Carlos é que peguem pela gola do casaco o au-

tor desse ato nefando e o denunciem ao Congresso por crime de responsabi-

lidade ". Ou seja, ele queria sangue.

Queria e sabia que em breve ia correr sangue. Sacramentado oficialmen-

te o resultado das urnas, no final de março gaúchos, mineiros e paraibanos

começaram a preparar a revolução. Antigos tenentes de 1922 e ex-oficiais da

Coluna Prestes seriam procurados por Osvaldo Aranha, João Neves e Afrâ-

nio de Melo Franco, e a conspiração caminhava secretamente, com tenentes

e prestistas à frente: a ação no Norte ficaria sob a responsabilidade de Juarez

Távora, no Sul sob o comando de João Alberto e em São Paulo os homens se-

riam Siqueira Campos e Djalma Dutra - todos egressos da Coluna. Getúlio,

Antônio Carlos e João Pessoa se cotizaram e conseguiram levantar 16 mil

contos (uma fortuna equivalente, sessenta anos depois, a aproximadamente

10 milhões de dólares), dinheiro usado por Aranha para mandar comprar ar-

mas clandestinamente na Tchecoslováquia. Entre os conjurados havia uma

unanimidade: o chefe do estado-maior revolucionário tinha de ser o capitão

Luís Carlos Prestes, exilado em Buenos Aires.

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FERNANDO MORAIS
Para enorme decepção de tenentes e aliancistas, porém, o "Cavaleiro da

Esperança" já tinha escolhido outro caminho. Prestes também queria uma

revolução - mas diferente da que estava sendo tramada por Vargas e cujos

objetivos, para ele, tinham sido fielmente traduzidos pela famosa frase do

governador Antônio Carlos: "Façamos a revolução, antes que o povo a faça".

Quando apareceu em sua casa em Buenos Aires o tenente Siqueira Campos,

um dos primeiros a sondá-lo sobre a conspiração que estava em curso no

Brasil, Prestes fez uma pergunta desconcertante a seu velho companheiro de

Coluna:

- Mas, Siqueira, você vai participar de uma revolução junto com Artur



Bernardes, Epitácio Pessoa, Borges de Medeiros, com essa cambada toda?

- Esses são os primeiros que eu fuzilo.

Prestes riu do que considerou uma ingenuidade romântica:

- Imagine! Eles o fuzilam primeiro, porque a força está com eles, não

com você.

Apesar das objeções que fazia à proposta aliancista, Prestes chegou a ter

dois encontros clandestinos com Getúlio, em Porto Alegre, para conversar

sobre o assunto. Mas foi de Osvaldo Aranha, que o visitou na capital argen-

tina, que ouviu o convite formal para assumir o comando militar da revolu-

ção. Mais do que isso, Aranha depositou na conta bancária dele em Buenos

Aires oitocentos contos de réis - exatos 86 mil dólares da época, um dinhei-

rão -, recursos destinados a cobrir as primeiras despesas militares.

Na verdade Prestes já vinha sendo cortejado fazia muito tempo por

agentes da Internacional Comunista, com sede em Moscou, para aderir for-

malmente ao marxismo. Em abril, finalmente, ele escreveu um caudaloso

manifesto de 150 linhas, em que expunha suas idéias sobre o Brasil, de uma

maneira geral, e particularmente sobre a revolução pregada em surdina pela

Aliança Liberal. Farto da divergência que cada dia mais o distanciava de

seus companheiros de luta - quase todos agora solidários com Vargas - e

preocupado em ser fiel a seus principais camaradas da Coluna, semanas de-

pois de escrever o documento ele convocou para uma reunião em Buenos

Aires aqueles em que mais confiava: Miguel Costa, João Alberto, Cordeiro

de Farias, Djalma Dutra e Siqueira Campos. Duro, Prestes disse que a deci-

são deles de apoiar Vargas o transformara em um "general sem soldados":

- A ruptura entre nós já é clara, mas eu quis ser leal a vocês até o fim.

Não publicaria nenhum documento no Brasil antes de dar conhecimento

dele a vocês.

Leu para eles, em seguida, o manifesto que, originalmente, pretendia

que fosse publicado no dia 5 de julho (aniversário das revoltas de 1922 e

1924), data que os acontecimentos políticos no Brasil se encarregariam de an-

tecipar. Todos tentaram demovê-lo da decisão, dizendo que afinal, depois de

tanta luta, tinha chegado a hora deles. "Tudo o que você diz nesse documen-

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CHATÔ, O REI DO BRASIL


to é verdade", disse um dos presentes, "mas isso é coisa de apóstolo, e ne-

nhum de nós nasceu para o apostolado." Prestes anunciou que nem adian-

tava mais conversar, porque a contagem regressiva havia começado: uma

cópia do documento já estava nas mãos do repórter Rafael Correa de Olivei-

ra, com autorização para publicá-lo em um dos jornais de Chateaubriand tão

logo ele desse conhecimento de sua íntegra àquele pequeno grupo que ago-

ra se reunia em Buenos Aires.

De novo a alma de repórter de Chateaubriand iria se sobrepor à sua me-

tade política. Embora o texto de Luís Carlos Prestes representasse o mais

duro golpe desferido contra a Aliança Liberal desde a derrota de 1º de mar-

ço, ele não teve dúvidas em autorizar sua publicação. Ninguém, nenhuma

revolução o convenceria a perder um furo daqueles. Por via das dúvidas, e

para evitar qualquer constrangimento, ele preferiu publicá-lo sem consultar

nenhum líder aliancista - só recomendou que os jornais ressalvassem que

o faziam apesar de discordar do seu conteúdo. No dia 29 de maio, metade

da primeira página dos dois Diário da Noite - tanto o do Rio como o de São

Paulo - era ocupada pelo documento, intitulado "O manifesto do chefe re-

volucionário ao povo brasileiro - O capitão Luís Carlos Prestes define a sua

atitude atual".

Nem seria necessário ler o documento até o final para conhecer seu sig-

nificado. Bastava ver quem eram seus destinatários, coisa que Prestes escla-

receu logo na abertura: aquelas linhas eram dirigidas "ao proletariado sofre-

dor das nossas cidades, aos trabalhadores oprimidos das fazendas e das

estâncias,à massa miserável do nosso sertão". A campanha que antecedera

as eleições de março nada mais era do que "a luta entre os interesses contrá-

rios de dúas correntes oligárquicas". Sovada do princípio ao fim, a Aliança

Liberal é acusada de silenciar após a perseguição política "de que foram ví-

timas as associações proletárias de todo o país". Até no Rio Grande, terra na-

tal e principal base política de Vargas, o mais ilustre de todos os aliancistas,

"em plena fase eleitoral foi iniciada a mais dura perseguição aos trabalhado-

res ". Prestes bate nos latifundiários, no "imperialismo anglo-americano", no

que se considerava a entrega das riquezas nacionais a grupos estrangeiros-

e deixa absolutamente claro que com os aliancistas de Vargas não tem con-

versa: "A revolução brasileira não pode ser feita com o programa anódino

da Aliança Liberal. Uma simples mudança de homens, um voto secreto, pro-

messas de liberdade eleitoral [...] nada resolvem". Apesar de ter ficado com

o dinheiro dos aliancistas, Prestes queria fazer não a revolução deles, mas

outra, que levasse a um governo "baseado nos conselhos de trabalhadores

da cidade e do campo, soldados e marinheiros". Em bom português, o que

Luís Carlos Prestes pregava era a revolução dos sovietes, como a que já ti-

nha dado certo do outro lado do mundo, em Moscou - para onde, aliás, ele

se mudaria meses depois, levando consigo a mãe e as quatro irmãs. A fór-


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FERNANDO MORAIS


mula encontrada por Chateaubriand para contrabalançar o estrago causado

pela publicação de um documento tão duro com a Aliança foi fazê-lo reper-

cutir negativamente. Além de escrever, ele próprio, vários artigos condenan-

do o conteúdo do manifesto ("um documento infeliz, em que o autor rompe

com tudo, com os companheiros e com os amigos "), mandou seus jornais ou-

virem, em todo o país, quem quer que tivesse algo a dizer contra Prestes, seu

manifesto e a exótica ideologia que ele acabara de desposar.
Se o rompimento público de Prestes representou um enorme transtorno

para a Aliança, uma tragédia passional ocorrida semanas depois iria revigo-

rar o movimento por todo o país, transformando-se no estopim de que os re-

volucionários tanto precisavam. Chateaubriand jantava com Antônio Carlos

em Belo Horizonte na noite de 26 de julho, um sábado, quando Austregési-

lo de Athayde ligou do Rio para comunicar-lhe a nova bomba: João Pessoa

fora assassinado com dois tiros horas antes em uma confeitaria de Recife. O

matador era João Dantas, um amigo de José Pereira.

Embora o assassino fosse ligado por laços familiares a inimigos de Pes-

soa, e apesar de sua amizade com o "coronel" de Princesa, ninguém tinha

dúvidas de que se tratava de um crime passional. Suspeitando que José Pe-

reira estivesse estocando armas clandestinamente na capital paraibana, a po-

lícia de joão Pessoa passou a varejar as casas de seus amigos. Ao invadir,

quatro dias antes do assassinato, o sobrado do jovem advogado João Dantas

- conhecido correligionário de José Pereira e inimigo declarado do gover-

nador -, os policiais encontraram material politicamente muito mais explo-

sivo do que balas e fuzis: pilhas de cartas de amor trocadas entre Dantas e

sua amante, a jovem e bela poetisa Anaíde Beiriz. Nelas estavam descritas,

com detalhadas minudências, as intimidades do casal em seus encontros

amorosos. Além das cartas, a polícia levou inúmeras fotografias dos dois

nus, em poses e situações eróticas. Ao noticiar a apreensão do material, o diá-

rio oficial da Paraíba, A União, anunciou que, embora o conteúdo das cartas

e fotografias fosse impublicável, tudo estava à disposição da população na

redação. Indignado com a invasão de sua casa e de sua intimidade, ao saber

que João Pessoa viajara a Recife, João Dantas não teve dúvidas: armou-se de

um revólver, invadiu a Confeitaria A Glória, onde o governador confrater-

nizava com amigos, e matou-o com dois tiros no peito.

Ao receber a notícia, Chateaubriand largou o prato pela metade e foi

para a redação do Estado de Minas, de onde coordenaria pessoalmente a co-

bertura do crime por seus veículos. Mesmo informado de todos os antece-

dentes do assassinato, ele pressentiu que a chama da revolução renasceria

daquele cadáver. Ligou para o Rio, orientou os editores sobre como tratar o

assunto, telegrafou para o Diário de Noticias de Porto Alegre e só então sen-
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CHATÔ, O REI DO BRASIL


tou-se à mesa de Dario de Almeida Magalhães para escrever seu artigo. Na

manhã seguinte, o Diário da Noite do Rio - o campeão de vendagens da pe-

quena rede, então com tiragem de quase 150 mil exemplares diários - es-

tampava a manchete escandalosa, em três linhas, que tinha sido ditada le-

tra por letra pelo dono na noite anterior, por telefone: "João PEssoa

ASSASSINADO! O criminoso: João Duarte Dantas. O responsável: o governo

federal".

Com pequenas diferenças de estilo, era esse o tom geral da cobertura

dos demais jornais. No artigo "Heroísmo e poltroneria", escrito em Belo Ho-

rizonte, Chateaubriand afirmava que "sem fibra para investir contra Minas

e o Rio Grande, o braço da poltroneria oficial abateu-se contra a Paraíba,

pensando em encontrar um adversário fraco e tímido, mas a bravura de João

Pessoapreparará uma surpresa terrível à covardia do sr. Washington Luís".

E, sem a menor cerimônia, acusava formalmente o governo federal pelo cri-

me: "João Pessoa foi abatido pelo braço de um sicário armado pelo governo

federal". Um telegrama interrompeu a impressão de O Cruzeiro em Buenos

Aires para que um redator embarcasse no vôo da Latécoère e enfiasse a no-

tícia do assassinato onde ela coubesse. Mudou-se a primeira página da revis-

ta, onde entrou um editorial condenando o crime, e no miolo ainda foi pos-

sível enxertar alguns parágrafos sobre "a consternação nacional provocada

pela tragédia" e uma profusão de fotos de João Pessoa ainda com vida, em

plena campanha de março.

Exatamente como Chateaubriand recomendava que se fizesse com as

metafóricas baleias que encalhavam em suas praias, a Aliança Liberal apro-

veitou até a última gota de sangue do cadáver de João Pessoa. Como não ti-

nha sentido encerrar o episódio com um modesto funeral provinciano, a pri-

meira decisão tomada foi a de que o corpo, embalsamado em Recife, seria

velado na Paraíba, transportado até o Rio (onde vivia a família do governa-

dor morto) para ser sepultado com todas as honras no cemitério São João Ba-

tista. Enquanto isso, o crime era manchete diária de todos os jornais de Cha-

teaubriand. O corpo ainda se encontrava em visitação pública na capital

paraibana - que na época tinha o mesmo nome do estado - quando circu-

lou, antecipada em alguns dias, a edição seguinte de O Cruzeiro. Em cinco

páginas encimadas apenas pelo título "Epílogo,de um drama político", sem

texto e com minúsculas legendas, a revista saiu com dez enormes fotogra-

fias de todos os ângulos do cadáver de João Pessoa ainda no necrotério de

Recife. Eram closes do peito furado pelas balas de Dantas, das mãos crispa-

das sobre o corpo, do cadáver na mesa de necropsia, coberto pela bandeira

nacional, do corpo já no caixão, cercado de flores. Na última fotografia, uma

multidão disputava "a honra de carregar o esquife '.

O corpo permaneceu dois dias embalsamado em Recife e, depois de de-

morado desfile pelas principais ruas da cidade, foi levado de trem para a Pa-


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FERNANDO MORAIS


raíba no dia 28. Na capital, para transpor as poucas centenas de metros que

separavam a estação de trem da matriz de Santo Antônio, onde o corpo se-

ria velado, a massa que carregava o caixão demorou quatro horas. Ali o ca-

dáver de João Pessoa permaneceu por mais dois dias. A previsão era de que,

na manhã do dia 31, seria embarcado de avião para o Rio e lá sepultado em

seguida. Foi quando alguém se deu conta de que o presidente eleito, Júlio

Prestes, estava para retornar ao Brasil, depois de longa turnê por Europa e

Estados Unidos. Por que poupá-lo do transtorno de ter de conviver, por um

dia que fosse, com o cadáver do homem de quem ele roubara a vitória nas

urnas? Se a volta estava prevista para acontecer entre os dias 4 e 5, por que

lhe dar de presente um desembarque depois do sepultamento de Pessoa?

Era preciso obrigá-lo a suportar, nem que fosse por 24 horas, aquele cadáver

; incômodo e insepulto. Não, o enterro só poderia acontecer depois que Júlio

Prestes pisasse em solo brasileiro. Portanto, nada de avião. O transporte do

corpo por navio seria mais solene - e mais demorado. Como escreveria no

Jornal do Brasil o jornalista Barbosa Lima Sobrinho, presidente da Associação

Brasileira de Imprensa da época, "nenhuma caravana política, de tantas que

percorreram o Brasil na campanha aliancista, pôde fazer pela causa o que esse

funeral vai conseguindo. João Pessoa vivo foi uma voz contra a Revolução,

mas João Pessoa morto foi o verdadeiro articulador do movimento revolu-

cionário ".

O vapor Rodrigues Alves, do Lloyd Brasileiro, atracou no porto de Cabe-

delo no dia 31 para receber o esquife de joão Pessoa e iniciar uma viagem de

sete dias até o Rio de Janeiro. Ainda faltavam três dias para chegar à capital

federal quando o Almirante Jaceguay (também do Lloyd e colocado à disposi-

ção de Júlio Prestes para sua viagem oficial ao exterior como presidente elei-

to) atracou no cais do Rio trazendo o ilustre passageiro e sua numerosa co-

mitiva. Na manhã seguinte, os seis jornais de ChateaubriaMd estampavam

um artigo curto, assinado pelo dono, mas de cortante crueldade. Intitulado

apenas "Júlio Prestes e João Pessoa", nele Chateaubriand estabelece uma

comparação entre os dois passageiros que naqueles dias desembarcavam no

Rio - tal qual haviam planejado os aliancistas:


O chefe do estado paraibano chega ao Rio exterminado pela política miserável

que o poder central estimula no Norte do Brasil desde que o sr. João Pessoa pra-

ticou o crime sem qualificativos de não aceitar a candidatura Júlio Prestes. Já o

outro passageiro, o sr. Júlio Prestes, regressa à capital da República depois de

uma excursão aos Estados Unidos e à Europa - onde, se não aliviou a sorte do

café, foi vitorioso no que diz respeito a jantares, almoços, piqueniques e outras

festas pantagruélicas.

O sr. Júlio Prestes chegou palmilhando as ruas da cidade com seus próprios

pés, mas chegou morto. E dentro da urna de madeira em que viaja o corpo de

João Pessoa palpita um grande coração. O governador da Paraíba chega ao Rio

vivo como nunca.

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CHATÔ, O REI DO BRASIL
Estimulando deliberadamente um clima de comoção para esperar a che-

gada do corpo de João Pessoa, no dia seguinte Chateaubriand escreveria ou-

tro artigo, desta vez conclamando a população a acompanhar o corpo até o

cemitério. "Indigno, absolutamente indigno da cidadania brasileira ", ele ati-

çava, "será o homem válido que se deixar ficar em casa, no escritório ou na

repartição pública amanhã, por ocasião da chegada do corpo de João Pessoa

e da saída do esquife para o cemitério." Como um repórter comum, no dia 7

o jornalista resolveu sair no meio do povo que fora ao cais buscar o caixão.

Ao lado de estudantes e populares em prantos, ajoelhou-se com a multidão e

cantou o Hino Nacional. O que ele queria ali era recolher, em pessoa, as ima-

gens mais emocionantes para o artigo a ser escrito no fim do dia. Quem co-

nhecia o Chateaubriand cético, corrosivo e irônico não o identificava no cho-

roso texto publicado em primeira página por seus jornais, no dia seguinte:
Acabo de presenciar agora, tanto no cais como diante da catedral, cenas que me

deixaram os olhos rasos d'água e que me deram a certeza do que será capaz o

Brasil. Na praça fronteira à grande nave encontrei uma mulher do povo, que so-

luçava com uma criança de três anos pela mão. Perguntei-lhe de onde ela vinha

e o que fazia ali. Era do Engenho Novo. O movimento liberal a empolgara. Tra-

zia consigo um retrato, cortado de um jornal sujo, do bravo herói paraibano.

Desde as oito horas da manhã estava na cidade aquela humilde operária, empe-

nhada em que o filhinho contemplasse ao seu lado o rosto varonil do Presiden-

te-Soldado. E disse-me esta frase, sufocada em pranto: .

- Eu quero que ele se crie no exemplo deste homem!

Beijei-lhe as mãos toscas, soluçando também diante de tanta reserva admirá-

vel de espírito público. No cais Mauá deparei com dois pequenos colegiais que

choravam nervosamente. Um lia para o outro o esplêndido artigo do sr. Mace-

do Soares no Diário Carioca de hoje, e no olhar de ambos chamejava uma foguei-

ra de revolta e de indignação contra os covardes que mataram o extraordinário

Lidador.


Eu não poderia descer a esmiuçar todos os detalhes das cenas de puro enle-

vo cívico, de estupenda elevação patriótica, de surpreendente exaltação moral

que me devastaram os nervos, esta manhã, diante do esquife de João Pessoa. Ele

está ali, morto, na catedral, bem o vemos na hirta realidade que nos desola. Mas

seu coração palpita no mesmo ritmo heróico dessa massa imensa.
Chateaubriand e a Aliança Liberal tinham efetivamente conseguido

transformar o cadáver de João Pessoa em uma verdadeira "baleia encalhada

numa praia de famintos ". As últimas fatias daquele cetáceo político foram

devoradas em oito páginas na edição seguinte de O Cruzeiro - que, sob o tí-

tulo "O exaltador funeral do presidente da Paraíba", transformaram o enter-

ro da vítima de um crime passional em uma colossal apoteose política.


221

#
FERNANDO MORAIS

A alma de João Pessoa parecia afinal descansar em paz, mas Chateau-

briand soube por Osvaldo Aranha que a data da revolução tinha sido mar-

cada: o movimento iria eclodir simultaneamente no Rio Grande do Sul, na

Paraíba e em Minas Gerais no dia 26 de agosto, em homenagem ao trigési-

mo dia da morte do governador da Paraíba. Agosto chegou ao fim, porém,

e setembro começou sem que um tiro tivesse sido disparado. Aquela já era a

segunda vez que algum líder aliancista revelava a Chateaubriand uma nova

data para a revolução e nada acontecia. No final de agosto, o escritor baiano

Afrânio Peixoto comentou com Humberto de Campos que semanas antes

Chateaubriand lhe dera uma carona e, dentro do carro, fizera-lhe uma con-

fidência:

- Não diga nada a ninguém, mas dentro de quinze dias a revolução es-

tará vitoriosa no Brasil inteiro!

* Peixoto espantou-se por ter sido escolhido para depositário de um se-

gredo como aquele. Chateaubriand continuou:

- Mas não se assuste, porque você está fora de perigo. Na Bahia só vai

escapar você.

- Mas e os outros, serão fuzilados?

- Se não reagirem, serão poupados. Isto é, serão exilados em Clevelân-

dia ou Cucui, na selva amazônica.

O escritor não parecia levar aquela conversa a sério:
222

#
CHATÔ, O REI DO BRASIL


- Mas isso é o fim! Eu tinha planos de ser deportado para Mato Gros-

so. Estou escrevendo um romance ambientado em Mato Grosso e minha mu-

lher não me deixa viajar para lá. Se eu for deportado para lá ela não tem

como me impedir.

Quando se queixava da tensão provocada por aquele marca-desmarca,

Chateaubriand ouvia sempre a mesma explicação - aquela era a fórmula

imaginada para despistar o inimigo e tentar detectar alguma infiltração no

movimento. Mas o que ocorria, de fato, é que os revolucionários chegaram à

conclusão de que seria uma temeridade permitir que ele, Chateaubriand,

fosse informado previamente da data real. As experiências anteriores, tanto

com o discurso de João Neves quanto no caso do manifesto de Prestes, eram

eloqüentes o bastante para alertá-los contra Chateaubriand. "Ele é um alia-

do leal", reconhecia Aranha, "mas é louco o suficiente para anunciar a revo-

lução em manchete em seus jornais com dois dias de antecedência, só pelo

prazer de "furar os concorrentes." Em meados de setembro, falando com ele

por telefone, Pedro Moura, diretor do Diário de Noticias de Porto Alegre, deu

a entender que a coisa estava por um fio:

- Venha logo para Porto Alegre, venha ver de perto o filme que os cau-

bóis do pampa vão desenrolar dentro de poucos dias.

No começo da noite ele passou na redação de O Jornal e escreveu seu ar-

tigo diário. Sob o irônico título de "A palavra de um conservador", elogiava

um discurso feito por Getúlio Vargas: "A parte política do pronunciamento

do sr. Getúlio Vargas é uma passagem tesa, altiva. Ela tem a virtude de con-

ferir ao sr. Washington Luís a iniciativa de todos os crimes - pelos quais os

amigos do presidente dizem que somente serão capazes de o responsabili-

zarem as índoles demagógicas deste país. Pois o autor é a negação do dema-

gogo, é um conservador obstinado - e suas palavras valem como a conde-

nação da história aos crimes monstruosos do sr. Washington Luís ". Saiu do

jornal às dez da noite e passou no Hotel Glória, onde ouviu uma estranha

história contada pelo deputado José Cardoso de Almeida, líder do governo

federal na Câmara. O parlamentar paulista disse ter recebido um recado de

um deputado mineiro, parente de um oficial da Força Pública de Minas, a

cujos ouvidos tinha chegado a notícia de que a revolução iria estourar no dia

seguinte, 3 de outubro, às cinco da tarde. Cardoso de Almeida contou que

correu ao palácio para transmitir a informação a Washington Luís:

- Às seis da tarde estive no Catete com o presidente e narrei-lhe o epi-

sódio. Ele riu muito e disse que eu estava vendo fantasmas, estava com

medo de sombras. Diante da reação do presidente, recusei-me a insistir no

assunto.

Duas horas depois, no entanto, continuou o deputado, Washington Luís

ligou para o hotel pedindo que ele fosse com urgência à estação de trens da
223

#
FERNANDO MORAIS


Central do Brasil para pedir a dois ou três companheiros de bancada que não

embarcassem para São Paulo, porque o Congresso seria convocado extraor-

dinariamente para discutir uma mensagem do Executivo propondo a im-

plantação do estado de sítio no Rio Grande do Sul: o presidente recebera a

confirmação de que um golpe de Estado, ou revolução, eclodiria na tarde se-

guinte em Porto Alegre.

Chateaubriand voltou como um desesperado para a redação do jornal.

Já era quase meia-noite, mas ele disparava telefonemas e telegramas para to-

dos os lados, sem conseguir encontrar seus amigos da liderança da Aliança

Liberal. Por fim localizou Filipe de Oliveira, que acabara de ler uma men-

sagem secreta assinada por Osvaldo Aranha e datada do dia 25 de setembro

confirmando tudo o que ouvira do conservador Cardoso de Almeida: a

revolução ia mesmo explodir no dia seguinte às cinco da tarde simultanea-

mente em Porto Alegre, Belo Horizonte e Paraíba. Deu um murro na

mesa, espantando Austregésilo de Athayde, que assistia a tudo de olhos

arregalados:

- Cachorros! Os cachorros da Aliança me enganaram! A revolução vai

rebentar amanhã à tarde em Porto Alegre! Eu aqui arriscando minha pele e

na hora H esses cornos me deixam de fora! Chame o Amâncio e o Benedito

imediatamente.

Mais alguns telefonemas e ele conseguiu acordar em casa o gerente da

empresa aérea Sindicato Condor, que tinha um vôo dali a pouco, às cinco e

meia da manhã, com destino à capital gaúcha. O funcionário foi até a cida-

de, abriu o escritório da companhia e emitiu um bilhete em nome de Cha-

teaubriand, no valor de setecentos mil-réis, que uma hora depois o motoris-

ta Benedito colocava sobre a mesa. Com a passagem garantida, conseguiu

uma milagrosamente rápida ligação telefônica para seu irmão Oswaldo, em

São Paulo. Temendo que houvesse escuta policial na ligação, procurava fa-

lar em código. Pediu que Oswaldo mandasse Ismael Ribeiro, gerente admi-

nistrativo dos Diários em São Paulo, esperá-lo no ancoradouro de aviões do

porto de Santos no começo da manhã, quando o hidroavião faria uma esca-

la na cidade para reabastecimento. Para desviar a atenção da polícia e do go-

verno, deu ordens para que O Jornal e o Diário da Noite do Rio noticiassem

que ele estaria presente à missa que seria rezada na manhã seguinte na cate-

dral metropolitana carioca, com a presença de todos os funcionários de suas

empresas, como abertura dos festejos de inauguração da nova sede da rua

Treze de Maio. Isso feito, voltou-se para Athayde:

- Caboclo, venha comigo. Eu tenho o sono muito pesado e posso não

ouvir o despertador. Você vai dormir comigo para garantir que às quatro e

meia da madrugada eu esteja de pé. Mande acordar o contador, peça para

ele retirar o dinheiro que houver do caixa do jornal e entregar ao Gallon, lá
224

#
FERNANDO MORAIS


em casa. Preciso de tudo que tivermos em caixa, não sei quanto tempo vou

ficar fora.

Maria Henriqueta e Fernandinho, como de costume, dormiam em quar-

tos do pavimento superior. No dormitório de Chateaubriand, embaixo, ha-

via apenas uma cama de solteiro, que os dois tiveram que dividir. Chateau-

briand colocou o camisolão e a touca, e Athayde só tirou o paletó e a gravata

para deitar-se. Excitado com a agitação da noite, Amâncio decidiu não dor-

mir, apenas sentou-se sobre o colchão estendido contra a porta de entrada, o

38 vigilante na mão direita. Marcado por precaução para chamá-los às qua-

tro e quinze, o despertador seria dispensável, diria Athayde seis décadas de-

pois:

- Eu não consegui dormir nem um minuto. Um pouco por ansiedade e



muito porque, apesar daquela touca estranha, ele roncou como um filho da

puta.


Às cinco horas da chuvosa manhã daquela sexta-feira, 3 de outubro de

1930, Chateaubriand chegava au aeroporto do cais Pharoux, no centro do

Rio, acompanhado por Athayde, Amâncio e Benedito. Cumprindo as exi-

gências da legislação aeronáutica brasileira de então, subiu numa dessas ba-

lanças de açougue, enquanto um sonolento funcionário anotava em seu bi-

lhete: "Peso: 50 quilos". Como na quinta-feira fora o dia do pagamento

semanal dos salários dos jornalistas, o dinheiro disponível no cofre do jor-

nal, e que fora entregue a ele, era uma mixórdia insuficiente até para pagar

duas passagens aéreas de uma viagem como aquela: pouco mais de um con-

to de réis. Além do dinheiro, levava uma pequena valise de mão contendo

uma capa de chuva, um chapéu, uma camisa, uma cueca e objetos de higie-

ne pessoal. No bolso interno do paletó ia um maço de folhas de papel para

anotações, um lápis e uma lista de endereços e telefones de aliancistas do

Sul. Ao ver o revólver pendurado na sua cintura, um funcionário da Condor

aproximou-se discretamente dele e, sem falar nada, apontou o dedo para o

item b das "Condições gerais de voo", impressas atrás da passagem: assim

como não se podia fumar em nenhum momento do vôo, era expressamente

proibido portar arma de fogo dentro dos aviões da companhia. A contragos-

to, desabotoou o coldre e entregou o revólver ao inseparável Amâncio, que

não saía de perto. Às cinco e meia, pontualmente, Chateaubriand embarcou

no hidroavião Junkers G-24 da Condor, com destino ao tão esperado faroes-

te que estava começando nos pampas.


226

14
Chateaubriand viajou certo de que chegaria à capital gaúcha a tempo de

se juntar às tropas revolucionárias. Se era de oito horas a duração prevista

da viagem, incluídas as escalas em Santos e Florianópolis, às três e meia da

tarde o Junkers estaria pousando nas águas do rio Guaiba, no centro de Por-

to Alegre. Ele teria duas horas de folga, tempo mais que suficiente para lo-

calizar as lideranças da Aliança Liberal, alistar-se como voluntário e aderir à

luta armada. O vôo poderia atrasar até uma hora e meia, portanto, sem que

isso perturbasse seus planos.

O dia tinha nascido escuro, sob cerração baixa e úmida, trazendo uma

manhã horrorosa - circunstância que obrigava o experiente piloto alemão

Heinz Puetz a voar a pouco mais de cinqüenta metros de altitude. De den-

tro do avião, os nove passageiros que lotavam a minúscula cabine tinham a

impressãu de que a água do mar revolto chegava a respingar nos enormes

flutuadores pendurados sob a aeronave. Quando olhavam para cima só

viam o negrume do céu. Dos lados a situação não era melhor, com a linha do

horizonte coberta de bruma cor de chumbo. Para vencer o trajeto de pouco

mais de trezentos quilômetros que os separava de Santos (e que Chateau-

briand voara dezenas de vezes em menos de duas horas), gastaram quase

quatro longas e penosas horas. À medida que o aparelho aproximava-se do

cais, depois de pousar no litoral santista, Chateaubriand pôde divisar, de cha-

péu e terno escuro, a fiKura de seu gerente paulista, Ismael Ribeiro. Valendo-

se da amizade que fizera com o piloto Puetz nas longas horas de vôo, pediu

permissão para descer por alguns minutos e conversar com o empregado.

Enquanto os dois sussurravam - Chateaubriand de pé sobre um dos

flutuadores e Ribeiro no cais -, a cinco metros de distância, a bordo de uma

lancha com o motor desligado, dois policiais paulistas, fardados, tentavam

em vão ouvir o que o jornalista dizia. Chateaubriand percebeu o interesse

dos dois e falou ainda mais baixo. Ele recomendava a Ribeiro que entupisse

de bobinas de papel de jornal os porões do prédio do vale do Anhangabaú,

pois ninguém podia prever o que ia acontecer no país a partir das cinco e

meia da tarde:

- Além de estocar papel, recolha aos colchões e travesseiros todos os

fundos de que dispomos nos bancos. Não deixe nada em burras alheias.


227

#
FERNANDO MORAIS


Além disso, diga ao Oswaldo para retransmitir a todos a ordem que já bai-

xei no Rio e em Minas: durante o curso da luta, que suponho será longa, que-

ro que se guarde absoluta moderação nos nossos diários.

Reabastecido, o avião decolou com destino a Florianópolis, mas não

chegou a avançar 150 quilômetros. O nevoeiro voltou a fechar quando se

aproximavam de Iguape, obrigando Puetz a pousar no estreito braço de mar

que separa a ilha Comprida do continente. Os quase cinqüenta quilômetros

seguintes foram vencidos com o avião "voando em degrau", com os flutua-

dores esquiando sobre as águas do canal. Irritado com o atraso, Chateau-

briand comentou com o passageiro que ia a seu lado, o industrial e engenhei-

ro Luís Betim Paes Leme:

- Esta merda tem três motores de 110 cavalos cada um e foi feita para

voar. No entanto, estamos aqui como passageiros de um canard glisseur, des-

lizando sobre a água. Em vez de voarmos a 180 quilômetros, patejamos à ve-

locidade de quarenta, cinqüenta quilômetros por hora. Isto não é uma aero-

nave, é um humilhante bacurau.

Pouco antes do meio-dia a neblina tinha descido até perto do lençol

d'água, impedindo o piloto de enxergar mais de cinco metros além do bico

do aparelho. Puetz desligou os motores e deixou o avião boiando em frente

à cidade paulista de Cananéia. Levantou-se com o mecânico e o co-piloto e

comunicou aos passageiros que não dava para continuar a viagem:

- Com essa cerração, mesmo deslizando a baixa velocidade sobre o ca-

nal, nós corremos o risco de sofrer um acidente grave. Voar, então, é absolu-

tamente impossível. Teremos que ficar aqui parados até o tempo melhorar.

Como não melhorou, o Junkers permaneceu ancorado no mesmo lugar

durante quatro horas - tempo em que os passageiros nada tiveram a fazer,

senão conversar e olhar centenas de vezes para os dois canhões coloniais

plantados na entrada de Cananéia, apontados para o mar. Dentro do apare-

lho, além do jornalista, aparentemente ninguém mais sabia que o país esta-

va na iminência de uma revolução armada. Para passar o tempo e não ter

que falar de política, Chateaubriand entabulou com Paes Leme uma intermi-

nável conversa sobre o papel do carvão na siderurgia brasileira. Só às três da

tarde (quando deveriam estar sobrevoando Porto Alegre) Puetz decidiu afi-

nal que era possível decolar. Mas deu aos passageiros - e sobretudo a Cha-

teaubriand - uma péssima notícia:

- As condições atmosféricas não nos permitem prosseguir até Porto

Alegre. Vamos avançar apenas mais setenta quilômetros. Em poucos minu-

tos estaremos em Paranaguá, no Paraná, onde dormiremos. Por cortesia, a

Condor providenciará hotel para todos e amanhã decolaremos com destino

à escala de Florianópolis.

Ele ia perder a revolução? Nem pensar! O avião precisava seguir até

Porto Alegre! Mas nem sapateado, nem ranger de dentes, nem ameaças de


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#
CHATÔ, O REI DO BRASIL


processar a companhia aérea - nada convenceu o piloto a voar imediata-

mente para a capital gaúcha, como Chateaubriand exigia, ou pelo menos até

Florianópolis. O engenheiro Paes Leme cochichou no ouvido de Chateau-

briand:


- Eu estou viajando armado. Se o senhor tem algo tão importante a fa-

zer ainda hoje em Porto Alegre, tenho certeza de que, com um revólver no

peito, esse piloto decola e nos leva aonde quisermos.

Familiarizado com o caráter e a valentia de Puetz, Chateaubriand demo-

veu Paes Leme da tentativa de seqüestro. "Esse piloto é capaz de morrer,

mas não se sujeitará às suas exigências", advertiu Chateaubriand. Indiferen-

te aos gritos e protestos do jornalista, o fleumático alemão apenas lia, repeti-

das vezes, um parágrafo impresso no verso da passagem, onde as tais "con-

dições gerais de transporte" diziam expressamente: "No caso de interrupção

forçada da viagem ou de chegada com atraso, aos passageiros não assiste di-

reito de indenização alguma, nem sequer por despesas ou prejuízos causa-

dos pela não-continuação ou interrupção da viagem ou atraso na chegada".

"O que não tem remédio, remediado está", resmungou Chateaubriand

para o colega de viagem, "então vamos para Paranaguá." No porto para-

naense, os dois desceram juntos e, antes de seguirem até o hotel, resolveram

dar uma caminhada para espairecer. Andaram a passos lentos do cais dos hi-

droaviões até o dos navios. Na volta, cruzaram com grupos de trabalhado-

res, todos louros de olhos claros, com ar europeu, que saíam do trabalho.

Chateaubriand olhou o relógio e viu que eram cinco e meia da tarde. Que

mistério... Uma revolução estava explodindo em Porto Alegre naquele mo-

mento, a poucas centenas de quilômetros dali, e um porto da importância de

Paranaguá estava imerso na mais absoluta modorra, como se nada de anor-

mal ocorresse. Será que a revolução tinha fracassado? Ou teriam adiado

mais uma vez o dia de sua eclosão?

Antes de ir para o hotel, passaram por uma barbearia - "nas barbea-

rias sempre se sabe tudo o que está acontecendo", diria Chateaubriand de-

pois. Ambos fizeram a barba, mas ele não ouviu um murmúrio que fosse so-

bre a revolução. Intrigado, andou a pé com Paes Leme até o hotel. Cada qual

tomou um quarto, banharam-se e desceram para um jantar de grandes ca-

marões fritos. Até as onze da noite, quando subiu ao quarto para dormir, não

tivera qualquer notícia do Sul. "Terá Washington Luís esmagado a cabeça da

nossa hidra tão facilmente que nem notícias disso circularam? Ou será que o

movimento não estalou?", ele se perguntava em voz alta, sozinho, deitado

na cama. "Ou estalou, foi sufocado, e as comunicações de Porto Alegre com

o resto do país estão cortadas?" Foi mergulhado nesse cipoal de dúvidas sem

respostas que o jornalista - nu, sem touca ou camisolão, enrolado em man-

tas de lã - dormiu profundamente.
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#
FERNANDO MORAIS


Uma de suas características que Chateaubriand mais gostava de alar-

dear era a capacidade de dormir bem, mesmo nas circunstâncias mais adver-

sas. "O hábito da luta pela vida e dos embates revolucionários, desde o ver-

dor da juventude", ele comentava sempre, "forjaram em mim um caráter ao

qual nenhuma preucupação é capaz de tirar o sono." Assim, se às seis da ma-

nhã não tivesse sido acordado com golpes na porta, dados por Paes Leme,

provavelmente continuaria dormindo a sono solto. Abriu a janela e, tendo

ido dormir sob garoa fina e céu encoberto por nuvens, surpreendeu-se ao ver

um sol forte lambendo a cidade e cortando uma atmosfera límpida, cristali-

na. Às seis e meia da manhã Heinz Puetz aquecia os motores do avião para

levantar vôo. Tranqüilizou os passageiros: a escala em Florianópolis seria

muito rápida. E, com aquele céu luminoso, de lá até a capital gaúcha a via-

gem demandaria menos de duas horas.

Tão logo o avião pousou ao largo da ilha de Santa Catarina, onde fica

Florianópolis, um funcionário da Condor subiu a bordo com ar grave, tra-

zendo nas mãos um telegrama destinado a Puetz, transmitido da sede da

empresa, no Rio. Curioso, Chateaubriand esgueirou-se entre as valises depo-

sitadas no chão e tentou ler, sobre o ombro do piloto, o conteúdo da mensa-

gem. O telegrama estava escrito em alemão e ele só conseguiu ler uma frase:



em Porto Alegre". O telegrama nãu falava de revolução. Fazia apenas aque-

la breve e enigmática advertência para comunicar ao piloto que o voo para

a capital gaúcha estava cancelado. A viagem terminava em Florianópolis.

Chateaubriand não resistiu e revelou aos três tripulantes (e mais Paes Leme,

que entrara na cabine para ouvir a conversa) o segredo que havia guardado

até então: muito provavelmente uma revolução de caráter nacional tinha ex-

plodido às cinco e meia da tarde do dia anterior em Porto Alegre, Belo

Ho-


rizonte e Paraiba. Contou seu grau de envolvimento com a conspiração e

confessou que estava a caminho de Porto Alegre para se alistar como volun-

tário ao lado dos insurretos.

Ao ouvir aquela história, Paes Leme agarrou Chateaubriand pela man-

ga do paletó, desceu com ele até o cais e manifestou sua preocupação:

- O senhor está metido nisso até a raiz dos cabelos e nós estamos imo-

bilizados em Santa Catarina, um dos estados mais fortemente solidários com

Washington Luís. Qualquer soldadinho que souber de sua presença aqui vai

levá-lo imediatamente para a cadeia. Temos que tirá-lo daqui de qualquer

jeito. Quanto dinheiro o senhor carrega?

O industrial estranhou a resposta dada por aquele que era um dos jor-

nalistas mais poderosos do país. Chateaubriand enfiou a mão no bolso da

calça e tirou meia dúzia de cédulas amassadas:

- Um conto e quinhentos, se tanto. Mas por quê? Dinheiro não vale

nada se não temos quem nos transporte.
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CHATÔ, O REI DO BRASIL


O industrial estava animado:

- Doutor Assis, o telegrama cancela a viagem para Porto Alegre, mas

podemos tentar fazer o piloto voar até a praia de Torres, já no Rio Grande.

Lá o senhor estará a salvo.

Ele não tinha qualquer esperança:

- Desista, eu conheço o Puetz. Isso é alemão, treinado para receber e

cumprir ordens.

Paes Leme insistiu:

- O senhor já teve provas de que esse alemão é valente, mas quem ga-

rante que ele é incorruptível? Me dê seu um conto e quinhentos. Tenho vin-

te contos na minha pasta. Vou oferecer esse dinheiro ao piloto para ele levá-

lo até Torres. Daqui até lá são duzentos e poucos quilômetros; com esse

tempo, se ele quiser, faz esse trecho em pouco mais de uma hora - e sem

desobedecer o telegrama, que não fala em Torres, só fala em Porto Alegre.

Sem esperar a reação do outro, correu sobre o flutuador e entrou na ca-

bine. Segundos depois Chateaubriand ouvia os gritos de Puetz, descompon-

do Paes Leme em português e alemão com palavrões incompreensíveis e

empurrando-o, aos safanões, para fora do avião. O industrial - que no ca-

minho de volta ainda tivera tempo de pegar a pasta - desceu meio pertur-

bado com a cena que acabara de provocar. Desculpou-se com o alemão, que

continuava berrando da porta do avião, e levou Chateaubriand até um pe-

queno píer de ferro. Abriu a pasta, tirou dois maços de cédulas amarrados

com um elástico e estendeu-os em direção ao jornalista:

- Leve esses vinte contos, o senhor vai precisar. Quando nos virmos de

novo, o senhor me paga. E, se for preso, prepare-se: esse negócio de prisão

política é como lista de convidados para festas em embaixadas. Uma vez que

se entra nelas, nunca mais se sai. Nem mesmo depois de morto. Não se dei-

xe prender, senão toda vez que houver uma crise no país, não importa de

que lado o senhor estará: a polícia política, só por hábito, vai buscá-lo.

Luís Betim Paes Leme deixou de pé, no trapiche, um Assis Chateau-

briand atônito, com um maço de dinheiro em uma das mãos e uma mala na

outra. Caminhou em direção à ponte e sumiu nas ruas de Florianópolis.


Na hora que Chateaubriand comia os "olímpicos camarões fritos de Pa-

ranaguá" em companhia de Paes Leme, na noite anterior, Porto Alegre já es-

tava nas mãos dos rebeldes. Pontualmente, às cinco e meia da tarde,

confor-

me previa o bilhete secreto lido por Filipe de Oliveira, o próprio autor da



mensagem, Osvaldo Aranha, junto com o também conspirador José Antônio

Flores da Cunha e à frente de cinqüenta homens bem armados, tomou de as-

salto o quartel-general da 3' Região Militar, na capital gaúcha. Após horas de

intensa luta com tropas leais ao governo, era ocupado um segundo quartel,


231

#
FERNANDO MORAIS


situado no morro do Menino Deus, onde estava depositado o maior arsenal

governista no Sul do país. Em Belo Horizonte não tinha sido muito diferen-

te: sob o fogo cerrado de civis e de tropas da Força Pública mineira (a mes-

ma que Chateaubriand havia sugerido deixar em prontidão), centenas de

soldados do 12º Regimento de Infantaria aderiram aos revolucionários, e as

forças oficiais acabaram se rendendo, com um saldo de dezesseis legalistas

mortos. Por um equívoco de comunicação, Juarez Távora só faria eclodir a

revolução no Norte no dia 4, quando tomou a mais importante guarnição fe-

deral da Paraíba, o 22º Batalhão de Infantaria. De novo governador de Per-

nambuco, o mesmo Estácio Coimbra que resistira ao lado de Chateaubriand

aos tiros de Dantas Barreto, dezenove anos antes, era obrigado, mais uma

vez, a abandonar Recife, acuado pelos rebeldes, e fugir para Salvador, onde

os legalistas do Norte e Nordeste pretendiam reaglutinar suas forças.

No Rio de Janeiro, sede do governo federal, a situação era menos tensa.

Apanhados de surpresa, os deputados federais discutiam temas banais na

tribuna do Palácio Tiradentes enquanto os gaúchos já estavam se levantan-

do em armas. Quando soube que Assis Chateaubriand havia embarcado em

direção ao Sul, Washington Luís mandou que expedissem uma ordem de

prisão contra ele, distribuída a todas as guarnições federais por onde ele pu-

desse passar. E, ao mesmo tempo, determinou que a polícia invadisse a sede

de O Jornal e apreendesse preventivamente a edição do dia 4 - medida des-

necessária, já que, seguindo as recomendações de moderação do dono, a úni-

ca notícia política publicada tinha sido uma breve nota enviada por agên-

cias internacionais dando conta de que Luís Carlos Prestes tinha sido preso

por algumas horas, no dia anterior, pela polícia de Buenos Aires. De olho em

O Jornal, onde prendeu Gabriel Bernardes (formalmente o presidente da em-

presa) e todos os jornalistas que se encontravam na redação, a polícia se des-

cuidou do Diário da Noite, que acabou noticiando a revolução em manchete

("Um movimento revolucionário em Minas e no Rio Grande do Sul") na edi-

ção do dia 4. Embora também anunciasse a eclosão do movimento, o conser-

vador A Ordem circulou sem ser molestado pela polícia, talvez por expressar

com clareza, na primeira página, sua opinião sobre o conflito:


Há, enfim, uma tentativa revolucionária em Minas e no Rio Grande do Sul. Será

o início da guerra de secessão anunciada desde o primeiro dia pelo sr. Afrânio

de Melo Franco? Não sabemos. Mas esse movimento chefiado pelos srs. Artur

Bernardes, Assis Chateaubriand, Antônio Carlos, Macedo Soares e Borges de

Medeiros constitui o maior escárnio até hoje lançado aos sentimentos de pudor

e de dignidade do povo brasileiro.


Toda a imprensa permaneceria censurada até o triunfo final da revolu-

ção, no dia 24. Só um leitor muito arguto conseguiria ver revolução nas en-

trelinhas da edição do dia 5 de O Jornal. Nela, apesar da censura, se

noticia-


va que na véspera, um sábado, a Câmara Federal aprovara a mensagem do
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CHATÔ, O REI DO BRASIL


governo implantando o estado de sítio no Rio Grande do Sul, Distrito

Fede-


ral, Minas Gerais e Paraíba. Ignorando tudo isso, e sem saber sequer o que

havia acontecido de fato em Porto Alegre na tarde anterior, Chateaubriand

sentia-se em Florianópolis como um animal encantoado. Não tinha como

voltar ao Rio, o que seria um suicídio, e muito menos sabia como chegar em

Porto Alegre. Esta era, no entanto, a única saída, e o primeiro apoio teria de

ser conseguido ali mesmo, na capital catarinense. Embora não houvesse mui-

to risco de despertar suspeitas - Florianópolis não era uma cidade pequena

e pelo menos doze pessoas estranhas haviam desembarcado do Junkers -,

ele abriu a mala em cima de uma mureta, vestiu a capa e enfiou o chapéu na

cabeça. A primeira providência que lhe ocorreu foi procurar Nereu Ramos.

Jornalista, ex-deputado e membro de abastada família que dividia o coman-

do da política catarinense com os Konder Bornhausen, Ramos tinha se tor-

nado um aliancista fervoroso. Chateaubriand o conhecera no Rio meses

antes, durante o funeral de João Pessoa: no trajeto do caixão entre o cais do

porto e o cemitério São João Batista, Ramos fizera uma dúzia de comícios-re-

lâmpago, atiçando a população contra o governo federal.

Conseguiu um telefone na portaria do primeiro hotel que encontrou e

ligou para a casa de Nereu Ramos, um dos números que trazia em sua listi-

nha. Nada feito: alguém do outro lado da linha respondeu que o dono da

casa tinha embarcado quatro dias antes para Porto Alegre. Chateaubriand

lembrou-se de um nome a que Ramos se referira no Rio como sendo um dos

organizadores da Aliança Liberal em Santa Catarina: Henrique Rupp Jú-

nior, também jornalista e ex-deputado. Meia hora depois ele estava na casa

de Rupp, um tedesco troncudo, de meia-idade e cabelo escovinha. Desta vez

batera na porta certa: revelando-se grande admirador seu, Rupp tinha infor-

mações precisas sobre o que acontecia em Porto Alegre. Começou a conver-

sa aconselhando-o a tirar da cabeça a idéia de sair de Florianópolis, já que

não havia meios de se chegar a Porto Alegre pelos caminhos convencionais.

Ainda que conseguissem algum marinheiro maluco que se dispusesse a

transportá-lo, tentar sair pelo mar seria uma ingenuidade: o porto em que ele

desembarcara horas antes estava tomado por tropas do Exército. As estra-

das, tanto para o Sul quanto para o Paraná, haviam sido igualmente

bloqueadas por tropas pró-Washington Luís. Um dos últimos redutos de

lealdade aos legalistas, Santa Catarina era governada pelo recém-empossa-

do deputado Fúlvio Aducci, governista convicto - e que depois de iniciada

a revolução seria um dos últimos governadores estaduais a abandonar o

posto. Como não havia segurança no Paraná, Washington Luís transferira de

Curitiba para Florianópolis a sede da 5' Região Militar e nomeara para

comandá-la o general Nepomuceno Costa (o mesmo que havia sido punido

por impedir o tenente João Cabanas de discursar em Juiz de Fora, Mi-

nas Gerais). Os combates, garantia Rupp Júnior, eram iminentes: ele tinha
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FERNANDO MORAIS


notícias de que em poucas horas o estado seria invadido por três colunas re-

volucionárias vindas do Rio Grande do Sul, uma delas comandada pelo ca-

pitão Trifino Correia - antigo membro da Coluna que aderira à Aliança e

que, cinco anos depois, se juntaria de novo a Prestes na revolta comunista de

1935. A pior notícia ficou para o fim: Washington Luís descobrira que Cha-

teaubriand havia embarcado no vôo da Condor interrompido no meio do ca-

minho, e a ordem de prisão contra ele já havia chegado a Florianópolis.

Rupp se ofereceu para esconder o jornalista em um sítio de sua pro-

priedade, nas cercanias da capital, mas Chateaubriand recusou a oferta de

pronto:


- Eu entro no Rio Grande de qualquer jeito, seu Rupp. Nem que seja a

bala.


Vendo-o tão decidido, Rupp se rendeu:

- Então só há uma alternativa, doutor Assis: tu vais fazer um trajeto

três vezes mais longo e sem estradas. Vais ter que ir pela serra do Lava-Tudo

para atingir Vacaria, já no Rio Grande. Uma parte da viagem dá para fazer

de carro, e eu tenho gente para levar-te em segurança. Daí em diante não há

estradas, e tu terás que ir a cavalo. Eu te darei todos os contatos.

Debruçados sobre um mapa, riscaram a lápis o caminho a ser feito. De

Florianópolis ele seguiria de carro até Bom Retiro. De lá em diante o melhor

era seguir a cavalo pelo cocuruto da serra do Mar até Urubici, e daí, sempre

a cavalo, até São Joaquim. Se não conseguisse avançar até Urubici, tocaria de

Bom Retiro para Canoas, Urupema, Painel e Monte Alegre. Quando chegas-

se a São Joaquim, se a situação militar já estivesse mais favorável aos revo-

lucionários, os contatos que Rupp lhe daria na cidade arranjariam um carro

para levá-lo pela estradinha de terra até Vacaria. Nesta cidade gaúcha ele

estaria protegido pelas tropas do general Valdomiro Castilho de Lima, acan-

tonadas ali exatamente para proteger o nordeste do Rio Grande contra qual-

quer incursão do general Nepomuceno Costa. Estabelecido o trajeto, Cha-

teaubriand enfiou o mapa no bolso, certo de que ia partir em seguida. Rupp

não permitiu:

- Primeiro temos que tirá-lo da minha casa, que é muito visada. Vou

levar-te para a casa do Olívio Amorim, um coiteiro da minha confiança, e só

à noite é que tu vais colocar o pé na estrada.

Às onze da noite Rupp apareceu num carro sem capota trazendo as

duas filhas. Deixou uma delas na casa de Amorim e mandou que Chateau-

briand se preparasse para ocupar o lugar da moça no carro. Se Rupp estives-

se sendo seguido a distância, na escuridão da noite os espias veriam que ele

entrara e saíra da casa com duas pessoas - sem, portanto, esconder ou tirar

ninguém dali. Chateaubriand já se preparava para vestir de novo a capa e o

chapéu quando Rupp Júnior o interrompeu:
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CHATÔ, O REI DO BRASIL


- Não, doutor Assis, eu trouxe uma vestimenta mais segura para essa

viagem. Aqui está.

Era uma batina negra. Ele viajaria disfarçado de padre. Uma das filhas

de Rupp ficou na casa e Chateaubriand ocupou seu lugar no carro conversí-

vel. Rodaram em círculos para se certificar de que não estavam sendo segui-

dos e só então pararam em um subúrbio de Florianópolis, onde dois auto-

móveis os esperavam num lugar ermo. No da frente, onde Chateaubriand

viajaria, estava apenas o chofer, desarmado. No de trás, que os seguiria para

protegê-los em caso de necessidade, três homens bem armados. Faltavam

quinze minutos para a meia -noite quando Rupp entregou-lhe três cartas: a

primeira era dirigida a Gerôncio Thibes, de Bom Retiro, que deveria provi-

denciar meios para que ele alcançasse Urubici e, dali, São Joaquim. A segun-

da era para os irmãos João e Antônio Palma, chefes aliancistas em São Joa-

quim. Caso eles não estivessem na cidade, havia ainda uma terceira carta

para o farmacêutico Hilário Braer, também conspirador aliancista. Não po-

deria haver problemas.

Com a batina sobre o terno e levando nas mãos apenas a capa e o cha-

péu, Chateaubriand embarcou no carro da frente com destino a Bom Retiro,

a pouco mais de cem quilômetros de distância, trecho que, segundo o moto-

rista, deveria ser transposto em três horas e meia, se não encontrassem difi-

culdades pelo caminho. Logo que alcançaram a estrada de terra começou a

chover. O lamaçal em que a pista de terra se transformara obrigou o moto-

rista do carro a parar e colocar correntes nas rodas para evitar derrapagens

ou, o que seria pior, que o carro atolasse e a viagem fosse interrompida no

meio. Os ocupantes do carro de segurança, que os seguia cinco quilômetros

atrás, foram obrigados a fazer o mesmo. A viagem prosseguiu sem obstácu-

los serra acima até perto das três horas da madrugada, quando, já perto de

Bom Retiro, os faróis iluminaram dois troncos atravessando a estrada de

ponta a ponta. Era um pequeno posto policial guardado por soldados gover-

nistas a cavalo, armados de fuzil. Chateaubriand gelou. O motorista queria

acelerar o fordeco sobre os troncos, garantindo que a cavalo os soldados

não


os alcançariam. Chateaubriand foi contra, mandou que ele parasse. Dois mi-

litares armados de pistolas se aproximaram do carro, ambos com lanternas

nas mãos. Iluminaram os rostos dos dois passageiros. Um sargento que tra-

zia um pedaço de papel nas mãos aproximou-se da janela de Chateaubriand

e iluminou o carro por dentro, como se procurasse um terceiro passageiro:

- Boa noite, padre. Recebemos esta mensagem pelo telégrafo de Floria-

nópolis mandando prender o jornalista Assis Chateaubriand. O senhor por

acaso cruzou com ele pelo caminho?

Chateaubriand percebeu que cada um dos demais soldados, montados

em cavalos, trazia uma lanterna na mão esquerda e um fuzil na direita, am-

bos apontados para o carro. Procurando disfarçar o sotaque nordestino, pe-

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FERNANDO MORAIS
diu para ver o telegrama e leu a transcrição manuscrita da mensagem telegrá-

fica: "Fugiu esta madrugada de Florianópolis, provavelmente vestido de mu-

lher, o jornalista Assis Chateaubriand. Deveis detê-lo e devolvê-lo a esta ca-

pital, na condução em que for encontrado. Marinho Lobo, chefe de polícia".

Então a polícia estava vigiando a casa de Olívio Amorim e imaginou

que ele fugira de saias. O motorista quis falar mas Chateaubriand cortou-lhe

a palavra, dirigindo-se ao sargento:

- Conheço ambos: tanto o delegado Marinho Lobo, que assina o tele-

grama, quanto o Chateaubriand que vocês procuram. Passamos por seu fu-

gitivo há mais ou menos uma hora, meu filho. Ele está vindo aí atrás com

mais duas pessoas, em outro carro. Dentro de alguns minutos deve estar

passando por aqui.

O sargento se alvoroçou, mandou que a barreira fosse levantada para o

carro passar e deu ordens para que os soldados apeassem dos cavalos e fi-

cassem em posição de tiro, aguardando o veículo que viria atrás. Livre da

barreira, Chateaubriand pediu ao motorista que aumentasse a velocidade.

Enquanto o carro avançava sobre a lama na estradinha estreita e sinuosa da

serra da Boa Vista, ele intrigava o motorista colocando metade do corpo para

fora e olhando para cima, como se quisesse ver alguma coisa no céu. Minu-

tos depois, quando passavam nas imediações de um lugarejo chamado Ro-

berto Schulz, deu ordens para que o carro parasse e esclareceu o mistério:

- Está vendo esses postes com um único fiu acompanhando a estrada?

Isso é o cabo do telégrafo. Temos que cortar esse fio. Você tem um alicate?

Tinha, mas o fio era muito alto e o poste de madeira, molhado pela chu-

va, estava escorregadio demais para que alguém conseguisse escalá-lo. Cha-

teaubriand aproximou-se de um dos postes e tentou sacudi-lo com as mãos.

Percebeu que o pedaço enterrado no chão já devia estar meio podre, mas não

o suficiente para que dois homens o derrubassem no muque. Decidido, or-

denou ao motorista :

- Vamos derrubar o poste com o carro. Dê pequenas batidas nele até

tombá-lo um pouco. Quando já estiver torto nós o deitamos no chão com as

mãos.


Não foi necessário. À segunda batida a madeira podre sob a terra cedeu

e o poste desabou no chão. Sob a luz dos faróis do carro, Chateaubriand

aproximou-se do fio e partiu-o com o alicate. Juntos, ele e o motorista atra-

vessaram o poste na estrada, pensando em atrasar um pouco mais quem

viesse atrás deles. Subiu no veículo de novo e pediu ao chofer para acele-

rar o carrinho:

- Agora podemos seguir. Com os fios cortados, daqui para a frente nin-

guém saberá que eu sou o falso padre que passou pela barreira. Toque adian-

te, que estamus chegando.
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CHATÔ, O REI DO BRASIL


Bom Retiro não era então mais do que uma vilazinha com meia dúzia

de casas, um boteco, uma farmácia, uma hospedaria e uma igreja protestan-

te. Pararam na primeira casa e acordaram o dono, que apareceu de pijama,

lamparina numa das mãos e carabina na outra. Tranqüilizou-se ao ver o ho-

mem de batina que queria o endereço de Gerôncio Thibes. Era uma chácara

fora da cidade, localizada em poucos minutos. A carta de Rupp Júnior fun-

cionou como uma senha para Thibes colocar-se à disposição de Chateau-

briand. Apesar da hora, acordou a mulher e pediu que ela fizesse uma sopa

para os insólitos visitantes, enquanto planejava a continuação da viagem

com Chateaubriand. Apesar de ter a segurança de que as comunicações es-

tavam interrompidas, ele estava preocupado em ser visto disfarçado de pa-

dre: a ordem de prisão que vira na barreira poderia ter sido distribuída como

uma circular, para todo o estado. Tirou a batina, picou-a em pedaços e jogou

as tiras de pano na lareira que fora acesa por Thibes. E, temendo ser preso

com documentos que comprometessem tanto Rupp Júnior quanto os demais

destinatários das cartas, deu a estas o mesmo destino da batina: queimou-as

no meio da lenha da lareira.

Thibes explicou-lhe que o trajeto proposto por Rupp precisaria ser alte-

rado. A trilha entre Urubici e São Joaquim fora destruída pelas chuvas: se se-

guisse por ali, ficaria bloqueado, sem condições de prosseguir. Ele teria, por-

tanto, que fazer um caminho duas vezes mais longo para chegar a São Joaquim.

Embora os primeiros 25 quilômetros, que levavam a Canoas, pudessem ser

feitos de carro, Thibes achava muito arriscado viajar num carro que já havia

sido identificado pelos legalistas. O melhor era sair de Bom Retiro a cavalo.

De Canoas ele teria de seguir até Urupema, dormir lá (Thibes arranjaria um

guia para acompanhá-lo e fazer os contatos), seguir até Painel, atravessar o

rio e a serra do Lava-Tudo, e só então chegar a São Joaquim. O dono da casa

sugeriu que o jornalista dormisse um par de horas, enquanto ele providen-

ciava os cavalos e o guia que iria servir de batedor na viagem serra adentro.

Antes que o dia clareasse ele deveria abandonar Bom Retiro. Chateaubriand

roncou numa cama improvisada até as cinco e meia da manhã, quando foi

acordado pelo dono da casa. À sua frente estava André, "um polaco louro,

mas rústico como um bugre", ele escreveria depois, o rapazola que iria

acompanhá-lo dali em diante, até Urupema. O jornalista enfiou na cabeça o

chapéu de aba larga que ganhara do engenheiro Baldassini, construtor do

prédio novo do jornal, no Rio, e não pôde deixar de achar engraçado estar

ali, naquele fim de mundo, vestido com a elegante capa azul que tinha com-

prado na Burberry's, em Londres, e nunca usara antes. Os dois montaram e

segundos depois tinham sumido na escuridão.

A viagem, que parecia não terminar nunca, foi feita toda o tempo sob

chuva. Sem parar um instante sequer, os animais subiram a serra durante

nove horas seguidas. Chateaubriand já estava descadeirado pela montaria e


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FERNANDO MORAIS


com as pernas e as nádegas assadas pelo atrito com o arreio, quando, por

volta das duas da tarde - sempre debaixo de chuva e com o céu escuro -,

percebeu que a mata começou a ficar mais rala. De tempos em tempos sur-

giam algumas casinhas esparsas. Estavam afinal chegando a Urupema. An-

dré guiou-o com segurança até a fazenda onde deveriam pernoitar. Quando

puderam ver a casa, de longe, o rapaz ficou preocupado: na porta da frente

havia uma pequena aglomeração. Podia ser a presença do Exército. O me-

lhor era Chateaubriand permanecer no meio do mato, escondido. O guia ga-

lopou com o cavalo até a construção de madeira e voltou minutos depois

desolado:

- Tu não vai acreditar, doutor. É muita urucubaca, mas o Jango Matos,

que deveria coitar o senhor aqui em Urupema, morreu hoje de madrugada,

durante uma caçada. A espingarda disparou e o tiro matou-o na hora. O

povo está ali, velando o defunto.

Mas o "bugre polaco" tinha a saída: em Urupema havia outra pessoa de

confiança de Rupp Júnior, o fazendeiro Maneco Arruda, em cuja casa des-

montaram meia hora depois. Como André explicou a Arruda apenas que

Rupp Júnior pedira que o recém-falecido Jango Matos "recebesse a visita em

sua casa e providenciasse montaria para ele ir até São Joaquim", sem dar

qualquer explicação maior, Chateaubriand ficou com receio de falar dos mo-

tivos que o levavam à cada vez mais distante capital gaúcha. Macambúzio,

Maneco Arruda tampouco fez perguntas, mas pelo que conversaram foi pos-

sível perceber que se tratava de um admirador de Washington Luís. O me-

lhor era ficar de bico fechado.

Almoçaram fartamente a carne de caça que o fazendeiro lhes preparou,

e o dia ainda não escurecera quando os dois forasteiros desabaram sobre as

camas arrumadas às pressas numa casa de colonos vazia. Só aí, quando se

deitaram, é que Chateaubriand viu que André levava sob o enorme gibão de

lã dois revólveres carregados. Conforme haviam pedido, foram despertados

do sono profundo em que estavam mergulhados às quatro horas da manhã

seguinte pelo dono da casa. Fizeram uma rápida refeição e saíram de novo.

A chuva continuava com a mesma intensidade do dia anterior - nem um

aguaceiro nem uma garoa, mas "uma chuvinha criadeira", dissera André

numa das raras vezes em que abriu a boca. Os emplastros que a mulher de

Arruda tinha arrumado não aliviaram muito as dores causadas em Chateau-

briand pela cavalgada, e agora ele tinha a impressão de estar com a virilha

em carne viva.

Antes que o dia clareasse chegaram em Painel, onde terminava a via-

gem para André. Daquele lugarejo em diante seu novo guia seria Dinarte

Couto Arruda, fazendeiro e chefe do Partido Republicano de Rupp Júnior na

região. André retornou com os dois cavalos e Chateaubriand e Arruda toma-

ram animais novos, descansados. Pelo que o jornalista tinha ouvido André


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falar com o novo guia, este o acompanharia até Monte Alegre, última etapa

antes de chegar a São Joaquim. O trecho que ele teria de cumprir sozinho, no

final, era uma linha reta de duas léguas, coisa para fazer em menos de uma

hora.
São Joaquim era uma cidade com mais de três ruas, casas, comércio, e

sua fama de foco aliancista radical era tão grande que meses antes passara

por lá o tenente Siqueira Campos, em pessoa, para fazer contatos com o che-

fe local da Aliança - Juão Palma, destinatário da carta de Rupp que Chateau-

briand queimara em Bom Retiro. Tão forte era o fervor getulista de São Joa-

quim que ela acabaria disputando com Lajes a glória de ter sido a primeira

cidade de Santa Catarina a ser inteiramente controlada pelos revolucioná-

rios. E sem a ajuda de ninguém de fora. Depois da visita de Siqueira Cam-

pos, que lá estivera para "animar " os aliancistas, estes passaram a armaze-

nar armas secretamente. Quando chegou a notícia de que a revolução tinha

rebentado em Porto Alegre já havia mais de oitenta armas de fogo - Win-

chesters de caça, revólveres, pistolas e fuzis - depositadas nas mãos de Chi-

co Palma, terceiro dos irmãos responsáveis pela organização do movimento

em São Joaquim. Às quatro da madrugada do dia 4 alguém chegou com a

notícia de que a revolução tinha começado. Ao cercar o pequeno quartel lo-

cal - um alojamento de madeira com dez soldados comandados por um te-

nente -, uma centena de civis armados percebeu que não haveria luta: a tro-

pa tinha abandonado a cidade nas suas mãos. A autoridade máxima passou

a ser exercida pelo autoproclamado major Bibiano Rodrigues Lima, que logo

transformou aquela horda em um destacamento, distribuindo patentes de

"capitão revolucionário" e "tenente revolucionário " a seus homens de con-

fiança.

Assim, quando Chateaubriand chegou a Monte Alegre (de onde Dinar-



te Arruda retornou para Painel), São Joaquim estava sob o absoluto

contro-


le dos revolucionários. Embora outubro seja o mês da florada das milhares

de macieiras e pereiras da regiãu - o que dava a São Joaquim um festivo ar

europeu -, o tempo horroroso emprestava à cidade a que Chateaubriand

chegava uma atmosfera funesta. Desde que ele saíra de Florianópolis não pa-

rara de chover um minuto sequer, e a temperatura parecia caminhar em di-

reção oposta à dos ponteiros do relógio: quanto mais se aproximava do

meio-dia, mais escuro o tempo ia ficando. E os ponteiros do termômetro

também pareciam acompanhar a luz. Com a escuridão, a temperatura caía

cada vez mais, transformando a elegante capa Burberry's em um pedaço de

pano leve e incapaz de proteger o jornalista do frio insuportável.

Ao entrar em São Joaquim, Chateaubriand resolveu bater na primeira

porta amiga que lhe apareceu pela frente: a farmácia de Hilário Braer, o alian-


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FERNANDO MORAIS


cista para quem ele deveria trazer uma carta de Rupp - como a dos Palma,

também incinerada em Bom Retiro. Andando com as pernas abertas para

evitar que uma coxa encostasse na outra, o que provocava uma sensação

muito dolorosa, amarrou o cavalo num poste e apresentou-se ao farmacêu-

tico. Descreveu com detalhes as adversidades e provações que experimenta-

ra desde a decolagem do Junkers no Rio de Janeiro, quantos dias antes? Fez

as contas: apenas três dias, que mais pareciam três semanas de sofrimentos.

Falou de Rupp, da barreira de soldados na estrada, do corte do fio do telé-

grafo, das cartas para os Palma e para ele queimadas na casa de Gerôncio

Thibes, da morte inesperada de Jango Matos. O catarinense descendente de

alemães ouvia tudo aquilo tomado por mineira desconfiança. A história era

rocambolesca demais para ser verdadeira. Perguntou se ele tinha algum

documento que o identificasse - não, ele tinha perdido em algum desses lu-

gares o único documento que carregava. Bem, matutou o farmacêutico: o es-

tranho que esperasse ali no balcão por alguns instantes, enquanto ele ia lo-

calizar os irmãos Palma.

Minutos depois vieram os Palma. Os três. Mas trouxeram consigo o ma-

jor Bibiano, o capitão Fulano, os tenentes Beltrano e Sicrano. Todos armados

de fuzis e carabinas - e todos muito mal-encarados. Um tanto assustado

com a recepção hostil, Chateaubriand foi obrigado a repetir toda a história,

com riqueza de detalhes ainda maior. Desta vez não era um relato, mas um

interrogatório. A cada episódio, um mamute daqueles o interrompia: "Mas

quando foi isso?". "O senhor tem testemunhas do que está dizendo?" "Ah,

testemunha era um guia que voltou do meio do caminho?" "E o senhor só

sabe que ele se chamava André, nada mais?" A primeira providência toma-

da depois da ocupação da cidade pelo major Bibiano Lima - um paisano

sanguinário que vivia jurando vingança ao pai, morto em Lajes na

revolução

de 1893 - tinha sido montar um "pelotão de fuzilamento para os crimes de

espionagem e alta traição à revolução ". Seus olhos brilhavam à medida que

aquele estranho nanico repetia a inverossímil história. Seu pelotão de fuzila-

mento ia ser inaugurado naquele momento:

- Tu queres que nós acreditemos que tu és o Assis Chateaubriand,

dono dos jornais, membro da direção nacional da Aliança Liberal? O Assis

Chateaubriand em pessoa aqui em São Joaquim, logo hoje, e de surpresa? Se

não tivesses queimado essa batina imaginária e aparecesses aqui vestido

com ela, ias querer nos convencer de que eras o cardeal Leme, pois não? Pois

eu vou dizer quem tu és: tu és um espião a serviço de Washington Luís, de

Fúlvio Aducci, do general Nepomuceno Costa. E espião aqui nós passamos

em armas. Tu vais ser fuzilado por espionagem!

Às poucas vozes do grupo que preferiam esperar um pouco mais para

se certificar de que o suspeito era de fato um espião, Bibiano respondeu ris-

pidamente:
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- O único defeito imperdoável em um revolucionário é a covardia! Eu

sou o chefe militar da cidade e quem se opuser ao fuzilamento será acusado

de covardia e cumplicidade. E será passado em armas junto com o espião!

Pálido de pavor e incrédulo diante do que testemunhava, Chateau-

briand começou a berrar:

- Os senhores enlouqueceram! Mandem um emissário a Florianópolis

procurar o doutor Rupp Júnior! Mandem alguém a Bom Retiro e perguntar

ao Gerôncio Thibes, ele me viu queimando as cartas e a batina na lareira de

sua casa! Isso que os senhores vão fazer é uma selvageria, vão fuzilar um

inocente! Eu sou um revolucionário, sou um camarada de vocês!

De nada valeram os protestos. Sem esperar voluntários, o major pôs-se

a selecionar os sete homens que iriam executar o espião. Chateaubriand con-

tinuava sem acreditar no que via: tantos anos de luta, tanta conspiração, e

depois de uma viagem absurda como a que fizera ele ia morrer como um ca-

chorro raivoso naquele inferno, a 1400 metros de altitude, sem ter como rea-

gir, sem ter a quem recorrer. Ia morrer pelas armas da revolução que ajuda-

ra a fazer.
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Os soldados que iam compor o pelotão de fuzilamento já estavam sen-

do selecionados pelo major para proceder à execução, quando um homem

de botas de cano alto, que se aproximara do grupo durante os protestos de

Chateaubriand, chamou o major Bibiano para confabular a distância, apa-

rentemente sensibilizado pelos argumentos do suposto espião. O homem co-

chichava no ouvido do major palavras inaudíveis para Chateaubriand. O

chefe revolucionário apenas escutava, às vezes arqueando as sobrancelhas,

sem dizer nada. Chateaubriand sentiu um enorme alívio quando o major as-

sentiu com a cabeça, como se dissesse "sim" - ele tinha o pressentimento de

que o sujeito das botas argumentava a seu favor, e acertara na mosca. Bibia-

no voltou ao muro onde Chateaubriand já se encostara para ser fuzilado,

desfez "provisoriamente" a formação do pelotão e anunciou ao espião:

- Tua execução foi adiada por uma hora. Até lá tu vais permanecer em

prisão domiciliar na pensão do Apolinário.

Chamou dois praças armados - como todos os demais militares, dois

civis que haviam recebido postos revolucionários - e ordenou que eles o le-

vassem algemado até a tal pensão, onde os soldados requisitaram um quar-

to para "instalar o detento". Apolinário, o dono da pensão, avisou aos três

que na casa dele ninguém entrava sem assinar o livro de registro de hóspe-

des - ainda que fosse um detento. E exigiu que Chateaubriand preenches-

se uma linha do enorme livro negro, com seu nome por extenso, profissão,

estado civil e assinatura. O que Chateaubriand não sabia é que toda a cena

havia sido combinada entre os revoltosos. E que, ao assinar o livro da pen-

são, estava começando a salvar a própria vida. O homem das botas de cano

alto avisara ao major Bibiano que havia na cidade um meio eficaz de se sa-

ber se aquele homem era mesmo Assis Chateaubriand ou um espião que se

fazia passar pelo jornalista: o garoto César Martorano, de dezenove anos, um

dos jovens que haviam recebido a patente de "tenente revolucionário", era o

representante de O Jornal em São Joaquim. Além de vender assinaturas, ele

costumava mandar notícias da cidade para o matutino carioca - em geral,

no inverno, as eternas notícias sobre a neve caindo na "cidade mais fria do

Brasil". César Martorano tinha uma carteira funcional assinada pelo verda-

deiro Chateaubriand. Então, sugerira o homem ao cochichar com Bibiano,


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era preciso arranjar um jeito de fazer aquele suposto espião assinar em al-

gum pedaço de papel. Se a assinatura conferisse com a da carteira de Mar-

torano, ele seria libertado. Caso contrário, que montassem logo o pelotão,

passassem fogo no espia e acabassem com aquilo.

Enquanto Chateaubriand era levado para o quarto pelos dois rapazes, o

livro foi recolhido na portaria da pensão pelo próprio major, que o carregou

até a farmácia de Hilário Braer, onde o esperava César Martorano com sua

carteirinha na mão. Ela tinha duas assinaturas, e a primeira, do gerente, era

redonda e facilmente legível: "O. R. Dantas", de Orlando Ribeiro Dantas.

Mas a de Chateaubriand, como já alardeavam us curiosos em cujas mãos a

carteirinha circulava, era "ilegível e infalsificável": cerca de trinta garran-

chos verticais, paralelos e levemente inclinados para a direita. Autoritário,

Bibiano quis conferir ele mesmo as duas assinaturas. Colocou a carteirinha

sobre o livro de registros da pensão e não precisou olhar duas vezes para se

certificar. Voltou-se para o grupo de pessoas que se aglomerava na porta da

farmácia e anunciou, não sem certo constrangimento, mas tomando o cuida-

do de dividir a culpa com todos os presentes:

- Quase fuzilamos um inocente. O homem que está preso na pensão é

mesmo o doutor Assis Chateaubriand.

De cachorro louco o jornalista foi imediatamente promovido a personali-

dade da cidade e herói da revolução - honrarias que dividia com César Mar-

turano, "o menino que salvou a minha vida". Todas as autoridades da cidade

queriam vê-lo de perto, apalpá-lo, conversar com ele, festejá-lo. O juiz de di-

reito José Fonseca Nunes de Oliveira e o prefeito Boanerges Pereira de Medei-

ros disputavam o privilégio de oferecer-lhe o jantar e um quarto para dormir

aquela noite em suas casas. Acabaram comendo todos a seu lado na acanha-

da sa la de refeições da pensão do Apolinário, onde ele dormiu até a madru-

gada seguinte, quando seguiu viagem em direção ao Rio Grande do Sul.

Desta vez ele tinha como guias o próprio Marturano e Antônio Palma.

Apesar de medicado na noite anterior, as pernas e a virilha continuavam ar-

dendo como fogo. Mesmo assim tiveram de sair a cavalo em direção a Bom

Jesus, já no Rio Grande, de onde seria possível tomar um carro para Vacaria

e de lá tocar para Porto Alegre. A distância do próximo trajeto seria de apro-

ximadamente cem quilômetros, quase um terço do trecho percorrido de Flo-

rianópolis a São Joaquim. Apesar disso, a escarpada costa do Lava-Tudo iria

obrigar Chateaubriand a mais três dias em lombo de cavalo. Quando a noi-

te caiu, os três jantaram na fazenda do "coronel" Inácio Palma, pai dos três

revolucionários de São Joaquim. Cavalgaram até o meio da noite e dormi-

ram algumas horas na fazenda de Augusto Pires, às margens do rio Lava-

Tudo, que divide os municípios de São Joaquim e Lajes.

Saíram de novo com o dia escuro, levando agora incorporado ao grupo

o jovem Nico Pires, de 22 anos, filho do fazendeiro e conhecedor da região.


243

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CHATÔ, O REI DO BRASIL


Nico guiou-os até a parte mais estreita do rio (que em alguns lugares chega

a medir cem metros de largura), trecho que era também o mais encachoeira-

do, o que obrigou o rapaz a atravessar os viajantes um a um, num pequeno

barco a remo. Quando os três homens estavam em segurança na outra mar-

gem, levou os arreios dos animais dentro da canoa e só então atravessou os

cavalos a nado, cada qual com uma corda no pescoço. Tudo isso foi feito com

noite fechada, debaixo de chuva e sob a mais absoluta escuridão. Quando

Nico se preparava para retornar ao outro lado do rio, Chateaubriand cha-

mou-o, sacou do bolso da capa um maço de notas, tirou uma parte delas,

sem contar, e entregou ao rapaz.

Depois de um dia inteiro de cavalgada pela montanha que já começava

a acabar, dormiram a noite do dia 8 em Coxilha Rica, na fazenda de outro

"coronel", Belisário Ramos, à beira do rio Pelotas, caminho de Bom Jesus. O

dono da casa era pai de Aristiliano Ramos, vereador em Lajes e que naque-

le momento se encontrava em Porto Alegre, incorporado a uma das colunas

que sairiam da capital gaúcha em direção ao Rio de Janeiro. Quando o dia

amanheceu haviam atravessado o rio Pelotas, pisando finalmente em terri-

tório gaúcho. Chateaubriand festejou à sua maneira a entrada no Rio Gran-

de do Sul:

- Eu já tinha vencido o general Nepomuceno Costa no jornalismo,

quando noticiei sozinho a sua punição. Hoje venço-o militarmente, atraves-

sando incólume o território controlado por suas tropas.

Agora só tinham pela frente um pequeno trecho em terreno plano, a

poucos quilômetros de distância de Bom Jesus, onde chegaram à noite - tão

exaustos que comeram e caíram na cama. Na manhã seguinte Chateau-

briand despediu-se de Palma e Martorano, deixando com este, como um

amuleto, o amarrotado bilhete da Condor que, se ele se lembrasse de usar,

poderia tê-lo poupado do pânico de São Joaquim, pois ali estava escrito seu

nome, peso e horário de embarque no Rio de Janeiro, no dia 3 de outubro.

Em poucas horas chegou a Vacaria e encontrou a cidade sitiada por tropas

revolucionárias. Dirigiu-se ao quartel-general e encontrou o general Valdo-

miro Lima "quase sem material bélico, à frente de trinta ou quarenta oficiais

que tentavam enquadrar irregulares bisonhos que haviam se apresentado

como voluntários". Conseguiu um carro militar que o deixou na capital gaú-

cha no meio da tarde do dia 10 de outubro - uma semana depois de ter em-

barcado no avião da Condor no Rio de Janeiro.

Ao chegar em Porto Alegre, transformada em praça de guerra, Chateau-

briand foi direto para o QG revolucionário, onde só encontrou Osvaldo Ara-

nha, nomeado governador do Rio Grande do Sul: Getúlio Vargas e todo o

seu estado-maior tinham embarcado naquela manhã num trem militar para

o Paraná. Horas antes dele, outra composição tinha partido para o norte le-

vando 3 mil soldados da cavalaria. O destino das duas composições era o Rio

de Janeiro, mas provisoriamente Vargas iria acantonar suas tropas em Curi-
245

tiba e Ponta Grossa, antes de decidir como atravessar São Paulo, que prome-

tia resistir à invasão gaúcha.

Aranha tinha nas mãus dois telegramas. Um era datado do dia 7 e assi-

nado pelo irmão de Chateaubriand, Ganot, pedindo notícias do jornalista,

"visto constar ter sido preso sexta-feira em Florianópolis". O outro era diri-

gido ao próprio Chateaubriand e vinha da cidade de Sengés, no extremo

norte do Paraná, a centenas de metros da fronteira paulista: era do general

Miguel Costa, destacado por Vargas para organizar a invasão do território

paulista. Heitor Penteado, governador de São Paulo, havia prometido que as

tropas revolucionárias não passariam de Itararé, cidade a menos de cinco

quilômetros de Sengés. A invasão - e a batalha que ela implicaria - era

iminente, e no telegrama Miguel Costa convidava o jornalista a se incorpo-

rar a seu estado-maior.

Contra a vontade de Osvaldo Aranha, Chateaubriand decidiu que ia lu-

tar ao lado dos revolucionários. Em vão o governador provisório do Rio

Grande tentou demovê-lo de se envolver em combates. Aranha achava uma

rematada loucura um paisano sem experiência militar meter-se em uma ba-

talha que se anunciava feroz:

- Não vás, Chateaubriand, jornalista não tem que se bater. O lugar do

jornalista na guerra é na retaguarda, estimulando o moral das populações ci-

vis e dos combatentes.

246

#
FERNANDO MORAIS


Era como se ele falasse a um surdo. Chateaubriand arranjou um carro,

foi até o posto mais próximo e alistou-se como voluntário. Enquanto um ca-

pitão preenchia um formulário com os dados que ele ditara, experimentou

vários tamanhos de uniforme, arranjou um que lhe servia, trocou o surrado

chapéu desabado por outro da brigada militar, de aba dura, e prendeu a pis-

tola Lugger na cintura. Ao assinar a ficha de alistamento, no lugar destina-

do a "patente pretendida" escreveu: "soldado raso ". Foi no mesmo carro até

a agência da Latécoère e, com o que lhe restava dos vinte contos ganhos de

Betim Paes Leme, comprou uma passagem para o único vôo reaberto pela

empresa: no dia seguinte embarcaria para Curitiba.

Aos poucos, nos contatos com Aranha e com outros oficiais que tinham

ficado na cidade, ia se inteirando do ocorrido na semana anterior. Cinco dias

antes, quando todo o estado já havia aderido à revolução, Vargas começou a

montar as colunas militares que subiriam para o norte. Miguel Costa seguiu

à frente de seus soldados para São Paulo, conquistou todas as cidades do Pa-

raná e de Santa Catarina por onde havia passado e agora estava estacionado

em Sengés. O destacamento comandado pelo tenente Alcides Etchegoyen,

promovido ao posto de coronel revolucionário, havia tomado todo o Paraná

e agora marchava sobre Santa Catarina. Atrás dele vinha outra coluna, che-

fiada por João Alberto, "varrendo" o terreno e consolidando as vitórias ob-

tidas pelos outros dois oficiais. A chamada "Divisão do Litoral", sob o co-

mando de Assis Brasil, subia pela costa a fim de cercar Florianópolis, ainda

sob o controle do general Nepomuceno Costa. O destino final de todas as co-

lunas - e do comboio que levava Getúlio e seu chefe do Estado-Maior Re-

volucionário, tenente-coronel Góis Monteiro - era o Rio de Janeiro. Debo-

chadamente, os gaúchos prometiam amarrar seus cavalos no obelisco da

Avenida Rio Branco, no centro do Distrito Federal- o que acabatriam fazen-

do, literalmente, três semanas depois.

Dezenas de navios mercantes fundeados no rio Guaíba, em Porto Ale-

gre, no dia 3, foram transformados em prisões flutuantes, onde se encontra-

vam centenas de oficiais do Exército, presos por se recusarem a aderir à re-

volução. Um dos presos o jornalista fez questão de visitár pessoalmente. Era

o general Cândido Rondon, que Miguel Costa encontrara ao passar pela ci-

dade de Marcelino Ramos, no interior do estado. Ao se recusar a aderir à re-

volução, Rondon foi no ato declarado "prisioneiro de guerra" por Costa,

mas sempre tratado com deferências especiais - tanto que era o único a me-

recer o privilégio de ficar em prisão domiciliar em Porto Alegre. Ao passar

pela rua da Praia com Osvaldo Aranha, Chateaubriand comentou que o Bra-

sil deveria se orgulhar daquela oficialidade encarcerada:

- Esta é a mais animadora perspectiva para o pós-revolução, Aranha.

Com um exemplo destes, o Brasil não corre o risco de novas irrupções mili-

tares. Só da guarnição de Porto Alegre foram presos mais de duzentos ofi-


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


ciais! Ao contrário do que parece, isso não é covardia, é o coeficiente mais

animador de disciplina que o Exército poderia dar.

Debaixo de um aguaceiro que parecia não ter fim Chateaubriand che-

gou a Curitiba no dia seguinte, partindo de carro sem qualquer demora para

Ponta Grossa, onde chegou a tempo de receber o comboio que trazia Getú-

lio, Góis Monteiro, Flores da Cunha, João Neves da Fontoura, Maurício Car-

doso, Virgílio de Melo Franco e dezenas de oficiais. Ao se encontrarem, Var-

gas festejou a alegria de rever o amigo, fardado e de pistola na cinta, com o

melhor presente que Chateaubriand poderia pretender: ele teria ali, com ex-

clusividade, a primeira entrevista do chefe supremo da revolução. Como se

sabia que os jornais do Rio e de São Paulo estavam sob censura, combinaram

que a entrevista seria publicada apenas no Diário de Noticias de Porto Alegre.

A única exigência de Vargas, dadas as circunstâncias que estavam vivendo,

é que ele pudesse ler os originais antes da publicação - o que obrigou Cha-

teaubriand a tomar as notas num pedaço de papel e depois ditar os garran-

chos, legíveis apenas pelo autor, para um ordenança que os datilografou.

Getúlio começou a entrevista apelando aos voluntários gaúchos no sen-

tido de que mandassem "toda a cavalhada disponível no estado " para Pon-

ta Grossa, de modo a equipar as tropas que se preparavam para invadir São

Paulo. O número de soldados no Paraná era inferior aos cavalos disponíveis,

e ele acreditava que a cavalaria seria a arma mais eficiente na prometida to-

mada do território paulista: "Acentua aí nos teus escritos ", ditava Vargas,

"que o rio-grandense é um bom pelejador a pé, mas que pode ser ainda me-

lhor montado ". Para encerrar, pediu que o jornalista acrescentasse um pará-

grafo a mais:

- Anda, senta aí e escreve que até ontem agíamos em função de um

programa político. Mas a Aliança Liberal foi formada para se fazer a campa-

nha da sucessão. Hoje, entanto, estamos dentro de um segundo tempo, uma

insurreição armada. É uma coisa muito diferente. E podes salientar que a re-

volução terá que ser radical tanto nos princípios quanto na execução deles.

Depois de despachar pelo telégrafo militar a entrevista para Porto Ale-

gre (e que depois do triunfo da revolução seria publicada pelos outros jor-

nais), Chateaubriand retornou a Curitiba no dia 13, onde se apresentou

como voluntário ao capitão gaúcho Filipe Portinho. Quando lhe pergunta-

ram por que havia recusado convites de Miguel Costa e Góis Monteiro para

alistar-se em suas tropas e decidira apresentar-se a Portinho, ele respondeu:

- Vou retornar a Ponta Grossa para entrar em São Paulo de arma na

mão, junto com a tropa. E lá em Itararé vou precisar de alguma experiência

em caudilhagem. Foi por isso que troquei Góis e Miguel Costa pelo capitão

Portinho: é um caudilho legítimo, e é com ele que vou aprender caudi-

lhagem.

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FERNANDO MORAIS
Por mais de uma semana Chateaubriand permaneceu em Curitiba. Não

chegou a dar um tiro sequer, e acabou o tempo todo fazendo entrevistas e re-

colhendo impressões para os artigos e reportagens que só começariam a ser

publicados em seus jornais no dia 4 de novembro. No dia 22 retornou a Pon-

ta Grossa e de lá subiu mais 150 quilômetros em estrada de terra batida até

Sengés, para arrancar do general Góis Monteiro, que supervisionava as tro-

pas de Miguel Costa, também a primeira entrevista do chefe militar da revo-

lução - igualmente transmitida primeiro para o único de seus veículos a

salvo da censura, o Diário de Noticias.

No dia de 24 de outubro retornou com Góis Monteiro para Ponta Gros-

sa. Percebeu que o ataque a São Paulo seria desfechado em questão de horas

e, temendo que lhe escamoteassem informações, como acontecera no dia 3,

montou sua cama de campanha ao lado da cama de Góis Monteiro, no va-

gão-dormitório do trem, e não saiu mais de perto do general. À noite chegou

a notícia que transformaria em abstração a tão esperada "batalha de Itararé":

após rejeitar uma proposta de renúncia que lhe havia sido levada pelo car-

deal Sebastião Leme, o presidente Washington Luís fora deposto e preso por

uma junta militar chefiada pelo general Augusto Tasso Fragoso. O próprio

general assumira a chefia do governo provisório, tendo tirado da diretoria

de O Jornal dois de seus ministros: Gabriel Bernardes, nomeado ministro da

Justiça, e Afrânio de Melo Franco, ministro das Relações Exteriores. Para

surpresa dos revolucionários parados no trem em Ponta Grossa, a junta no-

meara interventor no estado de São Paulo o general Hastínfilo de Moura,

comandante da 2ª Região Militar e ferrenho defensor de Washington Luís.

Chateaubriand passou a noite acordado, saboreando o privilégio de teste-

munhar horas históricas para o futuro do país. Sentado numa beirada da

cama do general, não perdeu um instante sequer do decisivo bate-boca que

Góis Monteiro (sempre com um vigilante Getúlio Vargas a seu lado) trava-

va pelo telégrafo com o chefe da junta governativa no Rio - cujo comporta-

mento dava a entender que o general Fragoso nãu pretendia abandonar tão

facilmente a principal cadeira do Catete. Segundo Chateaubriand escreveria

depois, Getúlio parecia ser o único ali a não temer que alguém lhe roubasse

o poder. No meio da madrugada, bocejando, deu um tapinha nas costas do

jornalista:

- Não te assustes, que isto é apenas uma conversa entre militares.

Como sou um civil, vou dormir.

Sem pregar o olho um minuto, Chateaubriand continuava desperto às

sete da manhã quando Getúlio reapareceu no vagão de barba feita, bem-dis-

posto, trajando um impecável terno cáqui e rolando um enorme charuto ace-

so entre os dedos. Puxou assunto com Chateaubriand, com quem falou so-

bre a política exterior que imaginava para o governo revolucionário. Depois
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CHATÔ, O REI DO BRASIL


de meia hora de conversa, sentindo o chefe revolucionário pouco amistoso

com os Estados Unidos, o jornalista pôs-se a declamar "as virtudes da ami-

zade americana em relação ao Brasil". Vargas ouviu-o com paciência antes

de comentar, como se quisesse encerrar a conversa:

- Chateaubriand, eu nunca te imaginei tão americanófilo...

Ele não se deu por vencido:

- Não é isso, doutor Getúlio, é que eu sou realista. Onde estaria nosso

café se não fosse o consumidor americano? Sem os Estados Unidos nós não

passamos de um espirro de gato.

Com a deposição e prisão de Washington Luís, desmoronou também o

ânimo de resistência dos paulistas - e a "batalha de Itararé" acabou nunca

acontecendo. O trem que estava parado ali havia vários dias pôs-se em mo-

vimento, desta vez levando novos passageiros. Além de Chateaubriand, em-

barcaram também João Alberto (que desceria em São Paulo para assumir o

controle do estado, com o cargo provisório de delegado militar revolucioná-

rio), Virgílio de Melo Franco, Maurício Cardoso e, representando o Partido

Democrático de São Paulo, Paulo Nogueira Filho. Junto com Washington

Luís caíra a censura à imprensa, e no dia 27 os jornais de Chateaubriand co-

meçavam a publicar artigos e reportagens sobre fatos fresquinhos, ocorridos

no dia anterior. Em cada lugarejo onde o trem parava ele descia, conversava

com oficiais, políticos e com gente do povo. Com o trem em movimento di-
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FERNANDO MORAIS


tava ao radiotelegrafista as notas que eram transmitidas a O Jornal e de lá re-

passadas aos outros jornais da rede.

Quando o trem por fim chegou em Itararé, o jornalista desceu para en-

trevistar os soldados de um batalhão de cavalaria de Uruguaiana, no interior

do Rio Grande do Sul. "Aquela rapaziada guapa, forte, alegre, bela nas suas

vestes suntuosas ", publicariam os jornais no dia seguinte, "parecia pronta

para um torneio em Sevilha, uma festa em Granada, jogos florais em Sala-

manca ou para as bodas de um amigo, menos para um entrevero entre ir-

mãos. Não tinham a menor gana de pelejar com os paulistas. Não carre-

gavam a menor dose de empáfia e estavam contentes por voltar a suas

'querências' sem as mãos tintas do sangue fratricida." Chateaubriand procu-

rava transmitir a seus leitores os detalhes e a atmosfera vividos ao longo da

viagem: "Este artigo eu lhes envio do vagão que conduz, da frente de bata-

lha até Itararé, em festas, o sr. João Neves da Fontoura e seu estado-maior.

Rendeu-se sem disparar um tiro a cidade que era a chave da resistência de

São Paulo - não direi de São Paulo, porque não era o estado que ia ser ata-

cado, mas da fortaleza chinesa do PRP. O general Flores da Cunha já havia efe-

tuado uma teimosa marcha de quatro dias, atravessando o rio Itararé, a fim

de colher, pelo flanco direito, a retaguarda paulista. Apenas uma hora antes

de ter início a grande ofensiva é que chegou às nossas linhas, pelo telégrafo,

a notícia da deposição do sr. Washington Luís. Evitou-se uma horrível carni-

ficina, que não poderia deixar de confranger os homens de sensibilidade".

No dia 29, o comboio passou por São Paulo, quando Getúlio nomeou

João Alberto seu delegado militar no estado. E só no dia 31, quase um mês

após a eclosão da revolução, é que o primeiro trem, que transportava as tro-

pas, despejou no Rio de Janeiro os 3 mil soldados gaúchos a cavalo - os tais

que amarrariam os animais no obelisco. Horas depois chegava a composição

com Vargas, que quatro dias depois assumiria definitivamente a chefia do

governo provisório. A foto dele descendo no Rio, fardado e cercado de mili-

tares, apareceria dias depois na capa de O Cruzeiro - a primeira a ser im-

pressa sem o tradicional desenho de um rosto feminino.

Nas semanas seguintes, O Cruzeiro e os jornais de Chateaubriand pare-

ciam diários oficiais dos revolucionários. Já a partir do dia 4 começaram a ser

desovados entrevistas, artigos e reportagens feitos no front durante o perío-

do da censura. Poucos dias depois da posse de Getúlio, O Jornal, o Diário da

Noite e a revista ofereceram um gigantesco churrasco aos 3 mil soldados gaú-

chos acampados na Quinta da Boa Vista, quando foram consumidos 1200 li-

tros de chope generosamente oferecidos pela Brahma. Representando Getú-

lio, o general Flores da Cunha aparecia, na farta cobertura jornalística,

circulando entre Chateaubriand, a poetisa Ana Amélia Carneiro de Mendon-

ça e Austregésilo de Athayde, todos circundados por centenas e centenas de

jovens soldados fardados e de lenços vermelhos amarrados ao pescoço. No


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


dia 18 de novembro, Chateaubriand publicou um extenso artigo intitulado

"Um monstro" - sendo que o monstro a que ele se referia era o novo chefe

do governo provisório. Irônico, ele chamava a atenção de seus leitores para

um novo Maquiavel que surgia no cenário nacional:


Floriano teria que aprender consigo o abc da astúcia. Bismarck seria seu discípu-

lo, a fim de desgastar os excessos de violência e de personalidade que tantas ve-

zes lhe comprometeram o êxito do jogo político. Ele é um misto de Lusbel e de

Arcanjo. Apaga uma labareda e acende outra. Construiu uma guerra civil com a

mesma imperturbável fleuma com que liquidou os remanescentes da outra, que

ainda havia em estado potencial nos pampas. Na sua escola de manha política e

de esperteza, aqueles que acreditamos os grandes mestres jubilados entrariam

para freqüentá-la nos bancos do jardim-de-infância. Antônio Carlos, Artur Ber-

nardes, Olegário Maciel, em quem podemos reconhecer as raposas mais astucio-

sas do nosso meio politico, seriam tenras criancinhas de peito diante desse mes-

tre prodigioso da arte de dissimular as suas paixões e os seus pensamentos.

[...) A não ser os pouquíssimos íntimos que o conheciam, todos - Washing-

ton Luís, Júlio Prestes -, todos, enfim, se iludiram quanto aos seus propósitos.

Quando 40 milhões de brasileiros (inclusive 3 milhões de gaúchos) esperavam

do sr. Getúlio Vargas uma suave adesão ao sr. Júlio Prestes, ele aparece com

uma revolução em grande, como o Brasil jamais vira outra de tais proporções,

para derrubar dezoito governadores e dois presidentes da República e subver-

ter o regime - tudo isto com um imprevisto irônico, que parece diabrura de Pe-

dro Malasartes. Um cidadão escandinavo meu amigo me disse, quando eu re-

gressei do Sul, que a figura humana do sr. Getúlio Vargas desafiava um Balzac.


Pela primeira vez alguém, menos de duas semanas após a posse de Var-

gas, cometia a ousadia de referir-se a seu governo como uma ditadura:


Sem dúvida, quando refletimos sobre o personagem que administra com um

doce sorriso a ditadura brasileira, e pensamos nas proezas homéricas que ele

perpetrou nesses últimos quinze meses, sentimo-nos diante de um cauchemar.

[...] O sorriso do presidente Vargas, e eu lho disse uma vez de viva voz, tem

qualquer coisa do indecifrável mongólico. É o sorriso enigmático, misterioso,

sutil e medido do oriental. O Rio Grande era, até aqui, uma floresta africana que

só produzia leões. O sr. Getúlio é a primeira raposa do pampa. É uma raposa

tão esperta que as uvas que andaram verdes para todos os papáveis das coxi-

lhas amadureceram como por encanto só para si. Maquiavel é pinto perto do sr.

Getúlio Vargas.


O primeiro reencontro formal dos dois desde a viagem de trem aconte-

ceria dias após a publicação do artigo. Eles se cruzaram por acaso na casa de

João Daudt de Oliveira, e Chateaubriand pediu-lhe o privilégio da primeira

entrevista depois de empossado. Junto com Getúlio estava sua filha e biblio-

tecária, Alzira, de dezesseis anos, que advertiu o jornalista:

- Doutor Assis, seus jornais têm se referido a mim como "a senhorinha

Getúlio Vargas ". Avise a seus empregados que isso vai acabar. Eu não sou
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CHATÔ, O REI DO BRASIL


uma das "senhorinhas Getúlio Vargas". Meu nome é Alzira e é assim que eu

gostaria de ser tratada.

Indiferente ao mal-estar criado pela mocinha, Chateaubriand insistiu e

o presidente aceitou dar a entrevista. Dias depois, os seis jornais da cadeia

publicavam uma página inteira intitulada "A nova revolução", onde Vargas

explicitava, item por item, os dezessete pontos de sua plataforma de gover-

no. Depois de prometer "redimir o país da servidão econômica e financeira",

Getúlio fez, sem ouvir protestos do jornalista, uma exortação ao nacionalis-

mo - palavra em geral excomungada do dicionário de Chateaubriand. E,

para espanto de quem acompanhava as idéias deste, ele próprio se encarre-

garia, em um artigo publicado logo depois, de reforçar o bordão presiden-

cial. Como se pretendesse levar a revolução até os hábitos cotidianos de seus

leitores, Chateaubriand escreveu:
Usemos de preferência roupas de algodão. Vem aí o verão. Eliminemos os ter-

nos brancos de linho. Vamos nos vestir com brim de algodão e que os homens

ricos e abastados sejam os primeiros a lançar a moda. O Brasil produz artigos fi-

nos de algodão. Tem casimiras nacionais do Rio Grande, São Paulo e Rio. Que

todos os brasileiros não mandem fazer mais roupas senão de pano brasileiro, te-

cidos tanto quanto possível com matéria-prima do país. Se o saco de algodão

substitui o de juta, mesmo em inferioridade de condições, não tenhamos hesita-

ção: só se exporte café em sacos de algodão.

(...) O álcool-motor já é objeto de uso em todo o Nordeste e no interior de Mi-

nas. Ele é inferior à gasolina, bem o sabemos. Mas se a hora é de sacrifícios, fa-

çamo-lo o sucedâneo da gasolina, ou usemos esta misturada com aquele, con-

tanto que se diminua o peso da importação do combustível fora.


O auge da campanha seria a tingido com a divulgação, pelo Diário da

Noite do Rio, de fotos de Getúlio e de Lindolfo Collor envergando ternos de

brim nacional, dizia o jornal, "produzidos pela América Fabril e oferecidos

aos governantes por este jornal". Desnecessário dizer, a América Fabril era

um dos maiores anunciantes das empresas de Chateaubriand. Na onda na-

cionalista, até inocentes viagens turísticas ao exterior, segundo o jornalista,

eram manifestação de falta de patriotismo:
Que necessidade há, numa hora destas, de tantos brasileiros fazerem turismo no

estrangeiro? É ouro que exportamos para consumo lá fora, sem qualquer vanta-

gem consecutiva para o país. Vamos pedir aos brasileiros que costumam viajar

que reduzam ou suspendam, por enquanto, seus passeios ao exterior. Aos que

têm filhos lá fora, que os façam educar no país, nos colégios e nas academias

brasileiras.


O final do artigo parecia escrito por um dos "botocudos africanos" que

ele tanto combatia em seus jornais: "A defesa nacional nos exige atos de qua-

se heroísmo. Tenhamos a bravura de os praticar, sorrindo, com a fé na gran-

deza e na beleza moral da nossa terra". .


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FERNANDO MORAIS


Depois da entrevista com Getúlio, passou a mandar seus principais re-

pórteres ouvir, um por um, os ministros do novo governo. Ele se encarrega-

va de escolher o jornalista, de explicar-lhe como e o que deveria perguntar e

muitas vezes ia junto, para assistir à entrevista. Numa dessas ocasiões, cha-

mou o repórter Carlos Eiras e encarregou-o de fazer uma entrevista com Lin-

dolfo Collor, titular do recém-criado Ministério do Trabalho. Depois de pre-

parar o jornalista durante várias horas (Chateaubriand se orgulhava de ter

sido um dos autores, com Collor, do programa trabalhista da Aliança Libe-

ral), decidiu acompanhá-lo até o que chamava "o covil dos gaúchos" - o

Hotel Glória, onde Collor vivia. Quando entravam no saguão do hotel cru-

zaram com Alberto Boavista, dono do Banco Boavista. Chateaubriand pa-

rou-o e voltou-se para o repórter:

- Seu Eiras, mudei de idéia: quero que o senhor faça uma entrevista

aqui com o senhor Alberto Boavista.

O jornalista se surpreendeu:

- Mas, doutor Assis, tenho hora marcada com o ministro Collor daqui

a cinco minutos, não posso deixá-lo esperando.

Chateaubriand deu uma gargalhada:

- O ministro fica para depois, meu filho. Entreviste o senhor Boavista,

que é banqueiro, você não sabe?-E banqueiro é banqueiro, pois não?

Os afagos de Chateaubriand ao novo governo, entretanto, durariam

pouco. A primeira encrenca ele arranjou com um homem de confiança de

Getúlio, o interventor federal que o presidente nomeara para Pernambuco,

Carlos de Lima Cavalcanti, com quem, na juventude, ele tivera uma desa-

vença paroquial. Logo que soube da nomeação de seu desafeto para dirigir

um estado com o qual ele tinha ligações tão fortes, Chateaubriand publicou

um artigo intitulado "O mais covarde dos mendazes", onde dizia que nos úl-

timos quinze anos interrompera apenas duas vezes o seu desprezo por Ca-

valcanti "para caridosamente apertar a mão desse cidadão moralmente des-

classificado, cujos precedentes valem um monturo". Cavalcanti não teve

dúvidas: no dia seguinte assinou um ato demitindo o presidente do Tribu-

nal de Justiça do estado, desembargador Belarmino Gondim - que vinha a

ser irmão de Carmem Gondim e, portanto, tio do jornalista.

"Infame patife gabola", "covarde poltrão", "vilão" foram al-

guns dos insultos que Chateaubriand despejou sobre a cabeça do interven-

tor como resposta à demissão do tio. Quando todos imaginavam que Caval-

canti ia baixar a cabeça e assimilar o golpe, ele revidou com força redobrada.

Em nota distribuída à imprensa, anunciou que havia descoberto monumen-

tais falcatruas envolvendo os jornais de Chateaubriand e o governo deposto

de Estácio Coimbra, seu antecessor no cargo. Segundo o interventor, Chateau-

briand recebera, pessoalmente ou por intermédio de seus jornais, quase uma

centena de contos dos cofres pernambucanos para publicar noticiário favo-

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CHATÔ, O REI DO BRASIL


rável a Estácio Coimbra. Entre os vários documentos exibidos pelo interven-

tor, havia um que não deixava margem a dúvidas quanto à autenticidade da

denúncia. Era uma fatura de catorze contos, de 1929, onde estava escrito:

"Pagos a Assis Chateaubriand". De São Paulo seu irmão Oswaldo entrou na

briga, acusando Getúlio Vargas de ter entregue Pernambuco "a um entulho

humano". Chateaubriand continuou a guerra contra Cavalcanti, mas não

desmentiu a acusação. Ao contrário, afirmou com surpreendente candura

que aquilo não era imoral nem ilegal, mas uma prática comum, e que seus

jornais não eram os únicos a receber tais pagamentos. "Do governo de Per-

nambuco recebemos o que receberam os jornais do Rio e de São Paulo: a im-

portância da mensagem do governador do estado", admitiu em um artigo,

oferecendo detalhes da operação: "Algumas vezes essa mensagem era dada

na íntegra, outras vezes em tópicos. O pagamento feito a nós era feito igual-

mente ao Jornal do Commercio, ao Correio da Manhã, a O Globo, ao Estado de S.

Paulo e aos demais jornais que inseriam as mensagens". Ou seja, ele não ne-

gava que seus jornais recebiam dinheiro público para publicar noticiário fa-

vorável a um governo - apenas tentava se desculpar alegando que não era

o único a fazer isso. Nem apanhado com a boca na botija Chateaubriand per-

deu a verve. Para ele, a entrega do governo de Pernambuco a Lima Cavalcan-

ti era "um opróbrio de que jamais se livrará o governo do sr. Getúlio Vargas".

À exceção desta frase, o presidente da República tinha sido poupado

durante a troca de desaforos com o interventor de Pernambuco. Mas Getú-

lio não perdia por esperar. Mal o governo completara o primeiro mês de

vida, em dezembro, e Chateaubriand passou a bater sistematicamente na

mesma tecla: os excessos cometidos pelo governo nas prisões políticas e per-

seguições aos inimigos e adversários da revolução. Mais do que escrever so-

bre o assunto, chegou a cometer o atrevimento de ir às claras, em plena luz

do dia, à embaixada do Uruguai para visitar dois perseguidos que ali se en-

contravam protegidos, à espera de salvo-conduto para deixar o país rumo ao

exílio: Sebastião do Rego Barros e seu velho amigo e hospedeiro na infância,

o milionário José Pessoa de Queiroz.

No dia em que o governo nomeou os juízes do recém-criado Tribunal

Especial, destinado a julgar os "crimes qualificados" que infringiam a legis-

lação baixada pela revolução, Chateaubriand se arrepiou e pela primeira vez

divergiu frontalmente, não mais de um interventor, mas do próprio presi-

dente. Apresentando-se como "um obscuro professor de direito", disse cla-

ramente que não concordava com aquela "criação exótica que cheira a opres-

são, a vindita política e pessoal". Ao saber, dias depois, que os institutos

estaduais da Ordem dos Advogados do Brasil também haviam protestado

contra a criação de um tribunal de exceção para julgar crimes políticos, Cha-

teaubriand voltou à carga, pedindo "o imediato desaparecimento dessa ex-

crescência, desse aleijão".


257

#
FERNANDO MORAIS


Ele, em O Jornal e no Diário da Noite, e o romancista Coelho Neto, no Jor-

nal do Brasil, passaram a ser dois cruzados da luta contra as arbitrariedades,

delações e prisões clandestinas. No meio desse torvelinho, Chateaubriand

foi procurado pelo seu antigo colaborador Humberto de Campos, que logo

depois do dia 3 de outubro escrevera um artigo em A Gazeta afirmando que

"a revolução está sendo feita pelos cavalos do Rio Grande e pelos porcos de

Minas Gerais ". Perseguido e impedido de trabalhar, Campos o procurava

em busca de ajuda. As versões de cada um deles para o mesmo episódio são

divergentes. O escritor deixou registrado em suas memórias que aguardava

a prisão "altivo e sereno, sem fugir à responsabilidade do que pensei e escre-

vi". Segundo Chateaubriand, porém, Humberto de Campos estava "entre

sarcástico, atormentado e aterrorizado ". Mais do que ser preso "ou ser mor-

to numa emboscada de gaúchos excitados ", escreveria o jornalista, "inquie-

tava-o o exílio, pela pobreza em que vivia". Chateaubriand não só interes-

sou-se pelo caso de Humberto de Campos, intercedendo por ele junto ao

novo ministro da Justiça, Osvaldo Aranha, como ainda desafiou o index da

revolução, oferecendo-lhe um emprego em O Jornal, a coluna diária "Notas

de um diarista".

A implicância de Chateaubriand sem dúvida não era pessoalmente con-

tra Getúlio Vargas. Seu medo residia nos "tenentes ", que ele imaginava es-

tarem arrastando o presidente e o governo para posições nacionalistas e es-

querdistas. "Esses meninos pensam que são estadistas", dizia para quem

quisesse ouvir, "mas ainda estão fedendo a mijo de cueiro." Toda noite, ao

deixar o jornal a caminho de sua casa em Copacabana, via o presidente da

República passeando pelas calçadas que cercavam o Palácio do Catete - e,

para sua irritação, sempre acompanhado de dois ou três "tenentes". Uma

noite ele não resistiu. Mandou o motorista parar o carro e caminhou até Var-

gas, a quem tratava insolentemente por "ditador ":

- Ditador, há semanas que eu passo aqui a estas horas e a cena é sem-

pre a mesma. Nem à noite o senhor larga seus tenentes?

Getúlio devolveu a provocação com uma resposta que deixou o jorna-

lista intrigado:

- Prefiro conviver com estes tenentes a ouvir os políticos da Aliança Li-

beral que me massacram o dia inteiro com os seus interesses e suas ques-

tiúnculas pessoais.

Aos mais íntimos Chateaubriand confessava seu verdadeiro temor: que

Vargas planejasse adiar para as calendas gregas a redemocratização do país

e, tão logo se sentisse forte em termos militares, permanecer indefinidamen-

te no poder como ditador. Para o jornalista, não era mera obra do acaso o

fato de não se falar expressamente em convocação de eleições em nenhum

dos dezessete itens do Programa de Reconstrução Nacional que o presiden-

te anunciara no dia de sua posse. Ali Vargas prometia uma vaga "reforma


258

#
CHATÔ, O REI DO BRASIL


do sistema eleitoral", depois da qual a nação seria "consultada sobre a esco-

lha de seus representantes ". Chateaubriand sabia que o presidente dedicava

olímpica indiferença a seus ataques a interventores ou até mesmo à defesa

de seus amigos presos pela revolução. Mas sabia também que estava mexen-

do em uma caixa de marimbondos ao tocar em dois temas proscritos do

vocabulário da maioria dos tenentes. Dois temas que, na sua opinião, eram

indissociáveis: a relação do governo federal com São Paulo e a redemocrati-

zação do país.

Mesmo certo de que estava provocando a ira de seus companheiros de

revolução, nos últimos dias de 1930 seus artigos foram quase todos dedica-

dos aos dois temas. Para Chateaubriand, a "tarefa transcendente " da revolu-

ção era levar o Brasil à normalidade constitucional, e para isso só havia, na

sua opinião, um caminho: "A pedra de toque para restituir à nação o gover-

no de si mesma só poderá ser a convocação de uma Assembléia Constituin-

te ". Chateaubriand mexia mais fundo na ferida ao chamar a atenção do pre-

sidente para "o erro inicial" praticado pela revolução em São Paulo - ter

dado ao mais poderoso estado da federação "um tratamento desconfiado".

Segundo o jornalista, Vargas errara ao submeter os paulistas ao "mais in-

quieto puro-sangue de todos os seus petiços", o tenente (agora coronel revo-

lucionário) João Alberto Lins de Barros. Como um profeta da guerra, Cha-

teaubriand alertava o presidente, com um ano e meio de antecedência, para

um tumor que começava a crescer e iria explodir em julho de 1932.


259

16
A revolução mal acabara de triunfar e a quantidade de artigos que Cha-

teaubriand tinha escrito desancando os tenentes e defendendo a convocação

da Constituinte era tão abundante que eles "dariam para encher uma ba-

nheira", segundo palavras do próprio autor. Para a maioria de seus leitores

devia ser difícil entender como o mesmo homem que era acusado de alugar

a opinião de seus jornais a um governador de Pernambuco (e que não nega-

ra a acusação) podia bater com tanta insistência em um governo forte como

o de Getúlio Vargas - e isso, aparentemente, sem nenhuma intenção subal-

terna. Nem mesmo seus piores inimigos conseguiam enxergar naquela pre-

gação alguma forma de chantagem, ou a defesa de interesses pessoais. Tudo

indicava que ele escrevia por convicção. E com um fôlego admirável: não ha-

via uma semana em que seus jornais não estampassem artigos insistindo no

mesmo cantochão - o problema não era Getúlio, mas os tenentes que o em-

purravam cada vez mais para a esquerda. Eles, sim, eram o grande obstácu-

lo à redemocratização do Brasil, que só viria quando a Constituinte fosse

convocada.

No começo do ano havia mais um jornal a reproduzir seus artigos: a

rede tinha crescido com o lançamento, em Belo Horizonte, do Diário da Tar-

de. Repetindo a fórmula que no Rio e em São Paulo fizera tanto sucesso, Belo

Horizonte, que já tinha um matutino "sério", o Estado de Minas, passava a ter

um vespertino "popular ", o Diário da Tarde. Como os dois jornais mineiros

trabalhassem com máquinas obsoletas, Chateaubriand mandou Dario de Al-

meida Magalhães arrematar em leilão, no Rio, as rotativas de O Pais, ferre-

nho adversário da Aliança Liberal e da revolução que fora empastelado e in-

cendiado por uma furiosa multidão logo após a vitória de outubro. Por 110

contos de réis os jornais de Belo Horizonte passaram a contar com equipa-

mento ágil e moderno.

E foi nessa época que, casualmente, nasceu o nome pelo qual a rede de

comunicações seria conhecida ao longo das décadas seguintes. No final de

1930 Chateaubriand escreveu um artigo para responder a uma pergunta que

segundo ele era feita insistentemente "pelos nossos amigos e por dezenas de

leitores que escrevem cartas às nossas redações": seus jornais estavam na

oposição ao governo Vargas? No artigo ele dizia que não, que os jornais não


260

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CHATÔ, O REI DO BRASIL


tinham sido transformados em um partido de oposição. "Ocorre que habi-

tuamo-nos a falar alto", escreveu, "e, como não temos hábitos palacianos,

preferimos a tribuna dos nossos diários associados para debater os atos do

governo, com a sinceridade que o ditador já pediu aos jornalistas." Os sete

jornais e O Cruzeiro ganhavam naquele momento o apelido de "Diários As-

sociados", marca que meses depois se transformaria em nome oficial e regis-

trado do poderoso grupo de empresas.

Chateaubriand passou o ano afirmando que era necessário "desinfiltrar

o governo e as Forças Armadas dos venenos da rebelião tenentista e enrijá-

los de disciplina, fortalecê-los do sentimento de ordem ". Prevendo que teria

problemas com a censura, deu ordens para que os jornais e a revista manti-

vessem uma postura neutra e imparcial diante do governo, apenas notician-

do atos. Quem quisesse ter opinião que fizesse como ele: comprasse um jor-

nal. Nos Associados, só o dono emitia opiniões. Estendeu a orientação tam-

bém aos colunistas e colaboradores ao ler uma das "Notas de um diarista"

em que Humberto de Campos "entrevistava " um macaco para afirmar que

um governo que se preocupava com macacos, deixando o câmbio despencar,

estava condenado à morte. "É governo destinado a morrer de ridículo", con-

cluíra. Chateaubriand telefonou pessoalmente a Campos para dizer-lhe que

mais uma nota daquelas iria custar-lhe a prisão - e o mais prudente era ele

não se referir mais às figuras do governo na coluna.

Com o passar do tempo Chateaubriand começou a desconfiar que a

"doença de que padecem alguns tenentes " não era apenas um esquerdismo

juvenil, mas "comunismo puro, bruto ". Encomendou a Humberto de Cam-

pos um folheto anônimo, de quarenta páginas, intitulado "A mentira comu-

nista", que o escritor fez de bom grado. Era "uma exposição à altura de inte-

ligências primitivas", diria o autor, "feita em linguagem singela, para o

povo". O sucesso do panfleto, distribuído gratuita e clandestinamente por

ordem de Chateaubriand, fez com que ele encomendasse mais artigos anti-

comunistas ao escritor (sem fazer menção direta ao governo e aos tenentes),

que saíam em O Jornal e depois eram republicados nos sete jornais. Quando

João Alberto anunciou que iria permitir a legalização do Partido Comunista

em São Paulo, o mesmo Chateaubriand que no governo Washington Luís

defendera o direito de expressão dos comunistas passou a acusar o interven-

tor de "transformar São Paulo num laboratório de atividades políticas e so-

ciais soviéticas".

Seus temores de que o governo reagiria às críticas não eram infundados.

Primeiro, o chefe de polícia do Distrito Federal, Batista Luzardo, mandou

policiais à redação de O Jornal comunicar que os Diários Associados estavam

proibidos de "discutir qualquer ato do interventor em Pernambuco ". Como

aparentemente Lima Cavalcanti não era seu alvo preferencial, Chateau-

briand acatou a ordem em silêncio, mas semanas depois vinha outra: os jor-


261

#
FERNANDO MORAIS


nais estavam proibidos de noticiar a entrevista exclusiva concedida no Rio

Grande do Sul a Austregésilo de Athayde por Borges de Medeiros, patriar-

ca da política gaúcha e fervoroso aliancista. A proibição se justificava, pela

ótica do governo: entre os pontos de um decálogo defendido por Medeiros,

havia um que falava expressamente na convocação de uma Constituinte. De

novo Chateaubriand achou mais prudente aceitar a censura, mas tornou-a

pública em seus artigos, afirmando que a ordem "foi um grave erro em que

incidiu o jovem e ardente ministro da Justiça, sr. Osvaldo Aranha ".

Por exclusão (e esperteza), decidiu que tudo o que não estava previa-

mente proibido era permitido. Assim, o governo era "a ditadura" e Getúlio

invariavelmente "o ditador e único responsável por ela". Atacou duramen-

te o recém-promovido general Góis Monteiro quando este, em uma frase in-

feliz mas profética, disse em São Paulo que o país "precisava de dez anos de

ditadura". Ao ler que um jornal governista insinuara que Antônio Carlos, já

ex-governador de Minas, era contrário à Constituinte, Chateaubriand man-

dou o Diário da Tarde fazer uma entrevista com o cacique mineiro para que

ele desmentisse a especulação - desmentido que o próprio dono do jornal

se encarregaria de reforçar em um artigo. "Dizer que o ilustre chefe liberal

mineiro está contra a Constituinte ", ironizou, "seria o mesmo que afirmar

que d. Sebastião Leme é ateu ou que o dr. Miguel Couto não acredita na me-

dicina." Ele passava semanas exaurindo os temas "tenentismo de esquerda"

e "ditadura", e de repente voltava a bater na mesma tecla: redemocratização,

só com a convocação da Constituinte. Criticava com dureza os setores mo-

derados que defendiam uma Constituinte precedida de minuciosa (e demo-

rada, claro) discussão sobre a prometida lei eleitoral - que seria baixada por

decreto, pois o Congresso Nacional havia sido dissolvido logo após a vitória

da revolução. Aos poucos, Chateaubriand percebeu que ele e os paulistas

não eram os únicos a clamar, "em meio a esse estéril deserto tenentista", pela

redemocratização do país. "Até alguns setores revolucionários já se confede-

raram para pedir à ditadura", escreveu, "a convocação da Constituinte como

uma das mais instantes, senão a mais instante necessidade nacional." Como

resposta à manifestação de Borges de Medeiros, Getúlio articulou os inter-

ventores para que se pronunciassem pela manutenção do status revolucio-

nário - ou seja, pela protelação da redemocratização. Chateaubriand res-

pondeu que, se o governo via com desconfiança a bandeira dos paulistas,

gaúchos como Borges de Medeiros eram insuspeitos para defender a Cons-

tituinte:
A atitude do Rio Grande teve o dom de sacudir a opinião nacional de norte a sul

do país. [...] Ao povo gaúcho sobra autoridade para se pronunciar pelo regres-

so do governo da nação aos quadros da legalidade. Foi o Rio Grande quem to-

mou a iniciativa de promover a revolução. Foi ele quem se dirigiu aos outros es-

tados liberais e convidou-os para fazerem juntos o movimento de outubro.
262

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CHATÔ, O REI DO BRASIL


Encontra-se nas suas mãos o poder ditatorial supremo. Entre nove pastas minis-

teriais, nada menos que cinco, inclusive a polícia do Distrito Federal, são ocupa-

das por políticos rio-grandenses. As interventorias de Santa Catarina e do Mato

Grosso estão confiadas a gaúchos.

Se consultasse os seus interesses imediatos, o Rio Grande só poderia ser pelo

prolongamento do regime ditatorial. Ele vê sentado na cadeira do Catete um de

seus ilustres filhos. [...] Todo o Brasil poderia estar pedindo o fim da ditadura,

menos povo gaúcho, que nela enxerga o apogeu de seu prestígio político e de

sua glória marcial. O gesto, pois, do Rio Grande, obedece a imperativos morais

e conquistará o respeito mesmo das consciências medíocres.


Até O Cruzeiro, que apesar do enorme prestígio continuava sendo uma

revista dedicada aos faits divers, sem preocupações políticas, acabaria en-

trando na campanha pela redemocratização, com uma reportagem de duas

páginas cortadas pelo escandaloso título "Constituinte!". A crise política

que se avizinhava acabaria transformando a modorrenta revista dedicada à

família em um semanário ágil e politizado, que reservava suas primeiras e

mais nobres páginas à cobertura dos fatos políticos da semana. Tanto na re-

vista como nos jornais, porém, a fuzilaria inclemente dos artigos e edito-

riais - e agora também das reportagens - convivia sem problemas com

uma imparcial cobertura cotidiana dos atos do governo. Onde quer que Ge-

túlio Vargas fosse, havia sempre um fotógrafo dos Diários Associados de

plantão para registrar a cena: de uma insignificante visita a uma estação de

trens a viagens para fora do Distrito Federal, nada escapava dos seus repór-

teres e fotógrafos. Como se estivesse prevendo o rompimento político do

ministro do Trabalho com Vargas, Lindolfo Collor era quem merecia as

maiores atenções dos Associados. Se os artigos assinados por Chateau-

briand davam de fato a impressão de que seus jornais tinham se passado

para a oposição, a cobertura dos atos do governo, mais que correta, parecia

generosa demais. Não apenas do que o governo fazia, mas também das pa-

radas, desfiles e homenagens que recebia - como a sinfonia Exortação civi-

ca, composta especialmente por Villa-Lobos para o governo e entoada em

um estádio paulistano por um coral de nada menos de 12 mil estudantes de

escolas públicas.

No governo ou na oposição, não importava, as empresas de Chateau-

briand pareciam ir cada vez melhor de saúde. As únicas exceções tinham

sido alguns momentos de aperto vividos pelo Estado de Minas e pelo Diário

de S. Paulo. Em Belo Horizonte, o problema era a hipoteca do prédio local,

dado como garantia de pagamento do empréstimo contraído para a compra

do jornal. Neste caso bastou uma conversa de Chateaubriand com Clemen-

te Faria, dono do Banco da Lavoura e um dos "papas" do argentário Vatica-

no mineiro, e a dívida foi empurrada para quatro anos depois. Com o Diário

de S. Paulo a coisa foi mais grave. As conseqüências do crack da Bolsa de Va-

lores de Nova York sobre a economia paulista acabariam repercutindo num
263

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FERNANDO MORAIS


jornal que tinha seus alicerces plantados na indústria e na cafeicultura de

São Paulo. Um banqueiro a quem recorreu aconselhou-o "a agir como um

bom capitalista: se uma empresa está deficitária, venda-a - faça isto com o

Diário de S. Paulo". Ele arrepiou-se:

- Vender? Mas como é que o senhor quer que eu venda um jornal? O

senhor seria capaz de vender um filho deficitário? De mais a mais, meus jor-

nais são a minha gazua. Pergunte ao Meneghetti se ele vende a sua gazua...

[Ele se referia a Amleto Gino Meneghetti, o mais famoso ladrão de São Pau-

lo na época.]

Não fossem as mãos estendidas por Roberto Simonsen e o conde Sílvio

Penteado, e o socorro emprestado pela fartura em que viviam as empresas

irmãs de outros estados, e o Diário teria fechado suas portas em 1929.

Fora esses dois problemas, as demais empresas exibiam invejável robus-

tez. O Cruzeiro, que já vendia quase 80 mil exemplares semanais, nadava em

anúncios. O prestígio popular do Diário da Noite carioca era tão grande que

no Carnaval daquele ano o compositor Noel Rosa fizera um samba - e,

como era costume na época, dedicou-o não a uma personalidade, mas ao jor-

nal, levando pessoalmente à redação o manuscrito com a letra de "Com que

roupa?" (anos antes, Catulo da Paixão Cearense havia dedicado seu antoló-

gico "Luar do sertão" ao próprio Chateaubriand). Prestes a ser inaugurado,

o prédio de oito andares da rua Treze de Maio era tão grande que, mesmo

depois de ser ocupado pelas redações, administração e oficinas gráficas das

três publicações do Rio, sobraram andares inteiros, alugados para escritó-

rios. Os anúncios oferecendo salas no edifício recém-construído exaltavam

as modernidades que o conjunto oferecia: uma galeria no andar térreo per-

mitia acesso ao local tanto pela Treze de Maio como pela rua Senador Dan-

tas; todos os andares dispunham de bebedouros com água permanentemen-

te gelada; e quatro "rápidos e modernos elevadores, que funcionam dia e

noite e nos quais a segurança dos passageiros está garantida por luxuosas

portas pantográficas douradas".

Após terem sido os pioneiros na implantação, no Brasil, das impresso-

ras em rotogravura em cores (que permitiram que O Cruzeiro pudesse ser

impresso no Rio, com agilidade muito maior, e não mais em Buenos Aires),

os Associados já sonhavam com novas tecnologias. Aproveitando uma via-

gem de Austregésilo de Athayde aos Estados Unidos, Chateaubriand encar-

regou-o de assistir ao lançamento experimental, pela General Electric, do en-

genho que representaria uma revolução nas comunicações: uma máquina

denominada "telejornal", capaz de transmitir por ondas de rádio, a milhares

de quilômetros de distância, as imagens de uma fotografia ou de uma pági-

na de jornal. O próprio Chateaubriand, em pessoa, acabara de realizar para

O Jornal o que foi saudado como "a mais notável proeza jornalística da his-

tória da imprensa sul-americana": uma longa entrevista com o presidente


264

#
CHATÔ, O REI DO BRASIL


Alcalá Zamora, da renascida República espanhola, utilizando-se do sistema

de radiotelefonia que estava sendo experimentado pelo recém-criado Telé-

grafo Nacional. Em outubro, os Associados patrocinariam outro prodígio da

ciência: a bordo de seu iate Ellectra, ancorado na costa britânica, Guglielmo

Marconi acenderia as luzes da monumental estátua do Cristo Redentor cons-

truída no morro do Corcovado, no Rio. Emitido do iate, o sinal elétrico seria

captado por uma estação receptora instalada em Dorchester, na Inglaterra, e

retransmitido para uma antena em Jacarepaguá, no Rio, de onde seriam ace-

sas as luzes do Corcovado. Encerrada a cerimônia, Marconi enviaria a Cha-

teaubriand um telegrama que todos os Associados reproduziriam com des-

taque:
Signore Assis Chateaubriand

Capo Diarios Associados

Rio de Janeiro
Invio a lei e ai Diarios Associados le mie piu sincere felicitazioni per la loro

importante ed elevata iniziativa destinata a far vibrare nello stesso istante il

pensiero di Roma centro del cristianesimo e della civilta latina ed il pensiero del

grande popolo brasiliano.


Guglielmo Marconi
Em meio a esse carnaval tecnológico, Chateaubriand anunciara em ju-

nho daquele 1931 a realização de um velho sonho: a incorporação aos Diá-

rios Associados, como sua nona publicação, do mais antigo jornal do conti-

nente, o Diário de Pernambuco, que aos 106 anos de vida era a mais influente

publicação de todo o Nordeste. O jornal onde ele dera seus primeiros passos

na profissão, e em cuja redação resistira, de arma na mão, à truculência de

Dantas Barreto, agora era seu. No artigo em que tornou pública a notícia de

que estava estendendo seus tentáculos ao Nordeste, Chateaubriand festeja-

va "a alegria de incorporar um jornal cuja contribuição para o êxito da revo-

lução, pelo desinteresse e pela espontaneidade, foi das mais valiosas". Se-

gundo ele, o jornal não estava sendo comprado, mas "federado" à sua rede

(o jornal estava de fato sendo comprado - o que Chateaubriand pretendia,

com a brincadeira, era dizer que a sua não era uma mera rede de jornais, mas

uma "federação"). Sim, sublinhava, "pensar que nós adquirimos pura e sim-

plesmente o Diário seria a mesma coisa que supor que pudéssemos comprar

a Faculdade de Direito do Recife ou o Convento de São Francisco". Mas tam-

bém deixava claro ao governo - e aos tenentes, sobretudo - que a linha

editorial do Diário de Pernambuco seria a mesma que vinha sendo seguida pe-

los outros sete jornais Associados e pela revista O Cruzeiro: "Federado aos

Associados, o Diário conservará intata sua autonomia para exercer o manda-

to que lhe outorgou o povo de Pernambuco. Onde quer que haja um erro a
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#
FERNANDO MORAIS


profligar, um abuso de autoridade a denunciar, ele jamais fugirá a esse

dever".


Na incontrolável expansão de seus veículos, dois meses depois Cha-

teaubriand inaugurava uma novidade, só 35 anos mais tarde imitada por ou-

tros jornais brasileiros - uma agência de notícias. Naquele ano só existiam

cinco agências no mundo, sendo três européias (Havas, Reuters e Wolff) e

duas norte-americanas (Associated Press e United Press). No Brasil, a única

experiência no gênero havia sido tentada na década de 1910 por Cásper Lí-

bero e Raul Pederneiras ao fundar a Agência Americana - iniciativa que

não prosperou e posteriormente seria desativada. Ao criar a Agência Meri-

dional, Chateaubriand profissionalizava o que já era feito amadoristicamen-

te entre suas empresas: a distribuição do material produzido por um jornal

para os demais veículos Associados. Aquilo que até então era um gentil in-

tercâmbio de artigos e reportagens tornou-se uma fonte de renda para o jor-

nal que produzisse o material. Além disso, meses depois a Meridional come-

çaria a ver dinheiro de fora, ao incorporar como clientes vários jornais de

outros estados, que pagavam para reproduzir o que saía nos Associados.

A guerrilha de palavras contra Vargas e seus tenentes prosseguia, mas

Chateaubriand sabia que estava lidando com adversários duros na queda.

Em setembro ele foi convidado pelo presidente para assistirem juntos, a bor-

do de um destróier, a exercícios da Marinha nas costas do Rio. Dias antes ti-

nha sido anunciado o novo interventor na Bahia: Juraci Magalhães. Chateau-

briand não resistiu à tentação de perguntar a Getúlio as razões da escolha

daquele nome:

- Ditador, por que o senhor nomeou interventor na Bahia o senhor Ju-

raci Magalhâes, um tenente, e, mais do que isso, um tenentista militante?

Vargas deixou claro que estava disposto a trocar chumbo com os adver-

sários:
- A nomeação desse "tenente tenentista" é a resposta que dou a vós to-

dos, pelo açodamento com que pedis a nova Constituição.

Com açodamento ou não, continuariam pedindo. Os raros momentos

de sossego que Vargas tinha era quando Chateaubriand largava o osso do te-

nentismo e da Constituinte para se dedicar, ainda que por poucos dias, a al-

gum outro assunto. Como aconteceu naquele final de ano, quando ele pas-

sou duas semanas na Amazônia em companhia de Lindolfo Collor, a convite

da Ford, para visitar a concessão de exploração de borracha que a empresa

americana recebera do governo - viagem que lhe custaria a acusação de ter

recebido 3 mil contos da Ford para defender o empreendimento em seus jor-

nais. Fora essas raras ausências mais demoradas, sua vida estava dividida

entre o Rio, São Paulo, Belo Horizonte e, menos amiúde, Porto Alegre.

Em uma dessas viagens a Minas, Chateaubriand testemunhou um estra-

nho fenômeno que o marcaria para o resto da vida. Como fazia sempre que
266

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CHATÔ, O REI DO BRASIL


ia a Belo Horizonte, deixou a mala no hotel e dirigiu-se ao prédio onde fun-

cionavam os dois jornais. Reuniu-se com os diretores, conversou, deu ordens

e quando eram dez horas da noite retirou-se para o hotel. Como o motivo de

sua visita à cidade era uma elegante festa de grã-finos no Automóvel Clube

local, vestiu um fraque, tirou a cartola da caixa de papelão e sentou-se em

uma mesinha para escrever, sempre a lápis, o artigo que seria publicado no

dia seguinte em todos os seus jornais. Com a expansão da rede, em cada ci-

dade onde havia um jornal seu foi preciso arranjar um linotipista que conse-

guisse interpretar os garranchos do patrão a fim de compor em chumbo os

artigos que ele escrevia - e assim era também em Belo Horizonte. Juntou o

maço de papéis, tomou um táxi na porta do hotel e, a caminho da festa, dei-

xou o artigo na portaria do jornal para ser composto.

Já era alta madrugada quando voltou ao quarto de hotel. Ao tirar o pa-

letó do fraque, percebeu que um amontoado de folhas manuscritas - mais

ou menos um terço do artigo - tinha ficado no bolso interno da roupa. Irri-

tado, foi dormir certo de que no dia seguinte os jornais não publicariam seu

artigo.

Acordou cedo e pediu que um estafeta do hotel comprasse na banca



mais próxima um exemplar do Estado de Minas. Perplexo, percebeu que o arti-

go tinha sido publicado - e que alguém tinha cometido a ousadia de preen-

cher, por sua conta, o buraco que ficara no meio do texto. Vestiu-se e correu

para o jornal, onde chegou tomado de fúria. Berrava palavrões pela redação,

dizendo que um atrevimento como aquele era inadmissível. Ou o responsá-

vel aparecia ou ele demitia toda a direção. O cristo apareceu horas depois:

era José de Souza Fortes, um jovem franzino responsável pela revisão das

provas tipográficas de seus artigos, não importava onde tivessem sido escri-

tos. Quando o rapaz, aterrorizado, entrou na sala, Chateaubriand deu um

murro tão violento sobre a mesa que derrubou no chão várias xícaras de

café:

- O senhor é um filho da puta, um atrevido. Como é que o senhor se



arvora o direito de escrever um pedaço de artigo que seria assinado por

mim?


O jovem gaguejava:

- Mas doutor Assis, minha intenção...

- Intenção é a puta que o pariu! Nos meus jornais só eu posso ter in-

tenções!


- Mas doutor Assis, diariamente sou eu quem revisa seus artigos, eu

apreendi o seu jeito de escrever, seu estilo, suas idéias. Eu não fiz isso por

mal...

- Por bem ou por mal, o senhor pode arranjar outro emprego. Está des-



pedido.
267

#
FERNANDO MORAIS


Estudante pobre de medicina, que dependia do salário para viver em

Belo Horizonte, no dia seguinte Fortes já estava empregado, mas agora como

vendedor de frutas no mercado municipal. E foi lá, atrás de uma banca de

laranjas, que ele foi localizado por Amarildo Bandeira de Melo, chefe da re-

visão dos Associados em Minas:

- Vamos voltar ao jornal que o doutor Assis quer falar com você.

- Não volto lá por dinheiro nenhum. Ele me insultou, me humilhou,

não tenho nada a conversar com esse nortista grosso. O que ele quer comi-

go: xingar minha mãe outra vez? Não volto, seu Amarildo. Prefiro vender

frutas ou ficar desempregado e voltar para Viçosa, mas aquele sujeito não

me vê mais.
Amarildo insistiu:
- Você tem que voltar. Ele quer lhe pedir desculpas pela cena de on-

tem. Pode voltar que o homem está manso.

Voltaram juntos à redação. Chateaubriand estava de suspensórios, com

as mangas da camisa arregaçadas. Na mão direita tinha o artigo já impresso

e na esquerda as folhas que havia esquecido no bolso do fraque. Com um

sorriso no rosto, abraçou o amedrontado revisor:

- Estou muito arrependido pelo que fiz com você ontem. Chamei-o

aqui para pedir-lhe desculpas, mas principalmente para mostrar-lhe uma

coisa inacreditável. Sente-se aqui, meu filho, e compare esses originais com

o trecho que o senhor completou.

José Fortes leu os rabiscos, sem entender quase nada do que estava es-

crito, e passou os olhos sobre os parágrafos que escrevera. Chateaubriand in-

terrompeu-o:

- Viu? O texto que o senhor escreveu é exatamente igual, palavra por

palavra, vírgula por vírgula, exatamente igual ao que eu tinha escrito.

O rapaz se explicava, constrangido:

- Mas foi isso que eu tentei explicar ao senhor ontem. Quem é obriga-

do a ler todos os dias os artigos de um mesmo autor acaba pegando o estilo

dele.

- Nada disso, meu filho, o senhor só pode ter psicografado meu texto.



Eu não tenho fé, não acredito em nada, mas sou obrigado a reconhecer que

o senhor deve ter capacidades mediúnicas fortíssimas. Quanto é que o se-

nhorganhava?

- No Estado de MinAs trezentos mil-réis por mês, e no Diário da Tarde

duzentos mil-réis.

- Pois então o senhor está readmitido com o salário dobrado. Vai ga-

nhar seiscentos mil-réis no Estado e quatrocentos mil no Diário da Tarde. Pode

ir embora, e aceite de novo minhas desculpas, seu Fortes. O senhor é um

bruxo.

268


#
CHATÔ, O REI DO BRASIL
Chateaubriand não imaginava, naquele dia, que os inexplicáveis pode-

res paranormais de Fortes o acompanhariam até a sepultura, muitos anos

depois.

Com a vida desorganizada pelos horários do jornal e pelas viagens, o



jornalista via muito pouco a mulher, Maria Henriqueta, e a única maneira de

não perder o contato com o filho Fernando eram os jantares que organizava

aos domingos na Vila Normanda, para os quais sempre convidava o afilha-

do Gigil. O reencontro dos dois meninos não tinha sido muito prazeroso

para Gigil - Fernando foi muito frio, muito seco. Mas esse gelo logo seria

dissolvido pelo bom humor do filho de Chateaubriand, que compartilhava

com o amigo as brincadeiras sobre o comportamento exótico do pai. Quem

visse um daqueles jantares de domingo podia dizer que tinha visto todos: Ar-

tur, o novo motorista, ia buscar Gigil às dez da noite, mesmo que todos sou-

bessem que Chateaubriand só chegaria para o jantar à meia-noite. Viesse so-

zinho ou com algum companheiro do jornal, invariavelmente ele chegava

cansado. Sentava-se à cabeceira da mesa, indicava o lugar da direita para Fer-

nando e o da esquerda para Gigil. Aí começava a mesma liturgia de sempre.

Virava a cabeça para o lado de Fernando e perguntava:

- Como vai sua mãe?

Voltava-se para Gigil e repetia a pergunta:

- Como vai sua mãe?

Virava de novo para Fernando:

- Como vão os estudos?

E para Gigil:

- Como vão os estudos?

Segundos depois, com o queixo caído sobre o peito, ele roncava alto, às

vezes antes mesmo que o jantar tivesse sido servido. Acordava sobressalta-

do minutos depois e dirigia-se ao que estivesse diante de seus olhos:

- Como vão os estudos?

Em algum momento do jantar soltava um ruidoso peido, assustava-se

com aquilo e repetia o gesto de cabeça:

- Desculpe, meu filhinho.

E para o outro:

- Desculpe, meu filhinho.

E muito dificilmente passava disso. Quando levava visitas e o assunto

começava a morrer, ele tinha uma piada sem graça, sempre a mesma: batia

com a mão na mesa, virava de costas na cadeira, apontava para uma tela do

Portinari, O enterro, pendurada na parede e perguntava à visita, pois os dois

garotos já conheciam a piada de cor:

- Quem aqui sabe o que é aquilo?


269

#
FERNANDO MORAIS


Alguém naturalmente dizia:

- Um enterro...

Ele retrucava, sorridente:

- Nada disso! É uma natureza-morta!

Diante da perplexidade geral, vinha a piada:

- É uma natureza-morta. O que é mais morto do que um enterro?

Fernando e Gigil caíam na gargalhada, não por achar graça naquilo,

mas pelo fato de estarem ouvindo a mesma piada pela centésima vez. Quan-

do ele estava descansado, os meninos escutavam de novo as mesmas prele-

ções: que a educação tinha de começar no berço, que a disciplina e o rigor es-

partano deviam presidir as vidas deles, que era preciso ter coragem sempre,

quaisquer que fossem as circunstâncias. Às duas da manhã estava termina-

do o jantar. Ainda mais difícil era conseguir tempo para outros folguedos,

como as visitas ao cabaré Assyrio, instalado nos baixos do Teatro Municipal,

ao rendez-vous de madame France, em Botafogo, ou mesmo para usar a gar-

çonnière que dividia com Austregésilo de Athayde em Copacabana.

Todo o seu tempo e a sua energia estavam voltados mesmo para infer-

nizar a vida dos tenentes. Quando, no meio do ano, o ministro da Viação e

Obras Públicas José Américo de Almeida decidiu tornar caduco o decreto

que concedia autorização para Percival Farquhar explorar a siderurgia no

Brasil, os leitores se deram conta de que o nacionalismo de Chateaubriand

não ia além dos ternos de brim da América Fabril e dos sacos de algodão bra-

sileiro para exportar café. Ao tomar conhecimento da medida, ele rugiu em

defesa de seu amigo americano, acusando os tenentes de terem transforma-

do Vargas "num nacionalista truculento, inumano, ferocíssimo". Sonhou

com o dia em que o Brasil viesse a ser "uma nação de verdade ", para o dono

da Itabira Iron Ore ter "no mínimo uma estátua em Porto Velho, outra em

Belém do Pará, uma em Manaus e mais três em São Paulo, no Paraná e no

Rio Grande do Sul".

Em outro artigo arrolou, pela enésima vez, os benefícios que Farquhar

trouxera para o Brasil: como associado de Pierson e de Mackenzie, pusera

uma Light no Rio e outra em São Paulo, ambas produzindo 400 mil cavalos

de energia; estimulara a construção ou implantara ele próprio as ferrovias

do Rio Grande do Sul e do Paraná, a Sorocabana, a Paulista, a Mogiana, a

Southern São Paulo, a Madeira-Mamoré; colonizara o vale do rio do Peixe,

levando as pontas dos trilhos da São Paulo-Rio Grande até o sertão; tenta-

ra atrair a Swift para operar no Brasil, mas, como a empresa britânica não se

animasse, montara ele mesmo frigoríficos em Osasco e no Rio de Janeiro; im-

portara matrizes para apurar seus rebanhos de bovinos no Mato Grosso;

construíra os portos do Pará e de Rio Grande; levara Osvaldo Cruz para sa-

near Guajará-Mirim. Como se isso não bastasse, insistia o jornalista, "con-

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CHATÔ, O REI DO BRASIL
vencido de que o cartão de visitas de um país são os seus hotéis, e como o

Brasil de 1910 ainda era antropofágico, construiu o Grande Hotel do Guaru-

já e a Rotisserie Sportsman, em São Paulo, e fez vir os chefs de cuisine do Sa-

voy e do Carlton para ensinar os brasileiros "a comer como em terra civili-

zada e a tratar melhor os seus hóspedes". Segundo Chateaubriand, tanta

pujança teria feito a glória de qualquer homem nos Estados Unidos, "mas no

Brasil o sr. Farquhar é denegrido pela indigência mental dos nossos te-

nentes ".

Diante de tão incisiva louvação, Getúlio imaginou que Farquhar pode-

ria ser o antídoto contra a fúria de Chateaubriand. Chamou o jornalista ao

Palácio do Catete e pediu que ele fosse o intermediário de um convite para

que o industrial americano retornasse ao Brasil a fim de rediscutir o decreto

que fizera caducar seus projetos siderúrgicos. Desconfiado de que estava

sendo manipulado pelo presidente, pulou fora da incumbência:

- Primeiro, ditador, é preciso lembrar que diante da depressão mun-

dial será quase impossível a Farquhar levantar um dólar a mais para a Itabi-

ra. E depois, mesmo que houvesse dinheiro fácil pelo mundo, tenho a certe-

za de que seu governo, dominado como está pelo paroxismo nacionalista,

nunca negociaria com a Itabira dentro das fórmulas da livre empresa, como

fizeram com ele Epitácio Pessoa e Antônio Carlos.

Getúlio insistia em que Chateaubriand fosse o padrinho da viagem do

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FERNANDO MORAIS

industrial ao Brasil, mas o jornalista suspeitava que havia algo escondido

sob aquela mudança de comportamento tão inesperada:

- Eu sei aonde isso vai parar e não posso cometer tal crueldade com

um amigo como Percival Farquhar, ditador, mas o senhor tem quem possa

substituir-me nessa missão. Afrânio de Melo Franco, que é seu ministro do

Exterior, também advogou por muito tempo para a Brazilian Traction. Um

telegrama dele a Farquhar será suficiente para materializar seu desejo de tra-

tar diretamente com o homem da Itabira.

Quando desembarcou de um hidroavião da Panair no Rio de Janeiro,

em julho, convidado por Melo Franco em nome de Vargas, Farquhar foi sau-

dado pelos Diários Associados como se estivesse chegando "a alvorada do

nosso desenvolvimento industrial". Talvez por estar habituado a lidar com

os clássicos ditadores latino-americanos, o industrial chegou animado com a

perspectiva de solucionar definitivamente seus negócios no Brasil."Como

não havia um Congresso nacional que pudesse obstruir os atos do presiden-

te, nem jornais antiestrangeiros para fazer contra mim as campanhas de

1920", confessaria Farquhar vinte anos depois,"imaginei que Vargas e eu

decidiríamos secretamente a questão da Itabira, através da pura e simples

assinatura de um decreto." Se conhecia bem os ditadores tradicionais,o

construtor da Madeira-Mamoré parecia não ter levado a sério as advertên-

cias que Chateaubriand lhe fizera sobre os jovens militares que o jornalista

agora apelidara de "tenentes do diabo" (o apelido, que Chateaubriand já

usara como título de um de seus artigos, continha um deboche oculto: Te-

nentes do Diabo era o nome de um bloco carnavalesco do Rio de então).

Tudo correu como Chateaubriand temia. Vargas recebeu Farquhar no

palácio horas depois de ele ter descido no aeroporto, foi cavalheiro, falou

que estava disposto a atrair investimentos estrangeiros para o Brasil. Mas,

para surpresa do americano, não tocou no único motivo de sua viagem, o de-

creto tornando caduca a concessão. Isso era tema para ser discutido com os

ministros das áreas competentes. Ou seja, o presidente o jogava nos braços

dos tão temidos tenentes. Infrutíferas, as reuniões de Farquhar com minis-

tros e técnicos do governo não avançaram um milímetro em relação à situa-

ção anterior. Ao contrário, o Ministério da Viação ainda decidiu aplicar-lhe

uma multa prevista em decreto de 1928, que estabelecia que, se as obras da

siderúrgica não se iniciassem em novembro de 1930, a Itabira teria de pagar

ao governo 50 mil contos de réis mensais, durante doze meses. Como era ju-

lho e não havia obra alguma em Minas Gerais, Farquhar tomou o avião de

volta sem solucionar nada e ainda devendo ao governo brasileiro uma for-

tuna no valor de 300 mil contos de réis.

Para Chateaubriand, a desfeita do governo ao dono da Itabira era fruto

agora da "coloração cada vez mais bernardesca" - em alusão ao nacionalis-


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


mo de Artur Bernardes - que o tenentismo assumia. Tudo aquilo, no seu en-

tender, significava claramente um rompimento com os princípios da Aliança

Liberal. "Depois que esses elementos militares empolgaram o poder, sob a

presidência Getúlio Vargas", atacou em um artigo, "passou a ser um pesa-

delo ser-se liberal. Se no tempo de Washington Luís era crime ser liberal,

agora é uma temeridade." O último embate de 1931 contra os tenentes-

que o jornalista não venceria, mas que ao menos adiaria sua derrota para três

anos depois - ocorreu quando os militares propuseram que o governo de-

cretasse a moratória da dívida externa. Defensor de uma política de sacri-

fícios internos para sanear as finanças do Brasil, e não de um calote nos cre-

dores internacionais, Chateaubriand sustentava que a suspensão, mesmo

temporária, do pagamento do serviço e da amortização dos débitos externos

era "obra do jacobinismo dos moços da esquerda revolucionária". E, quan-

do o banqueiro paulista e ministro da Fazenda José Maria Whitaker curvou-

se às pressões tenentistas e declarou que a proposta "talvez pudesse vir a ser

implementada", o jornalista publicou o artigo intitulado "O irreparável",

onde parecia estar entregando os pontos: "Os Diários Associados sempre

combateram a moratôria. Contra ela lutaram desde a primeira hora. Vendo

porém a rendição de seu mais impávido adversário, que era o ministro da

Fazenda, queremos crer que todos os sacrifícios foram feitos. Teremos caído,

mas caímos de pé ".

Para que não restassem dúvidas de que suas preocupações com Far-

quhar e com a moratória não o tinham afastado da luta pela redemocratiza-

ção do país, ele não resistiu à tentação de mandar o Diário da Noite provocar

Getúlio. Já que o presidente não fazia eleições, seu jornal iria fazê-las. Duran-

te semanas o Diário da Noite anunciou que estava realizando uma pesquisa

"em todas as camadas sociais do Rio de Janeiro ", a quem dirigia uma única

pergunta: "Qual o tipo ideal para ocupar a Presidência da República?". Ape-

sar de tão espalhafatosamente alardeada, o Diário da Noite teve de manter o

resultado da pesquisa em eterno segredo para seus leitores: antes que ele

fosse publicado, a mão pesada do chefe de polícia Batista Luzardo mandou

recolher todas as planilhas na redação, proibindo a publicação de uma síla-

ba que fosse sobre o assunto.

Assis Chateaubriand passou todo o primeiro semestre de 1932 jogando

gasolina na fogueira política que começava a crepitar em São Paulo. Afinan-

do a pontaria, deixou de atirar aleatoriamente nos tenentes e no tenentismo

para martelar o instrumento político da ação deles, o Clube Três de Outubro.

Criado no começo de 1931, o clube se transformara, com o correr dos meses,

ora em partido político dos tenentes, ora em seu braço armado. Sua mais re-

cente aparição política tinha sido nos últimos dias de 1931, ao lançar um ma-


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FERNANDO MORAIS


nifesto claramente anticonstitucionalista. No Rio Grande do Sul, dirigentes

do clube tentaram uma manobra acionária (semelhante à que fora urdida

por Artur Bernardes contra O Jornal em 1925) para tirar das mãus de Cha-

teaubriand o Diário de Noticias, inimigo declarado dos tenentes. O jornalista

foi obrigado a correr a Porto Alegre para "varrer da nossa casa a malta de fli-

busteiros que assaltara o jornal". Para vários historiadores, ser tenente e

membro do Clube Três de Outubro significava, no Brasil pós-revolução de

30, muito mais do que ser general ou ministro. Para Chateaubriand, no en-

tanto, tal como a Société des Jacobins, o feroz clube dos jacobinos da Revo-

lução Francesa, o Três de Outubro nada mais era que "a guarda sagrada do

tabernáculo, o oratório do que há de mais radical no tenentismo".

O jornalista farejava que, como reação ao excessivo poder dos tenentes,

algum movimento de alto teor explosivo estava engatinhando em São Pau-

lo. Primeiro manifestou essas preocupações ao interventor na Bahia, Juraci

Magalhães, insistindo em que a única maneira de evitar um confronto com

os paulistas era atender pelo menos à sua reivindicação básica: que o inter-

ventor federal em São Paulo fosse "civil e paulista". Ao comentar as mesmas

suspeitas com "o ditador ", viu Vargas reagir com tranqüilidade:

- Calma, Chateaubriand. Vou esperar a cobra paulista botar a cabeça

para fora, para poder esmagá-la...

Sem deixar de admirar o gênio político de Getúlio, Chateaubriand acre-

ditava que o presidente se perdia ao incorrer em dois erros palmares, que

poderiam custar-lhe o poder: humilhar São Paulo e manter sua base de apoio

não nos experientes políticos (gaúchos e mineiros, sobretudo), mas no es-

querdismo tenentista. "Ultimamente declarou-se guerra aos políticos brasi-

leiros ", repetia em público o que já havia escrito nos artigos. "Até um cego

vê que os mais graves problemas da revolução advêm da inexperiência po-

lítica de seus mais importantes dirigentes." O jornalista releu a entrevista

que ele próprio fizera com Vargas, ainda na caravana que avançava em di-

reção ao Rio, em outubro de 1930, e só então entendeu o significado da pro-

messa de que a revolução seria "radical no programa e nos métodos". Tudo

indicava que não haveria saída pacífica para aquele impasse.

De crítica em crítica, de artigo em artigo, Chateaubriand caminhava de-

pressa em direção à oposição. Vendo-o cada vez mais contra Vargas, um jor-

nal governista do Rio Grande do Sul resolveu provocá-lo, reproduzindo na

íntegra o laudatório artigo intitulado "Um monstro", escrito logo após o triun-

fo da revolução. Ele respondeu prontamente: "Hoje eu não escreveria 'Um

monstro' - e estou quase me dirigindo ao Rio Grande para renegar essa pá-

gina que me foi sugerida por dois dedos de prosa com o sr. Vargas ainda no

Paraná". Mas ele sabia que o epicentro do terremoto estava mesmo em São

Paulo. Em meados do ano anterior João Alberto se demitira do cargo de in-

terventor, abrindo a possibilidade de oferecer o lugar a um "civil e paulista",


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


como se reivindicava nas ruas. A escolha recaiu sobre um ex-funcionário de

Chateaubriand, Plínio Barreto, agora sucedendo o falecido Júlio Mesquita na

direção do Estado. Apesar de vir do jornal que mais claramente expressava

os interesses paulistas, Barreto não tinha o apoio do PD e do velho e oligár-

quico PRP, inimigos que haviam se juntado na FUP, a Frente Única Paulista,

para combater Getúlio. Para o lugar que Barreto não pôde aceitar, Vargas

acabaria nomeando o jurista e magistrado Laudo de Camargo, que, mesmo

não sendo da integral confiança da FUP, era "civil e paulista" - o que já re-

presentava alguma forma de concessão a São Paulo.

Os tigres tenentistas, porém, tinham provado o gosto de sangue e se re-

cusavam a voltar a ser vegetarianos. Apesar de ter passado pelo crivo deles,

Laudo de Camargo iria durar pouco como interventor. Poucos meses depois

ele também renunciaria, pressionado pelos tenentes, que o acusavam de

manter um Secretariado "vendido aos banqueiros internacionais". Com João

Alberto manipulando os cordéis a distância, Getúlio entregaria a intervento-

ria do estado ao coronel carioca Manuel Rabelo (nem civil nem paulista, por-

tanto), em uma flagrante derrota dos constitucionalistas para o tenentismo,

que recuperava o controle sobre São Paulo. Humilhados, os paulistas res-

ponderam com manifestações de rua e atos contra o governo. Surpreenden-

do todas as expectativas, as primeiras vozes a se levantar em solidariedade

a São Paulo viriam do ninho dos tenentes, o Rio Grande do Sul - e de três

dos mais expressivos condestáveis da revolução. Reunidos na chamada

Conferência de Cachoeira - uma alusão à cidade de Cachoeira do Sul, onde

se realizou -, o interventor Flores da Cunha e os chefes do Partido Republi-

cano Rio-Grandense, Borges de Medeiros, e do Partido Liberal, Raul Pilla,

enviaram à FUP uma moção de solidariedade, além de reafirmarem sua con-

vicção pró-redemocratização do Brasil.

Fiel à política pendular de "apagar uma labareda e acender outra",

como o qualificara Chateaubriand, o presidente tentaria compensar os pau-

listas com a nomeação de Maurício Cardoso para o Ministério da Justiça, no

lugar de Osvaldo Aranha. Em seu discurso de posse, no dia 22 de dezembro,

se ainda não falava em Constituinte, pelo menos Cardoso tomaria a iniciati-

va de defender a promulgação de uma legislação eleitoral - era a primeira

vez que alguém tão graduado tocava nesse tema, tabu para o governo revo-

lucionário. O Clube Três de Outubro deu o troco de imediato, respondendo

ao ministro com um duro manifesto contra qualquer forma de constitucio-

nalização do país - os chamados "outubristas " não abriam mão da manu-

tenção da "pureza" dos princípios revolucionários. Tão logo tomou conheci-

mento da moção de solidariedade a São Paulo, Chateaubriand embarcou

num avião para Porto Alegre para repercutir, como repórter, a reviravolta

que os gaúchos haviam provocado na política do governo federal. Publica-

das simultaneamente em todos os jornais Associados, as entrevistas feitas


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FERNANDO MORAIS


com Raul Pilla e, no dia seguinte, com Borges de Medeiros jogavam mais le-

nha na fogueira. Na primeira, o parlamentarista Pilla historiava "a gênese do

dissídio entre o Rio Grande do Sul e o governo" - que Chateaubriand, como

sempre, só chamava de "a ditadura". Já Borges de Medeiros resumia seus

objetivos em dois pontos centrais: primeiro, defendia uma "atitude gandhis-

ta" em relação a Vargas - ou seja, quem estivesse pela redemocratização

não podia aceitar cargos políticos ou administrativos no governo federal. Em

segundo lugar, exigia a fixação imediata de uma data para a Constituinte.

Animado com o eco gaúcho às suas reivindicações, o Partido Democrá-

tico de São Paulo - ferrenho adversário de Washington Luís e revolucioná-

rio de primeira hora - enviou vários membros de sua executiva ao Rio para

um encontro com Getúlio e Maurício Cardoso, em que protestaram contra o

"esbulho de São Paulo pelo tenentismo" e insistiram na velha demanda: o

interventor precisava ser civil e paulista. Como Vargas não desse nenhuma

resposta afirmativa, o PD rompeu formalmente com o governo - gesto que,

segundo Chateaubriand, "transformava a política brasileira num verdadeiro

pandemônio".

O rompimento do PD mostrou com clareza a Getúlio que não havia ou-

tra alternativa senão fazer concessões aos paulistas. No dia 24 de fevereiro,

quando se comemorava o aniversário da primeira Constituição republicana

brasileira, a de 1891, os paulistas tomaram a praça da Sé em ruidosa mani-

festação pró-democracia e pró-Constituinte. Maurício Cardoso conseguiu

convencer Vargas a assinar, naquele mesmo dia, o novo Código Eleitoral. A

violenta resposta dos tenentes à inadmissível concessão aos constitucionalis-

tas foi imediata. No dia seguinte mais de 150 homens ligados ao Clube Três

de Outubro invadiram-e empastelaram o Diário Carioca, de José Eduardo de

Macedo Soares, rigoroso defensor da redemocratização do país. Tanto Mau-

rício Cardoso quanto o chefe de polícia do Distrito Federal, Batista Luzardo,

tentaram abrir uma sindicância que de fato apurasse a autoria do atentado e

punisse os responsáveis. Eles estavam enfiando o bisturi no centro da ferida:

pressionado pelos tenentes, Getúlio desautorizou qualquer investigação

mais rigorosa. A tentativa de acobertar uma violência como aquela foi a gota

d'água que entornaria a dissidência gaúcha. O presidente ainda tentaria apa-

gar a labareda que ele próprio acendera, nomeando no dia 2 de março Pedro

de Toledo, civil e paulista, para o lugar do coronel Manuel Rabelo. Mas já era

tarde demais para conter a debandada: no dia 3, Batista Luzardo e os minis-

tros Maurício Cardoso e Lindolfo Collor pediam demissão. Junto com os

três, deixava também o governo João Neves da Fontoura, que, embora tives-

se sido convidado por Vargas, em outubro de 1930, a assumir a intervento-

ria do Rio Grande do Sul ou o Ministério da Justiça, aceitara apenas um car-

go de consultor jurídico do Banco do Brasil.
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CHATÓ, O REI DO BRASIL


A manifestação dos gaúchos animou a direção da FUP a enviar dois

emissários a Porto Alegre a fim de alinhavar o apoio do Sul à resistência que

já se organizava em São Paulo. Entre a posição moderada do interventor Flo-

res da Cunha e o radicalismo de Collor, Fontoura e Pilla, que já queriam

marcar a data para começar a luta armada contra o governo provisório, fi-

cou-se no meio-termo: a coligação formada pela FUP e pelos gaúchos enviou

a Getúlio um manifesto contendo sete exigências, que iam da punição exem-

plar dos autores do atentado contra o Diário Carioca até a convocação, ainda

em 1932, de uma Assembléia Nacional Constituinte. Tentando controlar a si-

tuação, Getúlio permaneceu em silêncio para, passados trinta dias (com o

devido assentimento dos "tenentes", interventores e comandantes milita-

res), anunciar, como iniciativa sua, a promulgação de um decreto que mar-

cava as eleições para um ano depois - maio de 1933.

Já não havia mais promessa de democratização, entretanto, que pudes-

se conter os paulistas. No dia 23 de maio, Cláudio Bueno Miragaia, Mário

Martins de Almeida, Dráusio Marcondes de Souza e Américo Camargo de

Andrade, que organizavam manifestações contra Vargas, foram mortos a ti-

ros no centro de São Paulo em um choque com defensores do governo fede-

ral. As iniciais de seus nomes - MMDC, de Miragaia, Martins, Dráusio e Ca-

margo - transformaram-se na sigla que denominaria a partir daquele dia a

sociedade secreta paulista que preparava a guerra contra Getúlio Vargas.

Chateaubriand viaja a São Paulo para cobrir a crise de perto, como repórter,

analista e militante. Encontra multidões pelas ruas pedindo o fim do gover-

no revolucionário e falando abertamente em separatismo. Grupos dão vivas

ao presidente deposto Washington Luís, naquele momento desfrutando de

confortável exílio nos Estados Unidos. O jornalista escreve da capital paulis-

ta um artigo que traduz o espírito reinante no estado: "Como venho acen-

tuando há dias, nunca se conversou tanto no Brasil, nunca se perdeu tanto

tempo em prosa - boa ou má, pouco importa, mas em pura prosa. É inútil

prolongar-se a estação lírica dos tenores e barítonos da ditadura. Afinal, o

país se fatigou dessa conversa fiada interminável".

Ao contrário de outubro de 1930, quando se metera de arma na mão no

movimento contra Washington Luís, na preparação da revolução paulista de

1932 Chateaubriand atuou mais como jornalista. O máximo a que chegava

sua militância era funcionar como pombo-correio de Lindolfo Collor, levan-

do correspondências do ex-ministro gaúcho para o interventor mineiro Ole-

gário Maciel, que Collor tinha esperanças de atrair para a causa constitucio-

nalista. Sua verdadeira contribuição aos rebeldes paulistas tinha sido colocar

os Associados escancaradamente a serviço da insurreição tramada em São

Paulo. Quando o Diário Carioca foi destruído pelo Clube Três de Outubro,


277

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FERNANDO MORAIS


Chateaubriand noticiou o atentado em manchete e com todo o destaque em

seus jornais, e determinou que O Cruzeiro fotografasse os escombros e entre-

vistasse os gráficos feridos pelos assaltantes. Como sinal de protesto contra

a violência que o governo federal se recusava a coibir, mandou todos os seus

veículos pararem por 24 horas. Além disso, colocou as máquinas instaladas

na rua Treze de Maio à disposição de Macedo Soares, para que o jornal em-

pastelado pudesse ser impresso lá até que seu funcionamento se normalizas-

se, o que acabou levando três meses. Em franca oposição a Getúlio, Lindol-

fo Collor assumiu uma das diretorias de O Jornal e passou a assinar artigos

diários, publicados em todos os órgãos Associados.

No Rio, quando não eram importunados pela censura de João Alberto

(que assumira a chefia de polícia), os jornais faziam oposição desde as char-

ges de Álvarus até os artigos de Chateaubriand, Collor e Austregésilo de

Athayde. Além de ocupar todos os espaços disponíveis nos jornais e na re-

vista, a guerra ao governo montada em torno de Chateaubriand ganhara

mais um espaço: o "Jornal falado dos Diários Associados", uma novidade

que Athayde trouxera dos Estados Unidos e que ocupava meia hora diária

na Rádio Educadora, das oito e meia às nove horas da noite. Em São Paulo,

o incontrolável irmão mais novo de Chateaubriand, Oswaldo, revelava uma

virulência sem precedentes ao atacar o governo. Em seus artigos, afirmava

que a revolução estava moribunda, e que a censura aos jornais representava

para ela "uma espécie de balão de oxigênio", que lhe assegurava "apenas

uma existência artificial". Os panfletos distribuídos clandestinamente nas

ruas pelos conspiradores paulistas eram publicados na íntegra, de graça, nos

dois jornais Associados locais, mesmo quando expressos em textos torren-

ciais, que chegavam a ocupar uma página inteira. A temperatura subia a ní-

veis insuportáveis.

Na madrugada de 10 de julho, Chateaubriand conversava com Austre-

gésilo de Athayde em O Jornal quando o ex-deputado paulista Machado

Coelho entrou sobressaltado redação adentro. Fiel seguidor de Washington

Luís, ele tinha sido obrigado a fugir do país logo depois da revolução, e re-

tornara havia pouco. Coelho trazia a notícia que todos esperavam: a revolu-

ção tinha estourado em São Paulo. Junto com a informação, uma advertên-

cia a Chateaubriand: amigos seus na polícia haviam lhe confidenciado que

João Alberto ia mandar prender o dono de O Jornal ainda naquela noite. Ele

estava ali para oferecer-lhe sua insuspeita casa de milionário como esconde-

rijo. Chateaubriand recusou a generosidade, certo de que havia exagero nas

preocupações de Coelho, mas acabou aceitando pelo menos o conselho de

que deveria deixar a redação. A edição do dia seguinte estava sendo impres-

sa, e pouco antes das duas da madrugada saíram os três, acompanhados de

Amâncio, para o casarão do paulista, na Zona Sul do Rio. Às cinco e meia da
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CHATÔ, O REI DO BRASIL


manhã, depois de uma lauta ceia de peru, foie gras e vinho do Reno, Cha-

teaubriand seguiu para sua própria casa, em Copacabana.

Quando Gallon o acordou, às dez da manhã, com todos os matutinos e

as primeiras edições dos vespertinos do dia, o Diário da Noite já trazia a no-

tícia que gelou Chateaubriand: "Foi preso hoje pela manhã em sua residên-

cia o ex-deputado paulista José Machado Coelho de Castro, que foi recolhi-

do, juntamente com outros detidos, a bordo do navio Pedro I". Telefonou

para o jornal e soube que os policiais tinham estado lá para prendê-lo. Minu-

tos depois chegava seu amigo Mário de Oliveira, que também soubera da vi-

sita da polícia ao prédio da Treze de Maio e imaginava o perigo que Cha-

teaubriand corria. Por precaução, havia comprado um bom pacote de libras

esterlinas e uma passagem em nome do jornalista em um vapor italiano que

zarpava aquela noite para a Europa. Não havia alternativa: se quisesse sal-

var a pele, Chateaubriand teria de se exilar. Mesmo assustado com a agres-

sividade do governo, rejeitou a oferta com uma fanfarronice:

- Obrigado, Mário, mas só saio do país compelido. Tenho alguma ex-

periência para defender-me de arrotos de importância de governantes pas-

sageiros. Desde Pernambuco eu não tenho visto outra coisa senão governos

investindo contra jornais onde trabalhei ou que dirigi. Esses tenentinhos po-

dem até me tirar do Brasil, mas vai ter que ser à força. Volte ao jornal e avi-

se à direção que decidi entrar na clandestinidade.
279
17
Durante as três últimas semanas de julho de 1932, Chateaubriand vagou

pelo Rio, dormindo cada noite num lugar diferente. Mesmo sabendo que a

polícia dava batidas incertas, tentando apanhá-lo no prédio do jornal, ele não

resistia - e pelo menos uma vez por semana passava por lá. Antes, tomava

o cuidado de telefonar e pedir a algum diretor que circulasse pelas ruas Tre-

ze de Maio e Senador Dantas para ver se a polícia não estava de tocaia. Além

das visitas, telefonava todos os dias para a redação, pedindo notícias. E

es-


tas não poderiam ser piores. A censura sobre os seus jornais era quase total.

A exceção era São Paulo, ocupada militarmente pelos revolucionários que se

opunham a Vargas, onde o Diário da Noite e o Diário de S. Paulo estavam a sal-

vo do controle do governo e funcionavam quase que como órgãos de propa-

ganda da revolução. E em Minas Gerais, talvez por causa da camaradagem

existente entre os diretores dos Associados e o interventor Olegário Maciel,

a censura era mais branda - o que permitiu, pelo menos nas primeiras se-

manas do conflito, noticiar alguma coisa sobre o que se passava em São Pau-

lo, desde que, naturalmente, tanto o Estado de Minas quanto o Diário da Tar-

de publicassem também os comunicados oficiais do governo federal. No Rio

Grande do Sul, a pressão foi tão grande que Chateaubriand chegou a tentar

imprimir o Diário de Notícias nas cidades de Rivera, no Uruguai, ou Paso de

los Libres, na Argentina, de modo a escapar da censura. Como essa saída

acabou se revelando inviável, ele simplesmente deu ordens para que o jor-

nal fechasse as portas até que a situação política se normalizasse.

De seus diretores, o que ele sabia é que o irmão Oswaldo se transforma-

ra num incendiário, que além de insultar o governo permanentemente nas

páginas do Diário de S. Paulo e do Diário da Noite usava o porão da casa onde

vivia, na avenida São Luís, no centro da cidade, como depósito de armas e

munição para a guerra que já havia começado. "Ele parecia um pequeno

Deus carnívoro", diria Chateaubriand tempos depois, "clamando vingança,

pregando vingança contra a ditadura depravada que batia São Paulo." Os-

waldo conseguira convencer até seu outro irmão, o pacato Urbano Ganot, a

emprestar cômodos de sua casa na Vila Mariana, também em São Paulo,

para serem utilizados como depósito de material bélico. Austregésilo de

Athayde - que, ao contrário de Chateaubriand, tinha horror à idéia de dar


280

#
CHATÔ, O REI DO BRASIL


tiros - também aderira de corpo inteiro à luta, e no dia 10 estava em São

Paulo, onde se alistara como voluntário na frente norte da batalha, na região

de Campinas. Quanto a si próprio, Chateaubriand não sabia que destino to-

mar. Seu principal coiteiro no Rio passara a ser o médico paraibano Drault

Ernanny, que ele conhecera dois anos antes. Endocrinologista e dono de uma

farmácia no suburbano bairro do Lins, o médico aparecera na redação de O

Jornal como outros malucos que todos os dias batem às portas dos jornais

com idéias estapafúrdias. A dele era um método infalível para engordar-

impressionado que ficara com a notícia de que milhares de recrutas eram re-

cusados todo ano pelo Exército por falta de peso. Drault Ernanny ganhou

uma coluna no jornal e Chateaubriand ganhou um amigo para sempre.

Solteiro, Ernanny ofereceu-se para esconder o jornalista em sua casa da

rua Constante Jardim, em Santa Teresa. Apesar de clandestino, Chateau-

briand passava o dia no portão, flertando com as empregadinhas que via

num boteco de esquina, a poucos metros de seu esconderijo. Só se animava

a deixar a casa quando Ernanny estivesse junto - no caso de ser preso, al-

guém precisaria avisar o jornal. E quando o médico chegava ele logo propu-

nha uma pequena aventura:

- Olha lá, doutor Drault, que gaforinha fantástica daquela mulatinha

que acaba de chegar no bar. Vamos lá tomar uma cervejinha, vamos.

Quando o tédio da reclusão era demasiado, ele convencia seu protetor

a saírem para uma volta na baratinha Ford de dois lugares do dono da casa.

Numa dessas ocasiões os dois rodavam pela lagoa Rodrigo de Freitas, quan-

do Ernanny suspeitou que estavam sendo seguidos. Aumentou a velocida-

de e, ao passarem por uma casa com os portões abertos, na rua Sá Ferreira,

Chateaubriand gritou:

- Entre nesse portão, aqui é a casa do Chico Campos!

O amigo se espantou:

- Mas o senhor ficou maluco, doutor Assis? Francisco Campos é o mi-

nistro da Educação do governo provisório. Ele próprio vai nos dar voz de

prisão.

Chateaubriand não se amedrontou:



- Primeiro, o Chico é meu amigo. Além disso, ele já é quase ex-minis-

tro. Getúlio está desconfiado de que ele apóia os paulistas, vai demiti-lo

logo. Não sei se ele sabe disso, mas pode entrar assim mesmo.

O jornalista tinha razão: apesar de constrangido pela desconfortável

presença de um inimigo de seu governo em sua casa, Francisco Campos re-

cebeu-os com licores, abraços e uma conversa fiada que durou até tarde da

noite. Na saída o ministro advertiu-o:

- Chatô, você está provocando a sorte. O João Alberto já está descon-

fiado de que você está escondido para os lados de Santa Teresa.
281

#
FERNANDO MORAIS


À sua maneira, Chateaubriand sentiu-se na obrigação de transmitir a

Campos as informações que tinha sobre a sorte dele:

- Doutor Chico, quem tem que tomar cuidados com esse governo não

sou eu, é o senhor. Se João Alberto está desconfiado de que estou para os la-

dos de Santa Teresa, Getúlio está desconfiado de que o senhor está para os

lados de São Paulo. Se eu conheço bem o ditador, ele vai meter-lhe o pé na

bunda brevemente.

Ambos tinham razão. Tanto João Alberto tocaiava o jornalista quanto a

permanência de Chico Ciência no governo Vargas duraria apenas mais algu-

mas semanas. Chateaubriand despediu-se e, no caminho para casa, ao pas-

sarem pela rua Saint Roman, decidiu fazer outra visita, desta vez a Altivo

Dolabela Portela, um amigo que morava ali perto. Compadecida da sorte do

jornalista, a mulher de Portela, Alice, fez uma ceia especial para recebê-lo.

Chateaubriand resolveu telefonar para seu velho amigo Eugênio Gudin e

convidá-lo para o jantar. Gudin apareceu com seu irmão, o médico Maurício

Gudin, e a festança só terminou de madrugada, quando ele e Drault Er-

nanny retornaram a Santa Teresa.

Não era difícil perceber que seus dias de liberdade estavam contados.

Na véspera, os policiais de João Alberto tinham invadido o prédio dos Asso-

ciados e prendido o telefonista Amaro Abdon - uma das raras pessoas que

a qualquer hora do dia ou da noite sabia onde encontrar o patrão. Mesmo

sob ameaça de ser torturado, Abdon não abriu o bico. Sentindo-se um herói

por "ter salvo a vida do doutor Assis", o telefonista se transformaria no mais

relapso e insolente de todos os funcionários das empresas após aquele epi-

sódio.

Depois de passar mais alguns dias escondido, Chateaubriand se animou



a ir à Vila Normanda para buscar mudas de roupas. Foi de táxi, enquanto Er-

nanny estava trabalhando, e ao pisar na soleira do portão recebeu voz de pri-

são de um dos oito homens que - depois ele saberia - se revezavam ali ha-

via duas semanas, campanados à sua espera. Sem tentar qualquer violência

física, os policiais levaram-no até a Casa de Correção, na rua da Relação,

onde foi colocado sozinho em uma cela.

Passadas 24 horas, um homem que se identificou apenas como "major

Guerra" apareceu para comunicar-lhe que ele seria solto, mas sob condições:

- As ordens superiores que recebi são no sentido de libertá-lo, mas des-

de que o senhor concorde em ficar sob regime de prisão domiciliar. O gover-

no oferece como ménage sua própria casa aqui no Rio. Caso o senhor não

aceite a proposta, as instruções são para levá-lo para a sala da capela, aqui

ao lado, onde estão os demais presos políticos. E é bom que o senhor saiba:

da sala da capela provavelmente os presos só sairão para o exílio.

Ele aceitou sem discutir. Sua passagem tão curta pela prisão levaria os

demais presos - entre os quais o jornalista Júlio de Mesquita Filho - a sus-


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


peitar de que ele havia feito algum acerto com Vargas em troca da liberda-

de, suposição que os próprios fatos se encarregariam de desmentir, semanas

depois. Outro grupo de policiais levou-o até a casa de Copacabana - de cuja

porta, inexplicavelmente, pareciam ter tirado os guardas. Pelo telefone, Cha-

teaubriand comunicou sua prisão e posterior libertação a Drault Ernanny e

aos diretores do jornal, pedindo a estes que a notícia fosse publicada em São

Paulo e onde mais não estivessem sendo importunados pela censura. De to-

dos com quem falou, recebeu a mesma recomendação: fugir do Rio e, se pos-

sível, do Brasil. O relaxamento de sua prisão devia ter sido obra de algum

amigo remanescente no governo - e ele tinha muitos -, mas aquilo não ia

durar muito. A luta em São Paulo se agravava, seus jornais paulistas esta-

vam cada vez mais agressivos contra Getúlio e se aquela situação progredis-

se ele acabaria preso para valer.

Da Vila Normanda ele comandava os jornais pelo telefone (que imagi-

nava sob censura) como se estivesse na redação. Ligou para Belo Horizonte

dando ordens para que fosse mandado para a frente sul, na boca do túnel si-

tuado na cidade de Passa Quatro, o repórter Rubem Braga, do Estado de Mi-

nas, cujo texto cuidadoso e cheio de estilo ele já elogiara publicamente algu-

mas vezes. A boca mineira do túnel estava tomada por tropas governistas.

Na outra ponta dele, já na cidade de Cruzeiro, em território paulista, esta-

vam as tropas insurretas de São Paulo. Para lá ordenou ao irmão Oswaldo

que fosse enviado o jornalista Arnon de Mello, e pediu que transmitissem

uma última ordem a Athayde, que lutava em Campinas: mesmo alistado e

dando tiros, ele não podia se esquecer de que era, antes de tudo, um jorna-

lista. E que, portanto, arranjasse meios de mandar noticiário regular para os

jornais de São Paulo sobre os acontecimentos da frente norte. "Diga ao Ca-

boclo que um dia essa guerra vai acabar ", insistiu com Oswaldo, "e se ele

quiser o emprego de volta vai ter que trabalhar todos os dias lá no front cam-

pineiro."

Em cada conversa telefônica Chateaubriand acumulava mais informa-

ções sobre o momento político para poder tomar alguma decisão quanto a

seu próprio destino. Do Estado de Minas ele recebera um violento manifesto

contra o governo, lançado dois dias antes por seu arquiinimigo Artur Ber-

nardes. No documento, o ex-presidente anunciava que tinha decidido ficar

ao lado dos paulistas:
Não me preocupam as conseqüências que me possam advir da franqueza com

que me dirijo à nação. Tampouco indago se ela pode ocasionar-me amanhã a

perda da liberdade ou da própria vida. Na minha idade, quando já se deu o má-

ximo do esforço pelo bem da pátria, é ainda uma felicidade possuir-se alguma

coisa que se lhe possa oferecer em momento de extrema gravidade como este.

Brasileiros! A nação não pode permanecer de cócoras! São Paulo encarna os an-


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FERNANDO MORAIS


seios do povo e os interesses supremos do país! Viva São Paulo! Viva o Brasil!

Viva a causa constitucional!


Viçosa, agosto de 1932

Artur Bernardes


Chateaubriand sabia que o ex-presidente havia viajado para Viçosa,

transformada em seu bunker na Zona da Mata mineira, ainda em meados de

abril, quando fervia a conspiração paulista. Bernardes fizera uma demorada

viagem de trem do Rio até sua cidade natal, acompanhado de mais de qui-

nhentos correligionários. Nas estações ferroviárias de cada cidade onde o

trem parava, manifestações de milhares de pessoas organizadas para recebê-

lo acabavam se transformando em comícios contra Getúlio e a favor da rede-

mocratização do país. Em uma de suas viagens a Minas, Chateaubriand foi

informado de que nos últimos três meses, previamente articulado com os

paulistas, Bernardes tinha acumulado um verdadeiro arsenal em sua fazen-

da nas imediações de Viçosa, de onde, dizia-se, pretendia sair à frente de

uma coluna em direção ao Espírito Santo tão logo São Paulo se levantasse

em armas. Ao tomar conhecimento da veemência do manifesto do ex-presi-

dente, o jornalista concluiu que teria de esquecer as velhas divergências com

aquele "esposo místico do nacionalismo" e arranjar um meio de partir ime-

diatamente para a Zona da Mata mineira.

O contato era Filipe Daudt de Oliveira, o mesmo que o ajudara como

pombo-correio anos antes, durante a amarração do "namoro" que ele alcovi-

tara entre Antônio Carlos e Getúlio Vargas na campanha eleitoral de 1930.

Como ele, Filipe também rompera com Vargas e agora montara no Rio uma

cabeça-de-ponte para os revoltosos paulistas. Muito ligado a Bernardes, ele

saberia o que fazer para Chateaubriand chegar a Minas clandestinamente.

Pediu que alguém trouxesse até sua casa-prisão o amigo, e contou que quem

conseguia, no Rio, os salvo-condutos falsos para passar pelas barreiras fede-

rais em direção a Minas era Clélia, a filha de Artur Bernardes, casada com o

jovem diplomata Carlos Alves de Souza. Graças aos documentos falsos ar-

ranjados por ela, revelou-lhe Filipe, dezenas e dezenas de civis, oficiais e alu-

nos da Escola Militar do Realengo, no Rio, tinham conseguido chegar incó-

lumes à Zona da Mata e aderir às forças que Bernardes organizava.

O jornalista precisou esperar algumas semanas, e só deixou o Rio quan-

do chegaram notícias seguras de que havia diminuído o rigor da fiscalização

e das barreiras no trajeto até Viçosa. Com um falso salvo-conduto (idêntico

aos que eram emitidos pela Polícia Central), documentos falsos e bilhetes de

viagem emitidos apenas em nome de "Francisco Bandeira" - sem os sobre-

nomes pelos quais era conhecido -, Chateaubriand acabou só embarcando

secretamente na noite do dia 6 de setembro, uma terça-feira, numa das cabi-

nes do noturno da Estrada de Ferro Leopoldina. Além da documentação for-

jada, Clélia Bernardes lhe dera contatos em todas as paradas e baldeações


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CHATÓ, O REI DO BRASIL


que teria de fazer quando o trem entrasse em território mineiro: na cidade

de Além Paraíba, a primeira de Minas onde o trem parava, um contato o pro-

curaria com uma caixa de ferramentas que deveria ser entregue ao pessoal

de Bernardes. Chateaubriand levaria em mãos dois documentos dirigidos ao

ex-presidente da República: um relatório da base de apoio no Rio, que colo-

cava à disposição dos revoltosos de Minas um fundo de 3 mil contos de réis,

e uma carta de João Neves da Fontoura, na qual o político gaúcho anuncia-

va sua adesão aos paulistas e à resistência que se organizava em Minas. Na

cidadezinha de São Geraldo, a meio caminho entre Visconde de Rio Branco

e Viçosa, quando parassem para que o vagão-dormitório fosse separado da

composição, ele seria procurado pelo "coronel" João do Calhau, chefe políti-

co local e aliado de Bernardes. A partir de então o "coronel" seria o respon-

sável por sua segurança até chegarem a Teixeiras, lugarejo situado poucos

quilômetros depois de Viçosa, de onde um carro os transportaria até Ara-

ponga, lugar da fazenda onde Bernardes mantinha centenas de homens ar-

mados.


Quando o trem estacionou para uma baldeação em Além Paraíba o con-

tato apareceu. Era um oficial da Polícia Militar à paisana que lhe dirigiu ape-

nas uma pergunta:

- Francisco Bandeira?

Chateaubriand confirmou com a cabeça e o homem informou que havia

embarcado como bagagem desacompanhada, no novo trem que os levaria a

partir dali, não apenas uma, como lhe haviam informado no Distrito Fede-

ral, mas 23 caixas de ferramentas seladas com a marca da Fundição Mineira

do Rio, a serem entregues ao sobrinho de Bernardes, Otávio, que comanda-

va os guerrilheiros acampados em Araponga. O jornalista entrou de novo no

trem, já de madrugada, e cochilou um par de horas no vagão-dormitório.

Despertou com as sacudidelas do trem parando na estação de Ubá. A enor-

me movimentação de policiais civis fazendo perguntas e exibindo armamen-

to pesado na plataforma não o animou a descer sequer para um cafezinho.

Baixou um pouco o vidro da janela da cabine e viu um delegado de polícia

exibindo aos passageiros que haviam descido "o equipamento que usamos

para fazer paulista falar ": era uma coleção de alicates ("para arrancar unhas

",

explicava o policial) e torniquetes de metal semelhantes a algemas ("para es-



premer pulsos, tornozelos e outras partes mais delicadas do corpo humano",

contava entre gargalhadas).

O trem voltou a partir e só parou com dia claro em Rio Branco, onde

uma numerosa barreira policial revistava e exigia salvo-condutos de todos

os passageiros que desciam à plataforma. Por cautela, Chateaubriand prefe-

riu ficar na cabine, cuidadosamente trancada por dentro. Por uma fresta da

cortina acompanhava a movimentação dos policiais no lado de fora. Sua es-

pinha gelou quando ouviu o que parecia ser o chefe dar ordens para que um


285

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FERNANDO MORAIS


negro forte, levando nas mãos uma carabina, "varejasse " o interior dos va-

gões para ver se "ainda tem gente dormindo lá dentro ". O homem entrou

pelo trem e o jornalista ouvia o barulho de suas passadas aproximando-se e

do movimento que fazia nas maçanetas ao abrir, uma por uma, as portas das

cabines recém-abandonadas pelos passageiros que haviam descido. Acabou

tentando abrir a porta da sua. Ele ficou em silêncio. O homem bateu três ve-

zes e perguntou:

- Tem alguém dormindo aí dentro?

Silêncio absoluto. Sentado na cama, Chateaubriand nem respirava. O

homem insistiu mais uma vez. Bateu e perguntou de novo:

- Tem alguém aí dentro?

Aparentemente imaginando que a cabine estivesse desocupada, desis-

tiu e prosseguiu abrindo portas pelo corredor estreito, ao final do qual sal-

tou para o vagão seguinte. O jornalista respirou aliviado, certo de que pelo

menos daquele estava livre. Minutos depois os passageiros reembarcavam e

a composição partia para São Geraldo, a meia hora dali, o ponto final da via-

gem de trem de Chateaubriand. Por sua janela descortinava-se uma manhã

radiosa, com o sol fazendo subir ao céu anil uma nuvem de vapor do orva-

lho que caíra durante a noite sobre as intermináveis plantações de fumo. O

trem diminuiu a velocidade ao chegar perto de um casario, até parar por

completo na minúscula estação de São Geraldo. Pela fresta da cortina que

voltara a fechar antes da parada total, ele viu uma cena que o amedrontou:

o homem que chefiava os policiais em Rio Branco descia de um carro, acom-

panhado do negro que fizera a varredura no interior do trem. Junto com eles

vinham mais dois policiais, todos armados de carabinas e com revólveres na

cintura. O negro olhou para todos os vagões, como se tentasse identificar um

deles, e apontou para o de Chateaubriand:

- Só pode estar neste aqui. Tenho certeza de que encontrei a tal cabine

fechada.

O jornalista suava frio, e numa fração de segundos percebeu o que acon-

tecia: o policial negro com certeza comentara com o superior que havia uma

cabine trancada no trem, e agora eles estavam ali para pegá-lo. Quando os

quatro bateram forte na sua porta, ele já estava composto, de gravata, pale-

tó e chapéu sobre a cabeça. Simulou naturalidade, na esperança de que os

documentos falsos garantissem sua passagem em paz. Foi o chefe dos poli-

ciais quem lhe dirigiu a palavra:

- Seu nome, documentos e salvo-conduto.

Ele enfiou a mão no bolso interno do paletó, calmamente, tirando o do-

cumento e o salvo-conduto que Clélia Bernardes lhe conseguira no Rio:

- Meu nome é Francisco Bandeira. Vou visitar um amigo que é profes-

sor em Viçosa.

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CHATÔ, O REI DO BRASIl
O policial olhou os documentos sem desconfiar da falsificação, mas deu

ordens para que ele os acompanhasse à plataforma, onde um grupo grande

de pessoas já se aglomerava. O interrogatório que prometia ser rápido foi

realizado ali mesmo, com todos em pé. Só o delegado perguntava:

- Por que o senhor se escondeu dentro da cabine, recusando-se a abrir

a porta para o investigador?

Ele continuava impávido, com um sorriso nos lábios:

- Me desculpe, doutor, mas eu não sei do que o senhor está falando. Se

foi de Ubá para cá, eu dormi o tempo todo. Tenho o sono pesado e se alguém

bateu à minha porta eu não ouvi. Não teria motivos para não abri-la, meus

documentos estão aí, meu salvo-conduto não está vencido.

O delegado parecia convencido de que aquela história era verdadeira

quando um jovem de trinta e poucos anos, vestido num terno de linho bran-

co, espichou o pescoço por cima do grupo, gritando:

- Doutor Assis Chateaubriand, o senhor? Preso, aqui neste fim de

mundo?


O homem - o ex-deputado estadual Celso Machado, aliancista e getu-

lista fanático e adversário político de Bernardes - abria caminho por entre

os capiaus que se juntavam para ouvir o interrogatório, falando em voz alta:

- Delegado Soares, esse aí é o Assis Chateaubriand, dono dos Diários

Associados, da revista O Cruzeiro e do Estado de Minas. Ele está com os pau-

listas carcomidos, está contra nós.

Pela segunda vez em um ano e meio suas aventuras como revolucioná-

rio chegavam ao fim sem que ele tivesse dado um único, um miserável tiro

que fosse. Quando a polícia começou a revistar sua cabine, o chefe do trem

comunicou ao delegado que o passageiro levava "quase meio carro" de ba-

gagem desacompanhada, que tinha sido embarcada em Além Paraíba. Exci-

tados, os investigadores foram até o vagão de carga e abriram um dos caixo-

tes de madeira, em cujo interior havia milhares de balas de fuzil. Outra caixa,

mais balas, e outra, e outra: o jornalista levava munição suficiente para uma

semana de guerra. Junto com as caixas, a polícia confiscou os dois documen-

tos destinados a Bernardes.

Algemado e posto no carro dos policiais, foi levado a Rio Branco, de

onde comunicaram sua prisão pelo telégrafo ao secretário do Interior e chefe

de polícia do estado de Minas, Gustavo Capanema. Chateaubriand ainda es-

tava viajando de carro entre Rio Branco e Juiz de Fora, onde seria entregue às

autoridades militares, e o telégrafo já espalhava por todo o Brasil a nota ofi-

cial assinada por Capanema festejando a prisão de alguém tão importante-

e com uma bagagem que não deixava dúvidas quanto às suas intenções na

Zona da Mata mineira. No mesmo carro em que o jornalista viajava, também

ia, preso e escoltado, o temido "coronel" João do Calhau - o tal que deveria

garantir sua chegada ao QG bernardista, em Araponga. Chateaubriand per-

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FERNANDO MORAIS


cebeu logo que, longe de ser o poderoso chefe político que imaginava, o pre-

so não passava de um jagunço ignorante e violento, que tinha sido seduzido

para o movimento não por razões políticas ou ideológicas, mas para realizar

o sonho de que seu estado natal, Minas Gerais, finalmente pudesse ter mar.

Na viagem ele contou que tinha entrado na revolução para comandar um ba-

talhão que invadiria o Espírito Santo, anexando esse estado a Minas GeraiS

"Se perdermos a guerra, doutor Assis", lamentava desconsolado, "vão por

água abaixo meus planos de avançar os alimite de Minas até o mar."

Chateaubriand dormiu uma noite a sono solto no quartel do Exército,

em Juiz de Fora, onde recebeu tratamento civilizado: o delegado encarrega-

do de sua guarda era Fabriciano de Brito, sobrinho do ex-deputado federal

mineiro Carvalho de Brito, que o jornalista ajudara a tirar da prisão em 1931,

logo depois da vitória getulista. No dia seguinte, enquanto aguardava a es-

colta especial que o levaria de volta ao Rio de Janeiro, Chateaubriand rece-

beu na cela um Estado de Minas e um jornal oficial do Estado, o Minas Gerais.

O seu jornal continuava dando em manchete de oito colunas o mesmo e mo-

nocórdio título que repetia todos os dias, desde 9 de julho, e que inexplica-

velmente passava intato pelos censores: "O movimento revolucionário con-

tra o governo ditatorial". Já o Minas Gerais parecia estar noticiando outro

movimento - o que para aquele era "revolucionário", para o jornal oficial

era "movimento reacionário dos paulistas". A edição do Estado de Minas tra-

zia, também na primeira página, a cobertura de sua prisão em Viçosa, trata-

da com cuidadosa neutralidade sob o título "Os acontecimentos da Zona da

Mata" (considerada pelo Minas Gerais uma "fracassada tentativa de sedi-

ção "). Ali Chateaubriand tomou conhecimento da versão oficial da polícia,

segundo a qual ele tinha sido preso "com nome falso" e portando "um arse-

nal de armas pesadas que se destinavam ao sr. Artur Bernardes ".

Só naquele momento, também, é que o jornalista soube que, logo após

prendê-lo, as forças do governo tinham avançado sobre a fazenda de Ára-

ponga. Depois de um combate que deixara mortos em ambos os lados, inva-

diram o lugar e prenderam Otávio Bernardes, sobrinho do ex-presidente e

um dos comandantes da revolta. O tio, dizia o noticiário, tinha conseguido

escapar, fugindo em direção à cidade de Ipanema. A gravidade da situação

na região (e a importância dos personagens envolvidos) obrigou Capanema

a enviar para lá o delegado Menelick de Carvalho, especialmente destacado

para chefiar as investigações em Viçosa e imediações. A íntegra da carta de

João Neves que Chateaubriand levava para Bernardes foi tornada pública,

dando-se destaque ao trecho em que o gaúcho confessava seu temor de que

o movimento paulista se encaminhasse "para dois rumos esboçados com

inescondível precisão: o separatismo e o prussianismo".

A nota oficial de Capanema (na verdade, cópia de um telegrama-circu-

lar que enviara a todos os prefeitos mineiros) engrossava a lista de crimes co-

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CHATÔ, O REI DO BRASIL


metidos por Chateaubriand, acrescentando alguns que efetivamente não

eram de sua autoria - ou que cometera, sim, mas dois anos antes, e a favor

de Getúlio. Além de "envolver-se em desordens junto com oficiais do Exér-

cito", o jornalista tinha sido o responsável "pelo corte de linhas de telégrafo

e telefone, logo reparadas". Em outro comunicado distribuído à imprensa,

Gustavo Capanema exibia como um troféu o telegrama que recebera do ge-

neral Góis Monteiro, naquele momento alçado ao posto revolucionário de

"comandante do Exército do Leste, ora chefiando a resistência militar em Re-

sende, no estado do Rio". Góis cumprimentava o governador Olegário Ma-

ciel e seu secretário do Interior por terem "esmagado a sedição na Zona da

Mata, reprimindo os mazorqueiros e conservando a ordem que tanto mere-

cem o povo mineiro e seu honrado governo ". Entre as saudações recebidas

por Capanema, o Minas Gerais reproduzia o telegrama em que Celso Macha-

do - o ex-deputado que identificara Chateaubriand em São Geraldo - con-

gratulava-se com o secretário "pelo completo fracasso do movimento sub-

versivo preparado para explodir nesta Zona da Mata ".

Levado de carro de volta ao Rio, o jornalista foi entregue ao capitão Dul-

cídio do Espírito Santo Cardoso, tenentista radical que substituía João Al-

berto na chefia de polícia do Distrito Federal enquanto o titular combatia

contra São Paulo. Para surpresa do detento, Cardoso mandou levar Cha-

teaubriand não para a Casa de Correção, na rua da Relação, onde se encon-

travam dezenas de presos políticos, mas para a Detenção, um presídio co-

mum que o obrigaria a conviver com criminosos e delinqüentes. Ali per-

maneceu por menos de uma semana, sem ouvir nenhuma acusação formal

contra si, nem qualquer notícia sobre o destino que teria. A direção dos As-

sociados mandava um motorista duas vezes por dia à prisão para levar-lhe

almoços e jantares especiais, comprados na Rotisserie Americana - repasto

que compartilhava fraternalmente com um ladrão que era seu companheiro

de cela durante o dia. Pelo portador da comida mandou avisar que só que-

ria receber visitas caso houvesse alguma notícia importante sobre sua situa-

ção política. Mas, nesse curto período, pelo menos duas vezes conseguiu que

o carcereiro Raimundo afrouxasse a vigilância, no começo da noite - quan-

do ficava sozinho dentro da cela -, para receber "visitas íntimas" de falenas

que Amâncio se encarregava de contrabandear como "irmãs do dr. Assis"

para dentro do presídio.

Certa manhã, Dulcídio Cardoso apareceu pela primeira vez na cela,

acompanhado de um fotógrafo que o encostou à parede e o fotografou "para

a identificação criminal", segundo lhe informaram. Horas depois o capitão

retornava trazendo um passaporte recém-emitido, ordenando que Chateau-

briand o assinasse. Sem outra alternativa, cumpriu a determinação do mili-

tar, para ouvir dele, logo em seguida:
289

#
FERNANDO MORAIS


- Com essa assinatura espontânea, o senhnr na prática está nos autori-

zando a providenciar sua deportação. Se o senhor se recusasse a assinar o

passaporte, a polícia não teria como embarcá-lo à força.

Ficou intrigado e extremamente apreensivo com a notícia - afinal, se-

gundo as informações vindas de fora, ninguém fora deportado até então,

nem mesmo presos políticos paulistas que estavam na Casa de Correção e

haviam se envolvido muito mais com o movimento. Será que as malditas

caixas de balas embarcadas em Além Paraíba iriam mandá-lo para fora do

país? Quis saber mais alguma coisa, mas Dulcídio Cardoso foi lacônico e

ameaçador:

- São ordens do capitão João Alberto, que veio do front exclusivamen-

te para cuidar do seu caso.

Cardoso voltou ao xadrez depois do almoço acompanhado de dois in-

vestigadores armados de pistolas, e comunicou-lhe a sentença que João Al-

berto tinha decretado para ele:

- O senhor tem duas horas para ir até sua casa e fazer uma mala de

roupas. Não pode telefonar nem comunicar-se com ninguém: qualquer ten-

tativa de quebrar essa incomunicabilidade será suficiente para que meus ho-

mens abram fogo. No final da tarde o senhor embarca para o exílio.

Na Vila Normanda, Chateaubriand ainda conseguiu driblar por segun-

dos a vigilância dos policiais para sussurrar a Henri Gallon:
290

#
CHATÔ, O REI DO BRASIL


- Logo que eu sair, ligue para o Gabriel Bernardes no O Jornal e diga que

estou sendo deportado. Peça a ele para ir já para o cais e descobrir que na-

vio parte hoje para o estrangeiro. Diga que é para ele levar algum dinheiro,

que eu não tenho um níquel nos bolsos.

Retornou à Detenção e permaneceu incomunicável até as sete horas da

noite, quando Dulcídio Cardoso veio buscá-lo:

- Tenho ordens para mandar embarcá-lo num navio japonês que zar-

pa daqui a pouco para Tóquio. Este é o delegado Brandão, que vai chefiar a

escolta que o acompanhará até o porto. Ele já tem a passagem que compra-

mos para o senhor e seu passaporte. Sua estada aqui na Detenção acabou.

O navio em questão era o Hawczii Maru, um misto de carga e passagei-

ros de 20 mil toneladas, pertencente à Osaka S. K. Lines, da qual Chateau-

briand se lembrava de ter visto anúncios de página inteira em O Cruzeiro,

oferecendo cruzeiros turísticos pela Ásia. O Hawaii chegara ao Rio três dias

antes para descarregar fardos de algodão e recolher café em grão. E partiria

naquela noite para o Oriente, com escalas em Cidade do Cabo, Mosselbaai,

Port Elizabeth, East London e Durban, todas na África do Sul, subindo de-

pois a costa do oceano Índico, na África, com paradas previstas em Louren-

ço Marques (Moçambique), Mombaça (Quênia), Zanzibar e Cingapura para

dali navegar até Kobe (e não Tóquio, como Dulcídio Cardoso imaginava), no

Japão, onde a chegada estava prevista para o início de novembro - entre 45

e cinqüenta dias depois de ter saído do Rio.

Ao chegar ao cais, pôde ver que o navio a inda embarcava sacas de café.

Ao pé da escada que levava ao convés estava um pequeno grupo de homens,

entre os quais identificou Gabriel Bernardes, acompanhado de um amigo. O

diretor dos Associados entregou-lhe o único dinheiro estrangeiro que conse-

guiu arranjar em tão pouco tempo: cinqüenta libras esterlinas. Quando um

dos circunstantes, um brasileiro, se identificou como sendo gerente da Wil-

son Sons, empresa representante da O. S. K. Lines no Brasil, Chateaubriand

fez o primeiro protesto:

- Doutor Bernardes, o senhor foi ministro da Justiça. É bom que esteja

aqui para testemunhar a indecência que esse governo mofino está cometen-

do contra mim, com a cumplicidade da Wilson Sons.

O homem protestou:

- Desculpe, doutor Assis, mas ninguém nos disse que o senhor seria

embarcado contra a sua vontade. Nós simplesmente vendemos ao governo

um bilhete emitido em seu nome, nada mais. Só agora é que estou sabendo

que o senhor está sendo deportado.

Quando soube que até a Cidade do Cabo teria de viajar em terceira clas-

se, e só então ser transferido para uma vaga que seria aberta na primeira

classe, Chateaubriand fincou pé e dirigiu-se ao gerente da empresa de nave-

gação:
291

#
FERNANDO MORAIS
- Então o senhor corra até sua agência e mande trazer pelo menos uma

cama de primeira classe para mim. Além de me embarcarem à força ainda

querem que viaje numa enxovia? Nada disso, trate de arranjar a cama de pri-

meira imediatamente.

Colocado na diminuta cabine, ele foi logo se dirigindo - em um inglês

miserável - ao comissário de bordo Masaichi Yamada, encarregado de

atendê-lo:

- Quero um exemplar em inglês da Constituição japonesa. Sei que vo-

cês são obrigados a levar uma a bordo, e já que terei que ficar um mês e meio

aqui, quero aprender mais alguma coisa. E preciso de uma audiência ime-

diata com o capitão do navio.

Falando também em inglês, minutos depois o comissário retornava com

a Constituição e uma má notícia:

- O capitão Oisi não pode atendê-lo. Pede que o senhor declare por es-

crito o intuito de sua entrevista.

Chateaubriand apanhou um pedaço de papel sobre uma mesinha-de-

cabeceira e rabiscou, sempre com seus garranchos incompreensíveis:
Captain Hiroshi Oisi

Master of Hnwaii Mari


I am a lawyer and a journalist and I am being forced to board Hawaii Maru.

This fact creates a serious precedent in international law and will cause diplo-

matic complications to your company and your country. You are the only one

who can avoid this crime. I must speak to you immediately.


Rio de Janeiro, September 12,1932

Assis Chateaubriand


Ele folheava desesperadamente a Constituição japonesa em busca de al-

gum artigo que pudesse utilizar como argumento, mas o comissário voltou

depressa demais: preocupado com o conteúdo do bilhete, o capitão queria

recebê-lo imediatamente em sua cabine. Chateaubriand apertou o passo pe-

los corredores estreitos do navio, cujas máquinas já tinham sido postas em

funcionamento. Hirnshi Oisi alegou o mesmo que o homem da Wilson Sons:

ele não sabia de nada do que se passava, mas não queria se imiscuir em pro-

blemas internos dos militares brasileiros. A concessão máxima que poderia

fazer era permitir que o jornalista desembarcasse na primeira escala do Ha-

waii Maru, na Cidade do Cabo. Chateaubriand teve um acesso de fúria, e ten-

tava escolher as palavras corretas em inglês, para que não restasse dúvida do

que pretendia dizer:

- O que o senhor está dizendo é que decidiu converter seu navio em

prisão de um Estado que não o seu. Se permanecer em águas brasileiras co-

migo aqui dentro o senhor estará cometendo um crime. Se cruzar as águas
292

#
CHATÔ, O REI DO BRASIL


internacionais, serão dois crimes. Crimes pelos quais o senhor terá que res-

ponder.


Surpreso com a veemência do jornalista, o capitão mandou chamar to-

dos os oficiais para deliberar sobre a confusão que estava se formando. An-

tes mesmo de ser convocado, o chefe da radiotelegrafia do navio, Yosakichi

Yamashita, entrou na cabine com a transcrição da mensagem que acabara de

receber da Capitania dos Portos, exigindo que o navio zarpasse de pronto.

Segundo as autoridades brasileiras, a hora prevista no plano de navegação

tinha se passado fazia muito, e o navio precisava partir. O capitão deu or-

dens em japonês para que o Hawaii Maru fosse colocado em movimento.

Quando o transatlântico começou a se mexer, apontando a proa para o mar,

Chateaubriand sapateou e rangeu os dentes de raiva, mas não perdeu as es-

peranças. Logo chegavam à cabine o primeiro oficial de bordo e os dois en-

genheiros, tendo o capitão dado ordens para que o chefe de rádio e o comis-

sário permanecessem ali. Falou alguma coisa com eles em japonês e virou-se

para Chateaubriand, em inglês:

- Este é o comando do Hawaii Maru. Repita para nós a história que o

senhor me contou.

O jornalista sabia que dispunha de pouco tempo - o navio já se movia

em direção à baía - e tinha de ser convincente. Sem se preucupar com a

fluência de seu inglês, fez um discurso inflamado para us perplexos

japoneses:

- Estou preso porque sou um democrata. Sou dono de uma rede de jor-

nais e revistas que não concorda com o governo deste país, um país que está

em plena guerra civil. Na cadeia, assinei um passaporte sob coação policial.

Nenhuma arma que a ditadura apontasse para mim me assustaria tanto

como a permanência de mais de cinquenta dias no mar, contra a minha von-

tade.


Hiroshi Oisi interrompeu-o:

- Mas senhor Chateaubriand, eu já lhe disse que na escala da Cidade

do Cabo eu autorizo seu desembarque. O senhor pode retornar a seu país em

poucos dias.

Ele retomou o embalo, brandindo o passaporte no ar:

- O ilustre capitão se engana. Veja que meu passaporte só tem visto

para o Japão. Eu não poderei baixar em nenhum dos portos em que seu na-

vio fará escalas. Lamento dizer que a partir deste momento o senhor é meu

carcereiro contra a minha vontade. Quero dizer aqui, para esta tripulação, o

que repetirei em meus jornais e na minha agência de notícias até o último

dos meus dias: se não me desembarcarem imediatamente, os senhores esta-

rão sendo cúmplices de um crime contra um amigo do Japão. Tenho quilos

de artigos defendendo a imigração japonesa para o Brasil, quando todos

eram contrários. Se não me desembarcarem, o império nipônico vai carregar


293

#
FERNANDO MORAIS


eternamente o opróbrio de ter se transformado na Sibéria de uma ditadura

criminosa.

O comandante pediu que ele interrompesse por um minuto o que já era

uma pregação, para que os oficiais pudessem confabular entre si - sempre

em japonês. Falaram em voz baixa, todos com expressão de pânico no rosto,

e deram-lhe de novo a palavra. Chateaubriand continuou, certo de que esta-

va sensibilizando os japoneses:

- O que está havendo contra mim não é um processo judicial, nem

mesmo um processo político. Sou vítima de uma vendeta pessoal. O capitão

João Alberto, que ora me submete a esta humilhação, nem capitão de ver-

dade é.

Já aos brados, passou a referir-se a João Alberto com terminologia que



seria incompreensível até para muitos brasileiros, quanto mais para um es-

pantado grupo de japoneses, chamando-o de "chefe de polícia bisonho", um

"letras gordas", "um tenentinho reiúno, esquerdista sem curso de estado-

maior e sem aperfeiçoamento na Missão Francesa":

- Só um rapaz ignorante como ele pode querer transformar o Japão na

Sibéria brasileira. Eu não estou pedindo para descer. Estou exigindo, em

nome da lei e do direito internacional, que os senhores me desembarquem

imediatamente.

Os japoneses perceberam que estavam metidos em uma grande encren-

ca. Puseram o jornalista em uma cabine contígua à do comandante para po-

derem conversar mais livremente - providência desnecessária, já que entre

si eles só falavam seu idioma. Trancado em uma salinha com dois sofás e

uma mesa, Chateaubriand folheava revistas japonesas enquanto, cada vez

mais ansioso, via as horas passarem. E o navio avançava mar adentro. Por

volta da uma hora da madrugada ele sentiu que o barulho dos motores di-

minuiu de intensidade até parar por completo. Foi quando um marinheiro

bateu à porta e pediu que ele o seguisse até a sala da torre de comando, onde

a tripulação estava reunida. Visivelmente tenso, o capitão Oisi leu para ele o

rádio que tinha mandado passar cinco minutos antes para a Capitania dos

Portos, pedindo autorização para retornar ao porto "e desembarcar o passa-

geiro Assis Chateaubriand, que viaja contra sua própria vontade, em con-

tradição com as leis navais internacionais ". O dia amanheceu sem que do

continente viesse qualquer notícia, boa ou má. Durante todo esse tempo Cha-

teaubriand permaneceu na sala do comandante, que não lhe dirigia a palavra.

Quando um taifeiro entrou trazendo uma bandeja com um bule, xícaras

de chá e torradas, o jornalista dirigiu-se ao capitão perguntando se não ha-

veria a hipótese de receber "algum queijinho europeu na cabine e, quem

sabe, um cálice de vinho do porto?". Havia, sim. O taifeiro voltou com uma

garrafa de porto e um queijo holandês, idêntico ao que na juventude de Cha-

teaubriand se importava muito em Pernambuco. Aliviado e de novo bem-


294

#
CHATÔ. O REI DO BRASIL


humorado, comentou o fato com o capitão, lembrando uma diferença: os

queijos que apareciam em Recife, redondos como aquele, eram de uma mar-

ca que trazia um camelo impresso no alto - expressão que, na falta de pa-

lavras mais precisas, ele traduziu como "a camrl on cocuruto, do you under-

stand, mastewÓisi?". Master Oisi não só parecia não ter entendido como dava

a impressão de que a única coisa que queria, naquela hora, era livrar-se da-

quele exótico e incômodo passageiro.

Às oito da manhã, chegou um rádio inesperado e ameaçador da Capita-

nia dos Portos, que dizia apenas: 1) o Hawaii Maru não tinha autorização

para retornar ao porto do Rio de Janeiro; 2) se o vapor não religasse os mo-

tores e deixasse imediatamente as águas brasileiras, a artilharia do Forte de

Copacabana tinha ordens para colocá-lo a pique. Assinado, capitão João

Al-

berto Lins de Barros, chefe de polícia do Distrito Federal.


295

18
Apesar de estar na alça de mira da artilharia do Forte de Copacabana,

plantado a poucas milhas do navio, o capitão Hiroshi Oisi não se intimidou.

Passou horas trocando por rádio comunicados com a Capitania dos Portos,

insistindo em que qualquer agressão brasileira ao Hawaii Maru seria enten-

dida como uma declaração de guerra ao Japão. Mas João Alberto e seus te-

nentes não estavam dispostos a recuar: se o navio não deixasse as águas ter-

ritoriais do país imediatamente, seria afundado - e a responsabilidade seria

do capitão. No meio da tarde chegou uma mensagem destinada a Chateau-

briand, vinda do rádio de O Jornal: "Assunto deportação fugiu mãos polícia.

Depois seu memorial dirigido capitão Oisi, embaixada chamou problema a

si. Agora quem tem caso nas mãos é o embaixador Tatsukn Chichita. Assi-

nado, Gabriel Bernardes".

O comandante do navio explicou ao jornalista que, diante da ameaça de

torpedeamento da embarcação, ele se comunicara por rádio com a embaixa-

da japonesa, transmitindo o bilhete inicial de Chateaubriand e transcreven-

do a inacreditável mensagem assinada por João Alberto. A solução do im-

passe saíra do âmbito do Exército e da polícia e estava sendo discutida

pessoalmente pelo embaixador Chichita com o Ministério das Relações Ex-

teriores do Brasil. Chateaubriand comentou com Oisi que conhecia o embai-

xador japonês, com quem disputara objetos de arte chineses em um leilão

promovido por uma igreja protestante inglesa do Rio de Janeiro.

Já fazia quase 24 horas que ele fora embarcado no navio quando um

grupo de diplomatas da embaixada japonesa, chefiados pelo ministro-conse-

lheiro Itiro Kondo, subiu a bordo do Hawaii Maru para tentar solucionar o

problema. A missão entrevistou Chateaubriand, que repetiu toda a arenga

que tinha recitado para o comandante do navio. Os diplomatas passaram

mais algumas horas na cabine de rádio conversando ora com a embaixada

do Japào, ora com o ministro Maurício Nabuco, encarregado pelo governo

brasileiro de resolver o problema. Sem que se soubesse disto a bordo, Nabu-

co defendia junto a João Alberto que a única solução possível era aceitar

Chateaubriand de volta, sob pena de o país infringir vários artigos do direi-

to internacional público. Depois de 27 horas de escaramuças radiotelegráfi-

cas - tempo em que o navio permaneceu boiando na baía, a trinta milhas


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#
CHATÔ, O REI DO BRASIL


da costa brasileira, com os motores desligados -, o governo resolveu ceder:

o Hawaii Maru continuaria no lugar em que se encontrava e um rebocador da

Marinha iria até lá para trazer o preso para o continente. Chateaubriand ga-

nhara a parada. (Se o Hawaii Maru de fato estava a trinta milhas do Rio, como

consta do diário de bordo, o capitão não tinha mesmo motivos para obede-

cer a qualquer ordem vinda das autoridades brasileiras: naquela época a fai-

xa marítima que era legalmente considerada "águas territoriais do Brasil"

media apenas doze milhas.)

Levado à sala de Dulcídio Cardoso, Chateaubriand provocou o militar

com bom humor:

- Como o capitão pode ver, estou aqui novamente. Espero que enten-

da a minha volta como uma demonstração de amor ao senhor e à prisão que

dirige. Troquei férias prolongadas entre gueixas e crisântemos pela cadeia

fedorenta em que o senhor vai me encerrar.

O jornalista passou mais duas semanas na Detenção. Durante parte do

dia tomava sol no pátio interno, junto com centenas de presos comuns, e o

restante do tempo ficava na mesma cela de antes - novamente dividida, du-

rante o dia, com o ladrão que conhecera ao chegar de Minas. À generosa di-

visão da comida que os Associados mandavam entregar na cela, o preso

agradeceu com um presente inusitado: um luxuoso relógio Jaeger-Le

Coultre de ouro, do tipo patacão, que o ventanista confessou ter roubado

em uma mansão da Zona Sul. Chateaubriand aceitou sem qualquer cerimô-

nia e usaria o relógio durante muitos anos (sem nunca esconder sua origem),

até que o presenteasse ao amigo Antônio Sanchez Galdeano, o "rei do esta-

nho". Só no final de setembro, quando se travava em Campinas a última ba-

talha da fracassada Revolução Constitucionalista, é que as autoridades deci-

diram transferi-lo para a Casa de Correção, onde estavam dezenas de presos

políticos.

Tanto o noticiário sobre sua prisão como a tentativa de mandá-lo para o

Japão foram rigorosamente proibidos nos jornais Associados do Rio e na re-

vista O Cruzeiro. Em São Paulo, ao contrário, os dois jornais se esbaldaram

com esses acontecimentos. Como as notícias chegassem do Rio truncadas e

muitas vezes censuradas, tanto o Diário da Noite como o Diário de S. Paulo de-

ram equivocadamente que o patrão tinha sido deportado no Buenos Aires

Maru, corrigindo depois, também erradamente, para Saritos Maru - e mes-

mo depois que Chateaubriand estava em terra firme, enrolado em um cober-

tor vermelho na prisão, continuaram noticiando que ele se encontrava em

alto-mar, "rumo ao bárbaro exílio que a ditadura lhe impôs no Extremo

Oriente". À notícia da deportação, o furibundo Oswaldo Chateaubriand rea-

giu com um artigo à altura da violência, intitulado "Inteligências de rato", em

que traçava um retrato das perseguições de que os Associados eram vítimas:
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FERNANDO MORAIS


Conforme telegrama que ontem recebi do Rio, o sr. Assis Chateaubriand viaja a

estas horas a bordo do Buenos Aires Maru até o país dos crisântemos, destino que

lhe é imposto pela viagem forçada nesse barco nipônico. Houve por bem a dita-

dura dos tenentes (pois que o sr. Getúlio Vargas é um trapo) perpetrar essa

violência na pessoa do diretor d'O Jornal e do Diário de S. Paulo como castigo

pela atitude que assumira na direção dos Associados - e a seus companheiros,

como uma ameaça se lhe continuarem a obra. Mais uma vez os tenentes se afir-

mam como tipos de inteligência de rato, de que a nação já se fartou. A infâmia

desses alarves, deportando o sr. Assis Chateaubriand, há de servir no mínimo

para fortalecer a unidade espiritual e política dos Associados.

Foram arrolhados O Jornal e o Diário da Noite do Rio porque não quiseram ser-

vir a essa torva figura de celerado que é o sr. Getúlio Vargas; foi fechado espon-

taneamente o Diário de Noticias de Porto Alegre para não se cobrir de lodo aplau-

dindo a negra felonia do sr. Flores da Cunha; foram abafados o Estado de Minas

e o Diário da Tarde, de Belo Horizonte, porque se recusaram a favorecer as am-

bições desses dois sacripantas que são Gustavo Capanema e Virgilinho de Melo

Franco; continua perseguido em Recife o Diário de Pernambuco, que se obstina a

combater esse poltrão e gatuno que é o sr. Lima Cavalcanti. Só restava à polícia

do sr. João Alberto (que é a flor da malandrice dos tenentes) arredar do Brasil o

jornalista que oferecera combate em campo raso à ditadura que se corrompeu

na ambição, no tresvario da violência, nas sinuosidades da mentira, nos abismos

da degradação e no crime perverso e consciente contra os interesses da naciona-

lidade.

Os tenentes são apenas um episódio efêmero e degradante na vida política da



nação. E talvez fosse preciso mesmo que eles aparecessem, na sombra de seus

crimes, para que o Brasil renovasse suas energias e reafirmasse perante si mes-

mo na grandeza emocionante de seu idealismo e na fé intimorata dos seus des-

tinos. A paz dos pântanos recebê-los-á oportunamente no seu seio.


Se esbanjava adjetivos, Oswaldo Chateaubriand não exagerava ao fazer

o inventário da razia de Getúlio contra os Associados. Até mesmo o Estado

de Minas, que se equilibrava na tênue cordialidade mineira, acabaria acoco-

rado pela força da censura. O que no começo era "o movimento revolucio-

nário contra o governo ditatorial" passou aos poucos a ser chamado apenas

de "movimento armado" para, no final de setembro, virar "movimento sub-

versivo contra o governo provisório". Na revista O Cruzeiro não seria dife-

rente. Sem nunca ter deixado de dar o rotineiro caderno de dez páginas se-

manais dedicadas à luta em São Paulo, ela também foi revelando aos leitores

que aos poucos o garrote da censura ia se apertando. O título permanente da

cobertura mudou de repente de "O movimento revolucionário paulista"

para um prudente "O pronunciamento de São Paulo". Mesmo censurada, a

revista fazia cobertura exuberante e criativa. Além dos fotógrafos que man-

tinha em cada frente, a partir de agosto O Cruzeiro destacou o artista

plásti-

co Henrique Cavalleiro (o mesmo que ilustrara os finalistas do concurso de



contos) para percorrer os locais onde se davam os combates mais importan-

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CHATÔ, O REI DO BRASIL


tes e reproduzir, com elegantes bicos-de-pena, cenas de batalhas e retratos

de comandantes e soldados. A revista resistiria aos trancos até o final da

guerra, para no final do ano ser retirada de circulação por um mês, por pres-

são do governo.

A salvo de João Alberto e de seus censores, os dois jornais paulistas co-

briram a revolução de maneira exemplar. Uma idéia do repórter Arnon de

Mello faria o Diário da Noite multiplicar por quatro sua tiragem diária. Ao

realizar uma entrevista com Góis Monteiro, na região do túnel, ele pediu ao

general que dirigisse, por meio do jornal, um bilhete tranqüilizando seus fa-

miliares quanto à sua segurança. A mensagem manuscrita foi transformada

em clichê e estampada no jornal do dia seguinte. O repórter descobria ali um

inesgotável filão jornalístico: pedia a cada soldado que encontrava no front

que escrevesse cinco linhas para a mãe, o pai, a noiva ou os irmãos. Recolhia

uma montanha de papeizinhos e os reproduzia, um por um, na edição do

dia seguinte. Os mais emocionados, dramáticos ou poéticos eram separados

e editados como ilustração, sob a forma de clichês. Poucos dias depois de ini-

ciada a publicação dos bilhetes, os parentes dos combatentes também come-

çaram a escrever à redação, respondendo às mensagens que vinham do cam-

po de batalha. Com uma seção fixa intitulada "Correio da frente", que a cada

dia ganhava mais e mais páginas (e leitores), o Diário da Noite se transforma-

va, dessa maneira, no único meio de comunicação entre os soldados e seus

familiares.

No dia 12 de setembro, quando chegou à frente norte a notícia de que

Chateaubriand estava sendo embarcado para o Japão, Austregésilo de Athay-

de conseguiu transmitir um apelo emocionado à diretoria da Associação

Brasileira de Imprensa, no Rio, agora presidida por Herbert Moses (então di-

retor-tesoureiro de O Globo), exigindo que a entidade "envidasse todos os

esforços possíveis para impedir a consumação desse crime contra um asso-

ciado dessa instituição". Athayde tinha consciência de que a ABI estava "to-

mada por esquerdistas e tenentistas" que no fundo deviam "estar festejando

a deportação de Chateaubriand", mas nem por isso deixaria de enviar men-

sagens diárias para a associação. A julgar pelas atas das reuniões da ABI de

todo o período em que o jornalista esteve preso, os temores do Caboclo pro-

cediam. Uma única vez Moses fez gestões junto às autoridades policiais, por

meio de um curto telegrama: "Apelamos no sentido de evitar que o nosso co-

lega Assis Chateaubriand siga viagem num navio japonês, a cujo bordo já se

encontra". Ou seja, preferiu-se uma saída burocrática, em que a tentativa de

deportação era tratada como uma "viagem". Nas 23 reuniões ordinárias ou

extraordinárias da ABI realizadas durante a revolução paulista, emitiram-se

votos de pesar pelo falecimento de jornalistas, falou-se muito de novos asso-

ciados, de auxílio-funeral, de descontos em passagens de avião, e muito pou-

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CHATÔ, O REI DO BRASIL
co, quase nada, sobre as dezenas de jornalistas que entupiam as cadeias do

Rio de Janeiro.

Na chamada sala da capela, Chateaubriand media a derrota de São Pau-

lo pela quantidade e pela importância dos presos paulistas que iam chegan-

do. Aos poucos ele viu entrarem os ex-deputados federais Altino Arantes,

Ataliba Leonel e Manuel Vilaboim, o poeta Cassiano Ricardo, os jornalistas

Plínio Barreto, Cásper Líbero e Paulo Duarte, os irmãos e também jornalis-

tas Francisco e Júlio de Mesquita Filho e Ibrahim Nobre, que ficaria conheci-

do como "o tribuno da Revolução de 1932". Os dias se passavam, e como não

recebesse notícias do irmão, Chateubriand temeu que algum outubrista fa-

nático pudesse querer fazer justiça com as próprias mãos contra o jornalista

que fora tão insultuoso contra Getúlio Vargas e seus tenentes. Para seu alí-

vio, um dia acabaram entrando juntos na sala da capela Oswaldo e Austre-

gésilo de Athayde. No mês e meio que passou preso no Rio, Chateaubriand

manteve um comportamento singular: acometido do que chamava de "com-

plexo de encarcerado", recusava-se a receber visitas (exceção feita às femini-

nas, quando conseguia a cada vez mais rara complacência do carcereiro) e

pediu a Dulcídio Cardoso que lhe conseguisse uma enxada e o autorizasse a

plantar uma pequena horta de verduras nos fundos da prisão.

Com a capitulação formal de São Paulo, no dia 2 de outubro, a prisão

superlotou. Foi aí, com as informações vindas de fora, que ele teve noção do

estrago que Vargas e os tenentes tinham produzido nos seus jornais. Em Por-

to Alegre, o Diário de Noticias continuava fechado, sem perspectivas de rea-

brir tão cedo. Em Minas e Pernambuco, a censura tinha transformado o Es-

tado de Minas, o Diário da Tarde e o Diário de Pernambuco em meros boletins de

divulgação de comunicados oficiais do governo - que agora era "governo"

mesmo, pois a palavra "ditadura" tinha sido esvurmada à força de suas pá-

ginas. No Rio, a vendeta tinha sido completa. Não satisfeitos de retirar de

circulação os dois jornais e O Cruzeiro, um grupo paramilitar tinha saquea-

do a Vila Normanda. Na verdade o jornalista pouco se importou que tives-

sem levado dinheiro e prataria - mas ficou possesso ao saber que a pilha-

gem tinha subtraído as telas com que pretendia iniciar uma coleção para,

quando fosse possível, criar "um museu de arte antiga e moderna". De lá "a

cachorrada tenentista" tinha levado três Eliseu Visconti, dois Souza Pinto,

dois Batista da Costa e um Pedro Américo - quadros que Chateaubriand

passaria as décadas seguintes tentando localizar. Em São Paulo, a derrota

para as forças federais se refletiria de imediato em seus jornais: o Diário de S.

Paulo continuou circulando, mas sob censura rigorosa, e o Diário da Noite,

sem dúvida devido à virulência de Oswaldo Chateaubriand, acabou sendo

fechado por mais de dois meses.

No dia 4 de outubro, quando completava quarenta anos, Chateaubriand

recebeu por poucos minutos a visita de Dario de Almeida Magalhães. O di-

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FERNANDO MORAIS


rigente dos Associados de Minas transferira-se para o Rio para socorrer os

veículos locais, mais vitimados pela crise que os mineiros. Como presente de

aniversário, Magalhães levava a Chateaubriand uma dramática notícia: sua

mulher, Maria Henriqueta, queria o desquite. Ele devia saber que mais cedo

ou mais tarde aquilo acabaria acontecendo - pouco atencioso com a espo-

sa, mulherengo incontrolável, um péssimo marido enfim, era evidente que

seu casamento não seria eterno. Mas não podia imaginar que ia acabar da-

quele jeito: no dia de seu aniversário e dentro de uma prisão. Deprimido e

indignado com a decisão da mãe de seu filho, o jornalista reagiu com uma

única frase:

- Dê quinhentos contos de réis àquela vagabunda e nunca mais toque

nesse assunto comigo. Está dado o desquite.

Até os coqueiros da Vila Normanda sabiam que Maria Henriqueta Bar-

rozo do Amaral não era uma vagabunda - muito ao contrário -, mas não

era esse o problema que Dario tinha de enfrentar agora. Embora quinhentos

contos significassem uma infinitésima parte dos bens de Chateaubriand,

Magalhães simplesmente não sabia de onde tirar tanto dinheiro da noite

para o dia. Chateaubriand orientou-o:

- Dê 150 contos em dinheiro e mande passar para o nome dela um

apartamento que os Associados têm em São Paulo, que vale uns duzentos 

contos. Os 150 contos restantes você diz que eu vou pagar a prestação, em

promissórias que o Amâncio depois traz aqui para eu assinar. E pegue um

recibo de tudo isso assinado pelo doutor Zózimo, pai dela. Com essa mulher

eu não quero mais nada.

Embora a partilha proposta por Chateaubriand fosse de uma injustiça

sem igual - legalmente os bens dele teriam de ser divididos em partes

iguais entre ambos -, "Maria Branquinha" não fez qualquer objeção a isso,

quando Almeida Magalhães lhe comunicou a decisão do marido. Ao mudar-

se da Vila Normanda, ela deixaria a Chateaubriand um bilhete seco: "Levo

daqui apenas o que tenho certeza que é meu". Como levara também o filho,

os desafetos do jornalista espalharam a mentira que dizia que ela escrevera

"Levo daqui apenas o que é meu - e o que não tenho certeza se é seu", uma

ferina insinuação de que Fernando poderia não ser filho de Chateáubriand.

Mas, quando foi à cadeia no dia 4 de outubro para levar-lhe a proposta

de separação, Dario de Almeida Magalhães ainda tinha outras más notícias

para transmitir-lhe: os paulistas seriam todos deportados nos próximos dias,

e com eles iriam para Lisboa o irmão Oswaldo e Austregésilo de Athayde.

Pela primeira vez, Chateaubriand temeu que seu império estivesse ruindo

de verdade. Com ele preso e o irmão no exílio, dificilmente alguém de fora

da família poderia tocar o que sobrasse do rapa tenentista. Os outros dois ir-

mãos, Urbano Ganot e Jorge, embora ocupassem cargos nas empresas, não

tinham a mesma vocação dele e de Oswaldo - fosse para dirigir jornais e re-

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CHATÔ, O REI DO BRASIL


vistas, fosse para enfrentar as guerras políticas inerentes à profissão naque-

le Brasil tão cinzento para eles.

Outra visita, dias depois, trazia uma oferta de "alguém influente no go-

verno". Desta vez o portador era Gabriel Bernardes, que, durante todo o

tempo em que o dono estivera na clandestinidade ou na cadeia, resistira com

valentia às investidas contra os jornais do Rio. O que "o governo" estava ofe-

recendo a Chateaubriand - sem que se esclarecesse exatamente de quem ti-

nha partido a iniciativa - era a única saída para salvar o que restava de seu

patrimônio: os jornais que estavam fechados permaneceriam assim até se-

gunda ordem; os que continuavam funcionando circulariam sob censura ri-

gorosa; a orientação política dos dois jornais mineiros seria dada por Virgí-

lio de Melo Franco - com o que Afonso Arinos de Melo Franco, irmão mais

novo de Virgílio, assumiria o lugar de Dario Magalhães na direção dos As-

sociados em Minas (Dario, por sua vez, passaria a ser o presidente do que

sobrasse das empresas do Rio). O preço da barganha nem era tão alto: ele te-

ria de se mudar do Distrito Federal e confinar-se em São Paulo, lá permane-

cendo até que o governo federal reassumisse o controle da situação política

- ou seja, até quando Getúlio bem entendesse. A proposta não fazia qual-

quer referência a O Jornal - "porque se tratava de área de influência direta

do capitão João Alberto, e só ele podia deliberar sobre o destino a ser dado

ao matutino". Chateaubriand. precisava resolver depressa. Aceitava já ou

nos próximos dias seria embarcado com seus colegas de xadrez nos três na-

vios que levariam os presos paulistas para o exílio. O jornalista pediu 24 ho-

ras de prazo para pensar e responder se aceitava.

No Rio, a única empresa que tinha sobrevivido razoavelmente incólume

era a Agência Meridional. Mas mesmo esta continuava à mercê dos tenentes.

Dias antes seu diretor, Jaime de Barros, fora intimado a comparecer ao gabi-

nete de João Alberto - que havia reassumido a chefia de polícia - para

"prestar esclarecimentos sobre noticiário distribuído pela agência". Barros já

imaginava o problema que o esperava. Na antevéspera uma tropa da cava-

laria dispersara a golpes de sabre uma manifestação de apoio aos paulistas

na esplanada do Castelo. A repressão fora coberta por repórteres da agência,

fartamente fotografada, e o noticiário distribuído aos ainda raros clientes da

Meridional. O jornalista foi colocado em uma sala, onde logo depois entrava

João Alberto com um pedaço de papel na mão - como previsto, uma cópia

do despacho distribuído aos jornais. Sem um cumprimento, o capitão ape-

nas perguntou:

- O senhor assume a responsabilidade pelo que está escrito aí?

Jaime de Barros passou os olhos pelo papel e confirmou:

- Inteiramente, capitão.

João Alberto reagiu mal:
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FERNANDO MORAIS


- Mas isso não é verdade, a polícia não carregou contra a multidão e

não dissolveu o comício.

O jornalista se ofereceu para ir até a redação da agência buscar as fotos

que comprovavam a violência policial. João Alberto percebeu que Barros

não se intimidara e passou a discorrer sobre a ineficácia do uso da violência

para reprimir a oposição. Ele próprio, sublinhou ameaçador, tinha em men-

te métodos mais eficientes que o uso de sua metralhadora para controlar co-

mícios... e jornais. A advertência não precisava ser mais explícita: Jaime de

Barros entendeu que o capitão estava preparando contra Chateaubriand al-

guma armadilha mais sutil que a prisão ou a deportação. Só muitos anos de-

pois é que Chateaubriand viria a saber que, embora tenha sido o executor da

ordem, João Alberto considerara sua tentativa de deportação "uma imbeci-

lidade" - pois acreditava que, organizando campanhas difamatórias contra

o governo no exterior, Chateaubriand se tornaria um adversário mais incô-

modo e nocivo do que permanecendo no Brasil. Quando os "outubristas "

mais radicais decretaram a deportação para o Japão, João Alberto expôs sua

posição diretamente a Getúlio:

- Presidente, é inútil deportar Chateaubriand, se ele continuar a borbu-

lhar suas idéias pelo mundo afora. Mesmo exilado ele continuará a fustigar

o governo. Vai editar um jornal qualquer no Japão, na Polônia ou na Tche-

coslováquia e de lá vai continuar mandando flechas envenenadas contra

nós.
Ante o silêncio indecifrável do presidente, o capitão concluiu com o que

imaginava ser a "solução final" para conter o incontrolável ex-aliado:

- A única maneira de silenciar Chateaubriand é privá-lo de redações,

linotipos, rotativas.

Quando fez a advertência a Jaime de Barros, na sede da Polícia Central,

João Alberto - devidamente autorizado pelo presidente - já tinha posto

sua estratégia em prática. O objetivo era tomar os jornais de Chateaubriand

(senão todos, pelo menos O Jornal, que era conhecido como "o órgão líder

dos Diários Associados", sloRan que trazia impresso no cabeçalho) sem a vio-

lência dos radicais do Clube Três de Outubro, mas sob uma aparência legal

e jurídica, tudo dentro das leis vigentes. Conhecendo a notória fama de mau

pagador de Chateaubriand, o chefe de polícia começou a fazer contatos ou

enviar emissários para procurar os principais banqueiros do Rio, de São

Paulo, de Minas e do Rio Grande do Sul. A oferta que o governo fazia era

tentadora: comprava as dívidas vencidas do jornalista por duas, três e, de-

pendendo do caso, até quatro vezes seu valor real. Com Chateaubriand, Os-

waldo e vários diretores presos, sem poder reagir, o plano parecia simples:

compradas em nome de algum testa-de-ferro, as dívidas vencidas seriam

executadas e a falência das empresas requerida. Sem disparar um tiro, sem


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


quebrar uma linotipo, desmontava-se o pequeno e poderoso império com

um peteleco, como um castelo de cartas.

João Alberto só não contava com um obstáculo quase intransponível: se

o governo tinha medo das "flechas envenenadas " de Chateaubriand, os ban-

queiros tinham muito mais. Temendo as retaliações que inevitavelmente vi-

riam quando o jornalista voltasse a emergir (e isso acabaria acontecendo,

mais dia, menos dia), os banqueiros se fingiram de mortos. Entre enfrentar a

fúria tenentista e correr o risco, dali a alguns meses ou anos, de topar de

frente com Chateaubriand, nenhum deles teve dúvidas em optar pela pri-

meira alternativa. Em todas as portas em que João Alberto e seus homens ba-

teram, a resposta, com diferentes palavras, teve invariavelmente o mesmo

tom: "Dívidas de Chateaubriand? Não, nosso banco não tem negócios com

Chateaubriand".

A estratégia parecia ter naufragado, quando alguém descobriu que o

alvo estava em São Paulo, e não era nenhum banqueiro. A partir de 1911,

quando emigrara para o Brasil, o alemão Oscar Flues se tornara o maior im-

portador e fabricante de equipamentos gráficos do país. Tendo em seu ca-

dastro todos os grandes jornais e revistas brasileiros, a Oscar Flues & Cia.

tinha sido a responsável por quase todas as compras e importações de equi-

pamentos feitas pelos Associados desde a incorporação de O Jornal, em 1926.

A partir de então, Chateaubriand se tornara o maior cliente da empresa pau-

lista - que acabara abrindo um escritório no Rio, para atender à demanda

carioca. Difícil mesmo, o tempo ensinaria a Flues, era receber qualquer dívi-

da de Chateaubriand. Quando os emissários de João Alberto bateram às por-

tas do escritório instalado em um andar inteiro da rua Florêncio de Abreu,

no chamado "centro novo" da capital paulista, Flues tinha nada menos que

177 667$000 réis de dívidas já vencidas, contraídas por O Jornal e pelo Diá-

rio da Noite de São Paulo - uma bolada de dinheiro equivalente, em 1994, a

cerca de 1,3 milhão de dólares.

Nunca se soube com precisão se João Alberto chegou mesmo a ameaçar

o alemão para que vendesse a dívida (dizia-se, na época, que o governo ace-

nou com a possibilidade de devolvê-lo para Hagen Westf, na Alemanha, de

onde ele tinha vindo), nem se Flues sabia em que vespeiro estava se meten-

do, ou quanto teria custado a transação. Ou, até mesmo, se Flues não teria se

animado a fazer a operação apenas como uma forma de receber o que lhe de-

viam. O certo é que poucos dias depois de procurado pelos homens de João

Alberto (que se apresentavam como "emissários de um advogado do Rio de

Janeiro"), ele escrevia duas cartas registradas secas, sem prolegômenos, en-

dereçadas às empresas responsáveis pela publicação dos dois jornais - às

quais simplesmente comunicava "que na data de ontem fizemos a transfe-

rência de todos os nossos créditos contra essa empresa ao dr. José Soares Ma-

ciel Filho, ficando assim liquidadas as transações diretas entre nós e deven-


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FERNANDO MORAIS


do vossas senhorias se entenderem com o referido senhor, a quem cedemos

nossos direitos [...]. Atenciosamente, Oscar Flues '.

Maciel Filho, o homem escolhido por João Alberto para operar a rapina,

era um jovem de menos de trinta anos, advogado e filósofo (tinha sido alu-

no de filosofia de Benedetto Croce, na Itália), que em 1954 seria apontado

como o verdadeiro autor da carta-testamento deixada por Vargas ao suici-

dar-se. De posse dos créditos vencidos - no pacote adquirido a Flues havia

títulos com até 35 meses de atraso -, simplesmente levou-os a protesto em

um cartório do Rio. Mesmo que estivesse em liberdade, dificilmente Cha-

teaubriand teria aquela dinheirama na mão para liquidar as promissórias.

Com a direção dos Associados presa ou acuada pelo governo, aconteceu o

que João Alberto previa: na edição do dia 10 de dezembro de 1932 a Gazeta

dos Tribunais, uma espécie de diário oficial da Justiça, publicava a sentença

do juiz da 6ª Vara decretando a falência da empresa S.A. O Jornal, cujos bens

passavam automaticamente ao maior credor, Maciel Filho - ou seja, João

Alberto. Embora pudesse ter comportamento idêntico com relação à S.A.

Diário da Noite, de São Paulo (que se encontrava tão inadimplente quanto O

Jornal), o chefe de polícia não queria mais encrenca com os paulistas que ele

já tinha derrotado na guerra. Seu propósito era quebrar a espinha do "órgão

lider" dos Associados. No primeiro artigo tratando do assunto, escrito me-

ses depois, já com o país a caminho da liberdade, Chateaubriand diria que

"o capitão João Alberto se apropriou bravamente das nossas máquinas, na

inocente convicção de que um jornal se faz com peças de ferro e não com es-

tilhaços da alma. Foi engazopado. Vimos que ele não passou de um peque-

no tirano de subúrbio, fácil de contentar, porque deixando livres os jornalis-

tas arrebatava-lhes apenas prelos e linotipos".


Mas nem todo mundo fora "deixado livre" nos Associados, como o ar-

tigo insinuava. No dia que a falência de O Jornal foi decretada, Oswaldo Cha-

teaubriand e Austregésilo de Athayde já estavam degredados em Portugal.

Nem mesmo Chateaubriand podia dizer que estava em liberdade. Embora

tivesse o direito de ir e vir, os rigorosos limites impostos a ele eram os da ci-

dade de São Paulo, oferecida pelo governo como ménage para seu confina-

mento. Na capital paulista, ele vivia em um amplo apartamento num prédio

de três pavimentos da rua Senador Feijó, quase na esquina do largo São

Francisco, no pedaço menos nobre do centro de São Paulo. Separado da mu-

lher - o que fazia pouca diferença para seu dia-a-dia -, levara consigo o ca-

sal de mordomos franceses e apenas o que conseguira recuperar do butim da

casa do Rio: três ou quatro telas de Cândido Portinari (que aparentemente

não despertaram a cobiça dos saqueadores), um cachorro policial, suas rou-

pas, alguns livros e o velho bombardino que o acompanhava desde os saraus


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


da infância em Recife. Ele vivia no apartamento térreo, e no superior mora-

va com a família seu irmão Urbano Ganot. Desse endereço forçado a única

lembrança que ele guardou foi a de uma gafieira infernal, instalada do outro

lado da casa, que tocava música estridente até o dia clarear. Com o confina-

mento forçado em São Paulo, emprestou a majestosa Vila Normanda do Rio

para que Dario de Almeida Magalhães lá se instalasse com a família.

Levado quase à estaca zero, geograficamente confinado e, além do mais,

abandonado pela mulher, com seus melhores amigos presos ou exilados,

tendo tido seu principal jornal tomado à força e os outros à beira da falência

ou de portas fechadas, equivocava-se quem supunha que ele estava morto.

A primeira demonstração disso foi o aparecimento, nos tribunais do Rio de

Janeiro, de um recurso assinado por Chateaubriand e por Gabriel Bernardes,

tentando anular a sentença que decretara a falência do jornal e permitira que

Maciel tomasse tudo o que existia no número 35 da rua Treze de Maio (má-

quinas, móveis, equipamento e inclusive o prédio - só se salvando a Agên-

cia Meridional, que por mero acaso tinha sido registrada como uma empre-

sa de cujo capital O Jornal não participava). O recurso se baseava em uma

filigrana técnica: os dois alegavam que o parque gráfico não podia ser toma-

do por Maciel, pois as máquinas tinham sido compradas com reserva de do-

mínio - e assim, até que fossem integralmente pagas, pertenciam aos fabri-

cantes, não aos credores. Quem respondeu ao recurso, em nome da parte

contrária, foi o próprio Maciel Filho - cujo enorme memorial assinado, ocu-

pando em letra miúda uma página inteira da Gazeta dos Tribunais, revelava

que ele também não era flor que se cheirasse.

Tratando a representação de Chateaubriand e Bernardes de "um amon-

toado de chicanas e alicantinas baratas ", José Soares Maciel Filho aproveitou

a ocasião para expor à opinião pública as tripas de uma administração abso-

lutamente irresponsável, a dos Associados. Como se borrifasse pitadas de

sal nas feridas ainda abertas de Chateaubriand, ele foi arrolando, uma a

uma, as mazelas que encontrara no jornal que acabava de tungar. Segundo

suas próprias palavras, exibir o que havia nos arquivos dos Associados era

"colocar à mostra toda a podridão e estourar um postema que corrói a vida

nacional". Em síntese, Maciel acusava os Associados de ter desviado para as

empresas catorze contos de réis da Caixa Beneficente dos Operários; de de-

ver cinqüenta contos de réis de salários atrasados aos quase setecentos grá-

ficos das empresas, exatamente os funcionários mais modestos de toda a hie-

rarquia interna; de nunca ter recolhido, depois de outubro de 1930, um só

vintém de qualquer imposto, fosse ele municipal, estadual ou federal. Ma-

ciel descobriu mais: que desde 1929 as empresas não mantinham sequer es-

crita contábil regular; que o antigo prédio de O Jornal, na rua Rodrigo Silva,

continuava hipotecado ao conde Modesto Leal, com máquinas e tudo, por

5 mil contos; que a nova gráfica, que Chateaubriand alegava encontrar-se


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FERNANDO MORAIS


sob reserva de domínio (equipamento que, Maciel garantia, agora lhe per-

tencia), tinha também sido penhorada à Caixa Econômica Federal por 8 mil

contos, embora tudo isso rendesse, em uma contabilidade suspeita, apenas

catorze contos de réis por mês.

Temendo que Chateaubriand pudesse retrucar que sob uma ditadura a

Justiça não tinha garantias para julgar com independência uma causa políti-

ca como aquela, Maciel tomou a iniciativa de enfrentar o assunto, na conclu-

são de sua interminável arenga:

Sem garantias está o comércio, assaltado por empresas de chantagem como as

dos Diários Associados. Sem garantias está a indústria, saqueada pela fome sem

fim dos Chateaubriand. Sem garantias está o operariado, furtado nos dinhei-

ros de sua caixa beneficente. Sem garantias estão os jornalistas que trabalham

durante meses sem receber seus vencimentos numa empresa falida, sem escrita,

sem bens, sem honra. Sem garantias estão os homens públicos de nossa pátria,

atassalhados por essa escória sempre que não lhe abrem us cofres. Sem

garan-


tias está o requerente, que, reclamando direitos líquidos e certos, consagrados

pela nossa legislação, se vê obrigado a lutar para que a lei ceja cumprida.

[...] Quando for aberta a falência da S.A. O Jornal verá vossa excelência de

onde vinham os recursos que alimentavam a campanha contra a pátria. Bancos

estrangeiros que tinham em sua carteira milhares de contos de duplicatas da

S.A. O Jornal abriram contas correntes sem garantias para essa empresa. Com-

panhias fornecedoras de papel guardavam em suas carteiras centenas de contos

de crédito, entregando a matéria-prima onde se imprimiam as injúrias ao nosso

Exército. Bancos nacionais ligados a empresas poderosas colocavam fundos

para a campanha contra a honestidade administrativa do governo. E,

enquanto

isso, us operários gemiam, torturados pela fome. As leis de amparo ao

proleta-

riado não entravam em vigor nos jornais porque o ex-ministro do Trabalho era

tanbém associado aos Diários.
Com ou sem garantias, a Justiça ignorou o recurso de Chateaubriand e

manteve com Maciel Filho a posse de todos os bens existentes no prédio da

Treze de Maio. Animado com a vitória, o testa-de-ferro de João Alberto ain-

da mandaria reproduzir como matéria paga no Jornal do Commercio o memo-

rial da Gazeta dos Tribunais. Sem ter um único jornal no Rio para responder,

a Chateaubriand restou a humilhação de ter de pagar do próprio bolso um

modestíssimo "A pedidos" no mesmo Jornal do Commercio, onde tentava

ironizar o homem que lhe tomara os jornais, insinuando que "o vibrante ar-

tigo publicado ontem na seção ineditorial desta folha, escrito por José Soares

Maciel Filho", tinha sido assinado, "evidentemente por um pseudôni-

mo". Maciel ignorou a alfinetada com olímpica indiferença e, cercado de po-

liciais, tomou posse imediatamente de seu jornal.

No dia 14 de janeiro de 1933 as máquinas da Treze de Maio voltariam

a funcionar para colocar nas ruas não mais o provocativo O Jornal, mas A

Nação, um diário semi-oficial a serviço de Getúlio, de João Alberto e do te-
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CHATÔ, O REI DO BRASIL


nentismo. Vacinando-se contra qualquer tentativa de boicote por parte dos

gráficos, Maciel nomeou diretor de todas as antigas oficinas dos Associados

o linotipista Henrique Stepple Júnior, diretor da urtl - União dos Trabalha-

dores em Livros e Jornais (uma espécie de sindicato dos gráficos da época),

que dias antes tinha sido demitido de O Jornal por ordem de Chateaubriand,

"por cumplicidade com os autores do esbulho". No primeiro dia de funcio-

namento, o novo dono da empresa anunciou também que estava desembol-

sando 49 contos de réis, pagos na boca do caixa para colocar em dia os salá-

rios dos 689 linotipistas, revisores e impressores que nos últimos meses não

tinham visto a cor do dinheiro de Chateaubriand.


Nem a prisão, o exílio do irmão e dos amigos, a separação da mulher, o

confinamento em São Paulo, a derrota na Justiça - nada disso tinha conse-

guido fazê-lo esmorecer. No dia seguinte à sua libertação, ainda no Rio, ele

já tinha conseguido dez contos de réis com Mário de Oliveira para ajudar um

dos exilados. Em uma carta que conseguiu fazer chegar às mãos de Lindol-

fo Collor, na Argentina, Chateaubriand contou ao ex-ministro do Trabalho

que aquele dinheiro era parte de uma "subscrição" que ele estava levantan-

do entre os amigos (e que esperava chegar aos quarenta ou cinqüenta con-

tos) para financiar uma viagem de Collor à fronteira do Paraguai com a Bo-

lívia a fim de que ele pudesse realizar reportagens sobre a Guerra do Chaco.

Em que veículo publicaria o material era um problema para se resolver de-

pois. Na carta ele esclareceu quem tinham sido os misteriosos intermediá-

rios que haviam conseguido sua libertação, após 41 dias de xadrez, em troca

das concessões a Vargas: eram os capitães Dulcídio Cardoso e Floriano Pei-

xoto Nunes. Bem-humorado, dizia que, por não ter obedecido com polidez

à ordem de "marchar para continentes exóticos", passara catorze dias na De-

tenção "nas companhias encantadoras de 'Broca Branca ', 'Tangará', 'Mole-

que 5', 'Sete Zorras' e 'Moleque 30', que me transformaram em um perito em

crimes ". Ao se despedir, pedia a solidariedade do amigo para movimentar-

se entre os exilados e denunciar o golpe contra o Diário de S. Paulo, que ele

imaginava iminente. "Vê o que podes coordenar aí", terminava, "para evitar

a catástrofe."

A catástrofe, na realidade, já havia se abatido sobre suas publicações. A

tiragem da festejada O Cruzeiro; que no ano anterior chegara perto dos 100

mil exemplares semanais, caíra para pouco mais de 20 mil. Na tentativa de

revigorar a revista, Chateaubriand chamou o jornalista Accioly Neto para

ser secretário de redação, o advogado Martinho Luna de Alencar para che-

fiar a seção de contabilidade e seu primo Leão Gondim de Oliveira, trazido

de Recife, ficou encarregado de cuidar dos projetos gráficos. Antes mesmo

de a revista dar os primeiros sinais de recuperação, conseguiu vender ao
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FERNANDO MORAIS


Banco Noroeste, de São Paulo, um contrato de receita antecipada de publici-

dade no valor de setecentos contos. Mantendo a velha política de salvar as

empresas em dificuldades com os lucros das que iam melhor, com esse di-

nheiro pôs de pé de novo o Diário de Noticias, de Porto Alegre. Apesar da mi-

séria franciscana em que suas empresas se encontravam, obteve outro con-

trato futuro de anúncios, no valor de cinqüenta contos, e mandou todo o

dinheiro para os exilados da Argentina e de Lisboa.

Fiel ao lema que repetia sempre - segundo o qual "dinheiro é como

curinga em baralho, só vem para quem já tem" -, decidiu que a melhor ma-

neira de sair do buraco era fazer a rede de comunicações voltar a crescer.

Sem ter um tostão no bolso, no caixa das empresas ou nas contas bancárias,

procurou o presidente da General Electric do Brasil, Iman Greenwood, e

anunciou que os Associados iam entrar no ramo da radiodifusão. Para per-

plexidade do executivo americano, encomendou a produção, na fábrica da

empresa nos Estados Unidos, de uma estação de rádio de dez quilowatts de

potência. Como no Brasil não havia uma única estação de rádio que tivesse

transmissores de mais de um quilowatt, coisa que na América do Sul só exis-

tia na Argentina, Greenwood quis saber como Chateaubriand, na penúria

em que se encontrava, pretendia pagar equipamento tão sofisticado. O jor-

nalista não teve dúvidas:

- Com um contrato de publicidade de 10 mil dólares que a General

Electric fará com O Cruzeiro, mais um de 8 mil dólares que o senhor conse-

guirá para mim nas redes de lojas que vendem seus produtos, estará garan-

tido o dinheiro para a entrada do equipamento. Como um transmissor des-

se porte levará alguns meses para ser fabricado, na época da instalação da

rádio uma boa parte dele estará paga. As prestações seguintes eu pagarei

com a publicidade que vamos conseguir com a própria rádio.

Se o presidente da GE se espantou com a equação, surpresa maior teve o

próprio Chateaubriand ao ouvir que dá parte dele o negócio estava fechado

- apesar de ser, para a época, uma cifra substantiva, bastaria consultar a

matriz em Nova York para bater o martelo. Animado com a receptividade

que sua proposta teve, correu atrás do velho amigo Samuél Ribeiro, que, em-

bora fosse presidente da Caixa Econômica Federal (de onde não poderia

mais sair um centil para Chateaubriand), se dispôs a fazer uma parceria com

Guilherme Guinle e levantar algum dinheiro para o projeto da rádio. Além

dele, o jornalista ainda conseguiu promessas de ajuda financeira do milioná-

rio comendador José Martinelli e, surpreendentemente, do mesmo conde

Francisco Matarazzo que ele tanto azucrinara.

A dois meses das eleições para a Constituinte (apesar da guerra paulis-

ta, Getúlio decidira cumprir o calendário eleitoral proposto no ano anterior),

a vida do país e a de Chateaubriand pareciam entrar vagarosamente nos ei-

xos. Em fevereiro daquele 1933 o dono dos Associados resolveu testar o ri-


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CHATô, O REI DO BRASIL


gor da censura sobre os jornais de São Paulo, que aos poucos também reto-

mavam a rotina anterior a 9 de julho de 1932. Como um piloto de avião que

abandona um céu azul para embrenhar o aparelho em uma rota de nuvens

negras, o jornalista procurava mais uma sarna para se coçar, ao mexer em

um tema que se transformara num verdadeiro tabu para o governo Vargas.

Embora nenhum jornal tivesse se atrevido a tratar do assunto em suas pági-

nas, a conversa política que fervilhava em todos os cantos da cidade era uma

só: a anistia. Sensível ao que acontecia em São Paulo, o governo deixou va-

zar informalmente a notícia de que os exilados que requeressem por escrito

autorização para retornar ao Brasil teriam seus processos revistos e, depen-

dendo da gravidade dos crimes de que eram acusados, poderiam receber

salvo-conduto para se repatriar.

Querendo saber até que ponto Getúlio estava mesmo disposto a ceder,

no final de fevereiro Chateaubriand escreveu um artigo sobre o assunto, cri-

ticando a exigência do requerimento para que qualquer exilado pudesse ten-

tar retornar à pátria - pré-requisito que considerava uma humilhação a

mais contra São Paulo. "Não está certo o governo ditatorial se procura fazer

depender a volta do exilado de um requerimento dirigido ao chefe do gover-

no provisório ou ao ministro da Justiça pedindo o seu regresso ao Brasil", es-

creveu. "A generosidade é o apanágio dos que têm consciência de sua força

e de sua autoridade. Quando um governo se dispõe a usar medidas de bran-

dura para com o seu adversário vencido no choque das armas, se ele não se

serve dessa cordura com tato e com perfeita superioridade de alma, perde

todos os efeitos que procurou tirar de sua política apaziguadora." Prudente-

mente, assinou com o estranho nome de "Visconde de Castellomelhor ".

Como o artigo passou inexplicavelmente incólume pelos censores, Cha-

teaubriand repetiu a dose no dia seguinte, batendo no mesmo tema e assi-

nando de novo com o exótico pseudônimo. Mais uma vez o texto saiu im-

presso tal qual tinha sido escrito. Para o jornalista, aquele era um indiscutível

sinal verde que Vargas lhe enviava, autorizando-o a escrever livremente so-

bre o assunto. Animado, no terceiro dia pegou um maço de papéis e atacou

outra vez a questão:


Não se esqueça o ditador de que se houve no Brasil um homem aclamado como

símbolo da oliveira da paz, entre 1929 e 1930, esse homem foi o sr. Getúlio Var-

gas. Se eu fosse o chefe do governo provisório não discutia mais com quem quer

que fosse a questão da anistia: mandava um substancial navio do Lóide a Por-

tugal e outro ao rio da Prata, e nesses dois portos marcaria rendez-vous com os

exilados políticos brasileiros dispersos pelos dois mundos, o velho e o novo.

Não mandaria o navio avançar até nenhum porto frances, porque o exilado que

foi para a França é um exilado mais ou menos abastado. Uma vez recolhidos a

bordo os nossos compatriotas que hoje vivem fora do Brasil, eu passaria a exa-

minar a situação dos civis e militares demitidos ou reformados ou que foram


311

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FERNANDO MORAIS

postos para fora da Marinha e do Exército. Admitiria a volta do maior número.

E assim procederia às eleições, no Brasil, com vida nova.


Deu ao artigo o título de "A anistia", mandou colocá-lo no local mais

nobre do jornal, o alto esquerdo da primeira página, lançou mão da velha

ousadia e assinou com seu próprio nome, certo de que já não precisava mais

esconder-se sob o "Visconde de Castellomelhor ". Desta vez, entretanto, Cha-

teaubriand se equivocara com relação às intenções do "símbolo da oliveira

da paz". O Diário de S. Paulo começou a circular às quatro e meia da madru-

gada e às seis horas da manhã Henri Gallon atendeu às batidas na porta do

apartamento na rua Senador Feijó. Eram oito homens à paisana, armados de

revólveres, um deles trazendo nas mãos o jornal recém-saído das rotativas.

Mandaram acordar Chateaubriand, e quando ele surgiu à porta o homem dn

jornal anunciou:

- Por ordem do general Valdomiro de Lima, interventor em São Pau-

lo, o senhor está preso. Queira nos acompanhar.
312

19
Chateaubriand foi levado incomunicável ao presídio político do bairro

do Paraíso, em São Paulo. Sem trocar de roupa nem tomar banho, trancado

sozinho numa cela com porta de ferro e grades protegendo a pequena e alta

janela, só três dias depois é que seria libertado. O carcereiro que lhe abriu a

porta da cela - a maior autoridade com quem teve oportunidade de falar

durante aqueles dias - disse apenas que "os homens lá dos Campos Elí-

sios", bairro onde ficava o palácio do interventor, tinham um recado para ele:

- Mandaram dizer que, toda vez que o senhor se meter a besta, volta

para cá.


Chateaubriand continuaria a agir como se ignorasse a capacidade de re-

pressão do governo - fosse para censurar seus jornais, fosse para prendê-lo

tantas vezes quantas entendesse necessário. O que o intrigava era a solidão

da luta que mantinha contra a ditadura e o tenentismo, o silêncio e a omis-

são das verdadeiras vítimas do nacionalismo e do esquerdismo daquela gen-

te: os industriais, os empresários. No seu entendimento, até o interventor

Valdomiro de Lima, um militar de alta patente, acabava desempenhando

um papel mais significativo contra os tenentes do que "a burguesia" - sus-

peitas que talvez procedessem, pois meses depois Lima seria afastado da in-

terventoria, tendo seu substituto mandado prender pessoas ligadas a ele. A

insubmissão do interventor às ordens vindas do Distrito Federal ficaria cla-

ra na irônica resposta de Chateaubriand a uma carta que recebera do exila-

do Lindolfo Collor no começo de 1933:
Reinado de Valdomiro I,17 de janeiro de 1933.
Meu Caro Collor:

Muito e muito obrigado por suas palavras e pelas promessas de colaboração

com os Diários Associados na luta contra a ditadura. Não quero desmerecer da

sua valia, mas não creio que os homens aos quais você se refere ouçam as pala-

vras de um vencido que se encontra no exílio.

Há dois meses e meio lutamos contra a polícia do capitão João Alberto intei-

ramente sós. A burguesia nos deixou no inteiro desamparo, sem embargo da de-

claração explícita do chefe de polícia de que o embate que travava era menor

contra mim do que "contra os elementos conservadores encerrados nas nossas

empresas, além de destruir ", disse-me ele, "as chamadas classes conservadoras


313

#
FERNANDO MORAIS


que tu representas em seus diários". E acrescentou: "Gozo o pânico de que elas

estão possuídas, desejando preservar tua organização, mas sem coragem de en-

frentar-me, sequer secretamente". Somos obrigados a reconhecer que o janota

que dirige a polícia tinha carradas de razão. A burguesia toda ela se encolheu,

enquanto o capitão covarde mói os Associados com uma desenvoltura lampio-

neira.


Aqui me encontro hoje no oásis que é São Paulo. Valdomiro cuspiu todos os

tenentes joão-albertistas das posiçôes em que eles se escoravam dentro da forta-

leza paulista, e realiza um governo de aproximação com a opinião pública da

terra que lhe mandaram ocupar. Aqui cheguei prófugo, tendo fugido do Rio ga-

rantido pelo generoso mecenas que é o Dulcídio Cardoso. Desembarquei na

hora em que o Valdomiro acertava o ajuste de contas com o tenentismo. Você

não faz idéia do que está sendo a decisão do governador militar de São Paulo

nesta grande liquidação do saldo militarista.

Sou sozinho na imprensa de São Paulo a contestá-los, e acredito que já mobi-

lizei uma corrente de opinião tão ponderada com os Associados que hoje Val-

domiro já se afigura como um salvador destas plagas. Cumpre, meu caro Col-

lor, lutar-se aqui, aceitando todas as alianças contra os tenentes. O Valdomiro é

de um carinho maior que o do Andrada a nosso respeito. Você não faz idéia do

escriba governamental que sou hoje aqui. E da liberdade que gozo! E das inso-

lências que faço ao capitão João Alberto! E do que me rio das sucessivas ordens

de prisão que ele manda contra mim e que o Valdomiro não obedece. Isso aqui

é uma moenda, onde se reduz tenente a bagaço. O pessoal do capitão me

ameaça todo dia de morte, há complôs, o diabo. E desejam que, malgrado tudo

isso, eu ainda venha a perder O Jornal lá no Rio.

Mande o teu artigo, que inseriremos nos Associados vivos. Em Minas, Per-

nambuco, São Paulo e Porto Alegre podemos publicá-lo. Saudades a d. Hermí-

nia e às meninas. O amigo de sempre,


A. Chateaubriand
Por ordem de João Alberto ou de quem quer que fosse, ser preso acaba-

ria se tornando uma rotina para Chateaubriand durante o ano de 1933. Se-

manas depois de passar os três dias na prisão do Paraíso ele resolveu ir ao

Rio. Como estava confinado em São Paulo, qualquer movimentação sua para

fora dos limites da capital necessitava da prévia autorização de Valdomiro

de Lima - este, afinal, tinha sido o trato para poupá-lo do degredo na Ar-

gentina ou em Portugal. Apesar de ter aceito os termos do acordo, o jorna-

lista considerava uma humilhação não estar condenado a pena alguma, nem

mesmo sendo processado, e ter de pedir permissão a um general para circu-

lar dentro de seu próprio país. Chamou o contínuo Edmundo Monteiro-

um magricela de calças curtas que começara a trabalhar meses antes na re-

dação dos Diários - e deu ordens para que ele comprasse uma passagem

para o Rio no Cruzeiro do Sul, o trem expresso que ligava São Paulo à capi-

tal da República. Embarcou à noite e na manhã seguinte, quando descia na

estação da Central do Brasil, no Rio, encontrou à sua espera um Dario de

Al-
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FERNANDO MORAIS


meida Magalhães preocupado: a polícia política já tinha passado nos Asso-

ciados à sua procura. Quer dizer: ou ele estava sendo seguido, ou seus tele-

fones estavam sob escuta, ou havia espiões da polícia nas redações. "O mais

provável, doutor Dario ", ele acrescentou, bem-humorado, "é que sejam as

três coisas. Para esses assuntos, esta é uma ditadura competente."

Temendo por sua sorte, Dario achou melhor não irem para a redação

(tomado por João Alberto o prédio da Treze de Maio, os Associados tinham

voltado ao endereço antigo, na rua Rodrigo Silva), que certamente estava vi-

giada, e muito menos para o casarão da avenida Atlântica. Arranjaram a

casa de um industrial amigo nas imediações das matas da Tijuca, onde Cha-

teaubriand passou quatro dias oculto. Nesse período, escreveu seus artigos

diários e os enviou ao jornal por um portador, com a recomendação expres-

sa de que na abertura do texto não fosse cumprida a tradição de constar a

procedência.

Após passar cinco dias escondido no Rio, e depois de previamente in-

formado de que não havia qualquer acusação nova contra ele, resolveu se

entregar ao novo chefe de polícia do Distrito Federal, o capitão Filinto Mül-

ler (João Alberto deixara o posto e se mudara para Recife, com os olhos vol-

tados à sua futura candidatura a uma cadeira na Constituinte do ano seguin-

te pelo estado de Pernambuco), ex-participante da Coluna Prestes, da qual

fora expulso para, anos depois, aderir à Revolução de 30. Depois de ser fo-

tografado, identificado e de ter deixado mais uma vez suas impressões digi-

tais numa ficha de papelão, foi levado para uma cela onde permaneceu pou-

cas horas. À noite, o próprio Filinto veio soltá-lo, sem esconder que estava

ali para matar a curiosidade de conhecer de perto o jornalista que seus cole-

gas de governo diziam "ter o diabo no corpo". Um homem enorme, de bigo-

dinho fino, gravata-borboleta, o irônico Filinto disse que Chateaubriand lhe

oferecia a oportunidade de fazer "o que mais aprecio como chefe de polícia:

colocar alguém em liberdade". No caso, liberdade em termos - Filinto

Mul-


ler destacara dois homens para escoltar o jornalista no Cruzeiro do Sul até

São Paulo, de onde, insistia, Chateaubriand não deveria arredar pé sem sal-

vo-conduto expedido pelo general-interventor. Seu inconformismo por ter

de pedir licença para sair de São Paulo - coisa que ele jamais se sujeitou a

fazer - o levava a pequenos deboches com o interventor. No alto de todas

as cartas que escrevia aos amigos (tanto os que estavam no governo ou na

oposição, no Brasil ou no exílio), em vez de "São Paulo, [...]" ele punha, como

fizera na carta a Collor, "Reino de Valdomiro I, [...]". E antes de postá-las no

correio ou entregá-las aos portadores, passava pela banca onde estava o cen-

sor de plantão e, provocativo, exibia o cabeçalho ao constrangido funcioná-

rio do governo. No mais, tinha mesmo que se submeter às exigências do

acordo.
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CHATÔ, O REI DO BRASIL
Em maio de 1933, eleita a Constituinte que seria empossada no fim do

ano, Chateaubriand recebeu em São Paulo a visita de Antônio Carlos. O ex-

governador mineiro trazia um convite de Getúlio Vargas para que o jorna-

lista fosse ao Rio para uma conversa - não era nada de especial, apenas uma

conversa para quebrar o gelo que já durava um ano entre os dois. Chateau-

briand foi categórico:


- Diga ao ditador que vou com muita honra, mas recuso-me a pedir

permissão ao general Valdomiro para viajar. Vargas que cuide disso.


Antônio Carlos informou que o interventor estava avisado do encontro e

os dois partiram no dia seguinte para o Distrito Federal. No gabinete do pre-

sidente, no Palácio do Catete, Chateaubriand abriu os braços ao ver Vargas:

- Ditador! É uma alegria revê-lo. Só agora posso agradecer as gentis fé-

rias que o senhor me ofereceu no império nipônico e que eu, impolidamen-

te, recusei.

Sem responder à provocação, um Getúlio risonho e bem-humorado re-

cebeu-o como se nada de grave tivesse acontecido entre os dois. Numa alu-

são pouco sutil às dificuldades que o governo encontrara para comprar as

dívidas de O Jornal, o presidente deu o troco:

- Tu és invencível, Chateaubriand.

- Por que, ditador?

- Porque tens a teu lado os maiores banqueiros deste país. Sei mais de

tua vida do que tu pensas. Mas sei que tu também sabes muito de mim. Quan-

do chegar à velhice, gostaria que tu escrevesses a minha biografia.

Embora Antônio Carlos o tivesse advertido de que aquele seria um en-

contro para falar apenas de amenidades, Chateaubriand insistiu em condu-

zir a conversa para o lado político, para a revolução paulista. Quis saber do

presidente as razões do governo para mandar João Alberto tomar-lhe O Jor-

nal, e o presidente reagiu com uma risada solta:

- O problema é que tu tens muitos inimigos dentro e fora do governo,

Chateaubriand. Posso dar dinheiro a João Alberto para fundar jornais, pos-

so alimentar à tripa forra os jornais que nos apóiam, e ninguém se importa.

Mas se é um favor para ti, vêm todos em cima de mim. É o diabo! Não pos-

so fazer nada, nada por ti.

- Sei que há muito de velhacaria de sua parte no que o senhor está di-

zendo, ditador, mas há muito de verdade também. Os Diários Associados

são objeto de um ciúme nacional. É como se nós fôssemos uma mulher bo-

nita, de quem todos têm ciúmes.

Quando o assunto voltou à revolução paulista, Getúlio disse a Chateau-

briand que iria revelar-lhe, em segredo absoluto ("guarda-o para minha bio-

grafia", brincou), um episódio ocorrido durante a revolução de julho do ano

anterior - uma confissão que, vinte anos depois, poderia ser lida como um

gesto premonitório do que seria o destino de Vargas:


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FERNANDO MORAIS


- Uma tarde, no auge da luta, um ajudante-de-ordens veio comunicar-

me que no Ministério da Guerra havia um grupo de generais desejosos de

falar-me. Que queriam aqueles oficiais de mim?, indaguei. Queriam pedir-

me que renunciasse para evitar o derramamento de sangue num Exército di-

vidido. Mandei que viessem em duas horas.

Na sala mergulhada em silêncio absoluto, Vargas fez uma pausa teatral,

voltou a acender o charuto que se apagara e apontou o dedo para uma por-

ta do gabinete:

- Dirigi-me àquela salinha, sentei-me e, à Balmaceda, redigi meu testa-

mento político. Escrito o que eu tinha a dizer à nação, peguei dois revólve-

res e pus um em cada bolso do paletó. Chamei o oficial que me fizera a co-

municação e disse-lhe que assim que os generais chegassem ele deveria

introduzi-los no gabinete presidencial. Eles não vieram.

A referência à história do presidente chileno José Manuel Balmaceda,

que em 1891 se suicidara depois de derrotado politicamente, caiu como um

raio sobre um Chateaubriand de olhos arregalados, excitado pelo impacto

do que acabara de ouvir:

- Mas o que o senhor pretendia fazer com esses revólveres? E quem

eram esses generais?

Vargas deu uma gargalhada:

- Não sei dizer-te, neste momento, o que faria com as armas. Quanto

aos generais, nunca me interessei em saber quem eles eram. Parece-me até

que depois promovi alguns deles.

Foi o presidente quem tomou a iniciativa de mudar de assunto e ir en-

cerrando o encontro que já se estendia por quase uma hora. De pé, brincou

com Chateaubriand:

- Chamei-o aqui porque vocês dos Associados me fazem muita falta.

O jornalista gargalhava diante do chefe do governo que fechara e toma-

ra seus jornais, que o confinara em São Paulo e que semanas antes o tinha

posto mais uma vez na cadeia:

- Pois é, ditador, desde que paramos de publicar seus retratos, nossas

vendagens têm sido um desastre. Estou ansioso por poder tirar sua fotogra-

fia da gaveta, quero voltar a vender jornais e revistas às dúzias.

Como a autorização verbal do presidente para que ele deixasse São Pau-

lo não tinha prazo determinado, Chateaubriand permaneceu no Rio por

mais três semanas, de onde escrevia seus artigos diários, tomando sempre o

cuidado de não registrar o nome da cidade na abertura dos textos. No pri-

meiro deles, que a censura deixou passar, contou a razão de sua ausência do

Distrito Federal, e mentiu quanto ao tempo que permaneceria na capital:

Depois de quatro meses e meio de exílio nesse querido Portugal que é São Pau-

lo, eis-me restituído, por três dias apenas, ao Rio de Janeiro. A princípio manda-

ram-me para o Extremo Oriente, que era uma espécie de Ponto Euxino da dita-


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


dura brasileira. Graças a um pequenino oficial da marinha mercante japonesa,

voltei do Japão sem ter ali praticamente chegado. Foi quando me gratificaram

com um ótimo exílio nacional.
No último artigo escrito no Rio, pela primeira (e raríssima) vez ele trata

de assuntos familiares na sua coluna, ao referir-se ao filho Fernando, que

deixara de ver fazia quase um ano:
Acabo de despedir-me do meu filho, a quem não via, a bem dizer, desde julho,

quando arrebentou a revolução paulista e eu a ela me incorporava. A prisão, a

perspectiva da luta em Minas, a evasão dentro do Rio e depois a partida, em de-

zembro último, para São Paulo, tudo dele me separara.

Na inocência de seus verdes anos, perguntou-me, à hora da despedida,

porque eu me ausentava de novo do Rio:

- É sempre São Paulo que te leva daqui do Rio? - foi a sua interrogação.

- Mas, se a revolução já terminou, por que continuas longe de mim?

Tive de lhe explicar que em São Paulo, hoje, se joga a sorte da nacionalidade.

A geração de 1933 responde pela unidade brasileira contra a invasão separa-

tista.
Durante essa curta passagem pelo Rio, Chateaubriand descobriu que Fi-

linto Müller tinha destacado um censor que se encarregava exclusivamente

de seus artigos. Era o jornalista e médico recém-formado Álvaro Vieira (que

depois da redemocratização viria a ser médico dos Associados), ex-repórter

do jornal popular A Batalha, de propriedade de um bicheiro, e que fazia um

"bico " trabalhando para a polícia como censor - isto embora acumulasse

também a função de secretário político da célula do Partido Comunista no

bairro de São Cristóvão. Depois de composto por Umberto Porta, o artigo su-

bia sob a forma de prova tipográfica para Vieira, que consultava a lista de as-

suntos proibidos recebida diariamente da polícia antes de ir para o jornal.

Quando Chateaubriand escrevia sobre algum tema incluído no index, Vieira

cortava os trechos inconvenientes ou simplesmente proibia a publicação do

artigo inteiro. O material cortado era guardado e entregue no dia seguinte ao

delegado do Dops na 4ª Delegacia Especial. Era comum Chateaubriand pro-

curar Vieira, depois de vê-lo mutilar um texto seu, e tentar convencê-lo a re-

considerar a proibição. A conversa era sempre a mesma:

- Doutor Álvaro, o senhor é jornalista, não pode cometer uma barbari-

dade dessas. Isso aqui é um furo, uma informação que ninguém mais tem.

Deixe passar pelo menos este parágrafo.

Diante da inflexibilidade do censor, tentava jogar sujo:

- Se o senhor permitir que este artigo saia publicado, eu lhe dou um

emprego de redator com o salário duas vezes maior que o da polícia. Um em-

prego eterno, o senhor jamais será demitido dos Associados.

Ali Vieira não era jornalista, mas policial:


319

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FERNANDO MORAIS


- Doutor Assis, nessa base o senhor não consegue nada de mim. Se o

senhor quiser me dar um emprego no seu jornal depois que a censura aca-

bar, eu aceito de bom grado. Mas essa troca que o senhor está propondo eu

não posso aceitar.

Irritado, Chateaubriand saía berrando alto o suficiente para que o cen-

sor ouvisse:

- Esse filho da puta só podia ser comunista. Só queimando o rabo dele

com um maçarico!

Apesar das dificuldades com a censura, o encontro com Getúlio tinha

revigorado suas forças para remontar a rede. No começo daquele ano ele de-

cidira dar outra finalidade ao dinheiro que arranjara com Samuel Ribeiro e

Martinelli a pretexto de importar os transmissores de rádio: comprou a re-

vista A Cigarra, um semanário feminino ilustrado que havia sido fundado

em 1914, circulando apenas no eixo Rio-São Paulo, e conseguira angariar

pouco prestígio entre seu público-alvo, as mulheres e os intelectuais. Entre-

gou a direção da nova publicação ao poeta paulista Menotti del Picchia e

transformou-a em uma revista de circulação nacional.

De volta a São Paulo, em julho, confiante na atmosfera afetuosa do en-

contro que tivera com Getúlio, autorizou Menotti del Picchia a publicar na

revista uma reportagem festiva sobre o primeiro aniversário da revolução

constitucionalista, que se comemorava naquela semana. Se traduziu o clima

ameno da conversa com o presidente como um nihil obstat para seus atrevi-

mentos jornalísticos, Chateaubriand conhecia Getúlio Vargas muito pouco

- e seu governo menos ainda. No mesmo dia em que foi impressa, A Cigarra

foi recolhida das bancas, proibida de circular, e a polícia prendeu seu dono,

o diretor e o gerente, Laio Martins. Ao receber voz de prisão, o sangue ita-

liano de Menotti del Picchia ferveu. Fez um discurso em altos brados contra

a ditadura, contra Getúlio, contra os tenentes - e teve de ser levado à força

para o presídio do Paraíso. Já habituado ao que chamava de "turismo carce-

rário ", Chateaubriand foi conduzido sem protestos para outra prisão, situa-

da no bairro da Liberdade, no centro da capital paulista.

Apesar do regime de incomunicabilidade a que estava submetido, con-

seguiu convencer um carcereiro, em troca de um emprego nos Associados, a

contrabandear até a redação do Diário da Noite um artigo de elogios à políti-

ca externa do secretário de Estado norte-americano Cordell Hull, que escre-

vera a lápis em quatro guardanapos de papel. A mesma censura que tinha

sido tão dura com A Cigarra deixou passar o artigo intitulado "Moinhos de

vento ", de novo assinado por "Visconde de Castellomelhor ". Na abertura,

em vez de colocar o tradicional "São Paulo, 8 de julho ", ele escreveu "Oco do

mundo, 8 de julho" - certo de que aquilo poderia ser lido também como "o

cu do mundo ", identificando pelo menos para os leitores mais atentos, o lu-

gar onde ele se encontrava. .Ao receber o Diário na cela, no dia seguinte, sor-


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


rateiramente levado pelo policial que subornara, viu que o artigo passara

sem que a censura mexesse em uma vírgula - e muito menos na assinatura

ou no "oco do mundo". Certo de que o carcereiro não entenderia sua letra

,

animou-se a mandar o artigo intitulado "Filipe de Oliveira e a revolução



paulista" , assinado com seu próprio nome e com a identificação precisa do

lugar em que se encontrava, sem recorrer a metáforas. Homenagem ao ami-

go que falecera em fevereiro daquele ano, quando dirigia o Diário de Pernam-

buco, o artigo era claríssimo quanto à sua condição de preso político:


São Paulo - Presídio da Liberdade, 9 de julho de 1933 - Escrevo estas linhas

descosidas sobre Filipe de Oliveira a 9 de julho, na prisão da Liberdade. Não

posso deixar de reconhecer tanta gentileza da ditadura. Concedeu-me a graça

de um ameno porão, onde devo comemorar a vitória da Revolução Constitu-

cionalista. As prisões políticas de São Paulo designam-se por nomes amáveis.

Chamam-se uma, a Liberdade, e outra, o Paraíso.

Estou recolhido ao presídio da Liberdade e, por ironia do destino, quando o

delegado de Ordem Política e Social (homem civilizado, diga-se entre parênte-

ses) perguntou ao chefe da censura por ordem de quem eu marchava para a "Li-

berdade ", o bruto respondeu secamente: "Por ordem dos Campos Elísios".

Assim é, pois, que me encontro na "Liberdade" por ordem dos "Campos Elí-

sios". É um sortimento completo de urbanidade, ornamentado com galas do céu

e com o festão mais garrido da vida, que é a liberdade. Comemoro São Paulo,

Filipe e o 9 de Julho de uma maneira perfeitamente cívica e elísia.


Nada feito. Inteiramente vetado, o artigo só sairia publicado (com a ad-

vertência de que havia sido escrito naquela data e circunstâncias) muitos

meses depois, no aniversário da morte de Filipe, quando o país vivia de

novo sob a democracia e a censura havia sido abolida. Curiosamente, nos

seis dias seguintes em que esteve preso, diariamente o carcereiro levava ao

Diário um novo artigo do "Visconde de Castellomelhor ", que passava pelos

censores sem qualquer problema, pois não fazia menção, no alto, à proce-

dência. Debochado, tão logo foi colocado em liberdade Chateaubriand escre-

veu um artigo agradecendo a colaboração de "Castellomelhor" :

Volto agora a ocupar a seção de que tão criteriosamente se desempenhou, du-

rante a minha curta ausência, o meu venerando amigo Visconde de Castellome-

lhor. Apresento a esse fidalgo paulista todas as escusas pela situação subalterna

em que ele voluntariamente se coloca, toda vez que me afasto de São Paulo e do

círculo de amigos a quem me ligam tantos laços de coração e de amizade. Não

é o Visconde de Castellomelhor apenas um escritor probo, sensato, de boa lei e

do mais rijo cerne bandeirante. Ele é ainda de uma modéstia sem par. Desde o

dia em que cheguei a São Paulo, há sete meses, consagrou-se à tarefa da substi-

tuição temporária do autor desta coluna [...). Diz o Visconde que não deseja ser

mais do que um primeiro suplente do redator do Diário.
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FERNANDO MORAIS


Muito tempo depois o jornalista Rubem Braga ficaria intrigado com a

presença na redação de um funcionário que chegava todos os dias à mesma

hora, deixava seu paletó pendurado na cadeira, lia jornais, saía e voltava no

final da tarde para retirar o paletó e ir embora, sem jamais escrever uma só

linha. Apesar de nunca fazer nada, o misterioso personagem estava religio-

samente às sextas-feiras na fila do caixa para receber o salário semanal-

mais alto do que o da maioria do pessoal da redação. Curioso, Braga não re-

sistiu e acabou perguntando ao sujeito o que era exatamente que ele fazia no

jornal. A resposta não poderia ser mais honesta:

- Nada. Eu não faço nada aqui, só recebo meu salário. Eu sou o carce-

reiro que vinha trazer os artigos do doutor Assis quando ele estava preso na

Liberdade.

Foi nessa época de censura rigorosa que Chateaubriand inventou um

personagem fictício para assinar as notas em que ele baixava demais o nível,

agredindo os adversários com vulgaridade e virulência tão grande que até

ele próprio se constrangia de assinar com seu verdadeiro nome. Era o "Ma-

caco Elétrico", inspirado no apelido depreciativo de um telefonista negro e

( desdentado da redação paulista. O personagem (que às vezes incluía a qua-

lificação "Antiliberal e católico" depois do nome) ficaria tão conhecido que

Chateaubriand decidiu continuar usando-o mesmo depois do fim da censu-

ra, toda vez que a agressão era baixa demais.

De qualquer forma, antes que o ano terminasse ele ainda desfrutaria

mais alguns dias de "turismo carcerário" por causa de seus escritos insolen-

tes. Uma vez mais Chateaubriand seria preso pela polícia de Filinto

Müller,

quando repetiu a proeza anterior de deixar São Paulo rumo ao Rio sem sub-



meter-se à liturgia de pedir autorização ao interventor. Apanhado na casa de

um amigo, passou dois dias na 4- Delegacia Auxiliar (onde funcionava o De-

partamento de Ordem Política). Meses depois seria levado a purgar mais

uma semana no presídio do Paraíso, em São Paulo, por causa de artigos

ofensivos ao governo que, embora submetidos à censura, tinham sido publi-

cados por descuido. Desta vez, até que a polícia conseguisse pôr as mãos

nele, Chateaubriand passou uma semana escondido no haras do conde Síl-

vio Penteado, nas imediações de Osasco. Certo de que a polícia tinha esque-

cido a ofensa, tentou voltar à redação - e foi preso na porta do jornal.

Apesar de empenhado em pôr de pé de novo suas empresas, equilibran-

do-se entre os tenentes e a falta de dinheiro, ele conseguia arranjar tempo em

seu confinamento paulista para iniciativas que nada tinham a ver com seus

negócios, mas demonstravam seu interesse insaciável, onívoro e multiface-

tado. No início do ano ele se juntara a Roberto Simonsen e a José de Alcân-

tara Machado para fundar a Escola de Sociologia e Política do Estado de São

Paulo. O problema principal era dinheiro, e, embora Simonsen tivesse tira-

do de seu próprio bolso 170 contos de réis para doar à instituição que nas-
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CHATÔ, O REI DO BRASIL


cia, esses recursos ainda eram insuficientes. Quando foi convocado, Chateau-

briand pôs sua alavanca para funcionar: em menos de um mês tinha toma-

do mais de cem contos, divididos em cotas doadas pelos condes Sílvio Pen-

teado e Modesto Leal, por Samuel Ribeiro e por Guilherme Guinle. Até

PercivaL Farquhar autorizou suas empresas no Brasil a entrar com dez con-

tos de réis. Em alguns casos, arranjar os recursos não foi tarefa fácil. Para

convencer o conde Modesto Leal - que vivia de emprestar dinheiro a juros

- a doar vinte contos, ele teve de pedir a Virgílio de Melo Franco que expli-

casse ao miliardário lusitano o que significava a palavra "sociologia" e teve

de inventar, por sua própria conta, uma sinuosa história sobre a importân-

cia da sociologia na luta contra o comunismo. Os jornalistas Cásper Líbero,

Otaviano Alves de Lima e Júlio de Mesquita Filho (respectivamente em

nome da Gazeta, da Folha da Manhã e do Estado) entraram com mais quinze

contos. Quando a escola foi afinal fundada, em maio de 1933, embora Cha-

teaubriand fosse um de seus grandes animadores e fizesse parte de seu pri-

meiro conselho, de seu bolso mesmo só tinham saído minguados cinco con-

tos de réis.
Uma tarde Chateaubriand chegava ao jornal para trabalhar e, ao tomar

o elevador do velho prédio dos Associados no vale do Anhangabaú, fica hip-

notizado pela beleza de uma mocinha, ainda adolescente, que era levada

pela mão por outra mulher, bem mais velha, que parecia ser sua mãe ou avó.

Sobe até sua sala de trabalho sem desgrudar o olho da menina, e imediata-

mente mobiliza a todos para saber em que andar as duas tinham descido e o

que tinham ido fazer no seu jornal. Minutos depois chegava a informação

completa. A mulher mais velha era Cláudia Montenegro, galega que viera de

Buenos Aires para cantar zarzuelas e operetas espanholas em boates de se-

gunda categoria em São Paulo. A menina cuja beleza o deixara embriagado

era Cora Acuna, de quinze anos, neta de Cláudia e atriz iniciante que já fize-

ra sucesso em dois filmes nacionais, O caçador de esmeraldas e Coisas nossas. A

avó tinha ido ao jornal para agradecer a cobertura que a seção de espetácu-

los tinha dado para uma apresentação sua num teatro de São Paulo.

Chateaubriand parecia tomado pelo demônio. Colocou repórteres na

rua para descobrir, com a maior urgência, onde a menina morava. Tanto

Cláudia como sua irmã Maria Montenegro (e a filha desta, Zulema) viviam

com a órfã Cora numa modestíssima pensão na rua Santa Ifigênia, do outro

lado do centro da cidade. Aos 41 anos, pouco importava a Chateaubriand

que sua idade fosse suficiente para ser pái (alguns anos mais e poderia ser

até avô) da menina que o enfeitiçara. Mandou comprar uma enorme e carís-

sima corbelha de orquídeas, que remeteu com um delicado cartão para a

pensão onde viviam as Montenegro, a pretexto de colocar as páginas dos As-
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FERNANDO MORAIS


sociados paulistas à disposição da tãu jovem atriz. Mais um dia e chegava à

portaria da pensão - certamente pela primeira vez em toda a história da-

quela humilde casa de cômodos - um funcionário dos Associados com uma

caixa de champanhe francesa Cristal endereçada à moça.

Menos de dois dias depois de Chateaubriand ter visto Cora pela primei-

ra vez, na noite seguinte seu reluzente Dupont de bancos giratórios deixou

sem fala os hóspedes da pensão ao recolher avó e neta para um jantar à luz

de velas com o jornalista no elegante restaurante instalado nos altos da loja

inglesa Mappin & Webb. No Rio, sem que ninguém lhe tivesse revelado

nada, Dario de Almeida Magalhães desconfiou que alguma coisa deveria es-

tar se passando entre o patrão e aquela adolescente - tal era a quantidade

de ordens para dar, com todo destaque, fotos e notícias da quase desconhe-

cida atriz Cora - ou Corita, como era conhecida - Acuna. Como as notí-

cias eram transmitidas por telefone, muitas vezes o nome dela sairia grafa-

do nos jornais do Rio como Cora "Cunha".

Nada disso, porém, tinha qualquer importância. A única coisa que im-

portava é que Corita estava correspondendo à louca paixão de que Cha-

teaubriand tinha sido tomado. Depois de ter obtido - sabe-se lá como-

autorização da avó para saírem sozinhos à noite, os dois começaram a vi-

ver um tórrido romance. Semanas depois de conhecer Corita, Chateau-

briand alugou um casarão de três andares na avenida Brigadeiro Luís An-

tônio, no elegante Jardim Paulista, onde passou a viver com a menina-

que naturalmente carregou consigo o que o jornalista chamava de "o con-

sulado espanhol": a avó, a tia-avó e a filha desta, Zulema. Para os inimigos

de Chateaubriand, o que tinha havido não era a consumação de uma pai-

xão, mas uma operação comercial, pela qual o jornalista tinha "comprado"

a neta da avó.

Fosse pela diferença de idade, fosse pela deslumbrante beleza da nova

mulher, Chateaubriand alimentava por Corita um ciúme patológico. Quan-

do não estava em casa ou em companhia da avó, Corita era forçada a ir para

os Associados, e lá passava as tardes plantada na sala e sob o olhar vigilan-

te do marido. Numa dessas ocasiões o repórter Rubem Braga foi chamado à

sala do patrão. Entrou e deparou com aquela mulher fascinante sentada num

sofá. De cabeça baixa, Chateaubriand escrevia com sofreguidão, a lápis, o ar-

tigo do dia seguinte, aparentemente sem se dar conta de que o repórter esta-

va à sua frente. De pé, o discreto Braga arriscava um rabo de olho para a

beldade, naturalmente sem saber de quem se tratava. Sem erguer a cabeça,

Chateaubriand acabou com a festa platônica do repórter:

- Pode desistir, seu Braga, pode desistir. Isto é mulher cara, não é mu-

lher pro seu salário, não...

Ao sair da sala Rubem Braga deu telefonemas, fez algumas investiga-

ções, juntou fatos e descobriu que, indiretamente e sem sabê-lo, tinha contri-


324

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FERNANDO MORAIS


buído para a concretização do romance do patrão com a linda mocinha que

acabara de conhecer. Semanas antes ele tinha sido encarregado por Chateau-

briand de fazer uma reportagem elogiando um condomínio residencial que

estava sendo construído nos arredores de São Paulo pelo dono da Casa Go-

dinho, tradicional importadora de bebidas e alimentos. Só então é que en-

tendeu que, em mais um dos incontáveis atropelos à ética jornalística que

Chateaubriand cometeria, a reportagem encomendada pelo patrão era o pa-

gamento não de uma, mas de mais de vinte caixas de champanhe francesa

despachadas pela Casa Godinho para a pensão de Corita como parte da cor-

te que o jornalista lhe fazia.


Por incompetência da polícia, ou porque a iminência da instalação da

Constituinte obrigasse a ditadura a afrouxar um pouco seus cordéis, a ver-

dade é que, naquele ano de 1933, Chateaubriand ainda faria uma viagem

ao Rio - sem pedir salvo-conduto a ninguém, e desta vez sem ser impor-

tunado. Na capital federal foi convidado para um almoço solene na casa

de Drault Ernanny, que começava a se transformar em um próspero in-

dustrial. O amigo médico tinha acabado de montar uma sociedade com

Alfredo Dolabella Portella e um grupo de industriais alemães, recém-che-

gados da Europa a bordo do dirigível de Zeppelin, para juntos implanta-

rem uma fábrica de cimento na Paraíba. Para o almoço que festejava a

montagem da sociedade tinham sido convidados também, além dos ale-

mães e de Chateaubriand, o industrial paulista Horácio Lafer e o interven-

tor na Paraíba, Gratuliano de Brito. Presidindo o encontro, à cabeceira da

mesa, a matriar ca mineira Lídia Chagas, avó de Míriam, a mulher com

quem Ernanny acabara de se casar. A certa altura do almoço um criado

avisa a Chateaubriand que alguém o chamava ao telefone. O jornalista se

levanta, passa alguns instantes no aparelho e retorna à mesa com ar de

desdém:

- Não era nada de especial. Apenas me informam que esse velho idio-



ta, esse senil infeliz que era interventor em Minas, Olegário Maciel, acaba

de morrer. Já vai tarde, já estava devendo sua alma a Deus fazia muito

tempo.

Usar aquelas palavras para se referir a um morto (ainda que o morto o



tivesse colocado na cadeia meses antes) causou enorme mal-estar entre os

convivas. Para tentar dissolver o gelo, Chateaubriand vira-se para a ocupan-

te da cabeceira da mesa:

- Dona Lídia, a uma dama com todo esse aplomb, com tanta energia,

não será deselegante perguntar a idade, não?

Era a oportunidade que Lídia Chagas esperava para se vingar:

- Eu sou vinte dias mais velha que o Olegário Maciel..
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CHATÔ, O REI DO BRASIL


Ele não perdeu a graça. Levantou-se, beijou-lhe as mãos e gargalhou:

- Só mesmo uma grande dama como a senhora sabe esperar a hora cer-

ta para dar o tiro.

Chateaubriand não sabia, mas a morte que dera origem àquela gafe se-

ria também, indiretamente, a responsável pela definitiva normalização de

seus negócios. O sucessor natural de Olegário Maciel na interventoria minei-

ra, com amplo apoio dos tenentes e do ministro Osvaldo Aranha, era Virgí-

lio de Melo Franco - o avalista do acordo feito entre Chateaubriand e o go-

verno, por meio do qual o jornalista, apesar de perder O Jornal, escapou do

exílio. Virgílio era o responsável junto a Vargas não só pelo cumprimento do

acordo, por parte de Chateaubriand, mas também pela orientação política

dos Associados mineiros, entregues a seu irmão Afonso Arinos. Mas as se-

manas foram se passando e nada de Vargas nomeá-lo. O interventor interi-

no, Gustavo Capanema, acabou virando candidato efetivo ao cargo, o que

gerou um impasse: se Getúlio mantivesse Capanema, bateria de frente com

os tenentes. Se convidasse Virgílio para o posto, reforçaria demais as preten-

sões presidenciais de Osvaldo Aranha, de olho nas eleições que inevitavel-

mente seriam feitas em 1938. No meio da disputa surda, Getúlio surpreende

a todos e tira do bolso do colete o nome de um obscuro tertius para o Palá-

cio da Liberdade: o advogado Benedito Valadares, ex-prefeito da pequena

Pará de Minas, no interior do estado. A nomeação desabou como uma bom-

ba sobre o meio político, mas seus estilhaços se concentrariam sobre a famí-

lia Melo Franco.

Indignado com o que julgava uma desconsideração de Vargas com o ir-

mão e com a família, o caçula dos Melo Franco, Afonso Arinos, escreveu um

duríssimo artigo contra o governo para publicar no Estado de Minas - no

qual afirmava que só havia um caminho tanto para o pai, Afrânio de Melo

Franco, ministro das Relações Exteriores, quanto para Osvaldo Aranha (mi-

nistro da Fazenda e defensor da nomeação de Virgílio): deixar o governo

imediatamente. O que parecia ter sido uma jogada de mestre de Getúlio co-

meçava a se desenhar como uma crise de bom tamanho. De São Paulo, Cha-

teaubriand farejou que ali estava a ponta do novelo que Poderia trazer-lhe

de volta O Jornal. Soube, por telefone, do teor do artigo de Afonso Arinos

(antes mesmo que ele fosse composto nas oficinas de Belo Horizonte), mas

ficou constrangido de pedir ao autor para lê-lo antes da publicação. Entre-

tanto, como sabia que a Agência Meridional era a primeira a receber os arti-

gos para redistribuí-los entre os outros órgãos Associados, Chateaubriand

telefonou para o Rio e pediu que Jaime de Barros lesse para ele a cópia re-

cém-chegada de Belo Horizonte. Mais uma vez ia valer o seu surrado refrão:

quem quisesse ter opinião que comprasse um jornal. Nos Associados só o

dono tinha opinião. Ao final da leitura, disse apenas duas palavras:

- Está proibido.


327

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FERNANDO MORAIS


O diretor da Meridional não entendeu:

- Mas, proibido como, doutor Assis? A censura ainda não leu o artigo,

ele não pode estar proibido.

- Proibido por mim, seu Jaime. Proibido por mim. Pode avisar ao Afon-

so Arinos em Belo Horizonte que o artigo foi proibido por mim.

Fazendo ligações telefônicas como um alucinado, Chateaubriand conse-

guiu mobilizar, no Rio, além de alguns ministros amigos, o ex-sogro Zózimo

Barrozo do Amaral (que, com suas boas relações com o governo, tinha con-

seguido manter aberto durante todo o tempo o Diário da Noite carioca) e seus

diretores Gabriel Bernardes e Dario de Almeida Magalhães. De Belo Hori-

zonte alguém acabara de ligar dizendo que, ao ouvir a ordem de censura

dada pelo patrão, Afonso Arinos teve um rompante e pediu demissão do

cargo de diretor dos Associados mineiros. No Rio, tanto Osvaldo Aranha

quanto Afrânio de Melo Franco também tinham se demitido do ministério

em protesto contra a nomeação de Valadares (depois Aranha voltaria atrás,

mas Afrânio não retornaria ao governo). Chateaubriand revelou a Barrozo

do Amaral, Bernardes e Magalhães uma idéia fixa que o perseguia: ele que-

ria aproveitar aquele torvelinho político para recuperar O Jornal. Como ma-

nifestação de espírito desarmado, mandou comunicar em seguida ao presi-

dente que proibira o artigo ofensivo mesmo sabendo que aquilo iria custar a

saída de Afonso Arinos nos jornais. O portador da notícia disse mais a Ge-

túlio: Chateaubriand entendia que o rompimento dos Melo Franco com o go-

verno provisório tornava sem efeito o acordo político celebrado entre os As-

sociados e o presidente. Se os avalistas do armistício tinham rompido com o

governo, o acordo estava automaticamente desfeito, e voltava tudo a ser

como era antes. Ou seja, o que o jornalista esperava agora, como um gesto

de Vargas, era que ele mandasse João Alberto fechar o espúrio A Nação e de-

volver-lhe O Jornal, com máquinas, prédio e tudo o mais que lhe fora tirado.

Como fazer isso? O governo que se entendesse com seu testa-de-ferro José

Soares Maciel Filho.

Com a abertura política a caminho, Getúlio achou que aquele poderia

ser um passo interessante no processo de degelo, e mandou fazer a Chateau-

briand uma contraproposta com quatro pontos:

1) O Jornal seria autorizado a voltar a circular, mas teria de ser impres-

so nas velhas oficinas da rua Rodrigo Silva. A Nação continuaria existindo,

sempre sob a orientação de João Alberto, e a questão da propriedade da grá-

fica seria decidida pela Justiça, onde corria um processo de reintegração de

posse dos equipamentos, movido por Chateaubriand.

2) O diretor de O Jornal teria que ser Zózimo Barrozo do Amaral, e não

o próprio Chateaubriand.

3) A aceitação daquele compromisso teria de ser feita por escrito, assi-

nada por Barrozo do Amaral ou por Gabriel Bernardes, em documento que


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


ficaria depositado nas mãos de um advogado neutro (o nome sugerido pelo

governo era o de Alberto Faria Filho). As ações do jornal, que naquele mo-

mento pertenciam a Maciel Filho, voltariam às mãos de Chateaubriand, mas

ficariam caucionadas ao documento em que se celebrava o novo acordo.

4) Se Chateaubriand concordasse com aquelas condições, seu confina-

mento em São Paulo chegaria ao fim, e ele poderia mudar-se para onde bem

entendesse - inclusive o Rio.

Ao ouvir de Gabriel Bernardes os termos da proposta, em São Paulo,

Chateaubriand gargalhava:

- Doutor Bernardes, esse acordo não salva só O Jornal. Estamos recu-

perando também os Associados de Minas, que Virgílio Melo Franco estava

se preparando para devorar. Eu já havia me aliado ao Virgílio contra o dita-

dor, agora eu me alio a esse satanás que é Getúlio Vargas contra o Virgílio.

No dia em que eu escrever a história dos Diários Associados, terei que man-

dar sata nás baixar à terra para contar os acordos que fiz com ele para sobre-

viver. Pode assinar o protocolo, doutor Bernardes, que nós estamos salvos!

Para terminar, fez uma afirmação que surpreendeu Bernardes:

- Avise ao ditador que ele não está me fazendo nenhum favor, apenas

devolvendo o que é meu e foi roubado. E diga também que eu não quero pri-

vilégios: meu confinamento em São Paulo termina quando ele anistiar todos

os presos políticos e permitir que os exilados voltem.

Ao chegar ao casarão da Brigadeiro Luís Antônio à noite, entusiasmado

com a notícia de que estava começando a retomar seus jornais, Chateau-

briand foi recebido por Corita com outra grande novidade: naquele dia ela

descobrira que estava grávida.
b 329

20
Ninguém jamais ouviu uma palavra de Chateaubriand contra a decisão

de Corita de ter o filho. Nem a favor - o que já significava um enorme pro-

gresso para alguém como ele, célebre pela aversão pública que alimentava

pela sagrada instituição chamada família. Quem quer que convivesse por al-

gumas semanas com o jornalista, certamente teria a oportunidade de ouvi-lo

pronunciar uma de suas frases prediletas sobre o trinômio lar-esposa-fi-

lhos: "Aníbal só chegou até o Norte da Europa com sua tropa de elefantes

porque não tinha uma prole agarrada à barra de seu paletó"; ou "Você acha

que se Cristo tivesse mulher e filhos conseguiria criar uma religião que já

dura quase dois milênios ?" ou ainda: "Se Colombo fosse pai de onze filhos,

a América estaria até hoje entregue a botocudos, sioux e astecas - jamais te- 

ríamos sido descobertos". "César não conquistaria a Gália se tivesse que le-

var mudança... Você já imaginou alguém ajudando filho por filho a atraves-

sar o Rubicão?" "Família é uma instituição belíssima", arrematava sempre,

"desde que em forma de retrato, pendurada na parede." Assim, foi sem ne-

nhuma manifestação visível de amor ou de desgosto que ele recebeu, no dia

11 de abril de 1934, a notícia de que Corita tinha dado à luz, em casa, uma

linda menina, a quem deram o nome de Teresa. Como a conservadora legis-

lação da época impunha intermináveis obstáculos ao reconhecimento de fi-

lhos nascidos fora dos casamentos formais - e eles não eram casados -, a

garotinha foi registrada apenas como "Teresa Acunha, filha de Cora Acu-

nha" (assim mesmo, com o sobrenome aportuguesado pelo escrivão) e com

um espaço em branco no lugar destinado ao nome do pai.

Logo que Teresa nasceu, a família mudou-se para uma casa na rua Ca-

nadá, no igualmente elegante Jardim América - sempre arrastando consigo

o "consulado espanhol", agora acrescido da presença de Artez, um andaluz

que se casara com Zulema, tia de Corita. Mas também ali eles acabariam per-

manecendo por pouco tempo: com a decretação da anistia, Chateaubriand

decidiu afinal retornar ao Rio de Janeiro. Para não ter de pedir de volta a Vila

Normanda, emprestada a Dario de Almeida Magalhães, primeiro a família

morou em um apartamento do edifício Netúnia, na esquina da avenida Nos-

sa Senhora de Copacabana com a rua República do Peru (que na época se
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CHATÔ, O REI DO BRASIL


chamava rua Nove de Julho), e depois mudou-se para uma casa que Osval-

do Aranha alugou a Chateaubriand na Urca. Como quase sempre acontecia

na vida do jornalista, logo apareceu um agregado para viver com eles na

casa nova: desta vez era seu primo recém-importado de Recife, Leão Gon-

dim de Oliveira, que ele pusera como diretor de O Cruzeiro.

A situação das empresas começava a se acomodar, mas ainda havia pro-

blemas jurídicos a serem resolvidos em conseqüência da encrenca em que

Oscar Flues metera os Diários Associados. Em novembro do ano anterior,

como resultado do acordo político entre Getúlio e Chateaubriand, O Jornal

fora relançado com enorme estardalhaço, com anúncios de página inteira em

O Cruzeiro e páginas e mais páginas de cartas e telegramas de saudações pelo

"fim do esbulho " a que tinham sido submetidos. Só em meados do ano o juiz

Burle de Figueiredo concederia a Chateaubriand o mandado de reintegração

de posse - mas, ainda assim, apenas das máquinas. Maciel Filho (ou João

Alberto, ou quem quer que estivesse por trás dele) conseguiu que o luxuoso

prédio, que Chateaubriand construíra com tanta dedicação, permanecesse

como sua propriedade, como ressarcimento do que pagara pelos créditos

comprados a Flues. Uma interminável quizília jurídica ainda capengaria du-

rante onze anos pela burocracia forense até que os Associados conseguís-

sem, em 1945, reaver definitivamente o prédio da Treze de Maio.


Mas a garantia de que pelo menos a maquinaria voltaria a pertencer-

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FERNANDO MORAIS
lhes animou os verdadeiros donos a realizar o sonho que alimentavam ha-

via dois anos, desde meados de 1932: acertar as contas com Oscar Flues.

Apesar de terem ficado um ano privados de O Jornal e mais dois sem o mo-

derno equipamento confiscado, nem Chateaubriand nem seu buliçoso irmão

Oswaldo guardavam rancor maior de Getúlio, do capitão João Alberto ou

mesmo de Maciel Filho - este, então, era considerado por eles como um re-

les pau-mandado, um amarra-cachorro que apenas cumpria ordens supe-

riores. O desprezo não impedia os Associados de se referir ao capitão como

" esse estelionatário, falcatrueiro, flibusteiro, rei do pé-de-cabra e da gazua

que se chama João Alberto", nem de continuar sustentando polêmicas com

Maciel Filho. Mas o ódio armazenado e amadurecido minuto a minuto, dia-

a-dia, durante o exílio de Oswaldo e as prisões e a clandestinidade de Cha-

teaubriand, este estava reservado para Oscar Flues. Para os irmãos Chateau-

briand, Getúlio e João Alberto tinham feito um jogo político - sujo ou

limpo, não importava muito, mas estavam movidos por idéias. Até Maciel,

bem ou mal, servia a uma causa - fim que, de alguma maneira, acabaria por

absolvê-lo quando chegasse o dia do juízo final que Chateaubriand e Oswal-

do estavam se preparando para decretar. Mas Flues, não. O alemão fizera

um negócio pelo negócio, vendera a alma ao diabo apenas em troca do di-

nheiro de João Alberto. Por trás de seu gesto não havia um dedo de idealis-

mo, de interesse maior, mas apenas e exclusivamente o dinheiro, nada mais.

E gente como aquela não merecia perdão. Oscar Flues precisava ser castiga-

do de maneira exemplar, para que tal comportamento não se repetisse.

Se era assim que pensavam os irmãos Chateaubriand, a recíproca não

era a mesma. O negócio que dera origem a tanto ódio já tinha evaporado da

cabeça do industrial. Para Flues, agora posto em plácido sossego em São

Paulo, a venda das dívidas dos Associados a José Soares Maciel Filho tinha

sido apenas mais um dentre centenas de negócios no ramo da importação e

venda de máquinas gráficas. A venda dos créditos vencidos a Maciel Filho,

na realidade, apenas o livrara - claro, com algum ágio -, de um péssimo

negócio feito com os Chateaubriand. Quando surgiram os homens do gover-

no para fazer o primeiro contato em nome de Maciel, a única coisa que pas-

sou pela cabeça de Flues foi ver-se livre daquele amontoado de dívidas de

clientes que eram sabidamente maus pagadores, dívidas que ele havia per-

dido a esperança de receber. Para o industrial, negócios não eram contra ou

a favor de ninguém, eram apenas negócios, nada mais. Aceitar a oferta que

lhe faziam significava apenas ver-se livre de um mau negócio. Tanto assim

que ele jamais se preocupou em tomar qualquer precaução, seja com relação

a Oswaldo, que vivia em São Paulo, seja com Chateaubriand.

Mas conhecendo, como conhecia, a índole e os maus bofes dos irmãos

paraibanos, se lesse uma edição de julho de 1934 do Diário da Noite do Rio de
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CHATÔ, O REI DO BRASIL


janeiro (muito provavelmente impressa em rotativas importadas e vendidas

por ele), o industrial Oscar Flues teria motivos para se acautelar. Ali, ao no-

ticiar a expectativa em torno da decisão do juiz Burle de Figueiredo com re-

lação à ação de reintegração de posse das máquinas, o jornal historiava todo

o processo, e pela primeira vez Flues aparecia como cúmplice do "esbulho "

de O Jornal:


Valendo-se das circunstâncias eventualmente desfavoráveis em que se encon-

trava o matutino carioca, vencido com os paulistas no movimento constitucio-

nalista, com os seus diretores presos e ameaçados de desterro, associaram-se,

para assaltar as oficinas do órgão-chefe dos Diários Associados, o então chefe de

polícia do Distrito Federal e Oscar Flues - este seduzido pelo dinheiro com que

lhe acenavam, e aquele pela aspiração de possuir um jornal seu, que fosse o ba-

luarte de suas hoje fracassadas aspirações políticas. Usando de testas-de-ferro,

agentes serviçais dos mal-embuçados autores da trama, conseguiram os assal-

tantes um sucesso efêmero nas suas maquinações. Apoderaram-se, servindo-se

até da Polícia Militar, das oficinas de O Jornal, onde começou a ser impresso o

matutino A Nação, de propriedade e direção do capitão João Alberto.
Para bom entendedor, aquele parágrafo bastava. Mas Chateaubriand

deu ordens para que Oswaldo deixasse bem claras as intenções deles: o dono

dos Associados não pretendia fazer nada às escondidas, e queria tornar pú-

blico que "aplicaria um corretivo" no alemão. Rico e bem-posto na vida, vi-

vendo em um casarão no bairro de Santa Cecília, presidente da Câmara de

Comércio Brasil-Alemanha, membro da recém-fundada FIESP, a Federação

das Indústrias do Estado de São Paulo, e do Rotary Club de São Paulo, Os-

car Flues não dera maior importância ao negócio feito em 1932 com Maciel

Filho - o que o levaria a pensar que dele também já houvessem se esqueci-

do os irmãos Chateaubriand. Foi por isso que se assustou ao ler, na edição

de 4 de agosto de 1934 do Diário da Noite e do Diário de S. Paulo, um longo ar-

tigo de Oswaldo Chateaubriand intitulado "Um monturo que não é nosso".

O texto de Oswaldo, eivado, entre outras coisas, de traços de anti-semitismo,

publicado a pretexto de responder a um editorial de A Nação, dava o molde

do tratamento que os dois irmãos, a partir daquele episódio, dedicariam em

seus jornais a todos os inimigos e desafetos:


Não estava nos meus cálculos remexer ainda uma vez no tremedal d'A Nação. O

que era necessário era que se dissesse à luz do dia quem são os porcos que a di-

rigem. Ontem A Nação se apresenta como vítima, o capitão João Alberto como

uma espécie de lord protector, Maciel como uma pomba e o hebreu Oscar Flues

como um náufrago da própria generosidade, que se salvou por milagre nos des-

troços de outubro de 32. Vamos desempachar o caminho, com os recursos da

disciplina e do método, para que se veja afinal, nesse barulhento frigir de ovos,

quem tem roupa na mochila.


333

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FERNANDO MORAIS


Em 1928 Oscar Flues me aparecia na gerência do Diário da Noite propondo-

se a negociar com essa empresa. Eu não o conhecia, de nome nem de vista. Des-

cobri-lhe na fisionomia traços semitas dissimulados, mas acabei fechando com

ele a compra de seis máquinas Intertype, que foram pagas e hoje pertencem ao

Diário da Noite. Nessas não puderam avançar João Alberto, Maciel e Oscar

Flues. Em 1929, quando O Jornal pretendeu adquirir uma rotativa e estava em

entendimentos com a Graphika, de Berlim, Oscar Flues foi ao Rio, encroou na

gerência de O Jornal, por esse tempo ao meu cargo, grudou-se como uma ostra,

instalou-se no mesmo hotel em que eu me encontrava e não nos largou, como

uma pulga em sítios incômodos, até o dia em que se consumou o negócio da ro-

tativa. Devo dizer que ao sr. Assis Chateaubriand a pessoa do sr. Oscar Flues

sempre inspirou, em todos os tempos, uma instintiva repugnância. O diretor de

O Jornal via nas fuças desse rufião como que uma espécie de secreta advertên-

cia que ele não sabia de onde vinha, mas que depois se verificou que era proce-

dente. Estávamos, sem saber, às voltas com um molambo humano, a quem a po-

lícia alemã já havia imposto muitas vezes os castigos ultrajantes aos que se

dedicam ao ofício da cafetinagem.

Feito o contrato, recebia Oscar Flues 2 mil libras de entrada, devendo receber

outro tanto quando as máquinas chegassem ao Rio de Janeiro. Embolsou por

esse tempo outra prestação, recebeu, como era do negócio, máquinas usadas de

O Jornal e meteu nas algibeiras, enfim, até outubro de 1932, e por conta desse

contrato, uma cifra que não se distancia muito de mil contos de réis. Ainda nes-

se mesmo mês de outubro, quando Oscar Flues já havia clandestinamente ven-

dido as máquinas de O Jornal a João Alberto, recebia do sr. Assis Chateaubriand

a soma de vinte contos de réis, dinheiro que estava ele conseqüentemente rou-

bando, com o mesmo ar que alugava na sua terra uma hora de prazer de uma

de suas desgraçadas que formavam o seu lúgubre rebanho.

[...] Vamos arrematar esta suave confabulação com mais algumas linhas sobre

Oscar Flues, a fim de que outros incautos não venham a cair nas malhas desse

salteador de estrada. Somente depois desse assalto que ele perpetrou contra os

proprietários de O Jornal, de parceria com o capitão João Alberto e Maciel, é que

eu vim a saber, pelo depoimento de dois alemães, destituídos de qualquer idéia

facciosa, quem é o chefe da firma Oscar Flues & Cia. Praticava na Alemanha,

quando moço e solteiro, nada menos que o ofício da cafetinagem. Perseguido te-

nazmente pela polícia alemã, rolando pelas cadeias como um bagaço podre, re-

solveu esse monturo humano eleger o Brasil, que tem recebido tanta vasa de ou-

tras terras, para teatro de seus delitos, embora de outro gênero. Contam esses

mesmos alemães, sobre cujo nome estou no dever de silenciar, que a ficha poli-

cial de Oscar Flues desaparecera na revolução de 18, entre chamas criminosas,

no meio das de outros milhares de facínoras.

Cripto-judeu, com 200% de sangue semita, negou a raça e brada em todos os

cantos que é nazista. Cáften com tradição policial, e gatuno por imperativos da

própria natureza, foi dessa esterqueira que se serviu a escória do outubrismo

para fundar um jornal que é apenas um charco. Não se suponha, entretanto, que

Oscar Flues recolherá em doce paz o prêmio da vilania.
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CHATÔ, O REI DO BRASIL


Oswaldo Chateaubriand encerra seu petardo sem deixar dúvidas de

que a família pretendia mesmo "exemplar " o industrial que se atrevera a en-

frentá-los:
Uma noite, à moda do Nordeste, reunimo-nos eu e meus três irmãos para exa-

minar o caso de Oscar Flues. Coube a exposição ao diretor de O Jornal, que

era a vítima imediata do atentado. E juramos e resolvemos nós quatro liquidar

a chicote, por via de surras científicas, aplicadas com os rigores do método, a in-

fâmia desse ladrão. Serão tantas tundas quantas bastem, que virão a seu tempo,

até que se devolva à Alemanha, ou pelo menos que se expurgue do Rio e de São

Paulo esse lixo que não é nosso. É a forma primitiva de justiça que vive no co-

ração de todo nordestino e a única compatível com determinadas misérias.


Aterrorizado com o tom do artigo e com as ameaças nele contidas,

Flues recorreu ao consulado alemão para que pedisse proteção à polícia-

que, pelo menos no papel, lhe foi assegurada pelo delegado Cristiano Alten-

felder. Além disso, escreveu uma carta a Armando de Arruda Pereira, presi-

dente do Rotary Club de São Paulo, solicitando-lhe que destacasse "uma co-

missão de sócios para examinar a contabilidade de Oscar Flues & Cia.".

Longe de pretender se imiscuir naquela encrenca, o Rotary fugiu pela tan-

gente, alegando que se tratava "de assunto de natureza privada, que escapa

às nossas finalidades e atribuições". Quem logo saiu em defesa de Flues foi

josé Soares Maciel Filho. Em um artigo de tons tão racistas quanto o de Os-

waldo, publicado em A Nação, ele insistiu em que os Associados estavam

usando desde 1930 máquinas no valor de quinhentos contos de réis, pelas

quais haviam pago apenas cinqüenta:

O que o sr. Oswaldo Chateaubriand chama de miséria é cobrar o que ele deve.

Depois disso não é necessário mais perguntar por que em São Paulo se tem hor-

ror aos nordestinos. Não precisa dizer mais nada para justificar a irritação do

povo paulista contra seus irmãos do Norte. O paulista não sai de São Paulo a

não ser para o Rio ou para a Europa. Conhece, portanto, os seus irmãos brasilei-

ros, pelas amostras que lá chegam. Compete, portanto, ao Nordeste, policiar sua

emigração.


Ainda assombrado com o que lera a seu próprio respeito, não restou a

Oscar Flues senão usar a mesma arma de Oswaldo Chateaubriand, a palavra

escrita. Comprou meia página do jornal O Estado de S. Paulo do dia 7 de agos-

to, onde publicou um extenso e polido relatório sob o título "Oscar Flues, à

praça e aos seus amigos". Sem recorrer à linguagem ou às agressões de que

fora vítima, Flues faz um inventário de todos os seus negócios com os Asso-

ciados para resumir: que entre prestações não pagas ou atrasadas, Chateau-

briand lhe devia, em outubro de 1932, alguma coisa equivalente a 1 milhão

de dólares, quase quatro vezes o capital de sua empresa; que os atrasos che-

garam a 23 meses, e durante todo esse período ele tentou, em vão, receber

pelo menos parte da dívida dos jornais; que estranhava que em 1932 Oswal-

335


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FERNANDO MORAIS
do Chateaubriand não tivesse vindo a público tratar do assunto e só agora,

passados dois anos, é que se decidia a abrir a campanha contra ele; que no

período os Associados tinham usado, a custo zero, equipamentos no valor

de 3 mil contos de réis; que tinha solicitado ao Rotary Club uma auditoria

em sua contabilidade, para comprovar a veracidade do que dizia; que esta-

va estabelecido em São Paulo desde 1911, provavelmente "há mais tempo

que o sr. Oswaldo Chateaubriand". O memorial de Flues concluía com uma

breve referência às ameaças que Oswaldo lhe fizera:

Noticia finalmente o sr. Chateaubriand que serei agredido, por ele e seus três ir-

mãos. Asseguro que me defenderei o melhor que possa. De nada me arreceio. A

minha consciência está tranqüila, e o público já tem elementos para julgar o pro-

cedimento de todos nós e decidir essa contenda. Não voltarei ao assunto.

São Paulo, 5 de agosto de 1934
Oscar Flues
Se Flues não voltaria ao assunto, Oswaldo Chateaubriand voltou, para

responder com virulência ainda maior ao anúncio do industrial e renovar as

ameaças:
Estranha esse prostituto semita que em novembro de 32, época da gatunice que

ora se comenta, eu não houvesse vindo a público examinar e debater esse nefan-

do atentado dos detritos do outubrismo. Finge que não se lembra o ratazana que

exatamente em novembro eu me encontrava deportado (e me afirmam que a pe-

dido dele a João Alberto) e foragido o sr. Assis Chateaubriand, que por um triz

não seguiu rumo ao Japão, atropelado pela polícia carioca, até que conseguiu

bater com os costados em São Paulo, onde o garantiu generosamente o interven-

tor Valdomiro contra a sanha do trio João Alberto, Maciel e Oscar Flues. Consi-

dere-se ainda que comigo estavam exilados mais oito companheiros dos

Diários Associados e tudo isso para que, garantidos pela polícia, campeassem li-

vremente no Rio de Janeiro, à tripa forra, os dois mastins que João Alberto aca-

bava de incorporar à glória sinistra do outubrismo.

O quadro atualmente é este: o capitão João Alberto proprietário de um jornal

que não lhe custou uma hora de trabalho ou um pingo de suor; Maciel batendo

carteira em nome dos brios de São Paulo; e o judeu Oscar Flues, de pança farta

e pêlo liso, com os bolsos cheios de um dinheiro que ele roubou, mas que não o

gozará impunemente. Cínico, apela para o Rotary Club, como se estivesse na fi-

nalidade desse grêmio acolher almas como essas de macquerot, expelidas do fun-

do das podridões humanas.

Meditamos o bastante e chegamos à conclusão de que nenhuma lei humana

ou divina daria guarida à veleidade desse larápio. Teremos que mandar escová-

lo devidamente, pois seria escandaloso e anticristão termos contato direto com

esse porco, até que ele vomite boa parte da fortuna que nos roubou ou desinfe-

te o Brasil. Devo, a propósito, acrescentar que, antes de deliberarmos a coça nes-

se israelita oportunista do nazismo, recorremos aos meios suasórios para efeito

de um justo reembolso. Emperrou. Sua alma, sua palma. E por isso mesmo o

pau lhe cantará no lombo.

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#
CHATÔ, O REI DO BRASIL
Aparentemente temeroso de parecer anti-semita demais, Oswaldo ain-

da se lembraria de colocar um post-scriptum no artigo, que na verdade aca-

bou soando como uma dose adicional de preconceito. "Quando me refiro à

qualidade de israelita de Oscar Flues não tenho em vista depreciar a raça",

escreveu ao final, "mas apenas acentuar que seu safadismo chegou ao pon-

to de negar o próprio sangue." O recurso ao preconceito se somava à pouca

preocupação com os fatos, inclusive quanto ao passado de Flues: além do in-

verossímil "depoimento de dois alemães", era muito pouco provável que al-

guém com menos de vinte anos (idade que Flues tinha quando deixou a Ale-

manha) pudesse ser o rufião tão perigoso e "perseguido tenazmente pela

polícia alemã" que Oswaldo pintara no jornal.

Mas nem isso deveria surpreender. Se era um leitor freqüente dos Asso-

ciados, Flues devia saber que vinha se tornando um hábito dos irmãos Cha-

teaubriand, em meio às polêmicas com seus adversários, não medir palavras

para ofender e insultar a vítima. E, quando as informações sobre o infeliz

chegavam ao fim, eles recorriam à imaginação, à mentira pura e simples. Um

episódio assim tinha ocorrido meses antes, quando Rubem Braga ainda tra-

balhava nos jornais de Minas Gerais. Irreverente e anticlerical, em plena Sex-

ta-Feira da Paixão Braga escrevera um artigo considerado desrespeitoso à fi-

gura de Nossa Senhora de Lourdes, a padroeira de Belo Horizonte. A Igreja

mineira, que tinha planos de criar um jornal para combater os Associados lo-

cais (o que acabaria acontecendo em 1935, com o lançamento de O Diário,

que ficou conhecido como "Diário católico"), entendeu que a provocação fei-

ta por Braga era o pretexto de que precisava para abrir guerra contra Cha-

teaubriand. O arcebispo metropolitano de Belo Horizonte, d. Antônio dos

Santos Cabral, tomou a briga a peito, pessoalmente. Deu ordens para que to-

dos os padres, até nas mais remotas paróquias do sertão mineiro, dedicas-

sem suas prédicas e sermões dominicais ao trabalho de demolição do Estado

de Minas e do Diário da Tarde. A orientação era uma só: um bom católico não

podia ler jornais que faltavam com o respeito à Virgem Maria. Mineiro e co-

nhecedor das tradições conservadoras de seu estado, Dario de Almeida Ma-

galhães procurou Chateaubriand para fazê-lo ver que, se não fosse contido a

tempo, d. Cabral podia causar um estrago de proporções consideráveis en-

tre os leitores, assinantes e anunciantes dos jornais. O que ele propunha era

um acordo que amansasse o bispo - por exemplo, transferir Rubem Braga

para o Rio ou para São Paulo. Chateaubriand discordou, disse que seria uma

humilhação submeter-se àquele "padre desaforado". Dario quase desabou

ao ouvir o patrão, sapateando e vociferando, propor a sua solução para o

conflito:

- Se esse filho da puta continuar com essa conversa fiada, vou escrever

um artigo nos jornais dizendo que sei a história dele. Vou dizer que ele es-

tuprou a própria irmã.


337

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CHATÔ, O REI DO BRASIL


Chateaubriand não conhecia d. Antônio dos Santos Cabral e não sabia

sequer se ele tinha irmãs, mas Magalhães conhecia Chateaubriand muito

bem e sabia que, se não fosse contido a tempo, ele sem nenhuma dúvida te-

ria cumprido a ameaça - e o bispo que se arranjasse para desmenti-lo. Para

felicidade geral acabaria prevalecendo a mineiríssima prudência de Maga-

lhães: depois de envolver o Itamaraty e o núncio apostólico Enrico Gasparri

(que aparentemente se convenceram de que por trás da ira santa do bispo es-

tava oculto um projeto jornalístico), os Associados ofereceram como desa-

gravo a d. Cabral a cabeça de Rubem Braga, para quem não poderia ter ha-

vido solução melhor. Há muito tempo querendo deixar Belo Horizonte, o

jornalista capixaba transferiu-se de bom grado para o Diário da Noite, em São

Paulo.


Se com o prelado mineiro foi possível chegar a um acordo antes que a

situação se agravasse, no episódio de Flues não havia suficiente habilidade 

mineira para conter os irmãos paraibanos. Na cabeça deles, a vingança tinha

de ser exemplar. Para Assis Chateaubriand, a áspera polêmica que o irmão

mantinha em São Paulo com o homem que entregara a cabeça deles a João

Alberto era "conversa mole que já está na hora de acabar ". No final de agos-

to, ele comentou com pelo menos quatro amigos - Austregésilo de Athay-

de, Drault Ernanny, Dario de Almeida Magalhães e o novo contador dos As-

sociados no Rio, Martinho Luna de Alencar - que resolvera "não sujar as
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CHATÔ, O REI DO BRASIL


mãos para resolver o desaguisado com Flues'. Aquilo era serviço para

Amâncio, que ele já tinha despachado para São Paulo "com instruções pre-

cisas para atuar como um verdadeiro paraibano". Chateaubriand tranqüili-

zou os que temiam as conseqüências do ato de um pistoleiro como Amâncio,

que cumpria as ordens do patrão sem refletir:

- Não se preocupem, que não mandei matar ninguém. Nós não esta-

mos tratando com um porco? E Oswaldo não disse que na Alemanha ele era

dado à profissão da cafetinagem?

Diante de olhares estarrecidos, revelou a sentença que tinha decretado

para o industrial alemão:

- Pois então eu mandei Amâncio fazer o que na Paraíba se faz com por-

co fodedor: apenas dei o nome, o endereço e mandei capar o bruto. Capar a

tiros, que nem Amâncio merecia sujar as mãos com aquele desinfeliz.

Disciplinado, Amâncio dos Santos tomou o trem para São Paulo, hospe-

dou-se em uma pensão vagabunda nas imediações da Estação Sorocabana e,

durante três dias, acampanou sua presa para ver a que horas ele saía de casa,

a que horas voltava, se andava com capangas. Para sua surpresa o homem

andava sozinho, guiando seu próprio carro, saía e voltava para casa religio-

samente nos mesmos horários. Confiante na pontualidade alemã, às sete da

noite de 27 de agosto o jagunço postou-se em um desvão de uma das elegan-

tes casas da rua Dona Veridiana, no então elegante bairro de Santa Cecília,

na região central de São Paulo, e ficou à espreita. Nos últimos dias ele já ti-

nha rodado pelas imediações e planejado tudo. Nem precisava, mas por se-

gurança ia disparar dois tiros. Depois, era subir calmamente um pedaço da

rua; entrar na Marquês de Itu, descer uma das ruazinhas que iam dar na ave-

nida São João e pronto, ninguém mais poria as mãos nele. De terno preto, en-

terrou o chapéu um pouco mais na cabeça - gesto desnecessário, pois já era

noite fechada e ninguém o conhecia naquela cidade triste e gelada - e segu-

rou dentro do bolso direito do paletó o revólver calibre 32. Na Paraíba di-

riam que ele estava usando arma de atirar em compadre, mas agora era pre-

ferível mesmo o 32, um revolverzinho maneiro, de pouco barulho e mais

adequado ao serviço em que a recomendação era não fazer estrago demais.

Era acertar onde mandaram acertar e estava liquidada a fatura.

Durante os quinze minutos em que permaneceu ali não chegaram a pas-

sar nem cinco pessoas na rua. A Dona Veridiana era uma rua só de casas, sem

comércio, e mesmo o movimento de carros parecia ser, àquela hora, apenas

o dos moradores do quarteirão. Poucos minutos antes das sete e meia um

carro veio se aproximando da casa número 57, que Amâncio controlava com

olho de bicho. O veículo chegou tão perto que o pistoleiro pôde ver a chapa
- P-12-877. Quando as rodas da frente subiram na calçada e o motorista

apertou a buzina duas vezes, diante do portão fechado, ele desceu calma-

339

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FERNANDO MORAIS


mente. Passou pelo estreito vão entre o pára-choque do carro e o portão de

ferro, aproximou-se da janela e perguntou ao motorista, um homem louro,

de terno e gravata, de uns cinqüenta anos de idade:

- O senhor é Oscar Flues?

O motorista respondeu:

- Sim. O que é que o senhor deseja?

Amâncio tirou o revólver do bolso para enfiá-lo entre as pernas do ho-

mem, mas este deu-lhe um safanão para, em seguida, tentar proteger o ros-

to. Cobriu-o com as mãos e jogou o corpo para a direita, como se pretendes-

se enfiar a cabeça e o tronco no vão sob o painel à frente do banco vazio a

seu lado. Ao ver as nádegas de Flues expostas, Amâncio pensou que era sor-

te demais que ele expusesse exatamente a região que queria atingir, e ani-

mou-se a aterrorizar o sujeito com um grito:

- Você vai morrer, seu filho da puta!

Do lugar onde se encontrava não dava muito para fazer pontaria, mas a

curta distância o ajudava e Amâncio disparou os dois planejados tiros nos

fundilhos das calças do industrial, que reagiu com um gemido forte. A par-

tir daí, tudo pareceu acontecer em frações de segundos. O atirador ainda es-

tava guardando o revólver no bolso quando o portão se abriu e apareceu

uma mocinha loura de avental (era Gerda Wanger, a copeira da casa) e logo

atrás dela, atraído pelos tiros e pelo grito, Hans Gert Oscar Flues, o filho de

Flues. Descontrolado, o carro começou a descer sem freios para dentro do

jardim, raspando o pára-lamas no portão. Hans Gert, um rapagão de deze-

nove anos, ainda tentou alcançar Amâncio, que entrava na rua Marquês de

Itu, mas acabou voltando no meio do caminho para socorrer o pai e frear o

carro que deslizava vagarosamente em direção a um desnível do terreno,

dentro do jardim da casa. Amâncio já tinha sido engolido pela escuridão da

noite. Meia hora depois o médico legista Lafaiete Godinho, do Hospital Ale-

mão, no bairro do Paraíso, anunciava que o industrial não corria risco de

vida e distribuía aos excitados repórteres que se aglomeravam à porta do

pronto-socorro o laudo da extensão do atentado sofrido por Oscar Flues:
O paciente apresenta ferimentos de certa gravidade produzidos por projétil de

arma de fogo na região perineal, a saber:

a) um ferimento pérfuro-contuso, de forma irregularmente circular, de cinco

milímetros de diâmetro, de bordas deprimidas e contundidas, representando o

orifício de entrada de um projétil de arma de fogo (bala), situado na região pe-

rineal, à esquerda da linha mediana;

b) outra lesão idêntica, de forma irregularmente circular, de seis milímetros,

em seu maior diâmetro, de bordas contundidas, representando o orifício de saí-

da desse projétil, a dois centímetros para diante e para a direita, situado na mes-

ma região;

c) finalmente outra lesão idêntica, com os mesmos caracteres, forma e dimen-

são referidos na alínea a), representando outro orifício de entrada, situado tam-


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


bém na região perineal, à direita da linha mediana, e que foi alojar-se em local

inacessível à apalpação.

O inquérito em torno ao fato correrá pela Delegacia de Segurançá Pessoal,

que se encarregará das demais diligências para o seu completo esclarecimento.


Um repórter mais curioso quis traduzir para os seus leitores o que era

exatamente a tal "região perineal" a que o laudo se referia. O médico escla-

receu:

- Períneo é aquela pequena extensão que separa o ânus da bolsa escro-



tal. Do saco, entende?

Com infalível pontaria o jagunço Amâncio dos Santos (àquela altura já

a bordo do trem Cruzeiro do Sul) tinha cumprido com precisão as instru-

ções do patrão. Na manhã seguinte, ao desembarcar na gare d. Pedro, no

Rio, ele viu, sem qualquer emoção, como sempre, que todos os jornais noti-

ciavam "o misterioso atentado" ocorrido no começo da noite anterior em São

Paulo. Todos os diários descreviam com detalhes o depoimento de Flues e o

lugar onde os tiros tinham entrado. A maioria deles levantava suspeitas so-

bre os irmãos Chateaubriand como supostos mandantes do crime, mas a no-

tícia virou um prato cheio mesmo foi para A Nação, o jornal de Maciel Filho.

Sobre uma foto de Assis Chateaubriand na primeira página, a manchete de

oito colunas parecia gritar: "Os irmãos Chateaubriand mandam matar, em

São Paulo, o sr. Oscar Flues ". Com invejável sem-cerimônia, a Agência Me-

ridional distribuiu para todos os órgãos Associados e para seus outros clien-

tes a cobertura do atentado, feita em São Paulo pelos Diários - da qual, na-

turalmente, não constava qualquer referência à acusação em que Flues

insistia, em seu depoimento à polícia: os mandantes do crime tinham sido os

irmãos Chateaubriand. Além do noticiário, no dia seguinte todos os Asso-

ciados iam trazer, no alto da primeira página, um curto artigo assinado por

Assis Chateaubriand sobre o episódio, intitulado "Far-west de quintal"-

um debochado exercício de caradurismo:
Leio nos jornais do Rio que o conhecido escroque internacional Oscar Flues dis-

sera aí em São Paulo que eu o ameaçara no Rio de Janeiro. Declaro aqui, humil-

demente, que não ameacei esse ladrão, com quem tenho contas definitivas a

ajustar, e que ajustarei assim que haja posto em ordem a minha vida, que ele,

em parceria com outros escroques nacionais, desorganizou em 1932.

Pus efetivamente Oscar Flues e um outro seu sócio ambos para fora do restau-

rante Hime, onde almoçavam, porque não posso consentir que patifes de tão bai-

xo coturno comam onde eu me sento. Todos dois voaram como diabos espritados.

Há dois anos, com evangélica paciência, tenho esperado que Oscar Flues pa-

gue aos acionistas de O Jornal a parte que ele roubou, de súcia com outros ve-

lhacos. Ele tem teimado em guardar para si toda a presa de sua jornada de cor-

so contra O Jornal, na convicção pueril de que o tempo aplacará nosso pacato

ajuste de contas. Está enganado. Os órfãos, os menores, as viúvas (e no corpo de

acionistas e credores de O Jornal há de tudo isso) que Oscar Flues assaltou, à


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FERNANDO MORAIS


sombra de nossa prisão e de nosso desterro, durante e depois da revolução de

32, não ficarão roubados, impunemente, por esse gatuno de gravata.

E ele esteja certo de que aqui no Rio, onde espero defrontá-lo, o nosso caso

pessoal não se decidirá num ridículo far-west de quintal, com escaramuças inó-

cuas, pelos traseiros. Será coisa da mais pura e romântica tonalidade sertaneja e

nordestina.

Já lhe dei a generosa porta de saída para o seu crime. Ele recusou-a, não de-

volvendo o produto do assalto. Sua alma, sua palma.

Através das agências internacionais, a notícia chegou imediatamente ao

exterior. Na Alemanha, em todos os jornais onde foi publicada Chateau-

briand aparecia como o mandante do crime. Nenhum, naturalmente, fazia

qualquer referência à venda dos créditos a João Alberto. O Berliner Brsen

Zeitung, diário da Bolsa de Valores de Berlim, noticiou que o atentado tinha

sido motivado "porque o sr. Chateaubriand quis se ver livre do credor incô-

modo " e que a esperada impunidade se transformava "num crime contra o

crédito do Brasil, pois o mandante saiu impune e, ao invés de pagar suas dí-

vidas, ameaçou o credor estrangeiro". Chateaubriand iria parar também nas

páginas do prestigioso Frankfirter Zeitung - que publicou que o jornalista

dera ordens para que o crime fosse praticado porque "suas empresas ha-

viam recebido máquinas da Alemanha através de Flues, que foram confisca-

das porque o importador não recebera o pagamento". Pilhas de cartas e te-

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CHATÔ, O REI DO BRASIL
legramas de solidariedade chegavam à casa do industrial. De Leipzig a

direção da empresa Vomag-Betriebs, fabricante das impressoras que tinham

sido a raiz de todo o problema, escreveu lamentando o atentado. O consula-

do geral da Alemanha solidarizou-se com Flues, garantindo a ele "que a co-

lônia alemã considera uma questão de honra fazer tudo o que estiver a seu

alcance para que o responsável pelo crime seja punido ". O Conselho da Câ-

mara de Comércio Brasil-Alemanha convocou uma sessão especial para so-

lidarizar-se com seu presidente e tirou uma dura declaração, "cujos termos

foram comunicados à sua seção carioca, à Liga das Associações Alemãs, ao

consulado geral e ao partido".

Que partido? Uma semana antes de sofrer o atentado, da mesma forma

que pedira proteção à polícia, Flues havia feito um ofício relatando suas

apreensões ao Landesgruppen Brasilien do Nationalsozialistische Deutsche

Arbeiterpartei. O homem em quem Oswaldo Chateaubriand identificara

"traços semitas" e que garantira ser "um hebreu com 200% de sangue semi-

ta" batera nas portas da seção brasileira do Partido Nazista Alemão, no po-

der desde 1933 em Berlim. Dias após os tiros, herr Spanaus, diretor da sucur-

sal brasileira do partido, manifestava seu protesto pelo crime cometido

contra Flues. Em carta dirigida à Câmara de Comércio, Spanaus se dizia "in-

dignado pelo atentado" e exprimia "o especial interesse" do governo alemão

pela elucidação do caso, que a seção brasileira do Partido Nazista já se en-

carregara de relatar à sua Auslands Organisation - a Seção do Exterior, si-

tuada em Hamburgo. A carta em defesa do suposto cidadão judeu termina-

va, naturalmente, com um vistoso "Heil Hitler!".

A repercussão do atentado a Oscar Flues levou João Alberto a pedir ao

serviço secreto da polícia paulista um informe sobre o episódio. Não fosse a

ausência de estilo, o documento preparado por um certo "agente Nunes"

,

sob a chancela de "confidencial", se assemelharia a uma das hilariantes pe-



ças escritas pelos Chateaubriand sobre algum inimigo:
Assis Chateaubriand - Diretor dos Diários Associados - O questionado, cujo

nome deveria ser Assis de Souza, pois é filho do padre Alberto de Souza, que

foi vigário de Campina Grande, estado da Paraíba, nasceu nesse estado, tendo

vindo para cá há muitos anos. É irmão de Oswaldo Chateaubriand, que também

é filho desse mesmo padre. Nas rodas jornalísticas é visto como um cancro, pois

é o indivíduo mais asqueroso que o sol cobre. Jornalista inteligente ele o é, mas

sua pena escreve as maiores infâmias, as maiores baixezas que se tem visto.

Tudo faz pelo interesse; onde há dinheiro, ali está o filho do padre Alberto, e

quando não pode estar, porque é um só, manda seu irmão Oswaldo, que tam-

bém não fica muito a desejar. A política brasileira é o que ele explora mais, haja

vista o que escreveu em 1930 sobre o ex-interventor João Alberto e o que escre-

ve agora desse mesmo homem.

Analisar esse jornalista é até perder tempo, pois é, dentre os mais indignos, o
345

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FERNANDO MORAIS


maior. Todos os qualificativos são insuficientes para qualificá-lo à altura. Indi-

víduo sem brio, sem caráter, sem dignidade, sem honra, sem pudor, sem escrú-

pulos. E ainda por cima mandante de crime - assassino, pode-se dizer. Aí acla-

reia um fato público e notório: o atentado contra o comerciante Oscar Flues, que

a imprensa toda noticia. O "ilustre " jornalista, pelo seu jornal Diário de S. Paulo,

em artigos de sua autoria, ameaçou com uma sova o titular da firma desta

praça "Oscar Flues & Cia." por causa de negócio havido entre essa firma e a S.A.

O Jornal, do Rio de Janeiro, questão também conhecida por todos. Flues se de-

fendeu com dignidade e educação, também pela imprensa, das infâmias que

Chateaubriand lhe atirava. Vai daí, Chateaubriand ficou como uma fera e cada

vez mais atacava o sr. Flues pelas colunas dos Diários Associados, acontecendo

o que houve: mandou matar o sr. Flues. Mas as balas não atingiram regiões mor-

tais e o sr. Flues se encontra em tratamento no Hospital Alemão. O capanga de

Chateaubriand conseguiu fugir. Agora cabe à polícia elucidar tudo e ela já está

agindo. Aguardamos o inquérito que corre na Delegacia de Segurança Pessoal a

cargo do dr. Durval Villalva. Será que no relatório haverá referências ao pron-

tuário de Assis Chateaubriand e seus irmãos? Oxalá que o Gabinete de Investi-

gações ainda tenha em seus arquivos o precioso prontuário desse indivíduo

(será que Chateaubriand não mandou roubá-lo no arquivo do ci, como assim fi-

zeram com outros por ocasião do movimento de 30?). O melhor de tudo é espe-

rar. Esperemos.
O inacreditável agente Nunes esperaria até as calendas gregas. Se de

fato tentou, o responsável pelo inquérito não conseguiu apurar rigorosa-

mente nada contra Chateaubriand ou Oswaldo - que jamais foram ouvidos,

apesar de formalmente acusados por Flues -, e muito menos contra Amân-

cio, de quem, aliás, ninguém ouvira sequer falar. Semanas depois, quando a

polícia desistiu das investigações e arquivou o inquérito, Assis Chateau-

briand já estava às voltas com outro industrial, também imigrante europeu,

mas infinitamente mais poderoso que Oscar Flues: desta vez o jornalista ia

bater de frente com o conde Francisco Matarazzo.
346
21
Quando completou oitenta anos de idade, em março de 1934, o conde

Francisco Matarazzo era, de longe, o homem mais rico do Brasil. Habituados

ao tratamento rude que ele normalmente recebia dos Diários Associados,

fruto das incontáveis pendengas por atrasos nos pagamentos de aluguéis, foi

de perplexidade a reação dos leitores do Diário de S. Paulo ao ver o caderno

especial que o jornal imprimiu, inteiramente dedicado a comemorar a data.

Chateaubriand tinha mandado fazer uma cobertura sui generis: convidou

cada um dos oitenta maiores empresários brasileiros, de todos os estados, a

fazer um artigo analisando a história e a importância do império Matarazzo

para a economia do país. Para cada ano de vida do conde, um artigo diferen-

te. Abrindo a edição, uma reportagem feita e assinada pelo próprio Cha-

teaubriand, denominada "O estado Matarazzo", na qual o autor exaltava o

fato de que, somadas, as indústrias do conde produziam riquezas que só

perdiam, no Brasil, para o produto bruto do estado de São Paulo, ultrapas-

sando de longe Minas Gerais, o Distrito Federal e o Rio Grande do Sul. A ad-

miração era tanta que ele não parecia estar escrevendo sobre um adversário

ou muito menos um empresário do Brasil, mas sobre um Mackenzie, um

Farquhar:


O conde Matarazzo é um exemplo, um altíssimo exemplo para a mocidade do

Brasil. Aos oitenta anos de idade esse octogenário trabalha catorze horas e meia

por dia! Levanta-se às quatro e meia da madrugada; às cinco e meia visita e fis-

caliza o trabalho da primeira fábrica e é o último a se retirar do escritório, às oito

horas da noite, com o porteiro.
Nada ali fazia crer que o jornalista estava se referindo ao mesmo perso-

nagem que meses antes ele qualificara de um aproveitador "da deplorável

inconsciência do nosso trabalhador ", o capitão de empresas que continuava

"na pré-história da indústria". O novo Matarazzo agora não era mais o em-

presário pré-colombiano, mas um paradigma de modernidade digno de ser

seguido pelas novas gerações:


Que modelo não é o conde Matarazzo para um país onde encontramos, em vá-

rias rodas de moços ricos, no meio desses bonifrates cretinizados, o preconceito

imbecil da antiga nobreza continental da Europa, de que no trabalho não se en-
347

#
FERNANDO MORAIS


contra a dignidade do fidalgo! Trabalhando como um mouro aos oitenta anos,

o conde Matarazzo toma para si a dívida goethiana: para o repouso lhe basta a

eternidade.
Para levantar dados para sua reportagem-elogio, Chateaubriand tinha

passado dois dias visitando as fábricas de Matarazzo e ficara um dia inteiro

em companhia do conde em sua chácara do então distante bairro do Belen-

zinho ("a magnífica estância onde o conde tem por hábito passar as suas ra-

ras horas de lazer "). O material renderia outro panegírico, fartamente ilus-

trado com fotografias e publicado em O Cruzeiro. Ali se podia ver um enternecido

Chateaubriand, de chapéu e sapatos bicolores (sob as vistas desconfiadas de

um conde de bengala e polainas), carregando carneirinhos suíços e admirando

cabras da Patagônia e burros da Sardenha.

Se o conde era o mesmo velho e conservador Francisco Matarazzo de

sempre, e se Chateaubriand também não tinha passado por nenhum proces-

so de beatificação, o que é que tinha mudado tanto em tão pouco tempo que

justificasse a surpreendente metamorfose no comportamento do jornalista?

O que mudava - e escondia a brusca virada no tratamento que os Associa-

dos davam agora a Matarazzo - era a cidade de São Paulo. A transforma-

ção urbanística da cidade, a cargo do engenheiro Prestes Maia, começara na

administração Pires do Rio e prosseguia a todo vapor com o prefeito Fábio

Prado. Grandes avenidas eram abertas e o centro comercial mudava-se da

parte velha da cidade, em torno dos bancos, para o remodelado vale do

Anhangabaú, que tinha sido construído no começo do século.

Mesmo impermeável a mudanças, Matarazzo acabara cedendo às pres-

sões do filho e herdeiro Francisco Matarazzo Jr. - conhecido como o "con-

de Jr." ou apenas "conde Chiquinho" -, que defendia a transferência da

sede administrativa do império dos velhos escritórios da rua Direita para o

novo Anhangabaú. Pensou-se primeiro em comprar o prédio da Mappin

Stores, em frente ao Teatro Municipal, mas a área nobre ficava do outro lado

do viaduto do Chá - exatamente no lugar onde estavam instalados os Diá-

rios Associados de São Paulo. Quando o manhoso Chateaubriand soube que

o prefeito Fábio Prado havia cedido uma nesga de terreno a mais, ao lado do

prédio dos jornais, para que os Matarazzo derrubassem o edifício velho e le-

vantassem ali um monumental arranha-céu para suas empresas, decidiu pôr

em prática a estratégia de reaproximação com o industrial. Embora pagasse

(quando pagava, claro) uma ninharia de aluguel pelo Palacete Conde Prates

- era esse o nome do prédio -, o jornalista tinha em mãos um contrato que

só venceria dali a três anos. E o conde Jr. queria começar as obras imediata-

mente. Para isso, Chateaubriand teria de deixar o prédio.

Imaginando ter azeitado a vaidade do velho conde com as homenagens

prestadas em seu aniversário, Chateaubriand usou Fábio Prado como inter-

mediário de sua proposta: como o contrato estava em vigor, e uma mudan-
348

#
CHATÔ, O REI DO BRASIL


ça de endereço representaria um transtorno muito grande para os jornais (as

rotativas, impressoras e demais equipamentos precisariam ser desmontados

e reinstalados na futura sede), ele considerava justo que os Matarazzo pagas-

sem aos Associados uma indenização. De quanto? Embora o valor dos alu-

guéis dos três anos seguintes, somado, não chegasse a cem contos de réis,

Chateaubriand queria 850 contos de indenização para devolver o Conde Pra-

tes a seus legítimos donos. Indignado - e estimulado pelo filho, que não ti-

nha qualquer simpatia pelo jornalista -, o conde Francisco Matarazzo man-

dou dizer que se recusava sequer a discutir o que considerava "uma

extorsão". O "não" de Matarazzo foi a palavra-chave para reacender todos

os velhos preconceitos de Chateaubriand contra o industrial. Já que não pa-

gava a justa indenização pelo planejado despejo, ele que esperasse vencer o

contrato de três anos - isso se a Justiça não concedesse prorrogações aos As-

sociados.

Era como se o caderno especial do octogésimo aniversário e a reporta-

gem em O Cruzeiro tivessem sido apagados com borracha. A hostilidade

crescia a cada artigo, cada provocação que Chateaubriand publicava em seus

jornais. Empertigado em seus 34 anos, cabelos glostorados e com um esnobe

monóculo no olho direito, embora nascido em São Paulo o conde Chiquinho

tinha sangue italiano em abundância nas veias. Farto das agressões que a fa-

mília sofria nos Diários Associados, mandou avisar a Chateaubriand que se

a campanha prosseguisse ele ia "resolver a questão à moda napolitana: pé no

peito e navalha na garganta". Sem saber da ameaça, Fábio Prado decidiu

promover um encontro conciliatório entre os dois, em parte testemunhado

pelo jornalista Paulo Duarte (o mesmo que fulminava Chateaubriand nas pá-

ginas do Diário Nacional, do extinto Partido Democrático), chefe de gabinete

do prefeito. Ao se defrontarem, o conde Jr. repetiu a ameaça:

- Já lhe avisaram que se essa sujeira continuar terei que adotar méto-

dos napolitanos para pôr fim a essa campanha?

Chateaubriand não se amedrontou. E diante do prefeito e de Paulo

Duarte, deu o troco:

- Responderei com métodos paraibanos. A diferença é que em Catolé

do Rocha não usamos navalha, mas peixeira. E, em vez de cortar a gargan-

ta, cortamos mais embaixo, em partes mais sensíveis.

Certamente pensando no atentado a Oscar Flues, reforçou a intimi-

dação:


- O conde sabe que eu não estou brincando.

Acalmados os ânimos, Chiquinho fez a contraproposta da família: os

Matarazzo aceitavam pagar 220 contos de réis a título de indenização, desde

que os Associados se comprometessem a entregar o prédio para a demoliçáo

em quatro meses. Sabendo com quem estavam tratando, impunham mais

uma exigência: a indenização só seria paga depois que o prédio estivesse de-


349

#
FERNANDO MORAIS


socupado. Ofendido com a desconfiança, Chateaubriand recusou a propos-

ta. Ele conhecia o motivo da urgência dos Matarazzo: as indústrias tinham

trazido da Itália o arquiteto Marcello Piacentini, um dos preferidos de Mus-

solini, que já havia projetado para o lugar um majestoso edifício de treze an-

dares, revestido de mármore travertino e com três entradas: uma pelo vale

do Anhangabaú, uma pelo viaduto do Chá e uma terceira pela rua Líbero Ba-

daró. Se eles tinham pressa, decidiu o jornalista, que melhorassem a oferta.

A intransigência de Chateaubriand só fez azedar ainda mais a relação

com os empresários. Convencido de que o jornalista não arredava pé de sua

posição, o conde Chiquinho fez outra ameaça: se os jornais não deixassem o

prédio em quatro meses, ele ia mandar uma brigada de operários iniciar a

demolição com os inquilinos lá dentro. O desmonte começaria com o deste-

lhamento do edifício. Dias depois de ouvir essa notícia, Chateaubriand jan-

tava com amigos no elegante restaurante do Hotel Esplanada, atrás do Tea-

tro Municipal, quando viu Matarazzo e o filho entrarem e sentarem-se no

lado oposto do salão. Levantou-se da mesa e sacudiu o guardanapo no ar,

aos gritos:

- Seus condes! Seus condes!

Os Matarazzo tentaram fingir que não era com eles, mas não teve jeito

- a única maneira de acabar com o vexame era voltar os olhos para aquele

nordestino louco. Chateaubriand gritava:

- Seus condes, os senhores me enviaram um recado: se eu não abando-

nar um prédio onde estou legalmente, vão mandar operários destelharem os

Diários Associados. Eu aceito o desafio: vocês tiram as telhas do Palacete

Prates e no dia seguinte eu pessoalmente vou chefiar um pelotão de jagun-

ços da Paraíba para destelhar a Villa Matarazzo, onde os senhores moram,

na avenida Paulista. Vamos ver na cabeça de quem vai chover primeiro!

Foi Fábio Prado, com a ajuda do presidente da Caixa, Samuel Ribeiro,

quem equacionou a solução - mas não a paz, que essa não viria jamais-

entre Chateaubriand e os Matarazzo. Descobriu que estava à venda por 380

contos um pequeno sobrado comercial construído num terreno de 580 me-

tros quadrados, situado no número 230 da rua Sete de Abril, do outro lado

do viaduto do Chá. Ali os dois jornais poderiam se instalar provisoriamen-

te. Ao lado do imóvel estava à venda outro, edificado em um terreno de mais

trezentos metros, onde funcionava a boate L'Auberge. A operação proposta

pelo prefeito - que tinha enorme interesse em ver o palácio de mármore de

Piacentini rapidamente ocupando o lugar do velho treme-treme onde fun-

cionavam os jornais - era complicada: Chateaubriand receberia os 220 con-

tos do conde e poria mais sessenta contos de seu próprio bolso. Samuel Ri-

beiro autorizaria a Caixa a fazer um contrato de publicidade de cinqüenta

contos com os Associados e ele, Fábio Prado, arrancaria dos condes outro

contrato de cinqüenta contos de publicidade com os jornais. Tudo somado,


350

CHATÔ, O REI DO BRASIL


chegariam ao valor do terreno. Quando a situação melhorasse, Chateau-

briand poderia comprar o terreno da boate e, aos poucos, construir ali a sede

definitiva de seus jornais em São Paulo. Enquanto fazia as contas num peda-

ço de papel, o jornalista lembrou-se de algo:

- Esses brutos detestam a publicidade. Mas o laboratório deles está

lançando um perfume, chamado Chimene, e vão ter que anunciar. Por aí o

negócio avança. Mas deixe-me ver se essa proposta é benéfica a meus jor-

nais.


Multiplicou, subtraiu, embolou os pedaços de papel e se levantou:

- Temos dois problemas. O primeiro é que o conde só me paga a inde-

nização depois que eu desocupar o prédio.

O prefeito interrompeu-o:

- Esse obstáculo está superado. Falei ao conde que eu lhe adianto os

220 contos de réis. E passo eu a ser credor dele. Quando você deixar o pré-

dio, ele me reembolsa.

Ao perceber que o interesse dos Matarazzo os estava compelindo a ce-

der, Chateaubriand deu o bote mortal:

- É, mas para devolver o Palacete Prates antes de vencer meu contrato

o conde vai ter que comprar o terreno da L'Auberge e transferir a escritura

para o nome dos Associados. Senão, nada feito.

Apesar de contrafeitos, os Matarazzo aceitaram pagar o preço exigido

para sair daquela sinuca. Embora no documento que assinou em novembro

de 1934 o jornalista se comprometesse a entregar o prédio em três meses, só

em julho de 1935 é que os Diários Associados iriam mudar de endereço.

Com um terreno medindo ao todo 850 metros quadrados, Chateaubriand

chamou o arquiteto Jacques Pilon e encomendou-lhe o projeto do edifício

novo. Ele tinha apenas três exigências a fazer: queria a fachada do mesmo

mármore travertino que os Matarazzo iriam usar no prédio que começavam

a construir; se a sede das indústrias dos condes ia ser de treze andares, a dos

Associados teria quinze. E, por fim, queria que em um dos andares do edifí-

cio fossem especialmente projetados dois mezaninos, de quinhentos metros

quadrados cada um: quando o prédio estivesse pronto, ele ia instalar ali um

museu de arte antiga e moderna. Apesar de tudo o que tinha recebido para

deixar o prédio, Chateaubriand sairia daquela refrega convencido de que ti-

nha sido "esfolado" pela família dos condes. Estes não perderiam por espe-

rar, como se veria anos depois.

Com o passar do tempo, as peças da desengonçada e semidestruída en-

grenagem dos Diários Associados iam de novo entrando nos eixos. Os anún-

cios do supercontrato feito com a General Electric pingavam religiosamente

nas páginas de O Cruzeiro, e como a água acaba correndo mesmo é para o


351

#
FERNANDO MORAIS


mar, anúncio puxava anúncio. Os jornais e as duas revistas foram incluídas

em uma gigantesca campanha de propaganda de uma indústria de alimen-

tos norte-americana para lançar aqui o produto que se tornaria a coqueluche

do Brasil dos anos 30: o pó achocolatado Toddy. Tamanha era a novidade

que os primeiros anúncios tiveram de ser didáticos, explicando aos leitores

como e em que circunstâncias se deveria tomar Toddy. Em seguida veio a

publicidade feita por dezenas e dezenas de médicos brasileiros, que assina-

vam atestados comprovando a eficiência do produto como nutriente de alto

valor alimentício. Na avalanche de modernidades importadas dos Estados

Unidos e da Europa, as páginas dos Associados se enchiam de anúncios de

Modess ("o fim das anti-higiênicas toalhinhas ", ou "agora os incômodos das

senhoras não constituirão nunca a origem de perturbações") ou ainda de um

bloco de papel que iria revolucionar a vida dos brasileiros: o cheque bancá-

rio ("o documento que você carrega no bolso e que permite retiradas sem

aviso prévio" ).

De origem nacional ou estrangeira, não importava, o dinheiro que vol-

tava a jorrar nos cofres dos Associados possibilitou a retomada da moderni-

zação das empresas. De novo e por duas vezes pioneiro, Chateaubriand pri-

meiro importou dos Estados Unidos, por 120 mil dólares de então, uma

Multicolor, a mais moderna rotativa de que se tinha notícia, e da qual os do-

nos de jornais no Brasil só tinham ouvido falar (passados vinte anos, no iní-

cio da década de 50, só duas empresas, além de O Cruzeiro, estariam traba-

lhando com aquele equipamento - o jornal O Globo e a Lythographica

Ypiranga, de São Paulo). Além da máquina, os Associados foram os primei-

ros a comprar os serviços fotográficos da Wide World Photo, da França.

Com uma imprensa habituada a esperar semanas para que uma fotografia

do exterior chegasse ao Brasil, Chateaubriand festejava a compra dos revo-

lucionários serviços de transmissão de imagens como a última maravilha do

jornalismo moderno: "Três dias após um acontecimento em qualquer conti-

nente, seja um crime, um desastre, a posse de um ministro, uma festa, uma

greve, dados os recursos de aparelhagem e a rapidez das comunicações, in-

clusive a telefoto, estamparemos o flagrante".

Se estava se tornando tecnicamente moderno, o jornalismo praticado

em meados dos anos 30, além do descompromisso com a ética em muitos

sentidos, ainda recendia a um enorme provincianismo. A mesma O Cruzeiro

que usava serviços e máquinas que eram a última moda no mundo desen-

volvido ainda dava, em página inteira, melosos poemas de Antônio Sanchez

Larragoiti ou de sua mulher, a bela Rosalina Coelho Lisboa (poemas que já

eram ilustrados por Alceu Pena, que se celebrizaria nas décadas seguintes

como o autor da seção "Garotas", da revista). Está certo que, independente-

mente da qualidade literária, os poemas de Larragoiti ou Rosalina - esta

uma poetisa reconhecida, e não uma diletante eventual - tinham uma razão


352

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CHATÔ, O REI DO BRASIL


especial para receber tanto destaque em O Cruzeiro: ele era o dono da com-

panhia de seguros Sul-América, um dos maiores anunciantes dos Associa-

dos. Mais do que ninguém, no entanto, Chateaubriand sabia que bom jorna-

lismo não se fazia com "pedaços de ferro", como ele já dissera, mas com

gente. "(

Ao convidar o competente e moderno Dario de Almeida Magalhães

para acumular a diretoria geral dos Diários Associados, em todo o Brasil, e

a presidência de O Cruzeiro, Chateaubriand começava a dar uma nova cara

a seus jornais e revistas. É nessa época que começam a aparecer nos Asso-

ciados personagens que anos depois seriam reconhecidos como alguns dos

maiores nomes da literatura ou do jornalismo brasileiros, como os escritores

Manuel Bandeira, Gustavo Barroso, Graça Aranha, Viriato Correia e os jor-

nalistas David Nasser, Edmar Morel, Alex Viany e, pouco tempo depois,

Millôr Fernandes, Carlos Castello Branco e Frederico Chateaubriand - o

"Freddy", filho de Oswaldo Chateaubriand e um dos grandes responsáveis

pela transformação de O Cruzeiro em uma das mais importantes revistas do

Brasil neste século. Curiosamente, o talentoso e controvertido Nasser, que fi-

caria célebre como um dos maiores repórteres de sua época, iria estrear em

O Cruzeiro assinando "uma reportagem de David Nasser " - mas que na

verdade não passava de um típico texto de "cozinha" sobre Lawrence da

Arábia, produzido com material de arquivos e de bibliotecas. Da mesma for-

ma que os repórteres e redatores, os artistas contratados pelos Associados

com a ascensão de Dario de Almeida Magalhães seriam consagrados pelo

tempo entre os melhores do país, como Cândido Portinari, Aldo Bonadei,

Anita Malfatti, Di Cavalcanti e Ismael Neri. Para dirigir O Jornal no lugar de

Gabriel Bernardes, que acabara de falecer, Dario chamou Austregésilo de

Athayde, e para o Diário da Noite carioca iria Vítor do Espírito Santo.

Ganhava-se de um lado, perdia-se de outro. Se conseguiu, por intermé-

dio de Dario, atrair jovens talentos que despontavam no país, Chateau-

briand não faria grande esforço para segurar nos Associados um dos melho-

res deles, Rubem Braga. Transferido de São Paulo, Braga trabalhava na

redação de O Jornal e escrevia uma crônica diária no Diário da Noite. Sem as-

sunto, um dia ele leu uma pequena notícia de que a Igreja espanhola estava

liderando uma campanha para assegurar às mulheres o direito ao voto-

prática que só no ano anterior também o Brasil inaugurara. O jornalista re-

solveu tirar dali sua crônica, e escreveu que aquela era uma jogada oportu-

nista da Igreja, já que a maioria das mulheres espanholas eram católicas e a

proposta visava, na verdade, angariar votos para os candidatos apoiados

pela Igreja. Anticlerical, Rubem Braga acrescentou que se o projeto fosse

aprovado ia representar um atraso político, pois a conservadora Igreja espa-

nhola "não passava de uma pinóia". Estava montada a crise: o diretor de re-

dação Vítor do Espírito Santo veio comunicar-lhe que Chateaubriand tinha

recebido uma carta indignada do respeitado intelectual católico Alceu Amo-
353

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FERNANDO MORAIS


roso Lima - o Tristão de Ataíde - com um ultimato: se Braga não fosse de-

mitido, ele retiraria a coluna de O Jornal.

Fruto do acordo que fizera com o cardeal Sebastiãu Leme quando com-

prou O Jornal, na "Coluna do Centro", supervisionada por Amoroso Lima

,

revezavam-se como seus autores os mais ilustres membros do Centro Dom



Vital, organização da direita cristã criada em 1922 por Jackson de Figueire-

do. Depois da morte de seu fundador, Alceu Amoroso Lima passara a ser a

mais célebre estrela do grupo de intelectuais cristãos conservadores. Pelo tí-

tulo com que fora batizada e por ser publicada bem no centro da página do

jornal, a coluna tentava passar a impressão de ser um espaço de reflexão po-

liticamente de centro, embora fosse uma das mais reacionárias seções da im-

prensa de então. A presença da "Coluna do Centro" representava para Cha-

teaubriand uma espécie de tratado de paz que garantia aos Associados a

permanente indulgência da hierarquia nacional da Igreja. Sabendo da im-

portância que o patrão atribuía às boas relações com d. Sebastião Leme, Ví-

tor do Espírito Santo advertiu Braga para se preparar, pois vinha trovoada

sobre sua cabeça. Chamado à sala do dono do jornal, ele enfrentou um

Assis Chateaubriand furioso:

- Seu Braga, o senhor está querendo arruinar o meu jornal. Como é que

o senhor escreve uma crônica completamente idiota como essa?

Tranqüilo, Braga ainda tentou se defender:


354

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CHATÔ, O REI DO BRASIL


- Mas doutor Assis, o senhor é dono do jornal, pode ler antes de publi-

car tudo o que eu escrevo. E pode cortar o que não gostar...

Preocupado com a ameaça de Amoroso Lima, Chateaubriand estava

particularmente mal-educado:

- E eu lá tenho tempo de ler porcaria? Veja aqui a carta do doutor Al-

ceu. O que é que eu faço agora? Vou brigar com o cardeal Leme por sua

causa?

Ele passou os olhos sobre o papel e só teve tempo de ver um trecho em



que Alceu Amoroso Lima dizia que não poderia continuar publicando a

"Coluna do Centro " no mesmo jornal que "abrigava um desatinado como

esse sr. Rubem Braga". O cronista sabia que estava metido em confusão sé-

ria. Meses antes testemunhara outra crise provocada pelo mesmo Amoroso

Lima - que caminharia vagarosamente em direção a posições mais demo-

cráticas até se tornar, nos anos 60 e 70, um dos mais renitentes adversários

da ditadura militar de 1964. Mas ele ainda era o conservador intransigente

quando Ribeiro Couto escreveu uma suave crônica sobre santa Teresinha do

Menino de Jesus (que depois desenvolveria e transformaria em livro) para O

Cruzeiro, que o diretor da revista, Lincoln Nery, encarregou o artista Santa

Rosa, empregado da casa, de ilustrar. O respeitoso desenho mostrava a san-

ta com rosas nas mãos, sem nada que pudesse ferir a fé do mais empederni-

do carola. Ao ver a revista, porém, Amoroso Lima estrilou: era um absurdo
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FERNANDO MORAIS


inadmissível permitir que um notório comunista como Santa Rosa ilustrasse

um escrito sobre santa Teresinha. E, ao expor sua indignação a Chateau-

briand, o diretor do Centro Dom Vital foi além: uma revista democrática

como O Cruzeiro, que entrava em milhares de lares espalhados pelo Brasil,

não podia sustentar um comunista. Santa Rosa tinha de ser demitido.

No caso da santa, a exigência de Amoroso Lima parecia tão absurda que

Chateaubriand fincou pé e manteve o emprego do artista. Mas agora, com

Rubem Braga, tudo indicava que a coisa ia ser diferente. Mal-humorado com

aquela arenga toda, Rubem perdeu a paciência, saiu da sala de Chateau-

briand batendo portas e pediu demissão. Dario de Almeida Magalhães ain-

da tentou demovê-lo da idéia, sugerindo que mudasse apenas de órgão, per-

manecendo nos Associados, com um argumento irrefutável:

- Você é louco de brigar com o Chateaubriand, Braga. Jornalista brasi-

leiro não pode viver aqui se brigar com o Chateaubriand. Ou muda de pro-

fissão ou muda de país.

Braga estava decidido:

- De profissão eu não posso mudar, que não sei fazer outra coisa. Do

país também não posso sair, porque não tenho dinheiro. E, como eu já esta-

va cheio do Chateaubríand, vou me mudar de estado. Vou para Recife, fazer

o jornal da aNl..

Ao decidir deixar dois dos principais jornais do país para dirigir a des-

conhecida Folha do Povo, da seção pernambucana da Aliança Nacional Liber-

tadora, Rubem Braga queria também sentir o gostinho de trabalhar em uma

organização política que vinha sendo combatida com ferocidade por Cha-

teaubriand. Desde que surgiram, em janeiro de 1935, as primeiras notícias de

que lideranças civis e militares se organizavam numa espécie de partido po-

lítico, Chateaubriand pôs-se em guarda. E foi preciso pouco tempo para que

ele farejasse, por trás da organização que logo se transformava num formi-

dável movimento de massas, a mão peluda do esquerdismo. Suas suspeitas

se confirmaram em março, quando o estudante de direito Carlos Lacerda

(que anos depois seria seu empregado) propôs, no ato de lançamento públi-

co da aNL, o nome de Luís Carlos Prestes para presidente de honra da orga-

nização.

Com uma frequência que só encontrava paralelo na campanha que mo-

vera contra Vargas e o tenentismo, depois da Revolução de 30, Chateau-

briand dedicaria quase todo o seu tempo e seu espaço nos jornais a flagelar

"Prestes e seus sequazes". Seu principal temor residia na perigosa aliança

que enxergava, em torno da aNL, entre líderes civis, oficiais das Forças Ar-

madas e, controlando-os a distância, os temidos comunistas. Para aterrorizar

a classe média que cada dia mais parecia simpatizar com o crescente movi-

mento, acenava com o risco para onde apontava "essa desordem que tomou

conta do país": provocando os brios conservadores, os aliancistas acabariam

derrotados pelos integralistas, que também se organizavam, o que desagua-
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CHATÔ. O REI DO BRASIL


ria inevitavelmente em uma ditadura fascista. Se, ao contrário, triunfassem

os aliancistas, o resultado seria ainda pior, na sua opinião: dominado pelos

comunistas, o movimento em breve levaria o Brasil "a uma desumana dita-

dura coletivista, de caráter soviético". Embora nunca tivesse defendido cla-

ramente o fascismo Chateaubriand não escondia sua simpatia pelo movi-

mento integralista. Em pelo menos um artigo chegou a afirmar que, "mesmo

divergindo dos pontos cardeais da ideologia integralista, encontro na arran-

cada de sua mocidade um emocionante ponto de contato com o programa

dos Diários Associados: a unidade política e espiritual do Brasil". Doutra fei-

ta, apanhado no meio de um tiroteio entre a polícia paulista e uma manifes-

tação de camisas-verdes (era assim que os integralistas do líder fascista Plí-

nio Salgado se vestiam), "saltei do automóvel e meti-me no meio das

formações de milicianos que desciam a avenida Brigadeiro Luís Antônio,

com a bandeira brasileira tremulando no punho de alguns rapazes, imanta-

do que eu estava por aquele espetáculo de fé em nossa unidade, pela certe-

za da indestrutibilidade do Brasil". Nem mesmo o chefe mundial do fascis-

mo, o ditador italiano Benito Mussolini - cujos artigos freqüentavam com

regularidade as páginas dos Associados -, escaparia de sua admiração.

Chateaubriand não se cansava de contar que, quando viveu na Europa, teve

a oportunidade de ver de perto "um belo espetáculo de anarquia coletiva"

- uma greve na fábrica de um amigo de Milão. Como moral daquela histó-

ria, repetia sempre:

- Afinal veio Mussolini e a ordem foi restabelecida na península.

Quando os adversários insinuavam que ele estava se transfigurando em

um legítimo fascista, respondia que nenhuma das duas ideologias, nem a de

esquerda nem a de direita, servia ao Brasil. "Encontrei hoje dois fanáticos

das duas correntes: o integralista invectivava o imperialismo japonês, que

pretende ajudar-nos financeiramente a resolver o problema do algodão; o

outro, comunista, difamava o imperialismo inglês que nos deu portos, estra-

das de ferro, tramways, companhias de eletricidade e de telefone", escreveu

ele, para concluir: "A renovação que é pregada pelos dois credos se proces-

sa dentro do método da propaganda que, se vingar amanhã, deixará o Bra-

sil de tanga, reduzido à condição de uma miserável cubata hotentote. Tanto

o Partido Integralista quanto a Aliança Libertadora são soluções extremas

para o problema político do Brasil. Esta se coloca na extrema-esquerda,

aquele na extrema-direita. Um se encharca de Moscou, o outro de Berlim e

Roma".

Receoso de ser confundido com um defensor do fascismo italiano ou do



nazismo alemão, pedia dissimuladamente um endurecimento do regime

contra os excessos que enxergava em quase tudo. Inclusive no recém-nasci-

do cinema nacional. Ao ver num dos cinemas do Rio um documentário so-

bre Pernambuco, no qual, naturalmente, se faziam referências à miséria que


357

#
FERNANDO MORAIS


campeava em Recife, não hesitou em sugerir para os outros a mesma violên-

cia de que tão pouco tempo antes fora vítima - a censura. "O governo está

no dever de não consentir que o Brasil seja apresentado através de mocam-

bos, mulatas e pretos, como se estes fixassem a totalidade da nossa fisiono- 

mia." Se não era fascista nem nazista, Chateaubriand era um racista? Antes

que alguém o acusasse, ele respondia no mesmo artigo, com palavras pouco

mais comedidas do que as que usava nas conversas com os amigos: "Não

sou contra o negro nem contra o mulato. Jamais cesso de dizer que O Jornal

é produto de um ágil mulato, de nariz chato, e que tem um talento apolíneo,

o meu amigo dr. Renato Toledo Lopes. Mas como sou um pacificador, em

matéria de cor, não desejo nos filmes o predomínio exclusivo do pigmento

do ilustre antigo piloto do nosso diário".

O que ele não conseguia entender ou admitir era como "essa burguesia

imbecil" ia se juntar, nas hostes da Aliança Nacional Libertadora, "aos lobos

que depois de amanhã vão comer todas as suas ovelhas, uma por uma". Em-

bora a defendesse com unhas e dentes em seus jornais (e jamais deixasse de

mamar em suas generosas tetas), Chateaubriand alimentava profundo e pú-

blico desprezo pelo que chamava de "burguesia" - os industriais, comer-

ciantes, banqueiros e fazendeiros em cujas portas, mais dia menos dia, ele

acabava batendo. "A burguesia brasileira não sabe viver e, o que é pior, não

sabe nem morrer ", ele escreveu mais de uma vez. "Não sabe viver porque

dissipa seus bens consigo própria, sem saber o significado da palavra mece-

nato, sem se preocupar sequer com o destino do vizinho que mora na casa

em frente. E não sabe morrer porque no último suspiro lega aos filhos exata-

mente esses mesmos e lamentáveis padrões." Nada mais natural, portanto,

que ele rangesse os dentes ao ler os nomes dos integrantes da alta direção da

ANl - quase todos egressos da chamada "burguesia imbecil" -, que mere-

ceu dele o artigo intitulado "Guarda-chuva, bengala e bengalinha":


Anos atrás os comunistas brasileiros chamavam-se Otáviu Brandão, Minervino

de Oliveira, Astrojildo Pereira. Eram rudes trabalhadores, acostumados ao ven-

to e ao frio, gente que não pagava impostos urbanos ou territoriais. Em 1935

nossos comunistas são uma luzida falange de grandes proprietários que se dão

ao esporte do salto no abismo. O dr. Caio Prado Júnior, o capitão Cascardo, o

dr. Mangabeira, o capitão Trifino Correia são todos, sem exceção, proprietários

mais ou menos abastados de imóveis urbanos ou agrícolas.

Pela primeira vez entre nós o comunista deixa de ser uma esfinge que nin-

guém sabe onde vai buscar os recursos de que vive. Mangabeira pai mora com

Mangabeira filho em um solar onde caberiam dez famílias operárias. Mas, os

dois têm em casa apenas servos que lhes preparam quitutes baianos. O terrível

Mangabinha aconselha nos seus manifestos que se divida a terra de toda a gen-

te, que se despojem os fazendeiros, que se caloteiem os credores

externos. Mas

quando essa política de espoliação chegar às beiras das sobrelojas de seu monu-

mento de cimento armado na rua Paissandu, ele exclamará sobressaltado:-


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


Alto lá, não sou comunista! Posso ter arranha-céus de quinze andares porque o

meu comunismo é para uso externo. Aqui em família somos todos pela grande

propriedade imóvel.
Seu alvo preferido, no entanto, era o capitão Luís Carlos Prestes. A cada

declaração do chefe comunista da ANL, Chateaubriand respondia com um ar-

tigo debochado. Ironizando os longos textos distribuídos por Prestes, o jor-

nalista dizia que quem se sentisse mal do fígado não precisaria mais ir às

fontes sulfurosas da cidade de Lindóia: "Basta ler a prosa do capitão Prestes,

que é de desopilar; faz-se a estação de cura sem sair de casa". Espantado com

a exagerada pontuação dos manifestos de Prestes, Chateaubriand dizia que

ele deixara de ser "o capitão-do-mato" para se transformar "em uma senti-

nela perdida no meio de uma selva de pontos de exclamação". Mais um ma-

nifésto, mais uma implicância com a gramática: "Prestes adjetiva copiosa-

mente e lança ao acaso seus célebres pontos de exclamação. Na falta de

idéias gerais, na ausência de aptidão doutrinadora, o bravo capitão manipu-

la os sinais primários do alfabeto. Estamos às voltas com um movimento bo-

tocudo, na expressão legítima da palavra". Até então ninguém se levantara

em defesa da ANL ou de seu chefe contra as agressões feitas por Chateau-

briand. Bastou, entretanto, ele escrever que "tanto a ANL quanto o comunis-

mo brasileiro são coisas de humoristas malucos, de gente détraqué ", para Ru-

bem Braga dar-lhe o troco que guardava desde a briga com Amoroso Lima.

De Recife, Braga enviou um artigo para A Manha, de Aparício Torelly (já au-

tonomeado "Barão de Itararé" e com seu jornal circulando independente-

mente dos Associados), defendendo Prestes e os demais aliancistas. Conhe-

cendo os humores do ex-patrão, tratou-o todo o tempo pelo apelido que

Prestes, do exílio em que se encontrava, pusera no dono dos Associados:

"Chateaubriand, o Nauseabundo". Ao ler o texto no pasquim humorístico, o

jornalista espumava dentro da redação de O Jornal:

- Eu sempre disse que esse filho da puta era comunista! É assim que

ele agradece as incontáveis vezes que tirei dinheiro do meu bolso para ele

curar suas gonorréias!

Mesmo depois de fechada por decreto do governo, no mês de julho

(com ruidosos aplausos de Chateaubriand), a agora clandestina Aliança Na-

cional Libertadora continuou em plena atividade. Numa chuvosa tarde de

domingo, Chateaubriand encontrou-se na avenida Rio Branco com o inter-

ventor mineiro Benedito Valadares, que, acometido de dor de dente, rodava

pelo centro da cidade à procura de um dentista. Enquanto andavam juntos,

o dirigente mineiro, que já construíra reputação de grande habilidade políti-

ca, expôs ao jornalista as suas preocupações com a desenvoltura de que os

comunistas e seus seguidores desfrutavam, "diante do silêncio cúmplice ou

amedrontado" dos políticos tradicionais. Para Valadares, tal comportamen-

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FERNANDO MORAIS


to iria levar as Forças Armadas a tomar a peito a repressão à ANL, em um pe-

rigoso processo de marginalização dos políticos:

- Não importa se o movimento vai rebentar ou não nos quartéis, mas

desse jeito as forças militares é que tomarão a iniciativa da defesa do regime.

Ou nós, políticos civis, agimos já, com espírito de união nacional, ou perde-

remos o leme do barco. Pense no que estou dizendo.

Não se sabe se aconselhado pelo interventor mineiro, semanas depois

Vargas mandava sua filha e secretária Alzira procurar Chateaubriand. Ela

comunicou-lhe que o presidente queria que Chateaubriand organizasse uma

reunião de grandes empresários - umas quinze ou vinte pessoas - para

ouvir de Getúlio uma exposição sobre a gravidade do momento político,

com a ameaça de uma convulsão social provocada pela clandestina ANL, que

atuava com enorme desenvoltura inclusive dentro dos quartéis. "O patrão

quer que você junte seus tubarões", disse-lhe a irônica Alzira, "para uma

conversa grave sobre a tempestade que se avizinha." Chateaubriand propôs

que o encontro fosse realizado na casa do conde Modesto Leal. Depois de

consultar o pai sobre o local sugerido, Alzira voltou com sinal vermelho:

- Na casa do Modesto Leal o patrão acha demais. Ele disse que é para

você arranjar alguém mais liberal.

O encontro acabou acontecendo em um almoço organizado pelo jorna-

lista na casa de Guilherme Guinle. Segundo o relato brevíssimo que Cha-

teaubriand fez da reunião, Getúlio apenas os advertiu de que uma invasão

russa do Brasil estava sendo planejada para dali a algumas semanas, e nada

mais. O depoimento de Alzira Vargas dá conta de que o que houve no almo-

ço promovido por Chateaubriand (ao qual ela esteve presente) foi "um en-

frentamento entre o presidente e os tubarões". Interessado no apoio dos em-

presários para as mudanças trabalhistas em curso - que na opinião de

Getúlio seriam o mais eficiente antídoto contra o extremismo comunista -,

"o que o presidente ouviu deu-lhe náuseas". Os homens que controlavam

parcela expressiva da economia do país não tinham qualquer contribuição,

qualquer idéia a oferecer - só tinham queixas a fazer sobre o despropósito

das leis trabalhistas e sobre o rigor dos fiscais do Ministério do Trabalho. "O

anfitrião, por cortesia ou por não concordar com eles, manteve-se calado",

contaria Alzira muitos anos depois. "Vargas desinteressou-se da conversa e

despediu-se pouco depois. No automóvel, de volta, depois de um longo e

penoso silêncio, mastigando as palavras, disse ao ajudante-de-ordens que o

acompanhava, o capitão-tenente Ernani do Amaral Peixoto: 'Eu estou ten-

tando salvar esses burgueses burros e eles não entenderam'."

Chateaubriand ainda faria outra tentativa - esta menos enriquecedora

do seu currículo - de ajudar Getúlio a enfrentar a maré montante. Pouco an-

tes de 27 de novembro, quando explodiria em três quartéis do Rio a frustra-

da revolta chefiada por Prestes, a chamada Intentona Comunista, o jornalista


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


encontrou-se com Pedro Ernesto, interventor no Distrito Federal. Tenentista

ferrenho e dirigente do Clube Três de Outubro, Pedro Ernesto não escondia

as simpatias com que via o crescimento da ANL, mas na conversa com Cha-

teaubriand economizava prudentemente as opiniões sobre o momento polí-

tico. O jornalista provocou-o revelando informações sobre a suspeita que o

governo já tinha de que havia estrangeiros no país comandando a agitação:

- Os aliancistas falam muito em consciência proletária, não é? Meu

caro interventor: para haver consciência proletária será preciso primeiro ter-

mos uma consciência burguesa no Brasil, para que aquela se oponha a esta.

Pedro Ernesto só olhava. Chateaubriand prosseguia, caudaloso:

- Vamos ver se há consciência proletária. Na hora que os mujiques que

Moscou mandou para cá derem a ordem de iniciar a guerra, você vai contar

nos dedos o número de células civis que se levantarão ao lado do capitão

Prestes.


Provocado, Pedro Ernesto reagiu com um discurso emocionado a favor

da Aliança Nacional Libertadora e de Prestes, para encerrá-lo com uma fra-

se de efeito:

- As massas estão com Luís Carlos Prestes. Você verá como elas vão se

levantar a uma ordem dele.

Chateaubriand ficou impressionado com o aparente envolvimento de

seu interlocutor com os comunistas - afinal, aquele era Pedro Ernesto, te-

nentista, homem de confiança do presidente, interventor no Distrito Federal.

Dias depois desse encontro, Vargas de novo convocaria o jornalista ao Cate-

te para pedir-lhe que publicasse um artigo no La NAción, comentando a visita

oficial que o presidente brasileiro fizera à Argentina. Encerrada a pauta do

encontro, Getúlio segurou-o para conversar, fazendo-lhe uma pergunta vaga:

- E aí, Chateaubriand, o que há de novo?

Desde que Vargas fora eleito em 1934 (indiretamente, pela Constituin-

te) presidente constitucional do Brasil, o jornalista substituíra, em seus arti-

gos, o tratamento de "ditador " que conferia a Getúlio por outro - "ex-dita-

dor " -, mas pessoalmente dirigia-se a ele como "presidente". A resposta a

uma pergunta genérica foi tão grave e séria que até o impassível Getúlio ar-

regalou os olhos:

- Presidente, o que há de novo é que Pedro Ernesto assumiu a chefia

do movimento comunista que está para estourar.

O olhar de Vargas parecia ainda mais incrédulo:

- Mas Chateaubriand, que provas me dás da participação do prefeito

na campanha subversiva em curso?

O jornalista tinha na ponta da língua o que entendia por "chefiar o mo-

vimento comunista" :

- Ele entregou o Teatro São Pedro à Aliança Libertadora para que ela

o transformasse em foco da pregação vermelha.


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FERNANDO MORAIS


Vargas parecia preocupado, mas ainda desconfiava dos exageros de

Chateaubriand :

- E o que mais?

- Há dias ele disse a mim que, a um sinal de Prestes, as massas se le-

vantarão contra o governo.

O ministro da Fazenda, Souza Costa, que assistia à conversa, começou

a ficar constrangido com aquela história. Olhava para Chateaubriand e batia

no relógio, chamando-lhe a atenção para o tempo da audiência, que se esgo-

tara. O jornalista, aparentemente preocupado em não parecer um delator,

quis esclarecer o sentido de suas palavras:

- Presidente, não pense que estou aqui fazendo um libelo contra Pedro

Ernesto. Estou advertindo-o, porque o senhor pode livrar seu interventor no

Distrito Federal de ser vítima de um atentado por parte de oficiais mais exal-

tados, devido às ligações ostensivas dele com as esquerdas agressivas. Na

minha opinião, Pedro Ernesto já é um homem ao mar.

Não obstante o ceticismo com que o presidente ouvia aquelas denún-

cias, pelo menos em uma coisa Chateaubriand tinha razão: Pedro Ernesto es-

tava envolvido até a raiz dos cabelos com os revoltosos. Além de arranjar di-

nheiro para ajudar a financiar a máquina revolucionária que o Partido

Comunista montara no Rio, depois do fracasso da revolta comunista (que

Chateaubriand batizaria de "intentona", nome adotado para sempre pela di-

reita para referir-se ao movimento) o interventor ainda tentaria conseguir

um "aparelho" clandestino para esconder os fugitivos Luís Carlos Prestes e

Olga Benario. E se ele já era "um homem ao mar", como o jornalista dizia te-

mer, não seria pelas mãos das "esquerdas agressivas" que o interventor su-

biria na prancha do navio: na onda repressiva chefiada por Filinto Müller

após a frustrada revolta, até Pedro Ernesto, destituído do cargo, iria parar na

cadeia.


Uma tarde, em meio a uma roda de jornalistas, ao ver uma foto de pre-

sos políticos sendo levados para um navio-prisão, Chateaubriand comentou

com Astrojildo Pereira (um dos fundadores do PC, que tinha sido expulso

do partido e não participara da revolta):

- O senhor acha que estes sujeitos com essas caras de idiotas tinham

condições de governar o país?

Eram seus desafetos, mas Astrojildo não deixou a grosseria passar em

branco:
- Doutor Assis, todo derrotado tem cara de idiota.

A maré de prisões que cobriu o país só causou um pequeno susto em

Chateaubriand: uma noite ele chegou a O Jornal para escrever seu artigo e

soube que o linotipista Umberto Porta tinha sido preso sob suspeita de fazer

parte de uma base de gráficos do Pc. Irritado, sem encontrar alguém que pu-

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CHATÔ, O REI DO BRASIL


desse ler seus garranchos e transformá-los em composição tipográfica, tele-

fonou para Filinto Müller:

- Ou o senhor liberta o Umberto ou os Associados vão denunciar a re-

pressão política nas edições de amanhã.

Porta voltou a trabalhar na mesma noite. Apesar de tudo o que fez con-

tra os aliancistas, comunistas e seus seguidores, Chateaubriand lamentaria,

meses depois, ter tido "uma participação muito tímida na denúncia daque-

les tarados". A razão disso, segundo suas próprias palavras, é que ele esta-

va ' com o pensamento fixo no projeto que iniciara um ano e meio antes,

durante a conversa com o homem da ANL, e que só se concretizaria dois me-

ses antes da revolta de novembro de 1935: a entrada dos Associados na era

do rádio.

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Por um desses misteriosos e inexplicáveis artifícios contábeis dos Asso-



ciados, a Tupi foi projetada para ser implantada em São Paulo, sua matriz ju-

rídica ficava na capital paulista, mas na hora de instalar a rádio propriamen-

te dita Chateaubriand decidiu-se pelo Rio de Janeiro. A caótica administração

dos Associados tinha drenado para a compra de equipamentos e pagamen-

tos de dívidas dos jornais e revistas grande parte dos recursos que Chateau-

briand arrancara de Iman Greenwood, da General Electric, para montar a

primeira estação de rádio do grupo. Assim, para que o sonho se realizasse

foi preciso pagar juros ao conde Modesto Leal e ainda avançar mais uma vez

sobre Abrahão e Samuel Ribeiro, sobre os Martinelli, os Penteado, os Guin-

le. Muito a contragosto, até o conde Matarazzo acabaria se incorporando ao

grupo que Chateaubriand denominava, em seus artigos, de "os novos reis de

Espanha, patrocinadores da aventura em que se meteram esses modestos

Colombos do século xx que sãu os rapazes dos Associados". Graças a esses

milionários, quando Guglielmo Marconi (especialmente convidado por Cha-

teaubriand para a inauguraçãu) apertou o botão que punha no ar a primeira

rádio Associada, a "Tupi, o Cacique do Ar", era a segunda estação mais po-

derosa do continente, só perdendo, em potência, para a Rádio Farroupilha,

inaugurada semanas antes em Porto Alegre pelos filhos do general Flores da

Cunha. Em seguida ao gesto de Marconi, o éter foi invadido de norte a sul

do Brasil pelos acordes produzidos pelo orfeão regido pelo maestro Heitor

Villa-Lobos.

Mas, menos de dois anos depois, Chateaubriand voltava a vestir casaca

e cartola para a festança de lançamento de sua segunda rádio, a Tupi de São

Paulo. Ao batizar também ela com um nome indígena, Chateaubriand ini-

ciaria uma interminável série de "Tamoios", "Potis" e "Tupãs", fruto de sua

paixão pelos índios brasileiros, até apelidar toda a rede de "taba Associada".

E o recorde que ele não tinha conseguido superar no Rio seria quebrado em

São Paulo: ao ser inaugurada, em 1937, ostentando três estúdios e um enor-

me auditório, a Tupi paulista era a rádio mais potente da América Latina,

com 26 quilowatts em seu transmissor, superior até à dos gaúchos. Além

dessa capacidade de broadcasting, que lhe permitia ser ouvida em ondas cur-

tas mesmo fora do país, o que dava prestígio a uma estação, no nascimento


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


do rádio no Brasil, eram os shows de grandes artistas, transmitidos ao vivo,

diretamente dos estúdios. Só que grandes artistas custavam dinheiro, e as

despesas para instalar duas rádios tão potentes em tão pouco tempo tinham

raspado o fundo dos cofres Associados. Foi então que Chateaubriand suge-

riu a Joaquim Rolla, dono do Cassino da Urca, no Rio, e a Alberto Bianchi,

dos cassinos Atlântico e do Guarujá, no litoral paulista, um negócio que se-

ria bom para todos: as duas rádios Tupi dividiriam com cada uma das casas

de espetáculos o custo do cachê de todo artista estrangeiro que viesse ao Bra-

sil - e em troca disso o músico, além de abrilhantar as noitadas no cassino

que o convidara, faria shows nas duas estações. Só assim foi possível à Tupi

apresentar a seus ouvintes astros do prestígio de Josephine Baker, Agustín

Lara, Martha Eggert, Pedro Vargas, Dajos Bella e Lucienne Boyer.


Como o rádio ainda era uma atividade que engatinhava no Brasil (a pri-

meira estação só tinha sido inaugurada em 1923, no Rio de Janeiro), era na-

tural que os anunciantes e patrocinadores também fossem reticentes em co-

locar seu dinheiro em algo que parecia muito aventureiro e tão impalpável

- ao contrário dos jornais e revistas, em que eles estavam habituados a ver

o anúncio impresso. Tanto era assim que até para levar para as rádios Tupi

uma artista como Carmen Miranda, com todo o prestígio internacional de

que desfrutava, foi difícil arranjar patrocinador - "a não ser alguns amigos

que, por simples deferência pessoal conosco, se dispunham a fazê-lo, diria

Chateaubriand. Ainda assim, o jornalista não faria menção ao fato de que

um dos mais fortes patrocinadores das apresentações da "Pequena Notável"

era o Laboratório Licor de Cacau Xavier, empresa que o próprio Chateau-

briand comprara meses an