O que o jornal de hoje nos traz? reflexões acerca do discurso sobre o autismo na mídia



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O que o jornal de hoje nos traz? - reflexões acerca do discurso sobre o autismo na mídia

Vanessa Ferraresi

Ao analisarmos o que foi veiculado sobre o Autismo na mídia (impressa, televisão e internet) ao longo desse últimos anos, deparamo-nos com uma profusão de matérias e programas que deliberaram a respeito da criança autista e sobre o que é melhor para ela em termos de tratamento. Devido à dificuldade de ser autora de uma fala acerca de como gostaria de ser tratada, a sociedade - familiares e especialistas - argumenta a respeito do que julga ser o caminho adequado para enfrentar o autismo.

Tal confronto assumiu diversos contornos, passando pelo treino de habilidades e pela “bioquímica do autismo” (titulo de um artigo publicado este ano no The New York Times), mas duas questões pareceram recorrentes ao acompanhar o conteúdo veiculado na mídia: qual o melhor tratamento para o autismo? e, ainda, que abordagem teórica possui o arcabouço científico eficaz no tratamento do TEA?

Escolhi para o Colóquio um recorte do debate. Acompanharemos a discussão em um jornal paulista de grande veiculação, e com versão digital, Folha de São Paulo, e, a partir disto, abordaremos o estatuto de verdade absoluta que a ciência assumiu na contemporaneidade e as implicações na compreensão da criança autista.

A controvérsia foi desencadeada pela publicação de “Autismo e psicanálise”, de Nilde Jacob Parada Franch, presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. O artigo veio a público em 13 de setembro de 2013, na coluna Tendências/Debates do jornal, e reafirma a psicanálise como uma alternativa ao tratamento do autismo. Entre outros pontos a autora salienta o fato de a mídia ignorar contribuições desta abordagem no que se refere ao diagnóstico e tratamento e aponta que programas televisivos exibidos na época “não disponibilizaram à população um rol completo de informações sobre o tema, enfocando apenas em uma das formas de compreender o transtorno.”. Mais adiante no texto, Franch argumenta:

“Sobre os métodos de tratamento, o que mais se vê em reportagens sobre o tema é o comportamental, com abordagens em torno de ‘dar independência’ à criança, ensinar tarefas simples e ‘controlar a agressividade’. Raramente se fala sobre o tratamento ter como foco a criança e seu bem-estar, simples assim. A ênfase na necessidade de a criança autista se enquadrar em um modelo de comportamento tido como normal prevalece, deixando de lado a busca pelos sentidos que os sintomas expressam e que ajudam a compreender o papel da doença não apenas para a criança (...)”

No dia seguinte, 14 de setembro, uma pequena carta do chefe de setor de Neurologia Infantil da Unifesp e presidente da Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil, Luiz Celso Vilanova, é publicada no jornal com o título “Leitor aponta escassez de trabalhos científicos sobre autismo e psicanálise”. Segue a reprodução integral do texto:

“No artigo Autismo e psicanálise (Tendências/Debates, ontem), Nilde Jacob Parada Franch opina que a psicanálise contribuiu muito para o tratamento do autismo e reclama que a mídia ignora isso. Não quero fazer uma análise subjetiva do tema, mesmo porque serviria só para polemizá-lo. Mas, se fizermos um levantamento1 no PubMed, que cataloga trabalhos com respaldo científico no mundo todo, encontraremos mais de 24 mil trabalhos publicados abordando o tema autismo. Por outro lado, se cruzarmos as palavras autismo e psicanálise, encontraremos somente 40 trabalhos, dos quais menos da metade foram publicados na última década. Acredito que a pouca atenção da mídia ao tema reflete apenas uma tendência do pensamento dos cientistas e médicos diante da questão.”

Aqui o desinteresse da mídia pela abordagem psicanalítica do autismo é associado à quantidade de publicações encontradas no cruzamento dos verbetes autismo e psicanálise pelo PubMed, um recurso de pesquisa desenvolvido e mantido pelo Centro Nacional de Informações sobre Biotecnologia (NCBI), na Biblioteca Nacional de Medicina dos EUA (NLM). Tal site, que possui vasto banco de dados e incluem os campos da biomedicina, saúde, ciências do comportamento, ciências químicas e bioengenharia, parece se constituir como indicador de qualidade de um certo modelo de cientificidade.

Em 25 de outubro de 2013 outro texto é publicado fazendo referência ao artigo de Franch. Seu título é “Análise do comportamento e autismo” e tem como autores Daniel Del Rey (psicólogo e mestre em análise do comportamento pela PUC-SP), Denise Vilas Boas (doutoranda em analise do comportamento pela PUC-SP e vice-presidente da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental) e João Ilo (doutor em ciência do comportamento pela Universidade Federal do Pará e presidente da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental).

Este escrito salienta que anteriormente “o autismo foi visto como resultado de problemas emocionais e o tratamento recomendado era a genérica psicoterapia”, mas que o progresso das neurociências, da genética e da psicologia possibilitaram a conclusão que o autismo é “um problema de desenvolvimento”, que segundo o raciocínio apresentado nada tem a ver com o emocional. A partir de tal descoberta, corroborada pelo DSM, os autores pontuam:

“O foco das intervenções passou então a ser educacional, visando a desenvolver e aprimorar habilidades e repertórios necessários para o bem-estar e a inserção social do autista. Foi nesse cenário que a tecnologia de ensino e de aprendizagem compreendida na ABA (análise comportamental aplicada) se sobressaiu e se tornou o tratamento privilegiado para pessoas com quadro do espectro autista. Isso se deve ao fato de a ABA historicamente ter se mostrado eficaz, e não pela propaganda de supostos benefícios.”

A ABA é definida aqui não como um método, mas como uma “abordagem científica que examina a interação do sujeito com o seu entorno” e, portanto, revestida da credibilidade da ciência. Mais adiante encontramos a seguinte afirmação:

“Sua tecnologia de intervenção é efetiva porque articula um referencial teórico-conceitual sólido e dados empíricos robustos. Os métodos são embasados em estudos - atendimento em consultório e acompanhamento terapêutico no ambiente em que o cliente vive possibilitam a identificação de suas necessidades e o seu desenvolvimento. Basta consultar o banco de dados de periódicos como o "Jaba" (Jornal da Análise Comportamental Aplicada, na sigla em inglês) e os mais de 200 artigos sobre o autismo ali publicados para se conhecer os avanços científicos obtidos na área. ”

De maneira análoga à carta de 14 de setembro, aqui também um banco de dados de periódicos reconhecidos cientificamente por uma comunidade é evocado para testemunhar a solidez e robustez da ABA e, consequentemente, sua qualificação para tratar “clientes” com transtorno de espectro autista.

Del Rey, Vilas Boas e Ilo concluem alertando que o autismo é um transtorno grave, que deve ser cuidado precocemente, de forma adequada e pelos profissionais adequados (psicólogos comportamentais especializados, médicos, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais). Por fim afirmam:

“A preocupação com a eficácia do tratamento é legítima. Famílias, órgãos governamentais e a sociedade precisam estar cientes dos riscos que despender tempo e recursos com propostas sem eficácia comprovada cientificamente representam. Tratamento inadequado pode resultar em consequências devastadoras para o desenvolvimento social, acadêmico e afetivo do autista. ”

Menos de um mês depois, em 19 de novembro de 2013, foi divulgado outro texto que se reportava ao artigo de Franch e também ao de Del Rey, Vilas Boas e Ilo. A autora é Vera Regina Fonseca, psiquiatra, diretora científica da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e pós-doutora em psicologia experimental pela USP. No início de “Questão complexa, abordagem ampla”, Fonseca sinaliza:

“A psicanálise não nega que o autismo seja um problema de desenvolvimento, no qual fatores genéticos estão envolvidos. Concebemos o desenvolvimento como um processo não-linear complexo. Ainda que os genes tenham um papel, a sua expressão se dá na interação com o ambiente, como bem ilustram os estudos de epigenética. No autista, o resultado é uma dificuldade básica em se relacionar com as pessoas, o que o impede de usar a ligação com os pais para a regulação emocional e de se desenvolver no formato relacional, adquirindo um ‘radar social’ como baliza.

Um dos argumentos da réplica é que as estereotipias do autismo se devem à falta de repertório e de integração. Existe tal déficit, mas ele é secundário ao prejuízo central na capacidade de se relacionar. Ainda não se conseguiu demonstrar um defeito genético específico que cause os sintomas: o déficit social é o cerne, e várias das sintomatologias são consequentes ao mesmo.”

Fonseca, ante à afirmação de Del Rel, Vilas Boas e Ilo de que patologias graves não podem ser tratada por abordagens não comprovadas cientificamente argumenta:

“Há certamente dificuldades metodológicas para desenhar pesquisas longitudinais que comprovem o resultado de psicoterapias. Mas elas não são insuperáveis, o que é mostrado por vários estudos em curso, um deles conduzido na própria Sociedade de Psicanálise. Além disso, o método do estudo de caso foi e continua sendo de extrema importância nas ciências médicas; há mais de 230 artigos nesse molde na base de dados do "Psychoanalytic Electronic Publishing". (...)

A psicanálise não pretende ser o único caminho para a abordagem dos transtornos autísticos; tal postura seria religiosa e contrária à sua natureza científica. Mas também não é admissível uma ‘religião’ que determine a exclusão da psicanálise de um campo no qual ela tem 90 anos de experiência, já que Melanie Klein trabalhou com sucesso uma criança autista na década de 20, antes até da descrição feita por Leo Kanner.”

Em 27 de novembro de 2013 “Análise do comportamento no autismo” é publicado sem fazer alusão a nenhuma dos artigos anteriores mas, como observaremos nas passagens destacadas, agregando ingredientes à disputa pelo melhor método no tratamento do TEA. A autora é Maria Martha Costa Hübner, professora livre docente da USP, representante da Association for Behavior Analysis International (ABAI), sócia da Associação Brasileira de Análise do Comportamento (ACBr) e ex-presidente da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental.

Hübner pretende dar um fim ao debate entre análise comportamental e psicanálise no tocante ao tratamento do autismo, trazendo à tona o que, em suas palavras, mais importa “dados comprovando a eficácia de um tratamento”. E afirma que o restante da discussão é retórica ou debate político, elementos que não interessam à ciência nem às milhões de famílias que sofrem. Seguindo o objetivo anunciado, são expostos dados que atestariam a irrefutável qualificação científica que recobre a ABA:

“O estudo pioneiro da análise do comportamento é de I. Lovaas (1988), em que 19 crianças de 4 a 5 anos, diagnosticadas com autismo, foram submetidas à 40 horas de atendimento (hoje conhecido como Tratamento Precoce Intensivo); dois anos depois, o Quociente de Inteligência (QI) dessas crianças havia aumentado 20 pontos em média, chegando próximo ao considerado normal, que é 85; nove dessas crianças aumentaram em 30 pontos seu QI, ficando acima do normal, e foram inseridas em sala de aula regular. Crianças com o mesmo diagnóstico que não foram submetidas ao tratamento intensivo em ABA não apresentaram melhoras, e o QI permaneceu em torno de 50.”

Outro aspecto evidenciado pela professora diz respeito à assistência dada aos pais de autistas, pois a ABA ensina os familiares a ensinar seus filhos e demonstra eficácia para treinar uma variedade de habilidades.

“Aproximadamente 75% das crianças com TEA apresentam deficiência intelectual e desenvolvimento atípico de habilidades relacionadas à aprendizagem. Portanto, o TEA é uma síndrome comportamental e, como tal, requer um analista do comportamento que ensine comportamentos à pessoa. Relacionar-se com o outro, um dos déficits do espectro autista, é comportamento e pode ser ensinado. Não basta ser compreendido ou contemplado.”

Hübner ressalta ainda a questão da legislação norte americana como legitimadora da eficácia da ABA, caminho que o Brasil começa a percorrer:

“Dada a comprovada eficácia da análise do comportamento, nos Estados Unidos existem leis federais que exigem terapia ABA para que o tratamento para o autismo possa ser financiado pelos cofres públicos. É o que começa a acontecer no Brasil, e daí os debates acirrados sobre o tema.”

Ao finalizar o texto, a autora sublinha o estatuto de ciência e, portanto, de método eficaz, da ABA:

“A análise do comportamento aplicada ao autismo, por focar no ensino de habilidades, traz, obviamente, bem estar à criança e a seus familiares, pois o bem estar é dado a uma criança e à sua família quando a criança aprende a falar, a ler, a sorrir funcionalmente e a se relacionar com o outro. O bem estar está diretamente relacionado a habilidades que podem ser aprendidas e é isso justamente o que a análise do comportamento faz: dar o bem estar à pessoa autista e a seus pais, por meio do ensino de capacidades fundamentais ao seu estar no mundo, que se dá pela aplicação da ciência da análise do comportamento.”

Os recortes dos artigos apresentados2 ilustram o debate que coloca em lados opostos as psicoterapias e as teorias cognitivo-comportamentais. Agora nos cabe levantar algumas perguntas na intenção de tentar desvelar o que se esconde no não enunciado do discurso que se pretende possuidor da verdade sobre o autismo. Por que, ao argumentar sobre sua validade, reveste-se do nome da ciência como algo supremo? Por que delimitar e definir uma única verdade no tratamento do autismo? Por que frente ao enigma da infância, no caso a infância com problemas representadas pela criança autista, impera a necessidade de uma resposta que seja toda e definitiva?




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