O objetivo deste artigo é discutir sobre a vivência da dialética exclusão-inclusão por jovens universitários de baixa renda



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SOUSA, L. M. de & SOUSA, S. M. G. Jovens Universitários de Baixa-Renda e a Busca pela Inclusão Social Via Universidade.

JOVENS UNIVERSITÁRIOS DE BAIXA-RENDA E A BUSCA PELA INCLUSÃO SOCIAL VIA UNIVERSIDADE
LOWER-INCOME COLLEGE STUDENTS AND THEIR SEARCH FOR SOCIAL INCLUSION THROUGH HIGHER EDUCATION
Livia Mesquita de Sousa1

Sônia M. Gomes Sousa2

RESUMO


Este artigo analisa a situação de jovens universitários de baixa-renda, moradores de casas estudantis, como um processo de busca por inclusão. Os jovens têm buscado na universidade, antes de tudo, uma melhor inserção social. Essas reflexões são desenvolvidas a partir de uma pesquisa realizada com estudantes que moram em casas estudantis na cidade de Goiânia-GO, por meio de questionários, leitura de documentos, grupos focais e observações nas casas durante as visitas para contato com os moradores. À luz da dialética exclusão-inclusão (SAWAIA, 2001), compreende-se que os universitários de baixa-renda tentam superar uma história de exclusão em busca de uma vida melhor. Com a perspectiva de inclusão futura no mercado de trabalho, vivem uma nova exclusão na universidade por serem considerados estudantes de baixa-renda, dependentes da assistência estudantil para a manutenção do curso.

Palavras-Chave: Psicologia social, dialética exclusão-inclusão, juventude, universidade e casas estudantis

ABSTRACT

This article analyzes the situation of lower-income college students, living in rooming houses, as a process of searching for social inclusion. Youth searches for higher education aiming for a better social insertion. These reflections are developed with the basis on a research accomplished with students in Goiânia. The research was carried out through questionnaires, document analysis, focal groups, and observations. Considering the exclusion – inclusion dialectic (SAWAIA, 2001), it is comprised that lower-income college students try to overcome a history of exclusion looking for a better life. Working for a future inclusion in the labor market, they live a new exclusion at the university because they are considered only as lower-income college students who depend on student financial aid.

Key Words: Social psychology, lower-income college students, university, exclusion-inclusion dialectic, rooming houses

Como parte do Mestrado em Psicologia da Universidade Católica de Goiás (SOUSA, 2005), foi realizada uma pesquisa3 sobre os significados e sentidos das casas estudantis para seus moradores. Essa pesquisa foi realizada em Goiânia, onde há atualmente quatro casas para estudantes universitários, totalizando aproximadamente 220 moradores. Em primeiro lugar, foi aplicado um questionário em 114 sujeitos, que representaram 53% do total da população de moradores em Goiânia. Após esse procedimento inicial, outros procedimentos metodológicos foram realizados: leitura de documentos relacionados ao tema da moradia estudantil; observação das casas durante as visitas para contato com os moradores; e realização de dois grupos focais com moradores selecionados dentre aqueles que responderam ao questionário.

Neste artigo, serão utilizadas algumas informações, colhidas nos procedimentos realizados, buscando construir uma discussão sobre a juventude universitária de baixa-renda e sua busca pela inclusão social, tendo a universidade como o caminho escolhido. Por meio do questionário aplicado, constatou-se que esses estudantes, sujeitos da pesquisa, estão em sua maioria (58,8%) na faixa etária de 18 a 24 anos, o que levou à busca pela discussão da temática da juventude em geral e, particularmente, dos jovens universitários.



Após uma discussão inicial sobre a relação entre os jovens universitários em situação de baixa-renda e uma breve análise da universidade brasileira no momento atual, serão apresentadas informações sobre os sujeitos pesquisados, caracterizando-os como estudantes em condições de vida tais que os definem como pleiteantes a serem atendidos pela assistência universitária4. Posteriormente, discute-se a casa do estudante como uma via de inclusão social que acaba se transformando em uma outra forma de exclusão.

JUVENTUDE E UNIVERSIDADE: ENCONTROS E DESENCONTROS

Buscou-se compreender o jovem a partir de alguns aspectos fundamentais. A sua inserção em um modelo global de sociedade e suas ideologias, ou seja, na sua cultura que também faz parte de sua constituição psicossocial. Dois fatores apontados por Vygotsky (1996) capacitam o jovem a sentir-se membro de sua classe social e dela participar: a vivência na sua comunidade, comungando de atividades e interesses, e o uso de conceitos que permitem conhecer essas atividades e interesses, partilhando a ideologia de sua classe. Segundo Vygotsky (1996), os conceitos se desenvolvem inevitavelmente dentro de uma determinada ideologia social.

O jovem apresenta uma plasticidade psíquica como característica. Passerini (1996, p. 367) chamou de polimorfismo o elemento mais marcante da experiência social dos jovens, que ela define como diferente de multiplicidade, pois não é que os jovens variem simplesmente quanto a gênero, etnia, educação, classe, religião, mas há neles “a disponibilidade para assumir diversas configurações, incluindo aquelas que a própria cultura define como irremediavelmente outras”. Essa plasticidade se deve ao fato de o jovem estar vivendo um processo de transformações, um outro aspecto de grande importância para o entendimento do jovem.

Esses aspectos da juventude, como sua inserção em sua cultura e ideologias e uma maior plasticidade devido às transformações por que está passando o jovem, levam este a uma espécie de renovação de seus interesses e aspirações. O que na infância era muito interessante passa a despertar menos atenção e outros temas tornam-se chamativos. Além disso, o próprio pensamento sofre grandes transformações em sua forma de funcionar. Para Vygotsky (1996), no amadurecimento intelectual do jovem não muda apenas o conteúdo do pensamento (material totalmente novo e ligação a esferas novas da cultura, como política, justiça, profissão, ética, ciência e ideologia), mas também mudam e se enriquecem as próprias funções intelectuais, as formas do pensamento, a estrutura e composição de suas operações intelectuais. Isso significa que na juventude o pensamento pode operar logicamente com conceitos, uma mudança que representa uma formação psíquica qualitativamente nova (VYGOTSKY, 1996).

Em meio a todo o desenvolvimento biológico e cultural do jovem, as mudanças em seu pensamento permitem que ele possa conhecer também sua realidade interna, ter auto-percepção e auto-observação. Estabelece-se de modo mais efetivo a divisão entre o mundo das vivências internas e o mundo da realidade objetiva. O desenvolvimento da consciência para um estado de autoconsciência permite que as vivências internas e o mundo da realidade objetiva sejam crescentemente mais discriminados. Dessa forma, a juventude é o momento em que se pode falar de uma personalidade, ao mesmo tempo em que se pode falar de uma visão de mundo, embora ainda em processo de desenvolvimento (VYGOTSKY, 1996).

A juventude caracteriza-se, então, por um maior domínio do jovem sobre si mesmo e sobre o mundo a sua volta, no sentido de que pode compreender-se melhor e conhecer sua realidade social. Pode, além disso, usar sua vontade, que é considerada por Vygotsky (1996) uma importante função psíquica superior. Dessa forma, o jovem está mais consciente da distinção que existe entre seu mundo interno e seu mundo exterior, o que pode trazer muitos conflitos, mas capacita-o a exercer melhor sua vontade. Isso não quer dizer que não haja diversas determinações agindo sobre essa vontade, mas que ela é uma função sobre a qual se tem muito mais controle do que na infância.

Esses aspectos constitutivos da subjetividade do jovem permitem estabelecer, à luz da teoria de Vygotsky que: a) é a partir da juventude que o indivíduo pode compreender a sua própria inserção na sociedade, em sua classe e na sociedade global; b) o pensamento do jovem ganha em plasticidade, ao operar por conceitos, e ao possibilitar o uso da vontade no encaminhamento de sua vida; e c) as transformações por que passa implicam uma nova consciência de si mesmo e uma visão de mundo.

O jovem apresenta características que o capacitam a fazer escolhas e a tomar decisões sobre suas aspirações e seu projeto de vida. Porém, de certa forma, o jovem contemporâneo vive um paradoxo: por um lado, há uma padronização excessiva de gostos e de atitudes e, por outro lado, a condição de jovem que o define como alguém que possui uma grande plasticidade. Vygotsky (1996) também aponta para o pensamento do jovem como muito mais flexível do que na infância, com possibilidade de ser dialético. Mas nem sempre os contextos nos quais esse jovem se insere contribuem para o desenvolvimento do pensamento dialético, questionador, transformador.

O paradoxo do jovem se reflete em seu encaminhamento para a universidade. Esta é uma instituição que de certa forma promete ao jovem uma abertura a novos conteúdos com a promessa de ensino superior, de diversidade e de universalidade. A universidade supostamente deveria contribuir significativamente para o enriquecimento da nova forma de pensar do jovem, possibilitando transformações pessoais capazes de repercutir na realidade social. Mas é possível perceber que os cursos universitários tendem a se voltar cada vez mais para o atendimento das exigências do mercado de trabalho (CHAUÍ, 2001), e menos para o aprimoramento da capacidade de reflexão, característica presente na juventude.

Os jovens por sua vez parecem buscar na universidade apenas a contemplação de seu desejo de inserção social em detrimento de uma busca pelo auto-enriquecimento cultural. Em especial, os jovens de classe baixa acabam sentindo a universidade como uma via de acesso para a sua inclusão no mercado. O baixo índice (12%) de jovens brasileiros no ensino superior (BRASIL, 2003) faz da universidade uma mediação de grande importância nesse sentido, pois se caracteriza pela possibilidade de diferenciação de um grupo de pessoas em relação à população brasileira. Por vezes, essa diferenciação, em especial para jovens de condições sócio-econômicas pouco privilegiadas, implica distinguir-se da própria família, pelo menos quanto ao grau de escolaridade.

A universidade representa uma possibilidade dos filhos mudarem a sua situação em relação a seus pais. Segundo Rua (1997, p. 05), no Exame Nacional de Cursos de 1997, mais de 60% de graduados tinham mães sem escolaridade superior e mais de 50% tinham pais sem escolaridade superior, “o que sugere um acentuado processo de ascensão educacional intergeracional”. Isso ajuda a entender a aspiração à universidade como a busca por uma vida diferente das condições anteriores, não apenas em relação à situação financeira, mas também quanto ao nível cultural, já que a maioria dos pais dos sujeitos pesquisados tem baixa escolaridade.

A universidade representa a busca por uma vida melhor, o que, por sua vez, significa uma inserção no mercado de trabalho que possibilite um maior poder aquisitivo. Essa representação da universidade condiz com o seu novo papel, segundo Chauí (2001), ou seja, o adestramento para a mão-de-obra. Isso é vivido pelos universitários como a realização de um futuro que está sendo construído durante o curso universitário. Almeida (2004, p. 58), em uma pesquisa com estudantes da UNESP sobre as representações dos universitários quanto aos ideais da juventude, encontrou a “preparação da vida profissional” como uma das principais aspirações.

Queiroz (2001) realizou uma pesquisa que, embora não seja com universitários, traz luz sobre essas questões. Utilizando uma metodologia que mesclou observações, entrevistas, redações dos jovens, a autora, após constatar que a maioria dos alunos da escola pesquisada é de trabalhadores com baixo nível salarial, buscou apresentar aspectos da subjetividade dos jovens pesquisados. Assim, encontrou que o trabalho e a escola são sentidos como intrinsecamente ligados: precisa trabalhar para poder estudar e precisa estudar para ter um emprego melhor. A escola representa a esperança de um futuro melhor para si e em relação ao passado e ao presente de seus pais.



A pesquisa de Queiroz (2001) levanta uma questão importante que é a forma como o estudo é vivenciado pelos jovens. Numa sociedade em que um número elevado de crianças ingressa na escola, mas que uma parte bem menor chega a fazer um curso superior, aqueles que se mantêm na escola, com todo o esforço que isso implica, consideram que é através dos estudos que se pode chegar a conquistar um lugar nessa sociedade. Num levantamento feito em Goiânia, em 2001, constatou-se que 71,3% dos jovens pesquisados, entre 15 e 24 anos, dizem que freqüentam a escola por acreditarem que ela representa uma garantia do futuro profissional (QUEIROZ et al., 2002).

No presente estudo, foi perguntado aos sujeitos se suas expectativas em relação ao seu curso estavam sendo atendidas. Essa pergunta era seguida por uma solicitação de justificativa. Dos 85 sujeitos (74,5%) que justificaram a resposta, 26 sujeitos (30,5%) fizeram referência à vinculação do curso ao trabalho, aprovando ou desaprovando as aulas práticas, os estágios e a própria possibilidade de inserção no mercado de trabalho. Como as expectativas não foram definidas a priori na pergunta, considera-se que a preocupação com o trabalho foi representada de modo espontâneo pelas justificativas.

Os sujeitos da pesquisa, jovens em sua maioria, vêem na universidade o caminho de construção de seu futuro. É importante enfatizar que isso ganha uma dimensão mais significativa, quando se trata de jovens de baixa-renda, que vêm de uma história de exclusão: dificuldades financeiras, precariedade na formação escolar, baixa escolaridade dos pais. Em relação a esses jovens, a universidade ganha um contorno especial, pois é o lugar aonde se chega com mais dificuldades. Os jovens universitários que necessitam de assistência estudantil, são ao mesmo tempo “privilegiados”, pelo acesso a bens culturais e maior possibilidade de inserção profissional, e “desprivilegiados”, por não terem as condições mais adequadas para o exercício pleno de sua condição de jovens.



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