O mundo Secreto do Opus Dei



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VI. O ESPÍRITO DO OPUS

As Constituições proporcionam a letra, mas, não necessariamente o espírito de uma organização. As Constituições mais recentes do Opus não entram em detalhes da vida espiritual de um membro, nem nas práticas de penitência, possivelmente, porque é evidente que a regra não podia permanecer secreta ou simplesmente porque um documento constitucional não era o lugar apropriado para tal informação. A Constituição de 1950 o fazia, e ainda, é a melhor descrição do que ocorre no Opus Dei. (À parte, possivelmente de ‘Praxe’, um livro que estabelece em todos os pormenores como os membros devem viver. Segundo um antigo membro, inclusive regulava o número de lenços e cuecas que alguém podia possuir. Desgraçadamente, é um volume escorregadio.)

A Constituição de 1950 proporcionava as estruturas, estabelecia as obrigações dos membros e o que fariam. Todavia, não explicavam o motivo, nem o porquê fazê-lo, salvo em termos muito gerais. Estas práticas externas requerem algum respaldo interno que têm que vir de alguma parte. Sua fonte mais evidente é, certamente, Caminho, que contém 999 máximas ou conselhos, embora não está claro o porquê desse número, a menos que seja o número da besta do Apocalipse (666), ao contrário. Além disso, estão também os escritos do fundador acessíveis ao público, e ‘Vidas devotas’ de Escrivá do Balaguer, que começam a aparecer.

Deixando à parte Caminho, a principal fonte de ilustração, para aqueles que não tiveram o privilégio de conhecer e escutar Escrivá em pessoa, é ‘Crônica’, um periódico que circula em privado dentro do Opus. Consiste em provérbios e reflexões do fundador e conselhos, às vezes muito detalhados, sobre como deveriam os membros regular suas vidas espiritualmente. ‘A formação que nos dá no trabalho tende a simplificar nossa vida interior, a nos fazer singelos... deixemo-nos levar como meninos, fazendo-nos como meninos através da fortaleza, rechaçando violentamente a tendência a nos dirigir a nós mesmos’, aconselhava Escrivá nas páginas de ‘Crônica’. Isto explica a extraordinária ingenuidade que encontramos em muitos membros do Opus.

Precisamente cinqüenta das máximas de Caminho encontram-se sob os títulos de ‘Infância espiritual’ e ‘Vida de infância’. ‘O Pai’ era o título com o que Escrivá do Balaguer, como presidente do Opus Dei, preferia que lhe conhecesse, e está claro como preferia ele a seus filhos: ‘Quem é você para julgar o acerto do superior? Não vê que ele tem mais elementos de julgamento que você, mais experiência, mais retos, sábios e desapaixonados conselhos; e, sobre tudo, mais graça, uma graça especial, graça de estado, que é a luz e ajuda poderosa de Deus?’ (máxima 457). O pai sabe mais.

Apesar disto, em seu apostolado o membro do Opus é exortado a “ser varão” – “Então ser” (máxima 4), um homem com vontade, energia, exemplo (máxima 11), cujo lema é ‘Deus e audácia!’ (Máxima 401). Com ambições: de saber... de comandar... de ser audaz (máxima 24). Recorda-lhe que o coração é um traidor (máxima 188), e que é tão formoso ser vítima! (Máxima 175). Que seja intransigente, porque a transigência é sinal certo de não ter a verdade (máxima 394); ser menino não é ser efeminado (máxima 888); ‘Não me seja frouxo, brando’ (máxima 193). Pelo contrário, precisa ser forte porque ‘O plano de santidade que nos pede o Senhor, está determinado por estes três pontos: a Santa intransigência, a Santa coação e a Santa falta de vergonha’ (máxima 387). Não podemos deixar de pensar que, à parte o epíteto ‘santo’, muitos homens na Europa dos anos trinta procuravam, exatamente, estas qualidades as quais recrutavam. Dificilmente é surpreendente que as palavras utilizadas para ‘líder’ e ‘liderança’ em seu pequeno livro de máximas sejam ‘caudilho’ e ‘caudillaje’ (Mandachuva): o general Franco era, certamente, o ‘caudilho’ da Espanha.

Às vezes, Caminho lê-se como um manual de como ganhar amigos e influir outros; ou, através de muito esforço, como obter êxito nos negócios. Ítens sobre penitência e mortificação são uma série de sugestões para o treinamento da vontade, mais que um tratado sobre ascetismo cristão. Muito parecido ao pelagianismo, a doutrina que recebe o nome do monge britânico Pelágio, que ensinou em Roma no final do século IV e início do V. Os pelagianos acreditam que, espontaneamente, os cristãos podem dar os primeiros passos para sua própria salvação. Foi condenado como herege. Sem dúvida, Escrivá não queria chegar tão longe, todavia, a ênfase nas práticas religiosas e na confiança em si mesmo, às vezes, é muito parecida.

De fato, as passagens de uma natureza mais espiritual não impressionam pela profundidade de sua compreensão. As palavras ‘Opus Dei’ são, certamente, uma expressão tradicional no culto a Deus na liturgia da Igreja; em especial, a mescla de orações, salmos e demais passagens das Escrituras e as seleções de escritores cristãos primitivos recitados por monges, monjas e sacerdotes da Igreja, recebe mais usualmente o nome de ‘Ofício Divino’. Quando Monsenhor Escrivá do Balaguer recomenda a prece litúrgica aos leitores de Caminho, não o entende como um ato de devoção pública, embora ‘Oxalá te afeiçoe a recitar os salmos e as orações do missal, em lugar de orações privadas ou particulares’ (máxima 86); o indivíduo reza solitariamente as orações.

O rosário, as novenas, a água benta, o presépio de Natal, tudo isto forma a maior parte da espiritualidade de Caminho tal como o culto litúrgico. Especialmente, a devoção aos anjos custódios, tanto aos próprios, como aos sacrários nos altares das Igrejas, ou sobre aqueles que alguém quer influir. (‘Obtém do Anjo Custódio aquele a quem quer trazer para seu apostolado. É sempre um grande ‘cúmplice’, aconselha a máxima 563.)

Uma prática piedosa recomendada aos leitores de caminho é a impressionante sugestão, embora, um tanto doentia e teologicamente duvidosa, de colocar diante de si uma cruz simples de madeira e imaginar a si mesmo nela (ver pág. 67). O primeiro requisito do capítulo da Constituição de 1950 dedicado à observância de costumes piedosos’, exige: ‘Onde três ou mais membros vivem juntos como uma família, coloca-se em um lugar apropriado, uma cruz negra sem a figura do Crucifixo. Em dias de festa da Invenção e Exaltação da Cruz deverá adornar-se com coroas de flores desde a primeira hora até a véspera’ (parágrafo 234). ‘De manhã até a noite’, mais exatamente traduzido ‘desde prima até vésperas’, a primeira hora e as últimas ‘horas’ seguintes, ou divisões do ofício divino. As festas da ‘Invenção’ (comemoração do descobrimento da cruz por Santa Helena, mãe do imperador Constantino) e ‘Exaltação’ são as festas importantes do calendário do Opus, que celebram-se em 3 de maio e em 14 de setembro, respectivamente.

Enquanto, que nem Caminho nem a Constituição de 1950 do Opus Dei evidenciam uma compreensão espiritual profunda por parte de seu autor, criam um estilo de espiritualidade reduzido às práticas externas nas quais é fácil encontrar segurança. As práticas, em sua maior parte, pretendem ser relativamente simples de observar em meio a uma vida profissional ocupada. Deve-se ao gênio de Monsenhor Escrivá a invenção de uma forma de vida, especialmente, conveniente para a burguesia, a crescente classe média espanhola dos anos quarenta em diante.

Além das indicações sobre liderança e auto-disciplina, o Caminho contém muito conselho espiritual que consolaria qualquer homem de negócios que pretendesse ser um bom cristão, enquanto fizesse carreira no mundo. A ‘caridade’, por exemplo, não consiste tanto em ‘dar’ como em ‘compreender’ (máxima 463). Inclusive dar presentes de bodas aos membros da própria família ficava excluído, e não devia dar esmola aos pobres. Todavia, instigavam fazer amizades com os ricos para solicitar donativos. John Roche recorda que encorajavam os membros neste ‘apostolado de não dar’.

É condição humana ter em pouco o que pouco encosta. Essa é a razão de que te aconselhe o ‘apostolado de não dar’. Nunca deixe de cobrar o que for eqüitativo e razoável pelo exercício de sua profissão, se sua profissão for o instrumento de seu apostolado’ (máxima 979).

Os benefícios da profissão dos membros, certamente, vão parar nos cofres do Opus Dei. Antigos membros recordam que raramente havia uma reunião em uma casa do Opus que não terminasse com uma coleta.

O apostolado é o critério. Para os homens de negócios que se demoram demasiadamente, em um almoço de negócios, traz-lhes o consolo: recomenda-lhes o ‘apostolado do almoço’ (máxima 974). Mas, evitarão o provável embaraço de misturar-se com convidados inadequados. Espera-se dos membros do Opus que exerçam seu apostolado, principalmente, entre seus iguais (Constituição de 1950, parágrafo 186). Além disso, espera-se que mantenham um nível de vida de acordo com sua categoria profissional: em questão de pobreza não deve haver uniformidade entre os membros. Inclusive as lojas nas quais as distintas categorias compram a roupa estão classificadas segundo o nível dentro do Opus, afirma Vladimir Felzmann: as categorias superiores compram nas lojas de alta classe; as inferiores, em especial as mulheres auxiliares, em rede de lojas de armazéns baratos.

As mulheres recebem um tratamento injusto de Escrivá: há uma veia fortemente anti-feminista em Caminho. ‘Não é necessário serem sábias: basta que sejam discretas’ diz a máxima 946. Todavia, insinuam que a discrição pareça-lhes uma virtude muito difícil de conseguir. Uma parte separada da Constituição de 1950 dedicava-se à seção de mulheres (prática abandonada na nova Constituição), na qual não se contempla que as mulheres cheguem a uma grande superioridade. As tarefas que Escrivá anotou no parágrafo 444 eram firmemente tradicionais. Esperava-se que os membros femininos do Opus Dei assumissem tarefas como as de dirigir casas de retiro; publicassem ‘propaganda’ católica (‘escrita com a ajuda dos editores’); trabalhassem em livrarias ou bibliotecas; instruíssem outras mulheres e ‘instigassem-nas em modéstia cristã’ promovendo a educação de garotas –embora aparentemente só em escolas de um só sexo–, ensinassem as mulheres camponesas, tanto a destreza apropriada, como os preceitos cristãos; preparassem faxineiras para o trabalho doméstico, empenho principal para os membros femininos do Opus e uma significativa fonte de recrutas. E também tinham que cuidar das capelas (parágrafo 445).

De grande importância para a boa regulamentação de toda a organização, as mulheres tinham que ocupar-se da administração de todas as casas do Instituto. Entretanto, deviam viver em lugares ‘radicalmente’ separados, de modo que em realidade existiam duas casas na mesma residência (parágrafo 444.7). Aos membros femininos do Opus não era, nem é permitido, reunir-se com os varões mais privilegiados. O temor de Escrivá à promiscuidade era tal que se estabeleceram as regras mais rigorosas para proteger a proibição de misturar-se. No “Notherhall House”, a residência universitária de Londres em Hampstead, portas duplas separam as duas casas e fecham-se ritualmente toda noite.

Ambas as seções do Opus Dei seguem, mais ou menos, as mesmas práticas referentes às suas vidas espirituais. A cruz nua já mencionada. Além disso, cada membro da organização tem em sua habitação uma imagem da Virgem Maria – recordará que Escrivá do Balaguer estava tão desejoso de ter uma para si, que se arriscou a sair de seu esconderijo em Madrid republicano–. Inclusive uma peregrinação anual a um santuário da Virgem encontra-se entre as práticas devotas e se faz cada sábado uma coleta para flores nas casas, para decorar a estátua de Maria

Todos os membros levam o escapulário carmelita –rememorando parte do hábito de uma ordem religiosa e normalmente característico–. Converteu-se também, em sua forma mais reduzida e simbólica, em uma devoção católica pela qual quem o leva se associa aos privilégios espirituais de uma ordem particular. Normalmente, para poder acessar a tais privilégios o escapulário tem que ser outorgado por um membro da ordem cujo hábito recorda, ou por alguém, especificamente, designado para este propósito. A prática de vestir os membros da Ordem com o escapulário carmelita chega até os primeiros dias do Opus, mas em 1946 Alvaro do Postigo solicitou formalmente ao Vaticano permissão para fazê-lo sem a conversão em membros da confraternidade carmelita, o qual, disse, seria uma carga para eles. A permissão foi concedida.

As práticas penitenciais inclusas no parágrafo 260 da Constituição de 1950: ‘O piedoso costume de castigar o corpo e reduzi-lo a servidão levando um pequeno cilício durante pelo menos duas horas por dia, disciplinando-se ao menos uma vez por semana e dormindo no chão, manterá fidelidade, levando-se em conta tendo somente a saúde da pessoa’.

Os ‘instrumentos de mortificação’ são dados aos membros em sacos marrons. Um antigo membro sustenta que davam a meninos com apenas quinze anos de idade. Dizem aos jovens que a quantidade de mortificação infligida pode aumentar com a aprovação de seu diretor espiritual. Explicam que o sangue do Escrivá salpicava as paredes do quarto de banho, tal era a ferocidade com que se golpeava.

Um relatório do jornal católico de Liverpool, o ‘Catholic Pictorial’, de 27 de novembro de 1981, descrevia a incorporação de garotas jovens à organização. Iniciavam, gradualmente, as ‘mortificações’ praticadas pelos membros do Opus Dei. Aconselhavam beijar o chão ao levantar-se assim que batiam na porta pela manhã; tomar ‘duchas frias e observar longos períodos de silêncio’; levar os cilícios –uma corrente com pontas agudas– ao redor da coxa durante um período de duas horas ao dia (exceto aos domingos e dias festivos) ‘e açoitar as nádegas com um látego de corda uma vez à semana’.

Atualmente estas práticas ainda existem dentro do Opus. É parte essencial da formação espiritual de seus membros. O modo em que Escrivá se açoitava é, evidentemente, uma questão de orgulho para os membros. Com a crescente opinião da psicologia insana destes atos basicamente masoquistas, foram silenciosamente excluídos do comportamento habitual de outras ordens religiosas.

Açoitar-se semanalmente, ou com mais freqüência como uma disciplina; levar uma corrente com puas; beijar o chão ao levantar-se; o ‘ grande silêncio’ depois das orações da noite, até depois de tomar o café da manhã seguinte; um ‘silêncio menor’ por um período prolongado depois do café da manhã (algumas ordens religiosas muito conhecidas e respeitadas acostumam exigir o silêncio como modo ordinário de comportamento, exceto durante as horas formais de recreio, ao menos de seus noviços); e, inclusive, em algumas das ordens mais rigorosas, dormir no chão, ou sobre pranchas foram prática comuns em outro tempo. Não são encontradas com tanta freqüência, embora, não seja algo a respeito que os monges e monjas estejam dispostos a falar. Talvez, só as ordens de clausura ou as contemplativas mantenham ainda hoje tais práticas. Parecem ter desaparecido os hábitos penitenciais das ordens ativas como os jesuítas ou os pasionistas. Em outras palavras, o Opus ficou onde estava, enquanto, outras organizações mudaram suas práticas para adaptarem-se às novas interpretações sobre o dano psicológico causado.

Muito menos sensacional que a disciplina penitente do Opus, e chamando menos a atenção, embora possa ser bastante mais prejudicial, é a exigência de que ‘cada semana todos os membros falem de forma familiar e em confiança com o diretor local, de modo que possa se organizar e fomentar uma melhor atividade apostólica’ (parágrafo 255).

As ‘confidências’ são uma parte importante das estruturas do Opus, tanto que são considerados não só como um dos ‘costumes piedosos’, mas, recomendados como uma das ‘obrigações devotas’ que os membros têm. Diz o parágrafo 268, ‘é uma conversação aberta e sincera’ com o diretor, de modo que os superiores tenham conhecimento ‘mais claro, mais completo e mais íntimo’ dos membros; que os superiores se assegurem através dela que os membros têm uma constante vontade para a santidade e para o apostolado, de acordo com o espírito do Opus Dei’, e de modo que exista uma íntima expansão de ânimos e compenetração entre subordinados e superiores. ‘Crônica’ as descrevia como segue:

Na confiança em nossa relação com nosso superior, uma sinceridade sem ambigüidades nem circunlóquios, sinceridade crua quando é necessário... O padre nos recorda: ‘Filho prudente, o dia em que esconda alguma parte de sua alma ao diretor, terá deixado de ser um menino, porque terá perdido sua ingenuidade.’

Estas ‘confidências’ destacam-se amplamente sempre que conversamos com ex-membros. Supõem ser uma ajuda para o progresso espiritual de um indivíduo, um meio pelo qual o diretor chega a conhecer, intimamente, aos que estão a seu cargo. Portanto, conclui-se serem muito detalhadas. Maria do Carmen Taipa recordava que se esperava que os membros informassem seus diretores sobre sua vida sexual e seus problemas, embora a palavra ‘castidade’ era preferida a de sexo. Isto era certo inclusive nas mulheres casadas que eram membros super numerários

Nada disto ocorre sob o que os católicos chamam ‘secreto na confissão’; o compromisso de segredo absoluto (até a morte, se for preciso; a Igreja tem mártires para prová-lo) pelo que se revela a um sacerdote no sacramento da confissão. Terá que recordar que os diretores não são clérigos. É provável não terem sequer a mínima formação em técnicas de assessoramento, nem em escutar confissões, as quais supõem-se que os sacerdotes recebam no seminário. Por exemplo, Vladimir Felzmann tinha vinte e dois anos quando recebeu um cargo em ‘Netherholl’, e deste modo, converteu-se em diretor dos membros do Opus vinculados a ele. Poderia ser, especialmente dotado, mas, dificilmente, teria maturidade e sabedoria para guiar aos que estavam a seu cargo.

A prática da ‘confidência’, mais usualmente conhecida como ‘manifestação de consciência’, era antigamente um elemento importante da vida das ordens religiosas, embora se praticava geralmente com uma periodicidade anual ou semestral, e não semanal, como para os membros do Opus. Entretanto, estava tão evidentemente exposta ao abuso, que foi proibida pela Igreja católica já em 1890. A proibição formou parte do Direito Canônico da Igreja e era muito explícita. Estava incluída no cânone 530 do Código de Direito Canônico de 1917, em vigor quando Escrivá insistia na ‘confidência’ ou manifestação de consciência como um dos deveres, não um extra opcional, dos membros do Opus. O que é ainda mais estranho que a Constituição de 1950 recebesse a aprovação do Vaticano.

Os superiores do Opus Dei não têm que contar só com a confidência para conseguir informação sobre seus subordinados. Existe também o círculo. Como a manifestação de consciência, o círculo ou capitulo de faltas tem uma larga tradição histórica nas ordens religiosas da Igreja. Os membros de uma comunidade reunem-se em círculo (daí o nome) acusando-se por faltas contra a disciplina religiosa e a vida em comum. É uma experiência muito penosa para os escolhidos serem submetidos a tal humilhação sob a aparência de melhorar sua vida espiritual. Por outro lado, existe a correção fraterna, justificando a interpretação do Novo Testamento. Descobrindo-se alguma falta em outro, primeiro pede permissão a seu superior, e depois fala com o membro que cometeu a falta com a esperança de que se corrija. Então, informa-se o superior de que se efetuou a ‘correção fraternal’. Realizar tais coisas, diz Felzmann, era considerado como uma prova de zelo; efetuavam-se pressões afim de descobrirem faltas.

Para os membros do Opus, os círculos têm periodicidade semanal. Concentram-se não só nos defeitos pessoais, mas também em quanto avançou no apostolado cada indivíduo presente –o que significa até que ponto os membros pescaram’ (a palavra é do Opus') novos recrutas, ou mantiveram e desenvolveram contato com aqueles que já picaram–. Qualquer um que tenha falhado neste apostolado é severamente repreendido, se não imediatamente, mais tarde, quando a pessoa encarregada do círculo informou ao diretor.

Tanto círculos, como confidências, têm lugar no que a Igreja considera como o ‘foro externo’. Até certo ponto são públicas, porque a informação assim reunida sobre um indivíduo é utilizada pelos superiores para o que consideram o próprio bem do indivíduo, ou do instituto. Mas, também existe a prática semanal da confissão estabelecida como uma obrigação para os membros: ‘Que cada sacerdote faça uma confissão sacramental semanal ao sacerdote que lhe seja atribuído’ (parágrafo 263). Nesta regra –segue dizendo–, como exige a lei da Igreja, os membros podem ir a qualquer sacerdote que escolham, sempre que tiver a aprovação do bispo, e não precisa informar a confissão aos superiores do Opus.

Essa é a regra. Entretanto, a inclinação ante o sentido da lei canônica, o conselho de Escrivá do Balaguer aos membros do Opus o expressa de forma bastante distinta:

Todos meus filhos têm a liberdade de confessarem-se com qualquer sacerdote aprovado pelo ordinário [chamado de Crônica] e não estão obrigados a dizer aos diretores da Obra o que têm feito. Peca a pessoa que não faz isto? Não! Tem um bom espírito? Não... Está a caminho de escutar o conselho de maus pastores.

Irão aos seus irmãos os sacerdotes como eu vou. E lhes abrirão seus corações de igual para igual, podres se o estiverem!, Com sinceridade, com um profundo desejo de curarem-se. Caso contrário, essa podridão nunca se curaria... Fazendo isto de forma equivocada, procurando um doutor de segunda mão, não mais que alguns segundos de seu tempo, não podem utilizar o bisturi, nem cauterizar a ferida; também prejudicando a Obra. Fazendo isto, teriam o espírito equivocado, seriam infelizes. Não pecariam por isso mas, ai de vós! Começariam desencaminhar-se’.

Equivale dizer aos membros que, na prática, a confissão com um sacerdote que não seja do Opus é proibida. E não só a confissão. Uma mulher que pretendia deixar o Opus, foi ver Vladimir Felzman. Não era questão de sacramento da penitência; necessitava conselho e o deu. Ao voltar para a residência, entretanto, ela se sentiu incomodada por falar com um sacerdote que não era do Opus sem permissão e contou a sua diretora o que fizera. A diretora enfureceu-se e, imediatamente, proibiu-lhe receber a Sagrada Comunhão durante um período de duas semanas. Surpreende-nos com perplexidade, baseada em que autoridade podia tomar tal medida. A mesma diretora, chegou mais tarde a pensar, que atuou com muita dureza e o castigo reduziu-se a uma semana de abstinência.

A referência a um ‘doutor de segunda mão’ (classe?) na passagem citada anteriormente, indica a atitude do fundador para o clero que não formava parte de sua própria organização. Recordemos que pôs em funcionamento a Sociedade Sacerdotal de Santa Cruz, porque não confiava à sacerdotes que não fossem do Opus a formação dos membros nos termos em que ordenava. Maria do Carmen Taipa recorda fazendo, certamente, a extraordinária afirmação de que seria melhor morrer sem os últimos sacramentos, do que recebê-los das mãos de um jesuíta. A desconfiança de Escrivá para os que não estavam sob sua influência era profunda.

Como não deixei advertir, o mal vem de dentro [a Igreja] e de muito acima. Há uma autêntica podridão e, às vezes, parece como se o Corpo Místico de Cristo fosse um cadáver em decomposição, que fede... Peçam perdão, meus filhos, para estas ações desprezíveis feitas na Igreja e de cima, corrompendo as almas quase desde a infância’ (Crônica).

Acrescentou: ‘Nosso Senhor nos escolheu para que sejamos seus instrumentos nestes momentos tão difíceis para a Igreja. ‘

Sobre o tema dos sacerdotes, mais que dos prelados, e sua qualificação como confessores, disse a seus ‘filhos’: ‘Têm a liberdade de confessar com quem querem, mas, seria uma loucura colocá-los em outras mãos que, possivelmente, se envergonham de estar consagradas. Não podem confiar.’ É um conselho que se aproxima muito ao rechaço do ensino católico fundamental, que se remonta ao menos até Santo Agustín no início do século V, de que nem a ortodoxia doutrinal, nem a santidade pessoal exigem-se aos que administram os sacramentos.

Escrivá estava obcecado com o sacramento da confissão, tanto para os membros do Opus como para a Igreja em geral. Assim, quando escreveu: ‘A função santificadora do laico necessita da função santificadora do sacerdote que administra o sacramento da penitência, celebra a Eucaristia e proclama a palavra de Deus em nome da Igreja’. É digno de menção que ponha o sacramento da penitência primeiro; a maioria dos teólogos católicos, se não todos, puseram primeiro a celebração da eucaristia.

Entretanto, não era tanto o significado teológico do ensino de Escrivá sobre o sacramento da penitência que era e é inquietante, como o impacto psicológico que exercia sobre aqueles submetidos a ela. A confissão no Opus converte-se em uma importante forma de controle social. Seu uso pelos membros do Opus é restrito na prática aos sacerdotes, membros por sua vez do Opus; utilizado para inspirar sentimentos de culpabilidade por não poder viver de acordo com os ideais mais altos e prejudicar, desse modo, toda a instituição.

O capítulo sobre a confissão em ‘Crônica’ foi lido por um sacerdote jesuíta, o padre Brendan Callaghan, um psicólogo clínico perito em tratar com membros de instituições religiosas que sofrem desordens psicológicas. As notas que preparou para este livro expressavam seu crescente alarme. Algo desta inquietação surgiu estritamente das questões teológicas, e também da confusão urdida entre ‘nosso Pai, significando Deus e ‘nosso Pai’, significando Escrivá do Balaguer. Há, por exemplo, uma constante utilização do Evangelho de João, capítulo 10, versículos 1–19, a história do bom pastor e do redil, como se o redil fosse o mesmo Opus; os maus pastores que roubam e matam, fossem sacerdotes que não são do Opus, que pudessem ser abordados por membros da Instituição. “Li esta passagem de Crônica do princípio ao fim várias vezes –comentava Brendan Callaghan–, porque acreditei que estava ficando paranóico. Todavia, é a única interpretação que tem sentido... Esperava que o mau pastor era um termo aplicado ao ‘espírito maligno’, entretanto, não tive sorte.” A propósito, esta é a versão de Escrivá da passagem do Novo Testamento. A História não identifica os ladrões e destruidores aos pastores.

No parágrafo citado mais acima de que não é pecado ir a um sacerdote que não seja do Opus, mas, qualquer um que o faça está ‘em caminho de ouvir a voz de um mau pastor’, Callaghan comenta: isto quer dizer que as pessoas têm má fé, algo que encontrei dentro do Opus em seu tratamento com jovens e na oração, um planejamento extremamente manipulador.’

Observou de maneira áspera o aforismo, ‘o temor filial é a porta ao amor’. ‘De certo modo resume todo o enfoque do Opus, não é assim? –Comentou–. É uma pena que não tenha nada a ver com o Evangelho’ Constantemente misturando a paternidade de Escrivá com a de Deus, é impossível determinar se o temor filial é para Deus, ou de um membro do Opus para o fundador. A confusão entre os dois é proposital, uma opinião que Maria do Carmen Taipa, com seus muitos anos como membro do Opus Dei, corrobora.

As conseqüências sobre os membros da organização formados em uma sociedade singularmente devota, fechada e estritamente controlada, são devastadoras quando sugeridas em forma de simbiose entre a vontade de Deus e a vontade do fundador, o qual ensinam venerar. Colocam-os sob uma enorme pressão psicológica, protegidos como estão ante qualquer objeção de gente fora de seu grupo. ‘Em nossa docilidade –dizia ‘Crônica’ aos membros– não haverá limites.’ Tem que ser obediência tanto de coração como de mente, porque libera os membros de uma ‘independência estéril e falsa... que deixa o homem na escuridão quando abandona seu próprio julgamento’.

Essa é a ideologia de submissão a qual os membros se submetem por meio de seus três votos, ou equivalente a ‘fidelidade’, como o Opus prefere chamá-la. E as confidências, os círculos e o sacramento da penitência são meios para reforçá-la. Dadas as regras, extremamente restritas, impostas pela Igreja sobre o secreto confessionário, a confissão sacramental ficaria, é obvio, fora da estrutura. Todavia, como vemos pela insistência em que vão somente a um confessor do Opus, isso não é assim. Violou-se alguma vez o segredo de confissão? Possivelmente, não diretamente, mas, Vladimir Felzmann, relata um incidente inquietante. Depois de algum tempo como numerário laico, foi ordenado e voltou para a Inglaterra, onde escutou as confissões dos membros. Um dia foi visitado por oficiais de maior classe social do Opus Dei. Disseram-lhe, que chegou a notícia de que alguém lhe confessou pecado (como eles o entendiam) de homossexualidade, e que, entretanto, Felzmann não informou Roma. Isso, assinalou Felzmann, é violação do segredo de confissão. Os oficiais reconheceram, a contra gosto, todavia, disseram-lhe que deveria persuadir a pessoa em questão, sob pena de não receber a absolvição de seu pecado real ou suposto, voltasse a ele, ou fosse a outra pessoa fora do confessionário em forma de confidência, de modo que a informação pudesse ser utilizada. Felzmann protestou até chorar, dizendo que isso seria, tecnicamente, interpretado como uma violação do segredo. Os altos membros não aceitaram e lhe repreenderam duramente por sua falta de lealdade à organização.

De forma bastante curiosa, em meio as reflexões de Escrivá sobre a confissão, aparece o seguinte:

Uma firme resolução: o primeiro sacrifício é dar e não esquecer em toda nossa vida, a expressão Castelhana de um modo muito gráfico: os trapos sujos lavam-se em casa. A primeira manifestação de sua dedicação é não ser tão covarde para ir fora da Obra lavar trapos sujos. Isso é se querem ser Santos. Senão, não são necessários aqui.”

Novamente aparece a chantagem moral, mas esta não é a razão para citar esta passagem. A utilização de Escrivá do equivalente castelhano de ‘não lavar a roupa suja em público’ –incluso, aparentemente, no confessionário (não confiava em que os clérigos que não eram do Opus guardassem o segredo?) Esclarece que uma de suas preocupações dominantes era algo secreto da organização, algo que não se devia violar, sequer no sacramento da penitência.

Embora, negará, energicamente, ser uma sociedade secreta, o segredo, ou a ‘discrição’, como os membros preferem chamá-lo, é um de seus emblemas. Na entrevista com Peter Forbarth, Escrivá repudia a acusação.

Qualquer pessoa razoavelmente bem informada sabe que não há nada secreto sobre o Opus Dei –disse–. É fácil chegar a conhecer o Opus Dei. Trabalha a plena luz do dia em todos os países com o reconhecimento jurídico pleno das autoridades eclesiásticas e civis. Os nomes de seus diretores e de suas empresas apostólicas são bem conhecidos. Qualquer um que deseje informação pode obtê-la sem dificuldade’.

Tudo isto é difícil aceitar. A entrevista ocorreu em 1966 quando ainda prevalecia a política de não fazer cópia completa das Constituições, acessíveis sequer aos bispos, que tinham casas do Opus em sua diocese. Muito depois, a entrevista de Henry Kamm com o sucessor de Escrivá, Monsenhor Álvaro do Postigo, foi descrita pelo professor Eric Hanson como “um bom exemplo de quão pouca informação uma organização disciplinada pode dar aos meios de comunicação, se assim o decidir”. A razão fundamental para ser secreto é o apostolado. A falta de discrição, diz o parágrafo 191 da Constituição de 1950, “resultaria um sério obstáculo para a obra apostólica; criaria problemas dentro da família natural de um membro; e para dar continuidade em seu ofício ou profissão”. (Disposições similares se estabelecem na nova Constituição, ver parágrafo 89.) O que é secreto dá cobertura, exatamente, explica depois: os membros do Opus devem guardar silêncio sobre os nomes de outros membros; não podem revelar que eles mesmos pertencem ao Instituto sem permissão explícita, mesmo acreditando que ajudaria à difusão do mesmo; em especial, não se devem revelar os nomes daqueles que tenham ingressado recentemente ou que, por qualquer razão, saíram recentemente (parágrafo 191). Para manter este segredo não deve haver nenhum emblema especial (parágrafo 192). Os membros não devem tomar parte como grupo em ofícios religiosos, tais como, procissões (parágrafo 189). Observa-se, inclusive, em uma missa pública para comemorar o aniversário da morte de Escrivá: embora pequenos grupos de numerários e outros membros plenos podem sentar-se juntos, os homens e as mulheres separados, claramente, é obvio, não há ostentação pública de que são membros, nem solidariedade. Não obstante, esta solidariedade é bastante evidente depois da missa, quando os membros se reunem no átrio da igreja.

Os códigos não são revelados e a conversação sobre temas do Opus Dei, com pessoas que não sejam membros é proibida (parágrafo 190). As mesmas Constituições são mantidas em segredo, junto a qualquer documento publicado ou que vá publicar-se. As Constituições são impressas somente em latim: sem a permissão de Escrivá não serão traduzidas em nenhuma língua moderna. As mesmas restrições acostumavam aplicar-se às Constituições dos jesuítas e de outras ordens religiosas: compartilhavam aos membros com as palavras “AD usum tantum nostrum” (Somente para ‘nosso uso’). Hoje em dia, todavia, são facilmente acessíveis a qualquer um que pergunte.

Um dos deveres de um diretor local é velar para que a Constituição seja plenamente observada. Por mais estranho que pareça, o diretor ou a diretora deviam fazê-lo sem acesso à própria Constituição, pelo menos até a publicação da edição de 1982. Dos ex-membros entrevistados, unicamente Maria do Carmen Taipa, disse tê-la visto, com permissão para estudá-la, sob as mais restritas condições, mesmo sendo, naquela época, diretora da seção de mulheres na Venezuela.

Em Caminho, todo um grupo de máximas, do número 639 (‘De calar não te arrependerá nunca; de falar, muitas vezes’) até 656 inclusive, são dedicadas à virtude da ‘discrição’. Também aqui, como na Constituição de 1950, é considerada como um instrumento do apostolado. ‘Se cala –escreve Escrivá na máxima 648–, obterá mais eficácia em seus empreendimentos de apóstolo.’ ‘Não revele, facilmente, a intimidade de seu apostolado’ (máxima 646), os pais não compreendem que está tentando recrutar seu filho ou sua filha para o Opus. ‘Em alguns casos –escreveu o sacerdote do Opus padre Andrew Byrne, no ‘Daily Mail’ de 14 de janeiro de 1981–, quando um jovem diz que quer ingressar, aconselhamos que não diga a seus pais. Porque os pais não nos compreendem’.

Certamente, uma das exigências do Opus é que seus membros numerários, homens e mulheres, tenham doutorados ou sejam capazes de consegui-los. Ajusta-se à educação e, especialmente, à educação universitária; Escrivá do Balaguer vangloriava-se de ter passado a maior parte de sua vida em Universidades e ao redor delas. Pensávamos que a educação liberal, supostamente, transmitida nas Universidades, abrandasse a dura disciplina e a mentalidade fechada da organização; entretanto, brevemente, descobrimos, com um sacerdote do Opus, que isto não acontece.

Em seu relatório ao sínodo diocesano de 1985, o reitor do seminário da diocese de La Rioja acusou ao clero do Opus de ‘ir à caça de heresias’ (ver mais atrás, págs. 89–90). E prosseguia dizendo:

[a] classe de sacerdote que o Opus nos oferece é dificilmente adequada para nossa gente, não o é para o atual período pós-conciliar do Vaticano II. Assim vemos nos sacerdotes que pertencem à Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz e a quem conheço, os seguintes defeitos, que é difícil saber como remediar: há um individualismo explícito na oração, na liturgia, na colaboração diocesana e inter-paroquial... Acreditam pertencer à ‘raça de Melquisedec’, a noção da ‘dignidade’ do sacerdote prevalece sobre o serviço. Mostram um tradicionalismo ideológico e retrógrado que tem pouco que ver com a noção de sacerdócio proposta no “Presbyterorum ordinis” (o documento Vaticano II sobre o sacerdócio) na prática manifesta-se pela forma em que seguem fiéis às ‘tradições’ e repudiam, sistematicamente, algo que cheire a ‘ornamento’ por seu temor a enfrentar-se com os sinais dos tempos e por sua falta de compromisso para a gente comum e o apostolado social.’

Não há, absolutamente, nada surpreendente nisto. Escrivá estava decidido que seus ‘filhos’ fossem bem educados; era educação de uma classe especial: ‘Cultura, cultura! Bom: que ninguém ganhe em ambicioná-la e possui-la. Mas, a cultura é meio e não fim’ (máxima 345). Para estar seguros de que a instrução de seus membros era conforme os propósitos do Opus, estabeleceram-se centros de estudo cujos instrutores fossem sacerdotes escolhidos ‘não só por seu saber, mas, também por suas virtudes e prudência’ (Constituição de 1950, parágrafo 131). O plano de estudos incluía latim, grego, filosofia, teologia e música eclesiástica, ‘junto com conhecimentos de nosso Instituto’, apesar do fato de que as Constituições não seriam acessíveis aos estudantes (parágrafo 134).

Os estudos em filosofia e em teologia, como também o ensino a estudantes [que não são do Opus Dei] nestas disciplinas, serão dados por professores que estejam, totalmente, de acordo com o método, o ensino e os princípios do doutor angélico, e estes [método, ensino e princípios, presume-se] devem ser tidos por sagrados’.

Diz o parágrafo 136. O Doutor Angélico, como já vimos, é, certamente, São Tomás de Aquino. O ‘tomismo experimentou um grande ressurgimento no século XIX, que durou pelo menos até a metade do século XX, embora, às vezes, de um modo bastante humilhante. Escrivá do Balaguer não era o único em 1950 em fomentar o estudo de São Tomás, mas, com a rigidez de pensamento característica do Opus, insiste em uma interpretação extremamente ‘ortodoxa’ (no sentido eclesiástico) de Tomás. Não são toleradas outras opiniões.

Quando o jornalista Henry Kamm foi à Universidade de Navarra (o estabelecimento vitrine intelectual do Opus) reunir dados para um artigo no ‘New York Time’, o catedrático do departamento de Filosofia reconheceu que naquele local não havia marxistas, nem sequer simpatizantes do marxismo. Disse ao Kamm que os estudantes utilizavam qualquer livro da biblioteca, embora admitiu que havia algumas exceções, destacando entre elas as obras marxistas. Mas, havia outras restrições; Kierkegaard, por exemplo (um jovem suicidou-se, aparentemente, depois de entregar-se a Kierkegaard), Schopenhauer era ‘muito pessimista’ e Sartre ‘não muito adequado para estudantes jovens’. ‘As prateleiras de filosofia –observou Kamm– estão quase uniformemente divididas entre o permitido e o proibido, incluindo no último Spinoza, Kant, Hegel, Kierkegaard, Nietzsche, Heidegger, John Stuart Mill e William James’.

A lista é interessante. Apóia-se no ‘index librorum Prohibitorum’ (Índex de livros proibidos), uma lista de todas as obras que o Vaticano desaprovava porque eram, aos olhos dos censores, contrárias ao credo da Igreja ou prejudiciais para a moral. Aos católicos lhes proibia lê-los sem a permissão explícita do bispo local, um regulamento muito ignorado. O ‘Index’, em qualquer caso, desapareceu faz muito tempo, abolido por decreto papal do Paulo VI. Parece que o Opus está decidido a conservá-lo, embora Roma acredite que o mundo católico pode prescindir desse grau de controle do pensamento. Realmente, o Opus vai ainda além destas medidas: o filósofo e psicólogo William James nunca foi proibido.

Não é simplesmente que a Universidade de Navarra foi lenta em colocar-se em dia, porque a última edição da Constituição do Opus reitera o papel do ‘Doutor Angélico’. Quando os temas de leitura permitidos aos membros do Opus são estritamente controlados, como atestam ex-membros que assim é, de acordo com a máxima 339 do Escrivá (‘Livros: não os compre sem te aconselhar de pessoas cristãs, doutas e discretas’), é difícil explicar o parágrafo 109 da nova Constituição:

O Opus Dei não tem opinião própria nem postura comum em nenhuma questão teológica nem filosófica em que a Igreja dá aos fiéis liberdade de opinião: os membros da prelatura, dentro dos limites estabelecidos pela hierarquia da Igreja que defende o depósito da fé, gozam da mesma liberdade que outros católicos.’

O Opus, é obvio, não é o único que adota uma posição fortemente tradicional sobre matérias teológicas, embora o Opus seja mais tradicionalista que a maioria. Na Páscoa de 1986, Germain Grisez, um professor muito conservador de ética cristã em um pequeno colégio de Maryland, foi convidado à Roma. O Opus Dei e o Instituto para a Família, vinculado à Universidade Lateranense, pediram-lhe que pronunciasse uma conferência, depois da qual devia assistir a uma reunião pública organizada pelo Opus em seu centro de estudos em Roma. As opiniões de Grisez, ultra-ortodoxas para muitos, foram consideradas não o suficientemente ortodoxas para o Opus na exposição feita na conferência. O convite do Opus foi prontamente retirado. Grisez decidiu, não obstante, apresentar-se à reunião encontrando a sala fechada para ele. Foi convidado pelo reitor do ‘Colégio Inglês’ próximo, e deu ali sua conferência.

Com o Papa atual, a ‘restauração’ de antigas ortodoxias converteu-se em um programa importante, dirigido pelo cardeal prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Josef Ratzinger. Em um programa assim, o Opus, metido em uma missão similar na Espanha nas três décadas que seguiram à vitória de Franco, encaixa-se perfeitamente. Em nenhum local está mais amplamente demonstrado como no caso da teologia da liberação.

Esta nova perspectiva sobre a teologia pode ter suas raízes no pensamento religioso acadêmico europeu, mas, foi desenvolvida primeiro no Peru nos anos sessenta. Em 1968 houve uma reunião do CELAM –Conferencia de Bispos latino-americanos– em Medellín, Colômbia. Seu propósito era pôr uma roupagem latino-americana às conclusões do Vaticano II, que tinha terminado exatamente três anos antes. Os rascunhos dos documentos preparados em Medellín eram, na verdade extraordinariamente radicais para o momento, especialmente, quando tratavam o problema das relações da Igreja com as condições da América Latina sob as que tinha que trabalhar.

Suas conclusões incitam um pequeno grupo de clérigos peruanos que estudaram juntos na Universidade e trabalharam juntos na Ação Católica. Seu líder, que chegou a ser sacerdote e com o tempo publicou ‘a gramática’ da Teologia da Liberação, era o padre Gustavo Gutierrez

Ao mesmo tempo, entretanto, houve no Peru uma espécie de invasão de sacerdotes e monjas. Em sua maior parte chegaram dos Estados Unidos, embora alguns procediam da Europa, e a maioria estudava durante o Vaticano II. Nem as Igrejas que os enviavam, nem as que os recebiam, tinham idéia de como preparar estes missionários para seu trabalho no Peru. Foram às zonas mais pobres, porque era ali onde havia mais necessidade. Rezavam missa, mas também ajudam melhorar as condições daqueles entre os quais trabalhavam. Era um bom momento para estar no Peru: o regime do Velasco Alvarado, embora um governo militar, era basicamente progressista. As oportunidades estavam ali, porém, os sacerdotes e as monjas, com Gutierrez e seu grupo encabeçando, começaram a refletir sobre o que estavam fazendo em nome da Igreja. Como agora diriam, a prática (eles a chamam ‘praxe’) veio primeiro, a teoria depois. A teoria surgiu como a teologia da liberação.

Esta tendência deixou o Opus isolado. Segundo Peten Hughes, um sacerdote irlandês que encabeçou uma vez um grupo de missionários que trabalhavam nos bairros mais pobres de Lima, antes da conferência de Medellín, o Opus se considerava uma força poderosa na Igreja peruana. Mas, não tinha, absolutamente, idéia do que acontecia aos camponeses peruanos. Na euforia engendrada pelo Medellín, o Opus sentiu-se marginalizado, porque, como vimos, estava já em desacordo com as mudanças produzidas pelo Vaticano II. Entretanto, as eleições do CELAM de 1973 inclinaram claramente para a direita a organização, o que deu ao Opus uma pausa. Os membros do Opus começaram de novo a fazer sentir sua presença, e a bastante débil Conferência Episcopal do Peru foi incapaz de fazer frente à artilharia anti-aérea que o Opus produzia. A tática era falar de preparar a Igreja para o ano 2000, sem dúvida, uma admirável idéia em si; todavia arquitetada para distrair a atenção dos problemas presentes, abandonar o que estava em marcha, e ignorar a Igreja popular que ia emergindo lentamente.

O Opus tinha uma influência crescente através do CELAM e da Conferência Episcopal do Peru (hoje em dia, ao menos cinco bispos são membros do Opus e outros são simpatizantes, incluído o arcebispo jesuíta Vargas), e através do núncio apostólico. Para a primavera de 1983 o Opus acreditou ter apoio suficiente na Conferência Episcopal para lançar um ataque com todas suas forças sobre a teologia da liberação. Embora tinham, ou pareciam ter, o apoio de Roma, o Opus não ganhou a maioria de votos dos bispos quando se reuniram em Lima. Em uma jogada extraordinária, a Conferência foi chamada a Roma para discutir o assunto ante a Papa João Paulo II. Parecia duvidoso, mas de novo perdeu o Opus, e perdeu de modo decisivo: o alvoroço teve muito a ver com a clara mudança de simpatias no Vaticano para a teologia da liberação. O cardeal Ratzinger, que tinha sido o responsável por uma muito hostil ‘instrução’ a toda a Igreja sobre o tema, escrevia agora um segundo documento muito mais suave. Deste modo o Papa, em uma carta à Conferência Episcopal brasileira, expressou um apoio maior até a data. Segundo Peter Hughes, a hostilidade do Opus para a teologia da liberação no Peru não diminuiu, porém, no momento tem que se contentar escondendo-se nas colunas dos jornais.

Apesar de tais reversos, nada parece sacudir a confiança dos membros do Opus em si mesmos. Estão completamente convencidos de que se acham certos, exatamente como estava seu fundador:

Não somente a Obra não morrerá nunca, nunca será velha... Deus pôs em dia Sua Obra de uma vez por todas, dando-lhe as características laicas e seculares sobre as que tenho escrito nesta carta. Nunca precisaremos nos adaptar ao mundo, posto que ‘nós somos’ parte do mundo. Nem teremos que ir depois do progresso humano porque vós são meus filhos, os que, junto com os demais que vivem no mundo, trazem este progresso com seu trabalho cotidiano.’

O sentido ‘prima facia’ desta entrevista de ‘Crônica’ é que as Constituições, neste caso as Constituições de 1950, eram definitivas, fixa não só durante uma vida, mas também para sempre. Em palavras de Maria do Carmen Taipa, Escrivá disse que sua Constituição era eterna. ‘Crônica’, comparando implicitamente o Opus com a Virgem Maria, escreve: ‘Conforme fomos conhecendo a Obra, cativou-nos descobrir com mais claridade cada dia seu profundo atrativo, sua imaculada beleza.’ Há um forte sentido de vocação divina: ‘fomos escolhidos para levar a Deus, para transmitir o sentido de sua Obra; é a única razão para nosso trabalho apostólico. Isto nos confere grande responsabilidade de trocar vigilantes para não mudar nada.”

Esta alta opinião da instituição obriga seus membros, quando em confronto a um livro como este:

Tolerância ou silêncio, quando confrontarem calúnias insinuadas ou públicas –com boa ou má fé–, com opiniões inexatas, ou com o julgamento equivocado de pessoas ou instituições, seria cumplicidade, um claro sinal de falta de amor para nossa Mãe e um sério ataque a nossa humildade coletiva. Este silêncio seria equivalente a negar que a Obra é divina.’

Um teólogo poderia muito bem sentir-se desconcertado pelo apelativo divina aplicado à Obra, que parece pô-lo ao nível da mesma Igreja. Em qualquer caso a Igreja, embora para os católicos é uma instituição divina, não está certamente por cima das críticas e sempre está aberta à reforma: ‘Ecclesia semper reformanda’. O que não é certo para o Opus Dei.

O porta-voz do Opus (não se ouve falar do porta-voz do Opus) estará agradecido pelo tal mais acima para equilibrar-se em sua defesa. O conteúdo de sua resposta será fácil de adivinhar:

Qualquer que tenha feito uma investigação séria sobre um tema cientista ou histórico, dará conta de que uma longa lista de entrevistas, que a primeira vista poderiam dar a aparência de um estudo minucioso sobre a matéria, pode estar facilmente apoiada em fontes não comprovadas ou não confiáveis, ou igualmente manipuladas para adaptá-las a uma tese.’

Isso disse o reverendo Richard Stork, um sacerdote do Opus, ao escrever uma ‘Apologia pró Opere Dei’ na revista mensal, britânica e católica, ‘Clergy Review’, de fevereiro de 1986. É certo que com freqüência citei artigos ‘publicados para o uso interno dos membros do Opus Dei’, mas não foram ‘utilizados para produzir um quadro distorcido’; foram citados bastante extensamente. Realmente, o impacto da publicação de ‘Crônica’ em extenso estrago à reputação do Opus que as poucas passagens utilizadas. O padre Stork nem sequer oferece atenuante, que a maior parte fosse escrita e circulasse fazia muito tempo; defende-o tudo.

Determinar, exatamente, o que é que defende, poderia ser difícil. Quando Maria do Carmen Taipa era a encarregada de Imprensa em Roma, recorda que teve que fazer novas páginas para os jornais do Opus Dei, jornais internos como ‘Crônica’, que eram enviados aos centros do Opus, onde as velhas páginas, não consideradas já como ideologicamente acertadas, eram suprimidas e em seu lugar inserida a doutrina. Vladimir Felzmann, receptor de tais missivas de Roma, corroborou esta história.

Mas, essa não é a defesa central. O que é fundamental para a ‘Apologia’ do padre Stork é o respaldo da Igreja: ‘Pode uma instituição aprovada pela Igreja Católica estar tão equivocada, ser tão perversa, tão estúpida?’, Pergunta, e continua insinuando, em uma entrevista de São Tomás de Aquino, que os adversários do Opus estão na categoria de hereges. Um jesuíta poderia sorrir tristemente ante uma visão tão ingênua da Igreja, posto que a Igreja decidiu em sua sabedoria suprimir sua ordem, só para restabelecê-la de novo quase meio século depois, quando prevaleceram opiniões mais judiciosas.

Entretanto, o caso seria questionar o apoio que o Opus tem dentro da Igreja católica. Indubitavelmente, estão aqueles da burocracia papal romana, em alto nível, cuja própria visão da Igreja coincide com a do Opus. Do mesmo modo, é certo que mais de mil prelados escreveram obedientemente a Roma solicitando a apresentação da causa de Monsenhor Escrivá do Balaguer para canonizá-lo como santo.

Contra isso, alguém poderia considerar os protestos do episcopado espanhol e de outros bispos contra o restabelecimento de uma prelatura pessoal, a longa demora em encontrar uma fórmula eclesiástica adequada para fazer frente à incomum Constituição do Opus Dei, a própria aversão do Escrivá por muito do que aconteceu depois do Vaticano II e a oposição de alguns prelados de todo o mundo à expansão das atividades do Opus em sua diocese. Também houve adversários do Opus entre os mais destacados cardeais da cúria romana. O cardeal Pironio, o prefeito argentino da Congregação para os Religiosos e os Institutos Seculares sob a qual se encontrava até que se converteu em uma prelatura pessoal, certamente não era partidário dele. E mais importante ainda, tampouco o era o cardeal Benelli, durante muitos anos o mais próximo conselheiro do Paulo VI (converteu-se no secretário do futuro Papa em 1944), a quem muitos queriam ver eleito sucessor do Paulo VI. Benelli serve durante um tempo na Nunciatura de Madrid, onde teve uma grande aversão ao Opus, tanto que, ele reconhecia a necessidade de separar à Igreja do apoio sem reservas ao regime de Franco, porque considerava o Opus como uma Igreja alternativa. A luz da oposição do Benelli em particular, é difícil aceitar a afirmação do Opus de que teve ‘apoio papal contínuo e mantido’.

É certo que o espírito do Opus gosta do atual Papa. Dificilmente, seria indiferente, como se afirma, o Opus enviou dinheiro para apoiar a Solidariedade na Polônia. A proibição do Opus de manifestações públicas parece que se levanta para as visitas papais ao redor do mundo. Bandeiras proclamando ‘Totus Tuus’ (‘totalmente teus’) assinalam a situação dos membros da organização nas massas vitoreantes. O jornalista espanhol Pedro Lamet comentou sobre a visita de João Paulo II a Espanha que quando a Papa falava da necessidade de manter-se fiel aos ensinos tradicionais, em especial na contracepção e o controle da natalidade, os grupos do Opus aplaudiam com força. Quando falava sobre a necessidade da justiça social, permaneciam estranhamente silenciosos.

Porque é possível observar áreas importantes nas quais o espírito do Opus se separa da tradição mais recente da Igreja católica e fica em desacordo com o conteúdo do pontificado de João Paulo II. Estas áreas têm a ver com as inquietações sociais da Igreja, e são o tema do capítulo seguinte.




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