O mundo Secreto do Opus Dei


V. AS CONSTITUIÇÕES DE 1982



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V. AS CONSTITUIÇÕES DE 1982

A ambição de Escrivá do Balaguer foi satisfeita, depois de sua morte. Embora o Papa Paulo VI tivesse denegado a petição de uma ‘prelatura nullius’, a mais conveniente –ao Opus–, João Paulo II concedeu ao sucessor de Escrivá o estatuto de uma ‘prelatura personalis’ para a organização. Já não era um Instituto Secular. Se o resultado era exatamente o proposto ao Vaticano ou ao Opus, é outra questão.

Desde a concessão ao Opus seu estatuto atual, houve ocasiões nas quais o estabelecimento de outra prelatura pessoal parecia mais apropriado, ao menos dentro do contexto do decreto, que abria a possibilidade desta estrutura dentro da Igreja católica, mas não se estabeleceu. Talvez, a cúria papal começou considerar a sério as preocupações dos bispos por ter uma jurisdição independente dentro de sua diocese. Ou que soubessem de mais problemas como os padecidos pelo seminário diocesano de La Rioja.

Por outro lado, os céticos viram nisto os resultados de maquinações do Opus Dei. O Opus estava muito contente de ser o primeiro Instituto Secular, porém, não lhe agradou, absolutamente, que outras organizações se unissem nesse estatuto e começaram a distorcer a interpretação do Instituto Secular para que se adaptasse um pouco mais a seu próprio modelo. Enquanto o Opus Dei era a única prelatura pessoal, poderia fixar, dentro dos limites do Direito Canônico, o que é exatamente uma prelatura pessoal. Dificilmente seria coincidência que quase todos os artigos que apareceram em publicações católicas sobre prelaturas pessoais fossem escritos por um membro do Opus. Não é que eles o citem no artigo, não acreditam que seja necessário manifestar interesse.

Do ponto de vista do Opus, a dificuldade real com a solução da prelatura é que não se adapta adequadamente aos membros plenos do Instituto que sejam laicos. A lei da Igreja reconhece um sistema pelos quais os sacerdotes se convertem em membros de uma diocese (ou de uma ordem ou congregação religiosa se forem jesuítas, franciscanos, pasionistas, etc) através de um processo chamado incardinación. Embora oito cânones do novo Código da Igreja –cânones 265–272– regulamentam a incardinación e se menciona de vez em quando em outro lugar, o término não está definido. Seu significado, não obstante, é bastante claro: é o processo através do qual um sacerdote se converte em membro de uma diocese, ordem ou congregação religiosa ou prelatura pessoal (isto se menciona expressamente). A instituição encarrega-se de atender suas necessidades em troca de seu serviço à diocese, ordem, congregação ou prelatura.

É evidente, pelo Código, que este processo se refere unicamente aos clérigos: aparece em um compartimento titulado ‘Ministros sagrados ou clérigos’. Os laicos não figuram. Podem colaborar com a prelatura, unir-se a ela por meio de uma forma de contrato ou convênio, se assim o desejarem, mas não podem, sejam ou não numerários, exigir ser incardinados à prelatura, nem, por conseguinte, ser membros plenos do Opus. Nem sequer, são membros plenos da forma em que o eram quando o Opus era Instituto Secular. Para uma organização que afirma ser completamente laica, isso é uma paradoxo. Converteu-se em uma corporação mais clerical que nunca. Desde aí a questão suscitada, anteriormente, de os líderes do Opus, afinal de contas, estarão satisfeitos com a posição legal que agora conseguiram para si.

Talvez, a direção queria que seus membros laicos, de qualquer categoria, tanto homens como mulheres, estivessem sujeitos aos sacerdotes da prelatura como os católicos comuns estão sujeitos a seu bispo dentro da diocese. Mas, esse não é o caso. Embora os laicos assistam todos os serviços religiosos dentro dos centros do Opus Dei, missa, confissão, instrução religiosa para seus filhos, e guia espiritual para si mesmos, são tecnicamente membros da diocese local. Embora de fato são tratados como membros de uma diocese, isso é, a prelatura, por lei estão ainda submetidos ao bispo local. Esta pode não ter sido a intenção do documento que estabelece a prelatura pessoal, mas é conseqüência da legislação contida no novo Código de Direito Canônico.

O Código é inequívoco. Há quatro cânones que regem as prelaturas pessoais. Destes, o primeiro, o número 294, diz: ‘As prelaturas pessoais serão estabelecidas pela Sede Apostólica depois de consultar as Conferências Episcopais afetadas. Compõem-se de ‘diáconos e sacerdotes’ do clero secular. Seu propósito é promover uma distribuição apropriada de ‘sacerdotes’’ (entre aspas é acrescentado).

De forma similar, tudo o que o Código diz sobre o compromisso laico é que ‘os laicos podem dedicar-se à obra apostólica de uma prelatura pessoal por meio de acordos estabelecidos com a prelatura’, Canon 296).

Pelo contrário, os clérigos incardinados ao Opus estão certamente fora da jurisdição do bispo local. Tudo o que as autoridades do Opus precisam fazer é obter a permissão de um bispo para estabelecer um centro em sua diocese. Depois disto, sua autoridade dentro de tal centro limita-se assegurar que a capela, o tabernáculo no qual se guarda o Santíssimo e o local no qual se escutam as confissões, estejam bem cuidados.

É obvio, isso não impede que os membros do Opus tratem ao bispo local com considerável, e às vezes exagerado, respeito, ao menos levianamente. Um bispo que informava de sua ‘visita’ a um centro do Opus disse que, para seu assombro, receberam-no à porta com uma vela levada por um coroinha ante um bispo em sinal de sua classe social. Esta arcaica prática desapareceu anos atrás e nunca este determinado bispo tinha visto em seus quinze anos de ofício. Todavia, apesar de tão cerimonioso tratamento, sua autoridade real sobre o clero do Opus uma vez estabelecido o centro e admitida a prelatura, era mínima.

Tudo isto pareceria um tanto pedante, caso o Opus Dei não desse tanta importância à sutilezas do Direito Canônico. O Direito Canônico é, efetivamente, a faculdade da qual a Universidade de Navarra, navio-escola, emblema intelectual do Opus, mais se orgulha. Tal como estão as coisas, as regulamentações da Igreja insistem em que só os sacerdotes ou os diáconos podem ser membros de prelaturas pessoais. Portanto, apesar das afirmações do Opus de que tem uns oitenta mil membros, pode-se dizer com segurança que o Opus não é uma organização laica, e sim clerical, e que seu número, segundo a última edição do calendário do Vaticano, o ‘Anuário Pontifício’, é somente de 1.273 sacerdotes (dos quais 56 denominam-se ‘sacerdoti novelli’ ou novos sacerdotes), mais de 352 seminaristas ‘maiores’, ou estudantes de teologia. O Anuário, que de forma bastante estranha coloca as prelaturas pessoais (sendo o Opus a única) nem depois da lista de diocese, nem depois da lista de ordens e congregações religiosas, a não ser depois dos ‘Ritos’ da Igreja católica, dando-lhe com isso, uma falsa aparência de independência, menciona a existência uma única igreja do Opus Dei (2).

(2) Estes pormenores são tirados da edição de 1985 Annuario Pontifício, pág. 1.029

A versão impressa das Constituições começa com a carta apostólica ‘UT sit’. Está datada em 28 de novembro de 1982 e começa elogiando o trabalho do Opus (iniciado por inspiração divina, diz o Papa João Paulo II, pelo Escrívá do Balaguer em 2 de outubro de 1928 em Madrid) entre os laicos não somente na Igreja, como também em toda a sociedade, para a santificação de seus membros em seu trabalho e através dele.

O Papa segue sublinhando (de fato, em contradição com as Constituições que seguem) a unidade ‘orgânica e indivisível’ do Opus, entre seus sacerdotes e seus laicos, tanto homens como mulheres. Em 1962, diz a carta, Escrivá propôs tentar uma forma jurídica apropriada para sua organização. Com a referência ao Concílio Vaticano II e a seu decreto ‘Presbyterorum Ordinis’, que vai a seguir, o Papa dá a impressão de que Escrivá solicitou primeiro uma prelatura pessoal. Como se viu, não foi esse o caso; primeiro desejava uma ‘prelatura nullius’. A carta evita os problemas que surgiram, passa rapidamente a 1969, quando o Papa Paulo VI concedeu ao Escrivá do Balaguer seu desejo de convocar um Congresso especial para estudar a transformação do Opus Dei de acordo com as diretrizes dadas pelo Vaticano II. (Em realidade, contava-se com que todas as ordens e congregações religiosas convocassem congressos gerais com este propósito.) Dez anos depois, prossegue o Papa, entregou todo o assunto à Sagrada Congregação apropriada, a dos Bispos, a qual, depois de considerar o tema com todo detalhe, recomendou que o Opus se convertesse em uma prelatura pessoal. O Papa explica depois detalhadamente, em sete remotos numerados, os termos da criação da nova prelatura pessoal.

Isto segue-se de uma ‘Declaratio’ da Congregação para os Bispos, já tratada (ver págs. 86–87) e de um breve decreto do núncio apostólico para a Itália, declarando que a carta do Papa já foi posta em prática. Este documento está datado em 19 de março de 1983.

Logo vem ‘a carta Non ignoratis de nosso muito querido fundador’. Chama-se ‘Non ignoratis’ (‘Não podem ignorar’), em latim, como os documentos da cúria romana, embora, certamente, não o é. Esta carta, de quatorze remotos numerados, está datada em 2 de outubro de 1958 e está assinada assim: ‘Iosephmaria.’ Uma nota de rodapé explica que em 14 de fevereiro de 1964, quando o fundador começou formalmente a mover-se para trocar o estatuto do Opus Dei, próprio dos Institutos Seculares, enviou uma cópia desta carta, junto com os estatutos vigentes então, à Papa Paulo VI. Agora, o que o Fundador tanto ansiava alcançou, prossegue a nota, é uma grande alegria incluí-la na edição dos estatutos.

É, realmente, uma carta importante (ver págs. 80–81), porque revela os profundos sentimentos de Escrivá contra o Estatuto de Instituto Secular que o Opus Dei trabalhou para obter no final dos anos quarenta. ‘De fato –diz–, não somos um Instituto Secular, nem no sucessivo aplicam-nos este nome’ (parágrafo 9). Antes insistiu (parágrafo 9): ‘Não somos religiosos, nem podem chamar-nos religiosos missionários. Utilizou a mesma carta para tratar dois assuntos mais: as acusações de que os membros eram manipulados para os próprios fins do Opus, e de que o Opus era uma organização secreta.

Embora, importante na história do Opus, é um pouco estranho tanta importância dada à carta nas Constituições, especialmente, porque os acontecimentos ultrapassaram, claramente, o ponto principal da carta: que Escrivá já não queria que o Opus Dei fosse considerado um Instituto Secular. O estilo da carta, por outro lado, dá a impressão de que foi escrita para a prosperidade, e só assim, tem sentido que as palavras de Escrivá conservem-se nas Constituições.

Esta carta do fundador segue-se de outra missiva, ligeiramente mais longa, de Alvaro do Postigo, assinada ‘Alvarus’. Está datada em 8 de dezembro de 1981; em outras palavras, quase um ano antes da carta de João Paulo II erigindo formalmente ao Opus Dei em uma prelatura pessoal, e muitíssimo antes de que se dessem outros passos necessários. De novo, como à carta de Escrivá, deu-lhe um título ao modo curial: ‘Nuper nuntiatum’ (‘Anunciado ultimamente’). O que foi ‘ultimamente anunciado’ é a transformação do Opus Dei em uma prelatura pessoal. Esta notícia, diz o homem destinado, pouco depois converte-a em prelado, não pode ser ainda proclamada ao mundo em geral, nem aos membros do Opus, porque o Papa quer que primeiro se inteirem aqueles bispos que têm operações do Opus Dei em sua diocese. Entretanto, Alvaro está escrevendo a carta, preparando o momento no qual será conhecida a notícia: inclusive no latim estilizado, sua excitação é evidente. Naturalmente, fala deste resultado como aquele pelo qual Escriva do Balaguer trabalhou e, parece dizer, tinha dado sua vida.

O futuro prelado prossegue, no compartimento 3 de sua carta, para afirmar que esta nova forma era desejo do fundador desde muito tempo e que era a ‘definitiva configuração jurídica de nossa vocação’, aquela que Deus inspirou o fundador em 2 de outubro de 1928. Dada as vicissitudes da forma legal que o Opus Dei tomou ao longo dos anos, manifestar que esta última seria ‘a definitiva’ é realmente uma afirmação atrevida. A afirmação implícita de que Escrivá trabalhou desde o começo para este exato resultado, parece estar em desacordo com os fatos.

Nos ítens seguintes, Alvaro explica o problema que preocupou Escrivá em sua carta ‘Non ignoratis’, a natureza ‘laica’ do Opus Dei. A vocação de um membro do Opus, sublinha, não muda de modo algum a situação pessoal de um indivíduo. Em uma frase em latim tão pouco usual que o editor acreditou conveniente pôr no rodapé da página a versão original espanhola, não pode nos separar nem (a grossura de?) Uma folha de papel de fumar. Como sinal desta falta de diferenciação entre os membros do Opus e o resto dos laicos, cita, como exemplo, a lealdade dos membros do Opus às diretrizes e ao Conselho Romano Pontífice e dos bispos diocesanos. Tiveram que batalhar, diz, antes de chegar a este estatuto. Pessoas acusaram-lhe de querer estar fora do controle da hierarquia. Porém, nada disto era certo, porque tanto ‘os sacerdotes plenamente seculares como os fiéis comuns... seguem agradavelmente, dependentes dos bispos em tudo o que se refere à cúria pastoral ordinária’. O que distingue os membros do Opus, afirma Alvaro, é o grau de lealdade que mostram para o bispo; são os mais fiéis de sua congregação, ao rogar por ele e mortificar-se por ele ao menos uma vez ao dia.

Reconhece que alguns bispos não gostam do Opus Dei, ‘quase exclusivamente de diocese nas quais não trabalhamos ainda, ou a bispos novos de diocese nas quais a muito tempo trabalhamos’. Isto, atribui a falta de compreensão. Pensam no Opus, diz, como se fora uma congregação religiosa ou uma Pia União ou um movimento eclesiástico ativo, tanto nas estruturas da Igreja como nas do Estado. Quando as diferenças são explicadas, afirma, tudo vai bem.

Durante o resto da carta, o único ponto que Alvaro reconhece e comenta, atentamente, é o estatuto de sacerdotes que se associam com o Opus através da Sociedade Sacerdotal de Santa Cruz. Se queriam unir-se, diz, deveriam dizer-lhe ao bispo local, falar com ele. Não deve haver, sublinha, divisão de autoridade entre o Opus e o bispo, nem conflito de obediência. A única obediência que deve um membro da Sociedade Sacerdotal, insiste Alvaro, é a seu bispo. Exceto, provavelmente, a obediência devida aos novos estatutos, que entraram em vigor em 8 de dezembro de 1982. ‘Todos aqueles incorporados ao Opus Dei, tanto sacerdotes como laicos, também sacerdotes oblatos e super numerários’, têm que manter os mesmos ‘juramentos’ feitos sob o anterior regime, a menos que os novos estatutos legislassem, explicitamente, contrário, dizem as ‘disposições finais’ da nova Constituição.

Estas novas Constituições, o ‘Codex Iuris Particularis Operis Dei’ (‘O Código de Direito próprio do Opus Dei ) consta de cinco ‘títulos’ ou apartados principais, que logo se subdividem em capítulos. Os capítulos constam de um regulamento, muitos deles de novo com subapartados, numeradas, consecutivamente, desde o começo ao fim. O modelo é claramente o ‘Código de Direito Canônico’ oficial da Igreja católica, ordenado exatamente com o mesmo padrão.

Embora, questionariam o caráter de algumas disposições, poucos católicos negariam que uma instituição tão vasta e tão complexa como a Igreja requer um conjunto de normas como o Código Canônico. Todavia, considerariam desafortunada a necessidade de um código assim. Como Santo Ignácio de Loyola observou no preâmbulo de suas próprias Constituições para a Companhia de Jesus, talvez fosse muito mais feliz se não houvesse necessidade delas, caso seus jesuítas fossem dirigidos, unicamente, ‘pela lei interior da caridade e do amor que o Espírito Santo imprime nos corações’. Reconhecia ser impossível, porém, o enfoque manifestado no preâmbulo, comum a todas as Constituições jesuítas, faz delas um documento espiritual mais que jurídico.

As Constituições do Opus Dei, por outro lado, são estritamente jurídicas e parecem deleitar-se nisso. Isto é uma evidência mais do grau em que o Opus perdeu o contato com o aspecto da Igreja que, durante o Concílio Vaticano II e o período subseqüente, pôs uma ênfase maior no trabalho do espírito e menos minuciosa observância das regras.

O primeiro capítulo do primeiro ítem trata da natureza da prelatura e seu propósito’. A prelatura acolhe tanto clérigos como laicos, diz o primeiro parágrafo, todavia, rapidamente esclarece que enquanto os sacerdotes podem ser incardinados a ela, os laicos que ‘foram movidos por uma chamada divina’ se incorporam ‘de uma forma especial’, por meio de um ‘vínculo legal’. É uma organização mundial, com sede em Roma (é curioso quanto enfatiza neste detalhe geográfico) e é regido pelas normas próprias às prelaturas pessoais e a outros estatutos particulares ditados pela Santa Sede.

O objetivo do Opus Dei define-se como a santificação de seus membros através do exercício das virtudes cristãs apropriadas a seu estado na vida. Aberto às pessoas de todos os estados e condições, embora especialmente aos chamados intelectuais’. O apostolado para o qual os membros se preparam, deste modo, é para ser vivido extensamente dentro da sociedade.

As Constituições prosseguem fazendo uma lista dos meios pelos quais devem alcançar a santificação. Estes são basicamente os meios cristãos tradicionais: oração e sacrifício, o estudo teológico (‘solidamente unido ao Magisterium’) apropriado à capacidade de cada um e à imitação de vida oculta de Jesus de Nazaret. ‘Magisterium’, traduzido somenos, significa ensino, porém, suas alusões são bastante neutras, especialmente, quando o termo se escreve, como aqui, com maiúscula. Neste uso significa o ensino, não da Igreja em geral, a não ser a dos bispos, e mais concretamente a do Papa e sua cúria romana; o que é conhecido pelos teólogos como o ‘magisterium ordinário’. Nada sugere que tal ensino seja, em todo o sentido católico da palavra, ‘infalível’, apesar de muitos católicos o considerarem autorizado; entretanto, utilizado desta maneira, não é tradicional, mas, uma criação do século XIX, um sentido ultrapapal.

Os fiéis do Opus são obrigados a cumprir com os deveres de sua vida profissional, porque esse é o caminho através do qual alcançam a santidade e finalmente ao seu apostolado. Espera-se que cumpram com os deveres apropriados a seu estado na vida, ‘mas sempre com a maior reverência pelas leis legítimas da sociedade civil’. Também, têm que ir do começo ao fim com tarefa apostólica a eles encomendada pelo prelado. O resto do primeiro capítulo sublinha a unidade e a complementaridade dos membros clericais e laicos e enumera seus Santos patronos.

O capítulo 2 do compartimento 1 tráfico dos ‘fiéis’ da prelatura. Devem estar ‘disponíveis’ –a disposição da prelatura– todos os membros, tanto homens como mulheres, tanto numerários, como oblatos ou super numerários, embora cada qual segundo suas circunstâncias pessoais. O texto dá seqüência às distintas categorias.

Os primeiros são os numerários (varões) que observam o celibato, entregam-se totalmente ao apostolado da prelatura e vivem normalmente em centros do Opus Dei. As mulheres numerárias, por outro lado, têm em particular ‘a administração ou manutenção doméstica’ dos centros para varões do Opus Dei, embora, estejam estritamente segregados. A diferença de expectativa entre homens e mulheres é absoluta. Isto é tão mais estranho quanto as Constituições que seguem insistindo em que todos os numerários, tanto homens como mulheres, deveriam normalmente ter ou ser capazes de obter, uma licenciatura ou alguma qualificação profissional equivalente. Existe, todavia, uma classe de mulheres numerárias chamadas ‘auxiliares’ que se dedicam ao trabalho manual; em outras palavras, cozinhar e limpar nos centros do Opus Dei.

Os graus seguintes são os ‘aggregati’ ou oblatos, como foram chamados neste livro. Assumem as mesmas obrigações que os numerários, ou seja, o celibato, as mesmas práticas ascéticas; incluindo muitas das mesmas obras apostólicas, porém, por razões pessoais não residem em centros do Opus, a não ser, possivelmente, com seus pais ou com outros parentes.

Os super numerários também vivem com suas famílias. A diferença das categorias acima deles, é que podem ser casados, embora, até onde chegam os regulamentos, o estar abertos ao matrimônio parece ser a única característica que os distingue dos oblatos. Está bastante claro, em outra parte, que é uma classe social inferior do Opus posto que o parágrafo 14, alínea 2, e o parágrafo 15 deixam claro que os melhores sobem nas categorias de oblato ou de numerário.

O grau final é o de cooperador. Estas são pessoas que ajudam ao Opus Dei com suas esmolas, suas orações e trabalhando pelas causas do Opus. Não precisam ser católicos, embora nesse caso aos membros da prelatura pede-se que roguem por sua conversão.

As Constituições seguem tratando da admissão de membros. Há três etapas: uma ‘Admissão’ simples, que pode ser feita pelo vigário regional; um ano depois está a ‘Oblação’ ou permanência temporária, que dura no mínimo cinco anos e tem que ser renovada anualmente; finalmente, está a ‘Fidelidade’.

Naturalmente, há regras que determinam quem pode ser admitido. Espera-se que os candidatos mostrem-se preocupados com seu desenvolvimento espiritual e que tenham ‘as demais qualidades pessoais’ esperadas de um membro do Opus. Não estão definidas, embora esteja claro em todos outros lugares das Constituições que incluem a capacidade de obter um doutorado se os membros já não tiverem um. Mais importante ainda, uma das questões mais controvertidas que rodeiam ao Opus: que os candidatos devem ter ao menos dezessete anos.

Todavia, esta não é toda a história. No parágrafo 20, alínea 4, as Constituições ditam que um candidato deve passar pelo menos seis meses trabalhando no apostolado do Opus ‘sob uma autoridade competente’, antes da admissão, o que justifica a idade da entrada efetiva aos dezesseis. Há um comentário posterior que diz que o trabalho deve ser feito mesmo o candidato unido ao Opus durante algum tempo. Contempla-se claramente que os adolescentes muito maiores que a idade oficial de entrada estejam já estreitamente aliados ao Opus, embora não sejam formalmente membros.

Certamente, existe pessoas que não são admitidas, deixando à parte aos que não mostrem as qualidades requeridas. É o caso de instituições religiosas recusarem, teoricamente, aqueles que tenham sido membros de outra corporação similar, embora, na prática, esta regra deixa-se, freqüentemente, de lado. O Opus, entretanto, leva-a mais longe. Não somente proibe a admissão de qualquer um que deu os primeiros passos para entrar em tal organização, mas, também, recusam candidatos que estiveram em ‘escolas apostólicas’, uma espécie de seminários menores dirigidos às vezes por diocese ou ordens religiosas. Estes colégios funcionam, principalmente, como estabelecimentos educativos, e hoje em dia poucos de seus estudantes avançam até a preparação formal para o sacerdócio. Não obstante, os que passaram por eles não podem ingressar no Opus.

E, muito menos, serão admitidos os de seminários maiores, ou sacerdotes já ordenados. O parágrafo 20, alínea 3, diz que isto é em caso das dioceses serem privadas de clero. Como se viu (na pág. 53), entretanto, uma razão mais provável é a atitude do Opus para o ensino espiritual dado por outros. Inclusive estudantes que estiveram sob a guia formal de uma congregação ou diocese em uma ‘escola apostólica’ são considerados inadequados. Esta proibição não se estende a meninos que estiveram em uma escola normal, mesmo sendo dirigida por uma congregação religiosa.

Quando se aprovou uma candidatura, o futuro membro é instruído no espírito do Opus e advertido de que tem que manter-se por sua própria atividade profissional. Também tem que manter a sua família se for necessário e contribuir generosamente à manutenção das obras apostólicas.

Ao chegar a este ponto das Constituições aconselham os candidatos, curiosamente, que façam pleno uso do sistema de segurança social disposto pela lei civil no caso de que fiquem sem trabalho, fiquem doentes, tenham direito a pensão, etc. De modo algo mesquinho a prelatura promete cuidar dos numerários necessitados e dos oblatos e, também, embora insistindo em que não há obrigação legal de fazê-lo, de seus pais.

O parágrafo final deste primeiro ‘afastado’ trata demissão da prelatura. As regras são bastante singelas. Deveria-se dizer, não obstante, que, segundo a regra 31, a demissão deve fazer-se ‘com a maior caridade’, que não é algo que os ex-membros tenham experiente, e quem o deixa não pode fazer nenhuma reclamação à prelatura pelo que tenha dado a ela, tanto por meio de seu trabalho, como por sua atividade profissional. A ênfase está totalmente posta na demissão. Admite-se que possam querer ir-se por vontade própria, porém, não é extensivo à estes.

O ‘compartimento’ seguinte dedica-se ao clero do Opus. Tem que sair das categorias de numerários ou oblatos, seu principal propósito na vida deve ser cuidar das necessidades espirituais de outros membros do Opus. Também pode ter um papel na igreja local e unir-se à comunidade sacerdotal e a outros corpos diocesanos. Insistem unirem-se por meio dos laços da caridade a outros clérigos das diocese que atuam. Também, menciona-se aos ‘cooperadores’ entre o clero diocesano, os cooperadores laicos que ajudem com suas orações, suas intenções e, se for possível, seu ministério sacerdotal também, embora não expliquem como fazerem isto.

A promoção ao sacerdócio fica a vontade do prelado e também as tarefas que se têm que atribuir ao clero da prelatura. Na medida em que as tarefas são mencionadas nas Constituições, fica uma clara ênfase em ouvir confissões e, de modo bastante curioso, na obrigação do clero de cuidar dos acertos funerais dos membros. A necessidade de fomentar um ‘fervente espírito de comunhão’ com o clero da igreja local é sublinhada de novo.

O que foi dito até agora sobre os sacerdotes do Opus, além da menção dos cooperadores, afeta aos que se incardinan a prelatura. Existem, entretanto, sacerdotes (e diáconos) que estão incardinados a uma diocese e que desejam seguir a vida espiritual e as práticas do Opus. Podem converter-se em oblatos ou membros super numerários (os seminaristas esperam a ordenação antes de poder unir-se, embora permitam converter-se em ‘aspirantes’). As Constituições acentuam que isto não estabelece, em modo algum, uma obediência ‘dividida’; não têm maiores superiores que o bispo local e seus únicos deveres quanto ao Opus procedem do cumprimento de suas regras, ‘como em qualquer sociedade’.

A diferença entre sacerdotes oblatos e super numerários é algo difícil de captar. O que se exige a um clérigo que seja um oblato, segundo a regra 61, é:

‘1. Sobretudo, um anseio de cumprir a perfeição a tarefa pastoral a ele encomendada por seu bispo, dando-se conta cada um de que é somente responsável ante o bispo da realização deste papel; ‘2. A decisão de dedicar todo seu tempo e seu trabalho ao apostolado, especialmente em ajudar seus irmãos os clérigos da dioceses.’

Os mesmos requisitos exigem a um sacerdote super numerário, salvo que, por razões pessoais, ‘familiares ou similares’, não possa dedicar-se total ou imediatamente a apostólica.

Esta última disposição supõe que o diocesano poderia estar ocupado em atividades distintas às ‘apostólicas’, possivelmente, ganhando a vida para manter suas famílias. Esta classe de situação poderia imperar em muito poucos países, por exemplo, em Malta ou na Espanha, onde havia mais sacerdotes que postos na Igreja para eles. Sempre foi, não obstante, uma situação atípica, e o é especialmente hoje em dia.

É um tema constante neste compartimento das Constituições que os membros do Opus que sejam sacerdotes diocesanos devem distinguir-se por sua devoção ao bispo local, e alentar todos outros sacerdotes da diocese a seguir as diretrizes dadas pelo bispo. Não tem que haver, diz a regra 73, o mínimo sinal de que o Opus procure uma hierarquia alternativa, embora o vigário regional nomeie um diretor espiritual para tais sacerdotes, e reunem-se periodicamente para estudar e incrementar seu ardor. São agrupados e inseridos a um centro particular do Opus para guia espiritual e demais ensinos; o vigário regional também nomeia um ‘administrador’ para tratar com o bispo sobre estes clérigos. Os diretores espirituais e os conselheiros servem durante um período de cinco anos.

O terceiro parágrafo considera a vida, a formação e o apostolado dos membros da prelatura. São instigados a terem presente o exemplo da frutífera vida de trabalho de Jesus de Nazaret, da qual, certamente, não se sabe absolutamente nada. Exige-se celebração diária ou assistência à missa; recorda-se que é a renovação incruenta da paixão e morte de Cristo, e não se faz menção da ressurreição. As Constituições descrevem depois os detalhes.

‘1. Tem que haver meia hora de oração mental cada manhã, e outra meia cada noite; o Novo Testamento deve ser lido diariamente, junto com outro livro espiritual; terá que rezar as orações ordinárias do Opus; ‘2. Tem que haver um dia de retiro espiritual ao mês; ‘3. Cada ano deve haver um retiro de vários dias; ‘4. Os membros devem manter-se em presença de Deus, fazer ‘comunhões espirituais’, orações jaculatórias, etc.’

Os fiéis são advertidos contra o orgulho que pode surgir do saber, do nível social ou da atividade profissional. São advertidos especialmente contra um assédio a sua castidade. Têm que combatê-lo por meio de ‘um recurso assíduo e cândido’ à Virgem Maria, recebendo com freqüência a Eucaristia, fugindo das ocasiões de pecado e castigando seus corpos. A menção de Maria faz que a atenção dos compiladores das Constituições volte-se para ela. Os membros devem rezar os quinze mistérios do rosário cada dia, ao menos cinco deles em voz alta.

Todavia, determinam as Constituições, o caráter especial do Opus é que seus membros devem alcançar a santidade através de suas vidas profissionais. Embora, anteriormente, aconselhou-se aos membros que se aliassem à Segurança Social para o caso de alguma vez ficarem sem trabalho, um membro do Opus Dei sem emprego teria pouco peso na organização. A regra 86, alínea 1, diz: ‘O trabalho é o valor humano por excelência, necessário para proteger a dignidade da pessoa humana e o progresso da sociedade; é também a oportunidade especial e o meio para, através da união pessoal com Cristo, imitar sua ocupada vida oculta de generoso serviço a outros e, deste modo, colaborar amorosamente no trabalho da criação e da redenção do mundo’.

A prelatura, prosseguem as Constituições, está totalmente dedicada ao serviço da Igreja. Para isso, os membros devem estar dispostos a abandonar honras (recordam o marquesado de Peralta?), Bens, e inclusive suas almas. Devem mostrar amor sincero, veneração, humildade e fidelidade para o Romano Pontífice e para todos outros bispos em comunhão com a Sede Apostólica. O Opus deve insistir em fomentar a obediência e o serviço ao Papa e aos bispos. E enquanto inclinado aos fins da prelatura, devem igualmente obedecer ao prelado e demais autoridades em todas as coisas, embora a obediência é, aparentemente, ‘voluntária’.

A regra 88, alínea 3, trata do extremamente controvertido assunto da inclinação política ou social dentro da prelatura. A organização é acusada freqüentemente de ser de direita. De fato, a norma legisla muito estritamente contra qualquer conselho ou introdução dada sobre questões políticas, e sublinha que ‘dentro dos limites do ensino católico sobre fé e moral, cada membro da prelatura deve ter a mesma liberdade que qualquer outro cidadão católico’.

Após a questão das atitudes políticas na prelatura vem outro tópico irritante, que é secreto. É apresentado, na regra 89, dentro do contexto da humildade: ‘deve ser a maior glorifica do Opus Dei viver sem glória humana’. Por este motivo os membros do Opus não devem atuar coletivamente, nem ter um nome coletivo (como, provavelmente, os jesuítas ou os dominicanos). Nem sequer, devem tomar parte em procissões religiosas como grupo. Entretanto, não devem ocultar o fato de que pertencem a prelatura, e devem fugir totalmente do secreto.

Para evitar a aparência de secreto, os nomes dos vigários da prelazia devem ser conhecidos por todos e também os nomes daqueles que formam seu conselho. A qualquer bispo que pergunte podem dizer-lhes os nomes, não só dos sacerdotes da prelatura que trabalham na diocese, mas também inclusive os nomes dos diretores de centros do Opus. Deve dizer-se que este nível de divulgação é realmente muito modesto. O tom da regra parece a contra gosto, mas seria muito estranha uma situação na qual um bispo não conhecesse os nomes dos clérigos que trabalham dentro da zona geográfica de sua jurisdição embora, como seria freqüentemente o caso, o clero do Opus obrasse fora do mandato do bispo, quer dizer, em casas da prelatura.

Uma prescrição final da regra 89, alínea 3, insiste em que não editem publicações em nome do Opus.

A regra seguinte insiste a cultivar as virtudes ‘naturais’, aquelas altamente estimadas na sociedade em geral. Enumeram-se: camaradagem, otimismo, valentia (‘audaciam’, poderia também ser atrevimento), uma ‘Santa intransigência’ no que é bom e está bem, felicidade, simplicidade, nobreza, sinceridade e lealdade. Considera-se que ajudam no apostolado.

‘A correção fraternal’ se ordena na regra 91, sem dúvida para assegurar que os membros mantenham suas virtudes naturais ao nível requerido.

A regra 94, alínea 1, enquanto que aconselha aos membros que deixem todos os cuidados deste mundo a Deus, e se comportem como peregrinos procurando a cidade que virá, permite que cada membro viva ‘segundo seu próprio estado ou condição’. A regra 94, alínea 2, impõe de novo o dever sobre aqueles comprometidos no trabalho profissional, de que provejam para suas necessidades pessoais e para as da família e, sempre que for possível, de que ajudem a manter o apostolado da prelatura.

O seguinte capítulo do título III volta a atenção para a educação religiosa dos membros, para aprofundar no ‘conhecimento da fé católica e do magistério’ dos membros. Com este propósito, devem estabelecer-se centros regionais ou inter regionais de estudos de filosofia e teologia, separados para homens e mulheres.

Os numerários e, sempre que for possível, os oblatos, devem fazer o equivalente a dois anos de filosofia e a quatro anos de teologia, segundo os planos das Universidades pontifícias romanas. As mulheres numerárias auxiliares devem fazer cursos adaptados a suas exigências, presumivelmente mais modestos, e outros membros do Opus Dei devem fazer também cursos apropriados adaptados para eles. A educação completa de seis anos seria, tecnicamente, suficiente para preparar um membro para a ordenação sacerdotal. Entretanto, conta-se que completem um ano a mais de formação em um centro, especialmente atribuído para eles, e exige-lhes empreender estudos doutorais ‘em alguma disciplina eclesiástica’. Também devem organizar-se cursos para os cooperadores.

Quanto aos cursos a seguir, parece uma contradição. A regra 103 vincula a prelatura ao ‘ensino do raciocínio e aos princípios do Doutor Angélico’ –São Tomás de Aquino, em outras palavras, um talento do século XIII–, embora, sempre segundo as normas transmitidas ‘pelo magistério dos Concílios e a Santa Sede’.

Até aqui está bem, mas a regra final deste título, a regra 109, insiste em que o Opus Dei não tem nenhuma opinião própria sobre questões filosóficas ou teológicas nas quais os membros da Igreja em geral são livres de escolher o que gostarem: ‘dentro dos limites estabelecidos pela hierarquia da Igreja, que guarda o depósito da fé, os membros da prelatura gozam da mesma liberdade que todos outros católicos.’

As Constituições passam a considerar o apostolado do Opus Dei. Está resumido na regra 111, alínea 1, como ‘zelo..., com Pedro (quer dizer, o Papa) para levar todo mundo, pela mão, como Jesus através de Maria’. Nada escapa a sua preocupação; eles devem ser a levedura na massa da sociedade humana. Isto é, devem ter uma solicitude pastoral especial para outros membros de sua profissão escolhida.

O primeiro meio de guiar outros a Cristo é levando uma vida exemplar, tanto religiosa como profissionalmente. Mas, os membros também devem falar abertamente de Deus ‘propagando a verdade com caridade, em um apostolado doutrinal e catequístico constante adaptando-se às necessidades particulares daqueles entre os quais vivem e trabalham’ (regra 114).

Embora, dito piedosamente (regra 115) que o apostolado se dirige a todos sem distinção de raça, nacionalidade ou categoria social, adverte os membros na regra seguinte que tenham um interesse especial pelos intelectuais, os de alto cargo ou condição social, pelo grande peso que têm na sociedade civil. A forma de fazê-lo, aconselha-lhes depois (regra 117), é estabelecer amizade e confiança mútua, ‘a amizade é o meio particular do apostolado da prelatura’. A amizade, segundo a interpretação do Opus, não pode existir por si mesmo, é um meio para um fim.

Além deste apostolado pessoal, o Opus Dei como tal oferece ajuda de uma forma mais geral, especialmente nos projetos educativos. Por exemplo, proporcionará capelães e professores de religião especialmente escolhidos para escolas promovidas pelo Opus Dei e para as iniciadas por membros da prelatura, junto com outros, de maneira privada. Tal ajuda deve ser escolhida muito cuidadosamente, e o mesmo prelado é advertido não deixar de consultar seus conselheiros a respeito das nomeações.

O quarto item trata do sistema de governo. A prelatura divide-se em regiões, com um ‘conselho regional’ em cada uma. O cargo de prelado é por toda vida, todos outros são só temporários. Unicamente o prelado ou seu delegado representam toda a prelatura em questões legais e, tanto a prelatura como suas distintas regiões, têm uma personalidade legal, de modo que podem adquirir, possuir, administrar e dispor de bens (regra 129, alínea 1). As regiões são individualmente responsáveis pelas obrigações que contraem, não à prelatura em conjunto, e devem observar a lei civil do país em que trabalham.

As Constituições continuam depois legislando para o governo central do Opus Dei, começando pelo prelado. Deve ser eleito por um congresso especialmente convocado, e sua eleição confirmada pelo Papa. O congresso compõe-se tanto de sacerdotes como de laicos, com menos de trinta e dois anos de idade e com uma antigüidade de nove anos como membros plenos. O posto de ‘eleitor’ é um estado ao qual um membro é renomado por toda a vida. É escolhido pelo prelado e aconselhado por seu Conselho.

Os requisitos para prelado são exigentes. Deve ser: 1. Um sacerdote membro do Congresso Geral, membro da prelatura durante pelo menos dez anos e cinco de ordenação, filho de matrimônio legítimo, de boa reputação e com menos quarenta anos; 2. sobressaindo-se por sua prudência e piedade; mostrando um amor e uma obediência exemplares para a Igreja e seu magistério; destacando por sua grande devoção ao Opus Dei; por sua caridade aos membros da prelatura; e por seu zelo à seus vizinhos; 3. adornado com um alto nível de saber meramente secular, mas, também com um doutorado em alguma disciplina eclesiástica e com as demais qualidades necessárias para a tarefa (regra 131).

A regra prossegue descrevendo seu papel dentro do Opus, fundamentalmente, o de supervisão. Porém, é fiscalizado por dois ‘guardiães’ ou admonitores selecionados por ele de uma pequena lista de nove preparada pelo Congresso Geral, do qual não podem ser membros. Devem viver na mesma ‘família’ que o prelado e cuidar de sua saúde, tanto espiritual quanto corporal.

Além disso, do congresso para escolher o novo prelado, deve haver um cada oito anos para exame geral sobre o estado do Opus. Também, pode haver congressos ‘extraordinários’ se houver necessidade.

Depois de uma discussão sobre a nomeação e do possível papel do vigário auxiliar, uma espécie de delegado do prelado, a regra segue ao Congresso Geral, composto de ‘consultores’: o vigário auxiliar, o secretário geral, o vigário para a seção de mulheres (conhecido como o sacerdote secretário central), três vice-secretários, um delegado de cada região, o prefeito de estudos e o administrador geral. Há uma comissão permanente do Conselho Geral, composta pelo prelado, o vigário auxiliar, o secretário central e um dos vice-secretários, o prefeito de estudos e o administrador geral. Alguns dos membros da comissão permanente podem ser laicos, embora, a maioria dos postos devem, e todos podem, ser ocupados por sacerdotes.

O governo da seção de mulheres é necessariamente distinto. Não têm um Congresso para escolher ao prelado, embora tenham todos outros, presididos pelo prelado e seus principais ajudantes (varões). Em lugar do Conselho Geral está a ‘assessoria central’. Este corpo está formado por cargos equivalentes aos dos homens, alguns com nomes ligeiramente distintos, com a adição do prefeito dos auxiliares. Tudo está governado pelo prelado, junto com o vigário auxiliar, o sacerdote secretário geral e o sacerdote secretário central.

Para toda a organização há dois postos mais importantes, embora não sejam ocupados por membros do Conselho Geral. O primeiro é o de procurador, que representa o interesse do Opus ante a Santa Sede de forma regular. O outro é o de prefeito espiritual, encarregado de guia espiritual em toda a prelatura, e preocupa-se especialmente pelas vidas espirituais dos oblatos e super numerários

O Opus está dividido em regiões, e o governo das mesmas é o tema do capítulo 3 deste ‘título’. Em cada região há um ‘Concílio regional’, renomado pelo prelado com a aprovação de seu próprio Conselho. O Concílio regional pode ter uma comissão de até doze pessoas para que lhe aconselhem, uma das quais, chamada ‘o defensor’, tem a tarefa de velar para que as regras sejam observadas. (A seção de mulheres, a regra 157 o esclarece, reflete de novo a estrutura da seção de homens.) A regra 155 aponta, outra vez, que as regiões (ou outras unidades geográficas menores) têm sua própria identidade legal. A um nível mais local, o governo está nas mãos dos diretores (de centros), com seu próprio grupo assessor ou Conselho.

Cada dez anos, estabelece o seguinte capítulo, deve haver uma reunião em cada uma das regiões para examinar como foram as coisas. São convocados todos os titulares presentes e passados, assim como, todos os que têm categoria de ‘eleitor’. Conta-se que todos enviem informes ou comentários, inclusive os cooperadores não católicos, se assim o desejarem. As conclusões destas reuniões não têm nenhuma força até que sejam aprovadas pelo prelado.

O capitulo 5 do ‘título’ IV intitula: ‘Sobre as relações com os bispos diocesanos’. Entretanto, começa assinalando que o Opus Dei está ‘imediata e diretamente’ sujeito à Santa Sede e não aos bispos diocesanos: ‘Todos os membros da prelatura obedecem, humildemente, ao Pontífice de Roma em todas as coisas; esta obrigação de obediência une os membros com um laço forte e grato. ‘ (Regra 172, alínea 1.) Por outro lado, sujeitam-se ao bispo local do mesmo modo que todos os católicos.

As Constituições estendem-se sobre a Santa Sede, dizendo que é tarefa do prelado velar para que todos seus decretos e similares, que dizem respeito ao Opus Dei, sejam conhecidos pelos membros. ‘É o espírito do Opus Dei –diz a regra 173, alínea 2– alentar com o maior amor a união filial com o Romano Pontífice.’

Quanto ao bispo local, alguém tem que falar com ele com freqüência e as autoridades apropriadas da prelatura devem assegurar-se de que os membros conhecem, cumprem e colaboram com todas as regras e normativas estabelecidas tanto pela Conferência Episcopal, como pelo ordinário local. O ordinário tem que ser informado, porque sua aprovação é, certamente, necessária antes de que se abra um centro do Opus em sua diocese. A abertura de um centro implica estabelecer dois domicílios; cada aprovação implica que pode estabelecer-se ao mesmo tempo: ‘Por direito e de direito há dois centros em cada residência do Opus Dei’ (regra 178, alínea 1). Segundo, deve haver uma capela, com exposição a noite da primeira sexta-feira de cada mês. A especial celebração da primeira sexta-feira do mês é uma prática católica comum. O que as Constituições dão a entender aqui é que a sagrada forma seja retirada do sacrário, colocada em custódia e mostrada na capela para que os adoradores rezem ante ela. Conta-se com que o bispo conceda ao clero do Opus Dei rezar missa duas vezes ao dia, e, provavelmente, três aos domingos e às festas. Atualmente, a Igreja católica convence, energicamente, ao clero de rezar mais de uma missa diária, embora, aos domingos, com freqüência, é impossível deixar de fazê-lo. Todavia, o estabelecer nas Constituições expectativas de que os sacerdotes do Opus Dei deveriam fazê-lo, é ir muito contra a corrente de reforma dentro da Igreja.

As limitações ao direito de visita de um bispo explicam-se detalhadamente na regra 179. Pode visitar somente a igreja, o sacrário e os confessionários. A situação, hipotética, é distinta quando os sacerdotes do Opus Dei executam cargos em uma igreja já existente em nome da diocese. Nesse caso, a regra 180 insiste em que se lembre de antemão uma espécie de contrato.

O ‘título’ final trata da ‘estabilidade e força deste código’: ‘Este código é o fundamento da prelatura. Suas normas devem manter-se para ser santas, invioláveis, perpétuas, e a mudança destas ou a introdução de novas, reserva-se à Santa Sede’ (regra 181, parágrafo 1).

Todavia, o código prossegue estabelecendo um mecanismo restrito para produzir mudanças.

A seguir estuda a força vinculada ao código. Aquelas normativas que procedem de leis divinas ou eclesiásticas têm a força de tais leis; as que faz ao governo, obrigam em consciência, ‘segundo a seriedade da questão’ (regra 183, alínea 2). O capítulo seguinte da mesma regra acrescenta que, embora sejam simplesmente disciplinares, as regras não obrigam, exatamente, do mesmo modo. É pecado transgredir, inclusive, a menor destas regras em caso de desacato formal.

Exceto pelas breves ‘disposições finais’ mencionadas anteriormente (ver pág. 63), o código termina com a regra 185:

‘O que se estabelece neste código para homens, expresso em linguagem masculina, é igualmente aplicável às mulheres; exceto onde no contexto diz, ou a natureza do caso deixa evidente, que existe uma diferença; ou onde está explícito uma disposição especial.’

Na regra 182, alínea 1, as autoridades da prelatura são advertidas incitar observância das normas do código, porque é ‘o meio seguro de santidade para os membros da prelatura’. Como documento espiritual deixa muitíssimo a desejar. Pelo resumo anterior ficou claro ser jurídico, mostrando uma preocupação excessiva pela observância da letra da lei e servilismo para aqueles que ostentam a autoridade na Igreja, e, se formos a isso, no Estado. Por outro lado, diz muito pouco a respeito das práticas do Opus Dei e dos apostolados adotados por seus membros.

Segundo o livro adiante, os leitores poderão julgar por si mesmos se a prática do Opus está de acordo com sua teoria.




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