O mundo Secreto do Opus Dei


IV. UMA MUDANÇA DE ESTATUTO



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IV. UMA MUDANÇA DE ESTATUTO

É parte da mitologia do Opus que Escrivá do Balaguer se apropriou das conclusões do Concílio Vaticano Segundo (Vaticano II). O Concílio, convocado pelo Papa João XXIII, reuniu mais de dois mil bispos católicos do mundo. Os documentos redigidos e publicados entre 1962 e 1965 marcaram maior liberalização (o Papa João preferia a palavra ‘aggiornamento’, (‘posta em dia’) em questões como a tolerância religiosa, a relação entre a Igreja e o mundo, as estruturas da Igreja, etc. Em especial, o Concílio sublinhou o importante papel que exercer os cristãos laicos, e esta é a razão pela qual se sugere que Escrivá foi um precursor da visão do Vaticano II sobre o futuro da Igreja. A verdade do assunto, entretanto, é totalmente distinta.

Longe de aprovar o resultado do Concílio, Escrivá trabalhou duro para opor-se a ele. Seus biógrafos não tentam esconder a aflição que o Concílio lhe causou, e se orgulham de seus esforços para procurar que suas inoportunas conclusões não afetassem aos membros do Opus. O Concílio foi inspirado pelo Papa João XXIII, porém, sua conclusão e suas decisões foram postas em prática pelo Papa Paulo VI. Maria do Carmen Taipa foi durante dez anos diretora da seção de mulheres da Venezuela, todavia, trabalhou antes para a sede do Opus em Roma. Conviveu muito de perto com Escrivá. Disse-me que em certa ocasião lhe ouviu dizer de Paulo VI que ‘Deus em sua infinita sabedoria deveria levar este homem’.

Nada incomodou mais Escrivá –e isto também diz-se de muitos sacerdotes maiores da Igreja em geral, que encontraram dificuldade em mudar os hábitos de toda uma vida– que as novas normas sobre a forma na qual rezariam a missa.

O propósito da ‘missa normativa’ (ou ‘missa corrente’), como a chamou, era celebrar a eucaristia de cada domingo de modo mais inteligível para a congregação de fiéis. Até então, os sacerdotes rezavam a missa de costas ao povo. Esta postura, bastante estranha, tinha seus defensores. Alegava-se que exemplificava melhor a estrutura da Igreja: um sacerdote à frente, dirigindo-se ao Altíssimo em nome do povo. Era um conceito hierárquico, e, certamente, significava que em sua maior parte a congregação não tinha idéia do que acontecia no altar, ao ser eficazmente impedido pelo corpo do sacerdote com sua pesada vestimenta. Uma das primeiras coisas a mudar, portanto, era a posição do altar. Quando foi possível, separou-se da parede posterior da igreja e se colocou mais perto dos fiéis. O sacerdote devia estar de pé atrás do altar, frente ao povo e associando-os com ele na prece. Era uma compreensão mais democrática da celebração litúrgica.

Na residência para estudantes do Opus em Londres, ‘Netherhall House’, Vladimir Felzmann, o diretor, gostou muito das reformas na liturgia e decidiu colocar o altar tendo o sacerdote frente ao povo. Fez-lo com a completa aprovação, naquele momento, das autoridades do Opus. A obra foi até o fim com o melhor gosto possível e muito custosamente. Era atrativo. Logo, chegou uma mensagem de Roma: não devia haver altares frente ao povo. A obra de Felzmann foi desmantelada, de novo a um alto preço, e restituída a antiga posição de costas aos fiéis.

Todavia, não era somente questão da posição do altar. A ‘missa normativa’ tinha uma variedade de estruturas que permitiam ao sacerdote um considerável grau de liberdade adaptando a liturgia aos seus fiéis. A forma utilizada nas casas do Opus Dei era rigorosamente controlada, inclusive até qual das quatro aclamações devia utilizar-se depois da elevação das sagradas espécies. Uma das maiores mudanças, certamente, foi a língua que agora se utilizava. As missas rezava-se em língua vernácula, exceto nas casas do Opus Dei, nas quais o latim era norma. Escrivá do Balaguer estudou com cuidado as novas regras sobre a missa. Enviou pautas detalhadas aos membros do Opus Dei sobre como aplicar-se-iam, advertindo ao mesmo tempo os perigos enfrentados pela dissolução da vida da Igreja. Vázquez indica que Escrivá do Balaguer também insistiu em que se dessem conferências aos membros para lhes ajudar a ‘descobrir a verdade’. Ditou instruções precisas sobre seu conteúdo.

Depois passou muito tempo na América Latina, advertindo seus fiéis sobre os perigos que se originaram na raiz do Concílio. Foi ao México por um mês em 1970; no Brasil, Argentina, Chile, Peru e Equador; na Venezuela passou três meses em 1974; no ano seguinte voltava para a Venezuela e seguiu até a Guatemala. América Latina, sem dúvida, era o berço da teologia da liberação com seu peculiar modo de ver o mundo e a Igreja através dos olhos dos pobres. Escrivá do Balaguer não aceitava nenhuma destas separações da tradicional teologia da Igreja católica. Fazendo comentários sobre os setenta clérigos que encheram a cabeça com psicologia e que estavam poluídos por uma propaganda social de matiz marxista, Vázquez observa que estabeleceram a idéia de que no passado a Igreja era a Igreja dos ricos. Para equilibrar os extremos, diz, muitos deram apoio a ‘movimentos comunitários suspeitos, ou passaram ao setor ‘dos pobres’. (O fundador, aberto a chamada universal de Cristo, preferia falar da ‘Igreja das almas’, porque a filiação divina nada tem a ver com filiações sócio-políticas)’. Os sacerdotes que se envolveram em tais ‘movimentos sócio-políticos’, acrescenta Vázquez, metiam-se em um beco sem saída.

Enquanto isso, as coisas não estavam bem ao Opus como Instituto Secular. Em 1 de outubro de 1958. Escrivá escreveu uma carta pomposa aos membros de seu Instituto. Sua existência era desconhecida (exceto, supõe-se, àqueles do Opus que a receberam) até que se imprimiu como parte da documentação incluída no volume das novas Constituições de 1982. É a carta ‘Non ignoratis’ (‘Não ignorada’), e contém a notável afirmação seguinte: ‘De fato, não somos um Instituto Secular, nem daqui em diante nos podem aplicar esse nome.’ Naquele momento era dizer uma coisa extraordinária, dado que a aprovação formal do Opus Dei como Instituto Secular era somente de oito anos antes, e toda a idéia dos Institutos Seculares foi abraçada e levada adiante pelo Opus só uma década antes. Ainda é mais estranho que, se tal era a atitude oficial do Opus, continuasse assistindo as reuniões dos Institutos Seculares e seus membros descritos como tais, ao menos até 1962. O que fez Escrivá mudar de opinião?

A resposta é clara na mesma carta. Alegava que embora sendo parte de um Instituto Secular, exigia dos membros do Opus, cada vez mais, um modelo de vida equivalente ao dos membros de uma congregação religiosa. O advogado canônico do Opus, Julián Herranz, escreveu em 1964 que todos outros Institutos Seculares se desviaram do modelo proposto originariamente como forma de vida; somente o Opus Dei permaneceu fiel à sua idéia original. Existia algum fundamento nesta crítica de que os Institutos Seculares foram assimilados, paulatinamente, ao modelo das congregações religiosas, embora a grande influência do Opus, na Sagrada Congregação de Religiosos, teria capacidade de evitar que acontecesse. Em sua conversação com o Peter Forbarth, a que nos referimos no capítulo III, o mesmo Escrivá dizia assim:

Uma organização poderosa que prefiro não nomear e que sempre considerei que gastava suas energias ao longo dos anos falsificando o que não entendia. Insistiram em nos considerar monges ou frades e perguntaram: por que todos não pensam iguais? E por que não levam um hábito religioso ou ao menos um próprio para distinguir?'

Segundo um antigo membro do Opus, a organização culpada de trair o verdadeiro espírito do Opus Dei era a Companhia de Jesus. Eu mesmo era membro da Companhia fazia uns sete anos. Não recordo que o Opus figurasse em nenhuma ordem do dia dos jesuítas.

Sabe-se lá a razão, mas, em janeiro de 1962 Escrivá do Balaguer deu os primeiros passos para uma mudança de estatuto para sua organização em uma carta dirigida ao cardeal Amleto Cicognani, então secretário de estado, equivalente a Primeiro-ministro do Papa. Solicitou mudasse o conteúdo ao Papa João XXIII.

Chegando neste ponto, Escrivá solicitava a fundação do Opus Dei como ‘prelatura nullius’. Este curioso anacronismo existente na Idade Média quando abades poderosos controlavam a terra ao redor de suas abadias e tinham o direito a ter tribunais, demonstrou ser útil recentemente. Em essência, um abade ou um prelado tinha um enclave diminuto que lhe dava um estatuto mais ou menos equivalente ao de um bispo. Podiam unir-se sacerdotes ao enclave, e serem governados de acordo com suas leis particulares, embora trabalhassem em outra parte. Em 1954, a antiga abadia cisterciense de Pontigny converteu-se na base legal para a Missão na França, uma organização de mais de cento e setenta e cinco sacerdotes que trabalhavam para a reconversão de seus compatriotas. Quando era capelão em Madrid, Escrivá uniu-se a uma ‘prelatura nullius’. Seus estudos doutorais sobre a abadessa Las Huelgas informou-lhe bem sobre tais estruturas e suas possibilidades. Esta era a solução que queria para o Opus. Foi recusado. Suas propostas continham, disse o Papa João, dificuldades insuperáveis não especificadas.

Papa João morreu dois anos mais tarde e Escrivá tentou novamente. E de novo foi recusado. Paulo VI disse-lhe que o assunto deveria ser resolvido de acordo com as decisões do Concílio Vaticano II, então, em todo seu apogeu. Na prática, as principais organizações religiosas foram postas em um estado de morte aparente. Se por alguma razão tinham que convocar uma reunião geral durante este período –como fizeram os jesuítas quando morreu o padre geral–, esta devia esperar até que o Concílio completasse suas tarefas. Ao reunir-se de novo, a assembléia tinha que concordar a estrutura da organização com as conclusões do Vaticano II. Escrivá convocou um Congresso Geral do Opus para junho de 1969. Seu propósito principal era decidir se as novas estruturas surgidas na Igreja do Vaticano II ofereciam maior possibilidade que as da ‘prelatura nullius’ para estabelecer uma nova base legal para o Instituto. Quatro anos mais tarde, Escrivá notificou formalmente Paulo VI da marcha do Congresso, porém, dois anos depois, e quase no mesmo dia, em 26 de junho de 1975, Escrivá do Balaguer morreu. Morreu de repente, ao meio-dia, em ‘Vila Tevere’.

Naquela tarde, seu sucessor, Alvaro do Postigo, rezou a missa e fez uma homilia sobre ele. ‘Desde que morreu o padre –disse–, repeti muitas vezes: agora sim que nós ficamos órfãos. E não é verdade, não é verdade! Porque, além de ter a Deus Pai, que está nos céus, temos a nosso padre no céu, que dali se preocupa com todas suas filhas e com todos os seus filhos.’ A repercussão sobre ‘nosso padre que está no céu’ chegaria a ser comum entre os membros do Opus. A expressão elevava Escrivá a um nível parecido ao de Deus na consciência das pessoas. Ou no mínimo, era um santo.

Santo ou não, ainda não tinha entregue os documentos do Congresso de 1969 à Santa Sede. Em princípio de março de 1976, Alvaro do Postigo, agora encarregado da instituição, foi ver o Paulo VI. O Papa disse-lhe que a questão do estatuto jurídico do Opus ainda seguia aberta, entretanto, havia uma solução à vista. Ao chegar neste ponto, o novo presidente geral sugeriu que, dada a recente morte do Escrivá, o momento poderia não ser oportuno. Paulo VI esteve de acordo, porém, indicou-lhe, como o fez em junho de 1978 quando Alvaro do Postigo foi, novamente, vê-lo, que o Opus só tinha que pedir...

Em novembro desse mesmo ano o novo Papa, o conservador João Paulo II, escreveu uma carta de felicitação ao Opus no décimo quinto aniversário de sua criação. O cardeal secretário de estado, ao entregar a mensagem pessoal do Papa, acrescentou que João Paulo queria resolver o assunto do estatuto do Opus. Correspondia ainda à Congregação de Religiosos e Institutos Seculares, todavia, autorizariam os passos para que deixasse de ser um Instituto Secular. Em janeiro de 1979 o Opus teve seu primeiro contato oficial com a Sagrada Congregação para os Bispos. Foi um intercâmbio de impressões ou pouco mais, porém, expressou-se a esperança de que o Opus pudesse logo ser transformado em uma prelatura pessoal (para esta estrutura, ver págs. 87 e sigs.), dependente da Sagrada Congregação para os Bispos.

No mês seguinte, Alvaro do Postigo foi de novo ver João Paulo II. Contou ao Papa todo o feito até o momento, mas, como unicamente só mesmo Papa podia iniciar formalmente o processo para configurar o Opus como uma prelatura pessoal, o presidente geral do Opus perguntou-lhe se o faria. O Papa não somente esteve de acordo, mas, atuou rapidamente. Na sessão de trabalho seguinte, o cardeal prefeito da Sagrada Congregação para os Bispos, Sebastiano Baggio, amigo íntimo do Opus, recebeu do Papa a tarefa de dar incumbência aos estudos necessários. Em menos de uma semana depois, Baggio escreveu ao Alvaro do Postigo pedindo-lhe que apresentasse um estudo completo sobre o tema. Era 7 de março. Em 23 de abril, um relatório completo estava sobre a mesa para Baggio despachar. Embora, marcado o dia tanto prática como juridicamente, o relatório era em essência preparado, originariamente, para Paulo VI, assim o deixava claro a carta de acompanhamento.

A primeira parte deste documento repassava a história e o estatuto do Opus Dei, revelando de passagem que havia então 72.375 membros em oitenta e sete países distintos, e que, mais ou menos, dois por cento dos membros eram sacerdotes. O relatório sublinhava a natureza única do Opus, e os problemas surgidos em virtude de, até então, a Igreja não ter uma estrutura legal apropriada para o mesmo; este fato, dizia o relatório, ocasionou ao fundador graves sofrimentos e dificultou o trabalho da organização. Depois, continuava discutindo as outras formas jurídicas adotadas obrigatoriamente, e, finalmente, apontava que o Opus Dei cumpria os requisitos para uma prelatura pessoal. Haveria vantagens para a Igreja com a concessão deste estatuto, concluía o relatório, porque reforçaria o serviço que o Opus oferecia à Igreja local e poria a disposição da Santa Sede um ‘corpo móvel’ (a propósito, uma expressão utilizada usualmente pelos jesuítas), iria onde mais se necessitasse. Os membros do Opus veriam-se, com isso, liberados de alguns dos problemas enfrentados quando trabalhavam. Aqui apareciam de novo úteis pormenores estatísticos: em 479 Universidades e escolas de segundo ensino nos cinco moderados; em 604 publicações; em 52 emissoras, tanto de Rádio como televisão; em 38 agências de Imprensa e publicitárias; em 12 produtoras de cinema; e em empresas de distribuição. Muitos outros Institutos religiosos com distintos estatutos jurídicos conseguiram, e continuam conseguindo, funcionar de forma totalmente satisfatória sem o benefício de ser uma prelatura pessoal. O Opus, todavia, encontrou dificuldade.

No início de junho, Alvaro do Postigo escreveu de novo ao Baggio para explicar-lhe alguns possíveis mal-entendidos. Planejou-se que esta carta, ou parte dela, lessem-na os espanhóis em um longo artigo publicado pelo seminário católico Vida Nova, onde, de fato, tomei parte conforme descrito acima. Mas, pouco antes de sua publicação, apareceram dois membros do Opus com uma carta das autoridades de Roma, proibindo a aparição do artigo, intitulado ‘A transformação do Opus Dei’. Não está claro quais eram as objeções; o artigo é, em sua maior parte, admiravelmente objetivo apesar da prolongada hostilidade de Vida Nova para o Opus. Atendia-se, exatamente, aos documentos, exceto no último parágrafo final do comentário. Ali faziam-se conjeturas sobre a oposição ao avanço do Opus no tempo de Paulo VI, devido, em especial, aos relatórios secretos enviados à Roma por ‘personalidades da Igreja espanhola’. Existia oposição, diz o anônimo autor do artigo, inclusive dos setores ‘mais elevados’. Que tinha em mente o cardeal de Madrid apenas pode duvidar-se. O diretor recusou primeiro a petição dos membros do Opus, mas ‘Vida Nova’ é uma revista dirigida pela Igreja. O artigo não apareceu.

Apesar da mencionada oposição espanhola, a Sagrada Congregação para os Bispos constituiu um ‘comitê técnico’ que entre fevereiro de 1980 e fevereiro de 1981 celebrou vinte e cinco sessões de trabalho. Também havia uma comissão especial de cardeais nomeada pelo mesmo Papa para examinar o assunto. Informou em 26 de setembro de 1981. Em seguida, solicitaram opiniões de todos os bispos em cujas diocese operava o Opus Dei, ao que parece à uns quinhentos. Esta informação procede de uma carta do cardeal Baggio, publicada no periódico do Vaticano ‘L'Osservatore Romano’ em 28 de novembro de 1982, escrita para acompanhar a declaração de que o Opus conseguiu o estatuto de prelatura pessoal proposto. O detalhe sobre a consulta aos bispos é realmente muito curioso: não pelo fato de que fossem consultados, é óbvio, mas sim pelo silêncio que seguiu a sua resposta. Se esta fosse indiferente, ou inclusive favorável, Baggio diria com toda segurança. O fato de não fazer comentários sobre a reação episcopal, pode somente entender-se como uma negativa. Em realidade, a reação espanhola foi particularmente hostil.

Não muito depois do relatório da Comissão cardinalícia lembrou-se o novo estatuto. Alvaro do Postigo informou à seus membros em uma acalorada carta com data de 8 de dezembro de 1981. A carta, entretanto, deveria ser um segredo no momento, e ser compartilhada unicamente com os Conselhos Gerais (masculino e feminino) do instituto. Esperaram bastante tempo antes de dizerem aos outros membros. O Papa João Paulo II concedeu uma audiência ao cardeal, prefeito da Sagrada Congregação para os Bispos, em 5 de agosto de 1982, no curso da qual ‘passou, confirmou e ordenou’ a publicação de uma declaração anunciando a constituição da prelatura. O Escritório de Imprensa do Vaticano anunciava em 23 de agosto que o Papa decidiu nomear o Opus Dei prelatura pessoal. Os documentos atrasaram ‘por razões técnicas’, mas, chegariam em breve. Esta notícia foi dada pela Imprensa de todo mundo, exceto no mesmo Vaticano, ‘L'Osservatore Romano’ não trazia a história.

Quando chegou a declaração formal, datava o anúncio do Vaticano, em 23 de agosto. De modo bastante precipitado esteve disponível em um texto italiano e os serviços de notícias católicos informaram também. Fez-se público de forma oficial só em 28 de novembro, data em que se aprovaram as Constituições. Essa é também a data da Constituição Apostólica assinada pelo Papa, que criava formalmente a nova prelatura pessoal. Entretanto, esse documento não se publicou até março do ano seguinte, quando se tomaria ainda outra medida. A igreja de Santo Eugênio é uma das duas paróquias romanas controladas pelo Opus. Neste edifício o núncio apostólico para a Itália entregou as escrituras do novo título do Opus ao presidente geral em 19 de março de 1983.

Estranhamente, a declaração que estabelece a prelatura pessoal publicou-se com um comentário escrito por um membro da Sagrada Congregação para os Bispos, Monsenhor Marcelo Gostalunga. Declarando que Paulo VI encomendou a idéia de uma prelatura pessoal a Monsenhor Escrivá do Balaguer já em 1969. Era o decreto do Vaticano II, sobre o ministério e a vida dos sacerdotes, que lançou a idéia das prelaturas pessoais. Ao falar da necessidade de redistribuir o clero nas zonas de maior necessidade, o documento Vaticano II acrescenta:

Para estes fins, portanto, podem-se estabelecer alguns seminários internacionais; diocese especiais, ou prelaturas pessoais; e outros órgãos desta classe. De forma a ser decretada para cada empresa individual, e sem prejuízo aos direitos dos ordinários locais (exemplo, bispos diocesanos), os sacerdotes podem por meio das mesmas ser atribuídos ou incardinados para o bem geral de toda a Igreja.” (‘Decreto sobre a vida sacerdotal e o ministério’, parágrafo 10.)

O que isto quer dizer, exatamente, foi fixado por Paulo VI em um documento datado 6 de agosto de 1966 conhecido como ‘Ecclesiae Sanctae’.

Esta nova estrutura, entretanto, não foi, originariamente, pensada como um meio de estabelecer uma congregação religiosa, mas sim como um meio ‘para a apropriada distribuição de sacerdotes, para objetivos pastorais especiais em pró de grupos sociais diversos, tanto se estes objetivos alcançam uma zona dada, como em uma nação ou em qualquer parte da Terra’. Estes ‘grupos sociais diversos’ eram categorias identificáveis de pessoas que não eram adaptadas facilmente, dentro das estruturas tradicionais, por sua particular forma de vida, ou por sua mobilidade: por exemplo, ciganos ou soldados. As prelaturas pessoais, em outras palavras, não foram concebidas para pessoas como os membros do Opus Dei.

Assim pois, longe está a evidência que esta nova estrutura resulte mais satisfatória para o Opus, que sua anterior representação como Instituto Secular. Não haveria problema quanto aos sacerdotes referidos. Serão incardinados a prelatura de modo muito parecido ao demais clérigos incardinados nas diocese. As dificuldades surgem com os membros laicos. A ‘Ecclesiae Sanctae’ do Papa Paulo VI previa que os laicos, tanto casados como solteiros, pudessem associar-se ao trabalho de uma prelatura. Mas, está claro que os laicos são considerados, em sua maior parte, como recipientes do ministério de uma prelatura, não como um elemento principal –no caso do Opus o elemento principal– de tal ministério.

A declaração da Sagrada Congregação para os bispos afirmava que os membros laicos do Opus Dei ‘dedicam-se à realização dos objetivos apostólicos próprios a prelatura, assumindo compromissos sérios e específicos’. Fazem-no por meio de um vínculo contratual e não em virtude de votos particulares’. ‘




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