O mundo Secreto do Opus Dei



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III. OS ANOS DE EXPANSÃO

Era parte do programa diário de Escrivá do Balaguer reunir-se toda tarde com os membros de sua Pia União em uma sala do apartamento da rua Diego de Leon e explicar ali o ensino espiritual resumido em Caminho. Em princípios dos anos quarenta havia várias residências do Opus pulverizadas por toda a Espanha. Evidentemente, não havia modo de estar em todas partes ao mesmo tempo para instruir seus neófitos na forma que acreditava apropriada. Todavia, já havia um pequeno número de sacerdotes associados com o Opus aos quais confiava a formação dos membros que não podia ver pessoalmente com regularidade. Alguns desses clérigos, aponta Vázquez, eram para ele uma ‘coroa de espinhos’. Sua falta de compreensão do espírito que queria inculcar lhe causava mais problemas que ajuda. A única solução satisfatória era que o Opus tivesse seus próprios sacerdotes, concluiu.

Se a primeira vista parecia uma solução razoável, no fundo delata uma atitude clerical, fundamentalmente tradicional, para o papel do sacerdote na Igreja e que, certamente, Escrivá compartilhava com a maioria dos católicos de seu tempo. O mesmo era sacerdote; a liderança e guia espiritual de sua organização deviam estar em mãos de sacerdotes. Em teoria não havia nenhuma razão para que a Pia União não fosse dirigida unicamente por laicos, e guiada ritualmente por laicos. Organizações assim começavam surgir na Igreja católica, todavia, para o Escrivá era uma inovação muito grande no papel dos laicos, de cuja habilidade, em qualquer caso, desconfiava: ‘Quando um secular se erige em mestre de moral, equivoca-se freqüentemente: os seculares só podem ser discípulos’ (Caminho 61). Decidiu, pois, preparar alguns membros do Opus para ordenação, embora na aparência com consideráveis dúvida em princípio. ‘Amo de tal maneira a condição laica de nossa Obra, que sinto fazê-los clérigos, com uma verdadeira dor; e por outra parte, a necessidade do sacerdócio é tão clara, que terá que ser grato a Deus Nosso Senhor que cheguem ao altar esses meus filhos’. Para a História, os três primeiros foram Alvaro do Postigo, José Maria Hernández da Garnica e José Luis Múzquiz. Os três eram engenheiros civis.

Começaram seus estudos em Madrid com uma equipe de professores especialmente selecionado pelo Escrivá e com a aprovação do bispo de Madrid. ‘Tiveram o melhor professorado que pude encontrar –disse mais tarde Escrivá–, porque tive sempre o orgulho da preparação científica de meus filhos como base de sua atuação apostólica... Eu lhes agradeço, porque me destes o orgulho santo –que não ofende a Deus– de poder dizer que tivestes uma preparação eclesiástica maravilhosa’. Escrivá dizia estas palavras por ocasião do vigésimo quinto aniversário das primeiras ordenações. A capacidade de intuição alegada pelo fundador nesta e na entrevista prévia é típica, como também o é a atitude possessiva tão notável que mostra para os membros do Opus.

Antes de dar lugar as ordenações teve que resolver um problema. A Igreja exige que os aspirantes ao sacerdócio sejam ordenados para um ‘título’: em outras palavras, tem que haver alguém ou alguma instituição que lhes garanta os meios de vida. Normalmente, têm que pertencer a uma diocese ou a uma congregação religiosa antes de que as autoridades eclesiásticas sancionem a administração do sacramento. A Pia União não servia; não era uma instituição adequadamente constituída.

A solução foi encontrada em 14 de fevereiro de 1943. Naquela manhã, festa de são Valentín, Escrivá celebrava a missa em uma casa da seção de mulheres para comemorar a fundação da mesma treze anos antes. Ocorreu-lhe então, que devia criar outra seção dentro do Opus, para sacerdotes que dessem “título” de ordenação. E assim nasceu a Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz.

No dia seguinte, Escrivá foi ver Alvaro do Postigo ao Escorial, onde se preparava para os exames. Contou-lhe sua decisão e seu desejo de estender o Opus Dei tanto em Portugal como na Itália, para o qual se necessitava uma organização bastante mais capitalista que uma Pia União. Porém, caso houvesse uma sociedade sacerdotal, era o Vaticano quem devia passá-la. Obediente, Alvaro partiu para Roma a solicitar a ajuda papal. Isto acontecia, efetivamente, em plena Segunda guerra mundial. Durante o vôo a Roma, Alvaro do Postigo presenciou o bombardeio de um navio no Mediterrâneo. Por outro lado, a guerra pouco interferiu no Opus, fora do desembarque aliado na Sicília, que, comenta Vázquez, ‘interpôs-se no caminho das negociações começado pelo presidente geral do Opus em 1943’.

Para assombro dos italianos, concedida uma audiência por Pio XII, Alvaro dirigiu-se ao Papa com o uniforme de gala de engenheiro de procedência espanhola. Depois, voltou para Madrid. A Sociedade Sacerdotal de Santa Cruz recebeu aprovação em 11 de outubro de 1943, embora a notícia não chegou à capital espanhola até a semana seguinte. Foi recebida com alegria. Em 8 de dezembro o bispo de Madrid constituiu formalmente a Sociedade Sacerdotal em sua diocese.

Agora havia duas organizações sob o mando de Escrivá do Balaguer. O Opus Dei, que como ‘Pia União’ ainda existia, e a ‘união sacerdotal’ chamada Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz, criada junto àquela. Os problemas jurídicos que perseguiram o Opus surgiram das dificuldades em sair adiante com duas instituições completamente distintas.

As palavras com que se abre a Constituição de 1943 da Sociedade Sacerdotal sublinham o problema: ‘A ‘Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz’ é uma sociedade preferencial sacerdotal, de gente que vive em comum sem votos.’ Ademais, qualquer outra consideração pertence a este grupo, a exclusão de mulheres, obviamente, um fato esclarecido pelo parágrafo 8 da ‘Constituição’, que declara que a sociedade está composta por duas seções: uma de sacerdotes (havia, é óbvio, um só sacerdote no momento de sua fundação, o próprio Escrivá do Balaguer), e a outra de laicos que estão em caminho do sacerdócio preparando-se para a ordenação. A lei da Igreja requer que uma associação sacerdotal esteja dirigida por sacerdotes. Não se exige, entretanto, que só possam pertencer a ela sacerdotes.

Era tarefa especial da Sociedade Sacerdotal cuidar do Opus Dei, o qual tinha seus próprios estatutos, acrescentados aos da Sociedade Sacerdotal. Existiam, entretanto, acusadas similitudes: ambas tinham numerários e super numerários, como se chamavam as duas classes, o equivalente, mais ou menos, a membros de plena dedicação e a membros de tempo parcial. Enquanto a Sociedade tinha ‘escolhidos’, com voz no governo do Instituto, o Opus tinha ‘inscritos’, com muitos mais obrigações espirituais que os membros menores. A Sociedade Sacerdotal tinha várias casas para os membros que viviam em comum. O Opus somente devia ter uma única residência (artigo 11). Um preceito bastante estranho era que ninguém batizado depois de adulto podia ingressar na Sociedade Sacerdotal. Tampouco, ingressavam os que não demonstravam, ao menos em um ramo da família, antepassados católicos durante três gerações. À exceção deste último preceito, o perfil do Opus e o da Sociedade Sacerdotal preparado a Sagrada Congregação de Religiosos do Vaticano que se ocupava de tais assuntos, parecia-se muito mais a um esboço de Constituição atualmente em vigor, e tampouco se diferenciava acusadamente dela, ao menos para um observador estranho.

Curiosamente, não havia nada nos estatutos que regem a Sociedade Sacerdotal que apontasse a nenhum requerimento específico secreto. O artigo 12 dos estatutos do Opus, por outra parte, era muito explícito: ‘Para que a humildade não sofra dano, 1°) não deverão publicar-se nem periódicos, nem livros como pertencentes ao Opus; 2°) os membros não devem levar nenhum sinal que os distingua dos demais, 3) devem insistir para que os membros não falem do Opus à estranhos.’

Até então a fundação de Escrivá era uma organização incardinada na diocese. Por volta de 1946 a Sociedade Sacerdotal tinha uns doze sacerdotes, 250 numerários e não menos de 400 ‘oblatos’, que viviam similares aos numerários, porém, não residiam em casas do Opus. O Opus Dei tinha em torno de 350 membros subordinados. Sua espiritualidade simples, prática, bastante masculina, obviamente exercia um atrativo sobre devotada Espanha de Franco em sua determinação de revitalizar a vida religiosa do país. Havia casas de uma ou outra classe em Madrid, Valência, Barcelona, Zaragoza, Valladolid, Sevilha, Bilbao, Granada e Santiago da Compostela. No ano anterior, Escrivá visitou três vezes Portugal com a esperança de estender sua obra àquela parte da península Ibérica. Já havia membros de outros países, alguns deles da Itália. Era o momento, sentia o fundador, de subir um pouco mais na hierarquia das organizações eclesiásticas, de instituto diocesano passar a ser uma instituição com estatuto, sem restrições na Igreja católica.

O leal Alvaro do Postigo foi de novo enviado a Roma em busca da aprovação pontifícia para um novo estatuto ao Opus Dei. Aquilo era algo que a cúria de Roma não estava disposta a conceder, fazia apenas três anos que o Opus passou a ser instituto diocesano. Alvaro encontrou o caminho mais árduo do que esperava e pediu ajuda ao Escrivá. O fundador deixou Madrid em 23 de junho de 1945 em companhia de um membro do Opus que falava italiano, José Orlandis, e dirigiu-se de carro a Barcelona, detendo-se em santuários marianos pelo caminho. De Barcelona tomou um navio até Gênova e logo seguiu de carro a Roma.

Raimundo Pániker recorda a volta de Roma de Escrivá. ‘Filhos meus –disse-lhes–, perdi minha inocência’. Segundo Pániker, foi a Roma como um sacerdote sincero, honesto, singelo..., em outras palavras, ingênuo. Ali viu como se governava à Igreja, a intriga e a prática de prebendas (ocupação rendosa e de pouco trabalho) dentro da corte papal. Se os cardeais e monsenhores comportavam-se daquele modo, raciocinou, corretamente, ele, portanto, também podia, certamente só para promover o reino de Deus. Por interesse do reino, as regras ordinárias de moralidade seriam, senão burladas, ao menos esquivadas. Roma exerceu sobre Escrivá do Balaguer uma fascinação imensa. No final de agosto retornava a Madrid. Dois meses depois estava de novo na capital italiana, e Roma ia ser seu principal lugar de residência para o resto de sua vida.

Enquanto isso, a missão no Vaticano não tinha tido muito êxito. Alvaro do Postigo teve que contentar-se com a aprovação da cúria de uma série de privilégios espirituais. Estes eram para o Opus Dei muito mais importantes do que pareciam a primeira vista. Era típico de uma instituição religiosa conceder aos seus membros o privilégio de receber, ou autorizar dispensa aos sacerdotes membros, ‘indulgências’ ou bênçãos de uma ou outra classe. Era uma questão de orgulho. Listas de tais privilégios disponíveis para os membros de tais instituições e para os que estivessem sob seu guia espiritual. Tinham um papel muito maior na devoção católica dos anos quarenta e cinqüenta do que hoje em dia. Para o Opus Dei, a concessão de seus próprios privilégios era um bom sinal.

Alvaro reuniu uma considerável quantidade destes privilégios. São de leitura interessante, porque indicam a devoção esperada que vivessem os membros do Opus. O dia em que um neófito entrava, concedia-lhe indulgência plenária, onde prometia remissão sem purgatório de toda pena devida pelos pecados já perdoados, igualmente a cada passo dado dali em diante na escala de qualidade de membro. Podia-se obter outra indulgência plenária para quem beijasse a madeira de uma cruz em uma capela do Opus no dia da festa da Invenção da Santa Cruz (em 3 de maio), e outras menores aos mesmos ato realizado em outras ocasiões. Não há dúvida de que o Opus Dei dava, e continua dando, grande importância a esta oculta amostra da tradição católica.

Estas concessões tiveram que contentar o Opus naquele momento. Porém, havia coisas maiores pelo caminho. Em 2 de fevereiro de 1947, uma ‘Constituição Apostólica’ emitida pela cúria romana e conhecida, como é costume, por suas primeiras palavras como ‘Provida Mater Ecclesia’, estabeleceu uma nova estrutura jurídica na Igreja católica: os Institutos Seculares.

As características distintivas de um Instituto Secular são muito adequadas à forma de vida que o Opus promovia entre seus membros. Não há vestimenta, ou hábito especial; ninguém faz votos em público, embora possam fazê-los em privado. Nos Institutos Seculares aqueles não mudam sua profissão, ou ocupação por serem membros; nem trocam tampouco seu estatuto eclesiástico: os laicos seguem sendo laicos, os sacerdotes não deixam de ser clérigos.

Esta nova forma de organização foi ansiosamente recebida pelo Opus como a solução procurada. Tão ansiosamente, de fato, que a Sagrada Congregação de Religiosos fez apressadamente um decreto declarando-o o primeiro Instituto Secular: estas eram exatamente as palavras com as quais começava o decreto, e portanto, pelas que é conhecido: “Primum Institutum Saeculare”. Estava datado exatamente três semanas depois do ‘Provida Mater Ecclesia’, em 24 de fevereiro de 1947. Que o ‘Provida Mater Ecclesia’ enquadrava-se tão bem ao Opus, não surpreendia. Através de seu crescente compromisso com a cúria papal, Alvaro participou dando luz a nova estrutura. A ‘Constituição’ foi recebida com agrado pelos membros do Opus, davam a sensação de que tomavam posse da mesma um pouco como tentavam, com considerável êxito, monopolizar seus últimos estatutos; ainda é o único exemplo do que se conhece como uma ‘prelatura pessoal’. Em 1948 Escrivá deu uma conferência elogiando aos Institutos Seculares. Naquela data o fundador e seus seguidores desejavam que o Opus fosse reconhecido não só como Instituto Secular, mas sim como o primeiro deles, “segundo direito”. O ‘segundo direito’ é importante, porque certamente havia organizações mais antigas que o Opus que, ou nunca foram consideradas como tais, ou o foram mais tarde.

Bastante curioso é que, em um artigo bibliográfico publicado em 1981, o compilador, Mateo–Seco, omitisse toda menção da conferência do Escrivá, que já publicada. Todavia, quatro anos mais tarde, em sua contribuição a ‘Monsenhor Josemaría Escrivá do Balaguer e ao Opus Dei, reparou a omissão, com uma nota rodapé de página e, como ele admite, fora de lugar. A passagem que cita do próprio artigo de Escrivá não menciona à ‘Provida Mater Ecclesia’, o tema sobre o qual estava escrevendo. Em seu lugar cita algo remoto remarcando aqueles elementos da vida do Opus que, finalmente, Escrivá decidiu que não se enquadravam com o modelo de um Instituto Secular.

A entrevista de Mateo–Seco é, portanto, tendenciosa. Todavia, chama atenção sobre os problemas aos quais o Opus Dei enfrentou e que levaram-no ao ponto que chegou; assistindo às reuniões de representantes de Institutos Seculares, e repudiando o estatuto por completo. Parece que não sem razão. Porque o ‘Provida Mater Ecclesia’ impõe os Institutos Seculares sob o controle da Sagrada Congregação de Religiosos e há uma tendência definida a fazê-los parecer, cada vez mais, às congregações religiosas. Escrivá do Balaguer opunha-se a tal assimilação.

Dois meses depois do reconhecimento do Opus como Instituto Secular, Escrivá foi elevado à fila de ‘Prelado Doméstico do Papa’, o que lhe deu direito ao título de Monsenhor, e a levar púrpura como parte de seu hábito sacerdotal.

Procurou sempre ter e usar a roupa que era necessária –escreve Bernal–. Houve uma época em que levou solideo* para compensar a idade que não tinha... Depois, para sublinhar a secularidade do Opus Dei, ficou algumas vezes a batina debruada de vermelho e outros distintivos próprios de sua condição de Prelado Doméstico. Anos mais tarde confessou que isso lhe resultava muito mais duro que vários cilícios”.

[*O solideo é um tecido talhado e costurado em forma de calote esférica, a fim de cobrir a parte superior da cabeça dos dignatários eclesiásticos e que deve ser retirado "só em nome de Deus" (soli Deo) na parte mais solene das cerimônias litúrgicas]

O sucessor de Escrivá, Alvaro do Postigo, também tem o título de Monsenhor, mas como cabeça da Prelatura recentemente instituída, ostenta um anel de bispo e uma cruz sobre o peito como um bispo, coisa que não é. Curiosamente, para uma Constituição formal, o documento aprovado em 1950 fez especial menção a que “títulos de honra, tais como, os normalmente outorgados por autoridades civis ou eclesiásticas aos clérigos ou aos laicos, não estão proibidos aos membros do Opus Dei”, embora estava proibido instigar por eles (parágrafo 14,5). Aos sacerdotes do Opus que chegavam a superiores também permitia-lhes levar algum sinal que indicasse sua classe social (parágrafo 14.6), uma concessão a qual o novo prelado obviamente dá muita importância.

O novo estatuto do Opus requeria que sua sede estivesse em Roma. No início de 1947 não tinha residência fixa na cidade. O problema expôs uma duquesa italiana, Virginia Sforza Cesarini. Ela conhecia um edifício no Viale Bruno Buozzi, em outro tempo Embaixada da Hungria na Santa Sede, cujo proprietário desejava vender. Foi adquirido em julho e Escrivá o chamou ‘Vila Tevere’. Fizeram-se amplas melhorias transformando o edifício numa mansão elegante e imponente, em nada semelhante à outras sedes de institutos religiosos em Roma. O trabalho de restauração só completou-se no início de 1960.

Sem dúvida, o Opus já estava estabelecido na Itália. Fora da Itália e, certamente, fora da Espanha, tinha centros, além disso, em Portugal (desde 1945) e na Inglaterra (desde 1946). No ano de sua aprovação como Instituto Secular estendeu-se à França e à Irlanda. Dois anos mais tarde também estava no México e nos Estados Unidos. Em 1950 estabeleceu-se no Chile.

Começou também expandir-se de outras formas. Assim que foi dada a aprovação como Instituto Secular, Escrivá decidiu que o Opus devia ter membros casados. Vázquez da Prada cita longas passagens do fundador elogiando o matrimônio, porém, uma atitude claramente distinta encontra-se em “Caminho”. Inclusive a máxima 28 diz: O matrimônio é para a classe de tropa e não para o estado maior de Cristo. Assim, enquanto comer é uma exigência para cada indivíduo, procriar exige-se só para a espécie, desinteressando pessoas singulares.

‘Ânsia de filhos...? Filhos, muitos filhos, e um rastro indelével de luz deixaremos sacrificando o egoísmo da carne.’

Alguém deve recordar que, para os católicos criados no molde tradicional, como foi Escrivá, a procriação era o propósito primitivo do matrimônio. Engendrar filhos era inviável uma armada para servir no corpo de oficiais (embora certamente também protegia uma das cargas do lar’, máxima 26). À parte o desprezo pelo matrimônio, a característica oponente ao comentário de Escrivá é a clara distinção de ‘classe’ que introduz. Certamente, era freqüente no clero ter esses pensamentos, reconhecer a superioridade da vida celibatária. O estranho apoio em que se dê um sacerdote cujo carisma, alguém se sente instigado a acreditar, foi a criação de um estatuto laico, ou secular dentro da Igreja.

Seja como for, 1947 viu a adesão de uma categoria de casados às classes do Opus. Pessoa casada podia entrar, e entrava, como membro super numerário, sem esperança (e sem dúvida, sem desejo) de subir de categoria.

Por volta de 1950, a seção masculina do Opus tinha 2.400 membros, dos quais, aproximadamente, uma vintena eram sacerdotes. Uns dois terços dos mesmos estavam na Espanha. Seguia-lhe o grupo português, com aproximadamente 260 membros. México e Itália (neste último país o mesmo Escrivá esteve particularmente ativo procurando adeptos) tinham aproximadamente uns cem cada um. Os países acima mencionados eram aqueles nos quais o Opus Dei tinha mais êxito. Além disso, havia 550 membros da seção feminina.

O ano 1950 é importante, porque foi o ano em que o Opus Dei foi recompensado com a aprovação formal como Instituto Secular pelo Papa Pio XII. O decreto de 1946 foi um ‘decretum laudis’, uma declaração generalizada de aprovação. Em 16 de junho de 1950 chegou o documento formal, com a aprovação da nova Constituição. Embora, publicou-se outro em 1982, este fascinante documento não foi invalidado. A seção 2 das ‘Disposições finais’ da versão de 1982 insiste em que a regra anterior segue vigente, exceto no que esteja especificamente revogada. Em especial mantém seu interesse porque, a diferença da última versão, tem muito que dizer a respeito da espiritualidade da instituição e do método de obrar. Tanto é, que inclusive antigos oficiais da alta classe social do Opus, como Maria do Carmen Taipa, acreditavam que a versão impressa ao final da prodigiosa aventura do “Opus Dei”, de Jesus Infante (1970), não era a Constituição, a não ser ‘Praxe’, um manual publicado para guiar membros regularmente atualizado. Entretanto, os oficiais do Opus não negaram que seja a Constituição do Instituto, embora comentassem, desfavoravelmente, tanto a tradução como a edição.

A maior mudança das variações anteriores da regra do Opus na versão de 1950 é a permissão concedida aos sacerdotes diocesanos para converter-se em membros. Poderiam, segundo o parágrafo 72, converter-se em oblatos ou em membros super numerários Não podiam, todavia, converter-se em numerários, porque isto lhes separaria da obediência a seu bispo. Assim resolveu um problema que inquietava Escrivá: pensava, assim o relata Vázquez da Prada, em deixar o Opus para dedicar-se ao progresso espiritual do clero diocesano: agora podia fazê-lo dentro de sua fundação original.

Outra inovação na Constituição de 1950 (parágrafo 29) era a categoria de ‘cooperadores’ para ajudar com suas orações, suas esmolas; e colaborando ativamente em projetos a eles encomendados pelos superiores do Instituto. Em troca, tiram proveito dos benefícios espirituais do Opus. Os cooperadores abrangem inclusive aqueles ‘que não professam a verdade católica’; estão, entretanto, em perigo de ser convertidos. Um distinto jornalista católico inglês soube que, por um serviço prestado ao Opus quando chegou a Londres, era considerado cooperador, encolerizou-se.

Há um número de características incomuns na nova Constituição tal como foi passada em 1950 pela Sagrada Congregação de Religiosos. A Congregação rompeu regras que ela, ou outros departamentos da cúria papal, estabeleceram fazia tempo para uma melhor direção dos Institutos religiosos. Por exemplo, o código de 1917 insistia em que, sem a especial aprovação de Roma, que, neste caso, Escrivá do Balaguer não procurou, os Instituto religiosos de mulheres não dependiam de seus equivalentes masculinos em relação ao governo dos mesmos: deviam ter seus próprios superiores, inclusive ao mais alto nível. A seção de mulheres do Opus, por outro lado, dependia totalmente de Escrivá ao mais alto nível, e a nível regional do conselho regional.

Também se tinha acordado pelas autoridades romanas que, embora ‘estivesse relacionado à consciência’ podia ser benéfica como exercício espiritual, estava tão exposta ao abuso que não devia ser obrigatória aos membros dos Instituto religiosos.

A prática incluía dizer ao superior tudo sobre si mesmo, dificuldades e imperfeições próprias, sendo obrigatória para todos os membros do Opus.

Finalmente, a Sagrada Congregação de Religiosos queria assegurar que as divisões dentro de um Instituto fossem as menores possíveis. Dentro do Opus, entretanto, não só havia cooperadores, super numerários e numerários ou oblatos: inclusive dentro da categoria dos mesmos numerários havia distinções de classe.

O conjunto é importante aqui é a classe de organização que surgiu a partir da concessão do decreto da Sagrada Congregação de Religiosos em 16 de junho de 1950, o que um comentarista chama a ‘fisionomia’ do Opus, que, segundo eles, é, era e sempre foi uma organização claramente laica (laica como oposto a ‘clerical’, não dirigida por ‘clérigos’ nem sacerdotes). A Constituição de 1950 é, todavia, segundo a apreciação de todo o mundo, claramente clerical.

Vemos dois níveis. O primeiro, o mais evidente, é que a direção do Opus Dei estava em mãos de sacerdotes. O número de clérigos em 1950 era pequeno, ao redor de uma vintena em um total de uns três mil membros. Destes últimos, uns quinhentos e cinqüenta eram mulheres e, portanto, não eram aptas para o sacerdócio. Os restantes dois mil e quatrocentos homens estavam divididos nas duas categorias de numerários e super numerários, de modo que os que podiam ser ordenados (os numerários) eram uns mil.

As primeiras duas seções do primeiro capítulo da Constituição de 1950 estabelecem que o nome correto da organização é ‘A Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz e o Opus Dei’, e que, em conjunto, é um Instituto ‘clerical’. Um número de pessoas que, em cálculos do padre, considere-se adequado para a ordenação ao sacerdócio, embora tecnicamente não sejam clérigos, também pertencem à Sociedade Sacerdotal.

Em primeiro lugar: o Opus Dei é clerical em sua estrutura de controle e na forma em que ser membro pleno parece reservado àqueles que são sacerdotes e àqueles que ‘pudessem sê-lo’.

Segundo: é clerical no sentido amplo no que os católicos utilizam o termo para designar às monjas e aos sacerdotes. Esta é uma utilização de sentido comum. ‘Laico’ em inglês tem tendência a significar ‘não profissional’. Mas, certamente, tanto as monjas como os sacerdotes e os numerosos membros não ordenados das ordens religiosas ganham seu sustento sendo membros ativos ‘profissionais’, ou em tempo integral, da Igreja. O denominador comum é que vivem em comunidades. Vivem, em outras palavras, uma ‘vida comum’. A vida convencional de família é substituída por uma forma de vida familiar apoiada na vida da congregação religiosa a que se entregaram.

Já vimos que era o desejo do Escrivá do Balaguer que a vida dentro do Opus fosse, o mais próxima possível, uma vida de ‘família’. Não mediu esforços para levar até o fim, tanto o estilo de vida, como a linguagem estimulante a si mesmo e para com seus parentes próximos. Porém, aos numerários, os únicos membros próprios da Sociedade Sacerdotal, exigia seguirem os ideais evangélicos de perfeição, tal como, na tradicional interpretação da Igreja católica, exige aos membros das congregações religiosas. Também exigia que levassem uma vida ‘comum’ em casas especiais do Opus.

Embora em 1950 receberam a categoria de Instituto ‘Secular’ –e vangloriavam-se do fato de serem os primeiros de sua classe–, a secularidade não significava ‘laico’ no sentido ordinário do termo. Na realidade, os membros plenos, os numerários, eram religiosos e monjas.

Essa impressão é mais notada quando a Constituição de 1950 continua falando do processo pelo qual as pessoas se convertem em membros do Opus Dei. Primeiro há um período de ‘provas’, logo uma ‘oblação’ de cinco anos, finalmente a ‘fidelidade’, com sua obrigação de por vida. Para os que se uniam como numerários, a fidelidade requeria que tomassem os votos tradicionais de pobreza, castidade e obediência. (De passagem, exigia-lhes novos votos que protegessem a instituição e, ao insistir na consulta aos superiores, aumentavam o grau de controle que os superiores exerciam sobre os membros.)

Novamente, como religiosos e religiosas totalmente novatos, a vida espiritual dos membros era rigorosamente controlada pela Constituição de 1950. Onde os membros vivessem juntos como ‘família’, colocavam uma cruz negra sem a figura de Cristo sobre ela. Toda noite deviam rezar juntos, individualmente se não fosse possível, o rosário, a prece à Virgem Maria composta de quinze mistérios de dez ave-marias cada um, seguido de uma reflexão sobre o Evangelho lido na missa aquele dia. Cada habitação devia ter uma imagem da Virgem, a que se saudava o entrar e sair.

Depois estavam as obrigações diárias para cada membro: naturalmente, ouvir missa todo dia, meia hora de oração mental pela manhã e outra meia hora de noite, leitura espiritual. Cada mês dedicavam um dia inteiro às coisas do espírito e cada ano vários dias a ‘exercícios’ espirituais ou retiro.

Nada disto seria estranho absolutamente em nenhuma congregação religiosa, masculina ou feminina, com a exceção da prática da cruz sem a figura do Crucificado (‘Quando vir uma pobre Cruz de pau, sozinha, desprezível e sem valor... e sem crucifixo, não esqueça que é Cruz é sua Cruz: a de cada dia, escondida, sem brilho e sem consolo... que está esperando o Crucificado que lhe falta: e esse Crucificado tem que ser você’. Caminho 178). O estranho era a insistência de Escrivá em que o Opus Dei não era absolutamente uma congregação religiosa, a não ser uma organização laica. Nesse nível não tinha sentido. Nem tampouco tinha sentido quando se comparam as seções feminina e masculina. Escrivá não via as mulheres a sério como iguais aos homens varões de seu Instituto. Possivelmente, não era nada fora do comum para seu tempo (as pessoas devem recordar que o Opus se gaba de que Escrivá do Balaguer estava adiante de seu tempo na organização de seu Instituto), entretanto, expressava modos notavelmente mesquinhos.

Tomemos, por exemplo, a oração que Escrivá ordenou para fechar todas as reuniões formais da seção masculina do Opus. É uma invocação à Virgem Maria: ‘Santa Maria, esperança nossa, trono de sabedoria, roga por nós’ A oração designada para as mulheres em circunstâncias similares é só ligeiramente distinta, mas a diferença é significativa: ‘Santa Maria, esperança nossa, escrava do Senhor, roga por nós.’ Embora se contava com que as mulheres numerárias, igualmente aos homens, tivessem ou fossem capazes de obter doutorados, não se contava com que invocassem a Maria como ‘trono de sabedoria’. A sabedoria não era para elas. Essa invocação foi substituída por uma que recordava à seção feminina do Opus ao final de cada encontro que seu papel–modelo era o de escrava, em uma posição de subordinação.

Mas, a hierarquia forma parte da mentalidade do Opus. A Constituição de 1950 mostra ter incluído não menos de quatro classes de membros: numerários, numerários que tinham tomado votos adicionais (ou ‘fidelidades’), numerários conhecidos como membros ‘inscritos’ que se encarregavam basicamente das atividades do Opus Dei, regentes de casas similares e que tinham voto, quando se votava, nos assuntos do Instituto, e finalmente os numerários, ‘escolhidos’, nos quais se podiam votar. A ascensão de categoria dependia do desejo do Escrivá e de seus conselheiros.

Exatamente no momento em que o Opus legislava estas distinções de classe, outros corpos religiosos dentro de Igreja católica estavam fazendo justamente o contrário, tentando reduzir as rígidas distinções que até então tinham existido, por exemplo, entre ‘irmãs leigas’ e ‘monjas de coro’ –as primeiras faziam todo o trabalho manual e as últimas (gozando do título de ‘mãe’) tinham todos os papéis dominantes–. Em 1950 tais distinções viam-se já como destruidoras da boa vida comunitária; entretanto, Escrivá do Balaguer insistia nelas. Longe de estar à vanguarda do desenvolvimento da vida religiosa, o Opus estava retrocedendo aos velhos modelos que estavam sendo abandonados por outros, do mesmo modo que Escrivá os impunha.

Esta, pois, foi a Constituição sob a qual o Opus Dei existiu durante mais de trinta anos, embora com a crescente convicção de que não era uma forma jurídica adequada para o que Escrivá tinha em mente quando fundou a organização. Assim, ao menos, é como a história do desenvolvimento legal do Instituto é apresentada pela mesma Obra.

Contudo, é curioso que o Opus Dei fosse a primeira organização a receber o estatuto de Instituto Secular. Esperávamos que a primeira Constituição aprovada fosse o modelo para outras, ao invés de transgredir as próprias normas da Sagrada Congregação voltando para práticas que esta desejava eliminar. Não obstante Salvador Canais, em seu ‘Secular Institutes and the State of Perfection, datado em Roma em 26 de outubro de 1952, recomenda a estrutura do Opus Dei, tal como foi passada em l950 como uma ‘solução ideal’ para um problema canônico que ele mesmo arrumou (Salvador Canais, ‘Secular Institutes and the State of Perfection’. Dubín: Scepter, 1959, pág. 127. A edição original espanhola foi publicada por Edições Rialp). Seu livro dedica todo um capítulo a algumas ‘notas jurídicas’ sobre o primeiro dos Institutos Seculares, a ‘Associação Sacerdotal da Santa Cruz e Opus Dei’. Não surpreende porque, é obvio, o doutor Canais é um sacerdote do Opus. Também era membro da Sagrada Congregação de Religiosos e encarregado do escritório especial estabelecido para tratar dos Institutos Seculares. Possivelmente as curiosas cláusulas permitidas na Constituição do Opus, em contradição com a prática habitual da Congregação, deviam muito à influência do Opus Dei dentro da mesma Congregação.

Houve circunstâncias estranhas na história da concessão da Constituição do Opus como Instituto Secular. No verão de 1947, uma época em que os observadores profissionais do Vaticano, ou fogem do calor de Roma, ou, ainda, não estão como se diz perspicazes, Alvaro do Postigo, em nome do Opus Dei, perguntou se os bispos ou outros superiores religiosos conhecedores dos pormenores dos Institutos Seculares que eles consideravam até certo ponto secretos, estavam também obrigados a guardar tal segredo sobre estes Institutos em seus entendimentos com outros. A Sagrada Congregação de Religiosos resolveu que assim deviam obrar.

Dois anos mais tarde, quase no mesmo dia, Alvaro formulou de novo uma pergunta sobre o segredo à Sagrada Congregação. Seria necessário, ou somente conveniente, mostrar ao bispo, em cuja diocese o Opus desejasse abrir um centro, a íntegra da Constituição do Instituto ou comprometer-se corporativamente com ela em obras apostólicas? Se a congregação decidisse que não era necessário entregar a Constituição completa, então o Opus queria saber que parte deveria ficar a disposição do bispo. A Congregação decidiu que não era nem necessário nem conveniente entregar a Constituição completa. Os únicos documentos que o Opus, ou qualquer outro instituto similar, estava obrigado a revelar eram o decreto de aprovação, um resumo da Constituição e uma lista dos privilégios de que gozava o Instituto que pudessem de algum modo implicar ao bispo local.

Quase ao mesmo tempo em que fazia a segunda petição à Congregação, Alvaro quis saber também se o bispo local ‘tinha’ que ser informado a respeito de todas e cada uma das residências do Opus, ou somente das mais públicas. De novo obteve a resposta que sem dúvida queria: unicamente a existência de centros completos (e de atividade apostólica formal de natureza corporativa) devia ser revelada ao bispo dentro de cuja jurisdição estas atividades seriam exercidas.

Estes três notáveis documentos da Sagrada Congregação de Religiosos publicaram-se originariamente, com um comentário muito favorável, em uma publicação técnica sobre Direito canônico, o ‘Commentarium pró o Religiosis’ daquele mesmo ano, 1949 (vol. 28, págs. 303–304). Voltaram a emergir na mesma publicação, com ocasião da concessão ao Opus de seu novo estatuto como prelatura pessoal quase um quarto de século depois (vol. 64, 1983, págs. 351–353). O comentário favorável seguia em seu local. O comentarista apontava que Alvaro do Postigo, aparentemente, não pedia estas disposições só para benefício do Opus Dei, mas também para o de todos os novos Institutos Seculares.

Estes exercícios adicionais em segredo, ou de forma furtiva tiveram aprovação do Opus como Instituto Secular e a definitiva aprovação de sua Constituição. Em realidade, se o que o Opus temia era que as Constituições caíssem em mãos de um bispo –e não de um bispo qualquer mas sim de um que fora bastante favorável para ter permitido que o Instituto trabalhasse em sua diocese– está longe de parecer claro. A Constituição de 1950 proclamava que a organização considerava um sinal distinto mostrar ‘absoluta e total adesão e submissão à hierarquia e à autoridade na Igreja’ (parágrafo 208).

Isso, aparentemente, não significava que estivesse disposto a confiar em membros da hierarquia dando-lhes cópias da Constituição.

É difícil reconciliar estes documentos tão ansiosamente procurados entre 1947 e 1949 com a própria afirmação de Escrivá:

“É fácil conhecer o Opus Dei. Trabalha a plena luz do dia em todos os países com o reconhecimento jurídico total das autoridades eclesiásticas e civis. Os nomes de seus diretores e de suas empresas apostólicas são bem conhecidos. Qualquer um que deseje informação pode obtê-la sem dificuldade” (J. M. Escrivá do Balaguer, ‘Conversations with Monsignor Escrivá do Balaguer. Manila: Sinag–Destrói, 1977, pág. 50. A entrevista citada era com o Peter Forbarth, de ‘Time’, em 7 de janeiro de 1966).

A acusação de secretismo não desaparecerá, apesar das constantes negações do Escrivá e de membros inferiores de que seja uma organização secreta. Aqui se alude simplesmente a isso para explicar de novo o problema de classificar a história do Instituto. Os relatos oficiais ou semi-oficiais que há se estendem na aparentemente milagrosa expansão da organização. Vimos anteriormente quão longe chegou em 1950. No ano seguinte, segundo Vázquez da Prada, chegou a Colômbia e a Venezuela. Depois, nas duas décadas seguintes, estabeleceu-se na Alemanha, Peru e Guatemala (1953), Equador (1954), Uruguai (1956), Brasil e Áustria (1957). Em fins dos anos sessenta havia centros no Japão (desde 1959), nas Filipinas (desde 1964) e em outras partes.

O Opus também se estabeleceu na África, especialmente no Quênia, embora pouco depois se estendeu a Nigéria em 1958. Três anos mais tarde, estabeleceram-se no Nairobi duas escolas, ‘Strathmore College’ e ‘Kianda School’. Com certa justificação, o Opus as reivindica como as primeiras escolas internacionais do continente africano.

Em 1957, quatro anos depois de chegar ao Peru, e a pedido direto da Santa Sede, os membros do Opus foram trabalhar na Prelatura do Yauyos. Este tipo de atividade, em que o Opus se encarregou de toda uma zona do país a que a Igreja não podia proporcionar clero, supôs uma nova direção para o Instituto, mas uma direção que teria um grande impacto, especialmente no Peru (ver capítulo VI).

O papel do Opus na Austrália foi especialmente discutível. A Obra estabeleceu-se ali pela primeira vez em 1963 e em 1971 estabeleceu, a pedido do cardeal Gilroy, arcebispo de Sidney, uma Faculdade na Universidade de New South Wales. Chama-se Warrane College’ e, como é habitual nestes casos, sem nenhum sinal externo de sua filiação. É a única Faculdade católica da Universidade e atrai em particular estudantes de zonas rurais, que sabem pouco do Opus antes de chegar lá. Só três anos depois de haver-se estabelecido, a mesma Universidade constituiu um comitê para investigar a direção de ‘Warrane’, em resposta ao desassossego existente no campus. Embora o relatório do comitê em termos gerais desculpava ao Opus, expressava sua surpresa pelo grau de pressão exercido sobre os estudantes para que se unissem ao Opus e por algumas das normas da Faculdade. Por exemplo, os estudantes protestavam pela censura tanto dos jornais como da Televisão. Muitos deles, muitos mais que em outras residências da Universidade, procuravam outro alojamento assim que podiam. Em 1985, os sacerdotes conselheiros do arcebispo de Melbourne recomendaram-lhe que denegasse a permissão ao Opus para abrir uma casa naquela diocese (John Lyone, ‘The Australian’, 28, 9).29 e 30 de novembro de 1987).

A instituição educativa possivelmente mais importante do Opus, com segurança a de mais prestígio, começou a existir em 1952. Aquele ano estabeleceu-se na Universidade de Navarra em Pamplona, sob a direção de um dos membros mais distintos do Opus, Sánchez Bela, que voltou da Argentina especialmente para este propósito. Em 1960, com uns mil e quinhentos estudantes, foi formalmente reconhecida como Universidade pela Santa Sede e Escrivá do Balaguer foi renomado grande Chanceler

A primeira vista, não havia nada incomum em tudo isto: Espanha já possuía Universidades pontifícias, e o Concordata entre a Espanha e a Santa Sede permitia a criação de tais instituições. Mas o que o Opus conseguiu estabelecer em Pamplona, com a ajuda do núncio em Madrid, Monsenhor Antoniutti, um amigo leal do Opus Dei, e do cardeal Ottaviani, um dos mais conservadores dos prelados romanos, foi algo totalmente fora do comum. Das cinco faculdades formalmente estabelecidas, somente uma, a de Direito canônico, estava diretamente relacionada com a Igreja; as demais eram seculares. O Opus, em outras palavras, procurou uma alternativa às instituições do Estado, e encarregaram-se de que não tivessem comparação na Espanha.

Porém, as questões não eram tão singelas. Os jesuítas dirigiam duas veneráveis Universidades no Norte da Espanha, a de Aspas, então perto de Santander, e agora em Madrid, e de Deusto, em Bilbao. Procuravam uma classe similar de estatuto para uma ou outra destas instituições, preferencialmente para o de Deusto, que então tinha setenta e cinco anos. A eleição de Roma com o advento da Universidade de Navarra foi um golpe severo para as esperanças dos jesuítas e para seu prestígio. Não fez nada para melhorar as relações entre eles e o Opus.

Fora outro problema. Navarra era uma Universidade privada e supõe-se mantida por recursos privados. Quando Vázquez relaciona suas fontes de ganhos, são provenientes de negócios e corporações locais, instituições culturais e fundações que fazem doações, tanto espanholas como estrangeiras. Essa não é a história completa. O Governo forense de Navarra dava-lhes recursos consideráveis e o fato de que agora, sob um regime socialista, esteja em processo de retirar sua ajuda, está causando problemas consideráveis à administração da Universidade. Igualmente, o Governo central proporcionou subvenções em ‘quantidades importantes’ (Daniel Artigues. ‘O Opus Dei na Espanha’. Paris: Arena Ibérico, 1971, págs. 9–10). Tais fatos, parecem um pouco injustos, por não dizer nada generoso, que Escrivá dissesse, ao ser entrevistado por Peter Forbarth:

‘Em muito poucos lugares tivemos menos facilidades que na Espanha... A situação na Espanha com respeito aos nossos apostolados corporativos tampouco foi favorável. Os Governos de países nos quais os católicos são minoria, ajudaram às atividades educativas e de assistência social fundadas por membros do Opus Dei de forma mais generosa que o Governo espanhol’.

Embora outras Universidades do Opus Dei foram abertas em outras partes do mundo, a de Navarra continua sendo a obra mestre da organização, com departamentos particularmente bons de estudos de jornalismo e de empresa, duas iniciativas típicas do Opus. Recentemente, abriu-se uma filial em Roma, em um intento de estabelecer sua própria escola de teologia no centro do catolicismo romano. O Opus, sem dúvida deseja emular aos jesuítas com sua prestigiosa Universidade Gregoriana, ou aos dominicanos com o Angelieum, ou a outras congregações religiosas com suas próprias instituições atraindo estudantes, principalmente eclesiásticos e monjas, de todo o mundo, mas, incluindo alguns seculares.

O intento do Opus de entrar nesta área recebeu uma acolhida decididamente fria por parte dos colégios romanos. Parte da hostilidade é dirigida para sua doutrina, claramente conservadora, tratada em todo este livro, e outra parte se deve à hostilidade geral sentida para o Opus por muitos sacerdotes católicos. Em parte,também é uma simples questão de sobrevivência, especialmente, para os colégios de mentalidade bastante tradicional, como o ‘Lateranense’ e o ‘Angelieum’, que temem perder sua clientela em favor do Opus. Como comentava um administrador de uma das mais antigas Universidades pontifícias, está sendo cada vez mais difícil recrutar gente de todo o mundo; muitas monjas e seminaristas preferem estudar no local em que, finalmente, terão que trabalhar. A última coisa que Roma precisa é outra faculdade eclesiástica.

Apesar da oposição, abriu-se uma casa ao lado da Igreja de São Jerônimo. Nesta casa, em fins do século XVI, viveu seus últimos dias São Felipe Neri. Neri tinha baseado uma sociedade de sacerdotes seculares, a Congregação do Oratório, e os padres do Oratório consideravam o edifício como sua casa matriz. Não eram proprietários, todavia, custodiavam-na e estavam à serviço da igreja anexa. Abriram caminho, inclusive durante o pontificado de Paulo VI, para tirá-los e entregar os edifícios ao Opus. Em seu relato do acontecido, a publicação do Oratório não nomeia ao Opus, chamando-o simplesmente ‘outra entidade muito capitalista que atuava através de canais duvidosos, porém, efetivos’. Os padres do Oratório foram aos tribunais e perderam, quando a causa foi vista ante um oficial que pertencia a essa ‘poderosa entidade’. Unicamente a intervenção pessoal de Paulo VI evitou que fossem desalojados.

Depois da morte de Paulo VI, em agosto de 1978, o Vicariado de Roma (o corpo que se ocupa da diocese de Roma em nome do Papa, que é tecnicamente, é óbvio, o bispo de Roma), nomeou um sacerdote do Opus para a igreja de São Jerônimo. Iniciaram-se os passos legais para tirar os padres do Oratório, a casa ao lado, e entregar-lhe ao Opus Dei, ante a aflição dos filhos de são Felipe. Seu interior foi destruído e reconstruído para alojar ao centro de estudos do Opus.

As Universidades, todavia, eram e são como tais, uma parte muito pequena do apostolado do Opus. Muito mais característico é o estabelecimento de residências universitárias, tanto para homens como para mulheres. ‘Netherhall House’, em Hampstead, Londres, é uma delas para homens. Está situada em uma das zonas mais agradáveis, e especialmente, mais caras, de Londres.

Os membros do Opus chegaram pela primeira vez à Inglaterra em 1946, para ampliar seus estudos. Em 1948 estabeleceram-se em um apartamento no Rutland Court, Knightsbridge, uma zona particularmente elegante da cidade; iniciaram contato com estudantes universitários guiando-lhes espiritualmente. No início, tiveram pouco êxito, ao menos, segundo os critérios do Opus. Vázquez da Prada assinala que em 1950 só um inglês, chamado Michael Richards, solicitou seu ingresso. Ante tão escasso número de candidatos, este fato foi claramente um acontecimento inesperado. A situação era muito distinta na Irlanda. Os irlandeses recrutados se utilizavam para reforçar a escassez de candidatos na Inglaterra. Havia apenas meia dúzia de membros ingleses, quando Escrivá decidiu abrir uma residência universitária em Londres.

Obteve permissão do cardeal arcebispo do Westminster para abrir um centro. Encontrou, rapidamente, um hotel no Netherhall Gardens e foi prontamente adquirido. Começou seu funcionamento em meados de 1952, e foram levados membros da seção de mulheres para cuidar dos ministérios domésticos. Dois anos mais tarde redigiu-se uma escritura formal de ‘trust’ com o Michael Richards e João Antonio Galarraga como administradores. Declarava-se que o propósito do ‘trust’ era o progresso da fé católica.

Outras residências fundaram-se mais tarde, tanto em Londres como em outras partes, como ‘Greygarth’ em Manchester e, em 1958, ‘Grandpont’ em Oxford. O relato que Vázquez faz deste último acontecimento é cuidadoso. Também tem cuidado de ressaltar o papel desempenhado pela autoridade eclesiástica, na forma de um bispo auxiliar do Westminster, o bispo Craven, e do administrador da Catedral de Westminster Monsenhor Gordon Wheeler, que mais tarde seria bispo de Leeds. (Estes fatos aconteceram, exatamente, três anos antes de minha chegada à Oxford como estudante. A história do Grandpont foi minha primeira apresentação ao Opus Dei; inclusive tive um amigo que viveu ali durante um curto tempo).

Era natural que o Opus, com sua forte concentração no apostolado universitário, desejasse estabelecer um centro em Oxford. Sua tentação natural era abrir uma residência para estudantes como o tinha feito em Londres. Entretanto, foi mal aconselhado, carecendo conhecimentos suficientes sobre o sistema de Oxford. Os ‘colleges’ da Universidade são precisamente residências universitárias, ou assim começaram. O desejo do Opus de abrir uma residência parecia naquele momento ser equivalente a abrir um ‘college’. As autoridades universitárias não o tolerariam. Além disso, a zona universitária da cidade de Oxford está na diocese de Birmingham, cujo formidável arcebispo (à maturação um licenciado de Cambridge) era George Patrick Dwyer, um inglês puro com pouco tempo para os melindres hispânicos do Opus. Depois da confusão sobre a abertura de uma residência, proibiu-os em seu território. Felizmente, para o Opus, apareceu no mercado uma casa, ‘Grandpont’, do outro lado do rio, ainda em Oxford, mas na diocese, muito mais condescendente, do Portsmouth. Adquirida, foi aberta como uma espécie de casa de hóspedes para atender estudantes pós-graduados da Universidade. O resultado foi um campo excelente para recrutar candidatos para o Opus Dei.

Embora pareça estranho, Escrivá estava especialmente afeiçoado com a Inglaterra. Vázquez calcula que, deixando à parte a Itália e Espanha, passou mais tempo no Reino Unido do que em outro país do mundo. Foi à Londres pela primeira vez em 1958, e depois, cada verão até 1962, fugindo do calor de Roma ou de Madrid, ocupava uma casa ao norte em Hampstead Heath ou West Heath Road. Desejava promocionar o Opus Dei ao mundo ‘anglo-saxão’, mas, também porque via a Inglaterra, e especialmente Londres, como uma encruzilhada, um local onde a organização podia chegar às pessoas das distintas partes do mundo, ou como um lugar onde chegaria o Opus. A nível pessoal, ficou, especialmente, impressionado pelas duas antigas cidades universitárias de Oxford e Cambridge, pelas velhas Igrejas, nas quais rezava o rosário, ajoelhava-se ante os altares maiores e pronunciava jaculatórias, completamente indiferente à sensibilidade protestante. Não é surpreendente; provavelmente, nunca esteve exposto a uma cultura não católica, e com toda segurança, não durante muito tempo.




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