O mundo Secreto do Opus Dei



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II. AS ORIGENS DO OPUS

Uma das coisas mais estranhas do Opus Dei é sua falta de história. Funcionou durante sessenta anos e esperava-se que algum membro em alguma parte do mundo tivesse escrito um relato de seu desenvolvimento; como cresceu e estendeu-se; quem ingressou, onde e quando; quais foram os problemas e como resolveram-se; quais tensões existiam e como foram resolvidas; como empreenderam distintas obras apostólicas, e como decidiu-se sua política, etc. O lugar apropriado para tal tratamento seria o volume publicado em 1982 pela Universidade de Navarra para comemorar, algo tardiamente, os cinqüenta anos de aniversário do Opus Dei, baseado em 1928. Nele há um compartimento comprometedoramente intitulado ‘Opus Dei, cinqüenta anos de existência’, todavia, consiste somente em duas peças: um texto inédito até então de Escrivá e uma entrevista que não contribui com informação alguma referente à história da organização, com o novo presidente geral da associação, Monsenhor Alvaro del Portillo. Não é que algo de sua história não possa ser desenterrado a partir das muitas apologias do Opus que seus partidários publicaram através dos anos, entretanto, não se menciona diretamente nenhum estudo histórico no ensaio bibliográfico de Lucas F. Mateo–Seco, escrito para o volume do aniversário. O mais extraordinário é a escassez de obras sérias sobre qualquer aspecto do Opus, exceto no, recentemente, adquirido estatuto jurídico como prelatura pessoal.

Não obstante, de um acontecimento em particular não há escassez de relatos: do dia e do modo em que Escrivá decidiu fundar o que com o tempo se converteu no Opus Dei. Aconteceu, diz Vázquez com uma hipérbole compreensível de quem é membro devoto, ‘como semente divina caída do céu’. A idéia veio a Escrivá quando fazia retiro numa casa do subúrbio de Madrid, pertencente aos padres paulinos. Escrivá estava rezando e, afirma Bernal, ‘viu’ o Opus Dei. Ao mesmo tempo ouviu soar os sinos da próxima igreja de Nossa Senhora dos Anjos, que celebrava a festa patronal; em 2 de outubro é o dia em que os católicos comemoram a festa dos Anjos da Guarda.

O que aconteceu realmente, não está de todo claro. Alguns membros do Opus acreditam que Escrivá do Balaguer teve uma visão celestial, mas nem ele mesmo chega a afirmar tanto. De fato, afirma muito pouco. É bastante evidente que, sendo um jovem e ambicioso sacerdote em um país com muitos padres à maturação, procurava algum papel particular na vida. E não há nada mau nisso. Parece pelos diversos relatos da fundação, que durante suas meditações começou a vislumbrar qual poderia ser seu papel. Foi mais tarde, embora não muito depois, quando a primeira noção se fez mais clara e pôde dar os passos para pô-lo em marcha. Foi tudo o que aconteceu. Mas, como o Opus tem a propensão a maximizá-lo em tudo, ficou uma placa na fachada do novo campanário de Nossa Senhora de Los Angeles, e um dos antigos sinos levou-se ao Torreciudad em lembrança do fundador. A inscrição latina, grosseiramente traduzida, diz: ‘Enquanto os sinos da igreja de Madrid de Nossa Senhora de Los Angeles tocavam e elevavam suas vozes em oração aos céus, em 2 de outubro de 1928, Josemaría Escrivá do Balaguer recebeu na mente e no corpo as sementes do Opus Dei.’ O Opus poderia ter posto, mais adequadamente, uma placa no edifício em que o fundador recebeu sua primeira inspiração, mas já não está em pé.

O que exatamente Escrivá tinha fundado? Logo, há dúvidas no que se converteu o Opus Dei. Tem uma estrutura legal precisa, objetivos bem definidos e métodos inequívocos para levá-los a cabo. Porém, seria incomum para o fundador de uma organização religiosa dentro da Igreja católica prever, exatamente, até o último detalhe, o que seria tal organização. Os franciscanos, por exemplo, passaram por muitos traumas durante décadas, se não durante séculos, conflitos internos antes de estabelecer sua estrutura, e isso somente a custa de dividir a ordem. De modo que é razoável perguntar-se se a visão original de Escrivá realizou-se da forma que hoje se apresenta.

Não é que o problema seja assim tão simples. Escrivá viu que o Opus Dei se desenvolvia na forma em que o fazia, e incitou-a a continuar em seu caminho. O momento crucial pode estar no incidente que se explica mais adiante (ver pág. 58), quando voltou de Roma em 1946 com sua inocência ou sua ingenuidade quebrantada pela forma de atuar da cúria romana. Talvez, sua primeira idéia do que desejava criar fosse algo completamente distinto.

Bernal, por exemplo, descreve o Opus Dei como ‘uma 'organização desorganizada', plena de responsável espontaneidade. Isto estaria muito longe da experiência de alguns membros recentes. Ao morrer o fundador, comenta Vladimir Felzmann:

...regras, normativas e restrições cresceram. A vida se fez ainda mais restritiva... Para proteger e preservar seu espírito –para evitar o que aconteceu aos franciscanos–, o fundador dispôs uma codificação completa e meticulosa da obra do Opus Dei e da vida de seus membros. Mas, como nosso Senhor mesmo descobriu, um espírito encerrado em um código tende a voltar-se morto, lhe escravizem, farisaico’.

A ‘organização desorganizada’ de Bernal está próxima ao que Raimundo Pániker recorda dos primeiros tempos. Pániker era possivelmente o mais distinto teólogo acadêmico do Opus. Nascido em Barcelona, de pai índio e de mãe catalã, era cidadão britânico e, como tal, foi evacuado de Barcelona por um casco de navio de guerra britânico durante a Guerra Civil espanhola (1936–1939). Foi estudar na Alemanha, mas voltou para Barcelona em 1940, onde se uniu ao pequeno grupo de seguidores de Escrivá, que exerciam atividades na cidade. Ordenou-se sacerdote em 1946, um segundo grupo de membros do Opus que foram ordenados. Deixou o Opus em 1965. Suas lembranças dos primeiros tempos confirmam a descrição do Bernal.

Diz Pániker que quando chegou ao Opus era quase um movimento ‘contra-cultural’.

Gente como ele se uniu ao Opus porque parecia oferecer um modo de superar a ‘rotina do catolicismo’. Simplesmente queriam tomar a sério a religião, seguir o Evangelho em todas as exigências impostas sobre quem quer ser discípulo de Cristo. Há uma velha tradição ascética na Igreja que compara ao devoto com a ‘militia Christi’, os soldados de Cristo, e foi esta expressão que utilizou Pániker para os primeiros membros do Opus. Não havia, além de Escrivá, mais que um grupo de laicos que tentavam pôr o Evangelho em ação. Não havia uma forma de vida especial, nenhuma fuga do mundo. Não devia haver nada que os distinguisse exceto, possivelmente, que, para ajudar-se mutuamente, viviam juntos. Aquele, pois, era o ideal que Escrivá do Balaguer oferecia aos que se achavam sob sua influência.

As pessoas submetiam-se rapidamente à ela. Assim que recebeu a mensagem divina, lançou-se a procurar gente para sua causa. Falou de suas idéias a amigos de seus dias de estudante em Logroño e Zaragoza. Procurou apoio entre os sacerdotes que compartilhavam a casa onde se alojava em Madrid. Escreveu cartas a gente de fora da capital da Espanha. Perguntou à seus conhecidos e a aqueles para quem trabalhava como capelão, se conheciam candidatos varões adequados entre os jovens, e particularmente entre os estudantes. Disse ao padre Sánchez Ruiz, seu diretor espiritual, que se dava conta com crescente claridade de que o Senhor ‘quer que me esconda e que desapareça’. Não seguiu o conselho do Senhor. Fazia amizades influentes tanto entre o clero como entre os seculares, estava desenvolvendo o Opus através de suas cartas, cultivando a aristocracia e fazendo seus primeiros discípulos.

Alguns uniram-se a ele, todavia não ficaram. Outros, como Isidoro Zorzano Ledesma, que tinha estudado com ele em Logroño e a quem se encontrou por acaso em Madrid (ver mais adiante, pág. 42), morreu jovem. Uns amigos da Faculdade de Medicina de Madrid apresentaram-o ao João Jiménez Vargas, estudante de tal Faculdade. Encontrou a outros por meio do confessionário ou através das Damas Apostólicas, de quem era capelão. Uniram-se ao Escrivá em um momento crucial da História da Espanha, timidamente, em palavras do Pániker, um ‘movimento contra-cultural’.

Desde 1981, os professores das Universidades espanholas podiam manter e ensinar doutrinas distintas, e inclusive opostas, às da fé católica. As conseqüências desta liberdade de expressão impuseram-se devagar, mas pelos anos vinte muitos catedráticos, inclusive aqueles com maior influencia entre os estudantes universitários, propagavam uma doutrina que estava em desacordo com o ensino católico aceito. Em um país como a Espanha, em que a relação entre a Igreja e o Estado era tão estreita, e a forma tradicional de vida do povo estava tão impregnada de catolicismo, esta tendência no mundo universitário era considerada como uma ameaça não só à ortodoxia religiosa, mas também à mesma base da Hispanidade. Além de ser um sacerdote católico, Escrivá do Balaguer era um patriota. A máxima 525 do caminho começa assim: ‘Ser católico é amar à pátria, sem ceder a ninguém melhora esse amor.’

Não era só o ensino nas Universidades, e especialmente em Madrid, ia-se secularizando cada vez mais, mas também outras instituições educativas fomentava esta tendência. A Instituição Livre de Ensino foi fundada em 1876 por um homem que tinha deixado a Igreja porque esta condenou o liberalismo no ‘Sillabus’, um documento em que esta enumerava as maiores aberrações –aos olhos do Papa– dos tempos modernos, publicado por Pio IX em 1864. Embora não era especificamente anti católica em seu objetivo, a Instituição Livre de Ensino era vista como tal por muitos espanhóis. Um sacerdote que escrevia em 1906 para a publicação da Companhia de Jesus mais prestigiosa da época, ‘Razão e Fé’, descrevia-a como ‘o inimigo mortal do ensino católico’. Não era uma organização controlada pelo Estado, entretanto, não obstante, teve um profundo impacto sobre o sistema educativo espanhol. Estabeleceu residências estudantis nas Universidades, na linha das Universidades de Oxford e Cambridge, e os lugares nelas eram muito procuradas. Mais importante ainda, foi a influência exercida sobre a Junta para a Ampliação de Estudos e Investigações científicas, fundada em 1907 para estabelecer institutos de investigação em toda a Espanha, e por meio disto elevar o nível geral de educação em todo o país.

A liberdade de expressão de que gozavam os professores e os novos institutos favoreceu a expansão do agnosticismo entre os jovens intelectuais espanhóis. Escrivá tinha boas razões para ser consciente dos perigos e as possibilidades inerentes à educação. ‘Livros: –escreveu na máxima 339– não os compre sem te aconselhar de pessoas cristãs, doutas e discretas. Poderia comprar uma coisa inútil ou prejudicial. Quantas vezes acreditam levar debaixo do braço um livro... e levam uma carga de imundície!’

A oposição à expansão do agnosticismo começou muito antes de Escrivá do Balaguer chegar em Madrid. Em 1909 um sacerdote jesuíta fundou a Associação Católica Nacional de Propagandistas, uma prolongação na vida dos negócios e profissional das sociedades devotas chamadas congregações marianas. As congregações marianas eram, e são ainda, embora em muitos lugares trocaram o nome, organizações sob a direção religiosa da Companhia de Jesus, que combinam uma forma modesta de prática ascética com obras de caridade. Embora típicas nos colégios de jesuítas, as congregações encontravam-se também nas paróquias dirigidas por eles, ou vinculadas às suas residências de outras classes. Eram vistas como um intento de adaptar a espiritualidade ignaciana à forma de vida dos laicos. Sob a direção da Companhia de Jesus, o objetivo da Associação Católica era dupla: melhorar as condições sociais dos pobres na Espanha, sem transtornar os valores tradicionais, e a forma de vida do povo. Era uma organização elitista, que extraía seus adeptos dentre homens de alto nível social e educativo. Seu método, como o movimento das células comunistas de uma geração posterior, era trabalhar em pequenos grupos e fazê-lo discretamente na medida do possível. Esta organização era bem conhecida de Escrivá. Efetivamente, em 1911, a Associação comprava ‘O Debate’, um periódico converteu-se em um dos mais influentes do país. Em 1923 ‘O Debate’ saudou a chegada ao poder do ditador Primo da Rivera com a esperança de que sustentasse a ordem social, que se desmoronava. Seis anos mais tarde apoiou ao ministro da Educação de Primo da Rivera, com a intenção de dar à dois colégios de direção privada, um jesuíta e o outro agustino, o direito a conceder licenciaturas em certas faculdades.

Este intento de interferência no monopólio educativo do Estado originou um protesto tão forte, que o plano teve que ser abandonado.

Escrivá teve que conhecer a Associação. Depois da Guerra Civil espanhola, trabalhou na Escola de Jornalismo, vinculada a “O Debate”, embora suas classes eram sobre ética e metafísica mais que sobre as técnicas da profissão jornalística. Se não houvesse necessidade deste contato tão próximo, nem sequer o contato com seus diretores espirituais jesuítas, para conhecer a obra da Companhia de Jesus na Espanha: ‘A dívida que tem o Opus Dei com a Companhia de Jesus é imensa –diz Carandell–; tanto, que se poderia dizer que, se a Companhia não tivesse existido, o nascimento do Opus tivesse sido impossível’.

Que a visão do Opus de Escrivá dever algo a alguém, não é um tema de que tratem as biografias aprovadas do fundador. O livro de Vázquez, por exemplo, tem três referências a dom Pedro Poveda. A primeira menciona simplesmente a entrevista de Escrivá com dom Pedro em 4 de fevereiro de 1931 –a data era, evidentemente, importante para ser cotada–, com a esperança de obter alguma classe de benefício eclesiástico. Escrivá recusou o que lhe oferecia, segundo Vázquez, porque não lhe dava direito de ser cardeal. ‘A surpresa de dom Pedro (ante a recusa de Escrivá) foi superlativa’, aponta Vázquez. A segunda referência fala da amistosa relação entre os dois homens. A terceira é simplesmente para dizer que Poveda morreu assassinado em Madrid em julho de 1936, quando explodiu a Guerra Civil.

A segunda passagem é incompreensível. Os dois homens encontraram-se: Poveda ofereceu uma promoção que Escrivá não aceitou. Depois, no que se refere à biografia, os dois homens separam-se. Só que não evidentemente. Na aparência eram bons amigos, embora Vázquez não se estende nisso e Bernal nem sequer o menciona. Talvez, Poveda jogasse um maior papel na vida de Escrivá mais do que lhe atribui. Era o fundador de uma congregação secular chamada Teresianas. Era muito conhecida e sua estrutura é similar a do Opus. Enquanto parte da mitologia do Opus for que a idéia de sua formação se deve ao Todo-poderoso, dada diretamente ao Escrivá de Balaguer, em 2 de outubro de 1928, não há lugar para sugestão alguma de que a idéia chegasse de outra parte, possivelmente da Companhia de Jesus ou de dom Pedro Poveda. Havia uma série de instituições similares ao Opus que, embora não obtiveram a aprovação papal antes da fundação do Escrivá, certamente existiam antes que esta.

Escrivá escolheu inaugurar sua nova sociedade exatamente quando terminou a Ditadura de Primo da Rivera. Em 12 de abril de 1931 houve eleições na Espanha. Dois dias depois, o rei Alfonso XIII abdicou e partiu ao exílio. Nesse mesmo dia proclamava-se a República. O socialismo agnóstico tinha triunfado sobre a aliança tradicional da Coroa e a Igreja. Após um mês chegaram as primeiras queimas de conventos e Igrejas. Menos de um ano depois, a Companhia de Jesus foi expulsa do país. Os crucifixos tiveram que ser retirados das escolas e a educação foi completamente secularizada. O Estado apropriou-se das posses eclesiásticas, permitiu-se o divórcio; e a Concordata, que regulava as relações entre o Vaticano e o Governo espanhol, foi revogado. Quando ensinava no ‘Instituto Amado’ de Zaragoza, Escrivá demonstrou especial interesse nas relações Igreja–Estado e nos problemas da propriedade eclesiástica.

Após o surgimento destas disputas entre o Governo espanhol e a Igreja, começou o progresso do Opus Dei como movimento: pode, portanto, ser visto como uma forma de resposta à básica ‘privatização’ do catolicismo imposta pelo novo regime anticlerical.

Depois de renunciar a seus deveres com as Damas Apostólicas em 1931, Escrivá ficou sem nenhum trabalho apostólico fixo, uma situação incomum para um padre jovem e sem dúvida devoto. Todavia, dois meses depois de renunciar ao cargo da capela, encarregou-se de outra; esta vez em um convento de clausura de monjas agustinas. Santa Isabel era um Patronato Real, embora ao Escrivá do Balaguer não lhe pagava por seu trabalho, pelo menos no início. Finalmente foi renomado reitor do Patronato, mas somente em fins de 1934. Para aquele novo cargo teve que solicitar permissão de seu próprio bispo em Zaragoza, a qual foi concedida. Não se sabe se o bispo perguntou sobre o término da tese para a qual lhe concederam dois anos de licença fora da diocese.

Para sua família, sem dúvida desesperada por sua volta de Madrid, decidiu mudar-se à capital da Espanha. Desde finais de 1932 Escrivá do Balaguer viveu com sua mãe (a qual interessou-se em encontrar um benefício adequado para seu filho mais que ele próprio), seu irmão e sua única irmã sobrevivente em um apartamento no número 4 do Martínez Campos. Um ano mais tarde, com sua situação econômica presumivelmente melhorada, alugou um apartamento no 33 da Luchana, que serviu como local de encontro para o grupo que começou a reunir ao seu redor.

Uma das primeiras formas da nova cruzada pessoal de Escrivá foi com membros do clero de Madrid, aos quais dava conselho espiritual toda segunda-feira de noite lhes ensinando, diz Vázquez, ‘a ‘alteza’ da dignidade sacerdotal, e como a honra de um sacerdote é muito mais delicada que a honra de uma mulher’. Também trabalhava com um grupo de homens jovens e de moços, que se reuniam para lanchar e conversar no apartamento de sua mãe. Falavam enquanto dona Dolores, Carmen e, aparentemente com algum protesto, o irmão de Escrivá, Santiago, proviam de comida e bebida e serviam habitualmente à reunião. O número e a freqüência das reuniões aumentaram. Escrivá decidiu lhes dar um enfoque mais formal. Em uma habitação de um reformatório que lhe alugaram umas monjas que cuidavam dos delinqüentes, começou a dar orientação espiritual, em primeiro lugar, à três estudantes de Medicina, todavia, o grupo começou a ampliar-se.

Escrivá concebeu então a idéia de uma academia. Dando a ordem o nome ‘Deus e Audácia’, que por sua vez se converteu em ‘Academia D e A’, interpretada como Academia Direito e Arquitetura. Ocupou um local diminuto na rua Luchana, que logo se tornou pequeno. Além disso, como academia e nada mais, carecia da ajuda da mãe e de sua irmã. Em conseqüência, Escrivá persuadiu sua mãe investir a herança recebida com a morte de um parente, na compra de uma propriedade em Madrid, na rua Ferraz. Era suficientemente grande para formar uma residência e uma Academia de Direito e Arquitetura.

Foi a primeira das muitas residências fundadas pelo Escrivá e sua organização, e estabelecia um modelo, tanto quanto ao estilo de alojamento como à forma de instrução religiosa que ali se dava. Levantou-se um oratório e colocou-se um refeitório. Fala-se de uma sala na qual os residentes encontravam-se para conversar. Havia, naturalmente, um quarto de banho. Apesar da constante limpeza, suas paredes estavam manchadas de sangue, das flagelações que Escrivá se infligia. Utilizava uma ‘disciplina’, uma espécie de chicote de nove ramificações atadas com partes de metal e pedaços de lâminas de barbear afiadas. (Não se diz se outros residentes se uniam, embora esta prática penitente chegou a ser de uso habitual no Opus.) A disciplina e a corrente com pontas agudas que se atava ao braço, Escrivá do Balaguer as guardava na ‘habitação do Pai’. Ali, sob uma representação da história evangélica da pesca milagrosa, fomentava-se a conversação confidencial e se repartia gula espiritual.

Escrivá tentava restabelecer na residência a intimidade da vida familiar. Ele presidia como pai. Dona Dolores chegou a ser conhecida como a avó, Carmen como a tia. Outros visitantes acomodavam-se ao numeroso grupo de pessoas, levando a vida que encontravam na “Academia D e A”. Alvaro do Postigo, o atual superior ou ‘prelado’ do Opus, foi um deles.

Foi durante esse tempo quando Escrivá do Balaguer compôs o que primeiro chamou suas ‘Considerações Espirituais’, uma coleção de máximas espirituais que finalmente se converteram em ‘Caminho’. (Um humorista catalão, no princípio dos anos setenta, publicou ‘Auto-estrada’.) O livrinho de Escrivá é aclamado por seus seguidores como ‘uma obra clássica de literatura espiritual’, embora esta é uma descrição das últimas edições. Escrivá do Balaguer não estava satisfeito com a primeira versão, publicada em Concha em 1934. Estando em Burgos em 1939, reuniu suas notas para uma posterior edição, que publicou em setembro de 1939. O livro, com seu novo e permanente título, publicou-se em Valência porque, segundo Vázquez, esse foi o único local onde encontrou papel. Porém, tudo isto é adiantarmo-nos um pouco. Entre a primeira e a segunda edição deste livrinho, a vida do Escrivá ia dar um giro completo.

Em maio de 1935 Escrivá levou seus residentes da “Academia D e A” em peregrinação a um santuário Mariano na Avila. Maio é o mês no qual os católicos exaltam especialmente Maria e as peregrinações a santuários em maio é uma característica da vida do Opus, imitação consciente da primeira viagem de Escrivá com seus discípulos através do campo castelhano.

Apesar das dificuldades enfrentadas pela Igreja na Espanha em princípio dos anos trinta, o projeto do Escrivá parece ter sido um grande êxito. Devido ao número crescente na residência, a academia teve que encontrar outro alojamento próximo. Falou-se de adquirir mais propriedades em Madrid, e dois dos discípulos do padre foram enviados a Valência para abrir uma residência naquela cidade. Isto foi em 1936; a Guerra Civil não destruiu inteiramente o que tão laboriosamente tinha sido construído, e alguns dos primeiros seguidores permaneceram fiéis todo o tempo. Apesar dos problemas que originou a batalha pela alma da Espanha, abriu-se uma casa em Valência, embora os planos para uma residência em Paris foram propostos. Até terminar a guerra não começou a fase definitiva do desenvolvimento do Opus.

O que existia até aquele momento? A Academia ‘D e A’, embora uma instituição educativa começou a desinteressar Escrivá, e a residência anexa é que dedicava mais atenção. Havia um grupo de simpatizantes e um grupo menor que poderia ser denominado ‘de membros’ caso houvesse organização de alguma ordem, porém, naquele momento não havia. Existia um nome, Opus Dei, ‘a obra de Deus’, ou mais usualmente, simplesmente ‘a Obra’, em princípio um título adequado até que aparecesse algo mais específico. (É de notar, entretanto, que enquanto algumas ordens religiosas, como os Frade Menores e a Ordem de Pregadores, foram conhecidas mais familiarmente pelos nomes de seus fundadores, franciscanos e dominicanos, respectivamente, não parece ter havido nenhuma sugestão de que os membros do Opus Dei se chamassem ‘escrivistas’ ou ‘balaguerianos’.) Embora não tivessem nenhuma forma específica de direção espiritual mais que a que proporcionava ‘o Padre’, desde 1934 os membros do Opus dispunham dos pensamentos de seu Padre em suas ‘Considerações Espirituais’, publicado naquele ano em Concha. Tinham também, como vimos, um modelo de vida apoiado no ‘lar’, o modelo de um lar familiar, que Escrivá desenvolveu com a ajuda de sua mãe e de sua irmã na residência da rua Ferraz; embora o papel de sua família mais próxima foi exagerado na mitologia do Opus dos primeiros anos.

Esta é uma de suas caras: o ramo masculino do Opus. Em 1936 o ramo feminino também existia. Não é surpreendente, dado o temperamento machista dos espanhóis, que Escrivá compartilhava, que sua inspiração inicial desse início a uma organização que oferecesse pupilas aos homens jovens. Foram os primeiros objetivos de seu zelo e, como veremos, continuaram os objetivos principais para seus discípulos. Apesar ajuda devotada de sua mãe e de sua irmã, as mulheres em princípio não foram consideradas como candidatas aptas para sua nova organização e, de fato, nem dona Dolores nem a senhorita Carmen nunca pertenceram formalmente à fundação de Escrivá.

Tudo mudou, entretanto, um dia de 1930, significativamente em 14 de fevereiro, a festa de são Valentín. Escrivá do Balaguer rezava a missa no oratório privado da marquesa de Onteiro, a nobre mulher de oitenta anos cuja filha tinha fundado as Damas Apostólicas. depois da comunhão, ‘Deus lhe fez ver’ que devia haver uma seção de mulheres no Opus Dei. Se as mulheres alcançaram alguma vez o mesmo status no Opus que seus oponentes masculinos, é muito duvidoso, e é uma questão que será debatida mais adiante. Mas deixando a parte seus parentes femininos, que lhe administraram recursos, móveis e ajuda doméstica para a residência que começou em Madrid, as mulheres sempre prestaram um serviço leal e resignado.

Naquele momento, antes da Guerra Civil espanhola, o que era aquilo ao qual estes homens e mulheres pertenciam? Não havia ainda estrutura legal nem ‘personalidade jurídica’. Até onde sabemos, não havia um modo de vida específico, nem, com toda segurança, nos primeiros tempos, de máximas espirituais como Caminho para lhes guiar. Era, como se diz freqüentemente, algo fora do comum, uma organização ‘secular’ distinta de uma clerical. A Igreja católica distingue entre ‘laico’ ou ‘secular’ e ‘clerical’. Se é uma ou a outra, e as únicas pessoas que compreendidas na categoria de clérigos são os sacerdotes ou homens que progrediram grandemente em sua preparação para o sacerdócio. A maioria das pessoas em ordens religiosas no mundo são monjas, mulheres. A maioria das pessoas em ordens religiosas é, portanto, laica. Inclusive muitas ordens masculinas têm um grande número de laicos entre seus membros.

Todavia, está perfeitamente claro que esses homens ou mulheres que pertencem a ordens religiosas não são ‘laicos’ no sentido legal e técnico da palavra, porque abraçaram de uma forma ou outra, os três votos tradicionais, prometendo em maior ou menor grau de solenidade, observar pobreza, castidade e obediência a seus superiores religiosos para o resto de suas vidas. Algumas conseqüências legais, dentro do texto da lei canônica, provêm do grau de solenidade com que fazem os votos, dependendo, a maior diferença está nos votos feitos em público ou privado. Os membros das ordens religiosas fazem votos públicos, ou solenes; os membros das congregações religiosas não fazem votos solenes. A distinção é técnica e em sua maior parte pouco significativa. Inclusive dentro da igreja católica poucos são conscientes disso.

Sugerir que o Opus Dei incluiu-se em qualquer das duas categorias, tanto na de ordem religiosa como na de congregação, é pecar gravemente contra sua própria imagem. Há evidência, entretanto, dada pelo mesmo Opus no caso de Isidoro Zorzano Ledesma, de que o Opus foi dirigido para um estatuto de congregação (um estatuto menos formal que o de uma ordem religiosa), ao menos desde seus primeiros anos.

Certamente, na mitologia do Opus sequer existe algo fora do comum sobre o Zorzano. Estudou com Escrivá em Logroño, e logo mudou-se à outra ponta do país para converter-se em engenheiro de ferrovias em Málaga. Todavia, ele e Escrivá encontraram-se, por acaso, em uma rua de Madrid a qual, Vázquez tem bom cuidado em apontá-lo, Escrivá não costumava passar. Inclusive a data deste encontro foi cuidadosamente anotada, por tão transcendental obteve-se: 24 de agosto de 1930. É bastante estranho que Bernal e Vázquez relatem este acontecimento em palavras muito similares, quase como se houvesse uma ‘tradição oral’ com a qual ambos estivessem em dívida. O de Bernal é um texto bastante anterior, todavia críticos textuais teriam poucas dificuldades em demonstrar que Vázquez não dependia dele. Zorzano era muito íntimo de Escrivá; eram, é obvio, conterrâneos, e estava muito comprometido na primeira empresa do Opus em Madrid, o estabelecimento da ‘Academia D e A’. Morreu em julho de 1943, antes de que o Opus fosse formalmente aprovado pela Santa Sede.

Durante um tempo, Zorzano foi ativamente promovido como candidato à canonização, embora sua causa foi silenciosamente abandonada para preparar o caminho para a de Escrivá; isto aconteceu muito antes da morte de Escrivá, e presumivelmente, a seu pedido. Em 1964 uma biografia do ‘Engenheiro de Deus’, como se intitulou outro relato de sua vida, foi preparada para a Sagrada Congregação de Ritos de Roma, reconhecido como organismo oficial da cúria papal responsável pela proclamação de novos Santos. Esta biografia romana afirma que Zorzano entregou-se totalmente ao exercício dos ideais evangélicos: pobreza, castidade e obediência.

Esses ideais, postos em forma de votos, são, certamente, a base vital em uma ordem ou congregação religiosa. Escrivá do Balaguer provavelmente não tinha naquele momento nenhuma idéia clara da forma que tomaria sua organização. Havia, como se viu, uma série de modelos que ele conhecia, entretanto, parece claro que ele assumiu que sua organização se apoiaria nos três votos tradicionais que, na forma utilizada pela maioria das pessoas, o termo afastava do reino dos institutos ‘laicos’.

Quaisquer que fossem as esperanças de Escrivá para sua instituição, somente começaria consolidar suas primeiras empresas quando a Guerra Civil espanhola terminasse. Fora de Madrid só restava Valência e formalmente não era uma filial do Opus, a não ser a residência de Pedro Casciaro, um dos primeiros seguidores de Escrivá e um membro devoto. Certamente Valência foi a primeira cidade, fora de Madrid, escolhida pelo Escrivá depois da guerra para estabelecer uma casa para seu grupo. Logo veio Valladolid.

Em 19 de julho de 1936, o quartel da Montanha de Madrid foi atacado e tomado pelas tropas republicanas. Na manhã seguinte Escrivá, que tinha passado a noite em uma residência do Opus Dei, teve que abandonar sua batina e colocar uma roupa de trabalho para voltar ao apartamento de sua mãe, que já não estava no Martínez Campos, mas, em uma rua chamada Rei Francisco. Escondeu-se ali; era perigoso aparecer como clérigo na Espanha republicana onde, durante o período de guerra, calculou-se mais de quatro mil sacerdotes pertencentes à diversas dioceses e, aproximadamente, dois mil e quatrocentos pertencentes à ordens religiosas morreram violentamente.

Escrivá estava no apartamento de sua mãe a mais de quinze dias, quando ouviu o rumor de que o edifício seria vistoriado. Fugiu à casa de um amigo. Segundo Vázquez, no mesmo momento que descia a escada de serviço, a tropa entrava no edifício. Dissimulou a tonsura, o cocuruto, a coroa recortada na parte posterior da cabeça exigida aos sacerdotes e que Escrivá usava mais do que o habitual. Para esconder ainda mais seu sacerdócio, levava uma aliança de casado, cortou o cabelo e deixou crescer o bigode.

Durante o mês de setembro alojou-se na casa de uma família que gozava de certo grau de imunidade porque era argentina. Passou algum tempo em Madrid indo de um lado para outro. Ofereceram-lhe um apartamento, vazio, ocupado só por uma criada que deixaram ali para cuidá-lo. Perguntou sua idade: tinha vinte e três anos. Recusou a oferta. Refugiou-se em um hospital psiquiátrico simulando ser um doente mental. De março até agosto de 1937 alojou-se sem perigo na residência do cônsul de Honduras. Com o tempo facilitou-lhe a documentação empregando-o na Legação (consulado), para locomover-se mais livremente. Alugou um apartamento, arriscando-se ser detido saiu e comprou uma estátua da Virgem Maria Adquiriu uma pela qual, diz Vázquez, sentiu um grande afeto porque recordava a sua mãe.

Entretanto, a situação na cidade não melhorava e ele, como outros sacerdotes, estava constantemente em perigo de ser detido. Decidiu deixar a sua família em Madrid. Em outubro de 1937 chegou a Valência. De lá viajou em um trem noturno a Barcelona e, depois de um desesperador atraso, dirigiu-se em ônibus para a fronteira do Norte. Quando o ônibus não pode mais seguir, ele e seus companheiros caminharam a pé, escondendo-se das patrulhas republicanas e dos guardas fronteiriços. Uma noite acamparam em um bosque chamado Rialp; o nome foi posteriormente adotado por um editorial do Opus Dei. saíram em ônibus em 19 de novembro. Quando, de noite, o grupo finalmente alcançou o Principado de Andorra, era 2 de dezembro.

Seus problemas contudo não terminaram. Depois de alguns dias em Andorra, dirigiu-se à França em caminhão. Entretanto, a estrada estava interrompida pelas enchentes invernais, e os últimos quilômetros fizeram a pé. Foi uma viagem dura, incômoda e extremamente perigosa. Para o afetado Escrivá do Balaguer representou sofrimentos possivelmente tão agudos como os que sofria como sacerdote escondendo-se na Espanha republicana. A viagem passou a ser parte do folclore do Opus Dei.

Escrivá, é obvio, fugiu das tropas sociais e comunistas do Governo republicano, não da Espanha. Uma vez na França fez os preparativos para voltar para o lado nacionalista. Visitou o santuário da Virgem de Lourdes e logo dirigiu-se através da fronteira de Irún à cidade de Pamplona, ao Quartel Geral de Franco em Burgos. Em 1939 estava com a primeira coluna de tropas franquistas que encontraram em Madrid. Encontrou a propriedade comprada para o Opus Dei em ruínas. Embora, como veremos, alguns dos que tinham estado com ele antes da guerra Civil permaneciam leais, teve que recomeçar a tarefa de construir o Opus.

Desta vez o êxito foi maior que entre os anos 1928 e 1936. A rápida expansão do Opus depois da guerra é fácil de explicar. Em Burgos, no início de 1938, tinha compartilhado habitação no ‘Hotel Sabadell’ com Pedro Casciaro, José Maria Albareda Herrera e Francisco Garrafa. Está claro que naquela época Escrivá do Balaguer resolveu que o estabelecimento do Opus Dei seria a obra de sua vida. Durante sua estadia em Burgos visitou bispos dentro da zona nacional, falando-lhes de sua organização. Começava ser conhecido e, mais importante, começava a ser influente. Três coisas foram significativas em particular: primeiro, a ideologia do “nacional-catolicismo”; segundo, as necessidades educativas do novo Governo; e terceiro, a amizade entre o membro do Opus José Maria Albareda Herrera e José Ibáñez Martín, o ministro da Educação de Franco desde 1939 até 1951.

Embora, o nacional–catolicismo associa-se em particular aos anos pós-guerra, tinha em sua base uma longa história. Sua doutrina fundamental era a identificação de ser espanhol sendo católico. O amor ao país associado à rejeição de toda heterodoxia, protestante ou judia, liberal ou socialista. A fé religiosa e a identidade política eram uma: formavam um todo, daí o nome óbvio para esta classe de postura político–religiosa, ‘integrismo’ que, é óbvio, não se limitava à Espanha, e cujos defensores eram os ‘integristas’. A Papa Pio XII enviou um telegrama a Franco felicitando-o por sua vitória ‘católica’. O nacional–catolicismo era uma doutrina intencionadamente conservadora e muito divulgada entre os católicos espanhóis depois dos anos de Governo anti-católico.

Escrivá do Balaguer não foi a exceção ao entusiasmo geral por esta ideologia católica conservadora. Ao contrário, está claro em Caminho que a abraçou sinceramente. A máxima 905 recomenda ardor patriótico, e o compara seguidamente com o ardor por Cristo. Com efeito, a introdução à primeira edição aparece recomendando o livro como um meio de salvar a alma, não do cristão piedoso, mas sim da Espanha: ‘Se estas máximas trocarem sua própria vida, será um perfeito imitador de Jesus Cristo, e um cavalheiro sem mancha. E com Cristo como você, a Espanha voltará para a antiga grandeza de seu Santos, de seus sábios e de seus heróis.’

O vitorioso general Franco tinha dirigido sua rebelião, ele a chamava ‘Cruzada’, uma palavra que Escrivá utilizou em Caminho contra o Governo republicano em um intento de voltar para os valores cristãos, supostamente adotados pelos protagonistas do nacional–catolicismo. Teve que reconstruir a cultura tradicional do povo através da reforma educativa. Os estudos religiosos fizeram-se obrigatórios, inclusive para todos os estudantes universitários. Fizeram-se colégios universitários nos quais a estrita disciplina estaria sob o controle de membros de ordens religiosas. Estabeleceu o conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC) para melhorar os níveis de educação da Espanha, não só por meio da provisão de residências, tesourarias, bolsas de viagem, etc.

Entretanto, não se permitiu que a promoção da investigação científica se opusesse ao ideal da “Hispanidade”. O preâmbulo ao decreto estabelecendo o CSIC falava de restaurar ‘a clássica e cristã unidade das ciências, destruída no século XVIII’. A cargo de todo o CSIC, outro ministro da Educação de 1939 a 1951, estava José Ibáñez Martín.

Ibáñez Martín não era membro do Opus, mas durante o transcurso da Guerra Civil passou algum tempo como refugiado político na Embaixada do Chile em Madrid. Ali conheceu o José Maria Albareda Herrera. Os dois tornaram-se bons amigos e Albareda, que era membro do Opus, foi renomado vice-presidente do CSIC e encarregado de coordenar suas atividades. Efetivamente, dirigiu-o até 1966 e utilizou o Instituto de investigação para promover membros do Opus, embora, alguns eram muito capazes. Raimundo Pániker, por exemplo, converteu-se em diretor da publicação ensinada pelo CSIC, ‘Arbor’.

A Guerra Civil deixou um bom número de cadeiras vacantes nas Universidades espanholas, que o Governo desejava cobrir com candidatos ideologicamente confiáveis. Na Espanha os professores são escolhidos por meio de uma espécie de exame, chamado oposição, ante um tribunal formado por vários membros do pessoal universitário. Ibáñez Martín pôde controlar as oposições e certificar-se de que nomeavam candidatos cuja lealdade à Igreja e ao Estado –na prática, as duas coisas eram mais ou menos sinônimos– estivesse assegurada. Não é surpreendente, portanto, que escolhessem membros do Opus para as cadeiras em número crescente. Eram homens competentes e de confiança, e conhecidos pelo ministro da Educação. Sublinhemos, uma vez mais, que o nível intelectual que o Opus Dei exige a seus membros mais comprometidos é muito alto e certamente, recomendariam candidatos do Opus para tais postos.

Em 1939, entretanto, a constante infiltração do Opus Dei no sistema universitário espanhol permaneceria futuramente. Uma preocupação mais imediata de Escrivá, depois de publicar com êxito Caminho, foi estabelecer novos centros e recrutar mais membros.

Em Madrid, a residência originária da ‘D e A’ na rua Ferraz tinha sido destruída. Encontraram então alojamento em alguns apartamentos da rua Jenner, o primeiro com quartos, um segundo para serviços comuns como alimentação. Em fins de 1940, Escrivá adquiriu um pequeno hotel na rua Diego de Léon, que, um ano mais tarde, abriu como residência para vinte novos estudantes. Ele mesmo vivia ali.

Em 1939 também abriram-se centros do Opus em Valência, Valladolid e Barcelona, em um pequeno apartamento na rua Balmes. Barcelona, rancorosamente opunha-se a Franco durante a Guerra Civil. As autoridades da cidade sentiam ainda que estavam no fio da navalha; o grupo do Opus caiu rapidamente sob suspeita, possivelmente denunciado por membros das congregações marianas regidas por jesuítas. Segundo Vázquez, foi em Barcelona onde Caminho foi ‘condenado às chamas’, onde houve sermões públicos contra os hereges e um convento de monjas orou pela conversão de Escrivá, apesar do apoio dado ao pequeno grupo, aproximadamente uma dúzia, pelo abade auxiliar do Montserrat, o grande monastério beneditino, santuário da Virgem que era, e é, o centro do nacionalismo catalão e da devoção católica.

Também havia oposição em Madrid. Na descrição de Vázquez, esta oposição era ‘direta e organizada’, embora não diz por quem. Rocca, entretanto, sugere que os oponentes do Opus eram de novo as congregações marianas, organizações laicas ativistas regidas pelos jesuítas. Não viram com bons olhos uma nova corporação invadindo um território que lhes era próprio por tradição, assim como, suspeito pelo ‘segredo’ ou a ‘reserva’ que o Opus Dei tinha adotado. Certamente, naquela época, Escrivá já não contava com seu confessor, o jesuíta Sánchez Ruiz.

A acusação contra o Opus era muito específica: dizia-se que era uma seita judia vinculada aos maçons. Com as conseqüências da guerra, aquela era uma acusação séria. Havia um tribunal especial em Madrid cuja tarefa era erradicar a maçonaria (‘para vigiar pela segurança do Estado’, diz Vázquez). O Opus foi levado ante este tribunal. Seus membros, em geral, disseram ao juiz, levavam uma vida respeitável, ativa e casta. O juiz perguntou-lhes se realmente viviam a castidade e quando lhe asseguraram que assim era, declarou que o caso não tinha lugar. ‘Não conheci ainda um maçom que seja casto’, disse como explicação.

O bispo de Madrid (mais exatamente de Madrid–Alcalá) explicou algumas das razões da hostilidade em torno do Opus Dei em uma carta que escreveu em 24 de maio de 1941 ao abade–ajudante de Montserrat, em resposta a outra anterior do abade sobre o Opus. É surpreendente não ter mudado as acusações contra o Opus através dos anos. ‘O doutor Escreva –dizia o bispo, dando ao fundador tanto sua ortografia mais plebéia como o título adquirido mais recentemente– não tem outra intenção nem desejo que não seja preparar muitos profissionais, gente inteligente, de modo que possam ser úteis à pátria e servir defendendo à Igreja. Seus caluniadores –admitia– o descrevem como uma ‘associação secreta’, mas desde o começo tinha a bênção das autoridades diocesanas e não fazia nada sem obter essa bênção.’

O bispo seguia logo falando especificamente da ‘reserva’ –ele negava que fosse secreto– exercida pelos membros do Opus. Ensinava-a o próprio Escrivá, dizia, como um antídoto contra o orgulho, uma defesa de humildade coletiva, e igualmente como instrumento para uma maior eficácia em seu apostolado de bom exemplo e nos serviços que, de vez em quando, podiam proporcionar à Igreja. Terminava dizendo ao abade que, no dia anterior, tinha lido uma carta de um superior jesuíta dizendo que era difamar à Companhia do Jesus afirmar que a Companhia estava decidida a perseguir o Opus, ou a procurar sua destruição.

O bispo, Monsenhor Leopoldo Eijo e Garay, estava evidentemente muito mais informado que o cardeal Pedro Segura arcebispo de Sevilha, ou que Monsenhor (depois cardeal) Gaetano Cicognani, que era o núncio pontifício em Madrid. Seis meses depois da carta do bispo de Madrid, Gaetano escrevia a Segura pedindo informação sobre ‘ a existência e o funcionamento da instituição chamada Opus Dei’, porque existiam relatórios muito discrepantes sobre a mesma.

Ao responder, no fim de julho de 1941, Segura confessou estar desconcertado. As primeiras notícias do Opus eram, disse, confusas e alarmantes, e procediam de padres da Companhia de Jesus. ‘Deveria saber mais sobre o mesmo –prosseguia–, porque Sevilha era uma cidade universitária, e os estudantes eram ‘o objetivo preferido’ do Opus.’ Também tinha obtido pouco em suas investigações em Zaragoza, que unicamente serviram para demonstrar o caráter rigorosamente secreto da organização. Tinha sido difícil conseguir Caminho, que, conforme disseram-lhe, constituía a regra do Opus, e embora agora o possuísse, ainda não tinha tido tempo de lê-lo. Portanto, não sabia se sua obra era política, social ou apostólica. Nenhum dos que consultara sabia nada, exceto generalidades. Tinha pouca confiança nela pela boa razão de que adotava formas de proceder alheias à tradição da Igreja.

É estranha a rapidez com que surgiu a oposição ao Opus, e igualmente estranho que as queixas continuem ainda repetindo-se. O Opus é reservado. Sua regra é difícil, se não impossível de conseguir. Suspeita-se de que é politicamente ativo. Opera em segredo entre os estudantes universitários. Não encaixou bem com os modelos de trabalho tradicionais da Igreja. Seus principais críticos procedem da Companhia de Jesus.

Possivelmente devido a esta maré crescente de hostilidade, Escrivá decidiu que era o momento de reclamar para o Opus Dei algum estatuto modesto, reconhecível dentro da Igreja. Teve que fazer-se público. Converteu-se, com a aprovação do bispo Eijo e Garay, em uma ‘Pia União’.

Segundo o Código de Direito Canônico do momento (‘as Pias Uniões ‘ não merecem uma menção especial na nova versão do Código), eram ‘associações de fiéis formadas para finalidade de obra piedosa ou de caridade’ (Canon 107, pár. 1). Eram a forma mais simples de instituições eclesiásticas, que não requeriam mais que a aprovação do bispo local, aprovação que Eijo e Garay deu de boa vontade a pedido de Escrivá. Sua carta de 19 de março de 1941 afirma que, tendo lido uma série de documentos do Opus Dei, dava sua aprovação ao Opus como Pia União, atendendo o Canon 708, que dava aos bispos a autoridade de estabelecer tais organizações ‘capazes de receber obrigações espirituais, e especialmente indulgências, embora, não sejam personalidades jurídicas’. Para acalmar a obsessão de Escrivá pelo segredo, Eijo e Garay guardavam os documentos do Opus Dei nos arquivos secretos da diocese.

Para ser uma organização que, naquele momento, tinha somente uns cinqüenta membros, homens e mulheres, e umas quantas residências na Espanha, o número de documentos escritos pelo Escrivá, consultados pelo bispo e guardados logo nos arquivos, era considerável. Eram, com seus nomes espanhóis, o ‘Regulamento, o Regime, a Ordem, os Costumes, o Espírito e Cerimonial’.

No grupo assim regido eram todos, ao menos tecnicamente, laicos, embora com um sacerdote à cabeça. De modo que o fato de que os membros do Opus Dei vivessem juntos com um modo de vida comum bastante similar ao religioso, não alterava sua posição jurídica na Igreja. Desde meados de março de 1941 eram um grupo reconhecível, embora pouco conhecido, de laicos com um estatuto canonicamente aprovado.

Escrivá estava, entretanto, a ponto de dar um passo que desde então, fez anômala a posição do Opus. O problema era a promoção de alguns de seus membros ao estado do sacerdócio.






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