O mundo Secreto do Opus Dei



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I: EM BUSCA DO OPUS

Há só 200 quilômetros desde Cuzco, a segunda cidade do Peru, antiga capital dos incas, à cidade do Abancay, mas a estrada era tão ruim que minha viagem em um ‘Toyota’ durou ao todo não menos de dez horas. Abancay é uma cidade fronteiriço, no mais recôndito dos Andes. Os soldados vigiam as entradas. Seus habitantes preferem conduzir automóveis tipo jipe ou comprar caminhonetes, se é que podem permitir-se ter algum veículo. Somente algumas ruas estão pavimentadas; a maior parte são pouco mais que atalhos de terra.

O edifício que procurava estava justamente ao outro lado destas ruas. A parede que o rodeava estava dividida por uma imponente entrada. Do outro lado da parede divisei uma piscina e elegantes maciços de flores. Emanavam duas fontes; uma delas caía sobre um lago com peixes de cores. Visitei uma das duas capelas que havia no jardim. Atrás do altar, situado em uma trabalhada estrutura de ouro, havia um quadro da Sagrada Família: Maria e José ensinando o Menino Jesus andar. A pintura era de uso cuzqueno, derivado da arte que os conquistadores espanhóis levaram ao Peru no século XVI. O contraste entre o mundo no qual penetrara ao cruzar o arco da entrada e o mundo exterior com o passar do atalho de terra, dificilmente seria maior. Isto parecia a fazenda de um rico proprietário. De fato, era o seminário o lugar onde se formavam os aspirantes a sacerdotes.

Visitava-o sugestão de Ken Duncan, um conselheiro para a ajuda e o desenvolvimento, que tinha ouvido sobre meu interesse na organização do Opus Dei. Duncan, que não era católico, ficou desconcertado pelas atividades do Opus no Peru e queria contar suas experiências a alguém que pudesse chamar a atenção sobre o que ele considerava um comportamento inaceitável por parte do clero do Opus. Tinha-lhe aborrecido em particular um orfanato peruano, ao qual tinha sido convidado. Surpreendeu-se enormemente; os índios quéchuas, com suas famílias numerosas, raramente necessitavam os serviços de um orfanato. Ainda lhe surpreendeu mais quando descobriu que alguns dos meninos da instituição nem sequer eram órfãos. As autoridades eclesiásticas lhe disseram simplesmente que seus pais e mães não foram considerados adequados e tiraram-lhes os filhos . ‘O que acontece quando estes crescem?’ Perguntou Duncan, advertindo que poucos dos órfãos tinham mais de cinco ou seis anos. ‘Temos amigos na América do Norte ou na Alemanha que os recolhem’, disseram-lhe. ‘A gente não paga nada –lhe disseram–. Mas entregam um donativo.” Aquilo se parecia mais com a venda de crianças.

Quando viajei ao Peru em busca do Opus, consegui chegar até o Abancay, apesar de seu isolamento, e visitar o seminário, cujo luxo também achara-o escandaloso Duncan, ao compará-lo com a pobreza da gente de fora de seus muros. Este seminário para as diocese de Cuzco e de Abancay era dirigido por um punhado de clérigos espanhóis do Opus Dei vestidos com batinas bem confeccionadas. Era exatamente como Duncan o havia descrito. Como ele, fiquei surpreso pelo contraste entre a pobreza e a miséria de fora e a comodidade interior, e pela incongruência de encontrar uma instituição assim em um vale dos Andes. Sem dúvida, esta era uma empresa do Opus Dei, mas não pude investigar suas vinculações com os órfãos do Peru. Esta organização tem muitos graus de compromisso. Não podem ser consideradas tecnicamente empresas do Opus todas as que contam com membros da Obra, ou que sejam dirigidas por esta em certa medida. O vínculo entre os órfãos e o Opus ficava bastante em evidência pelo que Duncan me havia tal; entretanto, não pude comprová-lo pessoalmente.

Ken Duncan tinha trabalhado freqüentemente com organizações católicas. Tinha grandes elogios para a maioria delas; entretanto, estava preocupado pela crescente influencia do Opus no Peru. Ainda se alarmou mais quando lhe expliquei a envergadura e a complexidade do Opus no mundo, ao menos três vezes maior que a Companhia do Jesus (os jesuítas), que até a data foi considerada a Ordem religiosa mais influente da Igreja católica.

Meu interesse pelo Opus despertou em princípio por uma apologia do mesmo que apareceu no fim de maio de 1971 no suplemento em cor do ‘Sunday Time’. O periódico, pelo visto, tinha publicado um artigo desfavorável sobre a Obra, e esta solicitou, e obteve, o direito a réplica. Atraiu minha atenção o artigo de Peter Hebblethwaite, pois era eu naquela época membro da Companhia de Jesus e diretor do The Month, uma revista jesuíta publicada na residência que a Companhia tem no Mayfair, em Londres. Uma vez ou outra escrevia para ‘ Hebblethwaite’ e ele sugeriu-me que investigasse sobre a Obra.

Sabia pouco, em efeito, do Opus Dei antes de começar a investigar para meu artigo. Seu nome era pouco revelador. Opus Dei, a Obra de Deus, teve até a data duas palavras utilizadas usualmente dentro da Igreja católica para descrever as orações que os monges cantam no coro pela manhã e de noite. Os membros do Opus chamavam a sua instituição ‘a Obra’, o que soava a título provisório. Sugeriu-se que seu fundador, Escrivá do Balaguer, pensou em um tempo em chamá-la Sociedade de Cooperação Intelectual, ou SOCOIN, embora nada em concreto saiu desta idéia.

Em seus primeiros anos na Espanha, nos anos trinta, parece ter sido pouco mais que um grupo de homens e mulheres católicos seculares que continuavam em seus trabalhos, mas que viviam com freqüência em pequenas comunidades e estavam unidos por solenes promessas, embora não pelos votos formais dos membros das ordens religiosas. O vínculo principal de sua comunidade cristã era a forma de guia espiritual proporcionada por seu fundador, José Maria Escrivá. Esta espiritualidade foi constrangida em cápsulas de um modo insuperável em um pequeno livro de 999 máximas chamado ‘Caminho’. Todo parecia totalmente inofensivo.

Logo soube, entretanto, que seu pretendido papel político na Espanha de Franco, sua reserva, seu aparente êxito, seus métodos de atuação, tudo, despertou um grande interesse e uma considerável hostilidade, tanto dentro da Igreja católica como fora dela. ‘The Economist’ referia-se a ela, freqüentemente, nos anos sessenta e setenta, e insistia em chamar a seus membros ‘opus deístas’, como se constituíssem um partido político, pelo qual se sentiram profundamente ofendidos. Inclusive ‘The Time Literary Supplement’, uma revista séria, raramente dada a polemizar sobre assuntos eclesiásticos, incluía um artigo adverso em uma de suas páginas centrais em abril de 1971 sob o título ‘The Power of the party: Opus Dei in Spain’ (‘O poder do partido: Opus Dei na Espanha’).

Atraiu meu interesse, em parte, porque eu era um entusiasta “hispanófilo” e Espanha era o país onde havia a maior concentração de membros do Opus e onde melhor era sua influência, e em parte, também, porque eu era naquele tempo jesuíta e o Opus era com freqüência comparado, e se comparava a si mesmo, com a Companhia do Jesus. Desde que Ignácio de Loyola fundou a Companhia em meados do século XVI, nenhuma organização religiosa dentro da Igreja católica tinha levantado tal controvérsia, nem chegou tão rapidamente (assim o parecia) a ter tanta influência na Igreja e no Estado. O Opus tinha copiado a Companhia, naquele momento parecia saber, do trabalho que esta tentava fazer dentro da Igreja, em particular na educação da elite católica. Desta vez, no entanto, não era a elite por nascimento, mas sim, possivelmente de acordo com o espírito do século XX, era selecionada principalmente pela riqueza conseguida através dos negócios.

Quando publiquei meu primeiro artigo sobre o Opus Dei no The Month’, em agosto de 1971, eu o intitulei ‘Being Fair to Opus Dei’ (‘Imparcial com o Opus Dei’). Acreditei que era imparcial porque, em sua maior parte, evitava o que seus caluniadores haviam tal da Obra e limitava às próprias publicações do Opus, em particular à Constituição de 1950 e às 999 máximas do Escrivá de Balaguer, contidas em ‘Caminho’.

O Opus, possivelmente, de modo não surpreendente, não o considerou imparcial. Uns meses depois de aparecer o artigo, concordei com uma entrevista com o porta-voz do Opus em Madrid. O encontro devia ter lugar no apartamento particular de uns amigos. O porta-voz do Opus chegou depois do almoço. Não quis tomar café. Não quis sentar-se. Simplesmente brigou pela injustiça que eu tinha cometido contra o Opus. E partiu enfurecido.

A reação na Inglaterra foi bastante mais suave. Várias pessoas que eu não conhecia solicitaram ver-me. Consegui evitar o encontro. Mais tarde, um amável antiquário de Norfolk conseguiu chegar a meu escritório porque era íntimo amigo de meu amigo. O também repreendeu-me, mas com mais pena que ira. Disse-me que eu não tinha captado absolutamente o espírito do Opus Dei. Eu não me opunha a que me corrigisse nos pontos em que me tivesse equivocado. Mencionou um assunto puramente técnico que não era de grande importância. Perguntei-lhe se eu tinha entendido bem sua espiritualidade. Disse-me que não, e lhe pedi alguns exemplos. Perdeu-se e suspeitei que a conversação não partia segundo as instruções por ele recebidas. Tentei lhe ajudar. Fiz-lhe observar que eu tinha trabalhado a partir de documentos e que era consciente de que podiam ser falsos; a gente só tinha que pensar em um programa de exame que, de forma abstrata, sempre intimida um pouco, mas que logo, na hora da verdade, tem uns limites mais razoáveis. Disse-lhe que o programa espiritual do Opus Dei parecia assustar, mas imaginava que vivê-lo seria bastante mais fácil do que parecia em princípio. Esteve de acordo com a analogia, mas quando lhe pedi que me explicasse com exemplos onde divergiam o programa e a prática, de novo não soube o que responder. Tentei ajudar-lhe a sair de seu embaraçoso silêncio: ‘Por exemplo – disse–lhe-, a Constituição estabelece que todos devem orvalhar suas camas com água benta antes de deitar-se pelas noites. Asseguro que não o fazem, verdade?’ De novo o embaraço. ‘Sim, fazemo-lo –respondeu–. depois de tudo, a castidade é uma virtude muito difícil.’

Mais de uma década depois, um antigo membro da Obra, o doutor John Roche, do Linacre College de Oxford, disse-me que ‘Being Fair to Opus Dei’ foi o primeiro que leu, depois de entrar no Opus, sem ter pedido previamente permissão. Surpreendeu-se por ser o mais próximo ao espírito do Opus sem ser eu membro do mesmo.

Em princípios dos anos setenta parece que havia pouco material em inglês sobre a Obra e seus objetivos, daí que meu artigo chegasse ao “Arquivo de Publicações”. Quando aparecia uma história sobre o Opus, chamavam-me os periódicos, os produtores de Televisão e os repórteres radiofônicos, e assim estariam a par dos acontecimentos relativos à instituição. Quando anos depois comecei a investigar para este livro, logo descobri que alguns prestigiosos católicos consideravam que o Opus Dei era um dos maiores problemas da Igreja católica na atualidade. José Comblin, um sacerdote belga muito conhecido, que passou a maior parte de sua vida ativa na América Latina, escreveu-me do Brasil para me dizer exatamente isso. Nos claustros da capela de São Jorge, no castelo do Windsor, em uma úmida noite de abril de 1986, o teólogo suíço Hans Küng falou extensamente comigo e deu-me uma enxurrada de nomes de pessoas com quem estabelecer contato.

Mais recentemente, um amigo australiano contava-me os acontecimentos extraordinários que rodearam a publicação de dois artigos sobre o Opus no jornal ‘The Australian’. Explicou-me casos de códigos de ordenador quebrados e que o Opus ameaçava abrir ação judicial antes mesmo que os artigos (supostamente secretos) tivessem aparecido. Ainda mais lamentável foi que em novembro de 1987 Pedro Miguel Lamet foi suspenso de seu posto de diretor do seminário religioso espanhol ‘Vida Nova’. Sob a direção de Pedro, um velho amigo de meus dias de jesuíta, este seminário converteu-se não só no melhor de sua classe na Europa, mas sim do mundo. Pedro mencionava tanto a hostilidade a ‘Vida Nova’ do núncio em Madrid, como culpava ao antagonismo e ao poder do Opus de sua destituição pela empresa proprietária da publicação.

A sorte de Lamet indica o poder que o Opus exerce nas mais altas hierarquias eclesiásticas. O número de bispos pertencentes ao Opus aumenta, embora a percentagem sobre a cifra total, muitos mais de 2.000 em todo mundo, seja realmente pequena. Há, possivelmente, menos de uma dúzia. Mais importante é a influência que têm na cúria, a administração do Papa em Roma. Os ‘vaticanólogos’, esse pequeno grupo de jornalistas que entendem as complicadas interioridades da cúria, observam com atenção a ascensão e a queda –normalmente a ascensão– dos burocratas eclesiásticos que, com seus pontos de vista tradicionalmente conservadores, são favoráveis ao Opus. Eles advertem também a influência mais direta da Obra através do serviço de seus membros como consultores das Congregações (porta-voz dos conselheiros dos órgãos administrativos do Vaticano), como o das Causas dos Santos (estão desejosos de que seu fundador seja declarado santo), ou a Congregação Constitucional. O Papa João Paulo II parece também simpatizar com o Opus, e em 1982 concedeu à Obra um novo estatuto legal que a faz única na Igreja e, a todos os efeitos práticos, uma entidade autônoma.

Quando dizia aos amigos católicos que me ocupava neste estudo, jocosamente me aconselhavam aumentar meu seguro de vida. Mas, brincadeiras a parte, assombrou-me a extensão e o alcance do Opus. Doze anos depois que apareceu ‘Being Fair to Opus Dei’, um amigo dos Estados Unidos combinou-me uma entrevista com seu tio, membro do Opus. O encontro realizou-se somente depois de seu tio obter permissão de um tal padre Kennedy, um sacerdote do Opus. ‘Conhecemo-lhe – disse Kennedy–, é hostil, mas é melhor que o veja.’ Depois, em Washington, fui ver Russell Shaw, então porta-voz da Conferência Nacional de Bispos Católicos dos Estados Unidos e membro do Opus. Também tinha solicitado previamente permissão ao padre Kennedy. Quando por fim o conheci, não parecia que um comportamento assim em homens maduros fosse estranho de modo algum. Chocava-me o fato de uma organização que afirma incumbência apenas nas coisas do espírito misturar vidas particulares de seus membros a ponto de ter que pedir permissão antes de ver-me. Acho um tanto perverso.

Todavia, tudo isto é parte do segredo –o Opus prefere chamá-lo discrição– que rodeia à Obra. Seus membros não usam roupa especial nem distintivo algum. Inclusive durante as celebrações eclesiásticas ordenam-lhes não se apresentarem como grupo. Um membro admitirá pertencer ao Opus, mas não dirá quem mais pertence. Tampouco seu número deve ser revelado embora um documento preparado antes da última mudança de estatutos do Opus (1982), confessava que eram então 70.000 em todo mundo, e quase dois por cento deles são sacerdotes. Acredita-se que no Reino Unido há 300 ou 400 membros, e 2.500 nos Estados Unidos, no que Russell Shaw descreve como uma ‘existência coletiva’ em uma dúzia de cidades. Não todos são membros de pleno direito. Aproximadamente trinta por cento está formado por membros ‘numerários’, outros vinte por cento por ‘oblatos’, com obrigações similares aos numerários, porém, vivendo fora das residências do Opus. A outra metade, formada pelos ‘super-numerários’, tem uma conexão bastante mais tênue, embora seja regida pela Constituição do Opus.

A obrigação de segredo estende-se em particular à Constituição; em circunstâncias normais, nem sequer os membros estavam autorizados a vê-la. Maria do Carmen Taipa, que esteve durante dez anos encarregada da seção de mulheres na Venezuela, não dispunha nem de um exemplar. Quando em mais de uma ocasião precisou consultá-la, deixava-lhe sob a estrita condição de que devia devolvê-la rapidamente. Em Washington tive a oportunidade de perguntar ao Russell Shaw se tinha visto a Constituição. Disse-me que não. Perguntei-lhe se tinha costume de ingressar em organizações sem ler antes seus estatutos. Pra ele isto não fazia diferença. Mais tarde acrescentou que se aborrecia ao ler tais documentos.

A Constituição, pois, não estava na prateleira da biblioteca de cada centro do Opus. Nem sequer era, como o são, por exemplo, as constituições dos jesuítas, tema de estudo para os membros da Obra, como poderia esperar. Entretanto, a nova Constituição de 1982 estava disponível para todo bispo diocesano dentro do território onde funcionasse o Opus Dei. É mais, em alguns lugares ao menos, o diretor local do Opus convertia em algo especial a entrega do documento ao bispo.

Sabendo isto, perguntei a alguns bispos se estavam dispostos a deixarem-me ver o texto. O primeiro que encontrei disse entregar a Constituição ao bispo pessoalmente e só a ele. Os bispos auxiliares que estivessem encarregados de uma área da diocese em que o Opus tivesse estabelecido centro, tampouco recebiam algum exemplar. Depois descobri que a Constituição que tinha mais probabilidades de ver tinha desaparecido. Não é, confesso-o, um livro muito volumoso.

Embora soubesse que foi publicada em um periódico espanhol em meados de 1986, comecei a perder as esperanças de pôr facilmente as mãos sobre um exemplar, quando me encontrei em circunstâncias misteriosas. Trabalho em uma faculdade da Universidade de Londres e numa manhã, ao entrar em meu escritório, encontrei em uma prateleira setenta e sete fotocópias correspondentes ao dobro do número de páginas originais. Não havia nenhuma nota nem nenhum papel com saudações. De modo que agora agradeço meu desconhecido benfeitor.

Depois de estudar suas duas Constituições, havia muito mais coisas que me inquietavam do Opus Dei; serão o tema do resto deste livro. Todavia, parte de minha própria animosidade para com o Opus surgiu, possivelmente, com um sentimento de decepção.

Pelo menos desde finais do século nem sempre houve uma forma de ‘vida religiosa’ na Igreja católica. Quer dizer, homens e mulheres que escolheram (em geral), voluntariamente, viver sua vida de forma a levar o texto do Evangelho ao pé da letra, mais do que o habitual. Em princípio tinham vidas solitárias como ermitões no deserto. Depois uniram-se para formar grupos, ou comunidades, sob a supervisão de um abade ou abadessa. Originariamente, tais comunidades habitavam lugares despovoados e permaneciam grupos em fazendas; porém, gradualmente, as casas religiosas mudaram-se do campo às cidades e os monges misturavam-se, até certo ponto, com os profanos, mas permanecendo em sua maior parte confinados em um lugar. Logo vieram os frades que, como os monges, faziam juntos a oração e encontravam-se para a missa convencional, porém, misturavam-se às pessoas muito mais livremente e foram de um lugar a outro. Depois vieram os ‘regulares’, como os jesuítas. Não oravam juntos nem, em geral, ouviam missa juntos. E, diferentemente dos monges, monjas e frades, não usavam hábitos especiais mais que o clero, portanto, podiam-se misturar entre as pessoas muito mais facilmente. Eram sacerdotes unidos pelos votos de pobreza, castidade e obediência a seu superior, por isso, este sentimento mais restrito do Evangelho conserva-se tradicionalmente.

O Opus, a primeira vista, parecia ser diferente. A vida religiosa, tendo o significado que tiver, limitou-se até agora aos que estão dispostos a fazer os votos: gente solteira que opta pelo celibato para o resto de sua vida. Embora os aspectos deste conceito, como dissemos, ampliaram-se desde passar a vida como ermitões no deserto até viver em casas particulares na cidade e unir-se estreitamente com pessoas comuns, os membros de tais grupos religiosos estão muito longe de ser gente comum. Que o Opus proporcionasse uma forma de vida religiosa em um sentido amplo para uma diversidade muito maior de pessoas, tanto casadas como solteiras, entendi ser uma característica especial, ou o carisma do Opus. Em outras palavras, tomei como uma extensão natural do desenvolvimento da vida religiosa dentro da Igreja. Logo desiludi-me. A diferença de muitas das grandes ordens religiosas na Igreja católica, foi, paulatinamente, dominada pelos padres, e mostrou-se estreita, de idéias ultra conservadoras

Vladimir Felzmann, um inglês de origem tcheca, uniu-se ao Opus em 1959 e foi ordenado sacerdote dez anos depois. Deixou a Obra em princípio de 1982 e agora está como sacerdote na diocese do Westminster, que abrange Londres ao norte do Támesis. Como muita gente que deixa movimentos religiosos autoritários; seitas como a Igreja da Unificação (a seita Moon); Conhecimento Krishna; ou a Missão da Divina Luz, Felzmann guarda um profundo afeto pelo fundador do Opus Dei, José Maria Escrivá do Balaguer, a quem conheceu bem e com quem trabalhou na sede romana do Opus, embora recuse a organização que fundou:

O fundador tinha notáveis qualidades de liderança. Inspirava. Como todo grande líder, era duro e era brando. Tinha uma força densa do que os psicólogos chamariam o masculino e o feminino, o animus e anima. Era maravilhosamente humano. Atraía por sua força e seu sentido da direção –sua fé– tanto como por sua vulnerabilidade e calor. Podia ser duro como o gelo e terno como qualquer mãe. Impetuoso, emocional, apaixonado, compensava estas qualidades naturais com a força abstrata dos ideais, a disciplina, a força de vontade, a ordem, o dogma e a realização. Era bastante sábio para escolher homens com estas últimas qualidades para serem seus colaboradores mais próximos em Roma. Conforme envelhecia, a influência destes crescia. Quando morreu, tentaram conservar o que acabava de deixar de respirar. O ‘espírito’ do fundador se fossilizou, esfriou-se”.

Para os membros do Opus, Escrivá era um profeta com uma inspiração divina direta, que continuou até sua morte ou, como o Opus Dei preferiria chamá-la, “a passagem de nosso padre aos céus” em 1975... Como é um santo, ensina aos membros, seu caminho é natural e seus seguidores estão seguros do céu até o ponto em que se identificam com ele”.

A canonização é normalmente um longo processo, quando finalmente, um homem ou uma mulher são oficialmente reconhecidos pela Igreja católica como Santos. Thomas More, Lorde Chanceler da Inglaterra, que morreu por sua fé no reinado do Henrique VIII, esperou quatro séculos antes de sua santidade ser formalmente reconhecida pela Igreja. Os que estejam promovendo a ‘causa’ do futuro santo têm que ser capazes de demonstrar que já está determinado, a ele ou a ela, que já é considerado santo, que já lhe peçam a cura de enfermidades, ou ajuda nas dificuldades e que se produziram milagres pela intercessão potencial do santo.

Para os que destacaram na Igreja por seus ensinamentos e escritos, a inspeção minuciosa levada ao final, primeiro em nível local e depois pelas autoridades da Igreja em Roma (Congregação para a Causa dos Santos no departamento pertinente), é ainda mais rigorosa. Todos os livros e papéis são inspecionados e as informações estudadas. Ao menor indício de que seu pensamento não se ajuste totalmente aos ensinos da Igreja católica, o candidato à canonização é excluído. Embora, houve casos nos quais a santidade de um indivíduo foi tão manifesta que o sistema foi abreviado, o processo é normalmente muito longo. O Opus não tem a intenção de permitir que isto ocorra com a causa de seu fundador, e a gente pode compreender sua preocupação.

O Opus não é simplesmente um corpo religioso novo, é uma nova forma de instituição dentro da Igreja, como demonstra amplamente a longa busca de um estatuto jurídico apropriado. Para ser reconhecido como uma instituição legítima, com a total aprovação da Santa Sede e da Igreja em geral, não somente necessita aprovação formal de sua posição legal dentro da Igreja; também requer o reconhecimento de que o fundador era um santo, a nível dos grandes Santos como Francisco, Domingo ou Ignácio de Loyola, o fundador da Companhia de Jesus.

Tudo isto é, sem dúvida, muito louvável, todavia, surgem complicações quando se tenta apresentar um relato honesto da vida de Escrivá. O Opus controla a informação sobre ele. Os livros que autorizam são, naturalmente, hagiógrafos. Os dois mais importantes são o de Salvador Bernal, “Monsignor José Maria Escrivá de Balaguer, Profile of the founder of Opus Dei” (Monsenhor José Maria Escrivá do Balaguer. Perfil do fundador do Opus Dei) publicado em Londres e em Nova Iorque pela Scepter de 1977 (justamente um ano depois de ter aparecido em espanhol) e, mais recentemente, uma biografia por um espanhol, antigo agregado de Informação em Londres, Andrés Vázquez de Prada, ‘O fundador do Opus Dei’. Publicada em Madrid pela Edições Rialp em 1983. Propagam-na do editor a descrever como a ‘primeira biografia extensa que aparece em espanhol’. Tanto Rialp como Scepter são, é óbvio, editoriais do Opus Dei. Ambos os autores são membros do Opus, entretanto, em nenhuma das biografias que aparecem nos livros se mencione este pertinente detalhe. Embora exista ao menos um pequeno –e satírico– estudo, parece não haver obras com propósito de valorização imparcial de Escrivá do Balaguer. Não é difícil descobrir por que.

O Opus está decidido, na medida do possível, a apresentar cada retrato de seu fundador como o candidato perfeito à honra da santidade oficial. Tem que ser visto como uma pessoa que foi especialmente escolhida por Deus para a suprema missão de fundar o Opus. Deve ser considerado não só como heroicamente santo, sobressalente em todas as virtudes, mas também como sábio e erudito.

Tomemos um exemplo do livro de Vázquez da Prada: no princípio, recorda uma conversação com o Escrivá do Balaguer durante uma das visitas deste a Londres. Vázquez da Prada ia escrever uma biografia do estadista inglês e agora santo, Thomas Morus. Pediu conselho ao Escrivá. ‘Terá que se colocar dentro do personagem’, ou mais exatamente, embora em versão um pouco mais livre, ‘terá que te colocar em sua pele’. Agora bem, este excelente conselho, dificilmente considera-se original. Eu critico, entretanto, não a banalidade do conselho, todavia, o que Vázquez faz com ele. Converte-o na frase de abertura de seu texto a qual considera como se fora uma relação notável.

Vázquez continua depois com seu capítulo introdutório, de que está claramente orgulhoso. Vladimir Felzmann recorda que o leu a um grupo de aspirantes a membros do Opus em Londres. O capítulo é uma meditação sobre o dia que nasceu o Opus Dei, em 2 de outubro de 1928, o dia, revela-nos, em que Ludovico von Pastor, o grande historiador moderno do papado, morreu em Paris; o dia em que fazia 81 anos Von Hindenburg, Presidente da Alemanha, e o dia em que se declarou a lei marcial na Albania. É um pouco difícil explicar esta extraordinária proeza, tanto como Vázquez a estendeu (inclusive encontrou o que se projetava nos cinemas de Madrid), a menos que seja para situar o acontecimento como produzido em algum providencial momento crítico da História do mundo.

O Opus começou em um lugar preciso e no momento justo. Aconteceu de repente, ‘como semente divina caída do céu’, diz Vázquez. O fundador afirmou depois que foi totalmente coisa de Deus, que ele foi unicamente um estorvo. Um sinal de sua humildade, apressa-se a escrever Vázquez. Poderia ser isso, mas também seleciona Escrivá do Balaguer como veículo escolhido pela divindade para escolhidos propósitos divinos. Inclusive a negativa de Escrivá ao falar de tudo isto, apontada por Vázquez, afasta tanto ele como à fundação do Opus Dei, da vida normal. O contexto no qual seus biógrafos do Opus apresentam-no não é o de um simples mortal.

Bernal exemplifica pelo mesmo estilo. No início de seu livro conta a história de um sacerdote que conheceu o Escrivá do Balaguer em novembro de 1972. ‘Eu estava fazendo atos de fé, para pensar que me encontrava ante o fundador do Opus Dei’, diz que afirmou. Bernal põe a ênfase em sua normalidade, porém a graça do relato está em que se ‘esperava’ que fora distinto. Estão construindo a imagem de um homem que é outro: um santo. Esta é o âmago que se espera que os leitores leiam sua vida. Por isso Vázquez insiste em que sua tarefa é ‘descobrir a conexão entre seu (o do Escrivá) comportamento público e suas atitudes mais profundas’. E essa é justamente a tarefa que o enfoque hagiógrafo do fundador faz virtualmente impossível.

Entretanto, por mais estranho que pareça, o primeiro problema com o qual se depara qualquer um que escreva sua vida é decidir o nome do personagem. Segundo a anotação no registro paroquial da igreja em que foi batizado, seu sobrenome se escrevia ‘Escrivá’, mas já em sua época escolar, José Maria adotou a versão, mais distinta, do Escrivá, escrita com ‘e’ em lugar de com ‘b’, que, em castelhano, é exatamente igual.

Em junho de 1940, a família, que então se conhecia como Escrivá e Albás, argumentando que Escrivá era um nome muito comum para lhe distinguir, solicitou que no futuro lhes conhecesse como Escrivá do Balaguer e Albás, embora nos vinte e tantos anos seguintes o ‘e Albás’ foi em sua maior parte ignorado.

Até aquele momento, José Maria tinha sido simplesmente José Maria A partir de 1960 começou a assinar Josemaría. Logo, em 1968, solicitou e foi concedido o título de marquês de Peralta de la Sal em Aragão. É um fato curioso. Seus biógrafos alegam que unicamente aspirou ao título depois de consultar com cardeais da cúria, o cardeal DELL'Acqua, o vigário papal de Roma e íntimo amigo dele, e o cardeal espanhol Larraona. Também o disse a outros dignatários eclesiásticos, incluindo a Secretaria de Estado.

Alguns membros acreditam que solicitou o título por consideração a seu irmão Santiago. A desculpa do próprio Escrivá, expressa em uma carta ao conselheiro do Opus Dei em Madrid, era que sua família tinha sofrido muito preparando-o para seu ministério, e que aquele título era uma forma de recompensa. Seja qual for a explicação, solicitar o restabelecimento ou a concessão de um título nobre pareceria impróprio de alguém cuja humildade se encontra entre as virtudes que seus partidários enumeram, enquanto tramita a causa de canonização. Especialmente à luz da máxima 677 de seu tratado espiritual Caminho: ‘Honras, distinções, títulos... coisas de aparências, vaidade, orgulho, mentiras, nada.’

Deste modo soa algo estranho, à luz dessa máxima, ter reunido também uma quantidade de outras condecorações espanholas, tais como, a Grande Cruz de São Raimundo de Peñafort; a Grande Cruz de Alfonso X, o Sábio; a Grande Cruz de Isabel, a Católica; e outras, assim como, diversas medalhas de ouro.

Suspeito que é um comportamento sem precedente em nenhum outro santo, ao menos depois de sua conversão. É um claro motivo de embaraço para seus biógrafos, e possivelmente o fora inclusive para si mesmo. Como escreveu em sua carta ao concílio, tinha atuado unicamente depois de uma cuidadosa reflexão ante Deus e depois de pedir conselho. A petição do título era-lhe ‘antipática’, embora qualquer outro tivesse atuado e a tivesse desfrutado sem escrúpulos.

Alegava que o marquesado de Peralta de la Sal em Aragão, era seu por direito outorgado a seu antepassado Tomás de Peralta, secretário de estado, de Guerra e Justiça do reino de Nápoles em 1718. No entanto, nenhum de seus imediatos predecessores parece que tivesse conhecimento do título e, indubitavelmente, não houve reclamação alguma do mesmo. Era uma família de classe média de Barbastro, no noroeste da Espanha, não longe da fronteira com a França. Seu pai era sócio de um negócio têxtil na cidade: ‘Juncosa e Escrivá.’ Casado com Maria dos Dolores Albás e Blanc. Tiveram seis filhos, uma chamada Carmen, José Maria, nascido em 9 de janeiro de 190 e mais três filhas, todas chamadas Maria, e o menor, Santiago.

José Maria não era um menino forte. Quando tinha dois anos caiu gravemente doente. Sua vida se deu por perdida. Sua mãe levou-o a pequeno santuário da Virgem no Torreciudad, um lugar de peregrinação local que cobria uma estátua de Maria que datava provavelmente do século XVI. Suas orações foram ouvidas e José Maria melhorou. Depois disso, Torreciudad converteu-se em outro monumento ao fundador.

Embora o filho foi milagrosamente devolvido à saúde, desgraçadamente para a família, as três Marias morreram em um período de só três anos, entre 1910 e 1913. José Maria parece que acreditou que ele seria o próximo. Separou-se da companhia de seus amigos e caiu em uma enorme depressão, da qual somente saiu, em parte, pela crescente confiança de que Deus lhe tinha sob seu particular cuidado. Foi neste momento que sua mãe lhe explicou a história de sua cura no Torreciudad.

Possivelmente a enfermidade na família unia-se ao progressivo declive e ruína do negócio de dom José no Barbastro. Atribuiu-se a sua natural credulidade, o que alguém poderia entender como falta de perspicácia comercial. Seja qual for a razão da quebra, a família viu-se obrigada a prescindir dos criados, algo inaudito na classe média espanhola, e mudar-se a outra cidade. Em 1915 foram todos ao Logroño na mesma zona do Norte da Espanha, porém, mais perto da linha costeira. Ali dom José associou-se a uma loja de roupas pomposamente chamada ‘A Grande Cidade de Londres’. A família vivia em um pequeno apartamento e dona Dolores fazia todas as tarefas domésticas, uma boa prática, para o papel que ia desenvolver posteriormente no Opus.

Enquanto estava em Barbastro, José Maria foi educado por membros de uma ordem religiosa, os escolápios; mais tarde sustentaria que o fundador dos escolápios, São José de Calasanz (fundador das “Escolas Pias e a Ordem dos Clérigos Pobres” hoje chamados escolápios), era seu parente longínquo. No Logroño, entretanto, freqüentava um instituto estatal pelas manhãs e a um colégio dirigido por laicos, o do Santo Antonio, pelas tardes. Como seus biógrafos do Opus recordam com detalhe, suas notas eram boas e seu comportamento irrepreensível. Embora, naquele momento fosse uma surpresa, visto retrospectivamente, a decisão de estudar para o sacerdócio parecia inevitável.

Todavia, em 1918 começou seus estudos eclesiásticos no seminário de Logroño. Não foi um seminarista completo dentro do corpo estudantil; sua saúde era muito delicada para isso. Começou sua carreira como seminarista externo indo às salas de aula, porém, vivendo em casa, aonde também recebia grupos de alunos particulares. Acabou o primeiro ano de Teologia, depois mudou-se à Zaragoza como estudante interno no seminário conciliar.

A decisão de ir à Zaragoza nunca foi explicada de maneira satisfatória. Tinha ali parentes, um deles cônego da catedral, porém, não parece ter sido muito bem acolhido, ou, mesmo sendo, muito em breve afastou-se; o cônego nem sequer assistiu à primeira missa, tradicionalmente, uma das maiores celebrações familiares dentro da comunidade católica. Possivelmente, foi mais importante para ele que haveria uma Universidade na cidade, na qual começaria seus estudos de Direito junto com os de Teologia. Deste modo, adquiriria uma experiência profissional com a qual mais tarde na vida, ajudaria a família, fator que pesaria muito mais depois do falecimento de seu pai, ocorrido, repentinamente, em 27 de novembro de 1924.

Recebeu tal notícia com uma calma surpreendente, apesar das responsabilidades adicionais que despendiam sobre ele, por ser o único que ganhava um salário. ‘Meu pai se arruinou –disse mais tarde–, e quando nosso Senhor quis que eu começasse a trabalhar no Opus Dei, eu não tinha nem um recurso, nem um centavo em meu nome’. O principal legado de seu pai a seu filho mais velho (Santiago tinha cinco anos então) foi uma aparência atrativa e um marcado esmero, para não dizer elegância no vestir, apesar de seus apuros econômicos. No seminário da Zaragoza distinguia-se por sua forma de vestir . A maioria dos seminaristas, observa Vázquez, eram vulgares e incultos. Escrivá do Balaguer era a exceção. Sua roupa sempre estava limpa, seus sapatos sempre brilhantes. Aparentemente era motivo de comentário que se lavasse dos pés à cabeça cada dia.

Meses depois da morte de seu pai, foi ordenado sacerdote: em 28 de março de 1925. Dois dias depois foi nomeado ajudante em uma paróquia rural. Considerou-se sua nomeação muito precipitada, todavia, foi devido à enfermidade do pároco e pela necessidade de encarregar-se dos ofícios da Semana Santa, que acabava de começar. Entretanto, não esteve ali muito tempo. Em meados de maio estava de volta à Zaragoza, para terminar sua licenciatura em Direito.

Terminou-a em 1927, sua licenciatura foi outorgada em março daquele ano; pediu permissão ao bispo para ir a Madrid começar um doutorado, a qual foi concedida. Em junho de 1923 arcebispo da Zaragoza, o cardeal Soldevila, foi assassinado. Escrivá do Balaguer chamou a atenção pelo excelente expediente que tinha no seminário, seu comportamento bastante solitário distinguia-o dos demais estudantes. Possivelmente, também surpreendeu-lhe o poema composto pelo Escrivá do Balaguer para o diretor do seminário, intitulado ‘Obedientia tutor’. Nele elogiava a segurança proporcionada pela obediência à vontade do superior.

Seja lá qual fosse a razão, Soldevila escolheu o estudante de Logroño para lhe dar um tratamento especial. Conferiu-lhe pessoalmente a ‘tonsura’, cerimônia através da qual um laico converte-se em clérigo. Depois confiou-lhe encarregar-se do resto dos estudantes, para vigiar que cumprissem as normas, uma espécie de prefeito de disciplina. Se Soldevila tivesse vivido, reflete Vázquez da Prada, seria o protetor de Escrivá, encontrando-lhe um posto apropriado a sua sensibilidade e conhecimentos, e que fosse economicamente gratificador. A família de Escrivá estava então em Zaragoza e dependia dele.

Sem a Soldevila, Escrivá do Balaguer teve que encontrar trabalho por si mesmo. Inclusive antes de licenciar-se começou a ensinar latim e Direito canônico em um colégio privado que preparava estudantes para entrar em instituições de ensino superior, especialmente, na Academia Militar da Zaragoza. Antes de serem ordenados, os seminaristas têm que demonstrar que dispõem de meios econômicos. Houve um tempo em que alguém podia ser ordenado sacerdote ‘a cargo de seu próprio pecúlio’; em outras palavras, podia demonstrar dispor de meios independentes e, portanto, não era adepto de um bispo em particular. Mas, normalmente, os sacerdotes eram, e são, ‘incardinados’ a uma diocese e prometem obediência ao bispo, o qual se responsabiliza deles. Tecnicamente, Escrivá estava incardinado em Zaragoza, embora trabalhou muito pouco ali. Madrid foi a diocese em que trabalhou a maior parte do tempo desde 1927 até 1942, não foi incardinado a Madrid até 1942, quando se converteu automaticamente em membro do clero diocesano madrileno. Houve um breve relatório sobre o afastamento do seminário católico londrino ‘The Tablet’, em 5 de dezembro de 1987, e outro mais completo na mesma publicação, em 9 de janeiro de 1988, pág. 41. Dá-nos a sensação de que evitava o compromisso exigido à maioria dos clérigos. Em Zaragoza, sem dúvida, comprometeu-se em algum trabalho pastoral e era membro daquela diocese, mas, na prática separou-se da carreira normal de um sacerdote, devido às circunstâncias econômicas de sua família, devido às suas próprias preferências pessoais.

Não importa em que atmosfera deu-se sua requisição para deixar sua diocese e estudar em Madrid, mas, concedeu-se permissão por dois anos. De fato, não foi aprovado no tempo prescrito. Seu tema de investigação era a ordenação ao sacerdócio de mestiços em quarteirões dos séculos XVI e XVII. Nunca chegou a terminá-la. Quando finalmente, e com êxito, defendeu sua tese doutoral, era dezembro de 1939 e tratava de História, e mais concretamente, do estatuto legal do monastério nas greves. Dada a aparente relutância de Escrivá a vincular-se a uma diocese em particular, o tema de sua tese foi significativo. As madres abadessas sucessoras eram figuras poderosas que mandavam sobre seu próprio território e que respondiam só diante do Papa.

A demora em seus primeiros estudos foi devido, uma vez mais, a sua necessidade de ganhar dinheiro para manter a sua família. Alojava-se em Madrid em uma residência para sacerdotes e de novo encontrou um posto para ensinar Direito romano e Direito canônico em um colégio tutelar ‘Academia Cicuéndez’.

No final dos anos vinte exercia como capelão das Damas Apostólicas, que eram as proprietárias da casa em que se hospedava. As Damas Apostólicas do Sagrado Coração de Jesus, este é seu nome completo, recentemente, receberam aprovação formal do Vaticano por seu modo de vida, porém, já tinham desenvolvido diversas obras de caridade entre os pobres, e especialmente entre os doentes pobres de Madrid. Cuidavam dos doentes em suas próprias casas; dando-lhes mantimentos, remédios e ajuda espiritual.

Foi onde entrou Escrivá do Balaguer. Atendia doentes, levando-lhes os sacramentos e ajudando-lhes resolverem problemas pessoais. O trabalho levou-o do centro da capital espanhola até os bairros mais periféricos. Aos domingos rezava a missa na igreja anexa à residência central do Instituto religioso.

Seu trabalho com as Damas Apostólicas durou até julho de 1931. Foi durante este tempo que tomou a decisão de fundar o Opus Dei. A partir dessa data sua própria vida entrelaça-se totalmente com a organização que criou.





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