O movimento corporal da criança na educação infantil



Baixar 24,04 Kb.
Encontro05.07.2018
Tamanho24,04 Kb.



A LINGUAGEM corporal da criança na educação infantil
Leonice Matilde Richter

Francislaine Rosa Pires

Solange Raquel Richter

Universidade Federal de Uberlândia


Nesta pesquisa as crianças são compreendidas como seres que pensam, sentem, agem e se manifestam de forma muito própria; são sujeitos criativos, que indagam o mundo em que vivem, apresentam uma compreensão do mundo, são sujeitos produtores de cultura e história, ao mesmo tempo que são influenciados pela história e cultura que lhe são contemporâneas. Compreendemos que a criança apresenta-se integrada pelas dimensões afetiva, cognitiva, social e motora, como já afirmava Henri Wallon no início do século XX. E essas dimensões que constituem o sujeito se desenvolvem em interação com o meio, principalmente com outros indivíduos. É nesta perspectiva, com essa visão da criança que temos como objetivo, nesta pesquisa de mestrado ainda em desenvolvimento, compreender como o corpo, o movimento corporal da criança de cinco a seis anos idade é trabalhado em uma instituição pública de educação infantil situada no município de Uberlândia.

Diante de tal propósito buscamos uma metodologia que nos possibilitasse apreender o movimento corporal da criança sem ferir, sem banir o movimento, a dinâmica, a vida presente no espaço da instituição pesquisada. Encontramos na pesquisa qualitativa trilhas, que nos conduziram à construção de conhecimentos na interação com os sujeitos pesquisados.

A observação é, segundo Vianna (2003), praticamente, uma das mais importantes fontes de pesquisa qualitativa em educação. Observar não significa simplesmente olhar, devemos saber ver, perceber, sentir, estar em alerta.

Wallon, no seu livro “A evolução psicológica da criança” (1995) reconhece que a psicologia infantil depende quase que exclusivamente da observação, pois ela permite o conhecimento da criança contextualizada. Nessa perspectiva a observação é a maior aliada no desenvolvimento de nossa pesquisa por se tratarem de crianças e por termos como objeto de estudo o movimento corporal da criança. Como destaca Vianna (2003, p. 14) a observação é uma “técnica metodológica valiosa, especialmente para coletar dados de natureza não-verbal”.

As observações foram realizadas ao longo dos cinco meses (março a julho de 2005), três vezes por semana, das 7:00 às 11:15, as observações realizadas no período em que estivemos presentes na instituição foram registradas em um diário de campo.

Realizamos também, entrevista recorrente com as professoras da turma (professora regente, professora de educação física e a Professora Complementadora de Carga Horária) com a qual desenvolvemos a pesquisa, uma realizada no início da pesquisa logo após a seleção da turma e outra realizada no final da pesquisa. Além do registro fotográfico do movimento corporal da criança.

Entendemos que a educação infantil é um espaço de aprendizagem, mas isso não significa que nesse espaço deva se reproduzir a forma de organização tradicional de outros níveis de ensino, já tão criticadas no século passado.

Percebemos com essa pesquisa ser ainda forte, a noção de que para haver aprendizagem as crianças devam ser enquadradas em ambientes organizados com a forte disciplinarização dos corpos e a educação infantil definida, principalmente nas últimas décadas no Brasil, como espaço do cuidado e educativo, vem adquirindo muitas vezes conotação propedêutica, principalmente com as crianças de faixa etária de 5 e 6 anos, como uma forma de legitimar o seu cunho educativo. Assim,

o que a criança descobre poder realizar com seu corpo, os movimentos que gostaria de saber fazer, ou os conhecimentos que desejaria adquirir, não tem lugar na escola. Tal descoberta é substituída pelos movimentos “necessários” a uma “boa aprendizagem”, em especial da leitura e da escrita (ESTEBAM, 2001, p.25).
A educação infantil de qualidade, deve potencializar o desenvolvimento global da criança. Deve

contribuir para que as crianças vivenciem as diferentes linguagens utilizadas na sociedade, aprendendo a ler essas linguagens e a usá-las para se expressar - a linguagem corporal, a linguagem musical, a linguagem plástica, a linguagem televisiva, a linguagem cinematográfica, a linguagem fotográfica, a linguagem do vídeo, a linguagem da mímica, a linguagem teatral (GARCIA, 2001, p. 19).


Dentre as linguagens pouco trabalhadas, ou muitas vezes cerceada do espaço escolar, está a linguagem corporal, pois o movimento do corpo, geralmente é compreendido como bagunça. Segundo o RCN/EI, se evidencia na educação infantil brasileira práticas de contenção do movimento, como se este atrapalhasse a aprendizagem da criança. Parece haver a idéia de que o movimento impede a concentração e atenção. Mas não seria a proibição excessiva do movimento a fonte da dificuldade da manutenção da atenção?

É muito comum que, visando garantir uma atmosfera de ordem e de harmonia, algumas práticas educativas procurem simplesmente suprimir o movimento, impondo às crianças de diferentes idades rígidas restrições posturais. Isso se traduz, por exemplo, na imposição de longos momentos de espera - em fila ou sentados - em que a criança deve ficar quieta, sem se mover (RCN/EI, 1998, p.17)


Nesse referencial - RCN/IE - compreende-se que o movimento para a criança pequena “é muito mais do que mexer partes do corpo ou deslocar-se no espaço. A criança se expressa e se comunica por meio dos gestos e das mímicas faciais e interage utilizando fortemente o apoio do corpo” (RCN/EI, 1998, p.18).

A dimensão subjetiva do movimento deve ser acolhida no cotidiano da educação infantil permitindo e possibilitando que a criança explore os movimentos como forma de se comunicar, expressando idéias, emoções, sentimentos. Nesse sentido devemos ampliar as possibilidades expressivas do movimento nas diversas formas de interação da criança, seja em brincadeiras, danças, teatros, etc. As manifestações de gestos e movimentos vinculados a cultura que a criança convive, também deve ser realçada no espaço da educação infantil.

Embora a instituição pesquisada tenha sido projetada para ser uma instituição de educação infantil, muitas especificidades da criança pequena não foram consideradas, já que a criança pequena vive um momento de plena exploração do espaço físico, onde o movimento corporal é essencial, mas sua estrutura dificulta essa exploração, visto o limitado espaço das salas, corredores estreitos, a não existência do espaço apropriado para o recreio, entre outros elementos.

O projeto arquitetônico de alguma maneira perdeu a conexão com o corpo humano, como salienta Sennet (2003, p.15). Destacamos assim, a importância de um acompanhamento pedagógico na construção e organização do espaço físico das instituições educacionais, em especial de educação infantil, tendo em vista que

a educação infantil possui características muito particulares no que se refere à organização dos espaços: precisa de espaços amplos, bem diversificados, de fácil acesso e especializados (...). O espaço acaba tornando-se uma condição básica para poder levar adiante muitos outros aspectos-chave. (ZABALZA, 1998, p.50)
Além da questão arquitetônica, a forma como se utiliza o espaço existente nos chama a atenção. A instituição dispõe de uma considerável área livre, gramada que possibilita o movimento livre, sem, no entanto, ser utilizada satisfatoriamente. Esse local tão adorado pelas crianças é muitas vezes negado a elas a ponto de ser alvo de castigo ou premiação. As crianças acabam aprendendo que um bom comportamento é premiado com o parque e o mau comportamento sinaliza a sua proibição. Os momentos em que a atividades corporal é tomada como elemento de chantagem, não sendo considerado um tempo/especo que deve ser planejado, observado pelo educador como possibilidade de interação e desenvolvimento corporal das crianças.

Aline: Tia vai ter parque?

Profª. P: Vai Ter, mas depende de como vocês se comportarem.

Profª. P: Esse negocio do parque funciona bem. (No momento dessa fala a professora se aproximou dirigindo a fala especificamente para a pesquisadora).

Profª. P: Matheus você foi um dos que ficaram sem brincar na semana passada e vai ficar de novo. (05/04/2005)
Ao longo de nossas observações foram restritas as vezes que ocupamos o espaço livre da escola. Essa forma de utilização sinaliza, assim como a explicitação no momento das entrevistas indicam que o objetivo que direcionava o trabalho com as crianças era o da leitura e escrita, por isso as outras dimensões da criança, dentre elas a corporal, não eram exploradas.

Portanto, geralmente, a maioria das atividades trabalhadas pela professora indicavam a necessidade da imobilidade, ainda que nem sempre conseguida. Era regra era indicada em alguns episódios:

Prof.: Ganha, ganha bronca e não aprende, quem anda aqui na sala sou eu. (02/05/2005)

Esse situação é agravada ao percebermos que as crianças são mais sensíveis à comunicação do corpo e expressam suas emoções e pensamentos por esse meio, são capazes de captar a linguagem corporal do professor valorizando-a, muitas vezes, mais do que a comunicação verbal. Como destaca Lowen (1982, p.86) “as crianças estão mais cônscias da linguagem corporal do que os adultos que, após anos e anos de escolarização, aprenderam a dar mais atenção às palavras e a ignorar a expressão do corpo”. Assim, na educação infantil a valorização do movimento corporal é ainda mais necessária considerando que nesse momento do desenvolvimento do indivíduo, ele tanto lê quanto se expressa de forma mais acentuada por meio do corpo. A criança pulsa vida, busca conhecer o mundo, para isso o movimento é elemento essencial.

Reich (2001) fundamenta esta questão quando constata que todo movimento de um organismo vivo tem uma expressão compreensível, isto é, significativa, pois toda expressão corresponde a um movimento definido. Para tanto, a linguagem expressiva do organismo está além da expressão verbal. Salienta Wallon (1975b, p.75) que o “movimento, pela sua natureza, contém em potência as diferentes direções que poderá tomar a atividade psíquica”. Entre ambos há uma forte relação e não uma negação. A ampliação dos trabalhos com o movimento possibilitam à crianças a própria exploração da atividade psíquica, uma vez que não somos formados por seguimentos dissociados, somos um todo (corpo-mente) integrado.

Portanto, ao privar a criança do espaço/tempo para o movimento afetamos tanto o desenvolvimento da dimensão corporal da criança, quanto às outras dimensões humanas, inclusive a cognitiva, visto que a criança não consegue permanecer concentrada e imóveis por períodos tão extensos, o que inviabiliza o trabalho das outras atividades propostas pela professora que exige concentração.


Referência Bibliográfica
BRASIL. MEC/ SEF. Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil: conhecimento de mundo. V. I, II, III, Brasília, 1998.
ESTEBAN, Maria Teresa. Jogos de encaixe: educar ou formatar desde a pré-escola? In: GARCIA, Regina Leite (Org.). Revisitando a pré-escola. 5ª ed. São Paulo: Cortez, 2001, p.21-36.
GARCIA, Regina Leite. Discutindo a escola pública de Educação Infantil: a reorientação curricular. In: Revisitando a pré-escola. GARCIA, Regina Leite (Org.). São Paulo: Cortez, 2001.
LOWEN, Alexander. Bioenergética. NETTO, Maria Silvia Mourão (Trad.) 10ª ed. São Paulo: Summus, 1982

Reich, Wilhelm. Análise do Caráter. REGO, Ricardo Amaral do (Trad.). 3 ed. São Paulo, Martins Fontes, 2001.
VIANNA, Helena M. Pesquisa em educação: a observação. Brasília: Plano Editora, 2003.
WALLON, H. Psicologia e Educação da Infância. RABAÇA, Ana (Trad.). Lisboa: Estampa, 1975a.

______ . A Importância do Movimento Corporal no Desenvolvimento Psicológico da Criança. In: Psicologia e Educação da Infância. RABAÇA, Ana (Trad.). Lisboa: Estampa, 1975b.


______ . A evolução psicológica da criança. MOURA, Ana de; MOURA, Rui de (Trad.). Rio de Janeiro: Editorial Andes, 1995.

ZABALZA, Miguel, A. Qualidade em Educação Infantil. NEVES, Beatriz Affonso ( Trad.). Porto Alegre: ArtMed, 1998.







: anteriores
anteriores -> Formação de professores e pesquisa: metodologias de participação, colaboração e autoformação
anteriores -> MediaçÃo da aprendizagem no ensino de psicologia de educaçÃo sob a perspectiva de reuven feuerstein: uma pesquisa-açÃo no curso normal nível médio
anteriores -> A influência da família na construçÃo da noçÃo de lucro na criança trabalhdora de rua de curitiba
anteriores -> EducaçÃo científica e atividade grupal na perspectiva sócio-histórica
anteriores -> O aprender do adulto: contribuições da teoria histórico-cultural
anteriores -> As implicaçÕes das emoçÕES, dos afetos e dos sentimentos na prática pedagógica a partir da psicologia sócio-histórica
anteriores -> Referências bibliográficas
anteriores -> Da inovaçÃo técnica à inovaçÃo edificante: o ensino de Didática em questão
anteriores -> O estágio supervisionado na formaçÃo do(A) professor(A) de educaçÃo física
anteriores -> RepresentaçÕes de alfabetizaçÃo em discursos escolares: harmonia entre palavras proferidas e coisas feitas


Compartilhe com seus amigos:


©psicod.org 2017
enviar mensagem

    Página principal