O jogo de me ver é te ver jogando: o teatro e a caracterizaçÃo como instrumentos para ressignificar a imagem pessoal



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O JOGO DE ME VER É TE VER JOGANDO: O TEATRO E A CARACTERIZAÇÃO COMO INSTRUMENTOS PARA RESSIGNIFICAR A IMAGEM PESSOAL

Bruna Johann1

Bruno Prandini2

Thais Pegoraro3

Wesley dos Santos4

Carlos Roberto Mödinger5

Marli Susana Carrard Sitta6

1. Sobre os caminhos do teatro para dentro da escola

É preciso ver a escola como "espaço de existência humana plena".7

Nos últimos anos, as escolas públicas despertaram olhares mais sensíveis e atentos para a educação artística e começaram a perceber as infinitas possibilidades que o teatro pode proporcionar quando articulado com a educação de seus alunos. Assim, cultura e educação começam a serem vistas como dois alicerces que seguram a mesma base: a sociedade. Fortalecê-las é acreditar na construção de uma civilização mais horizontal, incentivando as contribuições individuais e coletivas, suas histórias e narrativas.

As escolas passam então a receber o teatro por meio de vários programas do governo: Programa Escola-Comunidade Mais Educação e Escola Aberta; Programa Mais Cultura nas Escolas; Programa Esporte e Lazer da Cidade (PELC); Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid), que assina como objeto de estudo e desenvolvimento deste artigo, e; ainda no ano de 2015 a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou, em caráter conclusivo, proposta que estabelece o teatro como uma das disciplinas obrigatórias da educação básica. Uma conquista de vários artistas que lutaram para conseguir um espaço reconhecido dentro da sala de aula.

Hoje, alunos, professores, diretores, membros da comunidade, jovens e adultos estão em comunhão com aquilo que se tem em comum: o teatro. Estimular essa prática é, além de cumprir com a atual Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), valorizar a cultura pessoal de cada indivíduo possibilitando uma maior aceitação com o meio social inserido. Em seu artigo primeiro se lê:

Art. 1º. A educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais. (LDBEN, Lei nº 9.394, 20 dez. 1996).

É imperativo pensar em novos métodos, novos caminhos de experimentações e de práticas pedagógicas que articulem processos socioculturais para a realização de uma educação capaz de transformar o ser humano, valorizando suas contribuições e impulsionando seu mundo para um futuro mais diversificado. As novas vivências artísticas com o teatro propiciam novos olhares aos alunos e desperta o pensamento crítico sobre nossa sociedade. Segundo Paulo Freire(1996), aquele que busca ensinar ensina porque indaga, contesta e questiona a si próprio e ao meio social inserido. É um ser com perguntas que busca constantemente suas respostas, que por sua vez, geram mais perguntas. Ao aproximar o teatro do ensino e aprendizagem de acordo com os pensamentos de Freire, as palavras de Jean Vilar ajudam na reflexão: “O teatro deve permanecer como um divertimento, é verdade, mas um divertimento que, para além de ser agradável, tem de ser inteligente, tem de saber encontrar a sua virtude, tem de ensinar.”(2015, p.57). Assim deve ser o perfil daquele que utiliza o teatro como forma de comunicação, um ser pensante e não programado. Autônomo em suas escolhas.

O Teatro possibilita a interação das relações com o mundo. É um poderoso meio de expressão, resultado do encontro entre pessoas e da experiência perceptiva pela qual elas passam. É um ato de desprendimento humano que pode resultar numa operação criativa, rica e surpreendente, capaz de abrir outros caminhos e visões além do que se está acostumado e estimular novos entendimentos e conexões. Eugenio Barba (1982) define o espaço de criação cênica como:

[...] o local onde se transmite, se transforma e se traduz uma nova pedagogia do teatro. É um laboratório de pesquisa interdisciplinar. É o âmbito que permite a um grupo de homens de teatro intervir no meio social que o rodeia, tanto por seu trabalho intelectual quanto através de seus espetáculos. (apud PAVIS, 2015, p.17).

Trabalhar com o teatro, assim como com diferentes culturas, em sala de aula oportuniza a identificação sociocultural de cada criança e jovem, possibilitando também a construção de personalidades com características particulares. "Uma das tarefas mais importantes da prática educativo-crítica é propiciar as condições em que os educandos em relação uns com os outros e todos com o professor ou a professora ensaiam a experiência profunda de assumir-se." (FREIRE, 1996, p.23.). E o teatro adotado para a realização deste projeto busca a observação entre os alunos, incentiva-os a olhar um para o outro e buscar respostas em um jogo de interação e divertimento. Um teatro social, político e sensível.

O projeto O Jogo de Me Ver é Te Ver Jogando nasce das vivências coletivas de cinco discentes bolsistas do Pibid/Teatro da Uergs (Universidade Estadual do Rio Grande do Sul), construído através de observações realizadas no período de abril a julho de 2015, no Colégio Estadual Ivo Bühler Ciep (Centro Integrado de Educação Pública), situado no bairro Senai, em Montenegro. Os professores Carlos Roberto Mödinger e Marli Susana Carrard Sitta foram orientadores na construção e execução do projeto. No segundo momento, após os meses de observações, o grupo de estudantes resolve investir na elaboração da Oficina O Teatro e a Caracterização como Instrumentos para Ressignificar a Imagem Pessoal, que possui como base referencial os jogos dramáticos do Teatro do Oprimido, de Augusto Boal, das ideias do encenador e pesquisador Jerzy Grotowski, dos jogos de improviso de Viola Spolin e do diretor francês Peter Brook, que apesar de não ter elaborado teorias, suas ideias vem ao encontro do projeto.

A proposta das oficinas é utilizar o teatro e a caracterização dialeticamente para ressignificar a imagem pessoal de cada aluno, transitando da construção estética da personagem para a descoberta pessoal de sua própria imagem. Os encontros ocorreram uma vez por semana, com uma hora de duração e partiram de diferentes estímulos, propondo improvisos que possibilitassem reflexões e discussões sociais. Foram duas turmas divididas por faixa etária e orientadas pelos cinco pibidiados. Os jogos teatrais serviram como base na busca do autoconhecimento, investigando a energia individual e coletiva, sensorial e tátil; possibilitando aos alunos o conhecimento do seu papel na escola e na sociedade. Patrice Pavis conceitua a criação coletiva: "Esse movimento está vinculado à redescoberta do aspecto ritual e coletivo da atividade teatral [...]. Politicamente, a promoção do grupo caminha lado a lado com a reivindicação de uma arte criada por e para as massas, com uma democracia direta e com um modo de produção e autogestão do grupo." (2015, p.79).

Da caracterização da personagem, com seus conceitos estéticos e efeitos, ao reconhecimento pessoal. De uma forma poética e sensível, proporciona ao aluno uma maior sensibilidade da visão de si e em relação ao outro, isto é, a partir do jogo, trabalha a observação do eu, do meu, do teu e do nosso, partindo do pressuposto que, conhecendo e observando o outro, eu me conheço, me modifico e me reconheço. Isto ocorre porque os alunos trazem suas vivências para a sala de aula e alguns dos problemas pelos quais eles passam são reconhecidos entre si, acontecendo assim um jogo de recognição, na qual todos se aproximam e trocam experiências.

O teatro, este gigante formador de ideias, o qual transforma as pessoas em seres mais questionadores e inquietos, quando posto dentro da escola, se torna o lugar que busca trabalhar com questões atuais da sociedade. Através do Teatro do Oprimido, de Augusto Boal (2005), foi possível dar voz às crianças fazendo-as se impor frente às questões que as incomodam, deixando claro o que esperam de suas famílias, de sua escola, de seus professores e de seus colegas. Que tenham em mente as possibilidades que os rodeiam, que possam sonhar e saber que estes sonhos podem virar realidade, independente de sua condição. "Aquele que transforma as palavras em versos transforma-se em poeta; aquele que transforma o barro em estátua transforma-se em escultor; ao transformar as relações sociais e humanas apresentadas em uma cena de teatro, transforma-se em cidadão." (Boal, 2005, p.57).

Durante as oficinas, os exercícios ocorreram como intervenções facilitadoras, por meio do conhecimento dos pibidianos aliado aos saberes dos alunos, aproximando muito do modelo epistemológico de Piaget que, segundo Marques (2008), fala do construtivismo, do conhecimento que é construído pelo sujeito relacionando o que ele já possui com o que é oferecido. Piaget destaca o trabalho em grupo e o quanto isso é importante para o sujeito. Conhecer os outros ajuda a se conhecer, a se colocar no lugar do colega, compreender a sua dificuldade e os diferentes pontos de vista. "O professor ajuda o aluno a construir o conhecimento auxiliando o processo de ação, fazendo interrogações, oferecendo oportunidades para pensar, auxiliando a estabelecer relações entre as coisas novas que se oferecem e os conhecimentos que já possui." (MARQUES, 2008, p. 11).

É necessário olhar para estes alunos, aproveitar toda esta bagagem de conhecimento que eles trazem. "O professor precisa pensar o aluno a partir do aluno, e não a partir dele próprio, para ajudar a construir o adulto capaz de conquistar, por si só, a beleza e a verdade se seu tempo." (MARQUES, 2005, p. 254). É importante também que o professor ajude o aluno a chegar a uma assunção, mostrar caminhos e condições, sempre reais e verdadeiras, jamais omitindo as dificuldades e barreiras impostas na sociedade elitista. Dessa forma, o contato com o universo teatral despertará naturalmente o interesse fomentando sonhos fantásticos. O aluno vê na figura do artista referências e bases que, em muitas tomadas de decisões, servem como coragem e estímulo para assumirem-se. Pois segundo Freire (1996), ações e gestos simples e insignificantes aos olhos do professor, podem se transformar em fagulhas e impulsos para que os educandos percebam suas potencialidades e suas peculiaridades.

Para que as personalidades se revelem naturalmente é necessário que o educador ofereça atividades num clima de ampla liberdade e que respeite as ideias e manifestações do aluno, pois a primeira e talvez única lei na educação pela arte é a liberdade. (REVERBEL, 2009, p.22).




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