O jogo das memórias



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“O JOGO DAS MEMÓRIAS”: ELETRIFICAÇÃO URBANA DO CARIRI CEARENSE E A CONSTRUÇÃO DE MITOLOGIAS POLÍTICAS (1949-1972)

Assis Daniel Gomes1


RESUMO: Neste artigo almejamos analisar a construção e (re) apropriação de mitologias políticas usadas em prol da afirmação do projeto de eletrificação urbana do Cariri cearense, como também o surgimento de outras a partir dos conflitos de projetos políticos em prol desse insumo. Pensando, outrossim, que as balizas utilizadas para afirmar e corroborar esse discurso foram: o jogo das memórias de certo passado da região, a ênfase de sua singularidade regional e um certo suposto lugar de destaque econômico, histórico e cultural em relação ao Ceará. Para isso, buscamos dar ênfase ao ano de 1956, como época de maior tensão das forças políticas cearenses, que de um lado do legislativo estavam os defensores do Plano Sistema Cariri e do outro do Projeto de Eletrificação Total do Ceará. Nesse intuito, procedemos à análise de jornais da época, como Unitário, as atas da Câmara Municipal de Juazeiro do Norte entre outras documentações.


PALAVRAS-CHAVE: memórias, eletrificação, mitologias políticas.
ABSTRACT: In this article we aim to analyze the construction and (re) appropriation of political mythologies used in support of the assertion of urban electrification project Cariri Ceará, as well as the emergence of other conflicts from the political projects in favor of that input. Considering further that the beacons used to affirm and substantiate this speech were: the right set of memories past of the region, the emphasis of its regional uniqueness and its supposed place of economic, historical and cultural highlight in relation to Ceará. For this, we seek to emphasize the year 1956 as the time of greatest tension of Ceará political forces, which on one side were supporters of the legislative Cariri System Plan and other Project Total Electrification of Ceará. To that end, we analyzed the newspapers of the time as Unit, the minutes of the City Council of Juazeiro do Norte among other documentation.
KEY-WORDS: Memories, electrification, political mythologies

No século XIX a história política fora colocada como um campo primordial, por exemplo, campo de construção da profissionalização do ofício dos historiadores, contudo nela elegeram-se como personagens os reis, aristocratas e pessoas que representassem vultos e grandezas. Os acontecimentos eram destacados como importantes e fundamentais para o saber histórico, pautado por uma cronologia e pela ênfase em uma racionalidade eventual.

Nesse sentido, os historiadores das ideias políticas procuraram verificar os grandes pensadores que contribuíram para a consolidação das formas de governo, dos modelos defendidos ou as ideias representantes de um pensamento hetoroificante para sua sociedade. A história política se impôs, deixando menos espaço e visibilidade para as outras formas de se fazer e pensar a história, porém elas existiam no XIX.

Nesse modelo de história destacara-se, por exemplo, Leopoldo Von Ranke (1795-1886)2, defensor de uma determinada história científica e fora também influenciado pelo modelo teológico e filológico, que detinha grande impacto na produção da Escola Histórica Alemã. É interessante salientar que esse historiador acreditava que a história se fazia pela narração de fatos preso a uma documentação primaria, mas também na intuição do historiador, em seu engenho humano. Dessa forma percebemos os traços de uma influência de Vico nesse historiador que rejeitou a forma de se fazer o romance histórico de Walter Scolt e dos paradigmas e formas de pensar a filosofia da história de Hegel. Defendeu, então, um procedimento que permitisse a defesa de uma certa veracidade dos fatos (crítica a Scolt) e desligada das pretensões de compreender uma história universal hegeliana, enfatizando, assim, as singularidades da disciplina.

Destacamos, outrossim, que a sua contribuição não fora apenas na metodologia chamada aqui de empiria da história, mas também teórica. Por exemplo, quando propõe uma ideia de história e uma imaginação histórica. Conforme Bentivoglio, “lamentavelmente a historiografia alemã durante o século XIX” ser “reduzida a uma imagem distanciada e reduzida a uma imagem distorcida e caricata de um historiador só: Fraz Leopoldo Von Rank. Como se toda a produção historiográfica germânica adotasse a escrita rankeana da história” (2013, p.21).

No início do século XX, especialmente em fins da década de 1920 na França se construiu uma escola que buscou responder aos questionamentos feitos pelos pesquisadores de fora do campo, principalmente os de vertente durkheimiana. A escola dos Annales (1929) ao institucionalizar-se procurou defender de todas as maneiras possíveis a sua concepção de história-problema e total. Como também, sua rejeição de uma história política e acontecimental, procurando vê-la em uma duração que chegara ao ápice com Fernando Braudel ao propor o estudo da longa duração em relação com a media e curta (La méditerranée et Le Monde Mediterranéen a l’époque de Philippe II). Essa escola deu destaque a uma história econômica e social, mas também na chamada fase dos fundadores um nome aparecia nessa revista: mentalidades. Os estudos das mentalidades em sua relação com a antropologia, a psicologia e a histórica comparada, um trabalho marco nesse período, que utilizou tal abordagem, fora o de Marc Bloch, Os reis taumaturgos.

Com as reviravoltas que ocorreram com pós-Segunda Guerra, crises nos países chamados de primeiro mundo que foram afetados negativamente com as consequências devastadoras desse conflito, os historiadores novamente foram questionados pelo presente e procuram repensar as suas abordagens metodológicas e teóricas. Nos anos efervescentes da Guerra Fria a discussão político-econômica novamente estava em pauta, às mudanças rápidas provocadas pela expansão do consumo de objetos ampliaram a diminuição das fronteiras entre os países e continentes. O político começava a ser pensado não com as mesmas balizas do XIX, mas procurando se aproximar de uma discussão da história das mentalidades, social e econômico.

Girardet nos anos de 1970-80 estava lutando para redefinir esse campo da história política, de pensá-la através de um diálogo com as disciplinas de antropologia e psicologia. De propor (re) pensar os mitos e mitologias políticas, que no XIX não eram objeto de pesquisa, que no início do XX também não. Ao mesmo tempo das propostas lançadas pela série Faire de l’histoire (1974). Quais, então, as relações entre os mitos políticos e a memórias caririense para corroborar a vinda da eletricidade produzida em Paulo Afonso a partir de fins de 1940?


UMA PROPOSTA
Girardet em Mitos e Mitologias Políticas abordou inicialmente as desconfianças dos historiadores em tratar esse tema, os embates internos da disciplina, que queriam relegar o seu lado passional, queriam apenas enquadrar-se nas pesquisas referentes ao pensamento racional. Que, por sua vez, poderia levar ao mesmo problema do XIX, serem feitas as histórias das vidas de pessoas que tiveram em suas épocas o poder da escrita e deixaram registradas as suas contribuições em torno dos paradigmas políticos, das formas de governar e de agir. Dessa forma a micropolítica do cotidiano, das relações comuns entre as pessoas e outro olhar sobre a escrita desses pensadores, seriam negadas para a (re) afirmação de suas ideias.

Trabalhar com essas mitologias era recorrer a pensar um não real, era galgar por vazios e, ainda carregados pelas influências do iluminismo, pela ignorância dos que acreditavam e colocavam-na como norte em sua vida/análise. Contudo, ela, por sua vez, atingia o número considerável das pessoas na sociedade, traduzia-se em uma linguagem simples, apropriada e sentida de diversas maneiras. Como também essa própria elite se tornou uma construtora e divulgadora das demais classes de imagens mitológicas. Essa fluidez, essa posição escorregadia do mito e das mitologias causava e causa método ao historiador, organizado por métodos de análise. Trabalhar nessa área é ter a maleabilidade do desfazer-se, de pensar outras possibilidades.

Em suas primeiras palavras também mencionou as colocações daqueles que o criticaram, mas não buscaram ousar, colocar a prova e formular conceitos para poderem fazer esse tipo de história. Apesar disso, (re)afirmou que seu trabalho não estava fora do campo da história das ideias políticas, não deixava de dialogar com os autores que dela fazem parte e cuja influencia reconhece. Mas procurou lançar outras questões, buscou outros caminhos, por exemplo, para ele havia uma presença do mito político no Marxismo, caso não o existisse, ele não teria força de mobilização. Ou seja, “situando-se deliberadamente fora do campo tradicional atribuído às curiosidades e as pesquisas da “história das ideias”, foi então como uma tentativa de exploração de uma certa forma do imaginário- no caso, o imaginário político- que esta obra foi concebida e deve der compreendida” (1987, p.10).

Conforme esse autor, Mito está em uma correlação de explicação, dinamicidade e mobilização. Enquanto profético evoca levantes, desestrutura o dado e a ordem. Por isso, para esse historiador deve-se levar em consideração a singularidade de uma realidade psicológica, verificando também seus pontos comuns. Essa dinâmica do mito é construída por imagens que se encadeiam, desencadeiam formando outros quadros, Girardet chama isso de “jogo complexo de associações visuais”, não sendo possível lançarmos definições fechadas por causa de sua fluidez e imprecisão, mas apenas conceitos abertos que serão diluídos e transformados ao longo de estudos particulares e específicos. Os mitos políticos como os mitos religiosos são polifônicos, possuídores de múltiplas ressonâncias e significações, mas também ambivalentes.

Procurando então realizar um diálogo entre a singularidade e a totalidade, a fluidez mítica e a necessidade de dá-la corpo racional, através de uma narrativa histórica e de um campo disciplinar, responde desta maneira aos seus acusadores:
Reconhecer ao imaginário seu lugar não significa de um modo algum abandonar-lhe a totalidade do campo de análise. A focalização da atenção sobre os fenômenos de ordem mítica apresenta, e no seu próprio movimento, uma virtualidade de arrebatamento redutor que seria condenável não assinalar. A constatação tem valor de advertência (1987, p.23).
Uma característica importante é que o mito, para ele, também constrói códigos de veracidade e imutabilidade que parte da sensibilidade, das paixões dos símbolos atreladas aos sonhos, desejos, esperanças e frustrações. Dessa forma, o acontecimento não tem sentido em si mesmo, o seu deciframento deve ser correlacional, a sua sintaxe associativo-singular. Procurando, portanto, o fio condutor por onde se deve iniciar a caminhada da investigação, ou seja, reconhecer a existência de uma lógica do imaginário enquanto apoio fundamental a inteligência crítica e o desejo de tentar compreendê-lo objetivamente. Contudo essa lógica não é fechada, mas possuidora de vários fios como uma teia de aranha preparada para pegar a presa, sabermos, igualmente, qual o fio que iniciou a construção desse complexo emaranhado, é o desafio, não é uma proposta de buscar a origem, mas torná-lo inteligível.

Partindo da história da França procurou analisar quatro construções mitológicas a partir destes modelos-tipos (influencia weberiana): a conspiração (o complô está presente no processo revolucionário, para isso analisou “três narrativas, três organização ocultas, três complôs: o complô judeu, o complô jesuítico e o complô maçônico” (1987, p.32)), o salvador (narrativas três períodos: do apelo, o poder e a glória, o martírio, de dois tempos: presença e lembrança), a idade de ouro (“imagem de um passado tornado lenda”) e a unidade (as linhas de força de uma construção de uma mitológica da unidade e compreender suas redes de “representações oníricas” (1987, p.146)).


1956
Se o mito não pode deixar de conservar a marca do personagem em torno do qual ele se constrói, se, engrandecendo-os, tende a assegurar através do tempo a perenidade dos traços específicos que são os de sua fisionomia, não pode deixar, por outro lado, de depender ele próprio, em sua forma como em seu conteúdo, das circunstancias, historicamente delimitadas, nas quais é elaborado. Todo processo de heroificação implica, em outras palavras, uma certa adequação entre a personalidade do salvador virtual e as necessidades de uma sociedade em um dado momento de sua história. O mito tende, assim, a definir-se em relação à função maior que se acha episodicamente atribuída ao herói, como uma resposta a uma certa forma de expectativa, a um certo tipo de exigência. A imagem do Salvador varia conforme ele é chamado a enfrentar um perigo externo, a conjurar uma crise econômica ou a prevenir os riscos de uma guerra civil. (1987, p.82).
No segundo governo do presidente Getúlio Vargas (1951-1954), o país vivenciava um diferenciado cenário político em relação ao Estado Novo (1930-1945). Esse grupo dos nacionalistas tinha força na política brasileira e o momento em que se situava era de uma conjuntura internacional de tensões diplomáticas e de conflitos armados no estopim da Segunda Guerra Mundial3. Nos anos que Vargas voltara ao poder pela segunda vez fora o momento em que o Brasil presenciara e experimentara uma aceleração técnica, econômica e cultural. Isso fora promovida no cenário internacional pelo fim da Segunda Guerra (1945) e o início da Guerra Fria, que, por sua vez, dividiu em dois polos o mundo: de um lado os capitalistas e do outro os socialistas. Na batalha entre esses dois grupos, em seu confronto indireto, por meio da corrida armamentista e tecnológica, os investimentos foram feitos em pesquisas de ponta para a produção de armas e tecnologias avançadas4 à época.

O Brasil pós-1945 estava galgando política e economicamente os ideais de uma República Democrática de cunho liberal e algumas ações de abertura da economia aos investimentos estrangeiros foram feitas. Esta tolerância e assimilação do mercado nacional ao capital estrangeiro estavam longe dos propósitos radicais defendidos pelo grupo dos nacionalistas, nem tampouco uma possível ação intervencionista do estado no controle dessas empresas e suas atuações no território brasileiro. Vargas se deparou, desse modo, em seu segundo governo com grupos políticos e empresariais defensores da diminuição das atitudes protecionistas do estado na economia brasileira. Para Barreto (2010), mesmo assim ele conseguira mover a construção de projetos nacionalistas. O primeiro empolgara a população e a imprensa, incentivando a sua participação ativa nas ruas em prol de defender a campanha o petróleo é nosso, que, por sua vez, incorporava o projeto de construção da Petrobrás (1953). Contudo, sua ideia de edificar uma empresa nacional responsável pela produção de energia elétrica, a Eletrobrás, não fora bem recebida pelas empresas estrangeiras detentoras da concessão de uso, produção e venda desse insumo no país. Sendo, então, esse projeto contestado e embargado no legislativo durante anos.

Criar a Eletrobrás para Vargas era resolver os problemas que se faziam urgentes ao país atuar no campo da energia elétrica através da intervenção e tutela do estado da produção e expansão da eletricidade. Para Leite (1996), o presidente já vinha pensando sobre a construção desse empreendimento desde a chegada ao seu gabinete, no dia 4 de abril de 1944, do projeto de criação de uma hidrelétrica para atender a região do Nordeste.

Nesse novo cenário de indecisões e novas propostas por parte da bancada que defendia a eletrificação do Estado, os caririenses foram inquietados com essa proposta de eletrificação total do Ceará e a especulação de um possível plano de abandono do Plano Sistema Cariri, o ar de um complô envolveu a elite do Vale caririense, uma conspiração contra os caririenses e seus desejos de modernização. No ano de 1956, em meio a esse projeto do deputado Távora e as especulações sobre a permanência ou não do Sistema Cariri, os caririenses (re) organizaram o comitê pró-eletrificação e industrialização do Cariri e (re) compuseram seu quadro de representantes. Para Leite, ele era formado pelo,


Presidente, Dr. Hildegardo Belém de Figueiredo; 1º vice, Dr. Décio Teles Cartaxo; 2º vice Ernani Brígido Silva; 1º Secretário, Dr. Geraldo Menezes Barbosa; 2º Secretário, Zilberto Fernandes Telles; 1º tesoureiro, Odílio Figueiredo; 2º tesoureiro, Elony Sampaio; comissão de propaganda: Wilson Machado (Rádio Araripe); Coelho Alves (Rádio Iracema); J.Lindemberg de Aquino (Rádio Araripe); Espedito Cornélio (Rádio Iracema); Dr. Antonio Fernandes Telles (associação comercial do Crato); Edmundo Morais (associação comercial de Juazeiro do Norte). Comissão de defesa: Prefeitos de Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha, Dr. Derval Peixoto, Dr. Geraldo Menezes Barbosa e Sr. Neroly Filgueira. (1996, p.217).
Conforme Leite (1996), o plano de eletrificação total do Ceará poderia resultar, para os caririenses unidos nesse comitê, duas consequências: o retardamento da chegada da energia elétrica ao Cariri ou um possível cancelamento dessa obra por falta de verbas, caso contemplasse todo o Estado. Pois, os discursos dos poderes públicos alegavam que se tinha conseguido recursos para a construção das linhas elétricas do Sistema Cariri, orçado em torno de 120 milhões de cruzeiros, e que para realizar o projeto de Távora era necessário o recurso financeiro de 610 milhões de cruzeiros.

As forças políticas da região do Cariri receberam essa notícia com pesar e procuraram de todas as maneiras, via Comitê, fortalecer o movimento em prol da eletrificação do sul cearense. Nesse embate político que tomou proporções nacionais, o deputado estadual Wilson Roriz (WR) fora um dos defensores da região na Assembleia Legislativa, procurando junto com Colombo de Sousa forjar um sentimento de unidade para o Cariri, e WR procurou construir a sua imagem de herói da eletrificação do sul do Ceará. Segundo Leite, esse deputado em entrevista ao jornal Unitário em 24 de novembro de 1957 dissera o seguinte: “se Fortaleza tiver, em 1960, energia de Paulo Afonso, terei o máximo prazer em me sentar numa cadeira elétrica em plena Praça do Ferreira, para receber toda a carga que ela jogar no Ceará. E quero que o Virgílio vá apertar o botão” (1996, p.218).

Virgílio Távora, então, passou a ser olhado como inimigo do Cariri ao defender esse projeto, que, para o comitê, feria e prejudicava o crescimento econômico e a industrialização do sul cearense. Conforme Girardet, o fantasma da conspiração se encarna no estrangeiro. Fora, portanto, o medo do desconhecido e da escuridão desse grupo, que maquinou o boicote do Sistema Cariri, que levou o comitê a especular até a hipótese de uma guerra entre o Cariri e a região metropolitana de Fortaleza, outro mito é invocado da história da região: a Guerra de 1914. A Câmara Municipal de Juazeiro do Norte no dia 20 de setembro de 1956 discutiu na plenária uma nota divulgada pelo Lins Club do Crato5 que colocara Virgílio Távora, como perseguidor da região e seu projeto como empecilho ao desenvolvimento econômico da região do Cariri.

Os vereadores juazeirenses, nesse mesmo dia, solicitaram, com urgência, o envio para todas as câmaras municipais do sul do estado de uma carta de convocação para se congregarem em prol da luta e reivindicação em favor da eletrificação do Cariri aos órgãos competentes. Essa união tencionada por essa câmara era justificada pela luta contra um inimigo comum (Távora), em favor do bem dos caririenses e com a finalidade de resguardar a participação da região no projeto de expansão da CHESF. Ressaltou também o vereador José Wilson destacando que o Lins Club de Juazeiro já deliberara algumas ações e negociações com as autoridades federais sobre esse assunto (ATAS DA CÂMARA MUNICIPAL DE JUAZEIRO DO NORTE (ACMJN), caixa 297, 20 de setembro de 1956, p.08b).

O comitê pró-eletrificação e industrialização se (re) organizara. Seu presidente o Dr. Hildegardo Belém Figueiredo pedia a autorização da Câmara Municipal de Juazeiro para representar o município, pois estava se preparando para ir ao Rio de Janeiro a fim de falar pessoalmente com o presidente da República e defender o plano de eletrificação do Cariri. Sua solicitação fora bem apreciada pelos vereadores, mas também o prefeito solicitou que juntamente com ele, nessa função de mediação, fosse Dr. Antonio Conserva Feitosa6. Esse político não aceitou o convite, sendo, portanto, liberada essa autorização para o presidente do comitê. (ACMJN, caixa 297, 25 de setembro de 1956, p.13b).

O Comitê (re) planejou um itinerário de reuniões e sessões, sendo retomadas efetivamente em 30 de dezembro de 1956. No dia 29 de setembro do mesmo ano chegara à Câmara um ofício de Belém Figueiredo convidando os vereadores para essa plenária que ocorrera no domingo às 09h30min no Grêmio Monsenhor Joviniano Barreto. (ACMJN, caixa 297, 29 de setembro de 1956, p.17a). A tensão provocada pela possível perda desse benefício deixara as discussões da Câmara de Juazeiro com um teor de convocação e de arregimentação de soldados em prol da eletrificação e industrialização da região. Para Silva Filho, essa “atmosfera atravessada por rápidas mudanças na economia, na cultura e na demografia” fora importante para que a questão energética assumisse uma “exponencial relevância- que ajuda a entender por que o referido projeto de um sistema elétrico exclusivo para o Cariri conseguiu promover tamanho mal-estar na seara política estadual”. (2008, p.57).

Nesse momento, as diferenças intrarregionais foram colocadas em segundo plano, os poderes públicos de Juazeiro, Crato e Barbalha passaram a si visitar, construíram espaços de discussão e projetaram ações em prol da eletrificação e industrialização do Cariri. Em visitação dos representantes da Câmara de Crato e Barbalha aos vereadores juazeirenses reforçaram a importância da união dessas cidades em prol de defender o plano de eletrificação do Cariri, cuja abrangência era de 31 municípios. Nesse dia se propôs e deliberou a organização de mesas redondas a fim de levar essa discussão as cidades (ACMJN, caixa 297, 20 de outubro de 1956, p.29a).

Em 14 de outubro do mesmo ano se fizera uma mesa redonda em torno da eletrificação do Cariri, tendo como pauta a preparação da região para receber essa energia elétrica e as especulações das possíveis lutas políticas pleiteadas a fim de conseguir esse objetivo. Segundo Dr. Mozart Cardozo de Alencar7, nesse encontro, houve uma ênfase político-partidária. Por isso, solicitava aos presentes que os ânimos fossem concentrados unicamente para um objetivo, a saber, a eletrificação do Cariri. Dr Francisco Augusto Tavares propôs construir novamente uma mesa de debates sobre o assunto, contudo dessa vez formada por técnicos sobre a temática. (ACMJN, caixa 297, 17 de outubro de 1956, p.25b).

A ameaça do grupo político de Virgílio Távora, para a Câmara Municipal de Juazeiro, era reforçada a cada sessão. Nesse ritual do tornar presente e atual as noticiais em torno do movimento de eletrificação do Cariri, liam manchetes de jornais da Capital e traziam objetos para causar comoção aos presentes. Tal ritual político de sensibilização e reforçamento desse ideal coletivo era motivado pelo senso de pertença ao território caririense. Para isso, reforçava-se a necessidade da proteção do sul do Ceará contra as ameaças da Capital do Estado, cujo objetivo, para os políticos do sul do estado, era prejudicar a modernização e industrialização do Cariri. Por exemplo, em 1 de outubro de 1956 o vereador Dr. Francisco Augusto Tavares, com dois volumes em suas mãos, mostrando aos presentes dizia que neles se defendiam o encerramento dos planos de eletrificação do Cariri. Dessa forma, para ele, “o Cariri está ameaçado passar mais 10 ou 20 anos às escuras, apelou ao povo do município e toda zona sul do estado, para intensificar seus esforços e trabalhar em prol da eletrificação do Cariri”. (ACMJN, caixa 297, 1 de outubro de 1956, p.19a).

Solicitava-se na Câmara Municipal de Juazeiro do Norte a edificação de um pelotão de defesa desse projeto cujos lideres deveriam ser formados pelos poderes públicos das cidades que compunham a região. Como também deliberaram o envio de telegramas, argumentando os pontos favoráveis desse plano e sua importância, ao General Teixeira Lott8, chefe da casa militar, e ao Nelson Melo9, presidente da Companhia Hidroelétrica de Paulo Afonso. Deixava discriminado, nessa documentação, que a proposta de Virgilio Távora era “um atentado a economia do Ceará” e, para o vereador Augusto Tavares, fazia-se necessário à formação e fundação de um grupo compacto e não partidário para lutar pelo plano de eletrificação caririense, ou seja, o fortalecimento do almejado Sistema Cariri. Alegando, assim, a necessidade da região desse benefício energético e a impossibilidade de esperá-lo por mais 5 ou 6 anos. Esperavam, portanto, que a chegada dessa energia elétrica promoveria um avanço no processo de industrialização e modernização regional. (ACMJN, caixa 297, 17 de outubro de 1956, p.25b). Nesse intento, a câmara enviou o seguinte telegrama aos deputados federais do Ceará e estaduais:


A Câmara Municipal de Juazeiro interprete do pensamento do povo deste município protesta energicamente o plano que visa modificar o sistema de eletrificação do Cariri desposado Vossa Excelência. Apelamos que reconsiderem essa atitude pt. Essas propostas visam protestar a vinda da energia de Paulo Afonso ao Cariri, são contrários aos justos anseios dessa populosa região. Consideramos extemporânea atitude e vosmecês gesto deselegante, anti-político, anti-econômico, lesivo aos interesses do próprio Ceará ( ACMJN, caixa 297, 17 de outubro de 1956, p.25b).
A respeito da proposta de procurar conhecer os procedimentos e burocracia técnica dos engenheiros que faziam a análise do Sistema Cariri e da instalação das redes de Paulo Afonso no Cariri, a Câmara Municipal sugeriu ao prefeito de Juazeiro do Norte nomear uma comissão composta pelos membros do Comitê pró-eletrificação do Cariri para conversar e entender-se com os engenheiros da CHESF. Tencionavam também verificar quais os possíveis empecilhos encontrados pelos engenheiros em relação à validação do plano financeiro da instalação das redes da CHESF na região. Na euforia das sessões da Câmara, motivadas pelo não conhecimento das causas que estavam impossibilitando a demora do resultado da analise dos engenheiros, o vereador Francisco Augusto Tavares, em gestos simbólicos, pediu a palavra e com o Jornal O Povo, em mãos, leu um editorial que afirmava que o povo do Cariri estava de acordo com o projeto de Virgílio Távora. Essa fala do vereador provocou um mal estar entre seus pares, levando, assim, o vereador Dr. Mozart de Alencar solicitar a casa um protesto oficial contra “as mentiras constadas no editorial”. (ACMJN, caixa 297, 18 de outubro de 1956, p.26b).

Os conflitos políticos de defesa do Sistema Cariri e do projeto de eletrificação total do Ceará eram tensos, estando à frente dessa disputa em favor da região caririense os deputados José Colombo de Sousa10 e Wilson Roriz. Para eles, segundo Silva Filho (2008), fazia-se primordial ao Estado à eletrificação do sul cearense, tendo em vista o incremento da infraestrutura e do desenvolvimento econômico dessa região, como também a edificação de uma base competitiva em relação as suas fronteiras territoriais. Esse serviço, portanto, era essencial enquanto infraestrutura necessária à instalação e manutenção produtiva de empresas na região. Levando em consideração, que elas eram possuidoras de uma maquinaria consumidora de uma energia elétrica ininterrupta e a necessidade de sua utilização na maquinaria para o impulsionamento da produção fabril.

Os debates da Assembleia Legislativa ressoavam nas Câmaras Municipais do Cariri, por exemplo, em sessão da Câmara Municipal de Juazeiro do Norte se estimulara e se fizera um voto de pesar pelas ofensas e perseguições sofridas pelos defensores do Cariri naquela Casa do Povo. Iniciaram, assim, o forjamento da imagem dos soldados e mártires que estavam se sacrificando pelo bem da eletrificação caririense. O rito político exprimido por palavras procurava associar e localizar os personagens e a região em um cenário de tensões políticas e econômicas, como também utilizando de dispositivos mitológicos em prol de corroborar a defesa da eletrificação do Cariri.

Esse, por sua vez, era envolvido pelas penumbras da dicotomia bem e mal, defensores e opressores, os que queriam a modernização e industrialização do Cariri e os que procuraram retroceder as conquistas dessa região. Por exemplo, em sessão do dia 19 de outubro de 1956, os poderes públicos juazeirense teceu uma homenagem ao deputado Wilson Roriz, que corajosamente defendera o plano de eletrificação do Cariri e fora criticado na Assembleia Legislativa (ACMJN, caixa 297, 19 de outubro de 1956, p.28a). Para, além disso, ele fora alvejado na assembleia, esse acontecimento fora basilar para a sua construção como herói e da utilização disso por seu partido PSD: o homem que congregou os Caririenses! Será?(veja a dissertação). Ao não acontecer à eletrificação em 1956, WR defendia a “emancipação do Cariri”, pois os fortalezenses não permitiria o progresso do sul do Ceará, por isso a sua imagem estava sendo associado às ações da “macumba”. Segundo colunista do jornal Unitário, oposicionista ao projeto do Cariri e a favor ao grupo que lutavam para a não eletrificação e emancipação da região do sul do Ceará,


A ideia de criação de um Estado do Cariri, proposta, na Assembleia Legislativa, pelo deputado Wilson Roriz, não pode ser levada em consideração, pois se trata de algo irritantemente contrario aos interesses do Ceará [...]

Todos sabem que o deputado Wilson Roriz é caririense de vocação e tradição, tudo fazendo, nas campanhas em que está presente em prol da região a que pertence, uma das mais belas e ricas do Ceará e de todo o nordeste, com legendas inúmeras de bravura, de heroísmo e de trabalho construtor [...]

Partir disso, porém, para querer separar o Cariri é algo insensato e injusto, que não pode nem deve merecer o apoio de quantos desejem realmente o progresso e o desenvolvimento da terra cearense. (ano LII, n.12.270, 1956, p.07).
Destacamos, contudo que esse deputado estava em um embate político com Virgílio que era um dos principais nomes para assumir o governo do estado do Ceará. Em 1957, esse mesmo deputado, em entrevista ao Jornal Unitário, disse de forma extrema que se Fortaleza conseguisse primeiro a energia de Paulo Afonso iria pegar uma cadeira elétrica, instalá-la na Praça do Ferreira e solicitar ao deputado Távora sua ajuda para apertar o botão de ligamento da máquina. Essas palavras ressoavam e serviam como discurso marcante para o forjamento dos mártires de uma causa. Esse deputado não precisou cumprir essa promessa divulgada pela imprensa da Capital do estado, pois o Sistema Cariri fora aprovado pelos seguintes engenheiros da CHESF: Antonio José Alves de Souza e Octávio Marcondes Ferras. Mas o plano original de 132 KV fora rejeitado e aceita a proposta de Távora da potência de 210 KV. Dessa forma, também o projeto de eletrificação total do Ceará fora contemplado.

Em 1959 acontecera a Festa do Poste, momento esse em que o Cariri festejava a inauguração do primeiro poste fincado em seu território para a instalação das redes de energia elétrica. Já em 28 de dezembro de 1961 acontecera a estreia do funcionamento das redes elétricas da CHESF no Cariri e a criação da CELCA.


CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste trabalho procuramos inicialmente fazer uma pequena síntese das transformações no campo da pesquisa da história política, para isso buscamos verificar as considerações propostas por Leopoldo Von Ranke e pela Escola dos Annales. Como também, as transformações e defesa de uma nova história política vinculada à história das mentalidades a partir da década de 1970.

Na segunda parte, de uma forma sucinta, expusemos o pensamento de Girardet para se pensar os mitos e as mitologias políticas. Pensando-os como polifônico, polimorfo, detentor de múltiplos significados, de fluidez e possuidor de redes e fios condutores, Girardet abriu possibilidades de se pensar à história das ideias políticas a partir da perspectiva das mentalidades.

Os fios da construção do mito dos heróis da eletrificação da região sul do Ceará é forjada procurando as teias de registros da memória da história da região e o comitê fundado em 1949 fora um grupo fundamental dentro dessa tentativa de construção. Por exemplo, buscara, por exemplo, para isso dar visibilidade ao mito do Cariri Grande (relativa ao território ocupado pelos grupos indígenas Kariris) e da independência da Província do Cariri (XIX).
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
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