O grito mudo – Um caso de violência silenciosa. Jussara Ramos Psicólogo crp 07/16146



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O GRITO MUDO – Um caso de violência silenciosa.

Jussara Ramos
Psicólogo
CRP 07/16146

Falar desta violência quando ocorre no âmbito familiar envolvendo àqueles que, a princípio ali estão para que o verbo “CONFIAR” possa ser exercitado, os que ali estão para proteger, cuidar e acima de tudo amar, são sem sombra de dúvida algo aterrorizador.

Na tentativa de articular a teoria Winicottiana da constituição do self ,assim como conceitos de autores como Bollas ,Outeiral e Mello Filho, trago um caso clínico, onde a paciente, hoje com 16 anos, tendo sofrido em seu processo de desenvolvimento constantes abusos psíquicos, decorrentes de seu ambiente familiar ameaçador e terrorífico desenvolve distúrbios psíquicos e psicossomáticos.

A natureza agressiva do ser humano e os riscos que a envolvem já foi discutida por Freud em seu texto "O mal estar na Civilização".

Neste trabalho a proposta será a reflexão sobre a agressividade e o abuso que agem de maneira silenciosa e silenciadora já que exercida por alguém que tem, perante ao ser mais frágil e a sociedade, laços biológicos e afetivos tidos como indubitáveis.

Quando essa agressividade está encoberta numa figura materna uma relação patológica instala-se, pois a criança em sua passividade, submete-se, aceitando e acatando a intrusão maléfica que provém do outro, ainda mais quando este outro é chamado de MÃE, o que reforça para que a criança receba em silêncio a dor causada.

Mães que intoxicam e adoecem seus filhos vivem ainda protegidas por tabus sagrados onde a manipulação, o narcisismo e o egocentrismo ficam encobertos pelo "sagrado", pela bondade e esperança que sugere o nome MÃE.

Bollas nos fala sobre a "confiança básica" (como chamou Erik Erikson), que é a confiança que o infante e a criança têm em sua mãe e em seu pai, que o cuidarão , que certamente reprimirão toda resposta violenta ou assassina e que suportarão a ambição, a onipotência, a "cabeça oca" e o ciúmes da criança.

Quando isso não acontece a confiança é violada e o objeto bom tem sua natureza alterada. a "inocência" da criança fonte da ilusão fica maculada pela invasão deixando no imaginário uma ferida.

Trago para posterior discussão o relato de um caso clínico, onde uma adolescente, a qual chamarei de Alice, foi vitima de violência, de abusos e invasões. Os medos, angústias e até mesmo as psicossomatizações, desta paciente, são frutos de uma relação doentia da mãe de Alice para com ela.

Os sintomas, pedidos calados de socorro, clamam como última tentativa de esperança pela recuperação de um ambiente caótico, pois, o processo de amadurecimento de Alice depende da saúde do ambiente em que vive.

ALICE


Alice me procura numa manhã de agosto de 2018, disse ter conseguido meu contanto telefônico através de uma “colega” da escola que frequenta.

Sua fala estava baixa, rouca e ela tossia muito, se desculpando a cada acesso de tosse. Disse que precisava de ajuda porque não conseguia fazer mais nada, nem mesmo ir a escola, que estava muito difícil sentir tanto medo;

...Marcamos nosso encontro para a semana seguinte. Naquele final de semana, Alice liga e pergunta se eu poderia atendê-la naquele dia (era um sábado)...se dizia assustada com algo que poderia acontecer, estava sozinha em casa e apesar de muito nauseada estava com medo de vomitar.

Perguntei se teria alguém que pudesse acompanhá-la até meu consultório, respondeu que não mas chamaria um táxi...

Nos encontramos no consultório.

Logo que abri a porta da sala, Alice veio ao meu encontro, estava chorando e os braços estavam dobrados de encontro ao peito; sua roupa mais parecia um pijama, mais tarde fiquei sabendo que era mesmo.

Alice pedia que não a deixasse só; que estava com muito medo.

Perguntei do que ela estava com tanto medo – ela respondeu que há algum tempo o medo era uma constante, tinha medo de dormir, de ir ao banheiro e da raiva que sentia de tudo, até mesmo de si própria.

“NADA É BOM EM MIM...sou uma pessoa podre...e disso também tenho medo...do que eu possa fazer aos outros...”

Perguntei desde quando se sentia assim e a resposta foi: “desde sempre...nasci podre.”

Na semana seguinte a mãe me liga pedindo que eu não avisasse Alice que ela havia ligado, lhe respondi que eu não trabalhava desta forma e que Alice saberia que ela havia ligado, pois a confiança era fundamental para em meu trabalho para com ela, mediante isso, a mãe desliga o telefone.

Nas sessões seguintes Alice me fala que nem em casa e nem na escola ela se comunica; Pergunta se quando fala comigo eu sinto seu mau hálito.

Respondo que não e ela diz: - “mas eu sinto”...já lavei minha boca com desinfetante sanitário e fiquei com minhas bochechas e lábios queimados. Fiquei mais de um mês sem abrir a boca direito e foi um alívio porque daí não podia falar mesmo”.

Eu: Está me parecendo que queres me dizer que não falar te alivía, é isso?


Alice: Sim, assim não tem perigo.
Eu: Perigo de quê ? pergunto

Alice me conta a história de uma princesa, que quando esta falava, saía de sua boca, lagartos e cobras e que esta cena, do livro que ganhou da mãe, era viva em sua memória.

Relata que a mãe lhe mostrava esta página do livro várias vezes, principalmente antes de dormir ou sair para passear.

Alice: “Aprendi a não abrir a boca, a não ir muito ao banheiro, segurava a urina e as fezes até não aguentar mais, o que hoje ainda acontece....meu intestino não funciona e quando resolve funcionar é um drama... dói muito”.

Alice não faltava e até hoje não falha as sessões (2x na semana). Em algumas, ela ficava com as pernas encolhidas, virava para o lado e não falava nada, ficava com os olhos semi fechados e de vez em quando olhava de canto de olho para ver se eu estava alí .

Em uma dessas sessões, quando a questiono se ela estava confortável naquela posição, Alice responde de maneira ríspida dizendo “o que te interessa eu estar confortável?”

Respondi que sim, me interessava e que vê-la bem era importante para nós duas, e eu estava aqui, também, para que ajuda-la a entender isso... “tô bem”, respondeu.

Levantei de onde estava sentada e sentei ao lado dela; ela me olhou e disse:- “fico encolhida quando quero ir ao banheiro”.


EU: Estás com vontade, então?
ALICE: Tu não sabes o que é isso...
EU: Te sentes à vontade para me contar como é?

Alice levanta e pede para ir embora. Concordo, abro a porta e ela não se despede.

À tarde a mãe de Alice me liga e me relata algo que me surpreende. Diz que Alice não fala com ninguém há mais de 3 meses, só troca mensagens com uma colega de escola e que não havia ido até meu consultório para falar comigo porque Alice não teria dado acesso ao meu contato.

Na sessão de Alice, combinamos que Marta (a mãe) viria conversar comigo, Alice não estava confortável ,mas não se opôs, pelo menos naquele momento.

Recebo Marta no consultório e digo que estou feliz que ela tenha vindo ao que ela responde: “Porque? Eu não estou na feliz por estar aqui, a Alice me colocou nessa situação, estive internada por 6 meses em uma clínica; e agora essa; não sei quem fez Alice parar aqui, só falta ela dizer que a culpada sou eu”.

Culpada de que? Pergunto...


- Disso, dela precisar de psicóloga, de ter ficado muda, de ter medo de tudo, de não ir ao banheiro...nossa é tanta coisa pra dar conta que a gente não aguenta, o pai dela nem vai para casa mais, vive em viagem, e o guri não sabe porque veio ao mundo. Cansei, nem sei porque vim aqui.

Digo que talvez seja porque quisesses me falar o que acabara de dizer ou, porque és mãe da Alice.

Não! Disse Marta, vim mesmo só te conhecer e dizer que não tenho culpa do jeito dessa guria. Os médicos da clínica disseram que minha mãe era culpada do meu estado mental, ela sim vivia deprimida, não dava a menor importância para os filhos , eu apanhava feito bicho. Não quero falar nisso, eu só vim aqui para dizer que eu não sou culpada dessa guria ser assim.

Na sessão de Alice, falamos sobre vinda de sua mãe no consultório ao que ela respondeu:


- Garanto que ela não falou só dela e não disse nada sobre o que fazia comigo. Falou? Não falou que me batia muito, não falou que colocava uma batata grande em minha boca para eu “aprender a não falar bobagens” e a respirar pelo nariz. Ela não falou que quando escapava o meu “xixi” na cama à noite, ela colocava minhocas, terra, bicho-bola e insetos para dizer que tudo aquilo saía de mim...e eu acreditava...que aqueles bichos moravam em mim....até sapo apareceu na minha cama. Um dia vomitei de nojo e ela disse que se eu vomitasse mais iriam sair as aranhas que faziam as teias irritavam a minha garganta, daquele dia em diante não lembro se teve algum que fiquei sem estas feriadas na boca (mostrando as aftas, que eram constantes)”.

Eu a escutei falar, e foi com grande esforço que saí daquele impacto, me recompus , levantei e fui abraça-la para dizer que eu estava sentindo o sofrimento dela, mas ao mesmo tempo eu estava bem por estarmos juntas alí, para que ela me contasse a dor que sentia, a raiva contida e o medo avassalador.

Olhando para mim, Alice disse:- quando entro aqui meu medo quase some, não quero mais que ela venha (referindo-se a mãe), se ela entrar aqui vai estragar tudo. Eu preciso ter um lugar onde os bichos que moram aqui (aponta para sua barriga) fiquem quietos, que não saiam quando vou ao banheiro, quando falo ou quando assoo o nariz.

EU: Alice, agora a cena é outra estamos juntas para vencê-los...me procuraste, eu estava aqui, esperando por ti.

Ainda temos um longo caminho. Quando durante as sessões alguma interpretação é feita, tenho tido cuidado de não invadi-la de forma alguma, buscando somente unir os aspectos dissociados, para que nesta trajetória ela consiga encontrar seu verdadeiro self.

REFERÊNCIAS

BOLLAS, C. A Sobra do Objeto. Rio de Janeiro: Imago, 1992.

DE MELLO, J.Fº. Psicossomática Hoje. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992.

OUTEIRAL, J. Clínica Psicanalítica de Crianças e Adolescentes. Revinter, 2005.

WINNICOTT, D.W. Da Pediatria à psicanálise: obras escolhidas. Rio de Janeiro: Imago,2000.





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