O futuro da Psicologia: Compromisso Ético no Pluralismo Teórico



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O Futuro da Psicologia: Compromisso Ético no Pluralismo Teórico1




Carlos Roberto Drawin2

I. Demarcação de uma Problemática

O título que escolhemos para o nosso texto pode parecer, a um possível leitor, excessivamente pretensioso, seja por sua abrangência, seja por seu objetivo. Pois é claro que sob sua aparente simplicidade, a palavra “psicologia” recobre um campo vastíssimo, subdividido em muitas disciplinas, povoado por correntes e teorias antagônicas e impelido por um movimento centrífugo, que nos leva a questionar sobre a possibilidade de pensá-

lo como um saber unitário. Por outro lado, a intenção de projetar no tempo esse saber tão polarizado e dispersivo, a pretensão de discorrer sobre o “futuro da psicologia”, não poderia deixar de soar como uma insensatez e uma temeridade. No entanto, as muitas dúvidas suscitadas pela imprecisão do conteúdo e pela obscuridade do objetivo, poderiam convergir para uma justa suspeita: ao articularmos esses dois termos, “futuro” e “psicologia”, não estaríamos pressupondo uma certa opção ideológica? Não estaríamos excluindo, por princípio, aquilo que não caberia em “nossa ciência” e que, portanto, não poderia permanecer em “nosso futuro”?

É preciso admitir, sem tergiversações, que esta é uma justa suspeita, que se alimenta de uma quase evidência e que apenas o excessivo apego às nossas opções pode mascarar: a de que é impossível e, aliás, não é nem é mesmo desejável, nos arrogarmos uma posição de neutralidade e de superior objetividade. Essa admissão, porém, não significa que não seja imprescindível explicitar, com a máxima clareza, a intenção subjacente ao título genérico de nosso texto, de modo a possibilitar, a um possível leitor, o distanciamento necessário para um discernimento crítico. O subtítulo que adotamos, talvez, nos possa socorrer no esforço de explicitar a nossa intenção: há, certamente, uma opção claramente assumida e que designamos como “compromisso ético”, mas há também a idéia de que tal opção não só não anula, mas antes exige, o que designamos como “pluralismo teórico”. Devemos esclarecer, não obstante, o vínculo entre as duas expressões.

Em primeiro lugar, parece-nos óbvio, ao reconhecermos o “pluralismo teórico” em relação ao futuro da psicologia, que assumimos o pressuposto de sua irremissibilidade e que reconhecemos a inviabilidade de nos colocarmos num ponto de vista superior, de onde poderíamos discernir a unidade da psicologia. Se a história da psicologia pode ser caracterizada como uma “dialética da fragmentação”, se ela jamais alcançou a serenidade de uma “ciência normal”, então não podemos construir um discurso epistemológico que se imponha “sub specie aeternitatis” e não podemos julgá-la, enquanto totalidade multiforme, em nome de alguma idealidade científica.3 Se o fizermos, estaremos nos retirando do diálogo racional, que deve lidar com as diferenças e com os antagonismos que foram sendo engendrados na história efetiva da psicologia e estaremos nos abrigando numa ilusão, aquela que confunde facilmente a particularidade de uma opção teórica com a universalidade abstrata de uma cientificidade ideal. Ao contrário, cremos que um tipo de saber como o psicológico pertencente, de uma forma ou de outra, ao domínio das “Ciências do Homem”, não pode desconhecer a história dispersiva de seus conceitos, de seus modelos e teorias, porque esta não advém de uma patologia desse saber, algo sanável com a terapêutica do rigor metodológico, mas decorre da historicidade intrínseca aos objetos que visa apreender. Assim, o “futuro da psicologia” é um futuro plural, não pode ser abarcado num só olhar e não pode haver uma solução epistemológica capaz de nos absolver do fardo histórico dessa irremediável pluralidade e da interlocução crítica que ela exige. Portanto, não pretendemos nos referir ao futuro da psicologia como o de uma ciência unitária, numa espécie de utopia epistêmica que poderia englobar todas as suas vertentes mas, em oposição à uma concepção idealizada e progressista do conhecimento, ressaltar que o seu só pode ser um futuro incerto, o da permanência e, até mesmo, o da proliferação das diferenças.4

Se atribuímos “incerteza” ao futuro, foi com o intuito recusar a idéia, igualmente inadmissível, de que seria possível predeterminar para a psicologia algo como “um futuro teórico”, de modo a assegurar um conteúdo determinado que a seleção empírica das teorias, imposta pelo tempo, haveria de consagrar. Pois, como vimos, a psicologia é um campo polissêmico que, em razão de sua própria dispersividade interna, ocupa um lugar estratégico e mediador no sistema altamente complexo dos saberes contemporâneos.5 Ora, há uma relação inversa entre complexidade e previsibilidade e, portanto, podemos admitir que os sistemas complexos são tendencialmente imprevisíveis. Desse modo, não seria insensatez prever algum tipo de futuro teórico para a psicologia? Não seria este apenas mais um exemplo daqueles exercícios de futurologia que, após um breve prestígio, foram desacreditados pelos próprios acontecimentos que pretenderam antecipar?



Em segundo lugar, uma vez feitas essas advertências podemos tentar circunscrever melhor os termos de nosso enunciado: o futuro pensável não se apresenta como um termo vazio ou como uma realidade a ser prevista, mas como um problema hermenêutico e pensar a ciência implica em problematizar a pretensa obviedade que o termo sugere, recusar a sua univocidade, de modo a recolocá-la como um problema ideohistórico.6 Como essas duas problemáticas poderiam convergir nesse campo dispersivo e complexo que denominamos como “psicologia”? Ou seja, como pensar a relação entre os dois termos, se não o fizermos como uma relação imediata e linear, como seria a da pressuposição de um possível desenvolvimento científico da psicologia, enquanto saber que progride acumulativamente? Ora, não podemos responder, por extenso, a esta interrogação, mas devemos indicar em que sentido gostaríamos de direcioná-la e este só pode ser, em nossa opinião, um sentido ético, na medida em que a ética demarca a fronteira entre a teoria e a prática, entre o pensamento e a vida, entre a concretude da história e a abstração do conhecimento. 7




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