O falo e a morte na dinâmica da neurose obsessiva



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Encontro25.04.2018
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O FALO E A MORTE NA DINÂMICA DA NEUROSE OBSESSIVA
Doris Rinaldi1
A neurose obsessiva apresenta uma complexidade e uma riqueza de aspectos que levou, de um lado, Freud a dizer que tratava-se do tema mais gratificante da pesquisa psicanalítica e, de outro, Lacan a chamar a atenção para uma carência teórica, que deriva justamente da diversidade de facetas apresentadas por esta configuração discursiva.

Na clínica não são poucas as dificuldades enfrentadas pelos analistas na condução do tratamento de neuróticos obsessivos, em conseqüência do modo como se processa a dialética da demanda e do desejo nesses casos. Como todo neurótico, o obsessivo está orientado para o desejo, mas o que é característico de sua sintomatologia, é que, ao apreender o desejo no Outro, o que causa angústia, ele recorre, como defesa, à demanda do Outro. O recobrimento do desejo pela demanda revela a profunda dificuldade do sujeito obsessivo para passar ao lugar do desejo e sustentá-lo por sua conta e risco. Ele está sempre na dependência que o Outro o autorize ou lhe peça isso. No desenrolar da análise de um obsessivo, nos deslocamentos e viradas que possam se observar, este modo de operação se manifesta, o que dá a esse percurso a característica de um constante “vai e vem”. Como afirma Lacan no Seminário sobre a Angústia, “na medida em que a análise se sustenta numa dimensão análoga a da demanda, algo subsiste até um ponto muito avançado desse modo que o obsessivo tem de escapar”(Lacan, 1962/6: lição XXII).

Freud, inicialmente, localizou os problemas do obsessivo, na sua relação com o desejo, no trauma primitivo, no qual, à diferença da histérica, ele desempenhou um papel ativo e obteve muito prazer. Mais adiante, após a análise do Homem dos Ratos, ele chamou a atenção para a precoce desfusão pulsional que marca o seu desenvolvimento, através da desvinculação da tendência destrutiva, e que está na origem dos impasses vividos pelo obsessivo na aproximação do objeto do desejo, na sua agressividade recalcada e na forma ambivalente de se dirigir ao Outro.

Estas indicações são preciosas porque permitem destacar duas questões centrais para a análise da complexa dinâmica do desejo na neurose obsessiva: a relação ao significante falo, que ressurge em todos os pontos da fenomenologia do obsessivo, através de sua polipresença nos sintomas, e a prevalência da morte que marca esta dinâmica de forma radical.

Essas duas questões não são, certamente, sem relação. O conceito de pulsão de morte, tal como formulado por Freud, indica que, para o homem, a vida projeta-se desde sempre para a morte. Nossa única certeza é a morte, morte essa que não pode, contudo, ser experimentada na sua radicalidade, como ponto limite cujo ultrapassagem abole toda experiência possível. Mas é por referência a este ponto de falta, que se desenvolvem os fenômenos da vida. Lacan vem destacar que é pela sujeição ao significante, através da qual experimentamos a vida, que o homem se percebe como já morto. Como não há experiência da morte, ela é simbolizada de outra maneira, justamente pelo significante privilegiado que representa o desejo e o impulso da vida. É o falo que assume um lugar especial na cadeia significante para introduzir a dimensão de falta-a-ser através da qual a linguagem marca a vida do sujeito.

O que me interessa discutir aqui é o modo particular de articulação entre a referência ao significante fálico e a proeminência da morte na neurose obsessiva, na maneira própria como o obsessivo constitui os seus sintomas e que revela as dificuldades que ele enfrenta na sustentação de seu desejo.

As formulações de Lacan no Seminário 5 - “As formações do inconsciente” (1957/58) - e no Seminário 10 - “A angústia” (1962/63) - são ricas de indicações para pensar essas questões e é a partir delas e de minha experiência clínica que desenvolverei algumas considerações sobre elas.

De início, é importante enfatizar que para o obsessivo, tal como para a histérica, a questão do desejo é central. Mais do que isso, para o obsessivo, o desejo se apresenta no seu estado de condição absoluta, que lhe é constitutivo, enquanto desejo puro. Lacan dá o exemplo da criança que se tornará um obsessivo, dizendo que “ela tem idéias fixas”, que é exigente e que sua demanda é intolerável. Não se trata de uma demanda como as outras, mas tem esse caráter de condição absoluta que é própria do desejo. A ênfase do sujeito recai não apenas sobre o desejo, mas no que ele chama de “desejo como tal, isto é, como aquilo que, em sua constituição, comporta a destruição do Outro”(Lacan,1957-8/1999:414).

Enquanto a histérica vai buscar seu desejo no desejo do Outro, isto é, no que ela imagina ser o desejo do Outro, o obsessivo vai buscá-lo em um além, o que faz com que ele faça o seu desejo passar à frente de tudo. Ao buscá-lo além, o que ele visa é o desejo como tal na medida em que ele nega o Outro. Vemos aí claramente a presença da pulsão de morte, como sustentação desse desejo puro. Mas o Outro é o lugar do desejo e, para constituir-se, o desejo do sujeito precisa deste apoio no Outro. A destruição do Outro representa a destruição do próprio desejo e é nisto que esbarra o obsessivo, revelando a profunda contradição entre ele e seu desejo. Na verdade, trata-se de uma contradição que é interna ao próprio desejo, tal como é abordado nesse caso, nesse mais além que o constitui. Disso decorrem as constantes idas e vindas do obsessivo, uma vez que a possibilidade de realização de seu desejo se apresenta como mortal. É desse momento que ele se afasta, na medida em que alcançá-lo significa matar o desejo. Lacan chama a atenção para o fato de que, mais do que uma distância do objeto, trata-se na neurose obsessiva de uma distância do desejo.

Na clínica isso se manifesta de modo sensível, onde os avanços discursivos do obsessivo são freqüentemente seguidos de recuos. A aproximação do desejo é sentida como perigosa e angustiante, uma vez que, ao ser apreendido no Outro, este desejo surge, fundamentalmente, como estranho para o sujeito. No dilema entre destruir o Outro ou mantê-lo a qualquer custo, o obsessivo revela a sua profunda dependência do Outro para a obtenção do acesso ao desejo. A saída que encontra é recobrir o desejo com a demanda do Outro, em que o desejo é denegado e assume a forma imperativa da necessidade. O obsessivo está sempre a espera que o Outro lhe peça algo, movimento através do qual ele anula o desejo do Outro, reduzindo-o à demanda. Mas é através disso que ele sustenta o seu desejo enquanto excluído.

A destruição do desejo do Outro no caso do sujeito obsessivo fundamenta-se na denegação do desejo do Outro (Verneinung) e não numa foraclusão (Verwerfung), o que implicaria, nesse último caso, a impossibilidade de apreender o desejo do Outro. Nesse sentido, ele se distingue do psicótico, na medida em que está referido ao Outro, enquanto lugar da fala para onde se dirige a demanda e onde se descobre o desejo. Ele está inteiramente no significante, como atesta o caráter verbal das obsessões e das blasfêmias, assim como de seu discurso sem furo, carregado de sentido que serve como uma couraça protetora, por meio da qual ele anula o desejo do Outro e, portanto, o seu próprio desejo.

Nesse quadro, qual é o lugar do significante fálico, uma vez que, ao pretender destruir o desejo do Outro, é o falo enquanto significante do desejo do Outro que é anulado? Lacan chama a atenção para o fato de que o mecanismo da anulação pressupõe o significante – isto é, o que se anula é o que já existe como significante - e isto fica evidente na dinâmica do obsessivo, uma vez que ela se articula em torno do significante fálico, que aparece de forma velada nos objetos onde ele encontra apoio para o seu desejo. O que está em jogo, nesse caso, contudo, é a prevalência do falo imaginário, que ressurge também nesse Outro que paradoxalmente o obsessivo precisa manter, sob pena de se ver desfalecer completamente como sujeito. É através de formulações imaginárias que ele sustenta esse Outro, continuamente ameaçado de cair. Esse Outro aparece através imagem do outro semelhante que se apresenta para o obsessivo como completo e potente, ou seja, como representante do falo imaginário, objeto de identificação e de rivalidade. Na clinica do obsessivo pode-se perceber sempre a presença deste irmão ou amigo que é mais viril do que ele, imagem idealizada de completude visada pelo sujeito, como objeto de amor e ódio.

O obsessivo, como a histérica, acedeu à ordem fálica, mas é em torno do objeto anal, objeto privilegiado da demanda materna, que ele faz girar a sua economia desejante. O objeto excremencial, entretanto, só adquire seu valor de objeto-tampão por referência ao falo. No Seminário 10, Lacan tece considerações importantes a propósito do lugar desse objeto na constituição do desejo, em sua função de causa, como primeiro objeto que simboliza a castração. A relação agalmática da mãe com as fezes de seu filho, onde ao mesmo tempo que se pede, se recusa, só pode ser concebida em relação ao falo e à angústia fálica como tal. É ela que vai situar a ambivalência e a divisão do obsessivo em relação à demanda do Outro – é de mim e não é de mim que se trata – que, pela sua duplicidade, simboliza muito bem o falo.

A questão central do obsessivo na relação com o seu desejo localiza-se, portanto, na relação com o desejo/demanda da mãe, que introduz precocemente na vida do sujeito o problema do desejo. É ao se colocar como objeto do desejo da mãe, isto é, ser ou não ser o que ela deseja, portanto, como falo, que seu desejo sofre esse efeito de destruição tão característico, que o impele a manter uma distância em relação a ele. É através da articulação da demanda, que ele, entretanto, mantém sua relação com o desejo. Como diz Lacan no Seminário 5: “É numa certa relação precoce e essencial com sua demanda, ($<>D) que ele pode manter a distância necessária para que lhe seja possível em algum lugar, mas de longe, esse desejo anulado em sua essência, esse desejo cego que se trata de garantir”(Lacan, op.cit.: 481).

O que caracteriza sua demanda precoce e exigente, é que se trata de uma demanda de morte, porque as primeiras relações com o Outro foram marcadas por essa anulação do desejo em que ele se apreende como desejo no Outro. É esse lugar de enigma do desejo da mãe que ele se vê convocado a ocupar, o que o instala no dilema de saber se ele é ou não é aquilo que é o desejo do Outro. O recurso à demanda, como saída para esse impasse, através do qual ele preserva o lugar de seu desejo enquanto excluído, anulado, não pode ter no horizonte outra coisa senão uma demanda de morte. É o que se observa nos obsessivos graves, em que os silêncios prolongados, que tantas dificuldades criam ao desenvolvimento da análise, revelam os obstáculos que essa demanda de morte traz para a articulação do discurso do obsessivo e de sua demanda. Na medida em que a demanda de morte é formulada no lugar do Outro, no discurso do Outro, e por ser o Outro o lugar da demanda, ela acarreta a morte da demanda, como é possível apreender na forma sempre desviada, negada, suprimida, ou então agressiva, que o obsessivo formula sua demanda.

Mas é nesse intervalo, entre a relação do sujeito com sua demanda e o Outro que lhe é tão necessário, que se localiza o desejo, em si mesmo anulado, mas cujo lugar é mantido. E é isso que pode nos servir de guia na condução da análise de neuróticos obsessivos.

Em um caso de neurose obsessiva em uma mulher, cuja análise conduzi por um longo período de tempo - marcado pela anulação e exclusão do desejo em decorrência do lugar em que o sujeito se colocou face ao desejo materno, como resto da demanda do Outro, literalmente identificada ao objeto anal, com seu brilho fálico -, deslocamentos discursivos importantes se observaram nos últimos anos, levando à abertura de um espaço na relação do sujeito ao Outro. Essa abertura permitiu vislumbrar o lugar do desejo, precipitando o momento de concluir e colocando no centro do processo analítico a questão de seu término. É nesse momento, contudo, que ela se vê novamente embaraçada, pois na tentativa de assumir seu desejo, ela o recobre com uma demanda, a demanda de fim de análise. Observa-se nesse ponto um recuo discursivo, em que se manifesta novamente a sua dependência do Outro, uma vez que ela espera que a analista consinta em seu desejo. Essa demanda, projetada no Outro, assume a forma negativa de uma suposta recusa da analista em atendê-la, onde reproduz o sintoma de exclusão que marcou a sua vida.

A questão da morte vem, nesse instante, para a boca de cena, na medida em que o fim da análise, apesar de sustentado por ela como conseqüência do trabalho realizado, em que pôde se reconhecer como sujeito do desejo, é vivido com grande perturbação, em que o recurso à demanda do Outro como modo de viabilizar o seu desejo opera, ao mesmo tempo, como uma defesa em relação ao que ela mesma designou como um “suicídio”. A hipótese do fim da análise, apreendida como realização de desejo, a coloca na eminência da morte, evidenciando claramente o modo como seu desejo se constituiu. É a morte, enquanto perda, castração, entretanto, que é negada, nesse curto-circuito em que ela se precipita. É por não suportar assumir esse lugar de desejo, no que isso acarreta em relação à castração, que ela reproduz com a analista e em relação à própria análise, esse lugar excêntrico – sempre “fora” - em que situou o seu desejo e que a leva a anulá-lo através de uma posição agressiva. A insistência na continuidade do trabalho analítico faz com que ela se engaje novamente no trabalho de se separar do Outro, daquilo que chama de “desejo único”, “desejo homossexual”.

Aqui lembramos as observações de Lacan às quais nos referimos no início desse trabalho, quando diz que é na medida em que a análise suporta uma dimensão análoga a da demanda, que algo desse modo que o obsessivo tem de escapar subsiste até um ponto muito avançado. Como vemos em nossa prática, isso vai muito longe e constitui-se numa das maiores dificuldades na análise com obsessivos. Lacan chega a se perguntar se ele é mesmo ultrapassável, o que coloca a questão fundamental, para todos nós, dos limites da análise.

Referências Bibliográficas:

Lacan, Jacques O Seminário, livro 5, As formações do Inconciente (1957/58), Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed. 1999.

____________ O Seminário, livro 10, A Angústia (1962/63), (mimeo).



1 Psicanalista, membro da Intersecção Psicanalítica do Brasil, Professora adjunta do Programa de Pós-graduação em Psicanálise do Instituto de Psicologia da UERJ, coordenadora do Curso de Especialização em Psicanálise e Saúde Mental e coordenadora adjunta do Mestrado em psicanálise, ambos do IP/UERJ.



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