O encurtamento da Latência e a Puberdade Precoce



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O encurtamento da Latência e a Puberdade Precoce*

Um problema dos tempos atuais

Eluza Maria Nardino Enck**

A partir de concepções de Freud e Anna Freud sobre o período de latência e da puberdade, passando por Meltzer até desenvolvimentos mais recentes, principalmente de Urribari, incluindo suas idéias sobre a puberdade, Bornstein e Etchegoyen, o trabalho se propõe a levantar aspectos teóricos, enfatizando a importância destas duas fases de desenvolvimento para a formação do indivíduo e as conseqüências advindas de possíveis alterações neste percurso. Segue uma apresentação de dados levantados por uma pesquisa entre profissionais que atendem estas faixas etárias, finalizando com uma discussão integrando as idéias teóricas e os achados da sondagem.


Palavras Chave: Latência – Puberdade – Sublimação.

e olvimentos mais recentes, principalemte de Urribarimos que

O período de latência, diferente das outras fases libidinais, tem sido freqüentemente caracterizado, ainda que pouco estudado, mais pelo que deixa de acontecer do que por toda gama de ocorrências e complexizações a que incorre. Isto fica evidente numa citação de Freud (5) quando diz: “há um período de latência sexual durante a infância, após um período de manifestação excepcional de impulsos sexuais”. (pág ? texto?)

Este último período ao qual se refere é o localizado entre o terceiro e o quarto ano, mais especificamente o início da fase edípica. Freud (5) acreditava que “o recém-nascido traz consigo ao mundo impulsos sexuais em gérmen que, depois de um período de desenvolvimento vai sucumbindo a uma repressão
* Trabalho apresentado no Congresso Brasileiro de Psicanálise – Porto Alegre. Maio 2007.

** Membro Associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre.


progressiva, a qual pode ser interrompida por avanços regulares do desenvolvimento sexual o detida por particularidades individuais. Sobre as leis e períodos deste processo evolutivo oscilante não se conhece nada com segurança. Parece, sem dúvida, que a vida sexual das crianças se manifesta já de uma forma observável ao terceiro e quarto ano”. (vol.II, pg. 1197)

Com relação a este período de latência – total, ou simplesmente parcial – os poderes anímicos se opõem ao instinto sexual e o canalizam, marcando seu curso como um dique. Estes diques também são obras da educação, em uma sociedade, mas na realidade são parte de uma evolução organicamente condicionada e fixada hereditariamente, podendo produzir-se sem nenhum auxílio da educação. Esta última imprime maior ou menor profundidade e depuração ao já performado organicamente.


Um outro dado importante acerca da latência em Freud é a idéia de que estes diques são erigidos a custa dos próprios impulsos sexuais, que nesta etapa, não deixam de fluir, mas sua energia se encontra desviada, no todo ou em parte, da utilização sexual e orientada para outros fins (sublimação). Estes instintos sexuais seriam inaproveitáveis nos anos da infância devido à ausência da função reprodutora, o que os levaria unicamente a provocar sensações desprazerosas. Desta forma surgiriam forças psíquicas contrárias que levantariam, para a supressão de tais sensações desprazerosas, os diques psíquicos – a repugnância, o pudor a moral.
... “esta utilização da sexualidade infantil representa um ideal educativo, do qual se desvia quase sempre o desenvolvimento do indivíduo em algum ponto e, com freqüência, em muitos. Na maioria dos casos um fragmento da vida sexual que escapou da sublimação consegue abrir caminho, ou se conserva uma atividade sexual através de todo o período de latência até o impetuoso florescimento do instinto sexual na puberdade”. (o grifo é meu) (Freud (5), pág. 1198)
Freud fala que a Sublimação dos impulsos instintivos sexuais, neste momento, se produz através de Formação Reativa, embora ambos os processos devam ser considerados como distintos e que a Sublimação pode ser alcançada através de outros processos.
Para Anna Freud (4) durante o período da Latência ocorre o processo de desilusão da criança com relação a seus pais. O princípio de realidade está mais ativo. Os mecanismos de repressão e formação reativa auxiliam o ego a manter os impulsos sexuais longe da consciência; ainda que estes mecanismos sejam automáticos e não conscientes em si mesmos, os resultados que produzem são manifestados e podem ser individualizados através da observação atenta do analista desde o conteúdo do inconsciente e seus derivados – impulsos, fantasias, imagens, etc. - até os métodos empregados pelo ego para mantê-los afastados da consciência.

O mecanismo de defesa do ego, a repressão, promove que nada possa ser observado na superfície, exceto a ausência daquelas tendências que seriam ingredientes necessários da personalidade; aqui entra a importância do conhecimento do processo normal de desenvolvimento da criança.

Por ex.: uma criança que aos 4, 5 anos não mostra nenhuma curiosidade com relação à origem dos bebês, à relação dos pais, às diferenças sexuais, etc..., evidenciando que a presença de uma batalha interna veio resultar na extinção de uma consciente curiosidade sexual normal.

A utilização do mecanismo de formação reativa, por sua vez, resulta em deixar aparecer como conteúdo manifesto, a contraparte do que foi reprimido. Como, por exemplo, uma grande exigência de disciplina, ordem e obediência, encobrindo o desejo de rebelar-se às exigências externas e do próprio ego.

Estes pressupostos se inserem na linha de pensamento que descreve a latência a partir daquilo que está encoberto, total ou parcialmente, sob forte vigilância defensiva, do que não aparece, ainda que justificado por uma significativa ampliação do alcance do ego e do superego, como uma importante aquisição deste período.

A noção proposta por Anna Freud baseada em um princípio de desenvolvimento, em que a continuidade deste desenvolvimento é modelada por mudanças progressivas e regressivas, foi ampliado por outros autores como Erikson, Bowlby, Spitz ; se diferencia da formulação original de Freud de que o período de latência é conseqüência da resolução do complexo de Édipo. A partir de desenvolvimentos mais recentes cabe pensar que esta resolução não ocorre como uma descontinuidade abrupta, com uma repressão maciça da sexualidade infantil, mas sim, como um processo de elaboração progressiva e mais complexa ao longo desta fase.

A continuidade dos estudos sobre o período de latência tem deixado evidente que ademais do fato de que este período se instala a partir da dissolução ou sepultamento do complexo de Édipo, bem como é um período chave para dar suporte às vicissitudes da adolescência, seria extremamente empobrecedor e reducionista caracteriza-lo unicamente assim. Ao mesmo tempo em que algo é coartado, renunciado, alienado, afastado, algo se constrói e oferece novas possibilidades, novos destinos e prazeres; domínios e autonomia se promovem, expressando-se em aprendizagem, atividades, expansões, relações, complexizações diversas, tanto intra como intersubjetivamente.

Sob o ponto de vista biológico não há registros de um correlato rebaixamento de níveis hormonais ou nenhum outro substrato orgânico incidindo neste período.

Esta fase encerra notáveis mudanças psicológicas e sociais, como a intensa atividade com grande desgaste de energia da criança. E pode-se perguntar por que seria necessário erigir defesas, a partir do desenlace edípico para combater a masturbação, os desejos incestuosos e as ocasionais práticas genitais dos latentes.

É mais claro que este período esteja caracterizado por um reordenamento intrapsíquico, produto da resolução edípica e com a concomitante inclusão do superego, incitado culturalmente, obrigando o ego a buscar novas maneiras de canalizar o impulso e de efetuar seu trabalho de mediação. Poderia dizer-se que a latência se caracteriza por um trabalho de congregar diversos mecanismos para um fim sublimatório.

Mas não é a presença da repressão, formação reativa, sublimação já presentes anteriormente, que caracteriza a organização psíquica da latência, mas através de um trabalho sutil ainda que bastante intenso, nos apresenta uma nova configuração dinâmica, uma nova reorganização operativa e um notável equilíbrio intersistêmico. Esta configuração favorece que se desenvolva um caminho rumo às relações exogâmicas a partir do desenlace do drama edípico, possibilita a abertura para novos investimentos de objetos e identificações enriquecedoras que favorecem a individuação; proporciona espaço para o desenvolvimento intelectual e do pensamento com o deslocamento do interesse do corpo e seu funcionamento para os objetos e seus mecanismos, para os fenômenos naturais e suas leis; a maior organização e ampliação do pré-consciente dá suporte para as modificações manifestas do ego e ocupa o papel principal de artífice para as aquisições no período de latência, entre elas a mediação e o processamento que torna possível a sublimação( redirecionamento da energia pulsional, inibição de descarga, adequação a códigos culturais); em termos de linguagem a verbalização supera, paulatinamente a ação; as atividades motoras e os jogos se estabelecem como vias privilegiadas para a descarga da energia pulsional e a evitação da masturbação; a expressão através do desenho vai adquirindo complexidade, riqueza e organização, deixando evidente a discriminação entre fantasia e realidade; ocorre uma notável ampliação da experiência emocional, do registro do prazer e do desprazer, na relação com o outro e consigo mesmo, quando aparecem sentimentos de vergonha, sinal de um incipiente ideal de ego, de inferioridade ( narcísico / ego ideal) e de culpa; o público e o privado começam a se diferenciar; a agressividade adquire novas formas de expressão, agora com uma nova instância superegóica, canalizada através de atividades sublimadas – jogos, ou aparecendo expressamente com mentiras, trampas, insultos, etc.;
A latência consiste num momento chave para a organização psíquica e o desenvolvimento emocional e sua compreensão precisa ser buscada mais além das formas sutis em que opera esta organização psíquica e além do seu encobrimento manifesto pois, segundo o que diz Diatkine “a fase de latência se caracteriza mais pela estreiteza do ângulo de visão do psicanalista do que pela pobreza da fantasmatização da criança.” (apud Urribari (8), pág. 290)

Sem esquecer o que diz Jersild que “no desenvolvimento normal o sexo nunca tira férias”.(apud Urribari (8), pág. 290)


A partir de uma retomada e ampliação da compreensão dinâmica, da importância e significado do período de latência para o desenvolvimento do indivíduo podemos depreender as possíveis conseqüências e prejuízos de um coartamento destes processos.
Por outro lado também fica evidente o sentido de preparação para a etapa que se seguirá, marcada pelas modificações corporais da puberdade, e “start” para um processo de desenvolvimento ao longo do qual percorrerá esta até então criança, rumo à maturidade.
A puberdade, com seus inerentes fenômenos de modificações corporais e entrada para a adolescência constitui uma situação potencialmente traumática, com fortes raízes narcisistas, que requerem um amplo e intenso trabalho psíquico a respeito não só de características externas e capacidades corporais e suas progressivas transformações, como também no que concerne a suas sensações e afetos concomitantes, às representações, à modificação do esquema corporal, à genitalização, à pujança pulsional incrementada e às expectativas relacionais no sentido de como será visto e valorizado por seus pares e pelos adultos. É o que nos esclarece Urribari (8)

Desde Freud sabemos da importância do corporal como substrato do pulsional e sede do erótico, assim como gênese da organização psíquica, como com sua conexão com o narcísico e o afetivo.

A problemática do processo da puberdade se vê agudizada pela vivência das mudanças corporais como algo alheio , a sensação de que provêm de fora e de estar sob domínio das modificações. Daí se depreende as freqüentes buscas externa de soluções, como tratamentos cosméticos, regimes alimentares e intervenções cirúrgicas, bem como através de condutas sexuais desenfreadas.

Os púberes se sentem solitários, com idéias de serem casos raros e únicos, radicalmente diferente dos outros.

É na adolescência que vão se revelar as aquisições narcísicas precoces e é palco propício para a reedição de situações traumáticas transgeracionais que o jovem desconhece. Por isso este momento é campo fértil para restauração de feridas narcísicas dos pais, onde aparecem estados de confusão mente/corpo e onde presente e passado se fundem.




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