O encontro do eu com a grande personalidade



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PAULO E CRISTO:

O ENCONTRO DO EU COM A GRANDE PERSONALIDADE


Resumo


O trabalho procura desenvolver o processo que se dá entre a dimensão consciente da personalidade e o que há de mais profundo e essencial na psique: o Si-mesmo. Neste sentido, usamos o campo da experiência do Si-mesmo através da vivência religiosa já que a manifestação do Si-mesmo pode se dar por outras vias simbólicas mesmo que todas numinosas.

Somos da tese de que toda a busca do ser, desde sua tomada de consciência, é a busca de si no encontro com Deus. Como na imagem simbólica do paraíso, deverá o homem voltar a Deus, conscientemente, através de suas conquistas. Este trabalho visa, então, mostrar alguns aspectos desse encontro, em especial as reações do ego e da sombra, na figura de Paulo de Tarso depois de seu encontro com Cristo a partir de um video/lecture apresentado por Edinger.

Para ilustrar esse trabalho de confronto e transformação, procuramos analisar alguns textos religiosos, lançando um olhar psicológico para compreender esse processo onde o maravilhoso encontro com o divino também é o confronto com a nossa sombra.
Cada fase de nossas vidas (Whitmon, 1990) reflete uma tentativa de se buscar e se relacionar com Deus. É o que chamamos eixo ego-Self. O ego seria a coisa pequena, o eu que cada um estabelece como imagem pessoal; o Self (Si-mesmo) é a imagem viva de Deus dentro de nós, o sentido orientador fundamental, fonte criadora e reguladora de nossa vida psíquica, centro ordenador e unificador da psique.

Consideremos, então, a personalidade individual não apenas um produto da experiência pessoal, mas envolvendo uma dimensão transpessoal a se manifestar em padrões e orientação.

Assim, podemos ver, já na infância esse processo se realizando através da imagem de autoridade divina que a criança ainda não compreende, mas que a fascina e traz temor, e que normalmente é projetada nas figuras dos pais. Neumann, refere que “no relacionamento primário, a mãe, na qualidade de fonte de orientação, proteção e nutrição, representa o inconsciente e, na primeira fase, representa também o Si-mesmo e... a criança dependente o ego infantil e a consciência” (apud Edinger, 1989: 67-8).

A vida do indivíduo resume-se em realizar o seu drama pessoal, ou seja, buscar realizar o que esse Si-mesmo colocou para ele. Isto se refere diretamente ao que ele tem que desenvolver enquanto crescimento e tarefa numa vida. É a longa luta de construirmos a nós mesmos e depois abrirmos mãos de nós em favor do que é maior, revertendo em mais crescimento psicológico e espiritual.

Como nos diz Edinger (198_), sabemos que ninguém pode ser maior do que é. Nós, os pequenos não temos escolhas a não ser a de viver aquilo que somos da forma mais adequada possível. Mas sempre há algo que o pequeno pode acrescentar ao que é maior.

Essa possibilidade se dá quando a coisa pequena encontra a Grande Personalidade, podendo servi-la. Jung é o psicólogo que nos apresenta essa relação quando nos relata essa trajetória como “um longo processo de transformação interna e de renascimento a partir de um outro ser”.

Mais adiante ele refere:

Esse outro ser é a outra pessoa em nós mesmos, uma personalidade maior amadurecendo em nós, o amigo interno da alma. Por isso é que temos conforto quando encontramos o amigo e o companheiro detectado no ritual, tal como a amizade entre Mitra e o Deus Sol. Essa é a representação da amizade entre dois homens, que é sempre reflexão externa de um fato interno. Revela a amizade com aquele amigo interno da alma, revela aquilo que a natureza por si mesma gostaria de nos transformar, aquela outra pessoa que nós também somos e, mesmo assim, nunca conseguimos atingir. Nós somos aquele par de Dioscuros, um deles mortal e outro imortal e estamos sempre juntos, sem jamais conseguir transformá-los em um só completamente. O processo de transformação luta para aproximá-los um do outro, mas a nossa consciência sabe e resiste pois a outra pessoa parece estranha e misteriosa, e porque não podemos nos acostumar com a idéia de não sermos capazes de lidar com essa outra pessoa dentro de nossa própria casa. Nós deveríamos preferir ser “eu” e nada mais, mas nós somos confrontados com esse amigo interno ou esse sujo, e se ele é nosso amigo ou um sujo, depende só de nós. (Jung, apud Edinger, 198_: p. 2)

Percebemos que o autor refere-se a esse amigo como algo que pode ser sujo. Como podemos entender tal afirmação? Isto quer dizer que quanto mais nossa consciência egóica esconder de si a sua própria realidade, quanto mais nos enganarmos com uma falsa imagem de nós mesmos, mais essa realidade escondida cai no inconsciente, tornando-se primitiva, marginalizada e, conseqüentemente, mais perigosa. O amigo daí se torna sujo, marginal, a sombra1 interior que negamos enfrentar e que sem o confronto com a mesma não poderemos encontrar o Si-mesmo. Por isso, podemos dizer que o encontro com o divino em nós passa necessariamente pelo encontro com nossa sombra. Lembremos São João da Cruz quando afirmava que “Deus é encontrado nas trevas” do ser humano. Assim, se que o que vem do nosso mais íntimo vai ser o amigo ou o sujo, isto depende de cada um.

Outra afirmação de Jung nos diz:

Quando o verão da vida é atingido, quando como nos diz Nietzsche, o um se torna dois e a figura maior que alguém sempre foi, aparece para a personalidade menor com a força de uma revelação. Ele (o ego), que é verdadeira e desesperançosamente pequeno, arrastará a revelação do maior (Si-mesmo) para a sua pequenez, e nunca entenderá que o dia do julgamento para a sua pequenez já alvoreceu. Mas o homem que é inesgotavelmente grande saberá que o sempre esperado amigo de sua alma, o imortal, chegou para tornar o perseguidor em cativo, ou seja: acabar com a contenção, por cuja imoralidade sempre esteve confinado na sua própria prisão, e para fazer sua vida fluir numa vida maior, num momento paralelo da maior fatalidade. (apud Edinger, 198_: 3)

Conforme analisa Edinger, nesse encontro, onde o maior faz sentir sua presença, sempre há um abalo do ego. Esse encontro do eu com o Si-mesmo, na pior das hipóteses, leva á loucura; na melhor da hipótese, o eu tem uma participação decisiva no encontro mas sofre uma humilhação dolorosa e um sentido desmoralizante de perda.

Como nos refere Jung:

Com a interpretação para o lado psicológico, surge uma grande mudança, pois a partir do autoconhecimento resultam certas conseqüências éticas, que não são apenas objeto do saber, mas também impelem para uma execução na prática. Sem dúvida, esta depende também da dotação moral de cada um, mas, como nos ensina a experiência, não convém fiar-se demasiadamente nela. Por via de regra tem ela, porém, da mesma forma limitações tão acanhadas como a inteligência. Depende-se tanto de uma como da outra. O Si-mesmo, que gostaria de realizar-se, estende-se para todos os lados, ultrapassando a personalidade do eu; de acordo com sua natureza abrangente ele é ora mais claro ora mais escuro do que esta e assim coloca o eu a tal ponto de problemas, dos quais ele bem gostaria de esquivar-se. Fracassa ou a coragem moral ou a compreensão, ou as duas ao mesmo tempo, até que o destino finalmente acabe por decidir a sorte. Jamais faltam ao eu razões opostas, de natureza moral e racional, que nem se pode nem se deve pôr de lado enquanto elas ainda servem de apoio. Pois somente então alguém se sentirá em um caminho seguro quando a colisão de deveres se resolver como por si mesmo, e esse alguém se tiver tornado vítima de uma decisão, que foi tomada independente de nossa cabeça e de nosso coração. Nisso se manifesta a força numinosa do Si-mesmo, que dificilmente poderia ser experimentada de outra maneira. Por isso a vivência do Si-mesmo significa uma derrota do eu. (Jung, 1990: 303)

Esse encontro, demonstra que mais cedo ou mais tarde temos que nos confrontar com a nossa natureza essencial e nos posicionarmos frente a ela. Geralmente, esse processo ocorre durante a segunda metade da vida, momento que tudo aquilo que está dentro de nós e que foi esquecido começa a fazer pressão para ser reconhecido. Este processo todo também é chamado de arquétipo de Jó. Arquétipo porque é um padrão universal e Jó por sua história na Bíblia ser um relato exemplar e simbólico desse encontro com o Si-mesmo. Podemos resumir os aspectos maiores desse encontro como:


  1. Encontro eu/Si-mesmo, que se manifesta na imagem de Deus, Anjo, ou algum ser superior, seja personificado simbolicamente, seja por um acontecimento;

  2. Ferida ou sofrimento do eu (ego) como resultado do encontro;

  3. O ego persevera, suportando pacientemente a prova, para entender o significado do encontro;

  4. A combinação da experiência como uma revelação divina, na qual o eu é recompensado através de um entendimento em nível de psique transpessoal. Neste momento, o eu reconhece a sua posição subordinada e está preparado para servir à totalidade e aos seus fins. Jó se tornou um eu individuado.

Esse encontro no indivíduo é uma experiência única e mais profunda. E pode ocorrer de várias maneiras. Como já foi comentado, pois a imagem divina que temos internamente depende do nível de consciência e da evolução espiritual de cada um. Assim, não queremos dizer que existe um lado obscuro de Deus mas uma sombra divina que existe na mentalidade psicológica de cada um. Por exemplo, quando somos duramente confrontados por uma realidade que nos parece difícil de ser superada, tendemos a dizer que é um castigo divino ou a manifestação da ira do Criador. A idéia que fazemos de Deus reflete a nossa concepção e estado emocional. Estamos então não nos referindo ao conceito de Deus, mas à experiência individual com a imagem psicológica que trazemos em nós de Deus.

Por isso, esse encontro pode ser marcado por um profundo encantamento, como uma revelação que nos chega, como uma experiência de inteireza e completude, mas também pode ser marcado por um sentimento de derrota, como um vazio muito grande, uma depressão profunda e demorada ou um desastre aos projetos e ideais com que nós estávamos envolvidos.

O encontro, está-se a ver, existe diferentes sacrifícios e atitudes ao ego. Temos vários exemplos simbólicos na cultura de como esse encontro pode ocorrer. Para citar alguns, temos 1) o encontro de Jacó e o Anjo de Iahweh, no Velho Testamento; 2) Arjuna e Krishna, encontrada na Escrita Sagrada dos Hindus; 3) Nietzsche e Zaratustra; 4) Paulo e Cristo, nos quais vamos nos deter mais.

Paulo é como se passou se chamar Saulo depois de sua conversão ao Cristianismo e da sua transformação de perseguidor para propagador do cristianismo nascente. Psicologicamente, representa uma transformação radical, a ponto de uma nova identidade nascer do encontro com a Grande Personalidade: o ego mudou tão significativamente que não respondeu mais ao mesmo nome. Isto é o que aconteceu com Paulo depois com o encontro com Jesus. Vamos analisar algumas passagens que refletem todo esse processo. Um processo onde o temperamento autoritário e onipotente de Saulo transformou-se, em Paulo, em humilde serviço ao cristo; e a rigidez da Lei transformou-se em fé viva e firme na pregação do evangelho.

Vamos encontrar Saulo como um conhecido e renomado doutor da Lei, com sua atitude ríspida e intolerante perseguindo os cristãos. Pela psicografia de Chico Xavier, temos o relato de sua vida na obra “Paulo e Estevão”, ditado pelo espírito Emmanuel, onde lemos:

Afinal, com a rigidez de suas paixões, aniquilara todas as possibilidades de ventura. Com o rigorismo da sua perseguição implacável, Estevão encontrara o suplício terrível; com o orgulho inflexível do coração, atirara com a noiva ao antro indefassável do túmulo. Entretanto, não podia esquecer que devia todas as coincidências penosas àquele Cristo crucificado, que não pudera compreender. Por que topava, em tudo traços do carpinteiro humilde de Nazaré, que seu espírito voluntarioso detestava? (...) Por todo esse acervo de considerações que se lhe represavam na mente exausta, Saulo de tarso galvanizara o ódio pessoal ao Messias escarnecido. Agora que se encontrava só, inteiramente liberto de preocupações particulares, de natureza afetiva, buscaria concentrar esforços na punição e corretivo de quantos encontrasse transviados da Lei. (Emmanuel, 1989: 187-8)

Vemos o quanto a pessoa de Saulo já estava sendo confrontado com a força superior do Si-mesmo através da imagem de Jesus. Podemos entender simbolicamente que aquilo que nos cabe desenvolver, sejam potenciais, tarefas ou mudanças internas e externas, está sempre se fazendo sentir e, mais cedo ou mais tarde, será confrontado se isso for de algum modo vital para o seu desenvolvimento.

Existe uma direção ou objetivo inerente, dos quais o indivíduo não pode fugir sem ser lesado. Estamos falando que a realidade, através do encontro com o Si-mesmo, expressa a idéia que a vida tem um significado, uma finalidade maior do que podemos definir pela realidade material. Aquelas “coincidências penosas” já eram o confronto que o ego, por não ouvir, acabou transformando em infortúnio, o Grande Amigo se torna a imagem do inimigo. Vemos Saulo relutante e identificado com o complexo de poder do qual se justifica pela lei.

Quando decidiu seguir para Damasco em perseguição aos cristãos e, principalmente, a Ananias, deparamo-nos com Saulo em um intenso conflito íntimo:

Na véspera da chegada, quase a termo da viagem difícil e penosa, o moço tarsense sentia agravarem-se as recordações amargas que lhe assomavam constantes. Forças secretas impunham-lhe profundas interrogações. Passava em revista os primeiros sonhos da juventude. Sua alma desdobrava-se em perguntas atrozes. Desde a adolescência que encarecia a paz interior: tinha sede de estabilidade para realizar a sua carreira. Onde encontrara aquela serenidade, que, tão cedo, fora objeto de suas cogitações mais íntimas? Os mestres de Israel preconizavam, para isso, a observância integral da Lei. Mais que tudo, havia ele guardado os seus princípios. Desde os impulsos iniciais da juventude, abominava o pecado. Consagrara-se ao ideal de servir a Deus com todas as suas força. Não hesitara na execução de tudo que considerava dever, ante as ações mais violentas e rudes. Se era incontestável que tinha inúmeros admiradores e amigos, tinha igualmente poderosos adversários, graças ao seu caráter no cumprimento das obrigações que considerava sagradas. Onde, então, a paz espiritual que tanto almejava nos esforços comuns? Por mais energias que despendesse, via-se como um laboratório de inquietações dolorosas e profundas. Sua vida assinalava-se por idéias poderosas, mas, no seu íntimo, lutava com antagonismos irreconciliáveis. As noções da Lei de Moisés pareciam não lhe bastar à sede devoradora. O s enigmas do destino empolgavam-lhe a mente. O mistério da dor e dos destinos diferenciais crivava-o de enigmas insolúveis e sombrias interrogações. Entretanto, aqueles adeptos do carpinteiro crucificado ostentavam uma serenidade desconhecida! (Ibid.: 195)

Notemos a divisão em que Paulo se encontra, quando a sua mente já está invadida por diversas emoções e dúvidas que se traduzem em angústia e depressão. Recordações, inquietações, vazio interior ou sintomas equivalentes podem revelar um momento onde as certezas de nosso pequeno eu estão entrando em colapso. Temos em Paulo uma pessoa idealista, mas perdida na orientação e na forma de se posicionar frente a esses valores. Existe uma divisão entre sua mente poderosa e seu coração impiedoso. É um ser sem paz, isto demonstra a desarmonia do seu eu como seu Amigo Interior, o Si-mesmo.

Logo depois desse momento, depois de um breve descanso num oásis, dá-se o encontro de Paulo (Saulo) e o Cristo. Encontro este que significa o encontro do eu pequeno com a Grande Personalidade. O registro do encontro de Paulo e Cristo é encontrado nos Atos dos apóstolos e Cartas aos Gálatas. Em At, 9:1-9, encontramos:

Saulo, respirando ainda ameaças e morte contra os discípulos do Senhor, dirigiu-se ao sumo sacerdote, e lhe pediu cartas para as sinagogas de Damasco, a fim de que, caso achasse alguns que eram do Caminho, assim homens como mulheres, os levasse presos para Jerusalém.

Seguindo ele estrada fora, ao aproximar-se de Damasco, subitamente uma luz do céu brilhou ao seu redor, e, caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? Ele perguntou: Quem és tu, Senhor? E a resposta foi: Eu sou Jesus, a quem persegues: mas levanta-te, e entra na cidade, onde te dirão o que te convém fazer.

Os seus companheiros de viagem, pararam emudecidos, ouvindo a voz, não vendo, contudo, ninguém.

Então, se levantou Saulo da terra e, abrindo os olhos, nada podia ver. E guiando pela mão, levaram para Damasco.

Esteve três dias sem ver, durante os quais nada comeu nem bebeu. (Novo Testamento, 1959: 152)

Emmanuel nos dá maiores detalhes quando da anunciação de Jesus:

“- Eu sou Jesus!...

Então, viu-se o orgulhoso e inflexível doutor da Lei curvar-se para o solo, em pranto convulsivo. Dir-se-ia que o apaixonado rabino de Jerusalém fora ferido de morte, experimentando num momento a derrocada de todos os princípios que lhe conformaram o espírito e o nortearam, até então, na vida.” (Emmanuel, 1989: 198)

Fica evidente que Paulo foi completamente desestruturado e sacudido pelo encontro com a Grande Personalidade (Si-mesmo). É mesmo uma experiência de morte. Ficou cego por três dias e passou um período de três anos de recuperação num oásis na Arábia, onde fazia tendas. Muitos pacientes em análise ou mesmo pessoas sem esse trabalho de psicoterapia já tiveram essa sensação, de sentir uma espécie de morte que se manifesta de várias forma e têm que levar um bom tempo se recuperando.

A cegueira experimentada por Paulo, quando do encontro com Jesus, demonstra psicologicamente e simbolicamente sua cegueira espiritual, a inconsciência frente à realidade a que resistia. É o confronto com sua consciência cega e intolerante. Percebemos neste momento, de uma forma muito especial e intensa, que o encontro com o Si-mesmo é também o encontro com a nossa sombra. No caso de Paulo, sua orgulhosa cegueira. Paulo tentou escapar de seu destino perseguindo àqueles que, ironicamente representavam seu destino. Toda vez que algo nos toca muito intensamente, podemos saber que ali existe uma questão que nos diz respeito em particular. Podemos tentar fugir de nosso destino, mas a própria tentativa de fuga já demonstra que estamos de alguma forma ligados ao mesmo. Foi a própria intensidade de ataque contra os cristãos que traiu o seu envolvimento com a causa, o importante pois “trata-se daquilo que se fala, não de sua aceitação ou negação”. (Jung, 1986: 56)

Mas o mais importante é que o seu eu aceitou ser tocado pelo Si-mesmo. Temos mais adiante a seguinte passagem:

“- Senhor, que quereis que eu faça?

Aquela alma resoluta, mesmo no transe de uma capitulação incondicional, humilhada e ferida em seus princípios mais estimáveis, dava mostras de sua nobreza e lealdade. Encontrando a revelação maior, em face do amor que Jesus lhe demonstrava solícito, Saulo de Tarso não escolhe tarefa para servi-lo, na renovação de seus esforços de homem.” (Emmanuel, 1989, p. 198)

Temos no encontro de Paulo com Grande Personalidade, conforme Edinger (198_), um exemplo extraordinário pela força de tensão que este possa suscitar. De um lado, uma resistência violenta, através de sintoma que é o intenso ódio que sente pelo cristãos e, de outro lado, o seu desencadeamento que exige uma atitude intolerável para seu ego. Paulo foi obrigado a sacrificar totalmente a sua vida pessoal, transformando-se em “escravo” do Cristo. Paulo começa suas cartas aos Romanos e aos Filipenses dizendo-se “escravo” do Cristo. Na carta à Filemon, encontramos a expressão “prisioneiro” do Cristo, em outras versões “cativo” ou “pego” por Cristo.

Encontramos em Gl, 2:19 o seguinte testemunho de Paulo: “porque eu, mediante a própria lei, morri para a lei, a fim de viver para Deus. Estou crucificado com o Cristo”.

Esta mudança toda acontecida não quer dizer um processo de fácil aquisição, denota um trabalho árduo na derrota do ego em favor do Si-mesmo. Quando Paulo resolve ficar todo aquele tempo tecendo no deserto, encontramos um trabalho profundo de meditação e entrega humilde. O exílio foi uma forma de provar a humildade e a solidão de seu novo caminho pois “as considerações convencionais poderiam perturbar-te, agora que necessitas exterminar o ‘homem velho’ a golpes de sacrifício e disciplina”. (Emmanuel, 1989: 242)

Apresentamos uma das passagens que demonstra essa dura conquista:

Os grandes sentimentos nunca povoam a alma de uma só vez, em sua beleza integral. A criatura envenenada no mal é qual recipiente de vinagre, que necessita ser esvaziado pouco a pouco. A visão de Jesus constituía um acontecimento vivo, imorredouro; mas, para que pudesse compreender toda a extensão de seus novos deveres, impunha-se-lhe o caminho estreito da provas ríspidas e amargosas. Vira o Cristo; mas, para ir ter com Ele, era indispensável voltar atrás e transpor abismos. As desilusões da Sinagoga de Damasco, o reconforto junto dos irmãos humildes sob a direção de Ananias, a falta de recursos financeiros, os conselhos austeros de Gamaliel, o anonimato, a solidão, o abandono dos entes mais caros, o tear pesado sob o sol ardente, a penúria de todo e qualquer conforto material, a meditação diária nas ilusões da vida - tudo isso representara auxílio precioso para sua decisão vitoriosa. O Evangelho funcionara com lâmpada na jornada difícil, para o descobrimento de si mesmo, a fim de ajuizar as necessidades mais prementes.(Ibid: 256-7)

Paulo soube ser fiel ao Cristo, tornando-se o seu “prisioneiro”, como lemos em todo o capítulo IX de “Paulo e Estevão”. Vamos encontrar depois de todo esse esforço, um homem completamente transformado, pleno de energia e força a servir a Si-mesmo. Podemos notar essa disposição quando em diálogo com João Marcos:

Choremos de alegria, irmãos! Não há maior glória neste mundo que a de estar o homem a caminho de Cristo Jesus!...O mestre foi ao encontro do Pai, através dos martírios da Cruz! Abençoemos nossa cruz de cada dia. É preciso trazermos as marcas do Senhor Jesus! (Ibid: 493)

Percebemos que a razão de nossas vidas e o seu maior momento é o encontro do eu com a Grande Personalidade. Um encontro que determina a possibilidade de um novo amanhã. Só quem teve esse tipo de experiência sabe o que isso significa, é algo extremamente difícil de fazer entender. Mas isso não importa, pois, como diz Jung, se alguém se opor a essa experiência só podemos dizer “sinto muito, eu tive. Não obstante que o mundo pense a respeito, aquele que vivencia possui um grande tesouro, algo que se tornou para ele uma fonte de vida, significado e beleza, proporcionando ao mundo e à humanidade um novo esplendor. Ele possui pistis (confiança, fé) e paz” (apud Hoeller, 1990: 214).

Como nos assevera Joanna de Ângelis, “O psiquismo divino abre-me os penetrais do infinito e deslumbro-me. Saio da limitação, na qual me asfixio e estertoro, para a grandiosidade da vida, onde me expando. Mergulho no mundo interior e vejo, ouço, percebo a realidade sem barreiras, sem névoa, de onde procedo e para onde retornarei. Identifico-me com meu Pai, liberto-me” (1993: 80). Encontramos nesta citação aquilo que nos move e nos marca como filhos de Deus: o Amor. Este é o grande eixo que abarca tanto a dimensão horizontal e vertical da vida. Assim, percebemos nos homens sem amor e consciência espiritual da comunicação com Deus, a realidade de uma vida que não encontrou ainda o seu mito do significado. Nas palavras de Kierkegaard:

...Fala-se muito a respeito de vidas perdidas - mas só é perdida a vida do homem que viveu tão iludido pelos prazeres da vida, ou pela sua tristeza, que jamais se tornou eterna e decisivamente consciente de si mesmo como espírito... ou (o que é mesma coisa) que jamais se tornou consciente - e, no sentindo mais profundo, que jamais teve um vislumbre - do fato que existe um Deus, e de que ele, ele próprio existe diante de Deus... (apud Edinger, 1989: 79-80)

A importância de um projeto de consciência está no fato, de que, se a consciência cria o mundo, o ego, em seu esforço de auto-realização, está fazendo o trabalho criativo de Deus. Pires reforça essa idéia ao dizer: “como o átomo insignificante encerra em sua estrutura infra-microscópica um poder colossal, e mais ainda a partícula atômica de antimatéria, que encerra em sua finitude um poder praticamente infinito, assim o Ser humano, por suas potencialidades, constitui-se num elo de transcendência que pesa de maneira incalculável na grandeza do Cosmos” (Pires, 1987, p. 37). Léon Denis também afirma:

Assim, de ascensão em ascensão, de mundo em mundo a princípio, depois de sol em sol, no ciclo imenso de sua evolução, a alma vê aumentar seu poder de irradiação, sua luminosidade. Pela elevação gradual de seus pensamentos e pela pureza de seus atos chega a pôr em harmonia suas próprias vibrações com as vibrações do pensamento divino e daí decorre uma fonte abundantíssima de sensações, de percepções, de gozo, que a palavra humana é impotente para descrever.” (Denis, 1981: 84)

Assim, todo e qualquer ato da vida tem que ser tomado de maneira consciente, sairmos de nossa dimensão egóica e vivenciar os níveis de diálogo que o Si-mesmo está estabelecendo conosco através da vida. Por exemplo, Jung refere que todo avanço psíquico do homem surge do sofrimento, mas o sofrimento em si mesmo não tem valor. Seu valor se constitui na medida que seja conscientemente aceito, “um sofrimento significativo que extrai o fluido redentor”.

Jung, numa paráfrase da afirmação de Santo Inácio de Loyola, declara:

A consciência do homem foi criada com a finalidade de reconhecer que sua existência provém de uma unidade superior, dedicar a esta fonte a devida e cuidadosa consideração; executar as ordens emanadas desta fonte, de forma inteligente e responsável, proporcionando deste modo um grau ótimo de vida e de possibilidade de desenvolvimento à psique em sua totalidade. (Jung, 1982: 156)

Isto equivale ao que Joanna de Ângelis refere sobre a religiosidade:

Já não se torna, então, importante a religião, formal e circunspecta, fechada e sombria, mas religiosidade interior que aproxima o indivíduo de Deus em toda a Sua plenitude: no homem, no animal, no vegetal, em a natureza, nas formas viventes ou não, através de um inter-relacionamento integrador que o plenifica e o liberta da ansiedade, da solidão, do medo. As suas aspirações não se fazem atormentadoras; não mais surge a solidão como abandono e desamor, e dilui-se o medo ante uma religiosidade que impregna a vida com esperança, alegri

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