O brincar entre a criançA, o analista e a instituiçÃo educacional primária



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O BRINCAR ENTRE A CRIANÇA, O ANALISTA E A INSTITUIÇÃO EDUCACIONAL PRIMÁRIA

Matheus Fernando Felix Ribeiro1; Marcela Reda Guimarães2; Angela Maria Resende Vorcaro3



1 Graduando em psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais, Departamento de Psicologia, FAFICH

2 Graduando em psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais, Departamento de Psicologia, FAFICH

3 Professora Associada da Universidade Federal de Minas Gerais, Departamento de Psicologia, FAFICH

Introdução

Nesse presente resumo apresentamos brevemente como o pediatra e psicanalista Donald Winnicott, analisou as instituições educacionais primárias e o brincar infantil, bem como as suas representações metapsicológicas e sociais. Queremos apontar também como ele estabeleceu algumas bases epistemológicas para se compreender quais relações ocorrem dentro desse espaço médio que é o brincar e como essa se relaciona com a problemática do desenvolvimento infantil adulto. Esse resumo pretende, ainda, analisar a rede de relações interpessoais das crianças, de maneira a discutir a significação sociocultural da experiência compartilhada dentro dessas instituições, especialmente através da análise sobre o brincar infantil e suas consequências civilizatórias e estruturantes para o psiquismo infantil. Esse resumo termina com uma análise da relação emergida do brincar construída no psiquismo infantil normal, e com um comentário sobre o desenvolvimento psíquico anormal, e suas relações com a psicoterapia.

Discussão

O psicanalista britânico foi médico com especialização em pediatria. Vemos, assim que desde o começo de sua formação profissional, antes da sua inserção na psicanálise inglesa, ele possuía uma preocupação com o cuidado infantil.

Quando Winnicott se tornou psicanalista, percebeu que sua prática como médico podia ser ampliada ao nível do psíquico. Quando se muniu do constructo metapsicológico consistente psicanalítico, ele começou a estabelecer relações entre os dois campos de saberes, o pediátrico e o psicanalítico para a sua prática clínica.

A partir de certo ponto, vemos que o psicanalista começa a expandir suas experiências para além da clínica. Começa a frequentar a rádio da BBC de Londres e discursar nesse, de forma simples e acessível, para quais atenções básicas os filhos deveriam receber de sua família e escola, tendo como público as próprias mães e os educadores. Em outro momento, quando já estava teoricamente mais amadurecido, começou a analisar as instituições que se relacionavam com a sua prática, nesse caso, as instituições educacionais primárias.

Vemos que a partir do desenvolvimento de sua teoria própria do brincar, quando se afasta da tradição e clínica kleiniana (Winnicott, 1975, p.59), ele começa a problematizar as relações emergentes nessas instituições (Winnicott, 1982) e quais as implicações globais, ao nível social, ao nível metapsicológico e ao nível da relação mãe-bebê.

Winnicott via nessas instituições educacionais primárias um ambiente cuja:

“A função da escola maternal não é ser um substituto para uma mãe ausente, mas suplementar e ampliar o papel que, nos primeiros anos da criança, só a mãe desempenha. Uma escola maternal, ou jardim de infância, será possivelmente considerada, de modo mais correto, uma ampliação da família ‘para cima’, em vez de uma extensão ‘para baixo’ da escola primária.”(WINNICOTT, 1982, p.214)

A partir desse trecho vemos que Winnicott propõe uma ampliação dos laços afetivos e emocionais da criança para além das referências maternas iniciais. No momento em que a criança é inserida nesse novo contexto, ou seja, nessa instituição educacional, uma nova rede de relações interpessoais é estabelecida.

Essa inserção está enlaçada historicamente numa nova lógica de funcionamento social, bem distinta da época freudiana/vitoriana, quando se não era a mãe quem cuidava da criança, era uma ama. As contingências sociais hoje e da época de Winnicott são outras, como a imersão da mulher no mercado de trabalho, impõe uma mudança na relação de presença-ausência no dualismo mãe-filho.

E é nesse ponto, da relação dualística, que a educação institucionalizada primária adquire maior importância, pois está lidando com a inserção de uma nova pessoa em um ambiente social/público e não familiar/privado. Isso é consequenciado com a ampliação da família ‘para cima’, conforme nos diz Winnicott. Nas creches, as crianças aprendem/aperfeiçoam algo de inestimável valor para a psicoterapia winnicottiana: o brincar.

O brincar tem espaço e lugar. Ele denuncia as primeiras relações do sujeito com o mundo em que essa criança não tem pleno controle, como antes ocorria ilusoriamente no momento de ilusão de onipotência infantil, sendo a consequência desenvolvimental do objeto transicional, o primeiro objeto não-eu.

Essa experiência não se localiza fora do individuo como parte do não-eu, do repudiado/recalcado e verdadeiramente externo, mas também não se localiza internamente. O espaço é um espaço potencial entre a mãe e o bebê com um intruso terceiro elemento. O que está em jogo é a relação entre a realidade psíquica dinâmica e a experiência do controle de objetos reais, sendo esses paulatinamente reconhecidos como estando fora do corpo da criança. A professora diz e a criança repete: “Isso é do meu colega e não meu.”, em um momento onde a criança está amadurecendo o seu brincar. Topologicamente e durante a teoria do amadurecimento do autor, vemos que o brincar se localiza posteriormente ao objeto transicional e anteriormente ao aprendizado da cultura. É nesse ponto que a articulação com as outras pessoas é tão importante.

A brincadeira se insere, portanto, não somente nesse espaço imagético e edípico entre a mãe e a criança, e que nas creches se mostra através de um tipo particular de transferência em relação aos cuidadores, mas também nas relações de demanda e atenção, que agora tem que ser socialmente partilhada com as outras crianças. Aqui se ressalta o papel importante dos cuidadores-terapeutas como aqueles responsáveis para lidar com essas emoções emergentes e instáveis do brincar.

Proponho ilustrar a posição do brincar dentro da lógica mencionada nos dois últimos parágrafos sobre o amadurecimento da criança.


Linha do Amadurecimento normal

Unidade mãe-bebê



Brincar

Cultura (tradição herdada)

Espaço potencial entre o sujeito e o meio social.

Objeto transicional

Instituição educacional primária, irmãos, pai, família, contato com diferentes pessoas



Mundo externo(mãe) percebido como tal;simbolização da relação mãe-bebê

A relação entre o brincar e o desenvolvimento psíquico normal de uma criança pode ser representada pelo desenho abaixo, onde o brincar se fixa no meio. A intrusão vertical da brincadeira, ocorrida com finalidades civilizatórias na família e nas instituições primárias, engendra o jogo da descoberta do que faz parte do eu e do que é o mundo do não-eu.


BRINCAR2

INTERNO

EXTERNO

ESPAÇO POTENCIAL MÃE-BEBÊ1 /MEIO SOCIAL2

OBJETO TRANSICIONAL1


1 Momento cronologicamente primeiro

2 Momento cronologicamente segundo

Conclusão

Após essa análise sobre as consequências psicoemocionais da criança no ambiente institucional primário e do papel que a brincadeira estabelece com o desenvolvimento psíquico, termino o resumo com as algumas das consequências clínicas apontadas pelo autor sobre o brincar. Vale ressaltar, contudo, que uma das preocupações clínicas do psicanalista era também com aquelas crianças que privadas da habilidade de brincar, por não ter sido criativamente influenciado. Eu cito: “Se o bebê não receber essa oportunidade [de descobertas de objetos reais], então não existirá área onde se possa brincar, ou ter experiência cultural, disso decorrendo que não existirão vínculos com a herança cultural, nem contribuição para o fundo cultural.”(WINNICOTT, 1975, p.141). Aqueles bebês que tiveram poucas experiências positivas na infância, onde a relação de transferência com os pais é fraca. Essas mesmas crianças que muitas vezes não aprenderam o valor do brincar. Contudo, esse não é o enfoque desse trabalho.(WINNICOTT,1958)

Em outro artigo, o psicanalista nos diz que psicoterapia nada mais é do que a união do brincar do terapeuta e do cliente (WINNICOTT,1975). O trabalho do terapeuta é, portanto, tentar fazer a movimentação de um estado de não brincar do paciente para um estado onde a brincadeira é possível, onde o imaginário e o simbólico lacaniano se articulam com a brutalidade metafórica do trem kleiniana.

Bibliografia

WINNICOTT, Donald Woods. La observación de niños en una situación fija, 1941

WINNICOTT, Donald Woods A localização da experiência cultural. Rio de Janeiro: Imago editora, 1975.

WINNICOTT, Donald Woods. A criança e o seu mundo. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1982.

WINNICOTT, Donald Woods. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago editora, 1975.

WINNICOTT, Donald Woods. El primer año de vida, 1958

1958a: Collected Papers: Through Paediatrics to Psycho-Analysis. London,

Tavistock. Tradução brasileira: Textos selecionados da psiquiatria à psicanálise.



Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1978.
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