O apartamento Fatídico A. A. Fair



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O Apartamento Fatídico

A. A. Fair

I - Noite Agitada


Fui acordado às três da manhã pelo ruído de uma lata a rebolar no empedrado do passeio. Um momento mais tarde, uma voz de mulher, aguda e penetrante, gritou: “Não vou contigo! Estás a compreender?”

Voltei-me para o outro lado e tentei mergulhar, de novo, no esquecimento do sono. A voz da mulher perseguiu-me, ferindo-me os tímpanos. Não consegui ouvir a voz do homem com quem ela discutia.

A atmosfera estava carregada de umidade. A cama era grande, de quatro colunas no estilo antigo, e estava encostada à parede mais afastada de um quarto de tecto alto. Enormes janelas francesas abriam para uma varanda protegida por uma grade de ferro forjado. Esta varanda estendia-se por sobre o passeio, ultrapassando-o. Do outro lado da rua, mesmo em frente, ficava o Bar de Jack O’Leary. Quando havia experimentado fechar as janelas, o ar, pesado e úmido, tinha tornado a atmosfera do quarto sufocante. Quando abri as grandes janelas, os ruídos do velho Bairro Francês de Nova Orleães chegaram até mim.

O som da voz aguda cessou repentinamente e eu tentei adormecer uma vez mais. Depois um novo ruído se fez ouvir. Alguém tinha começado a dar pequenos toques no claxon de um automóvel. Passado um pouco foi a vez de outro claxon.

Levantei-me, enfiei os pés numas chinelas e, aproximando-me da janela aberta, olhei para o Bar de Jack O’Leary. A julgar pelas aparências, um estouvanado qualquer havia saído do bar para ir buscar o carro a fim de vir recolher os restantes elementos do seu grupo. Apoiou no claxon durante um bocado e depois deu uma série de toques curtos para que os seus companheiros - e toda a gente das redondezas - soubessem que ele estava ali. Enquanto ele bloqueava a rua, outro automobilista atrás dele desejava passar. Aproximaram-se mais carros. Em breve toda a rua ecoava ao som de um tumultuar de buzinas. Quando a impaciência na retaguarda do automobilista que bloqueava a rua se tornou mais insistente, este tentou apressar os seus companheiros, encostando a palma da mão ao botão do claxon e conservando-a ali.

Era uma rua de sentido único, com parque autorizado de ambos os lados, deixando apenas um corredor no centro para escoamento do tráfego. Neste momento a fila de carros aumentara já consideravelmente. O barulho era insistente, ensurdecedor. Três pessoas saíram despreocupadamente do Bar de Jack O’Leary: um homem alto e desempenado em trajo de noite, e que parecia não ter muita pressa, e duas raparigas de vestidos compridos que arrastavam pelo chão. As duas falavam ao mesmo tempo, olhando por cima do ombro para o interior do bar profusamente iluminado. O homem fez um gesto para o condutor do automóvel. O som das buzinas tornou-se infernal. O homem atravessou calmamente o passeio, entrou na zona de tráfego e, com gestos medidos, abriu a porta de trás do carro, conservando-a galantemente aberta. Passado um pouco uma das mulheres juntou-se a ele. A outra deu meia volta e olhou para a porta do bar. Um homem gordo, em fato de passeio, com um copo na mão, saiu para lhe falar. As duas pessoas que estavam a provocar a procissão de carros pareciam completamente alheias ao que se passava à sua volta. Falavam com todo o à-vontade. O homem tirou um lápis de uma algibeira, pescou uma agenda noutra e depois olhou em redor em busca de um lugar onde pudesse pousar o copo. Quando verificou que não havia nenhum, tentou segurar o copo e a agenda com uma só mão enquanto escrevia. Finalmente conseguiu o que desejava. A rapariga levantou um pouco a saia, atravessou despreocupadamente o passeio e entrou no carro. Seguiu-se um bater de portas. O condutor do carro parecia sentir que reduziria a demora que causara arrancando com o acelerador a fundo. À esquina meteu uma segunda. A corrente de tráfego começou a mover-se.

Olhei para o relógio. Três e quarenta e cinco. Fiquei junto da janela durante meia hora, pois não me apetecia fazer mais nada. Não podia voltar a dormir. Bertha Cool devia chegar no comboio das sete e vinte. Havia-lhe dito que a iria esperar à estação. Durante aquela meia hora, ao observar as pessoas que saíam do Bar de Jack O’Leary, fiquei com a certeza de que podia adivinhar a espécie de qualquer potencial barulho antes que ele se manifestasse. Havia o número dos quatro parceiros que ficavam no passeio a discutir em altas vozes qual seria a próxima escala. Geralmente estes grupos dividiam-se em dois partidos: o que desejava ir já para casa e o que afirmava que a noite ainda mal começara. Havia outras pessoas que tinham travado conhecimento no bar. Aparentemente, jamais ocorria a qualquer delas informar-se do nome, morada e número do telefone do novo conhecimento antes de chegar à rua. Nessa altura a falta era remediada entre grande risota, apertados abraços de despedida e repetidos “adeus” gritados a plenos pulmões. Havia ainda outros grupos cujos principais componentes eram as raparigas que não queriam ser seduzidas e as mulheres casadas que não estavam para regressar a casa tão cedo. É claro que havia barulho no interior do bar. As pessoas que saíam e ficavam no passeio a conversar tinham que gritar para se fazerem ouvir.

Seguindo o costume do Bairro Francês de Nova Orleães, havia recipientes de lata para o lixo nos passeios. Toda a gente, ao passar por eles, se achava na obrigação de dar um pontapé numa das tampas para a fazer rebolar com enorme ruído ao longo da rua.

Passada esta meia hora, afastei-me da janela, sentei-me numa cadeira e deixei errar a vista pelo apartamento meio iluminado. Roberta Fenn vivera nesta mesma casa uns três anos antes. Havia-a alugado sob um nome suposto; depois sumira-se no ar. Cool & Lam - Investigações Confidenciais, havia sido encarregada de a descobrir. Sentado na quente penumbra, tentei reconstituir a vida que Roberta Fenn teria levado. Devia ter ouvido os mesmos ruídos que eu estava a ouvir. Devia ter comido nos restaurantes da vizinhança, freqüentado os bares e talvez passado algum tempo no estabelecimento de Jack O’Leary. A atmosfera pesada, quase tropical, fazia aumentar o calor da noite. Deixei-me cair numa modorra intermitente.

As cinco e trinta despertei o bastante para me dirigir para a cama aos tropeções. Nunca na minha vida sentira tanto sono. Os últimos foliões tinham ido já para casa e a rua gozava agora um intervalo de quietude. Mergulhei imediatamente num sono profundo mas logo a seguir a campainha do despertador acordou-me de novo. Seis e meia! Tinha que ir encontrar-me com Bertha Cool às sete e vinte.


II - Secção «Pessoal»
Tive a certeza que o homem que acompanhava Bertha Cool era o advogado de Nova Iorque. Era um sujeito alto e bem vestido, de braços compridos e cinqüenta e muitos anos. O dentista tentara tornar-lhe o rosto mais largo quando lhe fabricara as placas dentárias.

Bertha Cool devia continuar nos seus conservadores setenta e cinco quilos. O seu rosto crestado pelo sol contrastava com o cabelo grisalho. Dirigiu-se ao meu encontro quase a correr, obrigando o advogado de Nova Iorque a dar largas passadas para se manter ao seu lado. Dei uns passos com a mão estendida. Bertha analisou-me rapidamente com os seus duros olhos cinzentos.

- Meu Deus, Donald - disse ela, você tem o aspecto de quem se embebedou durante uma semana seguida.

- Foi o despertador.

- Você não teve que se levantar mais cedo do que eu - rosnou Bertha. - Apresento-lhe o Sr. Emory Hale, Emory Garland Hale, o nosso cliente.

- Muito prazer em conhecê-lo, Sr. Hale.

Ele olhou-me de cima para baixo e mostrou uma expressão escarninha ao apertar-me a mão. Bertha reconheceu a expressão, pois já a observara no rosto de outros clientes.

- Não faça um juízo errado do Donald – preveniu ela. - Pesa uns sessenta quilos vestido, com as chaves e limpa-unhas nos bolsos, mas tem um cérebro de bom tamanho e alma de leão.

Hale sorriu com a espécie de sorriso que eu já esperava dele. Com todo o cuidado fez assentar a dentadura de cima na de baixo e depois repuxou os lábios; era provavelmente um maneirismo estudado, mas que nos levava a pensar que ele tinha receio de que as placas caíssem se ele lhes desse uma oportunidade.

- Onde podemos conversar? - perguntou Bertha.

- No hotel. Aluguei os quartos com antecedência porque nesta época a cidade está cheia de turistas.

- Óptimo - comentou Bertha. - Já descobriu alguma coisa, Donald?

- Depreendi pela carta que me escreveu para a Florida que o Sr. Hale me daria todos os pormenores antes de eu começar as investigações.

- E vai dar. Na carta, eu indicava-lhe, de uma maneira geral, o que se pretendia. Você já cá deve estar há três dias.

- Um dia e duas noites.

Hale sorriu. Bertha ficou impassível.

- Tem aspecto disso - resmungou ela.

Um táxi levou-nos a um moderno hotel, situado na zona comercial da cidade e que não destoaria em qualquer grande capital. Nada indicava que o romântico Bairro Francês distava dali apenas uns seis quarteirões.

- Miss Fenn esteve aqui hospedada? – perguntou Hale.

- Não. Esteve no Monteleone.

- Quanto tempo?

- Cerca de uma semana.

- E depois?

- Saiu e nunca mais voltou. Sumiu-se no ar.

- Não levou a bagagem consigo?

- Não.


- Apenas uma semana - comentou Hale. – Não posso acreditar nisso.

- Tenho de ir tomar banho - disse Bertha. – Ainda não comeu o pequeno-almoço, amorzinho?

- Não - respondi.

- Você parece um homem desprezado por Deus.

- Lamento.

- Não está doente, pois não?

- Não.

- Vou até ao meu quarto - interveio Hale – para lavar-me e escovar o fato. Creio que também vou fazer novamente a barba, pois julgo que a não fiz convenientemente esta manhã no comboio. Até breve, não?



- Até de aqui a meia hora - respondeu Bertha.

Hale concordou com um gesto e dirigiu-se, ao longo do corredor, para o seu quarto. Bertha voltou-se para mim:

- Está a esconder alguma coisa?

-Estou.


- Por quê?

- Desejo que Hale me diga mais coisas antes de eu lhe revelar tudo.

- Por quê?

- Não sei, talvez um palpite.

- Que factos está a esconder?

- Roberta Fenn - comecei - esteve hospedada no Hotel Monteleone. Havia encomendado um vestido para lhe ser enviado ao domicílio. Pagou vinte dólares no acto da compra, ficando a dever dez. O vestido chegou depois de ela ter partido. Ficou no hotel cerca de uma semana e depois a gerência devolveu-o à procedência. Tinham o registro desse facto num dos livros.

- Bem - interrompeu Bertha com impaciência isso nada nos diz.

- Três ou quatro dias após o vestido ser devolvido, Miss Fenn telefonou para o armazém e pediu para enviarem o embrulho para Edna Cutler, na Rua de S. Pedro. Miss Fenn deixaria o dinheiro a Miss Cutler para pagamento no acto de entrega.

- Quem era Edna Cutler?

- Roberta Fenn.

- Tem a certeza?

- Tenho.


- Como descobriu isso?

- A mulher que alugou o apartamento identificou a fotografia.

- Por que motivo Roberta Fenn teria feito uma coisa dessas?

- Não faço idéia. Mas há mais.

Abri a carteira, tirei dela um anúncio que havia recortado de um jornal da manhã e entreguei-o a Bertha.

- O que é isto? - perguntou ela.

- Um anúncio que aparece diariamente no jornal desde há dois anos. O jornal não quis dar qualquer informação a este respeito.

- Leia alto - pediu Bertha. - Tenho os óculos na carteira.

O anúncio rezava: Rob F. Favor comunica comigo. Não deixei de amar-te nem um minuto depois que partiste. Volta, querida P. N.

- Publicado durante dois anos! - exclamou Bertha.

- Exactamente.

- Você pensa que Rob F. é Roberta Fenn?

- Podia ser.

- Vamos contar isto tudo a Hale?

- Por enquanto não. Deixemos que ele nos conte primeiramente o que sabe.

- E você nem ao menos lhe dirá qualquer coisa a respeito deste anúncio?

- Por enquanto não. Ele já lhe passou um cheque?

Os olhos de Bertha despediram chamas de indignação.

- Por quem diabo me toma você? Claro que me passou um cheque.

- Muito bem. Informemo-nos primeiramente do que ele sabe e, mais tarde, contar-lhe-emos nós o que sabemos.

- E quanto ao tal apartamento? Podemos ir até lá dar uma vista de olhos?

- Claro que sim.

- Tem a certeza?

- Tenho.


- Sem levantar suspeitas?

- Sim. Dormi lá a noite passada.

- Você dormiu... ?

- Exactamente.

- Como conseguiu isso?

- Aluguei-o por uma semana.

O rosto de Bertha escureceu.

- Meu Deus, você deve pensar que a agência nada em dinheiro! Logo que o deixo à vontade, você começa a gastar a torto e a direito. Poderíamos conseguir a mesma coisa, dizendo à senhoria que pretendíamos alugar e...

- Bem sei - interrompi - mas quero passar o lugar a pente fino para ver se ela deixou lá alguma coisa, qualquer pista que nos indique o que aconteceu.

- Descobriu alguma coisa?

- Não.

Bertha resmoneou.



- Você teria feito melhor se tivesse ficado aqui e dormisse descansadamente. Muito bem, ponha-se a andar para que Bertha possa lavar-se. Aonde vamos comer?

- A um certo sítio. Já alguma vez comeu pudim de nozes?

- O quê?

- Pudim recheado de nozes.

- Nunca, Bom Deus! Gosto de comer as coisas que têm nomes decentes. Vou despedir-me deste hotel e alojar-me nesse apartamento. Assim já não será uma perda de dinheiro. Quando se trata de dinheiro, você...

Saí para o corredor, O barulho da porta a fechar-se cortou o resto da frase.


III - Um Trabalho Difícil
Hale afastou o prato para arranjar um espaço livre na mesa à sua frente.

- Vou apanhar o avião das dez e meia para Nova Iorque - disse ele - e por tal motivo tenho de falar enquanto a Srª. Cool acaba o seu pudim, se é que a senhora não se importa?

Bertha Cool com a boca cheia, pois começara a atacar o segundo pudim, conseguiu articular:

- À vontade.

Hale pegou na pasta, colocou-a sobre os joelhos e abriu-a.

- Roberta Fenn tinha vinte e três anos em 1939. Isso faz com que actualmente tenha cerca de vinte e seis. Tenho aqui mais algumas fotografias; creio que a Srª. Cool lhe enviou algumas por avião, Lam.

- Sim, tenho-as comigo.

- Bem, aqui tem mais algumas que a mostram em diferentes poses.

Meteu a mão na pasta, tirou um sobrescrito e entregou-mo.

- Tem aí também uma descrição mais pormenorizada. Altura: um metro e sessenta e dois; peso: cinqüenta quilos; cabelo castanho; olhos castanhos; dentes regulares; pele fina e morena.

Bertha Cool captou a atenção da criada preta e fê-la aproximar-se.

- Quero mais um desses pudins de nozes – disse ela.

- Está a procurar que os vestidos que pôs de parte o ano passado lhe sirvam novamente? - perguntei.

Ela tornou-se imediatamente belicosa.

- Cale-se! Julgo que... - Lembrou-se que um cliente estava na sua presença e conseguiu disfarçar o seu mau humor. - Apenas como bem uma vez por dia explicou a Hale com uma expressão que não era bem um sorriso. - Geralmente é ao jantar, mas se comer bem ao almoço como um jantar mais leve e o resultado é o mesmo.

Hale observou-a demoradamente.

- A senhora tem um peso conveniente a uma boa saúde - disse ele. - É uma pessoa vigorosa e musculada. É realmente surpreendente a sua energia.

- Bem, continue a expor os factos - disse Bertha. - Desculpe por o termos interrompido. - Voltou-se para mim e acrescentou. - E a verdade é que não pus os vestidos de lado. Estão muito bem arrumados num guarda-vestidos.

- Bem, vejamos - começou Hale. - Ah, sim, Roberta Fenn tinha vinte e três anos quando desapareceu. Era modelo em Nova Iorque. Posava para anúncios. Nunca conseguiu grande coisa. Tinha umas pernas maravilhosas. Fazia anúncios de meias, fatos de banho e roupas interiores. Parece incrível que uma rapariga tantas vezes fotografada possa ter desaparecido.

-As pessoas não olham para as caras dos modelos que anunciam roupas interiores - sentenciou Bertha.

- Aparentemente foi um desaparecimento voluntário - continuou Hale - se bem que não saibamos o motivo. Nenhum dos seus amigos nos consegue dar qualquer esclarecimento. Não tinha inimigos nem dificuldades financeiras e, segundo o que se averiguou, não havia qualquer razão para ela desaparecer tão subitamente, pelo menos os motivos vulgares.

- Intriga amorosa? - perguntei.

- Aparentemente, não. A característica predominante desta jovem era a sua completa independência. Gostava de viver a sua própria vida. Era muito discreta sobre a sua vida particular, mas as suas amigas afirmam categoricamente que era demasiadamente independente para ter confidentes. Era uma rapariga que se bastava a si própria. Quando saía com um homem, ia sempre à vontade, sem sentir quaisquer espécies de obrigações.

- Isso é levar a noção de independência demasiadamente longe - afirmou Bertha.

- Qual o motivo por que a procuram agora? - perguntei. - Por outras palavras, por que motivo deixaram o caso no olvido durante três anos e depois começam afanosamente a procurá-la, contratam detectives para virem a Nova Orleães, fazem dispendiosas viagens de avião e...

As duas filas regulares de dentes brilharam na minha direcção. Hale acenava com a cabeça e sorria.

- Um rapazinho muito esperto - disse ele para Bertha. - Muito esperto realmente! Já reparou? Pôs o dedo mesmo em cima da ferida.

A criada trouxe o terceiro pudim de Bertha. Esta juntou-lhe duas formas de manteiga.

- Tem molho de manteiga naquele frasco, madame - disse a criada.

Bertha despejou o frasco de molho sobre o pudim, espalhou-o bem e disse:

- Traga-me outra chávena de café e torne a encher o frasco do molho. - Voltou-se para Hale. - bem lhe disse que Donald tinha muitos miolos.

Hale aquiesceu.

- Estou muito satisfeito com a escolha que fiz da agência. Tenho a certeza que vão conduzir o caso satisfatoriamente.

- Não quero parecer insistente, Sr. Hale, mas...

Ele deu uma gargalhada. Os dentes quase lhe caíram.

- Bem sei, bem sei - disse ele. - Você quer voltar à pergunta inicial. Bem, Sr. Lam, vou responder-lhe. Desejamos encontrá-la a fim de encerrarmos uma questão de partilhas. Lamento, mas não posso dizer-lhe mais nada. No final de contas, como deve saber, estou a trabalhar para um cliente. Sou obrigado a guiar-me pelos seus desejos. Seria bom que o senhor adoptasse uma atitude semelhante.

Bertha engoliu o pedaço de pudim que tinha na boca com a ajuda de uma golada de café quente.

- Quer o senhor dizer - perguntou ela - que ele não pode fazer investigações sobre o passado, a fim de descobrir o que se passa?

- O meu cliente tomará providências para que os senhores recebam as informações necessárias – respondeu Hale - e, em virtude de ele ser realmente quem paga... Bem, creio que os senhores compreenderão perfeitamente que seria muito embaraçoso se houvesse qualquer atrito no caso.

Bertha voltou-se na minha direcção com o sobrolho franzido.

- Fixe bem isto, Donald - preveniu ela. – Não comece a expor uma quantidade de teorias. Limite-se ao caso que tem entre mãos. Descubra o paradeiro dessa rapariga e não se preocupe com a identidade de quem a procura. Compreendeu? Esqueça esse ângulo romântico do caso.

Hale olhou-me rapidamente para ver como eu reagia. Depois fitou Bertha.

- Isso explicou claramente o que eu pretendia dizer, Srª. Cool.

- Bem sei - respondeu Bertha. - O senhor fez um grande discurso. Agora já está tudo explicado. Desta forma não haverá mal entendidos. Não gosto de desperdiçar palavras.

- A senhora é uma mulher muito positiva – afirmou Hale.

Houve um momento de silêncio.

- Que mais pode dizer-me a respeito de Roberta Fenn? - perguntei.

- Dei à Srª. Cool a maior parte dos pormenores quando vínhamos no comboio - respondeu Hale.

- Roberta Fenn tinha parentes próximos?

- Não.


- O senhor ainda procura encontrá-la a fim de encerrar uma questão de partilhas?

Hale pôs a sua enorme mão no meu braço num gesto paternal.

- Ouça, Lam, creio que fui bastante claro a esse respeito.

- Foi, sim senhor - assentiu Bertha. - Deseja um relatório diário?

- Desejo, sim.

- Onde se encontrará?

- No meu escritório em Nova Iorque.

- Supondo que a encontramos?

- Francamente - respondeu Hale - duvido que o consigam. É uma pista antiga e um trabalho difícil. Se a encontrarem, terei muito prazer. Participar-me-ão imediatamente, é claro. Tenho a certeza que o meu cliente reconhecerá o vosso trabalho com generosidade, pagando um bónus.

Hale olhou em volta cautelosamente.

- Creio ser meu dever dizer-lhes mais uma coisa. Não falem no caso com ninguém. Façam com que as vossas investigações pareçam casuais. Se tiverem que fazer perguntas directas, façam-nas de forma a não levantarem suspeitas. Comportem-se como um amigo que deseja saber o paradeiro de outro amigo. Aconteceu passarem por Nova Orleães e um amigo comum lembrou-vos para procurarem Roberta Fenn. Façam com que tudo pareça casual e absolutamente natural. Não sejam muito bruscos e não deixem qualquer rasto.

- Deixe isso ao nosso cuidado - disse Bertha.

Hale consultou o relógio de pulso e depois chamou a criada.

- A conta, se faz favor.


IV – Simplicíssimo
Bertha Cool examinou o apartamento, metendo o nariz nos cantos mais recônditos, como seria de esperar da sua condição de mulher.

- Bem bom este mobiliário antigo - comentou.

Nada respondi e ela acrescentou passado um pouco:

- Para quem gosta.

Aproximou-se da janela, olhou para além da varanda, voltou a olhar para a mobília e disse:

- Eu não.

- Por quê? - perguntei.

- Meu Deus, Donald, faça uso da cabeça! Durante anos andei a pesar mais de cento e vinte quilos. Era convidada continuamente por alguém que me indicava como assento uma cadeira Luís XV, uma daquelas coisas de pernas finas, assentos estreitos e encostos de formas esquisitas.

- Sentava-se nelas?

- Sentava-me nelas uma figa! Teria apreciado que as donas de casa soubessem usar a cabeça, mas nenhuma o fazia. Levavam os convidados para a sala de jantar e eu tinha que ficar de pé a olhar para aquilo que me era indicado como assento. Em vez de tomarem qualquer providência, essas idiotas ficavam também de pé a olhar para mim e depois para a maldita cadeira. Poder-se-ia pensar que era a primeira vez que se davam conta que eu tinha de me sentar quando comia. Uma delas disse-me depois que ficara sem saber o que fazer, pois receava que eu ficasse melindrada se me mandasse buscar outra cadeira. Respondi-lhe que isso não me melindraria nem metade do que sentar-me num daqueles bolos com pernas meramente ornamentais onde eu ficaria como um acordeon. Odiava o género.

Examinámos o apartamento um pouco mais. Bertha Cool pegou numa poltrona, experimentou-lhe a resistência e finalmente sentou-se à vontade; abriu a carteira, pescou um cigarro e deu um suspiro.

- Não vejo em que estejamos agora mais adiantados do que quando começámos.

Não respondi. Bertha riscou um fósforo na sola do sapato, acendeu o cigarro e depois olhou para mim belicosamente.

- E então? - perguntou.

- Ela viveu aqui.

- E isso que tem?

- Viveu aqui sob o nome de Edna Cutler.

- E que diferença faz isso?

- Sabemos onde ela viveu. Sabemos o nome que usava. Durante o tempo que aqui permaneceu, choveu muito em Nova Orleães. Ela tinha que ir comer fora. Nos dias de chuva, principalmente, não podia ir muito longe. Há dois ou três restaurantes nas redondezas. Vou investigar por lá a ver se descubro alguma coisa.

Bertha olhou para o relógio de pulso. Levantei-me, aproximei-me da porta e saí. Havia um lanço de escadas que davam para um pátio e depois um corredor comprido. Voltei em ângulo recto para outro pátio e desemboquei na Rua Royal. Fui até à esquina e vi um letreiro: Casa Bourbon. Aproximei-me. Era um restaurante típico do verdadeiro Bairro Francês, não o género que atrai os turistas, mas sim um lugar onde os preços eram baixos e a comida boa. Não havia rendas nas janelas, nem cortinados para criar ambiente, pois era um restaurante para clientes habituais. Vi que tinha acertado. Quem quer que vivesse naquela parte do bairro iria ali com regularidade. Aproximei-me de uma porta que dava para o bar, depois voltei-me para a sala onde estava o balcão de serviço de restaurante, duas máquinas de jogos mecânicos e um juke box (1).

- Deseja alguma coisa? - perguntou o homem que estava por detrás do balcão.

- Um café e trocos para jogar - respondi, atirando quatro moedas para cima do balcão.

O homem deu-me os trocos e serviu o café. Havia dois ou três homens em volta de uma das máquinas. Depreendi pela conversa que mantinham que eram fregueses habituais. O aparelho gira-discos começou a trabalhar. Ouviu-se uma voz feminina.

- Peço o favor da vossa atenção. Esta canção é dedicada à gerência.

Em seguida o aparelho começou a tocar ”Descendo o Rio Swanee”. Tirei da algibeira as fotografias que Hale me tinha dado. Enquanto tomava o café soltei uma exclamação de aborrecimento.

- O café não está bom? - perguntou o homem que estava por detrás do balcão.

- Não é isso - respondi. - O que não está bom é este negócio das fotografias.

Ele pareceu intrigado, mas o seu rosto denotava simpatia.

- O fotógrafo enganou-se - continuei. - Entregou-me uns retratos que não são meus e deve ter dado os meus a outra pessoa.

Não havia mais ninguém junto do balcão naquele momento. O homem esticou o pescoço e, de uma forma natural, arranjei maneira de ele ver as fotografias.

- Naturalmente já não remedeio nada - lamentei-me. - Certamente misturaram as películas e deram as minhas a outra pessoa.

- Talvez tenham trocado as encomendas – disse ele. - O senhor ficou com as fotografias desta rapariga e ela com as suas.

- Isso não remedeia nada. Como posso descobrir quem ela é?

- Espere! - exclamou ele. - Já vi essa rapariga! Creio que ela vinha aqui comer uma vez por outra. Um momento, se faz favor. Vou perguntar a um dos rapazes.

Chamou com um gesto um dos criados pretos e passou-lhe uma das fotografias.

- Quem é esta rapariga?

O criado pegou na fotografia, voltou-a para a luz e disse instantaneamente:

- Não sei o nome dela, mas há dois anos ela vinha aqui comer muitas vezes. Creio que agora já cá não vem.

- Saiu da cidade? - perguntei.

- Não, senhor. Creio bem que não. Vi-a na rua há questão de um mês. O certo é que não tem vindo aqui.

- Bem - comentei - pode ser que o fotógrafo a conheça. Dá a impressão que ela esteve lá recentemente com um rolo de películas para revelar.

- Julgo que sim e vou dizer-lhe onde a vi – disse o criado preto. - Vi-a mais ou menos um mês a sair do Bar de Jack O’Leary. Estava acompanhada.

- Um homem? - perguntei.

- Sim, senhor.

- Não conheceu o homem?

- Não, senhor, não conheci. Era um homem alto, com uma pasta debaixo do braço e tinha mãos muito grandes.

- A idade?

- Talvez cinqüenta, talvez cinqüenta e cinco. Não me lembro muito bem, senhor. Era a primeira vez que o via. Lembrei-me apenas da cara da rapariga e do facto de ela não ter voltado aqui. Era eu quem a servia quando ela cá vinha comer.

- Pode dizer-me mais alguma coisa a respeito do homem?

O criado pensou um pouco.

- Sim, senhor - disse finalmente.

- O quê?


- Dava a impressão que tinha qualquer coisa na boca.

Não continuei o interrogatório. Paguei o café, aproximei-me da máquina e fiquei por uns momentos a observar os rapazes que jogavam. Passado um pouco saí. Dirigi-me ao Bar de Jack O’Leary. A essa hora não havia lá muita gente. Subi para um dos bancos e pedi um gin e Seven-Up (2). O empregado trouxe-me a bebida, atendeu outro cliente e depois veio na minha direcção.

- Que fotografia é esta? - perguntei, mostrando-lhe uma das provas que havia tirado da algibeira.

- Hum?


- Estava ali naquele banco, voltada para baixo. Julguei que fosse um papel qualquer e ia a deitá-lo abaixo. Depois vi que era uma fotografia.

Ele olhou demoradamente para o retrato e franziu o sobrolho.

- Deve tê-la deixado cair da carteira - continuei. - Deve ter sido alguém que esteve aqui há pouco tempo!

O homem abanou a cabeça enquanto continuava a pensar no caso.

- Não - respondeu finalmente. - Não esteve aqui há pouco tempo, mas conheço-a. Admira-me como essa fotografia apareceu aí. Ela já aqui esteve sim, mas há bastante tempo. Tenho a certeza que não foi hoje.

- Conhece-a?

- Conheço-a quando a vejo, mas não sei o nome dela.

Meti a fotografia na algibeira. Ele hesitou um momento como que a debater consigo próprio a moral da situação, depois afastou-se. Acabei a bebida, saí e parei à esquina da rua para reflectir em todo este caso. Havia um salão de beleza do outro lado da rua e um pouco mais abaixo. Uma mulher com ar de quem está sempre bem disposta e inclinada a conversar afavelmente aproximou-se da porta quando me viu girar a maçaneta.

- Deseja alguma coisa? - perguntou.

- Estou a procurar descobrir qualquer coisa a respeito de uma mulher - respondi. - Era uma cliente sua - acrescentei, apresentando-lhe a melhor fotografia de Roberta Fenn.

A mulher reconheceu imediatamente o retrato.

- Já aqui não vem há uns dois anos, segundo creio. Costumava cá vir com regularidade. Não me ocorre o nome, mas era uma boa cliente. Veio de Boston, Detroit ou de outra cidade qualquer do Norte. Creio que andava à procura de emprego quando cá veio a primeira vez, mas depois pareceu não interessar-se mais com isso.

- Talvez tenha arranjado trabalho.

- Não, não arranjou. Costumava vir cá num dia qualquer da semana e sempre a meio do dia. Via-a sair muitas vezes de casa por volta das onze horas e às vezes mais tarde ainda.

- Não sabe se ela ainda se encontra na cidade?

- Não penso que esteja, pois se assim fosse viria aqui. Éramos amigas... bem, ela gostava do meu trabalho e de conversar comigo. Creio que ela era... diga-me, qual é o seu interesse em saber estas coisas?

- Bem... eu... é uma linda rapariga. Significa muito para mim... Nunca devia tê-la perdido de vista.

- Oh! - A mulher sorriu. - Bem, desejaria ajudá-lo mas não posso. Tenho uma cliente à espera. Se ela aqui voltar, quer deixar algum recado para ela?

Abanei a cabeça.

- Se está na cidade, hei de descobri-la pelos meus próprios meios. - Sorri e acrescentei: - Creio que seria a melhor forma.

- Isso é verdade - retorquiu a mulher.

Desci a rua e dirigi-me a uma lavanderia. Era um estabelecimento com um balcão na sala de entrada. A outra parte da casa servia de residência. Estendi a fotografia e perguntei:

- Conhece esta rapariga?

A mulher que estava ao balcão olhou para a fotografia.

- Sim - disse ela. - Costumava vir aqui bastantes vezes. É Miss Cutler, não é?

- É. Sabe onde a posso encontrar?

- Não, não sei. Não sei dizer onde vive agora.

- Mas está na cidade, não está?

- Está, sim. Vi-a na rua aqui há... Deixe-me ver... Creio que foi há umas seis semanas. Não vou à rua muitas vezes, pois tenho sempre muito que fazer aqui.

- Em que rua a viu?

- Canal. Foi... Foi... Deixe-me ver... Por volta das cinco e meia da tarde e ela descia a rua. Não creio que me tenha reconhecido. Tenho uma boa memória para caras e vejo muitos clientes quando saio. - Sorriu. - Inúmeras vezes eles sabem que já me viram em qualquer parte, pois acostumaram-se a ver-me por detrás deste balcão. Nunca lhes falo a não ser que eles me falem primeiro.

Agradeci-lhe e voltei para o apartamento. Bertha Cool estava reclinada numa cadeira, fumando um cigarro e tinha um copo de whisky com soda numa mesinha colocada junto da cadeira.

- Que tal? - perguntou.

- Não adiantei grande coisa - respondi.

- É como procurar uma agulha em palheiro. Meu Deus, Donald, descobri um restaurante maravilhoso.

- Onde?


- Mesmo ao cimo desta rua.

- Julguei que já tinha tido a sua refeição do dia. Não sabia que estava com apetite. Voltei aqui só para lhe perguntar se queria comer qualquer coisa.

- Não, amorzinho, agora não. Descobri que passaria melhor se não me forçasse a mim mesma a passar tanta fome. Vou tomando umas coisinhas para não deixar que o apetite se torne insofrível.

Fiz um gesto de assentimento e esperei. Um brilho de satisfação apareceu nos olhos de Bertha. Toda ela sorria com excepção dos lábios.

- Frango com arroz - exclamou. - Pensei que era uma comida leve.

- E era?


- Era uma excelente comida, excelente.

- Comeu o suficiente? - perguntei. - Quer sair para comer mais qualquer coisa comigo?

- Não me fale mais em comida, Donald Lam! Já tenho a minha ração para hoje. Tomarei um pouco de chá e umas torradinhas ao deitar e será tudo por hoje.

- Bem - disse eu , nesse caso vou eu comer qualquer coisa e continuar com o trabalho.

- Posso ajudar em alguma coisa?

- Por agora, não.

- Não sei para que estou aqui - comentou Bertha.

- Nem eu.

- O advogado insistiu para que viesse. Disse que depois de você a descobrir eu poderia falar com ela melhor do que você. É ele quem paga e, portanto, resolvi aceder ao seu pedido.

- Muito bem.

- Seria magnífico se conseguíssemos aquela gratificação em que ele falou - disse Bertha.

- Era, não era?

- Como vão as coisas?

- Por enquanto não posso dizer nada. Bem, vou-me andando.

Voltei à Rua Royal e desci-a em direcção à Canal. Quando ia já a meio desta, uma idéia surgiu-me repentinamente. Entrei numa cabina telefônica e comecei a fazer chamadas para as escolas profissionais. A segunda deu-me todas as informações de que necessitava. Não, não tinham conhecido nenhuma Edna Cutler, mas uma Miss Fenn havia tirado um curso e fora uma aluna muito aplicada. Sim, haviam conseguido arranjar-lhe um emprego. Estava colocada num dos bancos da cidade. Era secretária do gerente. Se esperasse um momento dar-me-iam o endereço. Foi tão simples como isso.

O gerente do banco era um tipo simpático e humano. Disse-lhe que estava a tentar colher quaisquer informações que me habilitassem a fechar um processo de herança e pedia-lhe autorização para falar com a sua secretária. Respondeu-me que a mandaria ter comigo dentro de momentos. Roberta Fenn parecia exactamente como estava nos retratos. Teria provavelmente vinte e seis anos sob o ponto de vista estatístico, mas parecia ter uns vinte e dois ou vinte e três. Tinha um sorriso simples, um olhar inteligente e alerta e uma voz agradável e bem modulada.

- Precisa de qualquer informação minha? - perguntou. - O Sr. Black disse-me que o senhor deseja fechar um processo de herança.

- Exactamente - respondi. - Sou um investigador. Estou a tentar descobrir qualquer coisa sobre um homem que está relacionado com uma família de apelido Hale.

Os seus olhos mostraram-me que o meu tiro tinha falhado o alvo.

- Esse homem tem um parente de quem desconheço o nome, mas estou certo que a senhora o conhece - continuei. - Também não sei ao certo a maneira como ele está relacionado com a família Hale.

- Não sabe o nome desse homem?

- Não.


- Não tenho um número muito grande de conhecimentos nesta cidade - afirmou.

- Este homem é alto. Tem uma testa alta, sobrancelhas espessas e as suas mãos são muito finas e com dedos compridos e cônicos. Tem os braços muito compridos. Deve ter uns cinqüenta e cinco anos de idade.

Roberta Fenn tinha os sobrolhos franzidos numa atitude de concentração mental como se procurasse no arquivo da sua memória. Olhei-a bem de frente.

- Não sei se é apenas um hábito - acrescentei ou se os dentes não lhe servem nos maxilares. Sempre que sorri...

Notei uma mudança de expressão.

- Oh! - exclamou, dando uma gargalhada.

- Sabe de quem estou a falar?

- Sei. Por que motivo me procurou?

- Ouvi dizer que ele estava em Nova Orleães e que a procurara por causa de um negócio qualquer.

- E não sabe o nome dele?

- Não.

- Chama-se Archibald Smith - disse ela. - É de Chicago. Está lá empregado numa companhia de seguros.



- Tem a direcção dele em Chicago?

- Não a tenho comigo. Está em minha casa, escrita numa carta.

- Oh!

Dei ao meu rosto uma expressão de desapontamento.



- Posso procurá-la e trazer-lha amanhã.

- Isso seria óptimo. Conhece-o há muito tempo. Miss Fenn?

- Não. Veio a Nova Orleães há umas três ou quatro semanas e demorou-se dois dias. Uma amiga minha havia-lhe dado uma carta para mim em que me pedia para lhe mostrar a cidade. Percorri com ele os locais mais típicos, sabe, os restaurantes, bares e outros lugares que os turistas desejam ver.

- O Bairro Francês? - perguntei.

- Oh, evidentemente.

- Suponho que para si, assim como para as pessoas que vivem cá, o lugar não tem atractivos, mas é interessante para os turistas.

- Sim - disse ela, sem tomar partido.

- Gostaria muito de entrar em contacto com o Sr. Smith. Tenho quase a certeza que ele está relacionado com a pessoa que procuro. Não seria possível dar-me a informação sobre o Sr. Smith esta noite?

- Mas... Bem, posso procurá-la quando for para casa.

- Tem telefone?

- Não. Há uma cabina no prédio, mas é difícil falar de lá. Posso, no entanto, fazer uma chamada de outro lugar.

Olhei para o relógio de pulso, um olhar que lhe lembrava ser ela uma empregada e que o seu tempo àquela hora pertencia ao banco. Vi-a tomar uma posição nervosa como se estivesse ansiosa por que a entrevista acabasse.

- Não desejo ser importuno - afirmei-lhe. - A sua casa fica perto daqui?

- Não. Fica quase no final da Avenida Charles.

- E se eu a esperasse num táxi à hora de encerramento do banco? - perguntei subitamente. - A senhora meter-se-ia nele e seguiríamos até sua casa. Poderia, assim, dar-me a informação de que necessito. Não levará tanto tempo num táxi como se fosse de carro eléctrico...

- Muito bem - cortou ela. - A minha saída é às cinco.

- O banco já está fechado a essa hora?

- Evidentemente.

- Onde devo estar à sua espera, visto o banco não estar perto?

- Mesmo em frente daquela porta.

- Muito obrigado, Miss Fenn. Agradeço imenso a sua boa vontade.

Levantei o chapéu, saí do banco, dirigi-me para o hotel, pus à porta o letreiro NÃO ME INCOMODEM, liguei para a telefonista, pedi-lhe para me chamar às quatro e meia e meti-me na cama para um sono de duas horas.


V - Um Procedimento Muito Invulgar
Roberta Fenn saiu mesmo à tabela. Vinha elegante, firme e airosa. Os seus olhos castanhos e francos pareciam divertir-se com qualquer coisa. Fiz um sinal ao condutor cujo táxi esperava junto do passeio e ele saiu e abriu a porta. Recostada na almofada do carro, Roberta lançou-me um rápido olhar.

- O senhor é realmente um detective? - perguntou.

- Hum, hum.

- Sempre tive umas certas idéias a respeito dos detectives.

- Que espécie de idéias?

- Bem, imaginava-os muito grandes e cheios de força, tentando amedrontar as pessoas, ou então indivíduos sinistros sob disfarces.

- É sempre arriscado generalizar.

- O senhor deve ter uma vida excitante.

- Julgo que tenho, se você deixar de pensar da forma que pensa.

- Acontece-lhe algumas vezes?

- O quê?

- Deixar de pensar daquela forma.

- Provavelmente não, segundo o seu ponto de vista.

- Por quê?

- Não creio que uma pessoa possa realmente deixar de analisar a vida que leva, a menos que esteja descontente com ela. Contudo, por mim, tomo as coisas como elas são e não comparo a minha espécie de vida com outras.

Ela pensou durante algum tempo.

- Creio que tem razão - disse finalmente.

- Como?


- Acerca de não se pensar na própria vida a menos que se esteja descontente com ela. Há quanto tempo é detective?

- Dá-me a impressão que há já muito.

- Começou a sua vida dessa forma?

- Não. Comecei como advogado.

- O que o fez desistir? Não conseguiu acabar o curso?

- Acabei e obtive licença para advogar.

- E depois?

- Depois, tiraram-me a licença.

- Por quê?

- Descobri um furo na lei pelo qual um homem podia cometer um assassínio e ficar impune perante as autoridades.

- O que aconteceu? - perguntou ela profundamente interessada.

- Tiraram-me a licença de advogar.

- Bem sei, mas o que aconteceu depois de ter descoberto a maneira de cometer um assassínio... Sabe bem o que quero dizer.

- Não tenho essa certeza.

- Alguém cometeu o crime por essa forma e saiu impune?

- É uma história muito longa.

- Gostaria de a conhecer um dia.

- Quando me tiraram a licença – retorqui – disseram que eu era maluco, que a minha teoria não passava de um sonho, mas que demonstrava ser eu um tipo de mentalidade perigosa, e anti-social.

- E depois?

- Depois fui-me embora e provei-lhes que tinha razão.

- Quem cometeu o crime?

- Eles pensaram que fui eu.

Roberta Fenn encarou-o com ar belicoso.

- Oiça, julga que eu acredito em bruxas?

Depois, estudou-me com os seus inteligentes olhos castanhos.

- Diabos me levem, mas a verdade é que acredito em si - replicou à sua própria pergunta.

- Pode fazê-lo à vontade. Não tenho necessidade de mentir-lhe.

- E depois? O que disseram eles, as pessoas que pensaram que você era maluco?

- Oh, organizaram reuniões das várias ordens de advogados e começaram a estudar as emendas a fazer à lei para que ela deixasse de ter o furo.

- Conseguiram-no?

- Até um certo ponto. O furo a que me refiro está na Constituição. Não se pode revogar esta com muita facilidade.

- O senhor teria sido capaz de tapar o furo?

- Não.

- Por quê?



- Porque nunca se pode dizer qual será a atitude do Tribunal Supremo.

- A sua atitude não é regulada por normas rígidas?

- Costumam basear-se em casos precedentes. No assunto a que me refiro, conhecíamos a lei. Agora estão a procurar alterar o velho documento com uma revisão em forma. Isso, porém, nada remediará, pois não se sabe quais os princípios que serão modificados e aqueles que continuarão inalteráveis.

- Isso não é perigoso?

- Pode ser bom e pode ser mau. Varia. Demos uma sacudidela nas leis. Eventualmente, os novos juízes alterarão as leis de acordo com as suas idéias. Nessa altura os advogados saberão, de uma maneira geral, como aconselhar os seus clientes. No entanto, haverá bastantes especulações... O que me pode dizer a respeito do Sr. Smith?

Roberta Fenn deu uma gargalhada.

- Você muda de assunto com uma rapidez desconcertante, não?

- O que é desconcertante?

- Não pretendia sê-lo?

- Não.


- O que deseja saber a respeito dele?

- Tudo quanto me possa dizer.

- Isso é muito pouco. Dir-lhe-ei quando chegarmos a minha casa.

Percorremos em silêncio vários quarteirões.

- Você parece demasiadamente novo - disse ela.

- Não sou.

- Uns vinte e cinco anos?

- Mais.


- Não muitos mais.

Não respondi.

- Trabalha por conta de alguém?

- Fi-lo durante algum tempo. Agora tenho metade dos interesses na casa. Não poderíamos falar de outra coisa qualquer para variar? De Nova Orleães, de política? Da sua vida amorosa, talvez?

Roberta Fenn olhou-me inquisitivamente e sem o mínimo vestígio de um sorriso.

- O que tem a ver a minha vida amorosa com o caso?

- Dei-lhe a escolher vários assuntos de conversa, respondi. - Você não pareceu impressionada por nenhum com excepção do que diz respeito à sua vida amorosa. Está a tentar encobrir qualquer coisa? É a isto que se costuma chamar contra-ofensiva.

Ela ruminou durante um minuto. Vi que um sorriso voltava a fazer-lhe baixar os cantos da boca.

- Creio que realmente você é muito esperto. A jogada foi absolutamente perfeita.

Tirei um maço de cigarros da algibeira.

- Fuma? - perguntei.

Ela olhou para a marca.

- Sim, obrigada. - Tirou um, bateu-o sobre a unha do polegar e esperou que lhe desse lume. Acendemos ambos os nossos cigarros à chama do mesmo fósforo. O carro abrandou a marcha. Ela deitou a cabeça fora da janela e disse: - É aquele edifício, do lado direito.

- Desejam que espere? - perguntou o motorista quando lhe paguei.

Olhei para Miss Fenn.

- Acha que é melhor?

Ela hesitou apenas uma fracção de segundo.

- Não - exclamou, acrescentando logo em seguida: - Pode apanhar outro quando sair.

- Posso esperar dez minutos sem pôr o taxímetro a trabalhar - explicou o motorista. - Se desejam...

- Não - cortou Roberta Fenn com firmeza.

O homem levou a mão ao boné. Fiz-lhe um sinal de adeus e segui Roberta que atravessou o passeio, subiu um lance de escadas, abriu a caixa do correio, tirou duas cartas, olhou rapidamente para o remetente, meteu-as na carteira e depois introduziu a chave na fechadura da porta. Era um prédio sem elevador. O apartamento dela ficava no segundo andar. Era constituído por dois quartos, ambos pequenos.

- Sente-se - disse ela indicando-me uma cadeira. - Vou ver se descubro a carta da minha amiga em que me pedia para mostrar a cidade ao Sr. Smith. Vai levar-me um pouco de tempo.

Passou para o quarto ao lado e encostou a porta. Sentei-me, peguei numa revista, abri-a de forma a poder fingir que estava a ver qualquer coisa ao menor alarme e fiz um minucioso exame mental do apartamento. Roberta Fenn não morava ali há muito tempo. O lugar ainda não tinha qualquer particularidade que o ligasse à personalidade dela. Havia algumas revistas em cima da mesa. O nome dela impresso numa indicou-me que se tratava de uma assinante. Não havia qualquer outro exemplar nessas condições. Apostaria todo o meu dinheiro que ela não vivia ali há mais de seis semanas. Cinco minutos mais tarde saiu triunfantemente do quarto de dormir.

- Demorou um pouco - disse ela - mas consegui encontrá-la. O diabo é que o número da sala não está mencionado na carta. Pensei que estava, mas apenas fala no nome do edifício.

Tirei da algibeira um livro de notas e uma caneta. Roberta abriu a carta. Do lugar onde estava deu-me a impressão de ser letra de mulher.

- Archibald C. Smith está no... Ora bolas! Exclamou.

- Que se passa?

- Não está aqui mencionado o nome do edifício respondeu ela. - Pensei que estava. Tenho que ir ver no meu livrinho de endereços. Lembro-me agora que ele me deu a morada antes de se ir embora e eu apontei-a no meu livrinho. Um momento só!

Levando a carta consigo voltou ao quarto de dormir e regressou passados segundos, folheando as páginas de um pequeno livro de endereços. Pousou a carta em cima da mesa.

- Sim, cá está. Archibald Collington Smith, Edifício Lakeview, Boulevard Michigan, Chicago.

- Não tem o número da sala?

- Não. Neste ponto é que fiz confusão. Sabia que não tinha o número, apenas o nome do edifício.

- Disse-me que ele tinha um negócio qualquer lá?

- Sim. É um edifício de escritórios. Não tenho o endereço da sua residência.

- Qual foi o negócio que me disse a que ele se dedicava?

- Seguros.

- Ah, sim. Suponho que a sua amiga poderá dizer-me qualquer coisa sobre ele.

Fiz um gesto em direcção à carta. Ela deu uma gargalhada que me demonstrou ter caído na armadilha que me fora preparada.

- Presumo que poderia, mas se você anda à procura do Sr. Smith para encerrar um processo de herança, imagino que o próprio Sr. Smith poderá dizer-lhe tudo quanto você necessitar acerca do mesmo Sr. Smith.

- Sem dúvida que podia. - E depois acrescentei: - Essa é uma das dificuldades com que deparamos frequentemente, principalmente quando se trata de um nome tão vulgar como é o caso de Smith. Bem sabe, um indivíduo tentará sempre passar por a pessoa que procuramos na esperança de vir a receber o dinheiro. É por isso que gostamos sempre de investigar dos mais diferentes ângulos possíveis antes de o abordarmos directamente.

Os olhos de Roberta sorriam-me e depois, subitamente, ela riu francamente.

- Você soube recompor-se rapidamente, mas estou a ver que me toma por uma pateta.

- Essa agora!

- É a primeira vez na vida que ouço uma história de alguém que procura um herdeiro por essa forma. Geralmente, um advogado qualquer diz: “Agora, antes de podermos fechar este processo, temos que descobrir um certo Archibald C. Smith, filho de Frank Qualquer Coisa, que morreu em mil novecentos e tantos. As últimas referências que há de Smith dizem-nos que residia em Chicago e tinha lá um negócio de quinquilharias.” Nessa altura os detectives começavam a investigar e um deles vinha até mim e dizia: “Desculpe, Miss, mas por acaso conhece um certo Sr. Smith que tem em Chicago um negócio de quinquilharias?” E eu responderia: “Não, mas conheço um Sr. Smith que está em Chicago empregado numa companhia de seguros. Como é o homem que o senhor procura?” E o detective responderia. “Meu Deus, não sei. O que eu procuro é um nome.”

- E então? - perguntei.

- É isso mesmo que lhe pergunto.

- Quer dizer que o meu procedimento é invulgar?

- Exactamente, muito invulgar mesmo.

- É, não é? - disse eu com um sorriso.

O seu rosto tomou uma expressão de impaciência. Estava a preparar-se para me dar uma resposta à letra quando soaram pancadas na porta de entrada. A sua atenção desviou-se de mim para a porta, fitando esta com um olhar intrigado. Os batimentos repetiram-se. Ela levantou-se, foi até à porta e abriu-a. Uma voz de homem, aguda e impaciente, soou no patamar.

- Tinha-lhe dito que não me escaparia! Mas quis experimentar, não foi? Bem, minha querida, vou...

Eu não estava a olhar directamente para a porta nesse momento, mas quando o som da sua voz se sumiu, soube que ele fora entrando na sala enquanto falava e havia avançado o suficiente para me poder ver. Reconheci-o quase simultaneamente. Era o homem que saíra do Bar de Jack O’Leary naquela madrugada, por volta das três da manhã, e que fora o causador de todo o infernal buzinar de que eu havia sido uma testemunha. Roberta Fenn girou sobre si própria, olhou-me rapidamente e depois voltou-se para o recém-vindo.

- Venha cá fora por uns momentos para falarmos à vontade.

Quase o empurrou para o patamar, puxando a porta após sair, de forma a deixá-la quase completamente fechada. Dispunha apenas de alguns segundos. Sabia que cada movimento contaria. Levantei-me silenciosamente da cadeira, estendi o braço e peguei na carta que Roberta havia deixado em cima da mesa. O sobrescrito tinha o nome e direcção do remetente: Edna Cutler, Edifício Turpitz, 935, Little Rock, Arkansas. Fiz uma rápida leitura da primeira página da carta.



Querida Roberta: Alguns dias depois de receberes esta terás a visita de Archibald C. Smith, de Chicago. Dei-lhe o teu nome. Por questões de negócios, gostaria que fosses gentil para com ele e tornasses a sua estada em Nova Orleães o mais agradável possível. Mostra-lhe o Bairro e leva-o a alguns dos mais famosos restaurantes. Posso assegurar-te que será uma coisa agradável porque...

Ouvi a porta do corredor abrir-se e a voz do homem a dizer:

- Muito bem, então. Isso é uma promessa. Agora não se esqueça.

Tornei a pôr rapidamente a carta sobre a mesa e estava a acender um cigarro quando Roberta Fenn voltou.

- Bem, vejamos - disse ela com o melhor dos sorrisos. - Em que ponto estávamos?

- Em nenhum em particular. Trocávamos algumas impressões.

- Você é um detective. Diga-me como é que aquele homem pôde entrar no edifício sem tocar para o meu apartamento.

- É muito fácil.

- Como foi?

- Pode ter tocado para outro apartamento e, depois de lhe abrirem a porta, era só entrar. Podia também ter uma chave que servisse na fechadura. As casas deste gênero não oferecem grandes dificuldades, pois qualquer chave as pode abrir. Por que motivo quis ele entrar sem tocar?

Ela deu uma gargalhada aguda e nervosa.

- Não me pergunte a razão por que os homens fazem as coisas que fazem. Bem, creio que já lhe contei tudo quanto sabia a respeito de Archibald Smith.

Aproveitei a deixa, levantei-me e declarei:

- Muito obrigado.

- Você está... Fica na cidade?

- Fico.


- Ah!

Evitei qualquer outra pergunta, dizendo abruptamente:

- Lamento ter-lhe roubado tanto tempo. Espero não a ter feito atrasar...

- Não me incomodou absolutamente nada.

Ficou no vão da porta vendo-me descer o primeiro lance de escadas. Saí para a rua, olhei para cima e para baixo, observei os carros que estavam parados nas redondezas, mas não vi sinais do tipo alto que havia batido à porta de Roberta Fenn. A verdade é que tive muito tempo para observar tudo, pois só dez minutos mais tarde consegui apanhar um táxi que regressava à cidade. O condutor garantiu-me que eu tinha tido sorte, pois era raro que um táxi passasse por aquelas paragens.
VI - Desapareceu Uma Ex-Mulher Casada
Os meus passos nas escadas de madeira soavam como o estrondo de um esquadrão de cavalaria a passar sobre uma ponte. Tirei a chave do bolso e abri a porta do apartamento. Bertha Cool estava toda estendida na poltrona. As suas pernas, gordas e musculosas, estavam estendidas para a frente e os pés assentavam numa otomana almofadada. Ressonava levemente. Acendi as luzes do centro da sala. Bertha acordou repousadamente, com o rosto aberto num sorriso de beatífica satisfação.

- Quando vamos comer? - perguntei.

Ela acordou definitivamente com um pequeno estremecimento. Durante uns momentos ficou a pestanejar, olhando em volta desconfiadamente, tentando lembrar-se do lugar onde estava e como tinha lá chegado. Subitamente a sua memória recordou-lhe a situação e os seus olhos duros fitaram-me.

- Por onde diabo tem andado?

- A trabalhar.

- Bem, podia ter-me dito onde estava e o que fazia.

- Vou dizer-lho agora.

Ela resmungou.

- O que tem feito? - perguntei delicadamente.

- Nunca me irritei tanto em toda a minha vida respondeu Bertha.

-O que aconteceu?

- Fui a um restaurante.

- Outra vez?

- Bem, pensei que seria conveniente conhecer isto. Não sei quanto tempo vou aqui ficar e tenho ouvido falar tanto de alguns lugares famosos de Nova Orleães...

- O que aconteceu?

- A comida era maravilhosa - respondeu Bertha - mas o serviço...

Deu um estalo com os dedos e emitiu um bufar de desprezo.

- O que é que o serviço tinha de mal? Não havia criados em número suficiente?

- Havia até de mais! Era um desses lugares onde os criados fazem com que os clientes fiquem logo na defensiva. Tratam-nos como se fôssemos vermes. “Agora, Madame deve comer isto.” - Bertha tentava imitar um criado que falasse com sotaque francês. – “Madame desejará certamente vinho branco com o peixe e vinho tinto com a carne. Talvez que, se Madame não está familiarizada com as qualidades, deixe a escolha ao meu cuidado.”

- O que lhe respondeu? - perguntei, sorrindo.

- Disse-lhe que fosse para o diabo.

- E ele foi?

- Não. Começou a espanejar-se em volta da mesa, dizendo-me o que devia comer. Eu queria molho de tomate no meu bife, e o que julga você que ele me disse? Disse-me que não estava autorizado a servir molho de tomate com bifes. Perguntei-lhe a razão e ele respondeu que isso iria ferir a sensibilidade do cozinheiro. O cozinheiro fazia um molho maravilhoso, famoso em todo o mundo. Deitar molho de tomate nos bifes era uma barbaridade própria das pessoas sem um paladar educado.

- E depois?

- Depois - continuou Bertha - empurrei a cadeira para trás e disse-lhe que se o cozinheiro era tão esquisito com os bifes que os comesse. Disse-lhe que apresentasse também a conta ao cozinheiro juntamente com o bife.

- E veio-se embora?

- Bem... Puseram-se à minha frente antes de eu chegar à porta. Foi quase uma briga. Finalmente comprometi-me a pagar o que tinha comido. Mas os diabos me levassem se havia de pagar o bife. Disse-lhes que este era propriedade do cozinheiro.

- E depois?

- É tudo. Iniciei o caminho de volta para aqui, mas parei num pequeno restaurante que fica à esquina e, realmente, não tive de que me arrepender.

- O Restaurante Bourbon?

- Esse mesmo. Malditos sejam esses lugares onde uma pessoa tem que estar sempre na defensiva.

- Desejam que uma pessoa se dê bem conta de que está a comer num lugar mundialmente famoso. Servem só gente de categoria - fiz notar a Bertha.

- Qual categoria, qual nada! A casa estava cheia de turistas. São essas pessoas que eles servem. Puff! Dizerem-me o que eu ia e que não ia comer e depois esperarem que eu pagasse a conta. Famoso lugar, não há dúvida. Bem, se você me perguntar...

Sentei-me na cadeira de encosto, peguei num cigarro e perguntei:

- Pode pôr-se em contacto com Hale por telefone?

- Posso.


- À noite?

- Sim. Tenho o número da residência dele assim como o do escritório. Porquê?

- Vamos para o hotel para fazermos de lá a chamada.

- Para que precisa de fazer a chamada?

- Para lhe dizer que encontrei Roberta Fenn.

Bertha retirou com toda a presteza os pés da otomana.

- Suponho que isso não é uma das suas habituais tentativas para se fazer engraçado?

- Não é.


- Onde está ela?

- Num edifício de apartamentos da Avenida Charles, o Gulfpride.

- Sob que nome?

- O próprio.

- Macacos me mordam! - exclamou Bertha. Como descobriu isso, amorzinho?

- Simples trabalho de rotina.

- Não há dúvida que se trata da mesma rapariga?

- É o original exacto das fotografias.

Bertha endireitou-se na cadeira.

- Donald - disse ela - você é maravilhoso! Você tem realmente miolos! É estupendo! Como descobriu?

- Seguindo um certo número de pistas.

- Não sei o que poderia fazer sem você – declarou ela com um genuíno tom de simpatia. - Você é maravilhoso, amorzinho! Estou a dizer a verdade! Você... Mas que inferno este!

- O que se passa?

Os seus olhos chisparam.

- Este maldito apartamento. Disse-me que o alugou por uma semana?

- Sim.


- Não poderemos ser reembolsados se nos despedirmos antes?

- Creio que não.

- Diabos levem todos os malucos! Eu já devia saber que você faria uma coisa no gênero. Francamente, Donald, às vezes penso que você perde completamente a cabeça quando se trata de questões de dinheiro. Provavelmente sairemos daqui amanhã e, no entanto, temos de pagar o apartamento por uma semana inteira.

- São só quinze dólares.

- Só quinze dólares - repetiu Bertha, erguendo a voz. - Você fala como se quinze dólares...

- Alto! - exclamei em voz baixa. - Vem alguém a subir as escadas.

- Creio que é o inquilino do segundo andar. Há um homem e uma mulher que...

Os passos pararam repentinamente. Alguém bateu à nossa porta.

- Vá ver quem é - disse eu apressadamente. O apartamento agora é seu.

Bertha atravessou a sala, com os tacões batendo pesadamente no soalho. Pôs as mãos no puxador, fez uma pausa e perguntou:

- Quem é?

Uma voz de homem, de pronúncia distinta e bem timbrada, respondeu:

- A senhora não nos conhece. Desejávamos fazer-lhe uma pergunta.

- A respeito de quê?

- Penso que seria melhor se a senhora abrisse a porta para não termos que falar muito alto.

Vi que Bertha raciocinava a todo o vapor. Eram dois os que estavam no patamar, fosse lá quem fosse. Um treino demorado tornara Bertha cautelosa. Olhou-me da cabeça aos pés como que a avaliar a minha utilidade numa luta e depois abriu a porta vagarosamente. O homem que fez uma reverência era, sem dúvida, o proprietário da voz bem timbrada. O seu companheiro, que se conservava dois ou três passos atrás dele, não correspondia àquele tipo de voz. O homem da frente conservava o chapéu na mão. O homem atrás dele continuava com o chapéu na cabeça e os seus olhos estudavam Bertha Cool, cravando-se minuciosamente em cada pormenor da sua anatomia. De repente viu-me e os seus olhos fitaram-se nos meus com um pequeno sobressalto que denotava apreensão. O homem que fizera as despesas da conversa declarou:

- Vai desculpar-me, assim o espero. Estou a tentar obter algumas informações e penso que talvez a senhora possa ajudar-me.

- Julgo que não - retorquiu Bertha.

O homem vestia um fato caro e de bom corte. O chapéu que conservava na mão devia ter-lhe custado bom dinheiro. Tudo neste homem indicava grande categoria. Parecia ter-se vestido com o cuidado escrupuloso de um oficial que tivesse de tomar parte numa parada. Era elegante, simpático, afável. O homem que se conservava por detrás dele vestia um fato que estava a necessitar de uma boa limpeza. Devia ter uns cinqüenta e cinco anos, era alto, espadaúdo e sempre alerta. O homem da voz bem timbrada continuava a falar em tom persuasivo:

- Se nos permitisse que entrássemos por uns momentos... Preferíamos que os outros inquilinos não ouvissem a nossa conversa.

Bertha bloqueava a porta com todo o seu corpo.

- O senhor é a única pessoa a falar - disse ela. - Não me importo nada que haja bastante gente a ouvir.

Ele respondeu com uma gargalhada que denotava verdadeiro divertimento. Os seus olhos pousaram-se na expressão belicosa de Bertha, mostrando um interesse novo.

- Continue - gritou Bertha irritada, com visível contentamento do seu interlocutor. - Meta mais uma moeda ou então desligue.

O homem tirou da algibeira um cartão de visita, ia a estendê-lo a Bertha, mas depois suspendeu o gesto.

- Sou de Los Angeles. Chamo-me Cutler, Marco Cutler.

Olhei para a expressão de Bertha para ver se ela tinha sentido o choque. Aparentemente, não.

- Estou a tentar obter quaisquer informações respeitantes a minha mulher - continuou Cutler.

- O que tenho eu a ver com ela?

- Viveu aqui.

- Quando?

- Segundo o que sei, há cerca de três anos. Bertha, apanhada desprevenida, exclamou:

- Oh, o senhor quer dizer que ela... Que...

- Exactamente. Neste mesmo apartamento afirmou Cutler.

Avancei um pouco.

- Talvez eu possa ajudá-lo. Esta senhora sublocou-me este apartamento. Só hoje é que entrou. Segundo depreendo, o senhor viveu também aqui?

- Não. Estava em Los Angeles dirigindo os meus negócios. Minha mulher veio para aqui, para esta mesma casa, onde viveu, segundo as melhores informações que possuo.

Tirou da algibeira interior do casaco uns papéis dobrados, abriu-os, percorreu-os com o olhar, fez um sinal afirmativo e acrescentou:

- Exactamente.

O homem grande que estava atrás dele pareceu sentir que estava a ser solicitado para dizer qualquer coisa.

- Exactamente - concordou.

Cutler voltou-se para ele rapidamente.

- É esta a casa, Goldring?

- A casa é esta mesma. Eu estava aqui mesmo quando ela abriu a porta...

Cutler interrompeu-o com impaciência:

- Evidentemente que pensei falar com a senhoria, mas não fui capaz de a encontrar esta tarde e julguei que a senhora já aqui morava há muito tempo, podendo ter conhecido os anteriores locatários, ajudando-me assim nas minhas pesquisas.

- Ainda cá não estou há cinco horas – resmungou Bertha.

- A pessoa que vive aqui já algum tempo sou eu informei com um sorriso. - Não querem fazer o favor de entrarem e sentarem-se?

- Muito obrigado - respondeu Cutler. - Tinha esperanças que sugerisse isso mesmo.

Bertha Cool hesitou um momento, mas depois afastou-se para um lado. Os dois homens entraram, lançaram um rápido olhar para o quarto de dormir e atravessaram a sala cujas varandas se abriam para a rua.

- Além é o Bar do Jack O’Leary - informou Goldring.

Cutler deu uma gargalhada.

- Reconheci-o, mas estava a tentar reconstituir na mente a forma como conseguimos cá chegar. A rua deve ter um desnível de uns noventa graus.

- O senhor acostumar-se-á a esse tipo de ruas declarou Goldring, apoderando-se da confortável cadeira em que Bertha estivera sentada. Levantou os pés, apoiou-os na otomana e acrescentou: - Dá licença que fume, minha senhora?

Riscou um fósforo na sola do sapato antes que Bertha tivesse tempo de responder.

- Não se senta, menina... Ou devo dizer senhora?

- perguntou Cutler.

Intervim rapidamente antes de Bertha poder responder.

- É senhora. Querem fazer o favor de se sentarem, senhores?

Goldring mudou a direcção do olhar e fitou-me através de uma nuvem de fumo como se eu fosse uma mosca pousada num pedaço de carne que ele se preparava para levar à boca.

- Vou ser franco convosco, absolutamente franco declarou Cutler. - Minha mulher deixou-me há cerca de três anos. A nossa vida em comum não havia sido completamente feliz. Veio para Nova Orleães. Foi só depois de muitas dificuldades que a descobri.

- Isso é verdade - sentenciou Goldring. – Tive muito trabalho com essa dama.

Cutler continuou a falar numa voz macia como veludo:

- A razão por que eu estava tão ansioso em encontrá-la era devida ao facto de ter chegado à conclusão que a nossa vida em comum não voltaria a ser feliz. Por muito que me custasse, decidi divorciar-me. Quando o amor deixa de existir, o casamento torna-se...

Bertha, sentada desconfortavelmente na cadeira de braços interrompeu-o para dizer:

- Passe à frente disso. Não necessita de gastar latim comigo. Ela deixou-o e o senhor decidiu mudar a fechadura da porta para que ela não pudesse voltar. Não o condeno. O que tem tudo isso a ver comigo?

Ele sorriu.

- Peço-lhe muita desculpa por maçá-la com estes pormenores. Sim, acho que tem razão e que não vale a pena desperdiçar palavras, senhora...

- Muito bem - interrompi. - Queira expor o seu caso na parte que nos toca, pois íamos justamente sair para jantar. O senhor decidiu mover-lhe um processo de divórcio. Suponho que o Sr. Goldring, aqui presente, lhe descobriu o paradeiro e fê-la assinar os papéis.

- Exactamente - declarou Goldring, olhando-me com uma expressão mista de respeito e admiração como se tentasse adivinhar como eu sabia.

- E agora - exclamou Cutler, com uma ténue nota de indignação na voz - passados alguns anos após estes factos, sou informado que minha mulher pretende afirmar que os papéis não lhe foram apresentados.

- Sim? - perguntei.

- Exacto. É, evidentemente, uma atitude absurda. Felizmente, o Sr. Goldring lembra-se muitíssimo bem do caso.

- Isso é verdade - disse Goldring. - Foi por volta das três horas da tarde do dia 13 de Março de 1940. Ela veio à porta e eu perguntei-lhe se se chamava Cutler e se vivia aqui. Ela disse que sim. Antes eu tinha descoberto que o apartamento estava alugado a Edna Cutler. Depois perguntei-lhe se se chamava Edna Cutler e ela disse que sim. Então, peguei nos originais e nas cópias das citações e na cópia da queixa e pedi-lhe para ler e assinar os papéis no momento em que ela se encontrava junto daquela porta.

Goldring apontou para a porta que dava para o patamar.

- Minha mulher declara agora que, nessa altura, nem mesmo se encontrava em Nova Orleães. Contudo, o Sr. Goldring identificou-a por um retrato.

Bertha ia começar a dizer qualquer coisa, mas eu toquei-lhe com um joelho, pigarreei, franzi o sobrolho como se tentasse recordar-me de qualquer coisa e declarei:

- Segundo depreendo, Sr. Cutler, o que o senhor pretende provar é que era a sua mulher quem vivia nesta casa?

- Sim.

- E que assinou os papéis - informou Goldring.



- Estou aqui há muito pouco tempo, nesta viagem - informei - mas conheço muitíssimo bem Nova Orleães, pois passo por cá freqüentes vezes. Creio que há dois anos estive cá. Sim, foi há precisamente dois anos. Ocupei um apartamento do outro lado da rua. Talvez pudesse identificar um retrato da Srª. Cutler.

O rosto de Cutler iluminou-se.

- É isso exactamente o que procuramos. Pessoas que possam provar que ela vivia aqui naquele tempo. Meteu a mão fina e bem tratada na algibeira interior do casaco e tirou de lá um pequeno sobrescrito. Deste extraiu três fotografias. Estudei os retratos durante bastante tempo. Queria ter a certeza que reconheceria esta mulher quando a visse.

- E então? - perguntou Cutler.

- Estou a tentar localizá-la - respondi. - Já a vi em qualquer parte, mas tenho a impressão que nunca falei com ela. Já a vi, disso tenho a certeza. Não me lembro se ela aqui morava ou não. Pode ser que me lembre mais tarde.

Fiz um sinal a Bertha para que examinasse atentamente os retratos. Não precisava de ter-me incomodado.

Cutler estendeu a mão para que lhos devolvesse. Bertha tirou-mas da mão e disse:

- Deixe cá ver. Às vezes...

Estudamos as fotografias pormenorizadamente. Tenho o hábito de tentar conhecer o carácter de uma pessoa pela sua fotografia. Esta rapariga era mais ou menos da mesma estatura de Roberta. Os rostos tinham apenas uma vaga semelhança. Roberta tinha um nariz direito e uns olhos que podiam ser motejadores ou pensativos. Esta rapariga dava mais a impressão de ser o tipo da cabecinha oca e coração alegre. Choraria ou riria consoante a disposição em que estivesse, mas não se preocuparia com o que visse depois. Roberta poderia rir, mas pensaria enquanto ria. Roberta não era do tipo de deixar andar. Era daquelas que têm sempre um travão para parar a corrida. A rapariga do retrato era uma jogadora inata. Arriscaria todo o seu dinheiro numa carta, ficaria impassível se ganhasse, mas desconfiada se perdesse. Nunca consideraria a possibilidade de perder. Roberta, pelo contrário, nunca se atreveria a arriscar um tostão se não tivesse a certeza de ganhar. Quanto ao aspecto, figura e compleição eram tão semelhantes que se admitia perfeitamente que as roupas de uma pudessem servir à outra. Bertha devolveu as fotografias a Cutler.

- Parece muito nova - declarei.

Cutler aquiesceu.

- É dez anos mais nova do que eu. Suponho que isso tem algo que ver com o que aconteceu. No entanto, não desejo aborrecer-vos com as minhas contrariedades. Vim aqui para ver se conseguia arranjar qualquer prova de que ela vivia cá. Devo encontrar alguém que possa informar-me com segurança.

- Lamento não poder ajudá-lo - disse-lhe. – Talvez me recorde mais tarde. Onde posso encontrar-me consigo?

Deu-me um cartão. Marco Cutler, Acções e Obrigações, Hollywood. Meti-o na algibeira e prometi comunicar-me com ele se fosse capaz de recordar mais alguma coisa sobre a inquilina que ali vivera há três anos.

- O meu telefone vem na lista - disse Goldring. - Dê-me uma apitadela se tiver qualquer informação antes de o Sr. Cutler regressar. E, se tem quaisquer documentos para fazer assinar a alguém, dê-mos que eu trato-lhe do caso.

Disse-lhe que sim e depois voltei-me para Cutler:

- O senhor não pode obrigar sua mulher a admitir que vivia aqui? Parece-me que ela tem de provar onde estava, se reclama que não viu nem assinou os papéis.

- Não é assim tão fácil como parece à primeira vista - declarou Cutler. - Minha mulher é muito reservada e metida consigo. Bem, agradeço-lhes muito.

Fez um gesto para Goldring. Levantaram-se. Goldring deu um rápido olhar em volta e caminhou em direcção à porta. Cutler parou.

- Não sei como agradecer a vossa cooperação disse ele. - Fiquei ciente, é claro, que uma coisa que parece muito grave e importante para mim é um caso sem importância para uma pessoa que não conheça as partes interessadas. Agradeço muito a vossa amabilidade.

Quando a porta se fechou atrás deles, Bertha voltou-se para mim.

- Gosto dele - declarou.

- Sim - retorqui. - Tem uma voz agradável e...

- Não seja parvo. Não se trata de Cutler, mas sim de Goldring.

- Ah!

- Cutler é um hipócrita de voz melada. Ninguém que tenha aquela delicadeza pode ser sincero, e não ser sincero é uma bela maneira de ser hipócrita. Gostei do Goldring. Não é tipo que se perca com palavras.



- Exactamente - retorqui, tentando imitar a voz de Goldring.

Bertha fitou-me de frente.

- Por vezes você parece ser o tipo mais antipático que já vestiu calças. Vamos. Vamos telefonar a Hale. A estas horas já deve ter chegado a Nova Iorque. Seja como for, podemos deixar-lhe recado.
VII - Unhas Cruzadas
Sentamo-nos no vestíbulo do hotel à espera que a chamada telefônica fosse efectuada. A Central havia informado que não estava ninguém no escritório de Hale e de sua casa ainda não tinham atendido. Bertha explicou à telefonista:

- Não sabemos a que horas ele chegará a casa. No entanto, deve lá chegar esta noite. Continue a chamar.

- Preciso de comer qualquer coisa enquanto esperamos - declarei. - Estou na minha hora de jantar.

Bertha nem quis ouvir-me falar em sair.

- Quero que você esteja aqui quando ele atender a chamada. Mande vir qualquer coisa.

Respondi-lhe que, provavelmente, antes da meia-noite não teríamos qualquer notícia dele, mas pedi a um criado que me trouxesse a lista. Bertha deu-lhe uma vista de olhos e decidiu tomar um cocktail enquanto eu comia o meu bife.

- Você sabe muito bem que não sou capaz de ficar sentada a vê-lo comer - declarou ela.

Fiz um gesto de concordância. O criado mostrava-se muito solícito.

- Apenas um cocktail? - perguntou ele.

- Como são essas ostras Rockefeller? - informou-se Bertha.

- São grelhadas - respondeu ele, com o rosto aberto num sorriso de entusiasmo. - E têm um molho que é um segredo da casa. São abertas e temperadas dentro da própria casca.

- Parece um belo petisco - exclamou Bertha. - Traga meia dúzia para experimentar. Não, traga uma dúzia. Traga também um pouco de pão torrado, manteiga, uma chávena de café bem forte e bastante açúcar.

- Perfeitamente, Madame.

Bertha fitou-me.

- Café simples! - disse ela com voz firme.

- Sim, Madame. E o que deseja de sobremesa?

- Bem, depois verei.

Depois de o criado se retirar, Bertha olhou para mim à espera de me ouvir dizer qualquer coisa. Como eu nada dissesse, decidiu ser ela a iniciar a conversa.

- No final de contas, não se pode aumentar muito de peso num só dia. Não vejo qualquer razão para me pôr a contar as calorias, agora que meti no organismo toda a comida que ele pode assimilar num dia.

- É lá consigo - retorqui. - Por que razão não há de uma pessoa viver segundo os seus desejos?

- Eu vivo.

Seguiu-se um silêncio. Depois ela disse em voz baixa:

- Ouça, amorzinho, gostava de dizer-lhe uma coisa.

- O que é?

- Você é um menino diabolicamente esperto, mas não percebe nada a respeito de dinheiro. O que vale é que é a Bertha quem dirige as finanças.

- Que temos agora?

- Depois que você saiu de Los Angeles entramos num novo negócio - declarou Bertha, com a voz receosa de quem inicia uma discussão.

- Que negócio?

No rosto de Bertha apareceu aquela expressão espertalhona que sempre a acompanha quando se trata de qualquer questão de negócios.

- A B. Cool Constitution Company. Eu sou a presidente e você é o director-geral.

- O que é que construímos?

- Por agora - respondeu Bertha - estamos a trabalhar num acampamento militar. É um trabalho pequeno com que não temos necessidade de nos incomodar. É um trabalho por conta de outrem.

- Não atinjo a finalidade disso - declarei.

- Pensei que não era bom termos muitos ovos num só cesto - redargüiu Bertha. - Não se pode prever o que irá suceder, da forma como as coisas estão.

- Mas, porque escolheu esse negócio de construção?

- Bem, vi uma oportunidade de aplicar capital em qualquer coisa.

- Essa resposta não é muito convincente.

Bertha inspirou profundamente.

- Caramba! - exclamou ela. - Creio que tenho o direito de ser tão patriota como as outras pessoas. Tenho uma grande capacidade de execução. Desde que você entrou para a sociedade, tenho tido oportunidade de me dedicar aos desportos náuticos. Sentada à beira-mar tenho pensado muito nos rapazes que morrem simplesmente porque nós não fomos capazes de enfrentar as responsabilidades que nos cabiam... Seja como for, entramos nesse negócio de reconstrução e havemos de ir para a frente. Não pense muito no caso. De vez em quando falarei consigo sobre o assunto, mas deixe a Bertha encarregar-se de tudo.

O telefone tocou antes que eu pudesse dizer qualquer coisa. Bertha levantou o auscultador com uma presteza que mostrava bem o quanto ela apreciava a interrupção. Levou-o ao ouvido e disse:

-Está?... Está? Tenho estado a tentar ligar para si. Onde se encontra?... Não, não. Tenho estado a ligar para si... Ah, sim? Não é realmente extraordinário? Bem, diga primeiro o que tem a dizer... Muito bem, já que insiste. O melhor é segurar-se para não cair. Temos notícias para si... Exactamente. Encontramo-la. No Edifício Gulfpride da Avenida Charles... Não, o Gulfpride, G-u-l-f-p-r-i-d-e. Exactamente... Segredo profissional. Temos os nossos métodos. Era uma pista bastante antiga, mas trabalhamos como rafeiros depois que o senhor se foi embora. Ficaria surpreendido se lhe dissesse o número de pistas que tivemos de seguir... Não, ainda não falei com ela. Donald falou... Sim, o meu sócio, Donald Lam.

Houve um intervalo durante o qual pude ouvir a sua voz arrastada e metálica. Bertha estava sentada e ouvia. Finalmente disse:

- Bem... Sim... Acho que posso.

Olhou para mim, pôs apressadamente a mão no bocal do telefone e informou:

- Ele quer que eu vá até casa dela logo de manhã cedo.

- E porque não?

Bertha tirou a mão do bocal.

- Perfeitamente, Sr. Hale, estou a compreender. Voltou a pôr a palma da mão sobre o bocal e disse-me:

- Quer que eu me relacione com ela, que ganhe a sua confiança e a faça abrir-se comigo.

- Tome cuidado - preveni. - Ela não é parva nenhuma. Não garanta resultados positivos nesse sentido.

Bertha falou novamente para o aparelho:

- Bem, Sr. Hale, isso seria óptimo. Terei o maior prazer em fazer o melhor que puder... Sim, Donald irá comigo. Sairemos logo de manhã cedo para a apanharmos à hora de se levantar. Ela só entra no banco às nove, portanto sai de casa por volta das oito e meia. Estaremos à espera dela num táxi. O que deseja que eu lhe diga?

Seguiu-se um outro intervalo durante o qual eram perfeitamente audíveis as instruções da voz metálica. Depois Bertha disse:

- Muito bem, Sr. Hale, depois lhe darei notícias. Deseja que lhe mande um telegrama ou... Estou a compreender. Muito bem. Bem, muito obrigada. Nós também somos da mesma opinião, pois somos realmente bons... Sim, bem lhe disse que ele era pouco pesado mas tinha muitos miolos. Bem, boa noite, Sr. Hale... Está? Um momento, se faz favor. Quando ligarem para aí a minha chamada diga para a cancelarem. As nossas chamadas desencontraram-se. É claro que vou desistir da minha, mas não sei se a estas horas já não estarão à espera da ligação... Boa noite.

Bertha repousou o aparelho, tornou a levantá-lo e disse:

- Está? Está, menina? Daqui fala a Srª. Cool, do quarto do Sr. Lam... Sim, exactamente, do quarto do Sr. Lam... Não, já não estou hospedada no hotel mas tenho a bagagem no quarto do Sr. Lam. Exactamente. Tinha uma chamada para o Sr. Hale, de Nova Iorque. É favor anulá-la. Exactamente, anule-a. Não, acabo de falar com ele... Não, a chamada era dele... Inferno, anule a minha chamada e não queira... Anule a minha chamada!

Bertha colocou o aparelho no descanso e voltou-se para mim.

- Meu Deus - disse ela - a companhia deve castigar as raparigas cada vez que uma chamada é cancelada. Dá a impressão que lhes tiramos a comida da boca. E, por falar em comida, quando virá o nosso jantar? Creio que...

O criado bateu à porta discretamente.

- Entre - gritei.

Bertha não gosta de falar enquanto come. Deixei-a comer à vontade.

- A que horas pretende encontrar-se com Roberta Fenn? - perguntei quando ela afastou o prato.

- Quando me levantar venho ter aqui – respondeu Bertha. - Chegarei cá às sete horas. Esteja na sala de entrada quando eu chegar. Mas esteja mesmo. Não quero ficar à espera, com um taxímetro a contar o tempo. Logo que me veja chegar, aproxime-se e entre no carro. Às sete em ponto. Compreendeu?

- Perfeitamente.

Bertha recostou-se na cadeira com um sorriso de calma satisfação e atirou uma baforada de fumo para o tecto. O criado reapareceu com a lista. Bertha nem se deu ao incómodo de a consultar.

- Traga-me uma mousse de chocolate - disse ela.


VIII - Um Perfeito Quebra-Cabeças
Bertha pareceu surpreendida quando me viu sair para ir ao encontro do seu táxi às sete horas em ponto. Os seus olhos duros como diamantes brilhavam à claridade nascente.

- Dormiu bem?

- Dormir! - exclamou ela com os lábios estendidos.

Dei ao condutor do táxi a morada da Avenida Charles.

- O que foi? - perguntei. - Barulho?

- Quando eu era nova - respondeu Bertha – era costume as mulheres procederem com uma certa discrição quando pretendiam seduzir um homem.

- Mas, o que se passou? Assistiu a alguma cena de sedução a noite passada?

- Se assisti a uma cena de sedução! – exclamou Bertha. - Assisti a uma récita completa de seduções. Vejo agora o motivo por que se diz que os rapazes de hoje só pensam em sexo. Quando se diz que um rapaz não dá grande importância a essas coisas está ele em qualquer casa pública à cata de raparigas.

- Deduzo que não dormiu muito bem.

- Não dormi. Contudo posso garantir-lhe uma coisa.

- O quê?

- Dei da varanda uma boa mão-cheia de conselhos a um grupo de raparigas.

- Como reagiram elas?

- Uma delas irritou-se - retorquiu Bertha. – Outra pareceu sentir-se envergonhada e foi para casa e as restantes ficaram paradas a rir-se para mim e a dizerem-me piadas.

- E a senhora o que fez?

- Cantei-lhas - afirmou Bertha com uma ponta de maldade na voz.

- E elas calaram-se?

- Não.


- Não admira que não tenha dormido.

- Não foi por causa do barulho. Estava demasiadamente irritada para poder dormir. Não me saía da mente a imagem dessas gatas a andarem pela rua sem qualquer ponta de vergonha. Oh, cada vez vamos aprendendo mais coisas.

- Vai sair do apartamento? - perguntei.

- Sair do apartamento! - exclamou Bertha. – Não seja pateta! O aluguel está pago!

- Eu sei, mas no final de contas não há vantagem nenhuma em ficar num apartamento onde se não pode dormir.

Os lábios de Bertha apertaram-se numa linha firme e direita.

- Às vezes dá-me vontade de o esganar. Um dia, por causa das suas malditas extravagâncias, ainda desmancharemos a sociedade.

- Vamos desmanchar?

- Não discutamos isso agora - respondeu Bertha apressadamente. - Temos tido sorte. Qualquer dia você deixará de ter sorte; nessa altura virá ter comigo, pedindo-me para, com o meu capital, agüentar a sociedade. Será nessa altura que você ficará a conhecer devidamente Bertha Louise Cool, e peço-lhe que não se esqueça disto.

- É um pensamento intrigante. Faz com que a possibilidade de bancarrota pareça quase sedutora.

Ela voltou deliberadamente a cabeça, fingindo observar o cenário da Avenida Charles. Passado um momento voltou-se.

- Tem fósforos?

Risquei um e estendi-lho aceso. Rodamos em silêncio até chegarmos ao Edifício Gulfpride.

- É melhor que o táxi fique à nossa espera – disse eu a Bertha. - É difícil encontrar algum nestas paragens. Podemos não nos demorar.

- Demoraremos um pouco - redargüiu Bertha, bastante mais do que você pensa. Não vamos consentir que um taxímetro fique a trabalhar por nossa conta enquanto conversamos.

Bertha abriu a bolsa, pagou ao condutor e disse:

- Espere aqui até que tenhamos tocado à campainha. Se nos abrirem a porta, não espere mais.

O condutor olhou para a gorjeta de dez cêntimos que Bertha lhe dera e respondeu:

- Está bem, madame.

E ficou sentado à espera. Bertha encontrou o botão que estava a seguir ao nome de Roberta Fenn e aplicou-lhe o polegar com força suficiente para parecer que pretendia metê-lo dentro.

- Provavelmente ainda não está levantada – resmungou ela. - Principalmente se saiu a noite passada. Não me admiraria que fosse uma daquelas gatas que esteve debaixo da minha varanda. Aparentemente, nesta cidade a vida começa só depois das três da manhã.

Carregou novamente no botão com um esgar irritado. Repentinamente o automático da porta soou. Empurrei a porta e esta abriu-se. Bertha voltou-se e fez um gesto de despedida ao motorista do táxi. Começamos a subir as escadas, com Bertha a apoiar deliberadamente os seus setenta e cinco quilos nos degraus de madeira e eu atrás, marchando ao ritmo marcado por ela.

- Quando lá chegarmos, amorzinho - disse ela, deixe que seja eu a falar.

- Sabe o que lhe vai dizer?

- Sei. Sei o que ele quer que descubramos. Penso que Nova Orleães tem as mais horríveis escadas do mundo, diabos as levem!

- É no segundo esquerdo - informei.

Bertha subiu os últimos degraus, percorreu o corredor, levantou o punho para bater na porta, mas deixou o gesto em meio quando verificou que a porta estava um pouco entreaberta.

- É evidente que ela deseja que entremos sem cerimônias - disse Bertha, empurrando a porta.

- Um momento - disse eu, segurando-a por um braço.

A porta ficou completamente escancarada devido ao empurrão que Bertha lhe dera. Vi os pés de um homem numa posição muito esquisita. Avançando um pouco a cabeça vi o corpo a que esses pés pertenciam, um corpo que estava caído numa cadeira, com a cabeça tombada no soalho, um pé dobrado sob um braço da cadeira e o outro passado em volta do suporte do braço. Um sinistro fio vermelho havia corrido de um buraco que se via do lado esquerdo do peito, formando um pequeno lago no soalho. Uma almofada chamuscada mostrava a razão por que o tiro não tinha sido ouvido.

- Diabos me levem! - exclamou Bertha num sussurro, dando um rápido passo em frente.

Eu continuava a segurar-lhe no braço. Precisei de toda a força para a puxar para trás.

- Qual é a idéia? - perguntou Bertha.

Não respondi, limitei-me a continuar a puxá-la. Por um momento ela ficou zangada, depois viu a minha expressão e os seus olhos abriram-se.

- Bem - disse eu em voz baixa. - Creio que não está ninguém em casa, afinal de contas.

Continuava a segurar-lhe o braço, puxando-a para a escada. Quando ela compreendeu, começou a andar agilmente. Atravessamos silenciosamente o corredor atapetado e eu fui obrigado a empurrar Bertha para que ela descesse as escadas pois desejava parar para discutir. Saímos apressadamente do edifício e eu reboquei Bertha pela Avenida Charles. Bertha juntou os seus pensamentos o suficiente para começar a puxar para trás.

- Ouça, qual é a sua idéia? - perguntou ela. – Que diabo se lhe meteu na cabeça? Aquele homem foi assassinado. Devíamos prevenir a polícia.

- Previna a Polícia se é esse o seu desejo, mas não seja tão parva que pense que poderia ter entrado naquele quarto e saído de lá viva.

Ela parou repentinamente, com os pés imobilizados devido à surpresa e os olhos muito abertos fixos em mim.

- Que diabo quer você dizer com isso? - perguntou.

- Não compreende? Alguém carregou no botão para nos abrir a porta. Depois, esse mesmo alguém deixou a porta do apartamento aberta.

-Quem? - perguntou ela.

- Tem duas alternativas - respondi. - Ou era a Polícia que esperava que alguém aparecesse, o que, tendo em vista o que se seguiu, é pouco provável, ou o assassino que esperava pacientemente a sua segunda vítima.

Os seus pequenos olhos duros fitavam-me, chispando em resposta à intensidade dos pensamentos que lhe atravessavam o cérebro.

- Pode chamar-me idiota à sua vontade! Creio que você tem razão, seu filho da mãe.

- Sei que tenho razão.

- É, porém, pouco provável que fôssemos nós as pessoas de quem ele estava à espera.

- Mas seríamos, se tivéssemos entrado naquela sala.

- O que quer dizer?

- Teríamos visto quem ele era. Podíamos não ser as pessoas que ele esperava, mas se tivéssemos entrado, ele não poderia arriscar-se a deixar-nos sair depois de lhe termos visto a cara.

Vi o rosto de Bertha mudar de cor ao verificar que escapara por tão pouco.

- E foi por Isso que você disse que não estava ninguém lá dentro?

- Evidentemente. Há um restaurante no outro lado da rua. Vamos telefonar à Polícia de lá e ao mesmo tempo vamos conservar o apartamento sob vigilância para podermos ver quem sai de lá.

- Quem era? - perguntou Bertha. - Conhece-o... o morto?

- Já o tinha visto.

- Onde?


- Foi a casa de Roberta na noite passada. Creio que a sua visita foi inesperada e importuna... Mas também já o havia visto antes disso.

- Quando?

- Na outra noite. Não consegui dormir. Fui até à varanda. Ele vinha a sair de um bar existente do outro lado da rua. Estava acompanhado de duas mulheres e havia alguém à espera deles dentro de um automóvel. Uma súbita recordação da noite anterior passou pela mente de Bertha.

- Ele era um dos tocadores de buzina?

- Era o responsável por todo aquele maldito concerto de buzinas.

- Tenho satisfação que ele esteja morto – afirmou Bertha.

- Não diga isso! É perigoso brincar com coisas sérias.

- Quem diabo lhe disse que eu estava a brincar? Quero dizer exactamente o que disse. Não acha que temos de informar a Polícia?

- Sim, mas vamos fazê-lo à minha maneira.

- Como?


- Venha, vou mostrar-lhe.

Entramos no restaurante. Perguntei em voz alta ao proprietário se podia utilizar o telefone para chamar um táxi. O homem indicou-me a cabina e informou-me do número da praça mais próxima, Fui até à cabina, liguei para a praça de táxis de onde me garantiram que dentro de dois minutos um carro estaria junto do restaurante. Da cabina podia vigiar a porta do edifício de Roberta Fenn. Esperei até ouvir a buzina do táxi em frente do restaurante, meti uma nova moeda no aparelho, liguei para a central da Polícia e perguntei com naturalidade:

- Tem um lápis?

-Tenho.


- Escreva: Edifício Gulfpride na Avenida Charles.

- O que se passa lá?

- Apartamento dois-zero-quatro.

- Bem, o que se passa? Quem fala? O que deseja?

- Desejo comunicar que foi cometido um assassínio naquele apartamento. Se mandar já um carro-patrulha pode ser que apanhem o assassino que espera por outra vítima.

- Quem fala?

- Adolfo.

- Adolfo quê?

- Hitler - respondi , e não me pergunte mais nada porque tenho a boca cheia.

Desliguei e saí. Bertha já havia saído para a rua para apanhar o táxi. Fui ter com ela calmamente como se não tivesse pressa nenhuma.

- Para onde? - perguntou o condutor.

Bertha ia começar a dar-lhe o nome do hotel, mas eu intervim:

- Para a estação da Union. Vá devagar, pois não temos pressa.

Bertha desejava falar. Cada vez que ela o tentava fazer, eu aplicava-lhe uma cotovelada. Finalmente, desistiu e ficou quieta a olhar para mim com uma expressão de raiva impotente. Na estação pagamos a corrida. Guiei Bertha, entramos por uma porta, demos uma volta, saímos por outra porta e metemo-nos noutro táxi.

- Para o Hotel Monteleone! - ordenei ao condutor.

Uma vez mais consegui impor silêncio a Bertha. Dava-me a impressão de estar a travar a válvula de segurança de uma máquina a vapor. Não sabia em que momento poderia dar-se uma explosão. Chegamos ao Hotel Monteleone. Escoltei Bertha até uma fila de confortáveis cadeiras, fi-la sentar-se comodamente, sentei-me ao lado dela e disse com afabilidade:

- Ande, agora já me pode falar à vontade. Fale sobre todos os assuntos que deseje, com excepção daquilo que se passou nesta última hora.

Bertha fitou-me intensamente.

- Quem diabo é você para me dizer aquilo em que devo e não devo falar?

- Todos os movimentos que fizemos até esta altura serão verificados pela Polícia. Aquilo que fizermos daqui em diante é que contará realmente.

- Se descobrirem os nossos movimentos até aqui também descobrirão os que fizermos depois.

Esperei até que os olhos do empregado da recepção se voltassem na nossa direcção, depois levantei-me, aproximei-me do balcão, sorri afavelmente e disse:

- Suponho que o autocarro vem aqui buscar os passaportes dos aviões que seguem para o norte?

- Sim. Estará aqui dentro de trinta minutos.

- Não há inconveniente que esperemos aqui por ele?

- Absolutamente nenhum - assegurou-me ele com um sorriso.

Voltei para junto de Bertha. Após a atenção do empregado se desviar noutra direcção, levantei-me e aproximei-me do quadro dos avisos. Passados alguns momentos fiz sinal a Bertha para vir ter comigo; depois passamos pela porta que dava para o bar. Meti uma moeda num dos jogos mecânicos para mostrar que não tinha pressa. Finalmente saímos para a rua.

- Para onde vamos agora? - perguntou Bertha.

- Primeiramente para o hotel onde demoraremos apenas o tempo suficiente para fazermos as malas e sairmos.

- E depois?

- Provavelmente iremos para o apartamento.

- Os dois?

- Sim. O canapé pode muito bem servir de cama.

- Qual é a sua idéia? - perguntou Bertha. – Estamos a proceder como se fosse você quem fez aquilo.

- Não se surpreenda se a Polícia pensar isso mesmo.

- Por quê?

- Roberta Fenn trabalhava num banco. Hão de ir perguntar ao gerente o que sabe. Ele dirá que ontem à tarde um homem foi vê-la, dizendo-se um investigador que pretendia fechar um processo de herança. Roberta Fenn falou com esse homem. Esse mesmo homem estava à espera dela quando o banco fechou. Meteu Roberta num táxi e seguiram ambos com destino desconhecido. O homem estava no apartamento dela quando a vítima a fora visitar. O homem era ciumento.

- Onde está Roberta enquanto tudo isto se passa? - perguntou Bertha Cool.

- Roberta - disse eu - é: primeiro: a pessoa que puxou o gatilho da arma; segundo: deitou-se no chão de forma a não a podermos ver sem entrarmos na sala; ou então, terceiro: é a pessoa por quem o assassino estava à espera.

- Penso que o melhor a fazer é metermo-nos num táxi, irmos até à central da Polícia e contarmos tudo quanto sabemos.

Parei, fi-la tornear a esquina e apontei para um táxi que estava parado do outro lado da rua.

- Tem ali um táxi - disse-lhe. - Meta-se nele.

Berta hesitou.

- Ande, vá.

- Você não é da minha opinião, Donald.

- Não.


- Por quê?

- Tenho muitos motivos.

- Diga alguns.

- Cheira mal.

- O que é que cheira mal?

- Todo este caso.

- Por quê?

- Hale foi a Los Angeles - comecei. - Contratou-nos para virmos a Nova Orleães e descobrirmos Roberta Fenn. Por que motivo não contratou uma agência de Nova Orleães para tratar do caso?

- Porque tinha confiança em nós. Nós tínhamos-lhe sido recomendados.

- Em vez de arranjar uma agência de Nova Orleães para um vulgar trabalho de rotina, ele paga uma boa maquia, despesas de viagem e despesas diárias para virmos de Los Angeles para aqui.

- Você já se encontrava na Florida. Ele pareceu ficar muito satisfeito quando lhe comuniquei isso. Disse-lhe que você podia estar aqui dois dias antes de nós cá chegarmos.

- Muito bem, ele ficou satisfeito. Contratou-nos para virmos para cá porque tinha confiança em nós. Mas sabia muitíssimo bem onde se encontrava Roberta Fenn.

Bertha olhou-me como se eu tivesse dito qualquer coisa incompreensível.

- É a verdade - afirmei.

- Donald, você é completamente doido! Por que motivo iria um homem até tão longe como Los Angeles para nos contratar a cinqüenta dólares por dia e mais vinte para as despesas diárias, para descobrirmos uma mulher em Nova Orleães que tinha desaparecido, mas que afinal não desaparecera?

- Essa - disse eu - é a razão por que não me meto num táxi e vou até à central da Polícia. Vá a senhora se quiser. Está além um táxi e, conhecendo-a como a conheço, tenho a certeza que tem dinheiro suficiente para pagar a corrida.

Comecei a andar em direcção ao hotel. Bertha veio atrás de mim a resmungar.

- Não precisa ser tão independente a respeito disto.

- Não estou a ser independente. Procuro simplesmente livrar-me de enrascações.

- O que dirá à Polícia quando o descobrirem e se tornarem duros em virtude de você não ter comunicado o crime?

- Eu comuniquei o crime.

Ela ficou a magicar um pouco.

- A polícia, mesmo assim, não vai gostar.

- Ninguém lhe pede para o fazer.

- Quando lhe deitarem a mão - preveniu Bertha, você irá passar um mau bocado.

- A menos que lhe demos qualquer coisa mais que lhes desvie a atenção.

- Que coisa?

- O assassino que estava naquele quarto ou, talvez um outro assassínio novinho em folha. Qualquer coisa com que ocupem o cérebro.

Bertha automaticamente acertou o passo pelo meu, a pensar no caso.

- Donald - disse ela finalmente, você está maluco no que se refere à questão Hale.

- Que questão?

- A de ele saber onde se encontrava Roberta Fenn.

- Ele já a havia descoberto.

- O que o leva a pensar isso?

- O criado do Restaurante Bourbon viu-a sair do Bar de Jack O’Leary na companhia de Hale.

- Tem a certeza?

- Quase poderia jurar. O criado descreveu-o na perfeição e acrescentou que ele parecia ter qualquer coisa na boca.

- Quando foi isso?

- Há mais ou menos um mês.

- Nesse caso ela sabe quem é Hale?

- Não. Hale sabe quem ela é. Ela pensa que Hale é Archibald C. Smith, de Chicago.

Bertha suspirou.

- Isto é demasiado para mim. É uma dessas paciências chinesas de que você tanto gosta. Eu não gosto.

- Esta também não me agrada muito. Mas a questão não é gostar ou deixar de gostar. É um caso em que estamos metidos até ao pescoço.

- Bem - declarou Bertha , vou pôr-me em contacto com Hale para termos uma explicação. Vou...

- Não vai fazer nada disso - cortei. - Lembre-se que Hale nos disse que não desejava que levássemos a cabo qualquer investigação sobre os motivos por que fomos contratados e sobre a identidade de quem nos contratou. A nossa missão limitava-se a descobrirmos o paradeiro de Roberta Fenn.

Era visível que Bertha ia pensando profundamente no caso enquanto nos dirigíamos para o hotel. Antes de entrarmos no átrio, parou.

- Bem - disse, resolvi definitivamente uma coisa.

- O que foi?

- Descobrimos Roberta Fenn. Foi para isso que fomos contratados. Receberemos o bônus de que ele falou. Quanto a mim tenho de voltar para Los Angeles. O negócio de construções em que lhe falei é muito importante.

- Por mim não vejo qualquer empeno - afirmei.

Bertha entrou no átrio, dirigiu-se ao empregado da recepção e perguntou:

- A que horas sai daqui o próximo comboio para a Califórnia?

O empregado sorriu e respondeu:

- Se quiser dar-se ao incómodo de perguntar ao porteiro, ele... Um momento só. É a Srª. Bertha Cool?

- Sou.


- A senhora registrou-se aqui no hotel a noite passada, não é verdade?

- Exactamente.

- Veio um telegrama para a senhora esta manhã informou o empregado. - Devolvemo-lo para a companhia. Um momento só. Talvez ainda não tenha seguido. Não. Ei-lo.

Pegou nele e entregou-o a Bertha Cool. Ela abriu-o de forma a que eu pudesse lê-lo também por cima do seu ombro. Era provavelmente de Richmond e tinha a data da noite passada.

“Depois de ter falado consigo por telefone decidi voltar a Nova Orleães pelo primeiro avião. Emory G. Hale.”
X - Uma Circular
Afastamo-nos do balcão. Bertha continuava a olhar para o telegrama.

- Deve chegar de um momento para o outro – disse eu. - Há um avião que sai de Nova Iorque de manhã cedo. Ele não diz em que avião vem, pois não?

- Não, diz que vem no primeiro. Pode não ter encontrado lugar, pois nestes dias vêm sempre com a lotação esgotada.

- Quando ele chegar, quem fala sou eu - declarei.

Bertha tomou uma decisão súbita.

- Você tem muitíssima razão ao dizer isso. Bertha vai-se meter num avião e voar para Los Angeles. Se o Sr. Hale fizer perguntas, diga-lhe que Bertha tem um trabalho militar que requer a sua presença. Você não vai dizer-lhe nada acerca da nossa ida lá abaixo esta manhã e acerca do que aconteceu, pois não?

- Não.

- Era tudo quanto desejava saber.



- Quer que vá consigo até ao aeroporto?

- Não. Você é veneno puro. Você deseja puxar os cordelinhos a Hale só porque pensou que Hale o estava a querer enrolar. É lá consigo. Foi você quem enviou os cartões de convite e agora receba os convidados. Bertha vai pôr-se a andar, mas antes de partir vai comer uns pudins de nozes.

- Preciso da chave do apartamento - declarei - e...

- Encontrá-la-á na porta. Vou fazer as malas e deixarei a chave na porta. Adeus!

Dirigiu-se com passos decididos para a saída e eu vi-a meter-se num táxi. Nem mesmo olhou para trás. Quando o táxi desapareceu da vista fui até à sala de jantar, pedi um bom pequeno-almoço, subi até ao quarto, estendi-me numa cadeira, apoiando os pés noutra e li o jornal da manhã enquanto esperava por Hale. Este chegou pouco depois de baterem as dez horas. Apertei-lhe a mão que me estendia e disse:

- Bem, não há dúvida que a sua viagem foi rápida.

Ele repuxou os lábios para trás no seu sorriso característico.

- Tive de ser rápido por um motivo - redargüiu. - Não sabia que a vossa agência trabalhava tão depressa. O que aconteceu à Srª. Cool? Perguntei por ela, mas responderam-me que se tinha ido embora.

- Foi. Foi chamada a Los Angeles por um caso urgente... serviço das forças armadas.

- Oh! - exclamou. - Nesse caso estão a trabalhar para o F. B. I.?

- Não disse isso.

- Não, mas deu a entender.

- Não estou a par de todos os assuntos da agência, mas julgo que não trabalhamos para o F. B. I.

Ele sorriu.

- E se trabalhassem, não diria, pois não?

- Provavelmente não.

- Era tudo quanto desejava saber. Contudo, estou desapontado por não a ver.

- Ela disse que nada mais tinha a fazer aqui. Desde que Roberta foi localizada, o restante trabalho é simplesmente uma questão de pormenores.

- Bem, num sentido assim é. Na realidade vocês trabalham depressa. Disseram-me na recepção que a Srª. Cool se havia despedido às sete horas da noite de ontem. Não partiu a noite passada, pois não?

- Não. Partiu esta manhã.

- Mas despediu-se a noite passada?

- Exactamente. Alugou um apartamento no Bairro Francês. Pensou que assim ficaria num lugar mais central tendo em vista as nossas investigações.

- Compreendo. Onde é esse apartamento?

- Não lhe sei dizer com exactidão. É um daqueles edifícios que ficam numa rua onde se chega depois de voltar dezenas de vezes à esquerda e à direita. Conhece bem o Bairro Francês?

- Não.

- Ficaria surpreendido se visse um tal apartamento. É realmente típico.



-Com que então a Srª. Cool trabalha para os serviços do Exército? Não me falou nisso.

- O senhor não lhe perguntou, pois não?

- Não.

- Ela só muito raras vezes fala dos seus assuntos com os clientes.



Ele fitou-me com um rápido olhar. Conservei-me absolutamente impassível.

- Nesse caso, ela não chegou a falar com Miss Fenn?

Fiz com que o meu rosto mostrasse uma expressão de surpresa.

- Como? A verdade é que, pelo seu telegrama, depreendemos que o senhor desejava que adiássemos a entrevista até à sua chegada, a fim de que o senhor pudesse falar com ela.

- Bem... Não era exactamente isso. Disse-me que ela vivia no Edifício Gulfpride da Avenida Charles.

- Sim.


- Creio que o melhor é irmos até lá. Já tomou o pequeno-almoço?

- Já.


- Nesse caso vamos ter com ela.

- Quer que eu esteja presente quando falar com ela?

- Sim.

Chamamos um táxi e demos-lhe a direcção do Edifício Gulfpride. Quando íamos a meio do caminho, o condutor voltou-se para trás e disse:



- É o lugar onde houve um assassínio esta manhã, não é?

- Que lugar?

- O Edifício Gulfpride.

- Não me diga? Quem é o morto?

- Não sei. Um tipo qualquer chamado Nostrander.

- Nostrander - repeti, como que procurando lembrar-me do nome. - Não creio conhecer alguém com esse nome. O que fazia ele?

- Era advogado.

- Foi realmente assassinado? - perguntei.

- Assim o dizem. Alguém lhe acertou no coração com uma bala de calibre 38.

- Ele vivia lá?

- Não. Foi encontrado no apartamento de uma rapariga.

- Ah, sim?

- Era uma rapariga que trabalhava num banco.

- E o que foi feito dela?

- Desapareceu.

- Por acaso não se lembra do nome dela?

- Não, não me lembro... Um momento. Já o ouvi... Um dos rapazes falou-me no caso. Deixe-me ver. Era um nome pequeno... Pen... Não, não era Pen. Espere... Fenn... Exactamente, Fenn. Roberta Fenn.

- A polícia pensa que foi ela? - perguntei.

- Não sei qual é a teoria deles. Tudo quanto sei é o que ouvi a um colega que estava a contar o caso e que havia conduzido um fotógrafo da polícia ao local. Disse que o cadáver estava num molho. Bem, o edifício é este. Há uma enorme quantidade de carros em frente dele.

Hale começou a dizer qualquer coisa. Antecipei-me a ele.

- E que tal - perguntei em voz alta - se fôssemos ver primeiramente a outra pessoa? Voltaríamos depois aqui, quando tivesse passado todo o rebuliço. Não gosto nada de estar a tratar de um assunto e ouvir gente a entrar e a sair, a subir e descer escadas, fazendo um barulho dos diabos...

- Penso que é uma decisão acertada – respondeu Hale.

Voltei-me para o condutor.

- Muito bem, leve-nos até à esquina da Rua Napoleão. - Recostei-me na almofada e disse para Hale em voz alta: - De qualquer forma, estou certo que a pessoa do Gulfpride não deve estar muito interessada em falar de negócios esta manhã. Deve estar atarefadíssima a trocar impressões com os outros inquilinos a respeito do crime. Acho que o melhor é voltarmos cá na parte da tarde.

- Concordo consigo.

Ficamos depois silenciosos até chegarmos à esquina da Rua Napoleão.

- Desejam que espere? - perguntou o condutor.

- Não, Provavelmente teremos de nos demorar uma ou duas horas.

Pegou na gorjeta que lhe estendi e afastou-se.

- E agora? - perguntou Hale.

- Esperamos por um autocarro e regressamos nele à cidade.

A sua excitação era evidente.

- Temos que descobrir tudo quanto pudermos a respeito deste caso. Ouça, Lam, você é um detective. Não lhe seria possível entrar em contacto com a polícia e descobrir o que ela sabe sobre...

- Não há nem uma probabilidade num milhão interrompi com firmeza.

- A polícia não trabalha em conjunto com as agências de detectives?

- A resposta a isso é uma palavra de uma sílaba que não dá lugar a qualquer mal-entendido. É não!

- Mas isto vem interferir diabolicamente com os meus planos. Tem a certeza que essa mulher era a mesma Roberta Fenn das fotografias que lhe dei?

- Tenho.


- Onde parará ela agora?

- A polícia deve estar a fazer a si mesma essa pergunta.

- Acha que seria capaz de a encontrar novamente. Lam?

- É possível.

O seu rosto iluminou-se.

- Antes da polícia? - perguntou.

- Talvez.

- Como agiria com essa finalidade?

- Não lhe posso dizer por enquanto.

Esperamos pelo autocarro. Hale estava nervoso e olhava repetidamente para o relógio. Finalmente chegou um autocarro. Entramos e, quando nos sentamos, fiquei com a certeza que Hale tinha tomado uma decisão sobre qualquer assunto. Estava à espera de uma oportunidade de ma comunicar, mas eu não lhe dei qualquer saída nesse sentido. Limitei-me a ficar sentado e a olhar tranquilamente para a rua pela janela.

Quando passávamos pelo Edifício Gulfpride esticamos os pescoços. Havia ainda bastantes carros em frente da porta. Um grupo de homens encontrava-se no passeio, falando com as cabeças quase juntas. O facto forneceu a Hale a oportunidade que procurava. Deu um profundo suspiro e disse:

- Lam, vou voltar para Nova Iorque. Você fica cá para continuar o trabalho.

- O melhor que tem a fazer é meter-se num quarto, fechar-se lá dentro e dormir uma boa soneca. Não pode andar daqui para Nova Iorque e de Nova Iorque para aqui, constantemente.

- Receio não poder descansar muito.

- O apartamento que Bertha deixou vago está aberto. Vá até lá, meta-se na cama e durma um pouco. Não será como num hotel. Não haverá ninguém a incomodá-lo. Basta fechar a porta à chave e dormir à sua vontade.

Vi que a idéia lhe agradava.

- E mais ainda - acrescentei. - Vai achar o apartamento muito interessante por outro motivo. Roberta Fenn viveu lá durante alguns meses. Nessa altura usava o nome de Edna Cutler.

Isto fê-lo sobressaltar. Os seus olhos, raiados de vermelho devido a não ter dormido, abriram-se desmesuradamente.

- Foi assim que a descobriu?

- Encontrei lá algumas pistas, sim.

Hale parecia um pouco aborrecido.

- É inacreditável como você descobre essas coisas, Lam. É um autêntico mocho.

Dei uma gargalhada.

- Você sabe, talvez, muito mais coisas a respeito de Miss Fenn do que as que me contou?

- Desejava que eu a descobrisse, não desejava?

- Sim.


- Pois bem, descobri-a. O nosso fim é apresentar resultados e não aborrecer os clientes com a descrição dos métodos e a enumeração das pistas.

Ele voltou a recostar-se no assento.

- Você é um rapaz pouco vulgar. Não compreendo como conseguiu descobrir tanta coisa em tão pouco tempo.

- Vamos descer aqui e percorrer a pé o resto do caminho - disse-lhe. - São uns cinco minutos.

Hale mostrou-se muito interessado no mobiliário. Foi até à varanda, olhou para os vasos de flores, olhou para um e outro lado da rua, voltou para trás, experimentou as molas da cama com a palma da mão e, finalmente, declarou:

- Ótimo, ótimo. Com que então Roberta Fenn viveu aqui? Muito interessante, muito interessante...

Disse-lhe que o melhor que tinha a fazer era tentar dormir, saí e fui até uma cabina telefônica isolada. Demorei meia hora a falar com uma agência de detectives de Little Rock para ficar a saber que o 935 do Edifício Turpitz, o endereço dado na carta de Edna Cutler para Roberta Fenn, era apenas um endereço postal. Era um grande escritório onde uma rapariga, mediante um determinado pagamento, alugava espaço para pequenos negócios, servia de estenografa e fazia seguir para o seu verdadeiro destino a correspondência que era enviada para lá em nome de qualquer cliente. Faria chegar todo o correio às mãos de Edna Cutler, mas o atual endereço da sua cliente era confidencial, absolutamente confidencial. Disse ao homem de Little Rock que a agência ia enviar-lhe um cheque e depois procurei na lista um escritório de trabalhos datilográficos. Dirigi-me ao que me ficava mais próximo onde fui atendido por uma rapariga.

- Tem copiógrafo para me tirar mil exemplares de uma circular?

-Tenho, sim.

- Tem uma estenografa a quem eu possa ditar a carta?

A rapariga sorriu e pegou num lápis.

- A gerência transforma-se rapidamente em empregada - disse ela. - Pode começar quando quiser.

- Então começo já. Vamos!

Comecei a ditar:






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