O adulto ante os impasses da falta e seus efeitos na posiçÃo subjetiva de crianças e adolescentes



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O ADULTO ANTE OS IMPASSES DA FALTA E SEUS EFEITOS NA POSIÇÃO SUBJETIVA DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES

Elizabeth dos Reis Sanada1

Resumo: A partir de relatos de crianças e adolescentes, abordaremos as relações entre escola e família e seus efeitos sobre o posicionamento subjetivo da criança e do adolescente, destacando o gozo do adulto, subjacente à falta de limites de seus filhos/alunos apontando para a dificuldade de lidar com as privações vivenciadas por eles e (re)velando o mal-estar estrutural que assola o neurótico.
Palavras-chaves: Sintoma parental; relação escola-família; infância e adolescência; psicanálise.

Ao longo de vários anos acompanhando crianças e adolescentes em tratamento analítico, eis que tenho percebido um aumento gradual das queixas familiares acerca das dificuldades em estabelecer limites aos seus filhos.

Desde muito cedo as crianças parecem exercer um poder de decisão no âmbito familiar que demonstra claramente uma inversão dos papeis nesse contexto: escolhem o que comer; o que fazer no final de semana; para onde viajar; o que assistir na tv; o que comprar; se terão ou não um novo irmão; se os pais separados terão ou não outro parceiro; e assim por diante.

Meira (2003, p. 49) aborda essa questão ao discutir os sintomas presentes no brincar da criança contemporânea. Para a autora:
O discurso contemporâneo, que se dirige às crianças é marcado por imperativos e deslocamentos metonímicos. “Se tu fizeres isto, ganharás aquilo”. Em várias versões, hoje, a lei paterna assume ares de impotência já em sua própria enunciação. Lançadas nestas vias de dupla escolha, as crianças colocam em jogo as inúmeras possibilidades a que são confrontadas na vida moderna. Elas são chamadas constantemente a escolher.
A título de discussão nesse trabalho, trago três recortes de casos obtidos no âmbito da clínica e educacional, sobre os quais podemos refletir sobre o lugar de crianças e adolescentes no imaginário parental e o modo como esta visão interfere na escola.

O primeiro desses casos diz respeito a uma criança de oito anos, do sexo masculino, que se reconhece como menina, a qual chamaremos de Dominique.

Dominique é filho único. A mãe optou por engravidar mais tarde, por volta de 34 anos, depois de ter sua vida profissional estabilizada. Porém, teve dificuldades para engravidar e, depois de dois anos tentando pelos métodos naturais, resolveu realizar uma inseminação artificial. O pai da criança poucas vezes é citado nesse processo. Sempre que a mãe se refere a ele, é no sentido de ressaltar que “o que ela desejar, ele aceita, e pronto.

Ao nascer, Dominique se torna o centro das atenções da família, e todas as suas vontades são satisfeitas, principalmente pela mãe. Na escola, tão logo o garoto começa a fazer suas escolhas, vai demonstrando um interesse maior por roupas e brinquedos femininos, algo que começa a preocupar as professoras, principalmente quando o garoto começa a dizer que é uma menina e a chorar, quando contrariado nesse quesito.

Nesse momento, os pais da criança são chamados a comparecer à escola. Na entrevista, a mãe da criança não consegue perceber qual o problema em questão, para ela:
Se Dominique se sente bem assim, eu também me sinto. Eu mesma brincava com coisas de meninos, quando era pequena e estou aqui hoje, casada e com um filho. Acho importante satisfazer as vontades dele, agora que é pequeno. Depois a gente cresce e as coisas ficam tão duras, por que não deixar as crianças aproveitarem agora que podem fazer o que querem, sem ser cobradas? Semana passada mesmo ele viu uma tiara linda, toda cheia de brilhos, como podia dizer “não” para o meu filho? Fui lá e comprei, mas as pessoas não entendem...
O pai de Dominique pouco falou durante a conversa, restringindo-se a dizer que quem entendia do desenvolvimento da criança era a mãe, e que se ela estava tranquila, ele também estava.

Com o passar do tempo, a escola percebe que as escolhas feminizadas de Dominique eram influenciadas por sua mãe, que não só não o auxiliava a construir referências masculinas, como o incentivava a se identificar com traços femininos, presenteando-o com coleções de Barbies, maquiagens e fantasias de princesa, com as quais Dominique desfilava pela escola nos dias de eventos especiais.

Diante da falta de reconhecimento dos pais em relação à necessidade de busca de um olhar profissional que auxiliasse Dominique em seu processo de constituição de identidade, eis que a escola optou por trabalhar internamente essa questão, incentivando que Dominique pudesse experimentar outros papéis sociais, outros brinquedos, ao mesmo tempo em que tentava “explicar” para os demais colegas e pais as especificidades das escolhas da família e da criança, fazendo jus ao seu papel de trabalhar pela inclusão das diversidades no universo escolar.

Fica no ar uma questão acerca do que fazer, quando os pais não reconhecem as implicações negativas de seu discurso e posicionamento na relação com os filhos? Ao analisar o discurso materno, fica claro o modo como ela toma o filho como um representante do que ela foi na infância, não conseguindo reconhecer o corpo do filho como sendo distinto do seu próprio corpo, e travestindo-o como se lidasse com aquela imagem de si, do passado. O pai, por sua vez, esconde-se sob o saber absoluto da mãe e se submete ao seu mandato, eximindo-se da responsabilidade pela criação do filho, cuja reprodução só foi possível pelo Rassial (2000, p. 11) nomeou como “ordem dupla do desejo da mãe e da técnica médica, no registro das ditas PMA (Procriações Assistidas)”.

O segundo recorte está relacionado a uma garota de quatorze anos, com traços de anorexia e dificuldades de se relacionar com os colegas na escola, que chamarei de Mel.

Os primeiros sintomas de anorexia surgiram ainda na infância, com uma preocupação exacerbada da mãe da garota em relação ao seu corpo e àquilo que ela comia e constantes dietas alimentares, que extrapolavam o ambiente familiar, influenciando no ambiente escolar a partir da demanda da mãe para que a criança não comesse o mesmo lanche que as demais crianças.

Assim, Mel vai se distanciando de seus colegas, isolando-se em seu mundo a fim de cumprir o desejo da mãe por um corpo ideal.

Ao ser chamada para conversar, eis que outra questão se coloca, a da separação entre os pais da adolescente, e o fato de ambos esconderem a situação da filha, por acreditarem que ela não seria capaz de suportar. A mãe descreve a situação da seguinte forma:

Estou separada do meu marido, mas ainda dormimos na mesma cama, porque não sei como dizer à minha filha que não estamos mais juntos. Já tenho outro parceiro, mas como não temos condições financeiras, não posso sair de casa, continuo me submetendo a essa situação, também para não magoar minha filha.
Ao ser perguntado se não teria uma alternativa, eis que ela prontamente responde: “como assim, o que eu poderia fazer? Dormir no quarto dela? Mas aí eu teria de contar que não estou mais com o pai dela... Seria um choque! E, depois, não posso tirar o espaço do quarto dela, coitada!”.

O que percebemos a partir desse relato, assim como no primeiro, é que a vida do casal parental se mistura aos encaminhamentos dados pelas figuras parentais aos seus filhos. Muitos pais parecem evitar essa diferença crucial que deveria haver entre o discurso que legisla a relação entre pais e filhos e a relação entre marido e mulher. Ou seja, diante da dificuldade de lidarem com as questões sexuais e com o sintoma do casal, tomam seus filhos como uma forma de escamotear esses conflitos

Outro ponto importante é a representação que os pais têm acerca dos filhos como seres frágeis, incapazes de lidar com as frustrações e limites inerentes à vida. Nesse ponto é importante lembrar que isto nem sempre é fruto de um amor incondicional, mas revela-se antes uma incapacidade dos pais em lidar com os seus próprios limites, justificando sua dificuldade como uma busca de poupar seus filhos de sofrimento.

Grande parte dessa inversão se deve ao fato de, na contemporaneidade, haver um declínio do saber paterno, fazendo emergir em seu lugar o saber tecno-científico, que passa a determinar o que é bom ou ruim para os sujeitos, como os pais devem reagir diante dos filhos desautorizando de certo modo o discurso parental.

Desta maneira, a relação dos pais com as crianças e adolescentes vai se balizando ora pela denegação dos seus sintomas, como no fechar de olhos em relação à feminilidade de Dominique, ora por uma abordagem prescritiva, como no caso dos regimes, medicalização e preocupação em poupar os filhos de frustrações, como vemos com Mel.

Como medo de assumir esse papel e perder o amor dos filhos, muitos pais renunciam ao lugar de autoridade outorgando esse papel à escola.

Nesse sentido, a mãe de Mel questiona o papel da escola, solicitando que os professores a ajudem, orientando os colegas a serem mais pacientes com a aluna, dada a sua fragilidade.

Essa passagem faz lembrar de algo que é colocado por Lerude (1991, p. 134) a respeito da incapacidade de muitos pais em:


suportar a dor, a frustração, a solidão, a angústia do seu filho. O que parecem ser para nós etapas, momentos necessários de construção subjetiva, são para certos pais impossíveis de suportar; a intolerância dos pais à perda que seu filho deve sofrer ao crescer e que eles mesmos devem sofrer e repetir, esta intolerância à mudança de posição subjetiva, está ligada ao imperativo de felicidade que lhes serve de guia, imperativo imaginário e não simbólico.
Essa dificuldade de revivescência das próprias frustrações infantis dos pais é o que parece estar no cerne da impossibilidade de suportar as frustrações dos filhos e numa série de compensações e adiamentos que vão se colocando na relação do adulto com a criança.

Posteriormente, ao ser indagada sobre a opinião do pai de Mel sobre suas dificuldades e sobre a omissão da separação conjugal, mais uma vez se revela o apagamento da figura paterna, que deixa a cargo da mãe as tomadas de decisão em relação à filha. De algum modo o que vai se colocando nesse circuito é a falta de um agente capaz de interditar a relação mãe-criança o que, consequentemente, configura por parte da mãe uma relação particular de gozo em relação ao corpo do filho.



O mesmo padrão de funcionamento se faz presente no terceiro recorte escolhido, concernente a uma adolescente de quinze anos, com queixas de cyberdependência e que também levanta dúvidas, entre os pais, acerca da sua escolha sexual.

Os pais comparecem individualmente para a entrevista inicial. Segundo eles, o horário de trabalho os impedia de comparecem juntos. Entretanto, ambos demonstraram que precisavam, na verdade, era de um espaço específico para colocar suas angústias, relatando passar por uma crise conjugal.

Desde o início do casamento as despesas da casa eram custeadas em sua maioria pela mãe. Mulher fálica por traz de quem o marido se escondia, deixando a cargo dela todos os cuidados com a filha.

Filha adotiva de pais casados há 30 anos, Alice, como a chamarei, é descrita pelo pai como uma “garota sem atrativos sexuais, que só usa roupas largas e que se esconde por traz dos cabelos. Eu sinto que ela foge, porque, quando está em casa, fica ligada no computador 24 horas por dia e, quando sai, tapa o rosto com o cabelo e os ouvidos com o headphone”. Logo depois ele completa sua indignação, fazendo menção ao modo como a esposa educou a filha: “isto é culpa da mãe dela. Ela nunca deixou a Alice se expor, estava sempre lá defendendo, protegendo, fazendo todas as suas vontades... Sempre a Alice ia falar alguma coisa, a mãe dela falava por ela”.

Ao ser indagado sobre sua responsabilidade na educação da filha, eis que o pai admite: “eu sei que eu não devia ter deixado isto acontecer, mas como quem controlava tudo em casa era a mãe dela, inclusive arcando com as despesas financeiras, eu não me achava no direito de intervir na educação da Alice, e acho que nem saberia o que fazer naquela época”.

Com o decorrer das entrevistas eis que se revela que o casal já não mantinha um relacionamento sexual há vários anos. Desgostoso, o pai acaba se envolvendo com outra mulher, que demanda que ele assuma o compromisso com ela e que se separe da atual companheira.

Movido por essa cobrança, o pai se vê diante de um problema maior, sua dificuldade de assumir seu desejo e de se posicionar como um homem diante de uma mulher. Segundo ele:
Acho que passei minha vida toda escondido à sombra da minha esposa. Na verdade, ela sempre foi o homem da família e isto fez muito mal para a minha filha. Estou preocupado com as escolhas sexuais dela. Percebo que ela não encontrou um homem em mim, apenas na mãe. Tenho medo de que não haja mais tempo para mudar as coisas.
O pai se refere a uma ocorrência recente com a filha, ao relatar que a moça teria criado um perfil masculino numa rede social, a fim de conquistar o amor de uma colega de escola, o que teria levantado a possibilidade de ela ser homossexual.

A despeito da indicação de um acompanhamento analítico para a adolescente, os pais optaram por enviar a jovem para morar no exterior por um ano.

Nesse caso, o pai é mais presente nas conversas sobre a filha. A mãe não aceita a separação e vê na viagem da filha uma oportunidade de reaproximação do marido, enquanto ele, ao contrário, acredita que se a filha estiver longe, terá coragem de se separar da esposa e de assumir seu romance atual, já que a “Alice, estando longe, sofrerá menos com a separação, pois estará entretida com a viagem e com as coisas que vai comprar no exterior”.

Há alguns elementos comuns aos três recortes apresentados, relacionados à dificuldade dos pais em expor os filhos aos limites e frustrações, que fazem parte do cotidiano de qualquer criança e adolescente, e uma representação de que eles são frágeis, por um lado, enquanto, por outro, detém todo o poder de monopolizar as decisões entre os pais, a ponto de afetar o seu relacionamento conjugal.

Nas palavras de Lerude (1991, p. 130-131):
Quando o prazer da criança, sua felicidade, torna-se o objetivo dominante, quando é ela quem dita em nome da sua suposta felicidade a lei familiar (e isto em nome de um imperativo coletivo comum: que ela seja feliz!) isto produz experimentalmente sintoma.

Quando analisamos, sobretudo os transtornos de identidade sexual presentes no primeiro e terceiro caso, percebemos o quanto os conflitos entre os papéis masculino e feminino na relação parental afetam a constituição dos filhos.

Nesse sentido, observamos também uma espécie de apagamento da figura paterna, diante da imagem fálica das mães entrevistadas, apontando para um declínio dessa função e, consequentemente, influenciando sobre a constituição dos sintomas dos sujeitos envolvidos, na medida em que admitimos a existência de uma amarração discursiva entre os pais e a criança, permitindo que traços da dinâmica parental possam provocar efeitos sobre o psiquismo infantil, sendo depois reeditados na adolescência.

Kupfer; Bernardino (2009, p. 50), afirmam que:


Esse declínio se traduz em uma desqualificação simbólica do pai, cujos efeitos imaginários se fazem notar hoje na grande dificuldade que os pais modernos têm em sustentar sua autoridade diante de seus filhos nos miúdos meandros da vida cotidiana.
Podemos afirmar com Mannoni (1967) que “a dinâmica pai-mãe-filho está em ação bem antes do nascimento da criança e reenvia cada um dos pais à maneira pela qual eles mesmos viveram seus édipos e ultrapassaram as distorções ligadas ao desejo de incesto”. Assim, intervir sobre o sintoma da criança e do adolescente, neste sentido, é atuar também com relação ao sintoma do casal, tal como pudemos perceber a partir dos casos analisados.

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