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Figura 1.2 – Esquema evolutivo da aprendizagem

De acordo com essa visão, a aprendizagem é um processo de continuidade genética que se distingue em quatro importantes níveis, que vão de certa forma estabelecendo o processo particular de aprendizagem de cada um de nós, de acordo com as diferenças qualitativas que são observadas em nossa evolução. Segundo Visca11, “este modelo concebe a aprendizagem como uma construção intrapsíquica com continuidade genética e diferenças evolutivas, resultantes das pré-condições energéticas/estruturais do sujeito e das circunstâncias do meio”.

O primeiro nível que se identifica é a protoaprendizagem, que diz respeito às primeiras aprendizagens e se estabelece a partir das primeiras relações vinculares (afetivas e cognitivas), até o momento que, por transformações qualitativas, o sujeito começa a entrar em contato com seu meio familiar. Neste nível, a função materna coloca-se como um objeto privilegiado, ao mesmo tempo mediador das características culturais e da história familiar e da sua situação atual. É como se o sujeito estabelecesse um limite, que segundo Visca12 é uma “placenta biológica”, a qual se constitui a partir do grau de sensibilidade entre o sujeito e sua mãe. Os processos inter e intrapsíquicos operam cognitivamente e afetivamente e podem, em um movimento de desenvolvimento irregular ou regular, apresentar três momentos: indiscriminação, quando os sistemas cognitivo e afetivo se encontram indiferenciados; passando para o momento da discriminação, em que os sistemas cognitivo e afetivo vão se diferenciando, sendo que uma parte do afetivo investe no aspecto motor; e por fim a integração, quando o sistema motor dá lugar ao aparecimento do simbólico, e esse dá lugar à construção da cognição operativa. Há, na verdade, uma transformação do nível biológico em protoaprendizagem, ou seja, transformam-se algumas condutas da mãe em protoaprendizagens do filho.

O intercâmbio entre o interno e o externo permite ao sujeito um processo de enriquecimento em função do qual se opera o crescimento psicológico que implica em uma construção tanto afetiva como cognitiva.

O segundo nível proposto é o da deuteroaprendizagem, que significa segunda aprendizagem e vai sendo elaborada pela interação e pelas trocas entre o sujeito que chega ao nível da protoaprendizagem e seu grupo familiar. Segundo Visca13, é nesse nível que se inicia a função semiótica com as cinco condutas descritas por Piaget – a imitação diferida, quando predomina o processo de acomodação sobre o processo de assimilação e o sujeito deve adequar-se ao modelo; o jogo simbólico, em que predomina o processo de assimilação, levando o sujeito a incorporar seus desejos e fantasias na relação com as necessidades externas, sendo que no faz-de-conta elabora suas emoções e sua cognição; o desenho, quando equilibram-se os processos de acomodação e assimilação, levando o sujeito a desenvolver suas invariantes funcionais; a linguagem, no momento em que o sujeito começa a dar nome às coisas, e por meio das primeiras palavras vai criando categorias conceituais que o ajudam a dar unidade ao pensamento; e por final a imagem mental, que o sujeito desenvolve para transformar, interiormente, um estado presente em um estado futuro.

Esse segundo nível prolonga-se até que o sujeito, já com uma maior plasticidade de relacionamentos, amplia seu universo de aprendizagens e condiciona novas percepções de mundo, diversificando o investimento de suas estruturas cognitivas e energéticas. Existem processos inter e intrapsíquicos, mas a diferença substancial está no fato de a criança tomar como principal objeto de interação os membros do grupo familiar e as relações dos mesmos entre si e também com os objetos animados e inanimados, relações que ocorrem em função de uma escala de valores.

A vinculação com a mãe, iniciada na protoaprendizagem, tem continuidade no segundo nível, porém a mãe adota, na maioria dos casos, uma postura que permite a participação de terceiros no processo de aprendizagem da criança, facilitando a construção desse nível, mais elaborado.

No terceiro nível, com um grau de sensibilidade mais amplo, o sujeito passa a entrar em contato com seu grupo social que se tornará a referência mais próxima de suas aprendizagens sociais. Esse contato se dá tanto no sentido vertical como no sentido horizontal, passando a internalizar uma instrumentalização que lhe fornece conhecimentos, atitudes e destrezas que lhe permitem o acesso à sociedade culturalmente definida na qual está inserido. Esse é o nível das aprendizagens assistemáticas, pois segundo Visca14, “o caráter assistemático é dado não porque nos âmbitos intrapsíquico e social os fatores constitutivos não estejam organizados, mas porque os intercâmbios propostos pelo meio carecem do nível de consciência, graduação, ritmo e metodologia com que se efetivam nas instituições educativas”.

O nível das aprendizagens assistemáticas caracteriza-se por um momento em que o sujeito entra em contato com os níveis mais complexos de sua cultura (eixo vertical); por outro lado, conhece apenas lugares próximos, como seu bairro e sua cidade (eixo horizontal). No entanto, esse processo é importante para o desenvolvimento do ser humano e indispensável para que as aprendizagens sistemáticas realizem-se com verdadeira significação, permitindo a instrumentação da aprendizagem sistemática em função da cultura à qual o sujeito pertence. Dessa forma, a modalidade de aprendizagem nasce de acordo com a forma como o sujeito interage com a realidade nas aprendizagens assistemáticas.

No quarto nível o sujeito passa a estabelecer uma relação mais íntima com objetos e situações que a sociedade veicula por intermédio das instituições educativas, que, para Visca15, organizam-se “a partir do nível da educação primária, o qual possui subestágios: o das aprendizagens instrumentais, o de conhecimentos fundamentais, o de aquisições transculturais, o de formação técnica e o de aperfeiçoamento profissional; cada um dos quais implica em uma maior descentralização, objetividade e instrumentalização”.

Esse nível é denominado de aprendizagem sistemática. Nele, o sujeito realiza a transformação dos bens culturais de uma sociedade em bens pedagógicos, tendo como base as aprendizagens instrumentais da leitura, escrita e conceitos matemáticos. Como um processo construtivo, essas aprendizagens permitem ao sujeito obter conhecimentos fundamentais sobre o espaço geográfico, histórico e cultural, para que mais tarde se estabeleçam aprendizagens transculturais, fazendo com que aconteça a percepção daquilo que vai além da experiência têmporo-espacial. O ápice deste processo acontece quando o sujeito tem a possibilidade de formar-se tecnicamente, bem como se aperfeiçoar profissionalmente.

É, portanto, partindo dessa visão sobre a aprendizagem, enquanto processo de construção, e analisando o sujeito a partir de uma macrovisão, considerando-o com base no grupo, na instituição e na comunidade, que o psicopedagogo poderá apoiar sua prática diagnóstica e interventiva. Essa concepção oportuniza uma ressignificação do olhar e da compreensão sobre o processo de aprendizagem, que propõe o enfrentamento da mudança de paradigmas, transformando referências mecanicistas e reducionistas em posicionamentos integrativos, convergentes, sistêmicos, entendendo a aprendizagem com base em sua dinâmica e de suas relações.






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