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A família e os problemas de aprendizagem



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3.4.2 A família e os problemas de aprendizagem

Fazem parte do desenvolvimento das relações familiares as expectativas que surgem com base na formação das redes sociais que se estabelecem no seu ciclo vital. Este se constitui de momentos particulares que podem influenciar diretamente nas mudanças funcionais da família, como por exemplo um casamento, o nascimento de um novo filho, a doença de um membro da família etc. A repercussão dessas mudanças pode afetar regras, limites, valores e estruturas familiares.

Como todo sistema aberto, a família procura manter-se em equilíbrio durante o maior tempo possível, agindo a partir de normas regulamentais. Segundo Eulália Bassedas et al.16,

cada família, como todo sistema, possui uma estrutura determinada que se organiza a partir das demandas, interações e comunicação que ocorrem em seu interior e com o exterior. Esta estrutura forma se a partir das normas transacionais da família, que se repetem e informam sobre o modo, o momento e com quem deve relacionar-se cada um se seus membros.

Portanto, as resistências frente às necessidades de adaptação e manutenção da homeostase podem levar ao aparecimento de um obstáculo que impede a família de avançar no desenvolvimento de suas relações. Neste momento, em que a família tenta dar conta de seu ciclo vital evolutivo, pode ocorrer o que chamamos de sintoma.17

Para Elizabeth Polity18, o sintoma “pode ser definido como uma mensagem que emerge em determinada circunstância e que tem uma função para aquele sistema. Em busca da homeostase, o sintoma na família adquire um significado de funcionalidade que ocorre pela impossibilidade de simbolizar.”

O sintoma, portanto, pode surgir das resistências da família em enfrentar momentos de transição e serve de alerta para que ela prepare uma mudança de forma mais gradual. Quando o sintoma vem descrito com base nas dificuldades de aprendizagem, a família encontra uma maneira de evitar a mudança e manter o equilíbrio de forma rígida, identificando o problema no sujeito portador do sintoma, ou seja, o filho não aprende porque é desatento, preguiçoso etc.

É muito comum os pais criarem expectativas de sucesso sobre seus filhos, principalmente no âmbito intelectual, pois isso garantirá a eles êxito no desempenho de suas funções. A não-correspondência a essa expectativa caracteriza um momento difícil de enfrentamento, podendo gerar uma dificuldade ainda maior, estagnando padrões de relação e flexibilidade.

A dificuldade de aprendizagem pode, portanto, caracterizar-se como um sintoma que emerge em uma situação familiar, configurando-se a partir do não-cumprimento das funções sociais por parte de determinado sujeito, portador do sintoma.

Dentro do ciclo vital evolutivo da família, espera-se que o sujeito em idade escolar dê conta de concretizar a alfabetização, considerada uma função social que todo ser humano deve cumprir por volta de seus sete anos. O fato de essa função não ocorrer pode determinar resistências na família em ter de enfrentar tal situação. As dificuldades de aprendizagem que são descritas nesse momento caracterizam-se então como um sintoma, que é localizado no sujeito, evitando que a família tenha de encontrar mecanismos em busca de mudanças da sua funcionalidade.

Dessa forma, o sujeito passa a ser o portador do sintoma, que se caracteriza como um problema de aprendizagem. É importante dizer que os problemas de aprendizagem têm várias causas, origens e desenvolvimentos e que exigem pesquisa em diferentes campos do conhecimento. Aqui estamos enfocando a dificuldade de aprendizagem dentro do contexto familiar e também das redes sociais mais amplas, como a escola.

Para Polity19,

a dificuldade de aprendizagem pode ser concebida por uma condição bastante abrangente, que pode apresentar um leque muito amplo de causas e manifestar-se na prática, também de maneira muito diversa, mas na sua forma evolutiva, creio eu, está intimamente relacionada com o sistema familiar, educacional e social no qual o sujeito está inserido.

A função psicossocial que a família assume caracteriza-se por uma proteção a seus membros, bem como por uma função de transmissão e favorecimento à adaptação cultural existente. Essas funções podem levar a família a ser concebida como um contexto potencializador de sintomas relacionados com o processo de aprendizagem.



Sendo assim, a dificuldade de aprendizagem não pode ser ­explicada somente pelo viés do sujeito, como se fosse um ­processo individualizado. O modelo sistêmico nos possibilita ter um instrumento que auxilia na leitura de um fenômeno pela ordem dinâmica de suas partes e pelos processos de mútua interação.

A dificuldade de aprendizagem, enquanto sintoma, deve ser tomada como um escudo que protege a organização familiar, com base nos padrões de interação. Na verdade, não se objetiva criar aqui uma hegemonia diante do fenômeno da dificuldade de aprendizagem, descaracterizando outros fatores que estão relacionados a ele. O que se observa, na maioria dos casos, é um entrelaçamento destes fatores, que nos faz reconhecer a complexidade da situação.20

O importante, em se tratando das dificuldades de aprendizagem, é perceber como a família encara e administra a aprendizagem de seus membros. Esse aspecto é determinante na constituição de um obstáculo no processo de aprendizagem, dentro da visão que se está propondo.

Segundo Audrey Souza, citado por Polity21,

a inibição intelectual, que estaria na base da dificuldade de aprendizagem, está ligada a fatores da vida psíquica da criança, que podem atrapalhar o bom desenvolvimento dos processos cognitivos e sua relação com a aquisição de conhecimentos e com a família à medida que as atitudes parentais influenciam sobremaneira a relação da criança com o conhecimento.

Anteriormente tivemos a oportunidade de nos aprofundarmos um pouco no pensamento sistêmico. Também caracterizamos a escola como instituição, funcionando como um sistema aberto. Nesse momento, contextualizaremos a família, também como um sistema aberto, frente às questões de aprendizagem.






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