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O diagnóstico psicopedagógico – instrumentos e técnicas



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2.3.2 O diagnóstico psicopedagógico – instrumentos e técnicas

Barbosa24 propõe uma sequência de passos, por ela elaborados com base em sua experiência e seus estudos sobre a psicopedagogia institucional, que nos parece ser um bom referencial para o processamento do diagnóstico psicopedagógico na instituição educacional, a partir da matriz diagnóstica. Essa organização prevê:

Entrevista para exposição de motivos

A demanda para a realização de um diagnóstico tem importância significativa para a formação da queixa, que se caracteriza como o motivo do diagnóstico.

O psicopedagogo deve, nesse momento, aguçar sua capacidade de percepção pelo olhar e pela escuta, pois esse contato é o início do diagnóstico.

Para a entrevista, deve-se preparar um roteiro com os aspectos mais importantes a serem abordados. Deve-se, porém, dar liberdade ao entrevistado para responder às perguntas que lhe forem feitas. É importante observar a temática e a dinâmica dos participantes envolvidos e o resultado obtido nesse momento.

A entrevista deve ser realizada com a equipe responsável pela instituição, pois a queixa está relacionada ao desenvolvimento do processo de ensino-aprendizagem no interior da instituição.

A observação temática relaciona-se a tudo o que é falado durante a entrevista. Isso caracteriza a comunicação manifesta, que pode ser observada explicitamente, e a comunicação latente, que ocorre por meio de simbologia. Segundo Alicia Fernández25, a queixa ocupa o lugar do pensamento e o indivíduo que se queixa pensa que está pensando, portanto o queixar-se parece uma maneira de não enfrentar o conflito que gera a queixa, evitando que se assuma uma nova atitude, uma mudança. Dessa forma, há uma permanência do queixoso.

A observação da dinâmica diz respeito aos movimentos que acontecem durante a entrevista e que, nesse caso, podem servir de referência para explicitar a queixa. Segundo Barbosa26, este movimento pode ser de ordem física, afetiva e cognitiva. O importante é identificá-lo, relacioná-lo com a temática e pensar na proposta de diagnóstico com base nesse resultado.

Enquadramento do processo diagnóstico

O enquadramento é a possibilidade que psicopedagogo tem de tornar constantes as diversas variáveis que podem ocorrer durante o processo.

Segundo Visca, citado por Barbosa27, é um marco para se conhecer a realidade, sendo importante isolar a realidade do contexto e integrá-la a ele.



No enquadramento devem estar incluídos a justificativa e o objetivo do diagnóstico, bem como o tempo a ser utilizado, o espaço, o material, os honorários previstos e a entrega de um planejamento após se realizar um primeiro sistema de hipóteses.

O enquadramento não significa uma ação estática, em que tudo deve funcionar prefixadamente. Os aspectos contratados inicialmente objetivam a melhor observação do movimento de aprender no interior da instituição. Segundo Barbosa28, “as referências tem a função de eliminar o caminho, e não de submeter os elementos a uma rigidez desnecessária”.

É importante que, desde o início do diagnóstico, o psicopedagogo mantenha um distanciamento instrumentalizado do fenômeno que está investigando, com o objetivo de observar o movimento da instituição sem se misturar com o mesmo. Esse distanciamento significa que ele deve ­envolver-se com a situação, porém com suficiente distanciamento para identificar qual o seu papel e permitir que as relações que se estabelecem durante o diagnóstico sejam utilizadas como ferramentas de trabalho.

Observação e análise do sintoma

Com base em uma visão sistêmica, o sintoma deve ser percebido como um sinal de que algo não está funcionando adequadamente em determinado sistema, no caso a instituição educacional. Normalmente, o sintoma ou a queixa, configura-se pela descrição da dificuldade de aprendizagem de um indivíduo ou de um grupo. Segundo Simone Carlberg29, investigar o sintoma é uma forma de iniciar o processo diagnóstico, pela aproximação sucessiva do objeto de estudos de maneira menos contaminada.

Esta mesma autora organizou um instrumento para essa observação, que denominou Entrevista Operativa Centrada na Modalidade de Ensino Aprendizagem (Eocmea).

Este instrumento foi referenciado no modelo de diagnóstico psicopedagógico clínico proposto por Visca30, que nos fala da Entrevista Operativa Centrada na Aprendizagem (Eoca).

Segundo Carlberg31, esta entrevista “prevê uma aproximação ao objeto de estudo de maneira a perceber o que o grupo sabe, e não simplesmente o que o grupo não sabe. Este saber é relativo à operatividade do sujeito e à operatividade do grupo. Objetiva, portanto, pesquisar a dinâmica (o que o corpo fala), a temática (o que é verbalizado) e o produto”.

A Eocmea deve ser aplicada no grupo identificado pelo psicopedagogo a partir do momento que ele escuta a queixa trazida pela instituição. Identificado o grupo, deve-se organizar a tarefa a ser proposta de acordo com a melhor maneira de se observar o sintoma. Essa técnica é, portanto, um dos passos importantes para o diagnóstico, pois com base nela serão levantadas hipóteses e instrumentos para analisar a instituição.

Organização do primeiro sistema de hipóteses

Segundo a matriz diagnóstica, devemos analisar as causas que coexistem temporalmente com os sintomas. Para isso, a partir da Eocmea levantaremos o primeiro sistema de hipóteses, com o objetivo de traçar um plano de trabalho que verificará a veracidade das hipóteses, ou rejeição das mesmas, quando o caso.

Estas hipóteses podem estar relacionadas com questões interacionistas e culturais, dizer respeito a vínculos afetivos, estar veiculadas ao funcionamento e à forma de comunicação ou com a capacidade da instituição em atender seus objetivos. Podemos usar os obstáculos descritos na matriz diagnóstica (interação, conhecimento, funcionamento e estrutura) para o levantamento das referidas hipóteses.

Com o primeiro sistema de hipóteses, teremos uma referência para a utilização dos demais instrumentos para confirmar ou negar hipóteses.

Escolha de instrumentos de investigação

Os instrumentos a serem utilizados no diagnóstico serão estabelecidos com base no primeiro sistema de hipóteses, portanto não há nada preestabelecido para essa fase. Visca, citado por Barbosa32, não propõe uma bateria fixa, pois assim exige do investigador uma atitude de constante reflexão na procura do instrumento e da ação mais eficazes para cada caso.

Normalmente, são utilizados os seguintes instrumentos: entrevistas, observações, técnicas projetivas psicopedagógicas, levantamento estatístico, dinâmica de grupo, análise de material escolar etc. É importante escolher instrumentos que possi­bilitem uma visão ampliada da instituição e não o enfoque reducionista no indivíduo.

É por essa razão que alguns instrumentos utilizados na clínica psicopedagógica não são viáveis para a instituição. Além disso, esses instrumentos não são, em sua maioria, específicos da psicopedagogia; porém a leitura que se fizer deles caracterizará o fazer psicopedagógico.

Levantamento do segundo sistema de hipóteses

A decantação do primeiro sistema de hipóteses resultará em um segundo sistema, isto é, as hipóteses confirmadas serão repetidas, as refutadas retiradas e as novas hipóteses, criadas pela aplicação do instrumento, serão adicionadas.

Esse segundo sistema é organizado nos mesmos moldes do anterior, usando as referências dos obstáculos, permitindo que nos aproximemos gradualmente da realidade, conhecendo-a em suas especificidades e objetivando as possibilidades de intervenção futura.

Pesquisa da história

Mesmo já conhecendo muitas informações sobre a configuração da instituição a partir do sintoma, ainda nos resta a pesquisa histórica, que segundo Barbosa33 “não se resume ao conhecimento da história da instituição, da forma geral, e sim preocupa-se em centrar seu levantamento no conhecimento da história da problemática, objeto da queixa que originou o diagnóstico e no conhecimento histórico dos fatores causais que foram base das hipóteses anteriores”.

Essa pesquisa deve ser realizada com os responsáveis pela escola, por meio de entrevista aberta ou fechada. Também pode ser elaborado um questionário a ser respondido por pessoas que conheçam a história da instituição. Outra possibilidade é realizar a leitura e a análise de documentos da escola que relatem a trajetória desta.

Terceiro sistema de hipóteses

Mais uma decantação das hipóteses anteriores, mas com o objetivo de ajustar a hipótese diagnóstica, para posterior entrevista, quando serão devolvidos os resultados. Esta será feita a partir da descrição dos obstáculos referentes ao conhecimento, à interação, ao funcionamento e à estrutura, de maneira que classifiquem as causas, a-históricas e históricas, em relação ao sintoma investigado.

Devolutiva e o informe diagnóstico

A hipótese diagnóstica deve ser levada para a instituição como um informativo, escrito com uma linguagem adequada, especificando os perfis institucionais referentes ao sintoma investigado.

A devolutiva é um momento muito importante do diagnóstico, pois não se concretiza apenas pela entrega de um documento escrito, mas principalmente pela devolutiva verbal. Ela deve ter um caráter interventivo, na medida em que a instituição reflete e internaliza as indicações fornecidas a partir do informe. As indicações preveem um prognóstico com base em sua efetivação e em sua não-efetivação.

O diferencial conceitual que nos proporciona o fechamento da matriz diagnóstica possibilita a construção de uma prática psicopedagógica interventiva. É com as informações obtidas com base no diagnóstico que o psicopedagogo vai elaborar um plano de trabalho interventivo. Nas próximas unidades, serão apresentados alguns pontos que auxiliarão nessa intervenção.




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