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A ABORDAGEM SISTÊMICA E A ATUAÇÃO dA PSICOPEDAGOGIA NO ÂMBITO DA INSTITUIÇÃO EDUCACIONAL



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2.1 A ABORDAGEM SISTÊMICA E A ATUAÇÃO dA PSICOPEDAGOGIA
NO ÂMBITO DA INSTITUIÇÃO EDUCACIONAL

Quando nos referimos à compreensão da instituição escolar, é importante levar em consideração a sua estrutura total, isto é, o que é universal, bem como o que é específico. Pensar sistemicamente nos permite observar o funcionamento da aprendizagem no contexto escolar com base nas relações entre o ensinar e o aprender, sem cristalizar uma ideia em apenas um aspecto desses processos.

Segundo Maria Cecília Gasparian1, “o conceito de sistemas invadiu vários campos da ciência e penetrou no pensamento popular, na gíria e nos meios de comunicação da massa. O pensamento, em termos de sistemas, desempenha um papel dominante, em uma ampla série de campos”.

Na visão psicopedagógica, o pressuposto sistêmico vem ao encontro da necessidade de entender a construção da aprendizagem, com base na dinâmica e nas relações entre os elementos envolvidos no processo, e auxilia na visão sobre o ensinar e o aprender, que é básico na instituição educacional.

Segundo Gasparian2,

a teoria geral dos sistemas, por oferecer referências teóricas úteis à compreensão das leis que regulam os sistemas vivos, torna-se um modelo epistemológico cada vez mais eficaz para os profissionais que, trabalhando com a escola e com as famílias, podem utilizar os modelos elaborados a partir de observação do comportamento de apenas um indivíduo.

Na atuação junto à instituição educacional, parece ser fundamental desfocar a ação da parte, do indivíduo para o todo (os grupos, que na sua inter-relação formam o todo da instituição). Compreender o processo histórico de funcionamento e estabelecimento da estrutura maior que é a instituição, a partir das redes de relação, amplia a possibilidade de visão em relação à aprendizagem e confere maior flexibilidade de atuação e compreensão da situação atual da instituição.

Na concepção do pensamento sistêmico, as teorias científicas devem incluir a compreensão do processo de conhecimento, isto é, passar de uma ciência objetiva para uma ciência epistêmica. Para Gasparian3, “à medida que a realidade é percebida como uma rede de relações, as descrições de um indivíduo formam igualmente uma rede interconexa representando os fenômenos observados. Não há hierarquias nem alicerces.”

Para essa teoria, a dinâmica das relações não deixa que se tenha uma compreensão completa e definitiva da realidade; todas as teorias e descobertas são limitadas e aproximadas. A teia inseparável de relações leva o sistema a caminhar como um bloco, agindo e interagindo para sua evolução. Da mesma forma, não há uma estrutura estática; o movimento interno de cada estrutura leva à visualização de um processo.

Internalizar o pensamento sistêmico para uma leitura psicopedagógica supõe uma capacidade de perceber a escola na totalidade de seu funcionamento e sua estrutura, seu espaço de conhecimento e relacional, identificando um circuito de retroalimentação em que cada sujeito afeta e é afetado pelo todo da instituição.

Portanto, segundo Gasparian4, “pensar a escola à luz da psicopedagogia significa analisar um processo que inclui questões metodológicas relacionais e socioculturais, englobando o ponto de vista de quem ensina e de quem aprende, abrangendo a participação da família e da sociedade”. Estaremos, assim, dialogando com esse complexo que se manifesta como um sistema particular, dizendo que nosso sujeito é a instituição educacional, com sua complexa rede de relações.

Visca5 coloca a escola como responsável pela sistematização da aprendizagem, isto é, aquela que se opera no interior da instituição educativa, mediadora da sociedade, órgão especializado em transmitir conhecimentos, atitudes e destrezas que a sociedade estima necessárias para a sobrevivência, capazes de manter uma relação equilibrada entre a identidade e a mudança. Essas instituições, além disso, provêm ao sujeito as aprendizagens instrumentais que irão permitir seu acesso a níveis mais elevados de pensamento.

Olhar a instituição educacional à luz desses pensamentos pressupõe a difícil tarefa de analisar a adequação da estrutura e do funcionamento da instituição, bem como do currículo e dos métodos de ensino empregados, desviando o olhar dos fatores individuais do aluno para os fatores intraescolares e inter institucionais, de ordem social, econômica e política, que envolvem a educação.

Segundo Sara Pain6, a educação tem como função primeira a manutenção, a socialização e a transformação do sujeito, mas ao mesmo tempo fortalece a repressão que lhe é imposta. A escola tem assumido um papel institucionalizado dessa ambivalência, sob a égide de sua função educativa. As representações da aprendizagem que se dão no seu interior muitas vezes passam despercebidas em detrimento de um fundamento teórico tradicional.

Saber enfrentar as diferenças do sistema educativo, bem como intervir para a aquisição do conhecimento, é compreender a importância da intervenção psicopedagógica no processo de ensino da instituição. Quando perguntados sobre o porquê de gostar da escola, é comum que os alunos apontem como razões mais importantes as relações de convívio que ela facilita do que os objetivos acadêmicos7, conforme pesquisas.

Este fato é totalmente contraditório, pois aquilo que historicamente tem sido priorizado em uma escola essencialmente intelectualista e sistemática não é visto como preponderante pelos protagonistas da aprendizagem. Apesar de a escola ter como discurso oficial sua preocupação na formação integral do sujeito, a realidade mostra que é importante considerar a dimensão relacional da instituição escolar, não menos importante para essa formação do que a dimensão sistematizada.

Maria Teresa Estrela8, quando se refere à escola como sistema social, instituição ou organização, cita Hoyle: “enquanto sistema, a ênfase é posta na interação das partes, enquanto instituição, a ênfase é posta nos valores que se transmitem e se recebem, nas convenções e situações estabelecidas e enquanto organização nas estruturas formais e informais.”

Em meio a essa complexidade que se apresenta à escola, o que vem à tona é a diversidade de atores que nela desempenham seus papéis, a partir de um referencial próprio de compreensão de normas, valores e regras que a regem. Portanto, saber entender as relações humanas é um pré-requisito importante para o olhar psicopedagógico. A configuração de uma rede de relações que se estabelecem a partir da cultura organizacional pode ser definida, segundo Daniel Katz e Robert Kahn, citados por Estrela9, por “normas e valores do sistema formal e sua reinterpretação pelo sistema informal”.

Interpretar uma história educacional com base nessa sistematização requer um olhar para o funcionamento da escola, caracterizando-a como única e essencialmente como instituição social, configurada por relações humanas, com padrões de interação própria, definindo o comprometimento dos valores acadêmicos e das estruturas organizacionais.

É importante que, pensando nas articulações ensino-aprendizagem, perceba-se no interior da instituição educacional o grau de configurações, de possibilidades de troca, de permeabilidade ou não, em que não há diferença de papéis ou troca, mas empobrecimento por falta de informações. Esses aspectos são indicadores de uma intervenção que objetiva incrementar o processo de aprendizagem na instituição e estabelecer graus equilibrados de permeabilidade.

É, portanto, a partir do distanciamento do subsistema no interior da escola que se percebe que o fato de não se saber enfrentar conflitos pode, muitas vezes, levar a instituição a demonstrar sintomas que se localizam em situações individuais ou grupais, delatando supostos problemas de aprendizagem.




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