No caso a caso da escola


A professora de T não é uma professora qualquer: uma interlocução possível



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A professora de T não é uma professora qualquer: uma interlocução possível
Na Conversação, os professores querem saber sobre nosso encontro com T. Perguntamos: - Quem é R de Ciências? Pedimos que a professora falasse de sua experiência com T, já que fora citada pelo adolescente na entrevista. Até que ponto ser distinguida do coletivo pelo aluno poderia favorecer sua implicação com o caso? Ela diz:

Olho pra ele quando está fazendo alguma coisa errada, como colocar os pés em cima da carteira da frente. Ele sustenta o meu olhar. Com gestos, aponto para seu pé na cadeira, e ele faz um gesto com a cabeça, como se dissesse: “Que é que tem?”. Faço outro gesto pra ele retirar os pés, e ele obedece.
O que haveria de peculiar na relação da professora com aquele aluno? Se os professores se queixavam inicialmente da “invisibilidade”, surge uma “troca de olhares” ligando esse aluno à professora referida. Durante as Conversações, R sofre pressão dos colegas, que insistiam em dizer que “T é estranho e não tem boa índole”, e, a cada dia, ela sustenta sua versão do adolescente. Fazendo uma livre associação com os dizeres de T na entrevista, concluímos que a professora não fugia dele. Na última Conversação, essa professora declara: “Estava desmotivada, com vergonha de dizer que era professora, a louca da família, profissão com grau de periculosidade. Hoje acho que dou conta de ficar mais um pouco. Meninos como o T me motivam”.

Ao comentar o texto em que trazemos essa experiência, por ocasião da Jornada do CIEN em Buenos Aires, Èric Laurent (2013) argumenta que não se sabe muito de T. Segundo ele, pensa-se em uma identificação do jovem com o pai a partir da identificação com o seu assassino. Para Laurent, T inventa uma solução: “a professora R – a única que falou comigo”. Destaca que a professora tinha uma relação especial com aquele adolescente, sua proximidade com a loucura: “a louca da família”. E continua Laurent: “Proximidade com a louca supõe ser um resto. Pelo menos uma professora pode ser sua interlocutora, em uma manifestação excepcional”, diz. Segundo Laurent, trata-se de um regime da exceção que eles mesmos, os adolescentes, ensinam e indicam pessoas da exceção. Foi possível manter a inserção dos sujeitos dentro de um discurso, a partir do ponto da exceção, isto é, uma transgressão, ponto de falha no cumprimento do ideal.

Considerando ainda a interlocução de Èric Laurent com o nosso trabalho, o psicanalista destacou que os professores, hoje, testemunham o “impossível da educação”, em Freud, pois não podem cumprir com o ideal que recai sobre eles. Afirma haver uma dificuldade de subverter o discurso da norma para a exceção, nas escolas. Na demarcação de normas e regras prevalecem o mundo da proibição e o ideal do amor igual para todos, argumenta o psicanalista. Aí, então, em uma versão técnica, os limites apontam a impotência do sujeito de cumprir esse ideal.

Em sua preleção, Laurent (2013) destaca ser importante que se pense em uma interdição na medida, interdição não total. Que seja inventado um lugar que se possa suportar e a solução que possa incluir, não em nome do universal, do ideal – mas do possível. Subverter e reordenar os imperativos.

Ao concluir suas considerações sobre a intervenção na instituição escolar acima referida, Èric Laurent profere exposições acerca das Conversações, afirmando ser fundamental o psicanalista ler o que escuta. Defende que esse dispositivo da psicanálise admite a passagem de um regime a outro no discurso: de um discurso ideal abstrato para outro encarnado, expressão autêntica, objeto a – inclusão êxtima. Do grupo à singularidade, a pergunta e o ato incluem a dimensão do sujeito, nas Conversações. Enfatiza que a Conversação não é somente um espaço de escuta, mas a escuta do não abstrato.

Quando se tomam os casos particulares, a exceção, colocamos abaixo a pressão dos números, produzindo ideias a partir dessa inserção: um professor, uma professora, no caso. A Conversação é uma proposta de leitura dos casos particulares, e não uma epidemia. Propõe, então, que se produza uma epidemia a partir dos casos particulares, como o caso da professora R, de Ciências, no qual um aluno se engancha. Pode-se dizer sim e facilitar a inserção do “louco da escola”.

Alguns efeitos da intervenção na escola mencionada puderam ser recolhidos. Outras portas se abriram para T, com a discussão de seu caso em rede, envolvendo outros dispositivos da cidade. A Regional também se movimentou a respeito, e outros professores relataram novas maneiras de lidar com o adolescente, apontando perspectivas inéditas de entrada para alunos e professores. Aos psicanalistas concernidos aos sintomas de sua época, coube a oportunidade de formulação da experiência referenciada em uma “psicanálise muito viva” (Laurent, 2013).


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