Nietzsche, a psicologia e outros bichos de 7 cabeçAS



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Encontro31.05.2018
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PELO DEMASIADO HUMANO DIREITO À SINGULARIDADE1
Simone Mainieri Paulon2
A relação entre os Direitos Humanos e as práticas psicológicas que instituíram o dito campo da “Clínica” remete a controversas discussões. Ela costuma aparecer, na melhor das hipóteses, polarizada entre uma abordagem jurídica - limitada aos direitos de cidadania dos doentes mentais - e uma abordagem pretensamente científica - que sequer a toma como questão – justificando-se na clássica dissociação entre a técnica e a política.

O movimento da Reforma Psiquiátrica brasileira produziu importantes avanços para a superação deste impasse ao denunciar as práticas desumanas e a falta de terapêutica dos hospitais psiquiátricos. Mas a padronização dos valores que sustentam as inúmeras instituições constitutivas da lógica manicomial - como a instituição psiquiátrica, a médica, mas também a instituição da burocracia, da saúde, a própria psicologia, etc, - ainda não se configura como crítica fundamental a ser empreendida para efetivação dos processos desinstitucionalizantes. Compreendidas como redes invisíveis de subjetivação moral3, tais instituições concorrem para o apequenamento da existência, naturalizando o que é da ordem da história e individualizando o que é do plano coletivo. Expropria-se, assim, o sujeito do “mais sagrado” de seus direitos: o de viver a vida em toda sua multiplicidade e construir-se/destruir-se em seus movimentos. Humanizar-se, enfim.

A linearidade inerente às lógicas dicotômicas, como a que rege as abordagens referidas, empobrece (ou tangencia estrategicamente?) o que há de mais rico nesta discussão: o compromisso ético de um fazer psicológico mais alinhado às demandas de seu tempo. Por mais paradoxal que possa parecer, é num filósofo do século retrasado que encontramos uma interlocução para problematizar este tema.

Quem quiser que acompanhe o argumento de Nietzsche acerca do equívoco do processo civilizatório, como veio se aprofundando no seio da modernidade, saberá reconhecer sua atualidade na compreensão de muitas das questões candentes da subjetividade contemporânea.

Tão admirado quanto combatido, Nietzsche parecia ter a exata dimensão do impacto que causariam suas idéias no âmbito do pensamento ocidental. Criticando, sem meias palavras, a aliança entre o primado da razão com a lógica cristã como responsáveis pelo profundo processo de esgotamento da vontade de vida, em muitos momentos ele parece ter antecipado os sintomas de decadência da humanidade que hoje assistimos amplificados.

Violência urbana, erotismo banalizado, infâncias roubadas por relações pervertidas, juventudes deterioradas em adições das mais variadas, corpos adoecidos pelo trabalho esvaziado, Estados corrompidos, instituições esfaceladas... não foram exatamente temas focais na obra do filósofo. Mas todos eles estavam lá, pululando entre os sintomas de retrocesso que ele percebia crescente numa sociedade cujos valores afastavam-se cada vez mais da vida como valor maior.

Decadente, para Nietzsche, é uma sociedade que ao invés de perceber como forte a capacidade de criação de valores, a ousadia de invenção do novo, a coragem da transgressão ao instituído valoriza àqueles que se resignam ao que está posto e desmerecem tudo o que não conhecem.

Decadente, para Nietzsche, é a incapacidade de enfrentamento com a radicalidade do destino, o medo ao que a vida pode nos apresentar de novo, o receio em lançar-se aos infortúnios dos acontecimentos ao invés de apostar na possibilidade de jogar com os dados da existência. Criar no lugar de imitar, expandir no lugar de conservar, experimentar ao invés de só representar e ver que jogo dá. Isto seria a grande saúde. Isto seria viver... “e não ter a vergonha de ser feliz”!

O que disto vemos estampado em nossos cotidianos?

O sucesso e pavor despertado pelo premiado filme “bicho de 7 cabeças”, produzido a partir do livro “Canto dos Malditos” de Austregésilo Carrano, nos dá uma boa dica sobre esta questão. Famílias “zelosas”, filhos incompreendidos, técnicos alienados, valores corrompidos. Solidão, perversão e instituição: eis os ingredientes da decadência!

O sofrimento do protagonista desta narrativa apresenta uma das mais terríveis facetas da deterioração social a que a “evolução” da civilização moderna parece ter-nos conduzido. Destoante da moral dominante sintetizada nos valores pequeno-burgueses de sua caricata família, o jovem transgressor é pego aviltando regras fundamentais de sua classe social: fumar um cigarro de maconha e sair para brincar com amigos pichando muros de sua “límpida” cidade latino-americana. Como espécie de “Estranho do Ninho” versão 3o milênio, o destino do personagem representado por Santoro não difere em muito daquele celebrizado por Jack Nicholson nos anos 70. Entregue às mãos daqueles que por sua formação técnica devem “saber o que é bom para ele”, o jovem sofre todas as conhecidas agruras de usuários das instituições psiquiátricas até ser devidamente normatizado e sair com as indeléveis marcas cabíveis a um desviante da “moral e bons costumes” de sua época.

O tema não é novo. O desfecho tampouco. Mas o “bicho de 7 cabeças” que foi feito em cima da inconformidade juvenil do protagonista em questão com a mesmice de valores de sua família, talvez ainda tenha muito a nos ensinar sobre o quanto temos a questionar as instituições que nos regulam. Não raro, como mostra dramaticamente a história de Carrano, nos estrangulam.

Nietzsche extemporaneamente parece ter percebido isto. Em uma de suas veementes críticas aos valores sociais cristalizados em instituições moralizantes como as ilustradas pelo filme – a familiar, psiquiátrica, estatal, técnica, etc... – ele dizia que as desgraças do mundo advinham “dos velhos contratos”. Mais especificamente, enfatizava que para “banir as desgraças do mundo” é preciso “declarar guerra à velha sociedade, aos costumes, leis e instituições sob a qual se assenta a tradição e a moral”. Tarefa “singela”, aliás, que ele atribuiu “por excelência”4 à psicologia entitulando-a “a Sra. de todas as ciências, para cujo serviço existem todas as demais”, a despeito da clássica função até então exercida pela teologia.

Vale, entretanto, aqui lembrar que a tradição dos costumes e a segregação daqueles que não comungam as opiniões das médias maiorias não ocorre por acaso. Silenciar as vozes que denunciam uma realidade social controversa é o que justifica a criação de tantas instituições repressivas. É como se a sociedade pudesse se livrar de seus males simplesmente marginalizando os porta-vozes dos desejos que não se encaixem ao que está prescrito como norma. Só que a vida não é medíocre. É inusitada, imprevisível, trágica e a qualquer momento nos exigirá uma estratégia nunca d´antes experimentada, uma saída ainda não pensada, um novo jeito de enfrentar o que virá.

De repente aquele emprego seguro foi pro espaço, o casamento que parecia ideal explodiu, as certezas tão sólidas desmancharam-se no ar. E temos que virar outra pessoa! Achar um jeito outro de trabalhar, amar, viver passa a ser um privilégio dos fortes – daqueles que souberam lançar-se às incertezas do desconhecido, que ousaram experiências de estranhamento. Usando uma expressão de Fernando Pessoa, saúde, nesta perspectiva, é muito mais uma capacidade de “outrar-se”, descobrir outros dentro da gente, do que de cumprir o mesmo e tedioso repertório de comportamentos prescritos pelos contratos sociais.

É possível que a psicologia, tal como se institucionalizou no século passado, em muito ao lado da moral vigente e dos bons costumes, tenha pouco a fazer pela ainda emergente tarefa de banir do mundo os velhos contratos para assumir-se como arma na luta pela singularidade. Talvez este humano direito seja demasiado humano para as pretensões cientificistas desta filha desgarrada da filosofia. Mas também me parece possível que, resgatando com Nietzsche a possibilidade de viver a vida como ela é, a psicologia possa vir a ser uma outra coisa. Nem um bicho de 7 cabeças, nem uma cabeça que se queira dona da verdade sobre o bicho-homem.



1 Artigo publicado na coletânea do “Programa de Difusão de Direitos Humanos na Prática Profissional” organizada pela Comissão Nacional de Direitos Humanos do Conselho Federal de Psicologia (CNDH-CFP), Brasília, setembro de 2003.

2 Psicóloga, analista institucional, doutora em Psicologia Clínica (PUCSP), professora e pesquisadora da UFRGS, consultora do MS/PNH.

3 Conforme definido em PAULON, S. “A terapêutica do niilismo: apontamentos para uma Clínica Institucional Genealógica”. Tese de doutorado. PPG em Psicologia Clínica PUCSP. São Paulo, 2002, 2001pgs.

4NIETZSCHE, F. O caso Wagner: um problema para músicos; In: Nietzsche contra Wagner: dossiê de um psicólogo. Cia. das Letras, 1999, p. 11-45.



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