Índice Estética e Desporto a percepção competitiva Ganhar jogando feio segundo Brad Gilbert Sobre a filosofia do desporto em Portugal: o caso de Sílvio Lima Desporto e Profissionalismo Nota Final Bibliografia Estética e Desporto



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Índice
Estética e Desporto

A percepção competitiva

Ganhar jogando feio segundo Brad Gilbert

Sobre a filosofia do desporto em Portugal: o caso de Sílvio Lima

Desporto e Profissionalismo

Nota Final

Bibliografia

Estética e Desporto

Numa frase que se tornou célebre no quadro da estética contemporânea, o filósofo Maurice Merleau-Ponty (1908-1961) retoma uma ideia de Paul Valéry e escreve o seguinte: «O pintor oferece o seu corpo (apporte son corps)» (Merleau-Ponty, 1992: 19; 1964a: 16). Convém, no entanto, precisar que a expressão de Valéry não é exactamente essa, pois não fala do pintor, mas do artista em geral1. De qualquer modo, é também verdade que se podem extrapolar algumas das reflexões pontianas para outras actividades artísticas que não a pintura.

A expressão apporter son corps, que não é fácil de traduzir, interessa-me aqui por vários motivos. Desde logo, porque nela se sublinha a irredutível dimensão corporal da actividade artística (Valéry) e, em particular, da pintura (Merleau-Ponty). Daí que este último acrescente: «E, com efeito, não se vê como poderia um espírito pintar» (Ibidem). Pintar é, pois, assunto do corpo. Mais: a pintura, de acordo com Merleau-Ponty, é uma via privilegiada para conhecermos a nossa corporeidade ou, se se preferir, o modo como o ser humano se relaciona esteticamente2 com o mundo. Contudo, é preciso alertar que tal via privilegiada não é um caminho simples. Dado que nos habituámos a pensar e a dizer que estamos no mundo – acerca deste hábito, que designou «a fé perceptiva e a sua obscuridade» (Merleau-Ponty, 1964b: 17-30), o filósofo francês escreveu páginas inesquecíveis em Le visible et l’invisible – esse vínculo originário e essencial é, na vida quotidiana, remetido para um plano secundário. E, se calhar, não poderia suceder de outra maneira.

Também por isso gostaria de centrar a atenção no que significa este oferecer do corpo que marca a actividade do pintor. Registe-se, por outro lado, que pode haver aqui um problema de tradução. Claro que o tradutor português deste livro de Merleau-Ponty não comete nenhum erro quando escolhe dizer que o pintor oferece o seu corpo. Trata-se de uma opção possível, legítima e talvez mesmo a mais conseguida entre as várias hipóteses existentes. No entanto, subsiste a impressão de que o verbo francês apporter (do latim apportare, ou seja, “levar qualquer coisa de um sítio para outro”) expressa também uma ideia de movimento, ponto que se me afigura essencial porque, no entender de Merleau-Ponty, o corpo humano é um «entraçado (entrelacs) de visão e de movimento» (Ibidem). Ora, este vínculo entre ver e mover – que, na interpretação pontiana, é a marca essencial da nossa corporeidade3 – constitui, julgo, uma pista especialmente frutuosa para se pensar a dimensão corpórea e, por isso, as relações entre a estética e a actividade desportiva.

Na verdade, parece legítimo dizer-se que também o desportista oferece o seu corpo. E, por conseguinte, não se vê também como um espírito, tomado isoladamente4, poderia fazer desporto. Esta observação não é isenta de dificuldades. Por exemplo, se levarmos a ideia ao limite, que sentido faz falar, por exemplo, em espírito desportivo ou em espírito olímpico5? Mas não há dúvida de que a ideia tem outras vantagens, pois abre caminho para esboçar, desde já, uma definição do desporto, visto como uma actividade em que o praticante oferece o seu corpo. Definir é, com efeito, excluir o que não se submete ao poder territorial da própria definição. Assim, quando aproveito a frase de Merleau-Ponty para sublinhar que o desporto implica a oferenda – há também um sentido sacrificial neste termo que seria interessante explorar – do corpo do atleta, quero defender, desde logo, a ideia segundo a qual jogos como o xadrez ou o bridge, por exemplo, não são desportos. Este é, pelo menos, um dos postulados de que parto.

Outro, não menos importante, será o de que, num sentido inverso, nem todas as actividades físicas – ou seja, actividades em que um corpo se oferece – são desporto. Deste ponto de vista, o desporto implica, sempre, uma competição formalmente organizada através de regras que garantem a priori que os participantes vão ser escalonados numa hierarquia, através de critérios objectivos ou, pelo menos, intersubjectivamente conhecidos e aceites. Ou seja, quando a competição desportiva termina, há sempre vencedores e vencidos. Dir-se-á que, no caso dos chamados beautiful sports (ginástica rítmica, natação sincronizada, saltos para a água ou patinagem artística, entre outros), tais critérios não são completamente objectivos, dado que os resultados dependem da apreciação, mais ou menos subjectiva, de um júri, e este argumento tem bastante força, pois, nesses beautiful sports, a fronteira entre a competição desportiva e a competição, por assim dizer, artística é sempre muito difícil de estabelecer. Regressarei em momento posterior a este tema.

Volto, entretanto, à ideia segundo a qual o desportista oferece o seu corpo. Por vezes, diz-se de um guarda-redes que pretende encurtar o ângulo de remate de um adversário que ele oferece o corpo à bola. A imagem, que talvez tenha alguns antecedentes bélicos, parece-me interessante e pode funcionar até como uma espécie de antonomásia. O desportista oferece o seu corpo tal e qual o guarda-redes oferece o seu corpo à bola. Ora, o que significará, em rigor, este oferecer o seu corpo? Pergunta de difícil resposta, pois parece que nos encaminha para um território em que os conceitos não parecem estar ainda suficientemente sedimentados. Mas é possível avançar alguma coisa ou, pelo menos, eliminar hipóteses menos estimulantes. Oferecer o corpo não é, naturalmente, a mesma coisa do que dar a outrém um bem que, por acidente ou contingência, nos pertence. Quando entregamos o nosso corpo a uma actividade, qualquer que ela seja, não nos vemos desapossados desse mesmo corpo, pelo menos não da mesma maneira com que doamos/perdemos um bem de que somos proprietários. E essa talvez seja a razão principal: é que a relação que temos com o nosso corpo não se deixa subsumir num vínculo análogo ao que existe entre um proprietário e um bem que aquele pode herdar, adquirir, vender ou perder. O pintor oferece o seu corpo, diz Merleau-Ponty, e, nesse oferecer-se, transforma o mundo em pintura. «O olho [do pintor] vê o mundo, e aquilo que falta ao mundo para ser quadro» (Merleau-Ponty, 1992: 25). Com o desporto observar-se-á um processo semelhante? Quando competem, os atletas transformam o mundo em desporto? O que poderá significar esta última proposição?

Ensaio uma resposta a partir da leitura e da análise do inesquecível poema em que Herberto Helder parece fazer o leitor sair em perseguição da bicicleta do poeta. Atentemos, pois, nos primeiros versos de “Bicicleta”:






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