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INTRODUÇÃO

Angola viveu uma guerra civil violenta por cerca de 30 anos em todas as suas dimensões, com elevadas perdas materiais e, principalmente, danos físicos e psíquicos, nas populações rurais como aquelas que viviam em zonas urbanas. A guerra é um acontecimento atroz e onde quer que ela se instale haverá, certamente, o rasto da destruição social, da desintegração familiar, da traumatização sistemática das pessoas, na perda ou mudanças de valores morais e cívicos, quer por perdas de bens e meios de sobrevivência, como pela morte de familiares directos e conhecidos. Para ganhar uma guerra, entende-se que é preciso destruir o máximo possível de objectivos inimigos, sem distinção entre objectivos militares e objectivos civis (Carvalho, 2002).

A guerra é um dos acontecimentos mais traumatizantes, na medida em que costuma determinar a morte de um elevado número de pessoas e é uma ameaça grave à vida e sobrevivência de muitas outras (Serra, 2002). No período que se segue ao fim da guerra, impõe-se a aferição das suas consequências, a fim de serem criadas condições de estabilidade e normalização da vida das populações expostas à violência. Por outro lado a situação de guerra com todas as suas consequências materiais e humanas, tem sido objecto de estudo científico, tendo-se considerado a guerra um stressor passível de desencadear sequelas clínicas e interpessoais graves (Ventura, 2003). Alguns estudos têm sido feitos em Angola sobre as sequelas psicológicas da guerra e a traumatização das populações mas, até agora, pouco ou nada se fez a nível dos valores morais e cívicos das populações angolanas vítimas da guerra.

Este trabalho vai debruçar-se sobre a província da Huila e das consequentes alterações nos valores morais e cívicos visto que as suas populações sofreram, igualmente, os horrores da guerra civil a par de outras cidades e localidades em todo o território de Angola.

Na base deste quadro, foi possível identificar o Problema de Investigação que a seguir se descreve.

A violência gera violência e as reacções agressivas ao meio hostil, a par das respostas psicológicas e adaptativas, reconfiguraram o comportamento das pessoas. Isso motivou a que os valores morais e cívicos ficassem seriamente afectados, por inerência da perda de importantes referências nos seus valores tradicionais, hábitos e comportamentos dessas comunidades. Por outro lado, há ainda a considerar os bens fundamentais deixados para trás devido às fugas e à destruição pela guerra, bem como a destruturação social, buscando ao longo do conflito, áreas supostamente mais seguras e estáveis (Ventura, 2006).

Quando as famílias passam de um contexto rural simples para um contexto urbanizado ou sobem rapidamente de um extracto social baixo para um outro mais elevado e exigente, as pessoas adoptam paulatinamente não somente formas de viver novas, mais subtis e sofisticadas, mas principalmente uma psicologia nova, mais subtil e sofisticada (Calafate, 2001). Segundo a mesma autora, a migração (designada deslocados na realidade angolana)1 originou modificações na estrutura familiar e social, com consequências na adaptação psicológica e social do indivíduo e do grupo.

A perda dos laços (seguindo o mesmo pensamento) comunitários e familiares significa a perda da habitual protecção física e psicológica, tendo de haver-se por si sós com a adaptação cultural e ambiental, ao novo meio, e a gestão de uma certa tensão ou conflitos com as comunidades encontradas. Por este motivo, pode existir a adopção de valores e referências novas, como forma de acomodação e resiliência dos indivíduos deslocados.

O êxodo da população do campo para as cidades provocou, igualmente, em alguns casos, problemas urbanos graves. Essa pressão demográfica teve como consequência o colapso urbano que se vive em Angola, segundo a mesma autora (Calafate, 2001:413). Em 1970 a população de Angola era de 5 milhões de habitantes contra 10 milhões em 1995. Actualmente a população angolana é estimada em 15 milhões de habitantes (Relatório do Governo Provincial da Huila, 2008).

Nesta fase de reconstrução do país, terminado que está o conflito armado, nas vertentes social, psicológica, cultural e económica, ficam evidenciadas as principais necessidades das populações nestes domínios, já que o período pós conflito reveste-se de particular importância nos processos de reprodução social, bem como as formas de restauração de identidades perdidas e recuperação de equilíbrios perdidos ou alterados. A reconciliação é algo que está subjacente ao conceito de reconstrução pós conflito, uma vez que esta não constitui algo apenas ligado às estruturas físicas; é, sobretudo, a reconstrução das pessoas, da estrutura social e ambiental, da cultura, de uma cultura de paz e respeito que conduza a uma convivência pacífica entre todos.

A violência vivida pelos angolanos em todos estes anos de guerra, criou comportamentos adversos e alterou valores de referência das comunidades, que tiveram de adaptar-se a novas condições sociais e encetaram mecanismos de resiliência e recomposição social. De acordo com Ventura (2003), ao caracterizar uma das consequências da guerra em Angola enfatizava que por motivo das acções de guerra, registaram-se alterações dos valores morais e toda uma situação de instabilidade psicossocial. Mais grave que a destruição das infra-estruturas foi a degradação moral e espiritual de pessoas que se sentiram forçadas a disputar os bens mais elementares, perdendo muitas vezes o sentido da dignidade e solidariedade.

Postas assim as coisas, decidimos abordar o tema: Os Valores Morais e Cívicos em Sociedades vítimas de conflitos prolongados; o caso da Huila (Angola).

Segundo a perspectiva da qual pretendemos abordar o conceito, o valor não é propriedade dos objectos em si, mas ele só atinge propriedades graças a sua relação com o homem, enquanto sujeito social. Apesar dos objectos também terem um valor em função de certas propriedades objectivas, é o homem – como ser histórico, social e sua actividade prática – que cria os valores e os bens nos quais acredita e segue. Os valores são, portanto, criações humanas, e só existem e se realizam no homem e pelo homem (Vázquez, 2001).

Os valores são algo que possui unidade e perenidade; valores são as metas às quais a moral aspira – metas que conferem a moral um objectivo. Nas metas está situada a exigência normativa, a partir da qual a moral experimenta a sua justificação ou desqualificação – ou simplesmente o seu objectivo (Leisinger e Schimtt, 2001). Para os mesmos autores a moral é constituída por valores e normas. As normas já pressupõem os valores e exigem que os mesmos sejam realizados. Com frequência, tecem-se considerações controversas da ética num dado grupo em que parceiros não partilham os mesmos valores sobre os quais se justificam as suas normas morais. Aquilo que é um valor para um, para o outro pode ser um desvalor ou até mesmo uma ofensa grave.

Por outro lado os valores não chegam aos indivíduos como coisas ou objectos fenomenais: interpelam – nas e convidam a participar no seu simbolismo. E para isso, ou seja, para que o valor adquira verdadeira existência para nós, precisamos de o assumir como nosso, participar nele, submetê-lo a uma reinterpretação, pois são subjectivos e relativos às representações que os indivíduos têm de si. Assim potenciamos a distância ética, tornando-a um factor produtivo: o passado que sobrevive para nós é apenas aquele que sabemos (ou somos capazes de reinterpretar (Esteves, 1992).

Sobre ética e moral, vamos diferenciar os dois conceitos. A moral é o conjunto de deveres derivados da necessidade de respeitar as pessoas, nos seus direitos e na sua dignidade. Logo, a moral pertence à dimensão da obrigatoriedade, da restrição de liberdade, e a pergunta que a resume é: “como devo agir?”, ética é a reflexão sobre a felicidade e sua busca, a procura de viver uma vida significativa, uma boa vida. Assim definida, a pergunta que a resume é: que vida quero viver? É importante olhar para o facto de essa pergunta implicar outra: quem eu quero ser? Do ponto de vista psicológico, moral e ético, assim definidos, são complementares (La Taille, 2001).

Os valores morais são juízos sobre as acções humanas que se baseiam em definições do que é bom/mau ou do que é bem/mal. Eles são considerados imprescindíveis no direcionamento da nossa compreensão do eu e do mundo e servem de orientação para as nossas escolhas e como orientamos as nossas acções (Érnica, 2007). Assim, eles estão presentes nos pensamentos expressos pela linguagem.

Segundo Lourenço (2006,356), os valores morais “referem-se a tudo o que é susceptível de orientar a acção e o pensamento em situações normativas ou prescritivas. (…) São uma categoria de conteúdo, não uma categoria estrutural.

De acordo com Johnson (1993), neste processo, a linguagem serve para codificar as experiências dos humanos a um nível social mais abstracto e a narrativa aparece como caracterizando o aspecto sintético dessa experiência. As histórias que contamos emergem, e depois refazem e recriam a estrutura narrativa da nossa experiência. Como somos criaturas imaginativas e narrativas, podemos configurar as nossas vidas de novas maneiras. Esta ideia é partilhada por outro autor referindo que na esteira destas reflexões, coloca-se a hipótese de que, no ser humano, as narrativas morais elaboram-se a partir de aspectos particulares da intencionalidade da acção, referindo-se à conteúdos imagéticos, emocionais e pré conceptuais motivados e inscritos corporalmente (Damásio, 2001).

As prescrições morais nascem assim da confluência de uma experiência significativa vertida em processos imaginários (metafóricos, metonímicos) que permitem exprimir o objecto moral, um objecto mental derivado da intersecção de significados culturais e de percepções individuais intencionalizadas. Os valores morais foram criados na vida social para orientar e regular as relações humanas. No entanto eles não têm validade universal, eles são válidos apenas em um contexto específico, no quadro de uma cultura determinada e possuem existência histórica por serem criações humanas. Os valores são válidos apenas em contextos específicos, ou melhor dito, num determinado lugar ou espaço pois que, se um comportamento é válido e reforçado agora, num outro momento ele pode ser profundamente reprovável. São válidos no quadro de uma cultura porque os valores não fazem sentido isolados de outras dimensões da vida humana. Nesta base, os diferentes grupos definem os comportamentos aprováveis e reprováveis no seu contexto (Érnica, 2007).

Esclarecida a problemática dos valores morais e da ética, importa também referir que pretendemos estudá-los na correlação com os contornos do conflito em Angola, mais propriamente algumas consequências do impacto da guerra nas populações da Huila, no campo psicológico e moral das comunidades expostas a esse conflito. Considerando os longos anos em que a guerra se desenrolou, os prejuízos que ela causou, também se prolongou entre as gerações, daí termos de aceitar que as sequelas são inúmeras e diversificadas. Podemos definir o conflito como a incompatibilidade entre duas ou mais pessoas, grupos, organizações ou países. Normalmente o conceito de conflito tem conotação negativa, mas numa perspectiva mais construtiva, e porque ele refere um fenómeno multidimensional, ele é parte integrante da existência humana e do seu processo evolutivo para a sua transformação social (International Alert).

Outro conceito que vamos abordar neste trabalho é o de valor cívico que é o conjunto de características e comportamentos necessários para que exista uma cidadania minimamente responsável para que as pessoas participem realmente e de forma mais séria na comunidade em que vivem. Estes valores baseiam-se no princípio de que, para que haja um entendimento entre todos os cidadãos, é muito importante que estes respeitem os direitos e o bem-estar de todas as pessoas (Antunes, 2008/2009). Estes valores podem ser; coragem, tolerância, patriotismo, compromisso, legalidade, solidariedade, participação, abertura, transparência, pluralismo, civilidade. Portanto, eles explicitam a formação da cidadania não só como preparação para o exercício dos direitos do cidadão, mas, sobretudo, como detentor de valores e articulação entre os projetos individuais e os projectos colectivos (Machado, 2000).

A vitimização é outro conceito que tem sido alvo de estudos. No geral, ele relaciona-se com a criminologia, ou melhor, é geralmente abordado do ponto de vista jurídico. O conceito de vítima no sentido genérico, remete para a pessoa que sofre danos. De acordo com o conceito de vítima relaciona-se com o ser humano que sofre as consequências de seus próprios actos, dos praticados por terceiros, ou ocorridos por força do acaso (Feres, 2009).

Tendo a guerra sido vivida por várias gerações, as sequelas se prolongarão por outras tantas gerações. Sendo, pois, nosso propósito abordar as mudanças ou alterações dos valores morais e cívicos em comunidades que estiveram expostas aos cenários de conflitos prolongados na Huila, no sudoeste de Angola, abrangendo populações de áreas urbanas e de áreas rurais que supostamente migraram por motivo dos conflitos no âmbito do projecto Angola – Namíbia2.

A importância prática e teórica do estudo deste problema reside, por um lado, na necessidade de complementar os esforços encetados pelas autoridades angolanas, sociedade civil, organizações não governamentais e igrejas que a todos os níveis, desenvolvem um vasto processo de reconstrução nacional. Assim, impõe-se a aferição das reais necessidades de apoio e ajuda às comunidades que sofreram o pesadelo da guerra em Angola, mormente no capítulo das consequências resultantes da mudança de valores e práticas de referências. Por outro lado, do ponto de vista teórico, o estudo em questão tem relevância por serem escassos, senão mesmo inexistentes, trabalhos que descrevam as consequências da guerra do ponto de vista da mudança de práticas, atitudes e valores no sul de Angola, onde a guerra foi particularmente intensa e destruidora.

Contrariando uma bem estabelecida tendência da metodologia contemporânea, é “inaceitável distinguir enunciados teóricos com a linguagem de enunciados observacionais: o que há é uma rede de sobreposições e intersecções da mesma linguagem com conexões mutáveis aos objectos empíricos” (Silva e Pinto, 2007:62). É nesta simbiose entre prática e teoria que deve assentar um trabalho empírico, onde a teoria fornece os subsídios imprescindíveis ao conhecimento do problema factual.

Assim, pretende-se aprofundar a análise do problema identificado, respaldando-o num marco de referência, afim de que a experiência e a teoria daí resultante, elas próprias, se tornem referência para outras abordagens afins. Por outro lado, a recriação dos acontecimentos na perspectiva das comunidades expostas ao conflito prolongado, permite-lhes (nos) perceber as dimensões e a complexidade das variáveis inseridas no conflito prolongado de Angola, sobretudo, no que se refere às reproduções sociais que implicaram a adopção de novos padrões de comportamentos, atitudes e práticas. Sendo o autor do estudo angolano, tratando-se de abordar questões tão pertinentes sobre a vida dos angolanos, propõe-se realizar a investigação, motivado pela pertinência do assunto em questão, ciente de que poderá fornecer contribuições importantes no processo de reconstrução do país, de reconstrução das mentes e de alguns valores essenciais perdidos por inerência da guerra prolongada, limitando-o ao plano correlacional.

O presente estudo tem como objectivo geral identificar a possível influência de experiência vivida em conflitos violentos, sobre a alteração de alguns valores morais e cívicos nas populações urbanas e rurais da província da Huila. Assim levantam-se algumas perguntas de partida a fim de que possamos responder às inquietações descritas nos objectivos deste estudo:



- Houve alterações dos valores morais estruturantes e de normas nas sociedades angolanas em consequência da guerra prolongada tomando como referências os valores herdados da época colonial?




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