Mulher-Maravilha: Estudo sobre a representação da mulher e do feminino nas histórias em quadrinhos



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Mulher-Maravilha: Estudo sobre a representação da mulher e do feminino nas histórias em quadrinhos

Beatriz da Costa Pan Chacon


Este trabalho busca entender os caminhos trilhados pela personagem da Mulher-Maravilha, dentro e fora das histórias em quadrinhos. Dentro, analisando sua origem amazona e os caminhos pelos quais se tornou uma das maiores e mais conhecidas heroínas do gênero ‘histórias de ação’. E ainda, as relações (heróicas ou não) que estabeleceu tanto com personagens masculinos quanto femininos, heróicos ou não. Fora, do mundo dos ‘gibis’, analisando o tratamento que recebeu em comparação com dois outros personagens-chaves desse gênero: Super-Homem e Batman.

Super-Homem, lançado em 1938, Batman, em 1939 e Mulher-Maravilha, de 1941, são personagens cujos direitos de publicação pertencem a uma mesma editora, a Detective Comics, também conhecida por DC, além de terem surgido num mesmo país e dentro de um mesmo período histórico, o que lhes dá, além da contemporaneidade, o mesmo fundo histórico-social.

Os heróis aqui citados, há muito ultrapassaram a denominação de personagens de histórias em quadrinhos, sendo, além disso, ícones de uma cultura, produtos e marcas de valor econômico. Mulher-Maravilha, também é uma marca. Mas questionamos nesse estudo se está sendo tratada em bases iguais ou, pelo menos, semelhantes, ao tratamento dispensado aos dois heróis.

Acreditamos que isso não tem ocorrido. Nem para a personagem, nos quadrinhos, nem para a marca, se considerarmos outras mídias. Embora a investigação procure centrar seus argumentos em torno do que a personagem tem experimentado desde que chegou ao Brasil, durante a década de 1950, alguns pontos, necessariamente, irão além das fronteiras do nosso país.

O que também significará, em certa medida, como intenção deste trabalho, analisar aspectos relativos à globalização. Cultural e econômica.

Assim, embora nos concentremos aqui em aspectos editoriais dados à personagem, como por exemplo: publicação de revista com título próprio, freqüência dessa publicação, cuidados gerais com a mesma, divulgação etc, o que pretendemos é avaliar e expor questões de poder em diversos níveis. Os aspectos editoriais, representam um desses níveis.

Um dado inicial: enquanto que Super-Homem e Batman, quando publicados pela Ebal, de propriedade de Adolfo Aizen, apareciam em três revistas cada um; isto é, três revistas com seus nomes nelas, além de revistas especiais anuais e edições extras. Uma mensal, uma bimestral e uma edição a cores. (Batman, Batman-Bi e Batman em cores. Idem, para o Super-Homem). E, com alguma freqüência, apareciam nas histórias um do outro.

Super-Homem ainda aparecia em três revistas que mostravam sua fase juvenil (Superboy, Superboy-Bi e Superboy em cores) e, ele e Batman, apareciam no título ‘Super-Amigos’. Esta, por sinal, era a única revista em que os três personagens aqui citados, atuavam ao mesmo tempo. Geralmente tratava-se de histórias da Liga da Justiça da América.

Mulher-Maravilha só teve uma revista com seu nome, entre 1977 e 1983. E esta revista, possuía cerca da metade das dimensões das revistas dos heróis e era dividida com outros personagens. Dezesseis páginas para uma história sua. Alguns números foram divididos com histórias da Turma Titã (uma versão juvenil da Liga da Justiça), outros com Gládio, outros com Adam Strange (acompanhado por Mulher-Gavião e Gavião Negro) e, ainda alguns números com A Caçadora e em um dos números, A Caçadora e A Poderosa. Ocasionalmente, fazia-se o lançamento de uma edição especial.

A desproporção de exposição de imagem e da história da personagem é, inquestionável. Cabendo portanto uma investigação sobre as causas dessa desproporção. E as escolhas pelo tipo (e quantidade) de publicação das histórias desses personagens é uma das formas de poder que queremos considerar nesse trabalho.

Seria o caso de uma desvalorização da personagem e do produto, por se tratar de uma personagem feminina que não teria um público leitor para sustentar mais do que uma publicação ou, fruto de um descaso mais generalizado e mais profundo com o universo feminino? Um universo que, digamos, não poderia ter uma heroína? Mesmo, como neste caso, a personagem já existisse há tantos anos? E, se for assim, revelando uma intencionalidade mais específica. (Cerca de seis após seu personagem ser lançado no número 8 da revista All-Star Comics, no bimestre dezembro de 41 – janeiro de 42, Mulher-Maravilha já possuía uma revista própria nos Estados Unidos, que continua a ser publicada até hoje).

Ou ainda, mais uma das formas, intencionais ou não, premeditadas ou não, de ignorar uma história e uma presença feminina, relegando-a, mesmo dentro de um universo ‘diferente’, o das histórias em quadrinhos, a uma presença decorativa e de funções (e poderes) controlados por uma ideologia misógina?

Desse modo, tomando como referência uma personagem feminina, este estudo quer traçar uma análise da representação da mulher e do feminino ao longo dos últimos sessenta anos. Período também marcado por significativas mudanças sociais que ampliaram as conquistas femininas, entre elas, notadamente, do acesso ao conhecimento e do acesso à história e à sua própria história.

E, é também, sobretudo nos últimos quarenta anos, que vimos surgir o fenômeno da globalização e seus reflexos, de modo mais concreto. Tal processo tem configurado significativas transformações sociais, políticas e econômicas. Ao mesmo tempo, em termos historiográficos, verificamos o ‘surgimento’ (recente e, igualmente, tardio) de uma ‘história da mulher’.

Assim, essa investigação não poderá desconsiderar um ou outro desses aspectos, que coincidem com a existência da personagem. De que modo esses fatores interferem (ou não), se relacionam (ou não) com suas histórias, publicações etc. Dentro e fora do Brasil. Ambos os fatores guardam relações com níveis de poder que, de um modo ou de outro, procuraremos abordar aqui.

Retomando a questão da superexposição verificada com Super-Homem e Batman, ainda que não tenhamos tido no Brasil todas as histórias desses personagens publicadas, e considerando-se as demais mídias em que foram veiculados, uma série de características (e valores) dos mesmos e da mecânica geral das histórias, bem como dos demais personagens que compõem as mesmas, assim como com um certo perfil psicológico de heróis, vilões, entre outros, criando e reforçando assim vínculos entre leitores e personagens, tornaram-se bastante conhecidos. Desse modo, os leitores conhecem a história desses personagens. De onde vieram, suas realizações, suas emoções etc.

Com a Mulher-Maravilha, o que se observa é uma história truncada e, ao que tudo indica, praticamente perdida, para brasileiras e brasileiros. E é fácil comprovar isso quando consideramos que a personagem criada em 1941 só chegou ao Brasil na metade da década de 50, quando teve suas histórias individuais publicadas pela Ebal. Depois, um longo intervalo de mais de dez anos, pois só voltou a ter suas histórias publicadas entre 77 e 83. (Durante os anos 60, sua presença em revistas estava restrita às histórias da Liga da Justiça). E, só tornou a ter uma revista própria, a partir de janeiro de 2006, isto é, após 23 anos de ausência de uma publicação regular.

Então, o que conhecemos da história da Mulher-Maravilha, assemelha-se, em muitos aspectos, com o que sabemos da história das mulheres e da participação delas na história. Fragmentos. Tanto para a heroína, como para as mulheres – heroínas, também –, é preciso, com urgência, fazermos um profundo e extenso resgate dessa história.

A história vivida pela personagem em seus vários aspectos, apresenta longos trechos desconhecidos para um público que renova-se ao longo dos anos. Enquanto os heróis desfrutam de reedições de revistas inteiras ou de histórias em datas comemorativas ou não, a heroína, salvo raríssimas ocasiões (e, via de regra, muito aquém do seu valor), contou com esse tratamento.

Em 1989, por exemplo, além de várias edições especiais comemorativas dos 50 anos do Batman, programou-se o lançamento de um novo longa-metragem do personagem, dirigido por Tim Burton. De lá até 2008, foram realizados, incluindo este, seis longa-metragens tendo Batman como tema. Assim temos:Batman (89), Batman Returns (92), Batman Forever (95), Batman e Robin (97), Batman Begins (2005) e Batman: The Dark Knight (2008).

Na década de 60, aproveitando-se o elenco do seriado de televisão, fizeram um filme longa-metragem (Batman, 1966). E antes disso, já na década de 40, o personagem foi representado em duas séries de filmes, com 15 capítulos cada uma, em 1943 (Batman) e 1949 (Batman e Robin), respectivamente. E no formato desenhos para a televisão, programas são criados desde o final dos anos 60.

Essas últimas, como era freqüente àquela época, produções, geralmente eram de baixo orçamento e destinadas às chamadas ‘matinês’, isto é, sessões direcionadas a um público jovem. Vários personagens dos quadrinhos foram levados ao cinemas, sob o formato de séries. Entre eles podemos citar: Flash Gordon, Capitão Marvel etc.

Super-Homem, de 1978, ano em que o personagem completou 40 anos de sua criação, até 2006, teve cinco transposições para filmes de longa-metragem. Foram eles: Superman: The movie (78), Superman II (80), Superman III (83), Superman IV: The Quest for Peace (87) e, Superman Returns (2006).

Superman, como outros personagens de quadrinhos, foi ‘transportado’ para o rádio em 1940, permanecendo no ar até 1951. Em 1941 foram feitos 17 desenhos animados pelos irmãos Fleisher, Max e Dave. Entre 1941 e 1943, produziram uma série de 17 curtas. Em 1948, Superman faz sua ‘estréia’ em longa-metragem e dois anos após, uma nova série de filmes de curta-metragem. Em 1951 é feito o lançamento de uma série de televisão que durará de 1952 a 1958, atingindo um total de 104 episódios.

Foi adaptado para o palco em 1966, encerrando após 128 apresentações. No período 66-69, surgiram 68 curtas. Em 1975, a peça é adaptada para a televisão e um novo desenho é lançado com o título The New Adventures of Superman. De 1973 a 1984, foi a vez do desenho dos SuperAmigos. Depois, vieram os quatro filmes entre 1978 e 1987, com Christopher Reeve vivendo o personagem.

Em 1988 um novo seriado de Superman e outro, Superboy, que durou de 1988 a 1992. De 1993 a 1997, um novo seriado televisivo Lois & Clark: The New Adventures of Superman.Um novo desenho entre 1996 e 2000. No ano seguinte, Smalville. E, finalmente, em 2006, seu mais recente filme, Superman Returns. (Não esqueçamos aí, também, os jogos de computador e demais materiais veiculados pela internet).

O faturamento direto e indireto arrecadado por estes filmes e de produtos derivados deles, foi simplesmente gigantesco. As cifras provam que quadrinhos, sobretudo quando bem transpostos para outras mídias, como os filmes, são negócios de bilhões. Mercadorias de alta rentabilidade dentro de um sistema capitalista.

O mais recente filme baseado em Batman, teve arrecadação mundial superior a um bilhão de dólares, considerando apenas bilheteria. Se acrescentarmos todos os produtos de merchandising, incluindo aí dvds, os valores serão ainda mais surpreendentes.

Como entender, por qualquer ângulo que se analise, inclusive o de produto capitalista, que até hoje, passados 68 anos da criação da Mulher-Maravilha, a personagem ainda não tenha tido um único filme realizado? Projetos e tentativas foram, de tempos em tempos, anunciados, porém, nunca concretizados. Não me parece haver razão comercial ou técnica para tal ausência. Especialmente, se considerarmos, as conquistas sociais e femininas, já mais sedimentadas. Ou, se considerarmos, os vários discursos pró-diversidades. Não estará ainda, a nossa sociedade, em condições de aceitar uma heroína na tela grande?

Vale dizer ainda, e considerar nesta análise, mesmo após o grande sucesso alcançado pela série de televisão, em que a atriz Linda Carter, tão bem marcou o papel. Acrescento apenas que, somente agora, em 2009, Mulher-Maravilha ‘ganhou’ um desenho animado, em longa-metragem, como personagem central. Mesmo nessa modalidade, desenho animado, ela só aparecia em histórias da Liga da Justiça. Já os dois heróis, tiveram vários desenhos realizados para a televisão.

A exceção, alguns poderiam dizer, ocorreu em 1984, ano em que foi lançado um filme que enfocava a Supermoça (Supergirl, dirigido por Jeannot Szwarc). Bom, é verdade que o filme foi realizado. Mas, tratou-se de uma produção tão repleta de equívocos como transposição cinematográfica (quadrinhos para filme) e de equívocos como produto, que, apenas para citar alguns pontos, não desfrutou de uma divulgação minimamente semelhante à dada aos filmes de Super-Homem.

O elenco, o enredo do filme e essa história em relação à desenvolvida nos quadrinhos, a própria direção, foram outros desses equívocos que deixaram, senão uma certeza, mas uma quase total e absoluta certeza de que foi um filme feito, como dizemos, ‘a toque de caixa’, para aproveitar o sucesso obtido, especialmente, pelos dois primeiros filmes de Super-Homem, 1978 e 1980.

No Brasil, por exemplo, como já dissemos, a Supermoça foi, em sua história, nas revistas, ainda mais ‘maltratada’ do que a Mulher-Maravilha. Então, certamente não deve ter arrecadado o que poderia, se tivesse havido maior cuidado e respeito com esse ‘produto’. E com os fãs da personagem.

Mais tarde, duas outras tentativas de transpor personagens femininas dos quadrinhos para o cinema, como personagens centrais dos mesmos: Mulher-Gato, de 2004, com direção de Pitof e Elektra, de 2005, dirigido por Rob Bowman.

Embora aqui não caibam maiores detalhes a respeito dessas produções, vale no entanto lembrar que se com Supermoça, fizeram um filme de uma heroína; com Mulher-Gato, uma ladra originalmente, transformaram-na numa ‘quase’ heroína. Com Elektra, uma assassina ninja mercenária, reduziram-na a uma ‘mulher romântica, à século XIX’, porém, com habilidades. Ambos os filmes deveriam, assim como suas personagens, merecer maior investigação.

Evidentemente, no trabalho em questão, poderei abordar mais adequadamente estas e outras questões afins, mas as três personagens merecem um trabalho específico de análise. (Para o futuro, quem sabe?).

Outro exemplo, este mais recente, mas não menos expressivo, decorreu da série de televisão ‘Xena: a Princesa Guerreira’, entre 1995 e 2001, que, produzida na Nova Zelândia, alcançou sucesso em diversos países, migrou para os quadrinhos, inclusive no Brasil, mas, apesar disso e do esforço e torcida tanto do elenco quanto de seus fãs, manifestada em sites e reportagens diversas, também, por ora, ainda não chegou às ‘telonas’.

Dois exemplos de transposição dos quadrinhos para filmes, bem-realizados e bem-sucedidos, porque corretamente tratados, reforçam esta análise: ‘300’, de 2007, com a direção de Zack Snyder (com a supervisão do autor da história em quadrinhos, Frank Miller) e ‘Iron Man’, de 2008, com a direção de Jon Favreau, e a supervisão de seu criador nos quadrinhos, Stan Lee. E, parece que trilhando o mesmo caminho teremos, brevemente, ‘Watchmen’, também dirigido por Zack Snyder. Os dois primeiros pertencem à Editora Marvel Comics, principal concorrente da DC, e o terceiro título, da DC Comics.

Retomando, esta análise quer investigar o desenvolvimento das histórias e da própria personagem, relacionando-a com as transformações sociais e culturais, em especial, verificadas dentro e fora dos quadrinhos. Batman e Super-Homem serão os personagens masculinos de referência para traçar estas transformações.

Mulher-Maravilha é uma personagem que nos permite também, mais do que a maioria dos personagens, mesmo entre as femininas, chamados ‘heróicos’, uma observação especial sobre um aspecto muito decisivo para uma definição pela ação heróica por parte desses personagens, que é o aspecto familiar.

Há uma relação mãe/filha interligada a uma outra relação forte que é a de rainha/princesa e, conectada a ambas, verificamos relações de poder que não se reproduzem, por exemplo, nos casos de Super-Homem e Batman, que têm pais falecidos. E, os pais adotivos de Super-Homem, não possuem um ‘reino’ e uma população para governar. Em certo momento de sua história, Mulher-Maravilha assumirá, mais explícita e oficialmente, o papel de uma Embaixatriz das Amazonas perante representantes de outras nações, dentro de um organismo oficial (e real), isto é, a ONU.

Sendo assim, a dinâmica das famílias desses personagens ocupará, ao longo do trabalho, importante parte desse trabalho investigativo. Brevemente, aqui, podemos considerar alguns dos aspectos aos quais nos referimos.

De imediato, chama a atenção, um aspecto que pode ser mera ‘coincidência’ ou que pode ter outros significados. Talvez por estas mesmas razões, difíceis de levar a uma conclusão mais segura, mas, nem por isso, que deixemos de mencionar. Mas antes, uma breve síntese das histórias de Super-Homem e Batman, creio, nos levará à maior compreensão do que será dito.

Super-Homem, até a história ‘Crise nas Infinitas Terras’, de 1986, teria chegado bebê ao nosso planeta, após Krypton, seu planeta natal explodir e ele ser considerado o único sobrevivente. Seus pais biológicos eram: Jor-El, um cientista de alto nível, dentro de uma sociedade marcada e definida, sobretudo, pela ciência e tecnologia e; Lara, sua mãe, da qual pouco ou nada sabemos. Isto é, suas aparições ou as referências sobre ela, são tão limitadas que parece ter sido criada apenas para caracterizar um casal ‘macho/fêmea’, definindo assim papéis ‘masculino’ e ‘feminino’.

Certo, o ano era 1938, e talvez, não coubesse (será?) maior espaço para as mulheres na sociedade norte-americana da época, e, ‘logicamente’, na sociedade kryptoniana não poderia ser muito diferente disso. (O substantivo ‘lógica’, implícito, representa a dominação masculina, ideológica, teológica e social deste período, já que, o saber – a lógica – seriam atributos próprios do Homem. Como diz Michelle Perrot1 (2006, p. 91), a interpretação dos livros religiosos, sagrados, das principais religiões, estava em mãos masculinas. “O saber é contrário à feminilidade”).

Mesmo em histórias alternativas que mostram Super-Homem e sua mãe, em Krypton, eles não demonstram o vínculo entre eles. Nem por olhar nem por palavras. (Aliás, Lara, símbolo do silêncio imposto às mulheres, quase não possui texto... quase não fala). E quando a cena/história repete o relato do envio do bebê à Terra, o que se vê, fundamentalmente, é a imagem da mãe que carrega o bebê e o põe ’no foguete, que o levará ao distante planeta escolhido pelo pai.

Um casal do interior dos Estados Unidos, ora representado já como de certa idade, ora como um casal mais jovem, encontra o bebê alienígena e acaba por adotá-lo, criando-o como se fosse um filho biológico. (A origem extraterrestre fica logo clara desde cedo para ele, que não tem qualquer trauma decorrente de sua história).

Nas vezes em que o herói está junto ao casal, mesmo quando este não veste o uniforme, o que se observa é a conexão entre ele e Jonathan Kent, como ‘iguais’ e a conexão com a mãe, como aquela que fornece o alimento, um gesto afetuoso aqui e ali. Ela pouco tem a oferecer a ele, segundo texto e imagem, nas histórias. Já com o pai, há o respeito além de uma conexão afetivo-amorosa.

A autoridade e o poder estão nas mãos do pai, assim como o conhecimento. O pai adotivo ensinou-o a usar suas habilidades especiais, seu poder, sua força. Jonathan Kent ‘fez’ tanto ‘Clark Kent’ quanto ‘Super-Homem’.

Batman, em sua infância, saíra uma noite com os pais e estes acabam sendo vítimas de um assalto e morrem. A tragédia leva a criança a se dedicar de corpo e mente ao combate do mal. Mas, naquela noite, quando tinha cerca de oito a dez anos de idade, Bruce Wayne, perde os seus pais. O Dr. Thomas Wayne, médico de sucesso e dono de grande fortuna pessoal e sua mulher, de quem, ora veja só, nada sabemos, exceto estar num programa familiar e ser assassinada pelo assaltante.

Nas repetidas vezes em que esse emblemático momento, que formará o futuro ‘herói’, em corpo e mente, a esposa e mãe, pouco fala. (Em algumas dessas repetições, ela literalmente, não fala. Apenas sorri ao ver o filho fingindo ser o ‘Zorro’ – a família saía do cinema quando tudo aconteceu. Ou, registrava no rosto, o impacto da bala, a dor... a morte. Sua família então, será o mordomo (e ‘fac-totum’) Alfred.

Super-Homem e Batman, são órfãos e filhos únicos. E, chegando à coincidência que havia mencionado anteriormente, têm no nome de suas mães, o mesmo nome. A mãe adotiva de Super-Homem, é Martha Clark Kent. (Há uma história na qual, em busca do nome para o bebê, e citada no filme de 1978, em que conhecemos o nome completo dela e o fato do nome do ‘meio’ ser o escolhido para batizar a criança).

Aliás, essa parece ter sido, junto com o costurar a capa e o uniforme, as principais contribuições maternas ao herói. A mãe de Batman, a mais esquecida dos dois, e por isso mesmo, o símbolo máximo da mulher silenciada e excluída da história e na história, era Martha Wayne. Sua imagem só aparece para sofrer a violência do assalto e da morte. É isso que sabemos dela. Apenas seu nome. Quem foi Martha Wayne?

Esse silêncio, essa violência e essa exclusão são os focos deste trabalho em tentativa de expor e resgatar uma história das mulheres, também omitida em diversas expressões artísticas e culturais, mesmo no presente. As histórias em quadrinhos são, uma forma de expressão cultural contemporânea e, de modo geral, construíram e reproduzem, ainda hoje, parte dos mecanismos pelos quais constatamos essa exclusão.

Este é o objetivo central a que nos propomos aqui. Expor, questionar, alertar, ampliar, divulgar e multiplicar as fontes que nos ocultaram de nós mesmas. Bem como o poder usado com esse fim. A identidade de um povo ou a identidade de um segmento de um povo, é constituída de múltiplas forças e meios. Qual a nossa identidade? Qual a nossa força? Quais os nossos ‘meios’? Como mulheres e como brasileiras. Por enquanto, uma identidade quase tão secreta e quase tão protegida quanto a dos super-heróis e super-heroínas que tomamos como objetos e corpus dessa investigação.

E mais, quais as nossas perspectivas para o futuro? O que é ser ‘Mulher-Maravilha’? Qual a nossa visão e quais as nossas críticas? O acréscimo que podemos fazer. Para o país, para o mundo, para outras mulheres e para nós mesmas. Individualmente e coletivamente. O que se abre e o que abrimos, a fórceps ou não, à nossa frente?






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