Mudanças no laço social da docência: Psicanálise e Educação Maria Angélica Mello Pisetta Professora adjunta de Psicologia da Educação da Faculdade de Educação da uff doutora em Psicologia, correspondente da Escola Brasileira de Psicanálise



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Mudanças no laço social da docência: Psicanálise e Educação

Maria Angélica Mello Pisetta

Professora adjunta de Psicologia da Educação da Faculdade de Educação da UFF

Doutora em Psicologia, correspondente da Escola Brasileira de Psicanálise, seção rio.

“Lecionar é um vício, que traz resultados positivos e negativos, mas como é um vício, você recusa qualquer tipo de tratamento” (professora de ensino fundamental de escola pública).

Uma das esferas mais importantes e constituintes do ato educativo é a relação entre os alunos e o professor e, nesse aspecto, a escola enfrenta hoje uma crise pronunciada. Esta crise se manifesta, sobretudo, na crítica contundente que os professores fazem da perda da autoridade e das dificuldades de estabelecer uma prática que mantenha o desejo dos alunos em aprender o que não sabem. Nesse sentido, esta crise também revela a perda dos referenciais identitários que balizam a função social do professor. Se apresenta a todos, assim sendo, uma discussão inevitável dos possíveis encaminhamentos do lugar do professor numa constelação social que tem na mudança contínua sua mais recente característica. Surpresos que estão ante a fluidez dos novos laços sociais, os professores buscam alicerces na família da modernidade para sustentar uma educação que poderia fazer frente ao fracasso experimentado nas relações necessariamente estabelecidas no seu fazer. Mal há algo novo e não definido na famíli atual que não corresponde mais aos padrões modernos de filiação. Como a função docente pode ser impactada com estas mudanças? Haveria fraturas e possibilidades novos para seu fazer a partir das tensões existentes?

No escopo de nossa pesquisa situamos de forma ampla as contribuições da psicanálise lacaniana para pensar a experiência como constituinte do ensino e seus modos de operar no contexto atual. Partimos de interrogações que surgiram do estudo da concepção do inconsciente político, articulado como linguagem, já que é produto e produtor da sociedade em uma determinada época. De modo mais amplo, nos auxiliamos de alguns autores da sociologia, sobretudo Ehrenberg (2004), que tem demarcado que vivemos numa fase transformação dos ideais modernos. Para o autor estas mudanças estão especialmente ligadas ao declínio da autoridade institucional e ao imperativo do trabalho, o que se faz notar, dentre outras formas, pela depressão, vista por ele como uma patologia da desorientação, que influencia as condutas e perspectivas de existência:

“Se a neurose é um drama da culpa, a depressão é uma tragédia da insuficiência. Ela é a sombra familiar do homem sem guia, cansado da empreitada de ter que se tornar somente ele mesmo e tentado a manter-se, até à compulsão, por produtos e comportamentos” (Ehrenberg, 1998 apud Aguiar, 2007).

Para nós isso se faz notar também no que respeita ao lugar social do professor, que pode ser compreendido como um dos pilares da transmissão dos valores de uma sociedade, à medida que sua ação se inscreve num retorno à história e numa permanente reflexão sobre a subjetividade de sua época.

Neste contexto, a representação social desta função, como entendemos, encontra-se num determinado momento de espera ou suspensão. Sendo assim, é necessário o trabalho de situá-lo tendo em vista a vacilação social de determinações ideais que constituíam, por assim dizer, seu lugar e sua autoridade. Esta discussão parte então da constatação do sofrimento na prática docente, ligado ao enfrentamento das relações que agora se ordenam nesse momento, contemplando as queixas e as angústias que os professores veiculam. Propõe discutir o que poderia situar uma prática profissional não dirigida por uma ideal, ligada à autoridade da pessoa do mestre.

No último semestre, analisamos1 cerca de cinqüenta e oito entrevistas semi-estruturadas com professores do ensino fundamental e médio, tanto de escolas particulares quanto de escolas públicas, no que respeita as suas experiências com a docência, suas maiores dificuldades nesse fazer, suas perspectivas em relação aos laços sociais experimentados por eles em seus trabalhos e os impactos subjetivos que esta escolha profissional produz. Nos direcionamos aqui pela perspectiva lacaniana de que o valor da experiência encontra inscrição modelar na função do professor, cuja tarefa central, segundo o autor, é a de resgatar com urgência o sentido das noções do sujeito e de sua história (Lacan, 1963). Das 58 entrevistas, 16 professores situaram espontaneamente (sem indicação de itens na entrevista) como dificuldade central de seu trabalho a falta de motivação\interesse de seus alunos, 6 indicaram como maior dificuldade a indisciplina e 5 a baixa remuneração. Outras respostas receberam número inferior de referências. Algumas falas desses profissionais encontram-se aqui dispostas de modo a ilustrar e evocar as questões do mal-estar docente que dirigem nossa discussão.

Discutir a ética ligada à prática docente parte da consideração de que não pode haver separação entre um fenômeno e seu contexto. É preciso, desta feita, a identificação da multideterminação sócio-histórica da escola e da própria função docente. Como enfatiza Ariés (1978) a partir da Modernidade a criança é vista e compreendida tendo em vista a ordenação e o controle exercidos pela escola como instituição social. O próprio conceito “criança” vai ser equiparado a “escolar” a partir de então, gerando discurso, legislação e reconhecimento social.

Nesta mesma esteira, Foucault (2009) discute em Vigiar e Punir a característica das sociedades de controle no estabelecimento e manutenção do domínio sobre o corpo e seus desejos, o que se tornou mais emblemático exatamente no modelo escolar, onde a disciplina aplicada à criança, para a aquisição do conhecimento pré-determinado, tornava os corpos dóceis e amestrados e por outro lado, frágeis e incapazes de rebelião.

Os ideais que forjaram o corpo dócil da modernidade são aqueles referidos ao trabalho numa sociedade que se sustenta numa anatomia do poder (Foucault, idem). Os professores, agentes de uma instituição modelar desta política, foram comumente associados a figuras também modelares, numa (re) produção destes mesmos ideais. Ainda que as respostas subjetivas de transgressão ou as críticas ao lugar do mestre autoritário se fizessem notar, sempre, mesmo no seio da docência, as garantias em torno da instituição das normas e dos lugares subjetivos garantiram um lugar social de destaque à escola (Foucault, idem).

Assim, os padrões sociais e científicos que forjaram o sistema escolar como o conhecemos, estão arraigados como forma de controle e vigilância que torna a convivência de crianças não ideais sempre uma dificuldade e um desafio. Este ideal de criança também repousa, como afirma Levis-Strauss, na constituição da família moderna. Lembremos que para o autor (1979), a família tradicional, patriarcalmente formada, resulta sempre de uma união aprovada socialmente, entre um homem e uma mulher, o que resulta necessariamente na prole. E como tal, é um fenômeno universal, sempre encontrado nas sociedades, inclusive as primitivas. Aliança e filiação compõe o alicerce da família. As mudanças contemporâneas ainda sustentam estas condições?

Roudinesco (2003) articula as modificações dos laços familiares a partir de três nomeações: numa primeira ordenação, situa-se a família tradicional, que se estruturou nos séculos XVI a XVIII, através da transmissão do patrimônio. Neste acordo familiar, a autoridade do patriarca é sustentada por toda a prole, e ainda pelos serviçais e aparentados, que mantém seu núcleo e sua identidade familiar a partir do que partilham. Como resposta subjetiva e social, na eclosão do fenômeno do amor romântico, surge, já a partir do século XVII, a família moderna, incrementada ainda, pela industrialização crescente e a incorporação em massa da mulher no mercado de trabalho; modo de vida verificado ainda em seu apogeu, segundo a autora, até meados do século XX. Para Roudinesco (Idem) o que caracteriza nosso modo contemporâneo de constituição familiar, nomeado pela autora como reconstituído, é o amor livre, impulsionado pela realização sexual, que põe em derrocada a conjugalidade, a partir dos anos 60 do século XX. Afirma a autora:

À família autoritária de outrora, triunfal ou melancólica, sucedeu a família mutilada de hoje, feita de feridas íntimas, de violências silenciosas, de lembranças recalcadas” (Idem, p. 21).

Discurso e docência

“Muitas vezes somos nós os professores que geramos a falta de interesse dos alunos” (professor de geografia do ensino fundamental de escola pública).

“O horror pela matéria é transferido para o professor”

“O desinteresse dos alunos é o espelho da cultura”

(professores de língua portuguesa e história, respectivamente, docentes do ensino médio de escola pública).

Transmitir o saber só se torna possível à medida que a criança pode recebê-lo, o que se dá pela via de um laço que a criança estabelece com o Outro. Em Algumas reflexões sobre a psicologia escolar (1970/1914) Freud sustenta que a criança dirige seu interesse ao saber, a aprender, sobretudo, se se sente ligada afetivamente ao seu mestre. Em outro momento ele adverte que “os caminhos das ciências passavam apenas através de nossos professores” (Idem, grifos nossos). Nosso velho professor ficou gravado em nossa memória muito mais por seu modo interessante de nos olhar, sua severidade desmedida, sua vivacidade e dinamismo ou seu rancor e desinteresse, do que propriamente por seus ensinamentos.


É difícil dizer se o que exerceu mais influência sobre nós e teve importância maior foi a nossa preocupação pelas ciências que nos eram ensinadas, ou pela personalidade de nossos mestres (Freud, 1970/1914, p. 286).
Demarca também o autor que essa ligação anterior a qualquer conteúdo teórico se deve a uma predisposição inicial por amar e odiar os nossos mestres, na mesma medida, geralmente tendo prevalência um dos dois lados afetivos. Esta ambivalência de sentimentos ternos e hostis, dirigidos aos mestres - e por ele intensificados ou não a partir de suas próprias características - se constitui muito tenramente na vida e também muito cedo começa por abarcar outros (os mestres ou não) na mesma esteira. Obviamente esse processo se constitui à revelia do reconhecimento consciente da própria criança e do adulto em que essa criança se revelará, sendo “inconsciente” em larga extensão. A referência ao conceito de inconsciente é fundamental na teoria freudiana. Representa aqui um sistema lógico de circulação de idéias, que tem dinâmica e funcionamento próprios e que afeta direta e indiretamente a parte consciente da psique, ainda que não seja percebida diretamente (Freud, 2010/1912).

A ampliação da concepção do inconsciente é efetuada por Lacan (1966-67), que declara que o inconsciente é a política, ou em outros termos, desvela que o sujeito só se constitui na tensão entre o que é próprio, mais singular e o Outro da cultura e do saber, ainda que haja um resto inassimilável aos dois (sujeito e Outro) na operação da constituição deste sujeito. É também nosso intuito considerar em que medida o conceito de transferência pode abarcar o que representa uma mutação do laço social.

A transferência é o conceito produzido pela psicanálise para nomear esta substituição pela qual uma nova relação recebe os afetos de uma originalmente anterior, traumática. Obviamente o professor ali presente na relação não está sendo desconsiderado, já que a realidade não pode ser totalmente subestimada pela transferência. Ele tem ampla participação. Nesta consideração recaem nosso interesse de pesquisa das intervenções possíveis e indispensáveis no cotidiano escolar. Por sua ação o professor pode ampliar o teor da transferência, especialmente se desconhece a transitoriedade e força de sua constituição e superestimar reações que poderiam ser contornadas com mais leveza, se ele estivesse mais familiarizado com sua própria infância e com sua cultura.

A derivação de sentimentos ternos e hostis tão intensos que as primeiras relações com o Outro estabeleceram para a criança desamparada torna a situação ainda mais complexa. A psicanálise (Lacan, 2003) demarca que uma criança depende exclusivamente de seus pais e de sua cultura para sobreviver e tornar-se uma pessoa – um sujeito, que se reconhece, se respeita e se interessa pelos demais. De sua mãe – ou de quem realiza os primeiros cuidados – a criança depende na medida em que seu cuidado revela um alto valor deste bebê para alguém. De seu pai – ou de quem representa a lei e o limite – a criança depende na medida em que sua lei expressa a inclusão desta criança num sistema de ideais e valores que regulam o desejo e a agressão. É no seio destas relações e de suas variações, que a criança poderá se embater com seu próprio amor e seu próprio ódio, procurando regulá-los e moldá-los a partir das exigências que lhe são impostas. Isso é valido para todos nós, segundo a psicanálise, mas encontra variações notáveis no particular de cada caso. No universo com que lidamos, nós, professores, essa variedade encontra uma expressão monumental.

Especialmente no contexto histórico em que estamos, no qual a quase total ausência da função paterna na sociedade está profundamente ligada à violência urbana cada vez mais precoce (Laia, 2009) torna-se mais urgente que os professores, especialmente das séries iniciais, discutam o alcance das implicações de seu fazer. Laia (Idem) hipotetiza, a partir de sua experiência junto a um programa de proteção a crianças ameaçadas de morte por participação no tráfico de drogas, que a atual anomia pode ser interpretada como um modo subjetivo de ocupar um espaço junto aos demais, ainda que ao preço da exclusão e até da morte – nos casos de delinqüência juvenil. Sustenta ainda o autor que a adoção e manutenção de políticas públicas voltadas para o controle da anomia têm muito a oferecer no sentido de minimizar os efeitos devastadores desta na representação social dos menores. Também nós, professores, temos nossa cota de participação a dar neste sentido, à medida que não ocuparmos um lugar congelado da autoridade – e do autoritarismo – diante das questões que envolvem o declínio de valores sociais anteriormente vigentes. Trata-se também de um maior aprofundamento sociológico dos mestres em relação às realidades vividas por seus alunos. Consideramos uma utopia desvinculada da realidade social vigente a perspectiva de uma criança ideal, muitas vezes desprovida, inclusive, de curiosidade.

Nesta perspectiva, concluímos com as palavras de um docente de Matemática do ensino fundamental e médio: “A escola é um lugar onde você está levantando alguém e de qualquer maneira, os alunos estão te colocando pra frente também”.

Referências Bibliográficas

Aguiar, I. (2007) Possibilidades da escuta psicanalítica da fadiga de si: um estudo sobre a teoria freudiana do sofrimento psíquico. (Dissertação de mestrado) Universidade Federal de Fortaleza.

Ariés, P. (1978). História social da criança e da família. Rio de Janeiro , R.J.: Jorge Zahar Editor.

Bauman, Z. (1998) O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro, RJ: Ed. Jorge Zahar Editor.

Esteve, J. M. (1999) O mal-estar docente: a sala de aula e a saúde dos professores. Bauru, SP: EDUSC.

Ehrenberg, A. (2004) Depressão, doença da autonomia? Entrevista de Alain Ehrenberg a Michel Botbol. Ágora, 7 (1), 143-153.

Ferrari, I. (2005) O mal-estar do professor frente à violência do aluno. Revista Mal-Estar e Subjetividade, V (2), 261-280.

Freud, S. (1980a) O inconsciente. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud (Vol. XIV, pp.191-22) Rio de Janeiro, RJ: Imago. (Originalmente publicado em 1915).

Freud, S. (1980b) O mal-estar na civilização. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud (Vol. XXI, pp. 81-178) Rio de Janeiro, RJ: Imago. (Originalmente publicado em 1930).

Foucault, M. (1988) Vigiar e punir. Petrópolis, R.J.: Ed. Vozes.

Lacan, J. (1966) Função de campo da fala e da linguagem do psicanalista. In Escritos. São Paulo, S.P.: Editora Perspectiva. (Originalmente publicado em 1953).

_______. (1987) O seminário. Livro 2. O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise. Rio de Janeiro, R.J.: Jorge Zahar editor.

_______. (1992) O seminário. Livro 17. O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro, R.J.: Jorge Zahar editor.

_______. (2005). O seminário, livro 10. A angústia. Rio de Janeiro, R.J.: Jorge Zahar editor.

Laia, S. (2011) Demissão do pai, domínio da mãe e violência urbana



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