Michel Foucault Em Defesa da Sociedade



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Michel Foucault

Em Defesa da Sociedade

Curso no College de France

(1975-1976)

Edi9GO estabelecida, no ambito

da Associa9iio para 0 Centro Michel Foucault, sob a dire9GO de Franfois Ewald e Alessandro Fontana,

por Mauro Bertani e Alessandro Fontana

Tradw;ao


MARIA ERMANTlNA GALVAo

Martins Fontes

sao Paulo 200S

ESla obra [oi publicada originalm~nt~ I'm fi:onch c:m ~ Ift;lo

lL FAUT Dt:FENDRE LA SOCIETE par Edlllon, " el

Copyri/iht © Edilions du 5<'1<11.1997:

Copyrighl © 1999. Lil'raria Manins Fonk,~ _Edl/ora Ltda"

Silo Paulo. pura a p,-,'senle ed,(ao

I' edi~o

1999


SUMARIO

4' tiragem

2005

Tradu~o


MARIA ERMANTlNA GALVAO

Revisiio da tradu~o

Eduardo Brandao

Revisiio gnifica

Marcia da em: N6boa Leme

Andria Swhe! M. da Slim

Produt;iio graficli

Gaaldo A"'e.I'

Paginat;iiolFotolitos

Studio 3 Desenvolrimenlo EdilOrial

· "eel ouwuge. publie dans Ie cad

re du rogramme de panicipation iJ la publication. ben.ijici<'

p . I'Ambassade de France au Bresil eI d,

dl:


, fran ai,' des Affaire., Etrangeres. de

.

Pre/aCiD

. IX


"' ro 'rarruJ de pOr/icipm,:iio da pub/ieal'ao, conwu ('om 0 ap"'" "Esle lil'ro. publicado no ombao ~o p ,~ . Emhaiwoo da Franra no Brasil e da Malson

do Mini,~lhio [ram."<'.I' das Rela<;()e,~ Exler/Ores. ~a . " ..

[ranl'alse do Rw de Jafl<'lIo.

Curso, anos 1975-1976

Dados Internacionais de Catalogal;lio na Pub~ (CIP) Aula de 7 de janeiro de 1976

.

(camara Brasileira do Livro. SP, Brasil) 3



Que e urn curso? - Os saberes sujeitados. _ 0 sa-

Foucault, Michel. 1926-1984, C II' 'de France (1975-

Em dcfesa da 'ocicdade : eu,:o ~o 'a ~r~~~tina Galvao. _ Sao

ber historico das lutas, as genealogias e 0 discurso

1976) / Michel Foucauh ; lradut;ao Man

Paulo: Martins Fonles. 1999. - (ColCt;ao t6pieos)

cientifico. - 0 poder, 0 que esta em jogo nas ge-

nealogias. - Concep9ao juridica e economica do

Titulo original: II raUl dcfendre la sociclI:. . _ Centro

"Edit;ao \"labclecida. no ambito da A,;s~_e~t;a~dPar~l:ssandro

poder. - 0 poder como repressao e como guerra.

Michcl Foucault. sob a direl;ao de Frant;OIS w~. e .. - Inversao do aforismo de Clausewitz.

Fontana. por M:luro Bcnani e Ale,sandro Fontana

ISBN 85-336-1004-1

I. Cicncia po Illlca - F'lo,;ofia 2 . Guerra (Filosofla) 3. Podcr (Fi-

, ,. Aula de 14 dejaneiro de 1976

. 27

losofia) I. Titulo. II. S


99-0084 CDD·194 der. - Direito e poder regio. - Lei, domina9ao e

indices para eatato~o sistemalico:

l. Foucault Obras filos6fic:ls 194

suj ei 9ao. - Analitica do poder: questoes de meto-

do. - Teoria da soberania. - 0 poder disciplinar. _

-

rodos os direilos desra ed irao para o.Bra~il resen'ados



.Ld a A regra e a norma.

Livraria Martins Fontes Edl10ra t a_ .. '

,

R (l Conse!helro Rama lh o. 330 D1P5-000 Suo Paulo SP BlGsl!



- 4'

u Tel 11)3241.3677 Fax.(JlJ3J01.JO,~ .. .

.( ,h I

{.-mail: info(d)mal'llnsfonl{'s.wm. · hrrp·/!wWlI'.martm.'lonle.I,{Om,hl



. Aula de 21 dejaneiro de 1976 ··· ·······.. 49 Aula de 18 defevereiro de 1976 167

A teoria da soberania e os operadores de domina- Nacao e nacoes. - A conquista romana. - Gran-

Cao . - A guerra como analisador das re\acoes de deza e decadencia dos romanos. - Da liberdade

poder. - Estrutura binaria da sociedade. - 0 dis- dos germanos segundo Boulainvilliers. - 0 vaso

curso hist6rico-politico, 0 discurso da guerra per- de Soissons. - Origens do feudalismo. - A Igreja,

petua. - A dialetica e suas codificacoes. - 0 dis- o OOeito, a lingua do Estado. - As tres generaliza-

curso da luta das racas e suas transcricoes. coes da guerra em Boulainvilliers: a lei da hist6-

ria e a lei da natureza; as instituicoes da guerra; 0 Aula de 28 de janeiro de 1976 ···· ·········· 75 ca!culo das forcas. - Observacoes sobre a guerra.

o discurso hist6rico e seus partidarios. - A con-

tra-hist6ria da luta das racas. - Hist6ria romana e Aula de 25 defevereiro de 1976 199

hist6ria biblica. - 0 discurso revolucionirio. - Nas- Boulainvilliers e a constituicao de urn continuo his-

cimento e transforrnacoes do racismo. - A pureza t6rico-politico. - 0 historicismo. - Tragedia e di-

reito publico. - A administracao central da hist6ria.

da raca e 0 racismo de Estado: transforrnacao na-

- Problemitica das Luzes e genealogia dos sabe-

zista e transformacao sovietica.

res. - As quatro operacoes do saber disciplinar e

seus efeitos. - A filosofia e a ciencia. - 0 discipli- Aula de 4 defevereiro de 1976 ·····..··········· 99 namento dos saberes.

Resposta sobre 0 anti-semitismo. - Guerra e so-

berania em Hobbes. - 0 discurso da conquista na Aula de 3 de mar90 de 1976...................................... 225

Inglaterra, entre os monarquistas, os parlamenta- Generalizacao titica do saber hist6rico. - Consti-

ristas e os Levellers. - 0 esquema binirio e 0 his- tui,ao, Revolucao e hist6ria ciclica. - 0 selvagem

toricismo politico. - 0 que Hobbes queria eli- e 0 barbaro. - Tres filtragens do barbaro: titicas

minar. do discurso hist6rico. - Questoes de metodo: 0 cam-

po epistemico e 0 anti-historicismo da burguesia. -

Aula de 11 defevereiro de 1976 ··········· 135 Reativacao do discurso hist6rico na Revolucao. -

A narrativa das origens. - 0 mito troiano. - A he- Feudalismo e romance g6tico.

reditariedade da Franca. - "Franco-Gallia." - A in-

vasao, a hist6ria e 0 direito publico. - 0 dualismo Aula de 10 de mar90 de 1976 257

nacional. - 0 saber do principe. - "Estado da Fran- Reelaboracao politica da ideia de nacao na Revo-

ca" de Boulainvilliers. - 0 cart6rio, a reparticao lu,ao: Sieyes. - Conseqiiencias te6ricas e efeitos

publica e 0 saber da nobreza. - Urn novo sujeito sobre 0 discurso hist6rico. - Os dois gabaritos de

da hist6ria. - Hist6ria e constituic ao . inteligibilidade da nova teoria: dominacao e tota-

lizacao. - Montlosier e Augustin Thierry. - Nas-

cimento da diaJetica. Aula de 17 de marro de 1976 . 285 PREFAcIO

Do poder de soberania ao poder sobre a vida. - Fa-

zer viver e deixar morrer. - Do homem-corpo ao

homem-especie: nascimento do biopoder. - Cam-

pos de aplica,iio do biopoder. - A popula,iio. - Da

morte e da morte de Franco em especIal. - ArtI-

cUla,5es da disciplina e da regulamenta,.iio: a cida-

de operitria, a sexualidade, a norma. - BlOpoder e

racismo. - Fun,oes e areas de aplica,iio do raCIS-

mo. - 0 nazismo. - 0 socialismo.

Resurno do curso . 317 Situariio do curso . 327 indice das noroes e dos conceitos .. 353 Este volume inaugura a edi,iio dos cursos de Michel lndice onomastico . 379 Foucault no College de France.

*

Michel Foucault lecionou no College de France de ja-



neiro de 1971 ate sua morte, emjunho de 1984 - com exce-

,iio do ano de 1977, em que pOde beneficiar-se de um ano

sabatico. 0 titulo de sua citedra era; Historia dos sistemas

de pensamento.

Ela foi criada em 30 de novembro de 1969, proposta por

Jules Vuillemin, pela assembleia geral dos professores do

College de France em substitui,iio it citedra de Hist6ria do

pensamento filos6fico, ocupada por Jean Hippolyte ate sua

morte. A mesma assembleia elegeu Michel Foucault, em 12

de abril de 1970, titular da nova citedra I. Ele tinha 43 anos.

1. Michel Foucault havia concluido urn opusculo redigido para sua can-

didatura com esta frase: "Cumpriria empreender a historia dos sistemas de

pensamento" ("Titres et travaux", in Dits et ecrits, 1954-1988, ed. por D. De-

fert & F. Ewald, col. J. Lagrange, Paris, Gallimard, 1944, vol. I, p. 846).

PREFAcIO XI x EM DEFESA DA SOClEDADE

Michel Foucault proferiu sua aula inaugural em 2 de Eis como, em 1975, urnjornalista no Nouvel Observa-

leur, Gerard Petitjean, podia transcrever seu clima: "Quan- dezembro de 19702 ·

o ensino no College de France obedece a regras espe- do Foucault entra na arena, rapido, dinamico, como alguem

que se lan,a na agua, passa por cima dos corpos para atingir cificas. Os professores tem a obriga,ao de cumprir 26 horas

sua catedra, repele os gravadores para colocar seus papeis, de ensino por ano (podendo a metade, no maximo, ser dada

retira 0 paleto, acende uma lampada e come,a, a cem por sob a forma de seminarios3). Devem expor todos os anos hora. Voz forte, eficaz, retransmitida por alto-falantes, unica uma pesquisa original, 0 que os for,a a estar sempre reno- concessao ao modernismo de uma sala mal iluminada por vando 0 conteudo de seu ensino. A assistencia aos cursos e uma luz que sobe de arandelas de estuque. Ha trezentos lu- aos semimirios e inteiramente livre; nao requer inscri~ao gares e quinhentas pessoas apinhadas, tapando 0 menor nem diploma. E 0 professor nao emite nenhum4 No voc~ espa,o livre [...] Nenhum efeito oratorio. E limpido e terri- bulitrio do College de France, diz-se que os professores nao velmente eficaz. Sem a menor concessao a improvisa,ao. tern alunos e sim ollvintes. Foucault tem doze horas por ano para explicar, em curso pu-

Os cursos de Michel Foucault eram dados as quartas- blico, a dire,ao de sua pesquisa durante 0 ano que acabou

feiras do inicio de janeiro ao fim de mar,o. A assistencia, de findar. Entao, comprime ao maximo e preenche as mar-

muito' numerosa, composta de estudantes universitarios, de gens como os correspondentes que ainda tem muito 0 que

professores, de pesquisadores, de curiosos, muit?s dos qUaIS dizer quando chegaraIn ao fim de sua folha. 19h45. Foucault

estrangeiros, mobilizava dois anfiteatros do College de :ran- para. Os estudantes COrrem para a sua escrivaninha. Nao para

ce. Michel Foucault queixou-se muitas vezes da dlstancla falar-lhe, mas para desligar os gravadores. Sem perguntas.

que podia haver entre ele e seu "publico" e do pouco inter- Na confusao, Foucault esta sozinho." E Foucault comenta:

cambio possibilitado pela forma do curso'. Sonhava com "Seria preciso poder discutir 0 que propus. Algumas vezes,

um seminario que fosse a ocasiao de urn verdadelro traba~ho quando 0 curso nao foi born, sena precise pouca coisa, uma

coletivo. Fez diferentes tentativas. Nos ultimos anos, na salda pergunta, para reordenar tudo. Mas essa pergunta nunca

das aulas, consagrava um bom momento para responder as vem. Na Fran,a, 0 efeito de grupo toma qualquer discussao

perguntas dos ouvintes. real impossive!. E, como nao hit canal de retorno, 0 curso

fica teatra!. Tenho uma rela,ao de ator ou de acrobata com

as pessoas que estao presentes. E, quando acabei de falar,

urna sensa,ao de solidao tota!..."6

2. Sera publicada pelas Editions Gallimard em mar~o de 1971 com 0

titulo: L'ordre du discours. Michel Foucault abordava seu ensino como urn pesquisa-

3. 0 que Michel Foucault fez ate 0 inicio dos anos 1980. dor: explora,oes para um livre vindouro, taInbem desbrava-

4. No ambito do College de France. .

5. Em 1976, na esperan9a - va - de rarefazer a assistencia, Michel Fou-

cault mudou a hora do curso, que passou de 17h45, no final da tar~e, p.ara as

6. Gerard Petitjean. "Les Grands Pretres de l'universite franl;aise", Le

9h da manha. cr., oeste volume, 0 inicio da primeira aula (7 de JaneIro de

Nouvel Observateur, 7 de abril de 1975.

1976). XII EM DEFESA DA SOCIEDADE PREFAcIO

XIII mento de campos de problematiza9ao, que se formulavam Foucault logo foi invadida por eles. Os cursos (e certos se- antes como um convite lan9ado a eventuais pesquisadores. minarios) foram assim conservados. Assim e que os cursos no College de France nao aumentam Esta edi9ao toma como referencia a palavra pronuncia- os livros publicados. Nao sao 0 esb090 deles, mesmo que da publicamente por Michel Foucault. Da-Ihe a transcri9ao uns temas possam ser comuns a livros e cursos. Eles tern mais literal possivel 8. Gostariamos de poder apresenta-la tal seu proprio estatuto. Relacionam-se com um regime discur- qual. Mas a passagem do oral para 0 escrito impoe uma in- sivo especifico no conjunto dos "atos filosOficos" efetua- terven9ao do editor: cumpre, no minima, introduzir uma pon- dos por Michel Foucault. Neles desenvolve em particular 0 tua9ao e fazer os paragrafos. 0 principio sempre foi 0 de programa de uma genealogia das rela90es saber/poder em ficar 0 mais proximo possivel do curso efetivamente pro- fun9ao do qual, a partir do inicio dos anos 1970, ele refleti- nunciado. ra sobre seu trabalho - em oposi9ao ao de uma arqueologia Quando parecia indispenstlvel, as reitera90es e as repe- das forma90es discursivas que ate entao 0 havia dominad0 7· ti90es foram suprimidas; as frases interrompidas foram res-

tabelecidas e as constru90es incorretas retificadas.

Os cursos tinham tambem uma fun9ao na atualidade. 0 Os pontos de suspensao assinalam que a grava9ao e inau- ouvinte que vinha segui-los nao ficava somente cativado pela dive!' Quando a frase esta obscura, figura, entre coIchetes, narrativa que se construia semana apos semana; nao ficava uma integra9ao conjetural ou urn acrescimo. somente seduzido pelo rigor da exposi9ao; nelas encontrava Urn asterisco no rodape indica as variantes significati- tambem um aclaramento da atualidade. A arle de Michel Fou- vas das notas utilizadas por Michel Foucault em rela9ao ao cault era de percorrer rapidamente a atualidade mediante a que foi pronunciado. historia. Podia falar de Nietzsche ou de Aristoteles, da pericia As cita90es foram verificadas e as referencias dos tex- psiquiatrica no seculo XIX ou da pastoral crism, 0 ouvinte tos utilizados indicadas. 0 aparelho critico se limita a eluci- sempre tirava dai uma luz sobre 0 presente e os acontecimen- dar os pontos obscuros, a explicitar certas alusoes e a precisar tos de que era contemporaneo. A for9a propria de Michel Fou- os pontos criticos. cault em seus cursos se devia a esse sutil cruzamento entre Para facilitar a leitura, cada aula foi precedida de urn uma erudi9ao cientifica, um engajamento pessoal e um traba- breve sumario que indica suas articula90es principais. lho baseado no acontecimento.

o texto do curso e seguido do resumo publicado no

· Annuaire du College de France. Michel Foucault 0 redigia

geralmente no mes de junho, portanto algum tempo depois

Tendo os anos 1970 visto 0 desenvolvimento e 0 aperfei- do fim do curso. Era, para ele, uma ocasiao de deixar claros, 90amento dos gravadores cassetes, a escrivaninha de Michel

8. Foram utilizadas, em especial, as grava90es realizadas por Gilbert

7. Cf., em especial, "Nietzsche, la genealogie, l'histoire", in Dits et Bur[et e Jacques Lagrange, conservadas no College de France e na Biblioteca ecrils, II, p. 137. do Saulchoir. XIV EM DEFESA DA SOCIEDADE

retrospectivamente, sua inten9ao e seus objetivos. Constitui Curso a melhor apresent"9ao deles.

Cada volwne acaba com wna "situa,ao" cuja responsa- Anos 1975-1976 bilidade e do editor do curso: trata-se de dar ao leitor elemen- tos contextuais de ordem biognifica, ideologica e politica, que situam 0 curso na obra publicada e fomecem indica,6es referentes ao seu lugar no seio do corpus utilizado, a fim de facilitar seu entendimento e de evitar os contra-sensos que poderiam ser devidos ao esquecimento das circunstancias nas quais cada wn dos cursos foi elaborado e pronunciado.

*

Com esta edi,ao dos cursos no College de France, uma nova face da "obra" de Michel Foucault e publicada.



Nao se trata, no sentido proprio, de ineditos,ja que esta edi,ao reproduz a palavra proferida publicamente por Michel Foucault, com a exclusao do suporte escrito que ele utiliza- va e que podia ser muito elaborado. Daniel Defert, que possui as notas de Michel Foucault, permitiu aos editores consulta- las. Agradecemo-lhe vivamente.

Esta edi,ao dos cursos no College de France foi autori- zada pelos herdeiros de Michel Foucault, que desejaram satisfazer a imensa demanda de que eram objeto, tanto na Fran9a como no exterior. E isto em incontestaveis condiyoes de seriedade. Os editores procuraram estar a altura da con- fian,a que lhes concederam.

FRANCOIS EWALD e

ALESSANDRO FONTANA

AULA DE 7 DE JANEIRO DE 1976

Que e urn curso? - Os saberes sujeitados. _ 0 saber

his/6rieo das lUfas, as genealogias e 0 discurso cien/ifieo. _

o pader, 0 que esta em jogo nas genealogias. _ Concepfiio

juridica e economica do pader. - 0 pader como repressiio e

como guerra. -lnversiio do aforismo de Clausewitz.

Eu gostaria que ficasse urn pouquinho claro 0 que se

passa aqui, nestes cursos. Voces sabem que a institui9ao onde

estao, e onde eu estou, nao e exatamente urna institui9ao de

ensino. Enfim, seja qual tenha side 0 significado que quise-

ram dar-Ihe quando foi criado faz muito tempo, atualmente

o College de France funciona essencialmente como urna

especie de organismo de pesquisa: e-se pago para fazer pes-

quisa. E eu acho que a atividade de ensino, no limite, nao

teria sentido se nao !he dessemos, ou se nao Ihe atribuisse-

mos, em todo caso, 0 significado que aqui vai, ou pelo me-

nos que sugiro: ja que se e pago para fazer pesquisa, 0 que

pode controlar a pesquisa que se faz? De que maneira se po-

de manter a par aqueles que podem se interessar por ela e

aqueles que tern alguns motivos de estar ligados a essa pes-

quisa? Como e que se pode fazer, senao finalmente pelo en-

sino, isto e, pela declara9ao publica, a presta9ao de contas

publica, e relativamente regular, do trabalho que se esta fazen-

do? Portanto, nao considero estas reuniOes de quarta-feira

como atividades de ensino, mas antes como especies de pres-

ta90es de contas publicas de urn traba!ho que, por outro lado,

·

EM DEFESA DA SOClEDADE



AULA DE 7 DEJANEIRODE 1976 5 4

~ontas,_a boa vontade que tiveram em vir tao cedo me olivir, deixam-me fazer quase como eu quero. Nesta medida, con-

por tao pouco tempo, seja urn pouco recompensada, etc. sidero-me absolutamente obrigado, de fato, a dizer-lhes apro-

De rr:odo que eu passava meses nisso, e acho que 0 que faz ximadamente 0 que estou fazendo, em que ponto estou, em

a razao de ser ao mesmo t:mpo de minha presen9a aqui, e que dire9ao [...] vai este trabalho; e, nessa medida, igual-

mesmo da presen9a de voces, ou seja, fazer pesquisa, esca- mente, considero-os inteiramente livres para fazer, com 0

rafunc~ar, ventllar certo numero de coisas, ter ideias, tudo que eu digo, 0 que quiserem. Sao pistas de pesquisa, ideias,

ISSO nao era efelIvamente a recompensa do trabalho [cum- esquemas, pontilhados, instrumentos: fa9am com isso 0 que quiserem. No limite, isso me interessa, e isso nao me diz res- pndo]. As coisas ficavam muito no ar. Entao eu disse comi- peito. Isso nao me diz respeito, na medida em que nao tenho go mesmo: em todo caso, nao seria ruim se a gente pudes- de estabelecer leis para a utiliza9ao que voces lhes dao. E se so. encontrar entre trinta ou quarenta numa sala: eu pode- isso me interessa na medida em que, de uma maneira ou de na dlzer aproxlmadamente 0 que fiz, e ao mesmo tempo ter outra, isso se relaciona, isso esta ligado ao que eu fa90. cantatas com voces, fala~, responder as suas perguntas, etc.,

Dito isso, voces sabem 0 que aconteceu no decorrer dos para recuperar urn pOUqUlnhO as possibilidades de intercam- anOS anteriores: por uma especie de infla9ao cujas razoes nao blO e de contato que sao ligadas a uma prMica normal de compreendemos bern, chegamos, acho eu, a algo que estava pesq~l1sa ou de ensino. Entao, como proceder? Legalmente

meio travado. Voces eram obrigados a chegar as quatro e eu nao posso estabelecer condi90es formais de acesso a est~

meia [...] e eu me encontrava diante de urn auditorio com- sala. Adotel, portanto, 0 metodo selvagem que consiste em

posto de pessoas com as quais nao tinha, no sentido estrito, marcar ~ .cursa para as nove e meia da manha, pensando,

nenhum contato, ja que uma parte, se nao a metade do audi- c~mo dlZla ontem meu correspondente, que os estudantes

torio, tinha de ficar em outra sala, de escutar por microfone n~o sabe~ malS ac~r,d~r as nove e meia. Voces diriio que e,

o que eu estava dizendo. Nao era mais nem sequer urn espe- amda aSSlm, urn cnteno de sele9ao que nao e justo: os que

taculo _ ja que nao nos viamos. Mas estava travado por uma acordam e os ~ue nilo acordam. E este ou outro. De qual-

outra razao. E que, para mim - aqui entre nos - 0 fato de ter quer forma, ha sempre uns microfonezinhos, uns gravado-

de armar todas as quartas-feiras a tarde essa especie de cir- res, ~ aSSlrn as COlsas clfculam depois - em certos casas fica

ca era urn verdadeiro, como dizer..., suplicio e urn exagero, em flta, em ?~tros casos e encontrado datilografado, algu-

aborrecimento e urn pouquinho fraco. Enfim, era urn pouco mas vezes ate e encontrado nas livrarias - entao disse comi-

entre os dois. De modo que eu acabava efetivamente prepa- go mesmo: sempre vai circular. Vamos entilo tentar [...] Des-

rando estes cursos, com muito cuidado e ate n 9ao , e consa- culpem-me, entao, de te-Ios feito acordar cedo, e transmitam

grava muito menos tempo, digamos, a pesquisa propria- ~at

tdesculpas aos que nao podem vir" e de I. 0, para

mmhas .

mente dita, as coisas ao meSilla tempo interessantes e urn razer urn pOUqUlnhO estas conversas e estes encontros de



pouco incoerentes que eu poderia ter dito, do que a colocar- quarta-feIra d~ volta ao fio normal de uma pesquisa, de urn

me a questao: como e que eu you poder, em urna hora, uma trabalho que 0. felto 0. que e de prestar contas de si mesmo

hora e meia, fazer este ou aquele negocio funcionar, de ma- em mtervalos mstltuclOnais e regulares.

neira que nao aborre9a demais as pessoas, e que, afinal de

EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 7 DE JANEIRO DE 1976 7 6

Entao, 0 que e que eu queria lhes dizer este ano? E que mim, eventualmente, prossegui-Ias ou dar-lhes uma outra con- eu estou urn pouco cheio; quer dizer, eu gos~ana de tentar figura,ao. Enfim, veremos bern, voces e eu, 0 que se pode encerrar, de por, ate certo ponto, flm a urna sene de pesqm- fazer com esses fragmentos. Eu me sentia urn pouco como sas - enfim, pesquisa e urna palavra que se emprega de urn cachalote que salta por cima da superficie da agua, dei- qualquer jeito, 0 que e que ela quer dizer, aO certo? - que xando nela urn pequeno rastro provis6rio de espuma, e que vimos fazendo ha quatro ou cinco anos, pratIcamente desde delxa acredItar, faz acreditar, ou quer acreditar, ou talvez ele que estou aqui, e que me dou conta que acurnularam inc.on- acredite efetivamente, que embaixo, onde nao 0 vemos mais venientes, tanto para voces como para mlm. Eram pesqmsas onde nao e mais percebido nem controlado por ninguem: muito proximas urnas das outras, sem chegar a formar urn ele segue uma trajet6ria profunda, coerente e refletida. conjunto coerente nem urna continuidade; eram pesqmsas Ai esta qual era mais ou menos a situa,ao, tal como a fragmentarias, nenhurna das quais chegou finalmente a seu percebo; nao sei 0 que ela era do Iado de voces. AfinaI de termo, e que nem sequer tinham seqiiencia; pesqmsas dlS- contas, 0 fato de que 0 trabalho que Ihes apresentei tenha tido

persas e, ao'mesma tempo, muito repetitivas, que caiam n.o esse andamento fragmentario, repetitivo e descontinuo cor-

meSilla ramerrao, nos mesmos temas, nos mesmos concel- responderia bern a algo que se poderia chamar de "pregui,a

tos. Eram pequenas conversas sobre a historia do processo febri]", a que afeta 0 cariller dos que adoram as bibliotecas

penal; alguns capitulos referentes 11 evolu,ao, 11 i~stituciona os documentos, as referencias, as escrituras empoeiradas, o~

liza,ao da psiquiatria no seculo XIX; consldera,oes so~re a textos que jamais sao lidos, os livros que, mal sao impres-

sofistica ou sobre a moeda grega, ou sobre a Inqmsl,ao na sos, sao fechados de novo e dormem depois em prateleiras

Idade Media' 0 esbo,o de uma historia da sexualidade ou, das quais s6 sao tirados alguns seculos mais tarde. Tudo isso

em todo caso: de urna historia do saber da sexualidade atraves conviria bern a inercia atarefada daqueles que professam

das prillicas de conflssao no seculo XVII ou dos control~" urn saber para nada, uma especie de saber suntwirio, uma ri-

da sexualidade infantil nos seculos XVIII-XIX; a locahza,ao queza de novo-rico cujos sinais exteriores, voces sabem muito

da genese de urna teoria e de urn saber da anomalia, com bern, encontramos dispostos nos rodapes das paginas. Isso

todas as tecnicas que the sao vinculadas. Tudo ISS0 marca conviria a todos aqueles que se sentem solidarios de uma

passo, nao avan,a; tudo isso se repete e nao esta amarrado. das sociedades secretas, por certo as mais antigas, as mais

No fundo, tudo isso nao para de dizer a mesma COlsa e, con- caracteristicas tambem, do Ocidente, uma dessas sociedades

tudo, talvez, nao diga nada; tudo isso se entrecruza nurna secretas estranhamente indestrutiveis, desconhecidas, pare-

embrulhada pouco decifravel, que nao se organiza muito; em ce-me, na Antiguidade, que se formaram cedo no cristianis-

suma como se diz, nao da resultado. mo, na epoca dos primeiros conventos sem duvida, nos con-

Eu poderia lhes dizer: afinal de contas, eram pistas para fins das invas6es, dos incendios e das florestas. Quero falar

seguir, pouco importava para onde iam; importav: mesmo da grande, terna e calorosa franco-ma,onaria da erudi,ao

que nao levassem a parte algurna, em todo caso nao numa intiti!.

dire,ao determinada de antemiio; eram como que pontIlhados. S6 que nao foi simplesmente 0 gosto por essa franco-

Compete a voces continua-las ou mudar a dire,ao delas; a ma,onaria que me impeliu a fazer 0 que fiz. Parece-me que

EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 7 DE JANEIRO DE 1976 9 8

esse trabalho que foi feito, e que passou de urna maneira um xismo ou da teoria de Reich'. Penso igualmente na estranha pouquinho empirica e instavel de voces para mim e de mim eflcacia dos ataques que ocorreram contra - digamos - a para voces, poderiamos justifica-lo dizendo que ele convi- moral ou a hierarquia sexual tradicional, ataques que, tam- nha bastante bem para urn certo periodo, muito limitado, que bem eles, se referiam apenas de urna maneira vaga e bastante e aquele que acabamos de viver, os dez ou quinze, no maxi- remota, bem nebulosa em todo caso, a Reich ou a Marcuse 3· mo vinte ultimos anos, quero dizer, um periodo no qual se Penso ainda na eficacia dos ataques contra 0 aparelho judi- podem notar dois fenomenos que foram, se nao realmente ciario e penal, alguns dos quais eram muito remotamente importantes, pelo menos, parece-me, bastante interessantes. relacionados com a no,ao geral, e alias bastante duvidosa, De urn lado, foi urn periodo caracterizado por aquilo que po- de ')ustiya de classe", enquanto outros eram vinculados, s6 deriamos chamar de eficacia das ofensivas dispersas e des- urn pouco mais precisamente, no fundo, a urna temittica anar- continuas. Penso em varias coisas, na estranha eficacia, por quista. Penso igualmente, e mais precisamente ainda, na efi- exemplo, quando se trata de travar 0 funcionamento da ins- cacia de algurna coisa - nem sequer me atrevo a dizer de um titui,ao psiquiatrica, do discurso, dos discursos, muito loca- livro - como 0 Anti-CEdipe4 [Anti-Edipo], que nao se referia,

lizados na verdade, da antipsiquiatria; discursos que, voces que praticamente nao se referiu a nada mais que a sua pr6-

bem sabem, nao eram sustentados, e que ainda nao saO sus-

tentados, por nenhurna sistematiza,ao de conjunto, quaisquer

2. De W. Reich, vee Die Funktion des Orgasmus; zur Psychopatho-

que possam ter sido, quaisquer que ainda possam ser suas [ogie und zur Sozi%gie des Geschlechtslebens, Viena, Internationaler tischr

referencias. Penso na referencia de origem, na analise existen- psychoanalytischer Verlag, 1927 (trad. fr.: Lafonction de l'orgasme, Paris,

ciall, ou nas referencias atuais tiradas, grosso modo, do mar- L'Arche, 2971); Der Einbruch der Sexualmoral, Berlim, Verlag flit Sexual-

politik, 1932 (tract. fr.: L 'irruption de fa morale sexuelle, Paris, Payot, 1972);

Charakteranalyse, Viena, Selbstverlag des Verfassers, 1933 (trad. fr.: L 'ana·

1. Aqui Michel Foucault remete ao movimento psiquiitrico (definido, lyse caracterielle, Paris, Payot, 1971); Massenpsychologie des Faschismus; zur sucessivamente, como "antropofenomenoI6gico" ou Daseinanalyse) que havia Sexualokonomie der politis chen Reaktion und zur proletarischen Se- procurado na filosofia de Husser! e de Heidegger novos instrumentos concei- xualpolitik, Copenhague/PragaiZurique, Verlag ftir Sexualpolitik, 1933 (trad. tuais. Michel Foucault se interessara por eles ji em seus primeiros escritos (Cf. fr.: La psychologie de masse du fascisme, Paris, Payot, 1974); Die Sexualitdt "La maladie et l' existence", in Maladie mentale et personnalite, Paris, Presses im Kulturkamp/, Copenhague, Sexpol Verlag, 1936. Universitaires de France, 1954, cap. IV; "Introdul;ao" a 1. Binswanger, Le reve 3. Michel Foucault se refere aqui. claro, a H. Marcuse, autor de: Eros et l'existence, Paris, Desclee de Brouwer, 1954; "La psychologie de 1850.it and Civilisation: A Philosophical Inquiry into Freud, Boston, Ma., Beacon Press,

1950", in A. Weber & D. Huisman, Tableau de fa philosophie contemporaine, 1955 (trad. fr.: Eros et civilisation, Paris, Seuil, 1971), e de One-dimensional

Paris, Fischbacher, 1957; "La recherche en psycho1ogie", in Des chercheurs Man: Studies in the Ideology ofAdvanced Industrial Society, Boston, Ma., Bea- s 'interrogent, estudos apresentados por J.-E. Morere, Paris, PUF, 1957; os tres con Press, 1964 (trad. fr.: L 'homme unidimensionnel, Paris, Seuil, 1970).

ultimos textos estao publicados in Dits et ecrils, 1954-1988, ed. par D. Defert 4. G. Deleuze & F. Guattari, L 'Anti-CEdipe. Capitalisme et schizophre-

& F. Ewald, colab. 1. Lagrange, Paris, Gallimardf'Bibliotheque des sciences hu- nie, Paris, Ed. de Minuit, 1972. Vale 1embrar que Michel Foucault desenvol·

maines", 1994,4 vol.; I: 1954-1969; II: 1970-1975; III: 1976-1979; IV: 1980- veu essa interpretal;ao do Anti-CEdipe como "livro-acontecimento" no prefacio

1988; cf. I, nos 1,2,3) e voltara a ele nos ultimos anos (cf. Colloqui con Fou- para a tradul;ao inglesa do texto (Anti-Oedipus, Nova York, Viking Press, 1977;

cault, Salerno, 1981; trad. fr.: in Dits et ecrits, IV, n? 281). cf. trad. fro desse prefacio in Dits et ecrits, III, n~ 189). 10 EM DEFESA DA SOC/EDADE AULA DE 7 DE JANEIRO DE /976

II pria e prodigiosa inventividade te6rica; livro, ou melhor, c~tica indica, d~ fato, al~o que seria urna especie de produ- coisa, acontecimento, que conseguiu deixar rouco, ate na ~ao teonca autonoma, nao centralizada, OU seja, que, para pratica mais cotidiana, esse murmUrio, por tanto tempo inin- estabelecer sua vahdade, nao necessita da chancela de urn terrupto, que passou do diva para a poltrona. reglme comurn.



Portanto, eu diria isto: nos ultimos dez ou quinze anos, E e P?r ai que chegamos a urna segunda caracteristica a imensa e prolifera criticabilidade das coisas, das institui- do que esta acontecendo faz algum tempo: essa critica local ~oes, das pn\ticas, dos discursos; urna especie de friabilida- se efetuou, parece-me, por aquilo, atraves daquilo que se po- de geral dos solos, mesmo, talvez sobretudo, os mais fami- dena chamar de "reviravoltas de saber". Por "reviravoltas de liares, os mais s6lidos e mais pr6ximos de n6s, de nosso cor- saber", quero dizer 0 seguinte: se everdade que, nesses anos po, de nossos gestos de todos os dias; e isso que aparece. que ac.abaram de. passar, era comum encontrar, pelo menos Mas, ao mesmo tempo que essa friabilidade e essa espanto- num mvel superflclal, toda uma temitica: "niiol chega de sa- sa eficacia das criticas descontinuas e particulares, locais, ber, 0 que mt,;ressa e a vida", "chega de conhecimentos, 0 descobre-se, por isso mesmo, nos fatos, algo que talvez nao que mteressa e 0 re~l", "nada de livros, e siro grana*", etc" estivesse previsto no inicio: seria 0 que se poderia chamar parece-me que de?alXO de toda essa tematica, atraves dela, de efeito inibidor pr6prio das teorias totalitirias, quero dizer, nessa .mesma temat~ca, 0 que se viu acontecer foi 0 que se em todo caso, das teorias envolventes e globais. Nao que es- pod:~la chamar. de ,~surrei~ao dos "saberes sujeitados". E, sas teorias envolventes e globais nao tenham fomecido e por saber sUjeltado , entendo duas coisas. De uma parte, nao fome~am ainda, de urna maneira bastante constante, ins- quero deslgnar, em surna, conteudos hist6ricos que foram trumentos localmente utilizaveis: 0 marxismo, a psicanalise s~pultad?s, ~ascarados em coerencias funcionais au em estao precisamente ai para prova-Io. Mas elas s6 fomeceram, sl~temahza~oes formais. Concretamente, se preferirem, nao acho eu, esses instrumentos localmente utilizaveis com a f01 certamente uma semiologia da vida em hospicio, nao foi condi~ao, justamente, de que a unidade te6rica do discurso tampouco uma socl~logla da delinqiiencia, mas sim 0 apa- fique como que suspensa, em todo caso recortada, cindida, reClmento de, conteudos hist6ricos 0 que permitiu fazer, picada, remexida, deslocada, caricaturada, representada, tea- tanto do hOSP1ClO como da pnsao, a critica efetiva. E pura e tralizada, etc. Em todo caso, inteiramente retomada nos pr6- slmplesmente porque apenas os conteudos hist6ricos podem prios termos da totalidade levou de fato a urn efeito de freada. permltlr descobrir a clivagem dos enfrentamentos e das Portanto, se quiserem, primeiro ponto, primeira caracteristi- lutas que as ordena~oes funcionais ou as organiza~oes siste- ca do que aconteceu durante estes quinze anos: cariter local mahcas t~:eram CO~O. objetivo, justamente, mascarar. Por- da critica, 0 que nao quer dizer, creio eu, empirismo obtuso, tanto, os saberes sUjeltados" sao blocos de saberes hist6ri- ingenuo ou simpl6rio, 0 que tambem nao quer dizer ecletis- cos. que estavam presentes e disfar~ados no interior dos mo frouxo, oportunismo, permeabilidade a urn empreendi- conjuntos funClOnalS e sistematicos, e que a critica pode fa- mento te6rico qualquer, nem tampouco ascetismo urn pouco zer reaparecer pelos meios, e claro, da erudi~ao. voluntirio, que se reduziria ele pr6prio it maior magreza te6- rica possive!. Creio que esse cariter essencialmente local da .

'Manuscnto, no lugar de "grana": '·viagem". 12 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 7 DE JANEIRO DE 1976 13

Em segundo lugar, por "saberes sujeitados", acho que nesse saber da erudi9ao como nesses saberes desqualifica- se deve entender outra coisa e, em cecto sentido, urna coisa dos, nessas duas fonnas de saberes, sujeitados ou sepultados, totalmente diferente. Por "saberes sujeitados", eu entendo de que se lratava? Tratava-se do saber hist6rico das lutas. No igualmente toda uma serie de saberes que estavam des- dominio especializado da erudi9ao tanto como no saber des- qualificados como saberes nao conceituais, como saberes in- qualificado das pessoas jazia a mem6ria dos combates, aque- suficientemente elaborados: saberes ingenuos, saberes hie- la, precisamente, que ate entio tinha sido mantida sob tutela. rarquicamente inferiores, saberes abaixo do nivel do conhe- E assim se delineou 0 que se poderia chamar urna genealogia, cimento ou da cientificidade requeridos. E foi pelo reapa- ou, antes, assim se delinearam pesquisas geneal6gicas multi- recimento desses saberes de baixo, desses saberes nao qua- plas, a urn s6 tempo redescoberta exata das lutas e mem6ria lificados, desses saberes desqualificados mesmo, foi pelo bruta dos combates; e essas genealogias, como acoplamento reaparecimento desses saberes: 0 do psiquiatrizado, 0 do desse saber erudito e desse saber das pessoas, s6 foram pos- doente, 0 do enfermeiro, 0 do medico, mas paralelo e mar- siveis, e inclusive s6 puderam ser tentadas, com uma condi- ginal em compara9ao com 0 saber medico, 0 saber do de- 9aO: que fosse revogada a tirania dos discursos englobadores, linqiiente, etc. - esse saber que denominarei, se quiserem, com sua hierarquia e com todos os privilegios das vanguar- o "saber das pessoas" (e que nao e de modo algurn urn saber das te6ricas. Chamemos, se quiserem, de "genealogia" 0 aco- comum, urn born senso, mas, ao contnirio, urn saber parti- plamento dos conhecimentos eruditos e das mem6rias locais, cular, urn saber local, regional, urn saber diferencial, inca- acoplamento que pennite a constitui9aO de urn saber hist6ri- paz de unanimidade e que deve sua for9a apenas a contun- co das lutas e a utiliza9aO desse saber nas tMicas atuais. Sera dencia que opoe a todos aqueles que 0 rodeiam) -, foi pelo essa, portanto, a defini9aO provis6ria dessas genealogias que reaparecimento desses saberes locais das pessoas, desses tentei fazer com voces no decoITer dos ultimos anos. saberes desqualificados, que foi feita a critica. Nessa atividade, que se pode, pois, dizer geneal6gica,

Voces me dido: M, ainda assim, ai como que urn estra- voces veem que, na verdade, nao se trata de forma alguma nho paradoxo em querer agrupar, acoplar na mesma catego- de opor a unidade abstrata da teoria a multiplicidade con- ria dos "saberes sujeitados", de urn lado, esses conteudos do creta dos fatos; nao se trata de fonna alguma de desqualifi- conhecimento hist6rico meticuloso, erudito, exato, tt~cnico, car 0 especulativo para the opor, na fonna de urn cientificis- e depois esses saberes locais, singulares, esses saberes das mo qualquer, 0 rigor dos conhecimentos bern estabelecidos. pessoas que sao saberes sem senso comum e que foram de Portanto, nao e urn empirismo que perpassa 0 projeto ge- cecto modo deixados em repouso, quando nao foram efeti- neal6gico; nao e tampouco urn positivismo, no sentido comum va e explicitamente mantidos sob tutela. Pois bern, acho que do tenno, que 0 segue. Trata-se, na verdade, de fazer que foi nesse acoplamento entre os saberes sepultados da erudi- intervenham saberes locais, descontinuos, desqualificados, 9aO e os saberes desqualificados pela hierarquia dos conhe- nao legitimados, contra a instancia te6rica unitaria que pre- cimentos e das ciencias que se decidiu efetivamente 0 que tenderia filtra-Ios, hierarquiza-Ios, ordena-Ios em nome de fomeceu acritica dos discursos destes ultimos quinze anos a urn conhecimento verdadeiro, em nome dos direitos de urna

sua for9a essencia!. Tanto nurn caso como no outro, de fato, ciencia que seria possuida par alguns. As genealogias nao

-_._--~--_ ....._--------- 14 EM DEFESA DA SOClEDADE AULA DE 7 DEJANEJRODE 1976 15

saO, portanto, retornos positivistas a uma forma de ciencia rados, [pelo menos] diluidos, eu diria 0 seguinte: antes mes- mais atenta ou mais exata. As genealogias sao, muito exata- mo de saber em que medida uma coisa como 0 marxismo mente, anticiencias. Nao que elas reivindiquem 0 direito ou a psicanalise e analoga a uma priltica cientifica em seu lirico a ignorilncia e ao nao-saber, nao que se tratasse da re- desenrolar cotidiano, em suas regras de constru9ao, nos con- cusa de saber ou do por em jogo, do por em destaque os ceitos utilizados, antes mesmo de se fazer essa pergunta da prestigios de uma experiencia imediata, ainda nao captada analogia formal ou estrutural de um discurso marxista ou pelo saber. Nao e disso que se trata. Trata-se da insurrei9ao psicanalitico com um discurso cientifico, nao e necessario dos saberes. Nao tanto contra os conteudos, os metodos ou primeiro levantar a questao, se interrogar sobre a ambi9ao os conceitos de uma ciencia,mas de urna insurrei~ao sobre- de poder que a pretensao de ser uma ciencia traz consigo? tudo e acima de tudo contra os efeitos centralizadores de A questao, as questiles que e preciso formular nao serao poder que sao vinculados a institui9ao e ao funcionamento de estas: "Quais tipos de saber voces querem desqualificar no urn discurso cientifico organizado no interior de uma socie- momenta em que voces dizem ser esse saber uma ciencia? dade como a nossa. E se essa institucionaliza9ao do discurso Qual sujeito falante, qual sujeito discorrente, qual sujeito de cientifico toma corpo numa universidade ou, de urn modo experiencia e de saber voces querem minimizar quando di- geral, num aparelho pedagogico, se essa institucionaliza9ao zem: 'eu, que fa90 esse discurso, fa90 um discurso cientifico dos discursos cientificos toma corpo numa rede teorico- e sou cientista'? Qual vanguarda teorico-politica voces que- comercial como a psicanalise, ou num apareiho politico, com rem entronizar, para destaca-la de todas as formas maci9as, todas as suas aferencias, como no caso do marxismo, no fun- circulantes e descontinuas de saber?" E eu diria: "Quando do pouco importa. E exatamente contra os efeitos de poder eu vejo voces se esfor9arem para estabelecer que 0 marxis- proprios de um discurso considerado cientifico que a genea- rna e uma ciencia, nao os vejo, para dizer a verdade, de- logia deve travar 0 combate. monstrando de uma vez por todas que 0 marxismo tern uma

De uma forma mais precisa ou, em todo caso, que tal- estrutura racional e que suas proposi95es dependem, por vez lhes soe melhor, eu diria isto: desde M muitos anos, conseguinte, de procedimentos de verifica9ao. Eu os vejo, desde mais de um seculo por certo, voces sabem quaD nu- sobretudo e acima de tudo, fazendo outra coisa. Eu os vejo merosos tern side os que se perguntaram se 0 marxismo era vinculando ao discurso marxista, e eu os vejo atribuindo ou nao uma ciencia. Poderiamos dizer que a mesma pergun- aos que fazem esse discurso, efeitos de poder que 0 Oci- ta foi formulada, e nao para de ser, a proposito da psicana- dente, desde a Idade Media, atribuiu a ciencia e reservou aos lise ou, pior ainda, da semiologia dos textos litenirios. Mas que fazem urn discurso cientifico." a esta pergunta: "E ou nao e ciencia?", as genealogias ou os A genealogia seria, pois, relativamente ao projeto de genealogistas responderiam: "Pois bern, precisamente, 0 que uma inser9ao dos saberes na hierarquia do poder proprio da criticamos em voces e fazer do marxismo, ou da psicanalise, ciencia, uma especie de empreendimento para dessujeitar os ou desta ou daquela coisa, uma ciencia. E, se temos uma saberes historicos e torna-Ios livres, isto e, capazes de opo- obje9ao a fazer ao marxismo, e que ele poderia efetivamente si9ao e de luta contra a coer9ao de urn discurso teorico uni- ser urna ciencia." Em termos urn poueo mais, se nao elabo- tario, formal e cientifico. A reativa9ao dos saberes locais - 16 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 7 DE JANEIRO DE 1976 17

"menores", talvez dissesse Deleuze s - contra a hierarquiza- e que eu nao continuo, e por que e que nao pego tambem ,ao cientifica do conhecimento e seus efeitos de poder alguma coisa pequena, que estaria no campo da psiquiatria, intrinsecos, esse e 0 projeto dessas genealogias em desor- no campo da teoria da sexualidade, etc.? dem e picadinhas. Eu diria em duas palavras 0 seguinte: a Poderiamos continuar, e verdade, e ate certo ponto eu arqueologia seria 0 metodo pr6prio da analise das discursi- tentarei continuar, nao fosse talvez urn certo numero de mu- vidades locais, e a genealogia, a tatica que faz intervir, a dan,as, e de mudan,as na conjuntura. Quero dizer que, em partir dessas discursividades locais assim descritas, os sabe- compara,ao com a silua,ao que conhecemos cinco, dez ou res dessujeitados que dai se desprendem. Isso para reconsti- ate quinze anos atras, as coisas talvez tenham mudado; a luir 0 projeto de conjunto. batalha talvez nao tenha inteiramente a mesma cara. sera

Voces estao vendo que todos os fragmentos de pesqui- que estamos mesmo, em todo caso, neSsa mesma rela,ao de sa, todas essas considera,oes a urn s6 tempo entrecruzadas for,a que nos permitiria valorizar, de certo modo em estado e pendentes que repeti com obstina,ao nos ultimos quatro vivo e fora de qualquer sujei,ao, esses saberes desencava- ou cinco anos, poderiam ser consideradas elementos dessas dos? Que for,a eles tern por si mesmos? E, afinal de contas, genealogias, que eu nao fui, longe disso, 0 unico a fazer ao a partir do momento em que se resgatam assim fragmentos longo destes ultimos quinze anos. Questao: entao por que de genealogia, a partir do momenta em que se valorizam, em naG se continuaria com uma teoria tao bonita - e provavel- que se poem em circula,ao essas especies de elementos de mente tao pouco verificavel - da descontinuidade?' Por que saber que tentamos desencavar, nao correro eles 0 risco de

ser recodificados, recolonizados por esses discursos unitarios

que, depois de oS ter a principio desqualificado e, posterior-

5. Os conceitos de "menor" e de "minoria" - antes acontecimentos sin- mente, ignorado quando eles reapareceram, talvez estejam gulares do que essencias individuais, antes individua<;oes por "ecceidade" do agora prontos para anexa-Ios e para retoma-Ios em seu pr6- que substancialidade - foram elaborados por G. Deleuze, com F. Guattari, in Kafka. Pour une litterature mineure (Paris, Ed. de Minuit, 1975), retomados

prio discurso e em seus pr6prios efeitos de saber e de por Deleuze no artigo "Philosophie et minorite" (Critique, fevereira de 1978), poder? E se quisermos proteger esses fragmentos assim res- e desenvolvidos ulteriormente, em especial em G. Deleuze & F. Guattari, gatados, nao nos exporemos a construir nos mesmos, com MjlJe plateaux. Capitalisme et schizophrimie, Paris, Ed. De Minuit, 1980. A nossas proprias maos, esse discurso unitario a que nos con- "minoria" remete tambem ao conceito de "molecular" elaborado por F. vidam, talvez como para uma armadilha, os que nos dizem: Guattari em Psychanalyse et transversalite. Essai d'analyse institutionnelle (Paris, Maspero, 1972), cuja 16gica e a do "devir" e das "intensidades".

"Tudo isso e muito simpatico, mas leva aonde? Em que

6. Michel Foucault se refere aqui ao debate que se iniciara sobretudo de- dire,ao? A qual unidade?" A tenta,ao, ate certo ponto, e de pois da publica>;ao de Les mots et les choses. Une archeologie des sciences dizer: pois bern, continuemos, acurnulemos. Afinal de con- humaines (Paris, Gallimard, 1966), a prop6sito do conceito de episteme e do esta- tas, ainda nao chegou 0 momento em que corremos 0 risco tuto da descontinuidade. A todas as criticas, Foucault respondera com uma serie de ser colonizados. Eu lhes dizia agora ha pouco que esses de precisC>es te6ricas e metodo16gicas (notadamente "Reponse aune question", Esprit, maio de 1968, pp. 850-74, e "Reponse au Cercle d'epistemologie",

fragmentos geneal6gicos talvez corram 0 risco de ser recodi- Cahiers pour I'analyse, 9, 1968, pp. 9-40; in Dits et ecrits, I, no~ 58 e 59), reta- ficados; mas poderiamos, afinal de contas, lan,ar 0 desafio mados mais tarde em L 'archeologie du savoir, Paris, Gallimard, 1969. e dizer: "Tentem entao!" Poderiamos dizer, por exemplo: 18 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 7 DE JANEIRO DE 1976 19

desde 0 tempo em que a antipsiquiatria ou a genealogia das por um tipo de coroamento teorico que as unificaria -, mas institui,oes psiquiatricas foram empreendidas - faz bem tentar, nos cursos seguintes, e por certo ja este anD, precisar uns quinze anos agora - por acaso apareceu urn s6 marxis- ou delinear 0 que esta em jogo nesse por em oposi,ao, ta, urn so psicanalista, urn so psiquiatra para refazer isso em nesse por em luta, nesse por em insurrei,ao os saberes con- seus proprios termos, e para mostrar que essas genealogias tra a institui,ao e os efeitos de saber e de poder do discurso eram falsas, mal elaboradas, mal articuladas, mal funda- cientifico. mentadas? De fato, as coisas sao tais que esses fragmentos o que esta em jogo em todas essas genealogias, voces de genealogia que foram feitos continuam ai, cercados de sabem, mal tenho necessidade de precisar, e isto: 0 que e urn silencio prudente. 0 maximo que lhes opoem sao propo- esse poder, cuja irrup,ao, cuja fOf9a, cuja contundencia, cujo si,oes como as que acabamos de ouvir recentemente na absurdo apareceram concretamente no decorrer destes ulti- boca, acho eu, do Sr. Juquin': "Tudo isso e muito simpatico. mos quarenta anos, ao mesmo tempo na linha de desmoro- Mas ainda assim a psiquiatria sovietica e a primeira do namento do nazismo e na linha de recuo do stalinismo? 0 mundo." Eu ditia: "Claro, a psiquiatria sovi6tica, 0 senhor que e 0 poder? Ou melhor - porque a pergunta: "0 que e 0 tem razao, e a primeira do mundo, e e precisamente isso poder?" seria justamente uma questao teorica que coroaria

que the reprovam." 0 silencio, ou melhor, a prudencia com o conjunto, 0 que eu nao quero -, 0 que esta em jogo e de- que as teorias unitanas evitam a genealogia dos saberes tal- terminar quais sao, em seus mecanismos, em seliS efeitos,

vez fosse, pois, uma razao para continuar. Poderiamos, em em suas rela,oes, esses diferentes dispositivos de poder que

todo caso, multiplicar assim os fragmentos genealogicos se exercem, em niveis diferentes da sociedade, em campos

como outras tantas armadilhas, questOes, desafios, como e com extensoes tao variadas. Grosso modo, acho que 0 que

voces quiserem. Mas, sem duvida, e otimista demais, a par- esta em jogo em tudo isso e 0 seguinte: a analise do poder,

tir do momenta em que se trata, afinal de contas, de urna ou a analise dos poderes, pode, de urna maneira ou de outra,

batalha - de urna batalha dos saberes contra os efeitos de ser deduzida da economia?

poder do discurso cientifico -, tomar 0 silencio do adversa- Eis por que formulo esta questao, e eis 0 que quero

rio como prova de que the metemos medo. 0 silencio do dizer com isso. Nao quero de modo algum suprimir diferen-

adversario - [e] e este urn principio metodologico ou urn «as inumeniveis, gigantescas, mas, apesar e atraves dessas

principio tatico que sempre se deve ter em mente - talvez diferen,as, parece-me que Ita um certo ponto em comum

seja, da mesma forma, 0 sinal de que nao the metemos entre a concep,ao juridica e, digamos, liberal do poder poli-

medo algum. E devemos agir, acho eu, como se justamente tico - a que encontramos nos filosofos do seculo XVIII - e

nao the metessemos medo. E, portanto, 0 problema nao e tambem a concep,ao marxista ou, em todo caso, uma certa

dar um solo teorico continuo e solido a todas as genealogias concep,ao corrente que vale como sendo a concep,ao do

dispersas - nao quero de modo algum Ihes dar, Ihes sobre- marxismo. Esse ponto comum seria aquilo que eu chamaria

de "economismo" na teoria do poder. E, com isso, quero di-

zer 0 seguinte: no caso da teoria juridica classica do poder,

7. Na epoca, deputado do Partido Comunista Frances. o poder e considerado urn direito do qual se seria possuidor 20 EM DEFESA DA SOC/EDADE AULA DE 7 DEJANE/RODE /976 21

como de wn bern, e que se poderia, em conseqiiencia, trans- mia? Esta destinado a faze-Ia funcionar, a solidificar, a man- ferir ou alienar, de urna forma total ou parcial, mediante urn ter, a reconduzir relac;5es que sao caracteristicas dessa eco- ato juridico ou urn ato fundador de direito - pouco importa, nomia e essenciais ao seu funcionamento? Segunda questaa: por ora - que seria da ordem da cessao ou do contrato. 0 o poder e modelado com base na mercadoria? 0 poder e poder e aquele, concreto, que todo individuo detem e que algo que se possui, que se adquire, que se cede por contra- viria a ceder, total ou parcialmente, para constituir urn po- to ou por for,a, que se aliena ou se recupera, que circula, que der, urna soberania pOlitica. A constitui,ao do poder politi- irriga esta regiao, que evita aquela? Ou entao, e preciso, ao co se faz, portanto, nessa serie, nesse conjunto tearieD a que contrario, para analisa-lo, tentar lan,ar mao de instrurnen- me refiro, com base no modelo de urna opera,ao juridica tos diferentes, mesmo que as relay6es de poder sejam pro- que seria da ordem da troca contratua!. Analogia, por con- fundamente intricadas nas e com as re!a,6es economicas, seguinte, manifesta, e que corre ao longo de todas essas teo-

mesmo que efetivamente as relay6es de poder constituam rias, entre 0 poder e os bens, 0 poder e a riqueza.

sempre uma especie de feixe ou de anel com as relay6es

No outro caso, claro, eu penso na concepyao marxista

economicas? E, nesse casa, a indissociabilidade entre a eco- geral do poder: nada disso, e evidente. Mas voces tern nessa

nomia e 0 politico nao seria da ordem da subordinayao fun- concepyao marxista algo diferente, que se poderia chamar

cional, nem tampouco da ordem da isomorfia formal, mas de "funcionalidade economica" do poder. "Funcionalidade

de uma outra ordem que se trataria precisamente de revelar. economica", na medida em que 0 pape! essencial do poder seria manter rela,6es de produyao e, ao mesmo tempo, re- Para fazer uma analise nao economica do poder, de que, conduzir urna dominayao de classe que 0 desenvolvimento atualmente, dispomos? Acho que se pode dizer que dispo- e as modalidades pr6prias da apropria,ao das foryas produ- mos realmente de muito pouca coisa. Dispomos, primeiro, da tivas tornaram possive!. Neste caso, 0 poder politico encon- afirma,ao de que 0 poder nao se da, nem se troca, nem se traria na economia sua razao de ser hist6rica. Em linbas ge- retorna, mas que ele se exerce e s6 existe em ata. Dispomos rais, se preferirem, nurn caso, tem-se urn poder politico que igualmente desta outra afirma,ao, de que 0 poder nao e pri- encontraria, no procedimento da troca, na economia da cir- meiramente manutenyao e reconduyao das relay6es econo- culayao dos bens, seu modelo formal; e, no outro caso, 0 micas, mas, em si mesma, primariamente, uma rela~ao de poder politico teria na economia sua razao de ser hist6rica, for,a. Algumas quest6es, ou melhor, duas quest6es: se 0 po- e 0 principio de sua forma concreta e de seu funcionamento der se exerce, 0 que e esse exercicio? Em que consiste? Qual atua!' e sua med.nica? Temos aqui algo que eu diria era uma res-

o problema que e 0 mobil das pesquisas de que estou posta-ocasiao, enfim, urna resposta imediata, que me pare-

falando pode, creio eu, ser decomposto da seguinte maneira. ce descartada finalmente pelo fato concreto de muitas ana-

Primeiramente: 0 poder esUi sempre nurna posi,ao secunda- lises atuais: 0 poder e essencialmente 0 que reprime. E 0

ria em relayao it economia? E sempre finalizado e como que reprime a natureza, os instintos, uma classe, individuos.

que funcionalizado pela economia? 0 poder tern essencial- E, quando, nO discurso contemporaneo, encontramos essa

mente como razao de ser e como finalidade servir it econo- defini,ao repisada do poder como 0 que reprime, afinal de 22 EM DEFESA DA SOC1EDADE AULA DE 7 DEJANE1RO DE 1976 23 contas, 0 discurso contemporaneo nao faz uma invenl;ao.

como ponto de ancoragem uma certa rela,ao de for,a esta- Hegel fora 0 primeiro a dizer, depois Freud, depois Reich'. beleclda em dado momenta, historicamente precisavel, na Em todo caso, esse orgao de repressao e, no vocabulario de guerra e pela guerra. E, se e verdade que 0 poder politico para hoje, 0 qualificativo quase homerico do poder. Entao, a ana- a guerra, faz remar ou tenta fazer reinar uma paz na socie- lise do poder nao deve ser antes de mais nada, e essencial- dade civil, nao e de modo algum para suspender os efeitos mente, a analise dos mecanismos de repressao? da guerra ou para neutralizar 0 desequilibrio que se mani-

Em segundo lugar - segunda resposta-ocasiao, se qui- fe,stou na batalha final da guerra. 0 poder pOlitico, nessa hi- serem -, se 0 poder e mesmo, em si, emprego e manifestac;ao potese, tena como fun,ao reinserir perpetuamente essa re- de uma rela,ao de for,a, em vez de analisa-lo em termos de la,ao de for,a, mediante uma especie de guerra silenciosa cessao, contrato, alienac;ao, em vez mesma de analisa-Io em e de reinseri-la nas institui,oes, nas desigualdades econ6: termos funcionais de recondu,ao das rela,oes de produ,ao, mIcas, na lmguagem, ate nos corpos de uns e de outros. Seria nao se deve analisa-lo antes e acima de tudo em termos de pois, 0 primeiro sentido a dar a esta inversao do aforismo d~ combate, de enfrentamento ou de guerra? Teriamos, pois, Clausewitz: a politica e a guerra continuada por outros meios' diante da primeira hipotese - que e: 0 mecanismo do poder isto e, a politica e a san,ao e a recondu,ao do desequilibri~ e, fundamental e essencialmente, a repressao -, uma segun- das. for,as .manifestado na guerra. E a inversao dessa propo- da hipotese que seria: 0 poder e a guerra, e a guerra conti- Sl,ao slgmflcana outra cOlsa tambem, a saber: no interior nuada por Qutros meios. E, oeste momento, inverteriamos a d~ssa "paz civil", as lutas politicas, os enfrentamentos a pro- proposi,ao de Clausewitz' e diriamos que a politica e a guer- pOSHo do poder, com 0 poder, pelo poder, as modifica,oes ra continuada por outros meios. 0 que significaria tres coi- das rela,oes de for,a - acentua,oes de urn lado, reviravol- sas. Primeiro isto: que as rela,oes de poder, tais como fun- tas, etc. -, tudo isso, num sistema pOlitico, deveria ser inter- cionam numa sociedade como a nossa, tern essencialmente pretado apenas com,o as continua,oes da guerra. E seria para

declfrar como eplsodlOS, fragmenta,oes, deslocamentos da

propria guerra. Sempre se escreveria a historia dessa mes-

8. Cf. G. w. F. Hegel, Grundlinien der Philosophie des Rechts, Berlim, rna guerra, mesmo quando se escrevesse a historia da paz e 1821, §§ 182-340 (trad. fr.: Principes de fa philosophie du droit, Paris, Vrin, de suas institui,oes. 1975); S. Freud, "Das Unbewussten", in Internationale Zeitschriftfiir iirtzli- che Psychoanalyse, vol. 3 (4) e (5),1915, e Die ZukunJt einer Illusion,

A inversao do aforismo de Clausewitz significaria ainda LeipziglViena/Zurique, Internationaler Psychoanalytischer Verlag, 1927 uma terceira coisa: a decisao final so pode vir da guerra, ou (trad. fr.: L 'Qvenir d'une illusion, Paris, Denoel, 1932; reed. Paris, PUF, 1995). seJa, de uma prova de for,a em que as armas, finalmente 1\0 tocante a Reich, cf. supra, nota 2. deverao ser juizes. 0 fim do politico seria a derradeira bata:

9. Michel Foucault alude a formular;ao bern conhecida do principio de lha, isto e, a derradeira batalha suspenderia afinal, e afinal Carl von Clausewitz (Vorn Kriege, !iv.I, cap. I, § XXIV, in Hinterlassene Werke, Bd. 1-2-3, Berlim, 1832; trad. fro De fa guerre, Paris, Ed. de Minuit, 1955),

somente, 0 exercicio do poder como guerra continuada. segundo a qual: "A guerra nao e mais que a continuar;ao da politica por outros Voces estao venda, portanto, que, a partir do momenta meios"; ela "nao e somente urn ato politico, mas urn verdadeiro instrumento em que tentamos libertar-nos dos esquemas econ6micos para da politica, seu prosseguimento por outros meios" (ibid., p. 28). Ver tambem anahsar 0 poder, encontramo-nos imediatamente em face de !iv. II, cap. III, § III e liv. VIII, cap. VI.

duas hipoteses maci,as: de uma parte, 0 mecanismo do poder 24 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 7 DE JANEIRO DE 1976 25

seria a repressao - hipotese que, se voces concordarem, Eevidente que tudo 0 que eu Ihes disse ao lange dos anos chamarei comodamente hipotese de Reich - e, em segundo anteriores se insere do lado do esquema luta-repressao. Foi lugar, 0 fundamento da rela,ao de poder e 0 enfrentamento este esquema que, de fato, eu tentei aplicar. Ora, it medida que belicoso das for,as - hipotese que chamarei, tambem aqui eu 0 aplicava, fui levado mesmo assim a reconsidera-Io; ao por comodidade, hipotese de Nietzsche. Essas duas hipote- mesmo tempo, claro, porque numa por,ao de pontos ele ainda ses DaO sao inconciliaveis; ao contnirio, parecem ate se en- esta insuficientemente elaborado - eu diria mesmo que esta cadear com bastante verossimilhan,a: afinal de contas, a re- totalmente inelaborado - e tambem porque creio que as duas pressao nao e a conseqiiencia politica da guerra, um pouco n090es, de "repressao" e de "guerra", devem ser consideravel- como a opressao, na teoria cbissica do direito politico, era 0 mente modificadas, quando nao, talvez, no limite, abandona- abuso da soberania na ordem juridica? das. Em todo caso, e precise olhar de perto essas duas no,iies,

Poderiamos, pois, contrapor dois grandes sistemas de "repressao" e "guerra", OU, se preferirem, 0100 urn pOlleD analise do poder. Um, que seria 0 velho sistema que voces mais de perto a hipotese de que os mecanismos de poder se-

riam essencialmente mecanismos de repressao, e a outra hipo- encontram nos filosofos do seculo XVIII, se articularia em

tese de que, sob 0 poder politico, 0 que paira e 0 que funciona tome do poder como direito original que se cede, constitu-

e essencialmente e acima de tudo urna rela,ao belicosa. tivo da soberania, e tendo 0 contrato como matriz do poder

Acho, e nao digo isso para me gabar, que ja faz bastante politico. E haveria 0 risco de esse poder assim constituido, tempo que desconfio dessa no,ao de "repressao", e tentei quando ultrapassa a si mesmo, ou seja, quando vai alem dos mostrar a voces, justamente a proposito das genealogias de proprios termos do contrato, tomar-se opressao. Poder-con- que eu falava agora ha pouco, a proposito da historia do trato, tendo como limite, ou melhor, como ultrapassagem do direito penal, do poder psiquiatrico, do controle da sexuali- limite, a opressao. E voces teriam 0 outro sistema que ten- dade infantil, etc., que os mecanismos empregados nessas taria, pelo contrario, analisar 0 poder politico nao mais de forma,iies de poder eram algo muito diferente da repressao; acordo com 0 esquema contrato-opressao, mas de acordo em todo caso, eram bem mais que ela. Eu nao posso conti- com 0 esquema guerra-repressao. E, nesse momento, a re- nuar sem retomar um pouquinho, justamente, essa analise pressao naD e 0 que era a opressao em relayao ao contrato, da repressao, sem juntar um pouco tudo 0 que pude dizer de ou seja, urn abuso, mas, ao contnirio, 0 simples efeito e 0 uma forma sem duvida um pouco desconexa. Por conse- simples prosseguimento de uma rela,ao de domina,ao. A guinte, a proxima aula OU, eventualmente, as duas pr6ximas repressao nada mais sena que 0 emprego, no interior dessa serao dedicadas it retomada critica da no,ao de "repressao", pseudopaz solapada por uma guerra continua, de uma rela- a tentar mostrar em que e como essa no,ao, de repressao, ,ao de for,a perpetua. Portanto, dois esquemas de analise tao corrente agora, para caracterizar os mecanismos e os do pader: 0 esquema contrato-opressao, que e, se voces pre- efeitos do poder, e totalmente insuficiente para demarca-los1o. ferirem, 0 esquema juridico, e 0 esquema guerra-repressao, ou domina,ao-repressao, no qual a oposi,ao pertinente nao lO. Promessa nao cumprida. Existe, nao obstante, intercalado no manus- e a do legitime e do ilegitimo, como no esquema preceden- crito, urn curso sobre a "repressao" dado, pOT certo, nurna universidade estran- te, mas a oposi,ao entre luta e submissao. geira. A questiio sera retomada em La volonte de savoir, Paris, Gallimard, 1976. 26 EM DEFESA DA SOCIEDADE

Mas 0 essencial do curso sem dedicado ao outro item, ou AULA DE 14 DE JANEIRO DE 1976 seja, ao problema da guerra. Eu gostaria de tentar ver em que medida 0 esquema binirrio da guerra, da luta, do enfrentamen- to das for,as, pode ser efetivamente identificado como 0 fun-

Guerra e poder. - A filosofia e os limites do poder. - damento da sociedade civil, a urn s6 tempo 0 principio e 0 Diretto e poder regia. - Lei, dominaryQo e sujeiryQo. - Ana/i- motor do exercicio do poder politico. Emesmo exatamente da fica do poder: questoes de metodo. - Teoria da soberania. - 0 guerra que se deve falar para analisar 0 funcionamento do poder disciplinar. - A regra e a norma. poder? Sao validas as no,oes de "tittica", de "estrategia", de "rela,ao de for,a"? Em que medida 0 sao? 0 poder, pura e simplesmente, e urna guerra continuada por meios que nao as armas ou as batalhas? Sob 0 tema agora tornado corrente, te- ma alias relativamente recente, de que 0 poder tem a incurn- bencia de defender a sociedade, deve-se ou nao entender que a sociedade em sua estrutura politica e organizada de maneira Este ano eu gostaria de come,ar, mas come,ar somen- que alguns possam se defender contra os outros, ou defender te, uma serie de pesquisas sobre a guerra como principio sua domina,ao contra a revolta dos outros, ou simplesmente eventual de analise das rela,oes de poder: sera no aspecto ainda, defender sua vit6ria e pereniza-Ia na sujei,ao? da rela,ao belicosa, do lado do modelo da guerra, do lado

Portanto, 0 esquema do curso deste ano sera 0 seguinte: .do esquema da luta, das lutas, que se podera encontrar um primeiro, urna ou duas aulas consagradas a retomada da no- principio de inteligibilidade e de analise do poder politico, ,ao de repressao; depois come,arei [a tratar] - eventualmen-

do poder politico decifrado, pois, em termos de guerra, de te, prosseguirei nos anos seguintes, sei la - esse problema da

lutas, de enfrentamentos? Eu gostaria de come,ar, for,osa- guerra na sociedade civil. Come,arei por deixar de lado,

mente, como contraponto, com a anillise da institui,ao militar, justamente, aqueles que passam por te6ricos da guerra na

das institui,oes militares, em seu funcionamento real, efeti- sociedade civil e que nao 0 sao absolutamente em minha opi-

vo, hist6rico, em nossas sociedades, desde 0 seculo XVII niao, isto e, Maquiavel e Hobbes. Depois tentarei retomar a

ate os nossos dias. teoria da guerra como principio hist6rico de funcionamento

Ate agora, durante os cinco ultimos anos, em linhas ge- do poder, em torno do problema da ra,a, ja que e no bina- rismo das ra,as que foi percebida, pela primeira vez no rais, as disciplinas; nos cinco anos seguintes, a guerra, a luta, Ocidente, a possibilidade de analisar 0 poder politico como o exercito. Gostaria ainda assim de fazer urn balan,o do que guerra. E tentarei conduzir isso ate 0 momento em que luta tentei dizer no decorrer dos anos anteriores, porque isso me

de ra,as e luta de classes se tornam, no final do seculo XIX, fara ganhar tempo para as minhas pesquisas sobre a guerra,

os dois grandes esquemas segundo os quais se [tenta] situar que nao estao muito avan,adas, e porque, eventualmente, o fenomeno da guerra e as rela,oes de for,a no interior da pode servir de ponto de referencia para aqueles dentre voces

sociedade politica. que nao estavam aqui nos anos anteriores. Em todo caso, de- 28 EM DEFESA DA SOC1EDADE AULA DE 14 DE JANEIRO DE 1976 29

sejaria fazer 0 balan,o, para mim mesmo, do que tentei per- dade e so podemos exercer 0 poder mediante a produ,ao da correr. verdade. Isso e verdadeiro em toda sociedade, mas acho que

o que eu tentei percorrer, desde 1970-1971, era 0 "co- na nossa essa rela,ao entre poder, direito e verdade se orga- mo" do poder. Estudar 0 "como do poder", isto e, tentar mza de urn modo muito particular. apreender seus mecanismos entre dois pontos de referencia Para assinalar simplesmente, nao 0 proprio mecanismo ou dois limites: de urn lado, as regras de direito que delimi- da rela,ao entre poder, direito e verdade, mas a intensidade da tam formalmente 0 poder, de outro lado, a outra extremida- rela,ao e sua constancia, digamos isto: somos for,ados a de, 0 outro limite, seriam os efeitos de verdade que esse produzir a verdade pelo poder que exige essa verdade e que poder produz, que esse poder conduz e que, por sua vez, necessita dela para funcionar; temos de dizer a verdade, so- reconduzem esse poder. Portanto, triangulo: poder, direito, mos coagidos, somos condenados a confessar a verdade ou verdade. Digamos, esquematicamente, isto: existe urna ques- a encontra-Ia. 0 poder nao para de questionar, de nos ques- tao tradicional que e aquela, acho eu, da filosofia politica e tIonar; nao para de inquirir, de registrar; ele institucionaliza que se poderia formular assim: como 0 discurso da verdade a busca da verdade, ele a profissionaliza, ele a recompensa. ou, pura e simplesmente, como a filosofia, entendida como Temos de produzir a verdade como, afinal de contas, temos o discurso por excelencia da verdade, podem fixar os limi- de produzir riquezas, e temos de produzir a verdade para po- tes de direito do poder? Essa e a questao tradicional. Ora, a der produzir riquezas. E, de outro lado, somos igualmente que eu queria formular e uma questao abaixo desta, urna submetidos a verdade, no sentido de que a verdade e a norma' questao muito factual em compara,ao a essa questao tradi- e 0 discurso verdadeiro que, ao menos em parte, decide; el~ cional, nobre e filos6fica. Meu problema seria de certo modo veicula, ele proprio propulsa efeitos de poder. Afinal de con- este: quais sao as regras de direito de que lan,am mao as re- tas, somos julgados, condenados, classificados, obrigados a la,5es de poder para produzir discursos de verdade? Ou tarefas, destinados a uma certa maneira de viver ou a uma ainda: qual e esse tipo de poder capaz de produzir discursos certa maneira de morrer, em fun,ao de discursos verdadeiros de verdade que sao, nurna sociedade como a nossa, dotados de que trazem consigo efeitos especificos de poder. Portanto~ efeitos tao potentes? regras de direito, mecanismos de poder, efeitos de verdade.

Quero dizer 0 seguinte: numa sociedade como a nossa Ou ainda: regras de poder e poder dos discursos verdadeiros. - mas, afinal de contas, em qualquer sociedade - multiplas Foi mais ou menos esse 0 dominio geral do percurso que eu rela,5es de poder perpassam, caracterizam, constituem 0 qUls fazer, percurso que segui, sei bern, de urna maneira par- corpo social; elas nao podem dissociar-se, nem estabelecer-se, clal e com muitos ziguezagues. nem funcionar sem urna produ,ao, uma acurnula,ao, uma Sobre esse percurso, eu agora gostaria de dizer algu- circula,ao, urn funcionamento do discurso verdadeiro. Nao mas palavras. Que principio geral me guiou e quais foram hit exercicio do poder sem uma certa economia dos discur- as instru,5es imperativas ou as precau,5es de metodo que sos de verdade que funcionam nesse poder, a partir e atra- eu qUls tomar? Urn principio geral no que se refere as rela- yeS dele. Somos submetidos pelo poder a produ,ao da ver- ,5es entre 0 direito e 0 poder: parece-me que hit urn fato que 30 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 14 DE JANEIRO DE 1976 31

nao se pode esquecer: nas sociedades ocidentais, e isto desde quado a urn direito fundamental; seja, ao contrario, para mos- a Idade Media, a elabora,ao do pensamento juridico se fez trar como se devia limitar esse poder do soberano, a quais essencialmente em tomo do poder regio. Foi a pedido do po- regras de direito ele devia submeter-se, segundo e no inte- der regio, foi igualmente em seu proveito, foi para servir- rior de que limites ele deveria exercer seu poder para que esse lhe de instrumento ou de justifica,ao que se elaborou 0 edi- poder conservasse sua legitimidade. 0 papel essencial da teo- ficio juridico de nossas sociedades. 0 direito no Ocidente e ria do direito, desde a Idade Media, e 0 de fixar a legitimi- urn direito de encomenda regia. Todos conhecem, claro, 0 pa- dade do poder: 0 problema maior, central, em tomo do qual pel famoso, celebre, repetido, repisado, dos juristas na orga- se organiza toda a teoria do direito e 0 problema da soberania. niza,ao do poder regio. Nao convem esquecer que a reativa- Dizer que 0 problema da soberania e 0 problema central do ,ao do direito romano, em meados da Idade Media, que foi direito nas sociedades ocidentais significa que 0 discurso e o grande fenameno ao redor e a partir do qual se reconsti- a tecnica do direito tiveram essencialmente como fun,ao dis- tuiu 0 edificio juridico dissociado depois da queda do Impe- solver, no interior do poder, 0 fato da domina,ao, para fazer rio Romano, foi urn dos instrumentos tecnicos constitutivos que aparecessem no lugar dessa domina,ao, que se queria do poder monarquico, autorit:irio, administrativo e, finalmen- reduzir ou mascarar, duas coisas: de urn lado, os direitos

legitimos da soberania, do outro, a obriga,ao legal da obe- te, absoluto. Forma,ao, pois, do edificio juridico ao redor da

diencia. 0 sistema do direito e inteiramente centrado no rei, personagem regia, a pedido mesmo e em proveito do poder

o que quer dizer que e, em ultima analise, a evic,ao do fato regio. Quando esse edificio juridico, nos seculos seguintes,

da domina,ao e de suas conseqiiencias. escapar ao controle regio, quando se tiver voltado contra 0

Nos anos precedentes, ao falar das diferentes pequenas poder regio, 0 que sera discutido serao sempre os limites des-

coisas que evoquei, 0 projeto geral era, no fundo, inverter se poder, a questao referente as suas prerrogativas. Em outras

essa dire,ao geral da analise, que e aquela, creio eu, do dis- palavras, creio que a personagem central, em todo 0 edificio curso do direito por inteiro desde a Idade Media. Eu tentei juridico ocidental, e 0 rei. E do rei que se trata, e do rei, de fazer 0 inverso, ou seja, deixar, ao contnirio, valer como urn seus direitos, de seu poder, dos eventuais limites de seu po- fato, tanto em seu segredo como em sua brutalidade, a do- der, e disso que se trata fundamentalmente no sistema geral, minar;3.o, e depois mostrar, a partir dai, naG s6 como 0 direi- na organiza,ao geral, em todo caso, do sistema juridico oci- to e, de uma maneira geral, 0 instrumento dessa domina,ao dental. Que os juristas tenham sido os servidores do rei ou - isso e 6bvio - mas tambem como, ate onde e sob que for- tenham sido seus adversarios, de qualquer modo sempre se ma, 0 direito (e quando digo 0 direito, nao penso somente na trata do poder regio nesses grandes edificios do pensamen- lei, mas no conjunto dos aparelhos, institui,5es, regulamentos, to e do saber juridicos. que aplicam 0 direito) veicula e aplica rela,5es que nao sao

E, do poder regio, trata-se de duas maneiras: seja para rela,5es de soberania, mas rela,5es de domina,ao. E, com mostrar em que armadura juridica 0 poder real se investia, domina,ao, nao quero dizer 0 fato maci,o de "uma" domi- como 0 monarca era efetivamente 0 corpo vivo da sobera- na,ao global de urn sobre os outros, ou de urn grupo sobre nia, como seu pader, mesma absoluto, era exatamente ade- o outro, mas as multiplas formas de domina,ao que podem 32 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 14 DE JANEIRO DE 1976 33

se exercer no interior da sociedade: nao, portanto, 0 rei em mente, a puni,ao, 0 poder de punir consolidavam-se nurn cer- sua posi,ao central, mas os suditos em suas rela,oes reci- to nlimero de institui,oes locais, regionais, materiais, seja 0 procas; naD a soberania em seu edificio tinieD, mas as mul- suplicio ou seja 0 aprisionamento, e isto no mundo a urn s6 tiplas sujei,oes que ocorreram e funcionam no interior do tempo institucional, fisico, regulamentar e violento dos apa- corpo social. relhos efetivos da puni,ao. Em outras palavras, apreender 0

o sistema do direito e 0 campo judiciario sao 0 veiculo poder sob 0 aspecto da extremidade cada vez menos juridi- permanente de rela,oes de domina,ao, de tecnicas de sujei,ao ca de seu exercicio: era a primeira instru,ao dada. polimorfas. 0 direito, e preciso examimi-Io, creio eu, nao sob Segunda instru,ao: tratava-se de nao analisar 0 poder o aspecto de uma legitimidade a ser fixada, mas sob 0 as- no nivel da inten,ao ou da decisao, de nao procurar consi- pecto dos procedimentos de sujei,ao que ele poe em pdtica. dera-Io do lado de dentro, de nao formular a questao (que Logo, a questa-o, para mim, e curto-circuitar ou evitar esse acho labirintica e sem saida) que consiste em dizer: quem problema, central para 0 direito, da soberania e da obedien- tern 0 poder afinal? 0 que tern na cabe,a e 0 que procura cia dos individuos submetidos a essa soberania, e fazer que aquele que tern 0 poder? Mas sim de estudar 0 poder, ao apare,a, no lugar da soberania e da obediencia, 0 problema

contrario, do lado em que sua inten,ao - se inten,ao houver da domina,ao e da sujei,ao. Assim sendo, era necessario

- esta inteiramente concentrada no interior de pdticas reais certo numero de precau,oes de metodo para procurar seguir

e efetivas; estudar 0 poder, de certo modo, do lado de sua essa linha, que tentava curto-circuitar a linha geral da anali-

face extema, no ponto em que ele esta em rela,ao direta e se juridica ou se desviar dela.

Precau,oes de metodo; esta primeiro: nao se trata de imediata com 0 que se pode denominar, muito provisoria- analisar as formas regulamentadas e legitimas do poder em mente, seu objeto, seu alvo, seu campo de aplica,ao, no pon- seu centro, no que podem ser seus mecanismos gerais ou to, em outras palavras, em que ele se implanta e produz seus seus efeitos de conjunto. Trata-se de apreender, ao contrario, efeitos reais. Portanto, nao: por que certas pessoas querem o poder em suas extremidades, em seus ultimos lineamentos, dominar? 0 que elas procuram? Qual e sua estrategia de onde ele se toma capilar; ou seja: tomar 0 poder em suas conjooto? E siro: como as coisas acontecem no momento mes- formas e em suas institui,oes mais regionais, mais locais, mo, no nivel, na altura do procedimento de sujei,ao, ou nes- sobretudo no ponto em que esse poder, indo alem das regras ses processos continuos e ininterruptos que sujeitam os cor- de direito que 0 organizam e 0 delimitam, se prolonga, em pos, dirigem os gestos, regem os comportamentos. Noutros conseqiiencia, mais alem dessas regras, investe-se em insti- termos, em vez de perguntar-se como 0 soberano aparece tui,oes, consolida-se nas tecnicas e fomece instrumentos de no alto, procurar saber como se constituiram pouco a pouco, interven~ao materiais, eventualmente ate violentos. Urn exem- progressivamente, realmente, materialmente, os suditos, 0 plo, se voces quiserem: em vez de procurar saber onde e sudito, a partir da multiplicidade dos corpos, das for,as, das como na soberania, tal como ela e apresentada pela filoso- energias, das materias, dos desejos, dos pensamentos, etc. fia, seja do direito monarquico, seja do direito democdtico, Apreender a instancia material da sujei,ao enquanto consti- se ·fundamenta 0 poder de punir, tentei ver como, efetiva- tui9ao dos suditos seria, se voces quiserem, exatamente 0 34 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 14 DE JANEIRO DE 1976 35

contrario do que Hobbes tinba pretendido fazer no Leviatii 1, to longe, nao e algo que se partilhe entre aqueles que 0 tern e, acho eu, afinal de contas, todos os juristas, quando 0 pro- e que 0 detem exclusivamente, e aqueles que nao 0 tern e que blema deles e saber como, a partir da multiplicidade dos in- sao submetidos a ele. 0 poder, acho eu, deve ser analisado dividuos e das vontades, pode se formar urna vontade ou como uma coisa que circula, ou melhor, como uma coisa ainda urn corpo Unicos, mas animados por urna alma que que so funciona em cadeia. Jamais ele esta localizado aqui seria a soberania. Lembrem-se do esquema do Leviatii': ou ali, jamais esui entre as maos de alguns, jamais e apossa- nesse esquema, 0 Leviata, enquanto homem fabricado, nao do como uma riqueza ou urn bern. 0 poder funciona. 0

poder se exerce em rede e, nessa rede, nao so os individuos e mais do que a coagula9ao de urn certo numero de indivi-

circulam, mas esmo sempre em posi9ao de ser submetidos a dualidades separadas, que se encontram reunidas por certo

esse poder e tambem de exerce-Io. Jamais eles sao 0 alvo numero de elementos constitutivos do Estado. Mas, no co-

inerte ou consentidor do poder, sao sempre seus intermedia- ra9ao, ou melhor, na cabe9a do Estado, existe alguma coisa rios. Em outras palavras, 0 poder transita pelos individuos, que 0 constitui como tal, e essa alguma coisa e a soberania, nao se aplica a eles. da qual Hobbes diz que e precisamente a alma do Leviata. Nao se deve, acho eu, conceber 0 individuo como urna Pois bern, em vez de formular esse problema da alma cen- especie de nuc1eo elementar, itomo primitivo, materia mul- tral, eu acho que conviria tentar - 0 que eu tentei fazer - es- tipla e muda na qual viria aplicar-se, contra a qual viria tudar os corpos perifericos e multiplos, esses corpos consti- bater 0 poder, que submeteria os individuos ou os quebran- tuidos, pelos efeitos do poder, como suditos. taria. Na realidade, 0 que faz que urn corpo, gestos, discur-

Terceira precau9ao de metodo: nao tomar 0 poder como sos, desejos sejam identificados e constituidos como indivi- urn fenomeno de domina9ao maci90 e homogeneo - domi- duos, e precisamente isso urn dos efeitos primeiros do poder. na9ao de urn individuo sobre os outros, de urn grupo sobre Quer dizer, 0 individuo nao e 0 vis-a-vis do poder; e, acho os outros, de uma c1asse sabre as outras -; ter bern em mente eu, urn de seus efeitos primeiros. 0 individuo e urn efeito que 0 poder, exceto ao considera-Io de muito alto e de mui- do poder e e, ao mesmo tempo, na mesma medida em que e

urn efeito seu, seu intermediario: 0 poder transita pelo indivi-

duo que ele constituiu.

1. Th. Hobbes, Leviathan, or the Matter, Forme and Power ofa Common- Quarta conseqiiencia no plano das precau90es de meto- Wealth, Ecclesiastical! and Civill, Londres, 1651 (trad. fr.: Leviathan. Traite de fa matiere, de fa forme et du pouvoir de fa republique ecclesiastique et civile,

do: quando eu digo: "0 poder e algo que se exerce, que cir- Paris, Sirey, 1971). A tradw,:ao latina do texto, que era, de fato, uma nova versao cula, que forma rede", talvez seja verdade ate certo ponto. sua, foi publicada em Amsterdam em 1668. Pode-se igualmente dizer: "Todos nos temos fascismo na

2. Michel Foucault alude aqui ao celebre frontispicio da ediyao do cabe9a"; e, mais fundamentalmente ainda: "todos nos temos Leviathan, chamada "head edition" (citarla na nota 1), publicada por Andrew poder no corpo". E 0 poder - pelo menos em certa medida Crooke, que representa 0 coepo do Estado constituido pelos suditos, ao passo que a cabe9a representa 0 soberano, que com uma mao segura a espada e com

- transita ou transuma por nosso corpo. Tudo isso, de fato, a outra 0 baculo. Embaixo, os atributos fundamentais dos dois poderes, civil e pode ser dito; mas nao creio que seja precise concluir, a par- ec1esiastico. tir dai, que 0 poder seria, se voces quiserem, a coisa mais 36 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 14 DE JANEIRO DE 1976 37



bern distribuida do mundo, a mais distribuida, se bern que, sempre; ela e sempre facil, e e precisamente isso que eu Ihe ate certo ponto, ele 0 seja. Nao e uma especie de distribui- reprovarei. E, de fato, facil mostrar como 0 louco, sendo pre- ~ao democnitica ou amirquica do poder atraves do corpo. cisamente aquele que e imitil na produ~ao industrial, como Quero dizer 0 seguinte: parece-me que - essa seria entao a se e ate mesmo obrigado a descartar-se deles. Poderiamos quarta precau~ao de metodo - 0 importante e que nao se fazer a mesma caisa, se voces quiserem, nao mais a respeito deve fazer uma especie de dedu~ao do poder que partiria do do louco, mas a respeito da sexualidade infantil - foi 0 que centro e que tentaria ver ate onde ele se prolonga por baixo, fez certo nillnero de pessoas, ate certo ponto Wilhelm Reichl, em que medida ele se reproduz, ele se reconduz ate os ele- Reimut Reiche 4 certamente - e dizer: a partir da domina~ao mentos mais atomisticos da sociedade. Creio que e preciso, da classe burguesa, como se pode compreender a repressao ao contrario, que seria preciso - e uma precau~ao de metodo da sexualidade infantil? Pois bern, simplesmente, como 0 a seguir - fazer uma am\lise ascendente do poder, ou seja, corpo humano se tomou essencialmente for~a produtiva a partir dos mecanismos infinitesimais, os quais tern sua pro- partir dos seculos XVII, XVIII, todas as formas de dispen- pria historia, seu proprio trajeto, sua propria tecnica e tMi- dio irredutiveis a essas rela~6es, it constitui~ao das for~as ca, e depois ver como esses mecanismos de poder, que tern, produtivas, todas as formas de dispendio assim manifesta- pois, sua solidez e, de certo modo, sua tecnologia propria, fo- das em sua inutilidade, foram banidas, excluidas, reprimidas. ram e ainda sao investidos, colonizados, utilizados, inflecti- Estas dedu~6es sempre sao possiveis; sao ao mesmo tempo dos, transformados, deslocados, estendidos, etc., por meca- verdadeiras e falsas. Sao essencialmente faceis demais, por- nismos cada vez mais gerais e por formas de domina~ao que se poderia fazer exatamente 0 contrario, e, precisamen- global. Nao e a domina~ao global que se pluraliza e reper- te, a partir do principio de que a burguesia se tomou uma cute ate em baixo. Creio que e preciso examinar 0 modo classe dominante, deduzir que os controles da sexualidade, como, nos niveis mais baixos, os fen6menos, as tecnicas, as e da sexualidade infantil, nao sao absolutamente desejaveis; procedimentos de poder atuam; mostrar como esses proce- ora, ao contnirio, 0 que se necessitaria seria uma aprendiza- dimentos, e claro, se deslocam, se estendem, se modificam, gem sexual, um treinamento sexual, uma precocidade sexual, mas, sobretudo, como eles sao investidos, anexados por fen6- na medida em que se trata, afinal de contas, de reconstituir menos globais, e como poderes mais gerais ou lucros de eco- pela sexualidade uma for~a de trabalho a qual, como se sabe, nomia podem introduzir-se no jogo dessas tecnologias, ao considerava-se, no inicio do seculo XIX pelo menos, que mesmo tempo relativamente aut6nomas e infinitesimais, de seu estatuto otimo seria ser infinita: quanto mais for~as de poder. trabalho houvesse, mais plena e corretamente 0 sistema da

Urn exemplo, para que isso fique mais claro, a respeito produ~ao capitalista poderia funcionar. da loucura. Poderiam dizer 0 seguinte, e seria essa a analise descendente da qual, acho eu, devemos desconfiar: a bur-

3. W. Reich, Der Einbruch der Sexualmoral, op. cit. guesia tomou-se, a partir do fim do seculo XVI e no seculo 4. R. Reiche, Sexualitiit und Klassenkampf; zur Abwehr repressiver XVII, a classe dominante. Dito isso, como se pode deduzir Entsublimierung, Frankfurt, Verlag Neue Kritik, 1968 (trad fr.: Sexualitd et lutte dai 0 intemamento dos loucos? A dedu~ao, voces a farao de classes, Paris, Maspero, 1969). 38 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 14 DE JANEIRO DE 1976 39

Creio que se pode deduzir qualquer coisa do fenomeno mente conteudo real, ao menos para os problemas que aca- geral da domina9iio da classe burguesa. Parece-me que 0 que bamos de levantar agora, 0 que se deve ver e justamente que se deve fazer e 0 inverso, au seja, ver como, historicamente, niio houve a burguesia que pensou que a loucura deveria ser partindo de baixo, os mecanismos de controle puderam in- excluida ou que a sexualidade infantil devena ser repnmi- tervir no tocante a exclusiio da loucura, a repressiio, a proi- da, mas os mecanismos de exclusiio da loucura, os mecanis- bi9iio da sexualidade; como, no nivel efetivo da familia, do mos de vigiliincia da sexualidade infantil, a partir de urn cer- circulo imediato, das celulas, ou nos niveis mais baixos da

to momento, e por razoes que e preciso estudar, produziram sociedade, estes fenomenos, de repressiio ou de exclusiio, ti-

certo lucro economico, certa utilidade politica e, por essa veram seus instrurnentos, sua logica, corresponderam a urn

raziio, se viram naturalmente colonizados e sustentados por certo nUmero de necessidades; mostrar quais foram os seus

mecanismos globais e, finalmente, pelo sistema do Estado agentes, e procurar esses agentes niio, de modo algum, no

inteiro. E e fixando-se nessas tecnicas de poder, partindo ambito da burguesia em geral, mas dos agentes reais, que podem ter sido 0 circulo imediato, a familia, os pais, os me- delas, e mostrando 0 lucro economico ou as utilidades poli- dicos, 0 escaHio mais baixo da policia, etc.; e como esses ticas que delas denvam, em certo contexto e por certas ra- mecanismos de poder, em dado momento, numa conjuntura zoes, que se pode compreender como, efetivamente, esses precisa, e mediante certo numero de transforma90es, come- mecanismos acabam por fazer parte do conjunto. Em outras 9aram a tomar-se economicamente lucrativos e politicamen- palavras: a burguesia niio da a menor importiincia aos lou- te uteis. E conseguiriamos, acho eu, mostrar facilmente - cos, mas os procedimentos de exclusiio dos loucos produzi- enfim, foi 0 que eu quis fazer antigamente, vanas vezes em ram, liberaram, a partir do seculo XIX e mais uma vez se- todo caso - que, no fundo, aquilo de que a burguesia neces- gundo certas transforma90es, urn lucro politico, eventual- sitou, aquilo em que finalmente 0 sistema encontrou seu in- mente ate certa utilidade economica, que solidificaram 0 teresse, niio foi que os loucos fossem excluidos, ou que a sistema e 0 fizeram funcionar no conjunto. A burguesia niio masturba9iio das cnan9as fosse vigiada e proibida - mais se interessa pelos loucos, mas pelo poder que incide sobre uma vez, 0 sistema burgues pode suportar perfeitamente 0 os loucos; a burguesia niio se interessa pela sexualidade da contnirio -; 0 ponto em que ele encontrou seu interesse e cnan9a, mas pelo sistema de poder que controla a sexuali- pelo qual ele se mobilizou niio foi no fato de eles serem dade da cnan9a. A burguesia niio da a menor importancia excluidos, mas na tecnica e no proprio procedimento da aos delinqiientes, a Puni9iio ou a reinser9iio deles, que niio exclusiio. Foram os mecanismos de exclusiio, foi a aparelha- tern economicamente muita interesse. Em compensa9ao, do gem de vigiliincia, foi a medicaliza9iio da sexualidade, da conjunto dos mecanismos pelos quais 0 delinqiiente e con- loucura, da delinqiiencia, foi tudo isso, isto e, a micromeca- trolado, seguido, punido, reformado, resulta, para a burgue- nica do poder, que representou, constituido pela burguesia, a sia, urn interesse que funciona no interior do sistema econo- partir de certo momento, urn interesse, e foi por isso que a mico-politico gera!. Eis a quarta precau9iio, a quarta linha burguesia se interessou. de metodo que eu quena seguir.

Digamos ainda: na medida em que as n090es de "bur- Quinta precau9iio: e bern possivel que as grandes ma- guesia" e de "interesse da burguesia" nao tern verossimil- quinas do poder sejam acompanhadas de produ90es ideolo- 40 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 14 DE JANEIRO DE I976 41

gicas. Houve sem duvida, por exemplo, urna ideologia da edu- Ora, percorrendo esse dominio tomando essas precau- ca,ao, uma ideologia do poder monarquico, urna ideologia da ,oes de metodo, eu acho que aparece um fato hist6rico ma- democracia parlamentar, etc. Mas, na base, no ponto em que ci,o, que vai afinal nos introduzir um pouco ao problema terminam as redes de poder, 0 que se forma, nao acho que se- de que eu queria falar a partir de hoje. Esse fato hist6rico jam ideologias. E muito menOS e, acho eu, muito mais. Sao maci,o e 0 seguinte: a teoria juridico-politica da soberania instrumentos efetivos de forma,ao e de aCUmulo de saber, sao - teoria de que devemos nos desligar se quisermos analisar metodos de observa,ao, tecnicas de registro, procedimentos o poder - data da Idade Media; ela data da reativa,ao do de investiga,ao e de pesquisa, sao aparelhos de verifica,ao. direito romano; ela constituiu-se em torno do problema da Isto quer dizer que 0 poder, quando se exerce em seus meca- monarquia e do monarca. E acho que, historicamente, essa nismos finos, nao pode faze-lo sem a forma,ao, a organiza,ao teoria da soberania - que e a grande esparrela em que cor- e sem por em circuIa,ao urn saber, ou melhor, aparelhos de remos 0 risco de cair, quando queremos analisar 0 poder - saber que nao sao acompanhamentos ou edificios ideol6gicos. desempenhou quatro papeis.

Para resurnir essas cinco precau,oes de metodo, eu di- Primeiro, ela se referiu a urn mecanismo de poder efe- ria isto: em vez de orientar a pesquisa sobre 0 poder para 0 tivo, que era 0 da monarquia feudal. Segundo, ela serviu de ambito do edificio juridico da soberania, para 0 ambito dos instrumento, e tambem de justifica,ao, para a constitui,ao aparelhos de Estado, para 0 ambito das ideologias que 0 das grandes monarquias administrativas. Depois, a partir do acompanham, creio que se deve orientar a analise do poder seculo XVI, sobretudo do seculo XVII, ja no momento das para 0 ambito da domina,ao (e nao da soberania), para 0 guerras de Religiao, a teoria da soberania foi uma arma que

ambito dos operadores materiais, para 0 ambito das formas circulou num campo e no outro, que foi utilizada num senti-

de sujei,ao, para 0 ambito das conexoes e utiliza,oes dos do ou no outro, seja para limitar, seja, ao contrario, para for-

sistemas locais dessa sujei,ao e para 0 ambito, enfim, dos dis- talecer 0 poder regio. Voces a encontram do lado dos cat6-

positivos de saber. licos monarquistas ou dos protestantes antimonarquistas;

Em suma, e preciso desvencilhar-se do modelo do Le- voces a encontram do lado dos protestantes monarquistas e

viata, desse modelo de urn homem artificial, a urn s6 tempo mais ou menos liberais; voces a encontram tambem do lado

automato, fabricado e unitario igualmente, que envolveria dos cat6licos partidarios do regicidio ou da mudan,a de di-

todos os individuos reais, e cujo corpo seriam os cidadaos, nastia. Voces encontram essa teoria da soberania que atua

mas cuja alma seria a soberania. E preciso estudar 0 poder entre as maos dos aristocratas ou entre as maos dos parla-

fora do modelo do Leviata, fora do campo delimitado pela mentares, do lado dos representantes do poder regio ou do

soberania juridica e pela institui,ao do Estado; trata-se de lado dos ultimos senhores feudais. Em resumo, ela foi 0

analisa-lo a partir das tecnicas e tMicas de domina,ao. Eis a grande instrumento da luta politica e te6rica em torno dos

linha met6dica que, acho eu, se deve seguir, e que tentei se- sistemas de poder dos seculos XVI e XVII. Enfim, no seculo

guir nessas diferentes pesquisas que [realizamos] nos anos XVIII, e sempre essa mesma teoria da soberania, reativada

anteriores a prop6sito do poder psiquiMrico, da sexualidade do direito romano, que voces vao encontrar em Rousseau e em

das crian,as, do sistema punitivo, etc. seus contemporaneos, com urn outro papel, urn quarto papel: 42 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 14 DE JANEIRO DE 1976 43 trata-se naquele momento de construir, contra as monarquias Parece-me que este tipo de poder se opoe exatamente, administrativas, autoritanas ou absolutas, urn modelo alter- termo a termo, a mecanica de poder que a teoria da sobera- nativo, 0 das democracias parlamentares. E e este papel que nia descrevia ou procurava transcrever. A teoria da sobe- e!a ainda representa no momento da Revolu9aO. rania e vinculada a uma forma de poder que se exerce sobre

Parece-me que, se seguimos esses quatro papeis, per- a terra e os produtos da terra, muito mais do que sobre os cebemos que, enquanto durou a sociedade de tipo feudal, os corpos e sobre 0 que e!es fazem. [Essa teoria] diz respeito ao problemas de que tratava a teoria da soberania, aqueles aos deslocamento e a apropria9aO, pelo poder, nao do tempo e quais ela se referia, cobriam efetivamente a meciinica geral do trabalho, mas dos bens e da riqueza. [E ela] que permite do poder, 0 modo como ele se exercia, desde os niveis mais transcrever em termos juridicos obriga90es descontinuas e elevados ate os niveis mais baixos. Em outras palavras, a cr6nicas de tributos, e nao codificar uma vigilancia conti- rela9aO de soberania, seja ela entendida de forma lata ou nua; e uma teoria que permite fundamentar 0 poder em tor- estrita, cobria em suma a totalidade do corpo social. E, efe- no e a partir da existencia fisica do soberano, e nao dos sis- tivamente, 0 modo como 0 poder se exercia podia bern ser temas continuos e permanentes de vigiliincia. A teoria da transcrito, quanta ao essencial em todo caso, em termos de soberania e, se voces quiserem, 0 que permite fundamentar rela9aO soberano/sudito. o poder absoluto no dispendio absoluto do poder, e nao cal-

Ora, nos seculos XVII e XVlII ocorreu urn fen6meno cular 0 poder com 0 minimo de dispendio e 0 maximo de importante: 0 aparecimento - deveriamos dizer a inven9aO eficacia. Esse novo tipo de poder, que ja nao e, pois, de modo - de urna nova mecanica do poder, que tern procedimentos algurn transcritivel nos termos de soberania, e, acho eu, uma bern particulares, instrumentos totalmente novos, uma apa- das grandes inven90es da sociedade burguesa. Ele foi urn relhagem muito diferente e que, acho eu, e absolutamente dos instrumentos fundamentais da impianta9aO do capitalis- incompativel com as rela90es de soberania. Essa nova me- mo industrial e do tipo de sociedade que the e correlativo. ciinica de poder incide primeiro sobre os corpos e sobre 0 Esse poder nao soberano, alheio portanto a forma da sobe- que e!es fazem, mais do que sobre a terra e sobre 0 seu pro- rania, e 0 poder "disciplinar". Poder indescritivel, injustifi- duto. E urn mecanismo de poder que permite extrair dos cave!, nos termos da teoria da soberania, radicalmente hete-

rogeneo, e que deveria ter levado normalmente ao proprio corpos tempo e trabalho, mais do que bens e riqueza. E urn

desaparecimento desse grande edificio juridico da teoria da tipo de poder que se exerce continuamente por vigilancia e

soberania. Ora, de fato, a teoria da soberania nao s6 conti- nao de forma descontinua por sistemas de tributos e de obri-

nuou a existir, se voces quiserem, como ideologia do direito, ga90es cr6nicas. E urn tipo de poder que pressupoe muito

mas tambem continuou a organizar os codigos juridicos que mais uma trama cerrada de coer90es materiais do que a

a Europa do seculo XIX elaborou para si a partir dos codi- existencia fisica de urn soberano, e define urna nova econo-

gos napole6nicos 5 Por que a teoria da soberania persistiu mia de poder cujo principio e 0 de que se deve ao mesmo tempo fazer que cres9am as for9as sujeitadas e a for9a e a

5. Trata-se dos c6digos "napole6nicos": 0 Codigo civil (1804), 0 CO- eficacia daquilo que as sujeita. digo de instnt~aO criminal (1808), e 0 C6digo penal (1810). 44 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 14 DE JANEIRO DE 1976 45

assim como ideologia e como principio organizador dos gran- crita nesse direito, que e, porem, seu acompanhamento ne- des codigos juridicos? cessaria. Urn direito da soberania e uma mecanica da disci-

Eu creio que ha para isso duas raz5es. De urn lado, a plina: e entre esses dois limites, creio eu, que se pratica 0 teoria da soberania foi, no seculo XVIII e ainda no seculo exercicio do poder. Mas esses dois limites sao de tal forma, XIX, urn instrumento critico permanente contra a monar- e sao ilio heterogeneos, que nunca se pode fazer que urn coin- quia e contra todos os obstaculos que podiam opor-se ao de- cida com 0 outro. 0 poder se exerce, nas sociedades moder- senvolvimento da sociedade disciplinar. Mas, de outro, essa nas, atraves, a partir do e no proprio jogo dessa heterogenei- teoria e a organiza,ao de urn cOdigo juridico, centrado nela, dade entre urn direito publico da soberania e urna meciinica permitiram sobrepor aos mecanismos da disciplina urn sis- polimorfa da disciplina. Isto nao quer dizer que voces tern, tema de direito que mascarava os procedimentos dela, que de urn lado, urn sistema de direito tagarela e explicito, que apagava 0 que podia haver de domina,ao e de tecnicas de seria 0 da soberania, e depois disciplinas obscuras e mudas domina,ao na disciplina e, enfim, que garantia a cada qual que trabalhariam em profundidade, na sombra, e que cons- que ele exercia, atraves da soberania do Estado, seus proprios tituiriam 0 subsolo silencioso da grande meciinica do poder. direitos soberanos. Em outras palavras, os sistemas juridi- De fato, as disciplinas tern seu discurso proprio. Elas mes- cos, sejam as teorias, sejam os c6digos, permitiram uma mas sao, pelas raz5es que eu Ihes dizia agora ha pouco, democratiza,ao da soberania, a implanta,ao de urn direito criadoras de aparelhos de saber, de saberes e de campos mul- publico articulado a partir da soberania coletiva, no mesmo tiplos de conhecimento. Elas sao extraordinariamente inven- momento, na medida em que e porque essa democratiza,ao tivas na ordem desses aparelhos de formar saber e conheci- da soberania se encontrava lastrada em profundidade pelos mentos, e sao portadoras de urn discurso, mas de urn discurso mecanismos da coer,ao disciplinar. De urna forma mais que nao pode ser 0 discurso do direito, 0 discurso juridico. densa, poderiamos dizer 0 seguinte: urna vez que as coer,5es o discurso da disciplina e alheio ao da lei; e alheio ao da disciplinares deviam ao mesmo tempo exercer-se como me- regra como efeito da vontade soberana. Portanto, as disci- canismos de domina,ao e ser escondidas como exercicio plinas vao trazer urn discurso que sera 0 da regra; nao 0 da efetivo do poder, era preciso que fosse apresentada no apa- regra juridica derivada da soberania, mas 0 da regra natural, relho juridico e reativada, concluida, pelos codigos judicia- isto e, da norma. Elas definirao urn codigo que sera aquele, rios, a teoria da soberania. nao da lei, mas da normaliza,ao, e elas se referirao necessa-

Ternos, pais, nas sociedades modernas, a partir do se- riamente a urn horizonte teorico que nao sera 0 edificio do culo XIX ate os nossos dias, de urn lado urna legisla,ao, urn direito, mas 0 campo das ciencias humanas. E sua jurispru- discurso, urna organiza,ao do direito publico articulados em dencia, para essas disciplinas, sera a de urn saber clinico. tomo do principio da soberania do corpo social e da delega- Em suma, 0 que quis mostrar no decorrer destes ulti- ,ao, por cada qual, de sua soberania ao Estado; e depois te- mos anos nao foi de modo algum como, na frente avan,ada mos, ao mesmo tempo, urna trama cerrada de coer,5es dis- das ciencias exatas, pouco a pouco, a area incerta, dificil, ciplinares que garante, de fato, a coesao desse mesmo corpo confusa da conduta humana foi anexada it ciencia: nao foi social. Ora, essa trama nao pode de modo algurn ser trans- atraves de urn progresso da racionalidade das ciencias exa- 46 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 14 DE JANEIRO DE 1976 47

tas que se foram constituindo aos poucos as ciencias hurna- direito organizado em tomo da soberania, articulado sobre nas. Eu creio que 0 processo que tomou fundamentalmente esse velho principio. [sso faz com que, concretamente, quan- possivel 0 discurso das ciencias humanas foi a justaposi,ao, do se quer objetar alguma coisa contra as disciplinas e con- o enfrentamento de dois mecanismos e de dois tipos de dis- tra todos os efeitos de saber e de poder que lhes sao vincula- cursos absolutamente heterogeneos: de urn lado, a organiza- dos, que se faz concretamente? Que se faz na vida? Que ,ao do direito em tomo da soberania, do outro, a mecanica fazem 0 sindicato da magistratura ou outras institui,oes co- das coer,oes exercidas pelas disciplinas. Que, atualmente, 0 mo esta? Que se faz, senao precisamente invocar esse direi- poder se exer,a ao mesmo tempo atraves desse direito e to, esse famoso direito formal e burgues, que na realidade e dessas tecnicas, que essas tecnicas da disciplina, que esses o direito da soberania? E eu creio que nos encontramos aqui discursos nascidos da disciplina invadam 0 direito, que os numa especie de ponto de estrangulamento, que nao pode- procedimentos da normaliza,ao colonizem cada vez mais mos continuar a fazer que funcione indefinidamente dessa os procedimentos da lei, e isso, acho eu, que pode explicar maneira: nao e recorrendo a soberania contra a disciplina que o funcionamento global daquilo que eu chamaria uma "so- poderemos limitar os proprios efeitos do poder disciplinar. ciedade de normaliza,ao". De fato, soberania e disciplina, legisla,ao, direito da

Quero dizer, mais precisamente, ista: eu creio que a soberania e mecanicas disciplinares sao duas pe,as absolu- normaliza~ao, as normalizayoes disciplinares, vern cada vez tamente constitutivas dos mecanismos gerais de poder em mais esbarrar contra 0 sistema juridico da soberania; cada nossa sociedade. Para dizer a verdade, para lutar contra as dis- vez mais nitidamente aparece a incompatibilidade de umas ciplinas, ou melhor, contra 0 poder disciplinar, na busca de com 0 outro; carla vez mais e necessaria uma especie de dis- urn poder nao disciplinar, nao e na dire,ao do antigo direito curso arbitro, uma especie de poder e de saber que sua sa- da soberania que se deveria ir; seria antes na dire9ao de urn craliza,ao cientifica tomaria neutros. E e precisamente do

direito novo, que sena antidisciplinar, mas que estaria ao lado da extensao da medicina que se ve de certo modo, nao

mesmo tempo liberto do principio da soberania. quero dizer cambinar-se, mas reduzir-se, au intercambiar-

E e ai entao que nos aproximamos da no,ao de "repres- se, ou enfrentar-se perpetuamente a mecanica da disciplina

sao" de que talvez lhes fale na proxima vez, a nao ser que e 0 principio do direito. 0 desenvolvimento da medicina, a medicaliza,ao geral do comportamento, das condutas, dos eu esteja urn tanto farlo de repisar coisas ja ditas e que pas- discursos, dos desejos, etc., se dao na frente onde vern en- se de imediato para outras coisas referentes a guerra. Se eu contrar-se os dois len,ois heterogeneos da disciplina e da tiver desejo e coragem, eu lhes falarei da no,ao de "repres- soberania. sao" que, creio eu, justamente, tern 0 duplo inconveniente, no

E por isso que, contra as usurpa,oes da mecanica dis- uso que dela se faz, de se referir obscuramente a uma certa ciplinar, contra essa ascensao de urn poder que e vinculado teoria da soberania, que seria a teoria dos direitos soberanos ao saber cientifico, nos nos encontramos atualmente numa do individuo, e de par em jogo, quando e utilizada, toda situa9ao tal que 0 Unico recurso existente, aparentemente uma referencia psicologica tirada das ciencias humanas, ou solido, que temos e precisamente 0 recurso OU a volta a urn seja, dos discursos e das praticas que dependem do dominio 48 EM DEFESA DA SOCIEDADE

disciplinar. Eu creio que a n09ao de "repressao" e tambem AULA DE 21 DE JANEIRO DE 1976 urna n09ao juridico-disciplinar, seja qual for 0 uso critico que dela se pretende fazer; e, nessa medida, 0 uso critico da no((ao de "repressao" se acha viciado, estragado, corrompi- A teoria da soberania e as operadores de domina9iio. - do de inicio pela dupla referencia, juridica e disciplinar, a A guerra como analisador das relafoes de pader. - Estrntura soberania e a normaliza9ao que ela implica. Eu lhes falarei binaria da sociedade. - a discurso historico-politico, 0 dis- da repressao na pr6xima vez, senao passarei para 0 proble- curso da guerra perpefua. - A dialetica e suas codificafoes. - ma da guerra. o discurso da luta das ra9as e SUGS transcri90es.

Da ultima vez, foi uma especie de adeus a teoria da

soberania na medida em que ela pode, na medida em que

pOde se apresentar como metodo de analise das rela90es de

poder. Eu queria lhes mostrar que 0 modelo juridico da

soberania nao era, ereio eu, adaptado a uma amilise concre-

ta da multiplicidade das rela90es de poder. Parece-me, de

fato - resurnindo tudo isso em algumas palavras, tres pala-

vras exatamente -, que a teoria da soberania tenta necessa-

riamente constituir 0 que eu chamaria de urn cicIo, 0 cicio

do sujeito ao sujeito, mostrar como urn sujeito - entendido

como individuo dotado, naturalmente (ou por natureza), de

direitos, de capacidades, etc. - pode e deve se tornar sujei-

to, mas entendido desta vez como elemento sujeitado nurna

rela9ao de poder. A soberania e a teoria que vai do sujeito

para 0 sujeito, que estabelece a rela9ao politica do sujei-

to com 0 sujeito. Em segundo lugar, parece-me que a teoria

da soberania se confere, no inicio, urna multiplicidade de po-

deres que nao sao poderes no sentido politico do termo, mas

sao capacidades, possibilidades, potencias, e que ela s6 pode

constitui-los como poderes, no sentido politico do termo, 50 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 21 DE JANEIRO DE 1976 51

com a condi9ao de ter, entrementes, estabelecido, entre as de soberania. Mas isto nos teria levado a retomar a coisas ja

possibilidades e os poderes, urn momenta de unidade fun- ditas; entao sigo em frente, admitindo a possibilidade de, no

damental e fundadora, que e a unidade do poder. Que essa fmal do ano, voltar a esse ponto, se sobrar tempo.

unidade do poder assurna a fisionomia do monarca ou a for- o projeto geral, 0 dos anos anteriores e 0 deste ano, .0

ma do Estado pouco importa; e dessa unidade do poder que tentar desamarrar ou livrar essa analise do poder dessa tri-

vao derivar as diferentes formas, os aspectos, mecanismos e plice preliminar - do sujeito, da unidade e da lei - e ressal-

institui90es de poder. A multiplicidade dos poderes, enten- tar, em vez desse elemento fundamental da soberania, aquilo

didos como poderes politicos, so pode ser estabelecida e so que eu denominaria as rela90es e os operadores de domina-

pode funcionar a partir dessa unidade do poder, fundamen- 9ao. Em vez de fazer os poderes derivarem da soberania, se

tada pela teoria da soberania. Enfim, em terceiro lugar, pa- trataria fiuito mais de extrair, hist6rica e empiricamente,

rece-me que a teoria da soberania mostra, tenta mostrar, das rela90es de poder, os operadores de domina9ao. Teoria da

como urn poder pode constituir-se nao exatamente segundo domina9ao, das domina90es, muito mais do que teoria da so-

a lei, mas segundo uma certa legitimidade fundamental, berania, 0 que quer dizer: em vez de partir do sujeito (ou mais fundamental do que todas as leis, que .0 urn tipo de lei mesmo dos sujeitos) e desses elementos que seriam preli- geral de todas as leis e pode permitir as diferentes leis fun- minares a rela9ao e que poderiamos localizar, se trataria de cionarem como leis. Em outras palavras, a teoria da sobera- partir da propria rela9ao de poder, da rela9ao de domina9ao nia .0 0 ciclo do sujeito ao sujeito, 0 cicIo do poder e dos no que ela tern de factual, de efetivo, e de ver como e essa poderes, 0 cicio da legitimidade e da lei. Digamos que, de propria rela9ao que determina os elementos sobre os quais uma maneira au de autra - e conforme, evidentemente, as ela incide. Portanto, nao perguntar aos sujeitos como, por diferentes esquemas teoricos nos quais ela se desenvolve -, que, em nome de que direito eles podem aceitar deixar-se a teoria da soberania pressupoe 0 sujeito: ela visa funda- sujeitar, mas mostrar como sao as rela90es de sujei9ao efe- mentar a unidade essencial do poder e se desenvolve sem- tivas que fabricam sujeitos. Em segundo lugar, tratar-se-ia pre no elemento preliminar da lei. Triplice "primitivismo", de ressaltar as rela90es de domina9ao e de deixa-las valer pois: 0 do sujeito que deve ser sujeitado, 0 da unidade do em sua multiplicidade, em sua diferen9a, em sua especifici- poder que deve ser fundamentada e 0 da legitimidade que dade ou em sua reversibilidade: nao procurar, por conse- deve ser respeitada. Sujeito, unidade do poder e lei: ai estao, guinte, uma especie de soberania fonte dos poderes; ao con- creio eu, os elementos entre os quais atua a teoria da sobe- trario, mostrar como os diferentes operadores de domina9ao rania que, a urn so tempo, os confere a si e procura funda- se ap6iam uns nos outros, remetem uns aos outros, em certo menta-los. Meu projeto - mas eu 0 abandono logo em se- nlimero de casas se fortalecem e convergem, noutros casas se guida - era mostrar a voces como esse instrumento que a negam ou tendem a anular-se. En nao quero dizer, e claro, anitlise politico-psicologica se proporcionou ha tres ou qua- que nao ha, ou que nao se pode atingir nem descrever os tro s.oculos, ja, ou seja, a n09ao de repressao - que mais pa- grandes aparelhos do poder. Mas en creio que estes funcio- rece copiada do freudismo ou do freudo-marxismo - se inse- nam sempre sobre a base desses dispositivos de domina9ao. ria de fato numa decifra9ao do poder que se fazia em termos Concretamente, podemos, eclaro, descrever 0 aparelho esco- 52 EM DEFESA DA SOC/EDADE AULA DE 2/ DE JANEIRO DE /976 53

lar ou 0 conjunto dos aparelhos de aprendizagem em dada operadores de domina,iio, que devemos estudar, pois bern, sociedade, mas eu creio que s6 podemos analisa-Ios eficaz- como se pode avan,ar nesse caminho das rela,oes de domi- mente se niio os tomarmos como urna unidade global, se na,iio? Em que urna rela,iio de domina,iio pode se resumir it niio tentarmos deriva-los diretamente de algurna coisa que no,iio de rela,iio de for,a ou coincidir com ela? Em que e seria a unidade estatal de soberania, mas se tentarmos ver como a rela,ao de for,a pode se resurnir a uma rela,ao de como atuam, como se ap6iam, como esse aparelho define guerra? certo n1\mero de estrategias globais, a partir de urna multi- Eis a especie de questiio preliminar que eu gostaria de plicidade de sujei,oes (a da crian,a ao adulto, da prole aos focalizar urn pouquinho este ano: a guerra pode valer efeti- pais, do ignorante ao erudito, do aprendiz ao mestre, da vamente como analise das rela,oes de poder e como matriz familia Ii administra,ao publica, etc.). Sao todos esses das tecnicas de domina,ao? Voces me diriio que niio se pode, mecanismos e todos esses aparelhos de domina,ao que logo de saida, confundir rela,oes de for,a e rela,oes de guer- constituem 0 pedestal efetivo do aparelho global constituido ra. E claro. Mas tomarei isso simplesmente como urn [caso] pelo aparelho escolar. Portanto, se voces quiserem, encarar extremo, na medida em que a guerra pode passar por ponto as estruturas de poder como estrategias globais que perpas- de tensao maxima, pela nudez mesma das rela,oes de for,a. sam e utilizam tMicas locais de domina,iio. A rela,iio de poder sera em seu fundo urna rela,iio de en-

Enfim, em terceiro lugar, ressaltar as rela,oes de domi- frentamento, de luta de morte, de guerra? Sob a paz, a ordem, na,iio muito mais do que a fonte de soberania, quer dizer a riqueza, a autoridade, sob a ordem calma das subordina- isto: niio tentar segui-Ias naquilo que constitui sua legitimi- ,oes, sob 0 Estado, sob os aparelhos do Estado, sob as leis, dade fundamental, mas tentar, ao contmno, procurar os ins- etc., devemos entender e redescobrir urna especie de guerra trumentos tecnicos que permitem garanti-las. Portanto, para primitiva e permanente? E esta questao que eu gostaria de resurnir e para que a coisa fique, pelo menos provisoria- formular logo de saida, sem ignorar toda a serie das outras mente, nao encerrada mas relativamente clara: em vez da questiies que sera necessario [formular] e que eu tentarei triplice preliminar da lei, da unidade e do sujeito - que faz abordar nos anos seguintes, e dentre as quais podemos sim- da soberania a fonte do poder e 0 fundamento das institui- plesmente citar, a titulo de primeira referencia, as seguintes: ,oes -, eu acho que temos de adotar 0 ponto de vista triplice o fato da guerra pode e deve ser efetivamente considerado das tecnicas, da heterogeneidade das tecnicas e de seus efei- primeiro em compara,ao a outras rela,oes (as rela,oes de tos de sujei,iio, que fazem dos procedimentos de domina- desigualdade, as dissimetrias, as divisoes de trabalho, as re- ,ao a trama efetiva das rela,oes de poder e dos grandes apa- la,oes de explora,iio, etc.)? as fen6menos de antagonismo, relhos de poder. A fabrica,ao dos sujeitos muito mais do que de rivalidade, de enfrentamento, de luta entre individuos, ou a genese do soberano: ai esta 0 tema gera!. Mas, se esta bern entre grupos, ou entre classes, podem e devem ser agrupa- claro que as rela,oes de domina,iio e que devem ser 0 cami- dos nesse mecanismo geral, nessa forma geral que e a guerra? nho de acesso Ii analise do poder, como se pode realizar es- E ainda: as no,oes que sao derivadas daquilo que se deno- sa analise das rela,oes de domina,iio? Se e verdade que e a minava no seculo XVIII, e ainda no seculo XIX, a arte da domina,iio, e niio a soberania, ou melhor, as domina,oes, os guerra (a estrategia, a tMica, etc.) podem constituir em si 54 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 21 DE JANEIRO DE 1976 55

mesmas um instrurnento valida e suficiente para analisar as por outros meios era urn principio bem anterior a Clause- rela,oes de poder? Poderiamos perguntar-nos, sera preciso witz, que simplesmente inverteu uma especie de tese a urn perguntar-nos tambem: as institui,oes militares e as prati- so tempo difusa e precisa que circulava desde os seculos cas que as cercam - e, de um modo geral, todos os procedi- XVII e XVIII. mentos que foram empregados para travar a guerra - sao, de Portanto: a politica e a guerra continuada por outros perto ou de longe, direta ou indiretamente, 0 nucleo das ins- meios. H:i nessa tese - na propria existencia dessa tese, pre- titui,oes politicas? Enfim, a questao principal que eu gosta- liminar a Clausewitz - urn tipo de paradoxo historico. Com ria de estudar este ana seria esta: como, desde quando e por efeito, pode-se dizer, de modo esquemMico e urn pouco gros- que se come,ou a perceber ou a imaginar que e a guerra que seiro, que, com 0 crescimento, com 0 desenvolvimento dos funciona sob e nas rela,oes de poder? Desde quando, como, Estados, ao.longo de toda a [dade Media e no limiar da epo- por que se imaginou que urna especie de combate ininter- ca moderna, viram-se as praticas e as institui,oes de guerra rupto perturba a paz e que, finalmente, a ordem civil - em passarem por urna evolu,ao muito acentuada, muito visivel, seu fundo, em sua essencia, em seus mecanismos essenciais que se pode caracterizar assim: as praticas e as institui,Des - e uma ordem de batalha? Quem imaginou que a ordem de guerra de inicio se concentraram cada vez mais nas IDaOS civil era urna ordem de batalha? [...] Quem enxergou a guer- de urn poder central; pouco a pouco, sucedeu que, de fato e de ra como filigrana da paz; quem procurou, no barulho da direito, apenas os poderes estatais podiam iniciar as guerras confusao da guerra, quem procurou na lama das batalhas, 0 e manipular os instrumentos da guerra: estatiza,ao, em con- principio de inteligibilidade da ordem, do Estado, de suas sequencia, da guerra. Com isso, pelo fato dessa estatiza,ao, institui,oes e de sua historia? encontrou-se apagado do corpo social, da rela,ao de homem

13, portanto, esta questao que eu you tentar seguir um com homem, de grupo com grupo, aquilo que se poderia pouco nas proximas aulas, e talvez ate 0 fim deste ano. No chamar de guerra cotidiana, aquela que chamavam efetiva- fundo, poderiamos formular a questao de modo muito sim- mente de "guerra privada". Cada vez mais as guerras, as ples, e de inicio foi assim que eu a formulei para mim mes- praticas de guerra, as institui,Des de guerra tendem a nao rna: "Quem, no fundo, teve a ideia de inverter 0 principia de rnais existir, de certo modo, senao nas fronteiras, nos limi- Clausewitz, quem teve a ideia de dizer: e bem possivel que tes exteriores das grandes unidades estatais, como uma rela- a guerra seja a politica praticada por outros meios, mas a ,ao de violencia efetiva ou amea,adora entre Estados. Mas, propria politica nao sera a guerra travada por outros meios?" pouco a pouco, 0 corpo social inteiro ficou limpo dessas re- Ora, eu creio que 0 problema nao e tanto saber quem inver- la,Des belicosas que 0 perpassavam integralmente durante 0 teu 0 principio de Clausewitz, mas antes saber qual era 0 periodo medieval. principio que Clausewitz inverteu, ou melhor, quem formu- Enfim, com essa estatiza,ao, pelo fato de que a guerra lou esse principio que Clausewitz inverteu quando disse: foi, de certo modo, urna prMica que ja nao funcionava senao "Mas, afinal de contas, a guerra nao passa da politica con- nos limites exteriores do Estado, ela tendeu a se tornar urna tinuada." Eu creio, de fato - e tentarei demonstra-Io -, que atribui,ao profissional e tecnica de um aparelho militar cio- o principio segundo 0 qual a politica e a guerra continuada samente definido e controlado. Foi, em linhas gerais, 0 apa-

56 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 21 DE JANEIRO DE 1976 57

recimento do exercito como institui9ao, que, no funda, naD quia absoluta e administrativa. Discurso, pais, voces estao

existia como tal na Idade Media. E somente na saida da Ida- vendo, imediatamente ambiguo, ji que de urn lado, na Ingla-

de Media que se vii emergir urn Estado dotado de institui- terra, ele foi urn dos instrumentos de luta, de poliimica e de

y6es militares que vieram Se substituir a prMica cotidiana, organizayao politica dos grupos politicos burgueses, peque-

global da guerra, e a uma sociedade eterna perpassada per no-burgueses e eventualmente mesmo populares, contra a

rela y6es guerreiras. A essa evoluyao, teremos de voltar; mas monarquia absoluta. Ele foi tambem urn discurso aristocri-

eu acho que podemos admiti-la ao menos a titulo de primei- tico contra essa mesma monarquia. Discurso cujos titulares

ra hip6tese hist6rica. tiveram nomes em geral obscuros e, ao mesmo tempo, hete-

Ora, onde esta 0 paradoxo? 0 paradoxo surge no mo- rogeneos, ji que encontramos na Inglaterra homens como

mento mesmo dessa transformayao (ou talvez logo depois). Edward Coke' ou John Lilburne', representantes dos movi-

Quando a guerra se viu expulsa para os limites do Estado, mentos populares; na Franya, encontramos igualmente nomes

ao mesmo tempo centralizada em sua pratica e recuada para como 0 de Boulainvilliers3, de Frere!" ou daquele fidalgo do

a sua fronteira, eis que apareceu urn certo discurso: urn dis- Maciyo Central que se chamava conde d'Estaing s. Ele foi

curso estranho, urn discurso novo. Novo, sobretudo, porque retomado depois por Sieyes6 , mas igualmente por Buonar-

creio que e 0 primeiro discurso hist6rico-politico sobre a

sociedade, e que foi muito diferente do discurso filos6fico-

1. As obras fundamentais de E. Coke sao: A Book ofEntries, Londres,

juridico que se costumava fazer ate entao. E esse discurso

1614; Commentaries on Littleton, Londres, 1628; A treatise of Bail and

hist6rico-politico que aparece nesse momento e, ao mesmo Mainprize, Londres, 1635; Institutes ofthe Laws ofEngland, Londres, I, 1628;

tempo, urn discurso sobre a guerra entendida como relayao II, 1642; III-IV, 1644; Reports, Londres, I-XI, 1600-1615; XII, 1656; XIII,

social permanente, como fundamento indelevel de todas as 1659. Sabre Coke, cf. infra, aula de 4 de fevereiro.

rela y6es e de todas as instituiy6es de poder. Equal e a data de 2. Sabre 1. Lilbume, cf. ibid.

3. Sabre H. de Boulainvilliers, cf. infra, aula de II, 18 e 25 de fevereiro.

nascimento desse discurso historico-politico sobre a guerra

4. A maioria das obras de N. Freret sao inicialmente publicadas nas Me-

como fundamento das relay6es sociais? De uma forma sin- moires de / 'Academie des Sciences. Serna depois reunidas em suas tEuvres

tomMica ele aparece, creio eu - you tentar mostrar-lhes isso- completes, Paris, 1796-1799,20 vol. Ver, entre outras: De l'origine des Franfais depois do fim das guerras civis e religiosas do seculo XVI: et de leur etablissement dans la Gaule (t. V); Recherches historiques sur les Nao e, portanto, de modo algum, como registro OU analise mceurs et le gouvernement des Franfais, dans les divers temps de la monar-

chie (t. VI); Reflexions sur ['etude des anciennes histoires et sur Ie degre de das guerras civis do seculo XVI que aparece esse discurso.

certitude de leurs preuves (t. VI); Vues generales sur I'origine et sur Ie melan- Em compensayao, ele ji esti, se nao constituido, pelo menos ge des anciennes nations et sur la maniere d'en etudier /'histoire (t. XVIII); claramente formulado no inicio das grandes lutas politicas Observations sur les Merovingiens (t. XX). Sobre Freret, cf. infra, aula de 18 inglesas do seculo XVII, no momento da revoluyao burgue- de fevereiro. sa inglesa. E n6s 0 veremos aparecer em seguida na Franya, 5. Joachim, conde d'Estaing, Dissertation sur la noblesse d'extraction

et sur /es origines des fiefs, des surnoms et des armoiries, Paris, 1690. no fim do seculo XVII, no fim do reinado de Luis XlV, nou-

6. Michel Foucault se ap6ia essencialmente, em sua aula de 10 de mar- tras lutas politicas - digamos, as lutas de retaguarda da aristo- l;O (infra), na obra de E.-J. Sieyes, Qu 'est-ce que Ie Tiers-Etat?, s.l., 1789 (ver cracia francesa contra 0 estabelecimento da grande monar- as reedil;oes desse texto: Paris, PDF, 1982, e Flammarion, 1988). 58 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 21 DE JANEIRO DE 1976 59

roti', Augustin ThierryS ou Courtet9 . E, por fim, voces vao os famosos inocentes que agonizam no dia que esta ama- encontni-lo entre os biologos racistas e eugenistas, etc., do nhecendo. fim do seculo XIX. Discurso sofisticado, discurso cientifico, Mas isto nao quer dizer que a sociedade, a lei e 0 Es- discurso erudito, feito por pessoas com olhos e com dedos tado sejam como que 0 armisticio nessas guerras, ou a san- empoeirados, mas, igualmente, discurso - voces verao - que 9ao definitiva das vitorias. A lei nao e pacifica9ao, pois, sob teve certamente urn numero imenso de locutores populares a lei, a guerra continua a fazer estragos no interior de todos e anonimos. Esse discurso, 0 que e que ele diz? Pois bern, os mecanismos de poder, mesmo os mais regulares. A guer- eu creio que diz isto: contrariamente ao que diz a teoria fi- ra e que e 0 motor das institui90es e da ordem: a paz, na 10sOfico-juridica, 0 poder politico nao come9a quando cessa menor de suas engrenagens, faz surdamente a guerra. Em a guerra. A organiza9ao, a estrutura juridica do poder, dos outras palavras, cumpre decifrar a guerra sob a paz: a guer- Estados, das monarquias, das sociedades, nao tern seu prin- ra e a cifra mesma da paz. Portanto, estamos em guerra uns cipio no ponto em que cessa 0 ruido das armas. A guerra contra os outros; uma frente de batalha perpassa a socieda- nao e conjurada. No inicio, claro, a guerra presidiu ao nas- de inteira, continua e permanentemente, e e essa frente de cimento dos Estados: 0 direito, a paz, as leis nasceram no batalha que coloca cada urn de nos num campo ou no outro. sangue e na lama das batalhas. Mas com isso nao se deve Nao hi sujeito neutro. Somos for90samente adversanos de entender batalhas ideais, rivalidades tais como as imaginam alguem. os filosofos ou os juristas: nao se trata de uma especie de Uma estrutura binana perpassa a sociedade. E voces selvageria teorica. A lei nao nasce da natureza, junto das veem aparecer ai algo a que eu tentarei voltar e que e muito fontes freqiientadas pelos primeiros pastores; a lei nasce importante. A grande descri9ao piramidal que a Idade Media das batalhas reais, das vitorias, dos massacres, das conquis- ou as teorias filosOfico-politicas faziam do corpo social, a tas que tern sua data e seu herois de horror; a lei nasce das grande imagem do organismo ou do corpo hurnano que cidades incendiadas, das terras devastadas; ela nasce com Hobbes apresentara, ou ainda il organiza9ao ternaria (em

tres ordens) que vale para a Fran9a (e ate certo ponto para

certo numero de paises da Europa) e que continuara a arti-

7. Cf. F. Buonarroti, Conspiration pour I'egalite. dUe de Babeuf, suivie du cular certo nfunero de discursos e, em todo caso, a maioria praces auquel elie donna lieu et des piecesjustificatives, Bruxelas, 1828,2 vol. das institui90es, opoe-se - MO, exatamente, pela primeira vez,

8. As obras hist6ricas de A. Thierry a que M. Foucault se refere, sobre- mas pela primeira vez com urna articula91io historica preci- tudo na aula de 10 de mania (infra), sao as seguintes: Vues des revolutions d'Angleterre, Paris, 1817; Histoire de fa conqU/?te de !'Angleterre par les Nor-

sa - urna concep9ao binaria da sociedade. Ha dois grupos, mands, de ses causes et de ses suitesjusqu 'd nosjours, Paris, 1825; Lettres sur duas categorias de individuos, dois exercitos em confronto. l'histoire de France pour servir d'introduction a l'i?tude de cette histoire E, sob os esquecimentos, as ilusoes, as mentiras que tenta- Paris, 1827; Dix ans d'etudes historiques, Paris, 1834; Recits des temps mero~ yam fazer-nos acreditar, justamente, que hi urna ordem ter- vingiens, prticedes de Considerations sur ['histoire de France, Paris, 1840; Essai

naria, urna piriimide de subordina90es ou urn organismo, sob sur l'histoire de la/ormation et des progres du Tiers.Etat, Paris, 1853.

9. De A. V. Courtet de l'Is1e, cf. sobretudo La science politiquefondee sur essas mentiras que tentavam fazer-nos acreditar que 0 corpo fa science de l'homme, Paris, 1837. social e comandado seja por necessidades de natureza, seja 60 EM DEFESA DA SOCIEDADE

r AULA DE 21 DE JANEIRO DE 1976 61

por exigencias funcionais, temos de redescobrir a guerra que gada numa historia e descentralizado em rela<;ao a uma uni- continua, a guerra com seus acasos e suas peripecias. Ternos versalidade juridica. E, se esse sujeito que fala do direito (ou de redescobrir a guerra, por que? Pois bern, porque essa melhor, de seus direitos) fala da verdade, essa verdade nao guerra antiga e uma guerra [...] permanente. Temos, de fato, e, tampouco, a verdade universal do filosofo. Everdade que de ser os eruditos das batalhas, porque a guerra nao termi- esse discurso sobre a guerra geral, esse discurso que tenta nou, as batalhas decisivas ainda estao se preparando, a pro- decifrar a guerra sob a paz, esse discurso bern que tenta ex- pria batalha decisiva, temos de vence-Ia. Isto quer dizer que pressar, tal como ele e, 0 conjunto da batalha e restituir 0 os inimigos que estao I! nossa frente continuam a amea<;ar- percurso global da guerra. Mas nem por isso ele e urn dis- nos, e nao poderemos chegar ao termo da guerra por algo curso da totalidade ou da neutralidade; e sempre urn discurso como uma reconciliac;ao au uma pacifica9ao, mas somente de perspectiva. Ele so visa I! totalidade entrevendo-a, atra- na medida em que formos efetivamente vencedores. vessando-a, traspassando-a de seu ponto de vista proprio.

Ai estl! uma primeira caracteriza<;ao, muito nebulosa e Isto quer dizer que a verdade e uma verdade que so pode se certo, dessa especie de discurso. Eu creio que, mesmo a par- manifestar a partir de sua posi<;ao de combate, a partir da tir dai, pode-se compreender por que ele e importante: por- vitoria buscada, de certo modo no limite da propria sobre- que e, parece-me, 0 primeiro discurso na sociedade ocidental vivencia do sujeito que esta falando. desde a Idade Media que se pode dizer rigorosamente histo- Entre rela<;oes de for<;a e rela<;oes de verdade, esse dis- rico-politico. Primeiro par causa disto: 0 sujeito que fala curso estabelece urn vinculo fundamental. Isto quer dizer nesse discurso, que diz "eu" au que diz "nos", nao pode, e ainda que 0 pertencer da verdade I! paz, I! neutralidade, I!que- alias nao procura, ocupar a posi<;ao do jurista ou do filoso- la posi<;ao mediana que Jean-Pierre Vernant lO mostrou a fo, isto e, a posi<;ao do sujeito universal, totalizador ou neu- que ponto era constitutiva da filosofia grega, ao menos a tro. Nessa luta geral de que ele fala, aquele que fala, aquele partir de certo momento, se desfaz. Num discurso como que diz a verdade, aquele que narra a historia, aquele que aquele, de uma parte se dira tanto melhor a verdade porque recobra a memoria e conjura os esquecimentos, pais bern, se esta num campo. E 0 fato de pertencer a urn campo - a este esta for<;osamente de urn lado ou do outro: ele esta na posi<;ao descentralizada - que vai permitir decifrar a verda- batalha, ele tern adversarios, ele trabalha para urna vitoria de, denunciar as ilusoes e os erros pelos quais fazem que voce particular. Claro, sem duvida, ele faz 0 discurso do direito, acredite - os adversarios fazem voce acreditar - que esta- e faz valer 0 direito, reclama-o. Mas 0 que ele reclama e 0 mos nurn mundo ordenado e pacificado. "Quanto mais eu me que faz valer sao os "seus" direitos - "sao os nossos direitos", diz ele: direitos singulares, fortemente marcados por uma rela<;ao de propriedade, de conquista, de vitoria, de nature- 10. Cf. J.-P. Vemant, Les origines de fa pensee grecque, Paris, PDF,

1965 (em especial caps. VII e VIII); Mythe et pensee chez les Grecs. Etudes za. Sera 0 direito de sua familia ou de sua ra<;a, 0 direito de

de psychologie historique, Paris, La Decouverte, 1965 (em especial caps. III, IV, sua superioridade ou 0 direito da anterioridade, 0 direito das VII); My the et societe en Grece ancienne, Paris, Seuil, 1974; J.-P. Vemant & invasoes triunfantes ou 0 direito das ocupa<;oes recentes ou P. Vidal-Naquet, Mythe et tragMie en Grece ancienne, Paris, La Decouverte, milenares. De todo modo, e urn direito a urn so tempo arrai- 1972 (em especial cap. III). 62 EM DEFESA DA SOC1EDADE AULA DE 21 DEJANE1RO DE 1976 63

descentro, mais vejo a verdade; quanta mais eu acentuo a centro e acima, impor urna lei geral a cada urn e fundar urna

rela9ao de for9a, quanta mais eu me bato, mais efetivamente ordem que reconcilie: nao e disso, de modo algurn, que se

a verdade vai se manifestar it minba frente, e nessa perspec- trata. Trata-se, antes, de impor urn direito marcado pela dis-

tiva do combate, da sobrevivencia ou da vitoria." E, inversa- simetria, de fundar urna verdade vinculada a uma rela9ao de

mente, se a rela9ao de for9a libera a verdade, a verdade, por for9a, urna verdade-arma e urn direito singular. 0 sujeito que

sua vez, vai atuar, e em ultima analise s6 e procurada, na esti falando e urn sujeito - eu nao diria polemico - guerrea-

medida em que puder efetivamente se tomar uma arma na dor. Esse e urn dos primeiros pontos pelos quais este tipo

rela9ao de for9a. Ou a verdade fomece a for9a, ou a verda- de discurso e importante e introduz, decerto, uma fissura no

de desequilibra, acentua as dissimetrias e finalmente faz a discurso da verdade e da lei tal como ele era feito faz mile- vitoria pender mais para urn lado do que para 0 outro: a ver- nios, faz mais de urn milenio.

dade e urn mais de for9a, assim como ela so se manifesta a Segundo, eurn discurso que inverte os valores, os equi-

partir de urna rela9ao de for9a. 0 pertencer essencial da ver- librios, as polaridades tradicionais da inteligibilidade, e que dade it rela9ao de for9a, it dissimetria, it descentraliza9ao, ao postula, chama a explica9ao por baixo. Mas a parte de bai- combate, it guerra, estit inserido neste tipo de discurso. Essa XO, nessa explicac;ao, naG e forc;osamente, nem por isso, a universalidade pacificada pode supor sempre, desde a filo- mais clara e a mais simples. A explica9ao por baixo e tam- sofia grega, 0 discurso filosMico-juridico, mas ela e pro-

bern uma explica9ao pelo mais confuso, pelo mais obscuro, fundamente, ou questionada, ou, simplesmente, cinicamente

pelo mais desordenado, 0 mais condenado ao acaso; pois 0 ignorada.

que deve valer como principio de decifra9ao da sociedade e

Temos urn discurso historico e politico - e e nisso que

de sua ordem visivel e a confusao da violencia, das paixoes, ele e historicamente arraigado e politicamente descentrali-

dos Odios, das coleras, dos rancores, dos amargores; e tam- zado - que tern pretensao it verdade e ao justo direito, a par-

bern a obscuridade dos acasos, das contingencias, de todas tir de urna rela9ao de for9a, para 0 proprio desenvolvimento dessa rela9ao de for9a, excluindo, por conseguinte, 0 sujei- to que esti falando - 0 sujeito que esti falando do direito e "Qu'est-ce que les Lumieres?" (in Dits et ecrits, IV, nO,' 339 e 351) e a sua

conferencia de 27 de maio de 1978 na Societe Franl;aise de Philosophie, esti procurando a verdade - da universalidade juridico-filo-

publicada com 0 titulo "Qu'est-ce que la critique?" (Bulletin de la Sociite sMica. 0 papel de quem esti falando nao e, pois, 0 papel do franraise de Philosophie, abril-jun. de 1990, pp. 35-63). De Kant, cf. Zum legislador ou do filosofo, entre os campos, personagem da ewigen Frieden; ein philosophischer Enwurf(Konigsberg, J 795; ver em espe~ paz e do armisticio, na posi9ao que ji Solon e ainda Kant cial a segunda edir;ao de 1796) in Werke in zwolf Siinden, Frankfurt, Insel haviam sonhado". Estabelecer-se entre os adversirios, no Verlag, 1968, voL XI, pp. 191-251; Der Streit der Fakultiiten in drei

Abschnitten (Konigsberg, 1798), ibid. pp. 261-393 (trad. fr.: Projet de paix

perpetuelle e Le conjlit des facultes, in E. Kant, CEuvres philosophiques,

11. No que se refere a Solon (ver em especial 0 fragmento 16, ed. Paris, Gallimard, "Bibliotheque de la Pleiade", voL Ill, 1986), Foucault pos- Diehl), remetemos aamUise da "medida" que M. Foucault havia desenvolvido suia as obras completas de Kant na edir;ao de Ernst Cassirer (Berlim, Bruno em seu curso no College de France, anos de 1970-1971, sabre A vontade de Cassirer, 1912-1922), e 0 volume de Ernst Cassirer, Kants Leben und Lehre saber. Quanta a Kant, limitamo-nos a remeter a "\Vhat Is Enlightenment", a (Berlim, 1921).

64 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 21 DE JANEIRO DE 1976 65

as circunstancias miudas que produzem as derrotas e garan- ele distribui, daquele que temos tradicionalmente. Temos tern as vit6rias. 0 que esse discurso pede no fundo ao deus urn eixo que possui, na base, uma irracionalidade fundamen- eliptico das batalhas e esclarecer os longos dias da ordem, tal e permanente, uma irracionalidade bruta e nua, mas na do trabalho, da paz, da justi,a. Cabe ao furor justificar a qual irrompe a verdade; e depois, na dire,ao das partes altas, calma e a ordem. temos urna racionalidade fragil, transit6ria, sempre com-

Que e que isso introduz entao no principio da hist6- prometida com a ilusao e a maldade e vinculada a elas. A ria?' Primeiro, uma serie de fatos brutos, fatos que poderia- razao esta do lado da quimera, da asrucia, dos maldosos; do mos dizer ja fisico-bioI6gicos: vigor fisico, for,a, energia, outro lado, na outra extremidade do eixo, voces tern uma prolifera,ao de uma ra,a, fraqueza da outra, etc.; uma serie brutalidade elementar: 0 conjunto dos gestos, dos atos, das de acasos, de contingencias, em todo caso: derrotas, vitorias, paixoes, das raivas cinicas e nuas; voces tern a brutalidade,

fracassos ou exitos das revoltas, sucessos ou insucessos das mas a brutalidade que esta tambem do lado da verdade. Por-

conjura,oes ou das alian,as; enfim, urn feixe de elementos tanto, a verdade vai estar do lado da desrazao e da brutalida-

psicol6gicos e morais (coragem, medo, desprezo, 6dio, es- de; a razao, em compensa,ao, do lado da quimera e da mal-

quecimento, etc.). Urn entrecruzamento de corpos, de pai- dade; totalmente 0 contrario, por conseguinte, do discurso

xoes e de acasos: e isso que, nesse discurso, vai constituir a explicativo do direito e da hist6ria ate entao. 0 esfor,o ex-

trama permanente da hist6ria e das sociedades. E e simples- plicativo desse discurso consistia em destacar uma raciona-

mente acima dessa trama de corpos, de acasos e de paixoes, lidade fundamental e permanente, que seria por essencia

dessa massa e desse burburinho sombrio e as vezes sangren- vinculada ao justo e ao bern, de todos os acasos superficiais

to, que se vai construir algo de fragil e de superficial, uma e violentos, que sao vinculados ao erro. Inversao, pais, acho

racionalidade crescente, ados calculos, das estrategias, das eu, do eixo explicativo da lei e da hist6ria.

asrucias; ados procedimentos tecnicos para manter a vit6ria, Terceira importancia desse tipo de discurso, que eu gos- para fazer calar, aparentemente, a guerra, para conservar ou taria de analisar urn pouquinho este ano, e que, voces estao inverter as rela,oes de for,a. Portanto, e urna racionalidade vendo, e urn discurso que se desenvolve por inteiro na di- que, a medida que se vai subindo e que ela se vai desenvol- mensao hist6rica. Ele se manifesta nurna hist6ria que nao vendo, vai ser no fundo cada vez mais abstrata, cada vez mais tern bordas, que nao tern fins, nem limites. Nurn discurso co- vinculada a fragilidade e a ilusao, cada vez mais vinculada mo esse, nao se trata de tomar a monotonia da hist6ria como tambem a asrucia e a maldade daqueles que, tendo por ora a urn dado superficial que se deveria reordenar em alguns vit6ria,e estando favorecidos na rela,ao de domina,ao, tern principios estaveis e fundamentais; nao se trata de julgar os todo 0 mteresse de nao as por de novo em jogo. governos injustos, os abusos e as violencias, reportando-os

Temos, pois, nesse esquema de explica,ao, urn eixo a certo esquema ideal (que seria a lei natural, a vontade de ascendente que e, acho eu, muito diferente, nos valores que Deus, os principios fundamentais, etc.). Trata-se, ao contra-

rio, de definir e de descobrir sob as formas do justo tal como

ele e instituido, de ordena-Io tal como ele e imposto, do ins-

'" Manuscrito, depois "da hist6ria": "e do ctireito". titucional tal como ele e admitido, 0 passado esquecido das 66 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 21 DE JANEIRO DE 1976 67

lutas reais, das vitorias efetivas, das derrotas que talvez te- gantes foram sendo aos pOUCOS esquecidas e encobertas; nham sido disfar9adas, mas que continuam profundamente que houve 0 crepusculo dos deuses; que herois foram feri- inseridas. Trata-se de redescobrir 0 sangue que secou nos co- dos ou morreram e que reis adormeceram dentro de caver- digos, e, por conseguinte, nao, sob a fugacidade da historia, nas inacessiveis. E tambem 0 tema dos direitos e dos bens o absoluto do direito: nao reportar a relatividade da historia da primeira ra9a que foram achincalhados por invasores as- ao absoluto da lei ou da verdade, mas, sob a estabilidade do tutos; 0 tema da guerra secreta que continua; 0 tema do com- direito, redescobrir 0 infinito da historia, sob a formula da plo que e preciso restabelecer para reanimar essa guerra e lei, os gritos de guerra, sob 0 equilibrio da justi9a, a dissi- escorra~ar os invasores ou os inimigos; 0 tema da famasa metria das for9as. Nurn campo historico, que nem sequer se batalha da manha do dia seguinte que vai afinal inverter as pode dizer urn campo relativo, pois ele nao se relaciona for9as e que, dos vencidos seculares, vai fazer enfim vence- com nenhurn absoluto, e urn infinito da historia que e de dores, mas vencedores que nao conheceriio e nao praticarao certo modo "irrelativizado", 0 da etema dissolu9ao em me- o perdao. E e assim que, durante toda a Idade Media, porem canismos e acontecimentos que sao os da for9a, do poder e mais tarde ainda, vai-se revigorar incessantemente, vinculada da guerra. a esse tema da guerra perpetua, a grande esperan9a do dia

Voces me dirao - e essa e, acho eu, mais uma razao da desforra, a espera do imperador dos ultimos dias, do dux pela qual esse discurso e importante -, voces me dirao que novus, do novo chefe, do novo guia, do novo Fuhrer; a ideia esse e, sem duvida, urn discurso triste e negro, urn discurso da quinta monarquia, ou do terceiro imperio, ou do terceiro talvez para aristocratas nostalgicos ou para eruditos de bi- Reich, aquele que sera ao mesmo tempo a besta do Apoca- blioteca. De fato, ja em sua origem, e ate mais tarde no se- lipse ou 0 salvador dos pobres. E a volta de Alexandre per- culo XIX e ainda no seculo XX, e urn discurso que se apoia, dido nas indias; e a volta, por tanto tempo esperada na Ingla- e que em geral se envolve, em formas miticas muito tradi- terra, de Eduardo, 0 Confessor; e Carlos Magno, adormeci- cionais. Nesse discurso se encontram associados ao mesma do em seu tUmulo, que despertara para reanimar a guerra tempo saberes sutis e mitos, eu nao diria grosseiros, mas fun- justa; sao os dois Frederico, Barba-Roxa e Frederico II, que damentais, pesados e sobrecarregados. Pois, afinal de contas, esperam, em sua caverna, 0 despertar de seu povo e de seu vemos bern como urn discurso como esse pode se articular imperio; e 0 rei de Portugal, perdido nos areais da Africa, (e voces veriio como de fato ele se articulou) com base em que retomara para urna nova batalha, para urna nova guerra, toda urna grande mitologia: [a era perdida dos grandes ances- e para uma vitoria que sera, dessa vez, definitiva. trais, a iminencia dos tempos novos e das desforras milena- Esse discurso da guerra perpetua nao e, pois, somente res, a vinda do novo reino que apagara as antigas derrotas]1'. a inven9ao triste de alguns intelectuais que foram por muito Nessa mitologia, conta-se que as grandes vitorias dos gi- tempo mantidos sob tutela. Parece-me que, para alem dos

grandes sistemas filosofico-juridicos que ele curto-circuita

de lado, esse discurso junta de fato, a urn saber que por ve-

12. Segundo 0 Resumo do Curso no College de France desses anas 1975- zes e 0 dos aristocratas desarvorados, as grandes pulsaes mi- 1976 (in Dits etecrits, III, n~ 187, e infra). ticas e tambem 0 ardor das desforras populares. Em suma, 68 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 21 DE JANEIRO DE 1976 69

esse discurso talvez seja 0 primeiro discurso exclusivamen- bern pode parecer, it primeira vista, ser 0 discurso do movi- te hist6rico-juridico do Ocidente em contraste com 0 dis- mento universal e hist6rico da contradi,ao e da guerra, mas curso filos6fico-juridico, e urn discurso em que a verdade creio que na verdade ela nao e de modo algum sua valida- funciona explicitamente como arma para uma vit6ria exclu- ,ao filosOfica. Ao contrario, parece-me que ela atuou mais sivamente partidaria. E urn discurso sombriamente critico, como sua retomada e sua muta,ao na velha forma do dis- mas e tambem urn discurso intensamente mitico; e 0 dos curso filosOfico-juridico. No fundo, a dialetica codifica a luta, amargores [...], mas e tambem 0 das mais loucas esperan- a guerra e os enfrentamentos dentro de uma 16gica, ou pre- ,as. Portanto, ele e alheio, por seus elementos fundamentais, tensa l6gica, da contradi,ao; ela os retoma no duplo proces- a grande tradi,ao dos discursos filosOfico-juridicos. Para os so da totaliza,ao e da atualiza,ao de uma racionalidade que fil6sofos e os juristas, ele e for,osamente 0 discurso exte- e a urn s6 tempo final, mas fundamental, e em todo caso rior, estrangeiro. Nao e sequer 0 discurso do adversario, irreversivel. Enfim, a dialetica assegura a constitui9ao, atra- pois eles nao discutem com ele. E 0 discurso, for,osamente yes da hist6ria, de urn sujeito universal, de urna verdade desqualificado, que se pode e que se deve manter a mar- reconciliada, de urn direito em que todas as particularidades gem, precisamente porque e preciso, como uma preliminar, teriam enfim seu lugar ordenado. A dialetica hegeliana e anula-lo, para que possa enfim come,ar - no meio, entre os todas aquelas, penso eu, que a seguiram devem ser com- adversarios, acima deles -, como lei, 0 discurso justa e ver- preendidas - 0 que tentarei lhes mostrar - como a coloniza- dadeiro. Em conseqiiencia, esse discurso de que estou fa- ,ao e a pacifica,ao autoritaria, pela filosofia e pelo direito, lando, esse discurso partidario, esse discurso da guerra e da de urn discurso hist6rico-politico que foi ao mesmo tempo hist6ria, talvez va figurar, na epoca grega, sob a forma do uma constata,ao, uma proclama,ao e uma pritica da guer- sofista astuto. Em todo caso, ele sera denunciado como 0 ra social. A dialetica colonizou esse discurso hist6rico-poli-

do historiador partidario e ingenuo, comO 0 do politico fer- tico que fazia, as vezes com estardalha,o, em geral na pe- fenho, como 0 do aristocrata decaido, ou como 0 discurso numbra, as vezes na erudic;ao e as vezes no sangue, seu ca- tacanho que contem reivindica,oes nao elaboradas. minho durante seculos na Europa. A dialetica e a pacifica-



Ora, esse discurso, mantido, fundamental e estrutural- ,ao, pela ordem filosOfica e talvez pela ordem politica, mente, sob tutela por aquele dos fil6sofos e dos juristas, co- desse discurso amargo e partidario da guerra fundamental. mec;ou, creio eu, sua carreira, ou talvez uma nova carreira, Eis, pois, uma especie de quadro de referencia geral nO qual no Ocidente, em condi,oes muito precisas, entre 0 fim do eu gostaria de situar-me este ano, para refazer urn pouco a seculo XVI e meados do seculo XVII, a prop6sito da dupla hist6ria desse discurso. contesta,ao - popular e aristocratica - do poder regio. A par- Eu gostaria agora de Ihes dizer como realizar esse estu- tir dai, eu creio que ele proliferou consideravelmente e que do e de que ponto partir. Primeiramente, descartar certo sua superficie de alargamento, ate 0 final do seculo XIX e nilmero de falsas paternidades que se tern 0 habito de atri- no seculo XX, foi consideravel e rapida. Mas nao se deve- buir a esse discurso hist6rico-politico. Pois, assim que se pen- ria acreditar que a dialetica pudesse funcionar como a gran- sa na rela,ao poder/guerra, poder/rela,oes de for~, imedia- de reciclagem, enfim filosOfica, desse discurso. A dialetica tamente dois nomes vern a mente: pensa-se em Maquiavel, 70 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 21 DE JANEIRO DE 1976 71

pensa-se em Hobbes. Eu gostaria de lhes mostrar que nao e ten~ao, 0 prosseguimento e 0 desenvo1vimento: diferen~as nada disso, e que, de fato, esse discurso historico-politico etnicas, diferen~as das linguas; diferen~as de for~a, de nao e, e nao pode ser, 0 da politica do Principe" ou aquele, vigor, de energia e de violencia; diferen~as de selvageria e claro, da soberania absoluta; que, de fato, e urn discurso que de barMries; conquista e servimo de urna ra~a por urna so pode considerar 0 Principe urna ilusao, urn instrumento outra. 0 corpo social e no fundo articulado a partir de duas ou, melhor, urn inimigo. E urn discurso que, no fundo, corta ra~as. E a ideia segundo a qual a sociedade e, de urn extre- a cabe~a do rei, que dispensa em todo caso 0 soberano e 0 mo a outro, percorrida por esse enfrentarnento das ra~as, denuncia. Em seguida, depois de ter descartado essas falsas que encontramos formulado ja no seculo XVII e como que patemidades, eu gostaria de lhes mostrar qual foi 0 ponto matriz de todas as formas sob as quais, em seguida, investi- de emergencia desse discurso. E parece-me que temos de garemos a fisionomia e os mecanismos da guerra social. tentar sitmi-Io no seculo XVII, com suas caracteristicas im- A partir dessa teoria das ra~as, ou melhor, dessa teoria portantes. Primeiro, duplo nascimento desse discurso: de da guerra das ra~as, eu gostaria de seguir a sua historia sob urna parte, vamos ve-Io emergir, por volta dos anos 1630 a Revolu~ao Francesa e, sobretudo, no inicio do seculo XIX, aproximadarnente, nas reivindica~oes populares ou peque- com Augustin e Amedee Thierry!" ever como ela passou no-burguesas na Inglaterra pre-revolucionaria e revolucio- por duas transcri~oes. De urn lado, uma transcri~ao franca- miria; sera 0 discurso dos puritanos, sera 0 discurso dos mente biologica, aquela que se opera, aMs, bern antes de Levellers [Niveladores]. E depois voces vao reencontra-Io, Darwin, e que copia seu discurso, com todos os seus ele- cinqiienta anos depois, do lado inverso, mas sempre como mentos, seus conceitos, seu vocabulario, de uma amitomo- discurso de luta contra 0 rei, do lado do amargor aristocra- fisiologia materialista. Ela vai se apoiar igualmente numa tico, na Fran~a, no fim do reinado de Luis XIV E depois, e filologia, e sera 0 nascimento da teoria das ra~as no sentido este e urn ponto importante, ja naquela epoca, ou seja, ja no historico-biologico do termo. E urna teoria mais uma vez seculo XVII, ve-se que a ideia segundo a qual a guerra muito arnbigua, urn pouco como no seculo XVII, que vai se constitui a trama ininterrupta da historia aparece sob uma articular, de urn lado, com base nos movimentos das nacio- forma precisa: a guerra que se desenrola assim sob a ordem e nalidades na Europa e na luta das nacionalidades contra os sob a paz, a guerra que solapa a nossa sociedade e a divide grandes aparelhos de Estado (essencialmente austriaco e de urn modo binario e, no fundo, a guerra das ra~as. Muito russo); e voces a verao tarnbem articular-se a partir da poli- cedo , encontrarnos os elementos fundamentais que consti- tica da coloniza~ao europeia. Ai esta a primeira transcri~ao tuem a possibilidade da guerra e que Ihe garantem a manu- - biologica - dessa teoria da luta permanente e da luta das

ra~as. E depois voces encontrarao uma segunda transcri~ao,

13. Sabre Maquiavel, ver: no Curso no College de France, anas 1977-

1978: Securite, Territoire et Population, 0 de I? de fevereiro de 1978 ("La 14. Sabre Augustin Thierry, cf. supra, nota 8. No tocante a Amedee

'gouvemementalite"'); cf. tambem "'Omnes et singu!atim': Toward a Criti- Thierry, cf Histoire des Gaulois, depuis les temps les plus recules jusqu 'd

cism of Political Reason" (1981) e "The Political Technology of Individuals" l'entiere soumission de la Gaule d la domination romaine, Paris, 1828; His-

(1982) (in Dits et Jails, III, n~ 239; IV, n°." 291 e 364). toire de la Gaule sous l'administration romaine, Paris, 1840-1847. 72 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 21 DE JANEIRO DE 1976 73

aquela que vai se operar a partir do grande tema e da teoria o poder e aquela que e titular da norma, contra aqueles que da guerra social, que se desenvolve ja nos primeiros arros do estao fora dessa norma, contra aqueles que constituem ou- seculo XIX e que vai tender a apagar todos os vestigios do tros lantos perigos para 0 patrim6nio biologico. E vamos ver, conllito de ra,a para definir-se como uma luta de classe. nesse momenta, todos os discursos biologico-racistas sobre Portanto, temos ai uma especie de entroncamento essenclal, a degenerescencia, mas tambem todas as institui,oes que, no que tentarei tornar a situar e que vai corresponder a uma interior do corpo social, vao fazer 0 discurso da luta das ra,as retomada da analise dessas lutas na forma da dialetica e a funcionar como principio de elimina,ao, de segrega,ao e, uma retomada do tema dos enfrentamentos das ra,as na teo- finalmente, de normaliza,ao da sociedade. Em conseqiien- ria do evolucionismo e da luta pela vida. A partir dai, se- cia, 0 discurso cuja hist6ria eu gostaria de fazer abandonara guindo de uma forma privilegiada esse segundo ramo - a a formula,ao fundamental do inicio que era esta: "Temos de transcri,ao na biologia - eu tentarei mostrar todo 0 desen- nos defender contra os nossos inimigos porque de fato os volvimento de um racismo biologico-social, com a ideia - aparelhos do Estado, a lei, as estruturas do poder, nao s6 nao

que e absolutamente nova e que vai fazer 0 discurso funcio- nos defendem contra os nossos inimigos, mas sao tambem

nar de modo muito diferente - de que a outra ra,a, no fundo, instrumentos com os quais os nossos inimigos nos perse-

nao e aquela que veio de outro lugar, nao e aquela que, par guem enos sujeitam." Esse discurso agora vai desaparecer.

uns tempos, triunfou e dominou, mas e aquela que, perma- Nao sera: "Temos de nos defender contra a sociedade", mas,

nente e continuamente, se infiltra no corpo social, ou me- "Temos de defender a sociedade contra todos os perigos

lhor, se recria permanentemente no tecido social e a partir biol6gicos dessa outra ra,a, dessa sub-ra,a, dessa contra-

dele. Em outras palavras: 0 que vemos como polandade, ra,a que estamos, sem querer, constituindo." Nesse momento,

como fratura binaria na sociedade, nao e 0 enfrentamento a temMica racista nao vai mais parecer ser 0 instrumento de

de duas ra,as exteriores uma a outra; e 0 desdobramento de

luta de um grupo social contra um outro, mas vai servir il

uma Unica e mesma rac;a em urna super-rac;a e uma sub-rac;a.

estrategia global dos conservadorismos sociais. Aparece

Ou ainda: 0 reaparecimento, a partir de uma ra,a, de seu

nesse momenta - 0 que e um paradoxo em compara,ao aos

proprio passado. Em resumo, 0 avesso e a parte de baixo da

proprios fins e il forma primeira desse discurso de que eu

ra,a que aparece nela. Ihes falava - um racismo de Estado: um racismo que uma

Desse modo, vamos ver essa conseqiiencia fundamen-

tal: esse discurso da luta das ra,as - que, no momento em sociedade vai exercer sobre ela mesma, sobre os seus pr6-

que apareceu e come,ou a funcionar no seculo XVII, era prios elementos, sobre os seus proprios produtos; um racis-

essencialmente um instrumento de luta para campos des- mo interno, 0 da purifica,ao permanente, que sera uma das

centralizados - vai ser recentralizado e tomar-se justamen- dimensoes fundamentais da normaliza,ao social. Este ano,

te 0 discurso do poder, de um poder centrado, centralizado eu gostaria entao de percorrer um pouquinho a hist6ria do

e centralizador; 0 discurso de um combate que deve ser tra- discurso da luta e da guerra das ra~s, a partir do seculo

vado nao entre duas ra,as, mas a partir de uma ra,a conslde- XVII, levando-a ate 0 aparecimento do racismo de Estado

rada como sendo a verdadeira e a unica, aquela que detem no inicio do seculo XX. AULA DE 28 DE JANEIRO DE 1976

o discurso his/Drieo e seus partidtirios. - A contra-his-

loria da luta das ra9Qs. - Historia romana e historia biblica.

- 0 discurso revolucionario. - Nascimento e transfonnafoes

do racismo. - A pureza da rar;Q e 0 racismo de Estado: trans-

formar;iio nazista e transformar;iio sovietica.

Voces podem ter achado que eu empreendi, da ultima vez, fazer-lhes a historia e 0 elogio do discurso racista. Voces nao estavam totalmente errados, todavia com este senao: nao foi em absoluto do discurso racista que eu quis fazer 0 elo- gio e a historia, mas, antes, do discurso da guerra ou da luta das rac;as. Eu creio que convem reservar a expressao "racis- mo" ou "discurso racista" a algo que no fundo nao passou de urn episOdio, particular e localizado, desse grande dis- curso da guerra ou da luta das ra,as. Para dizer a verdade, 0 discurso racista foi apenas urn episodio, uma fase, a varia- ,ao, a retomada em todo caso, no final do soculo XIX, do discurso da guerra das ra,as, uma retomada desse velho dis- curso, ji secular naquele momento, em termos socio-biolo- gicos, com finalidades essencialmente de conservadorismo social e, pelo menos em certo ntimero de casos, de domina- ,ao colonial. Tendo dito isto para situar, a urn so tempo, 0 vinculo e a diferen,a entre discurso racista e discurso da guer- ra das ra,as, era mesmo 0 elogio desse discurso da guerra das ra,as que eu queria fazer. 0 elogio, no sentido de que eu queria ter-Ihes mostrado como, durante urn tempo pela 76 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 28 DE JANEIRO DE 1976 77

menos - isto e, ate 0 fim do seculo XIX, ate 0 momenta em tensidade, apenas suportivel, da gl6ria, de seus exemplos e que se converte num discurso racista -, esse discurso da de suas fa~anhas. 0 jugo da lei e 0 brilho da gl6ria, essas guerra das ra~as funcionou como uma contra-hist6ria. E e me parecem ser as duas faces pelas quais 0 discurso hist6rico dessa fun~ao de contra-hist6ria que eu gostaria de lhes falar visa a certo efeito de fortalecimento do poder. A hist6ria, urn pouquinho hoje. . como os rituais, como as sagra90es, como os funerais, como

Parece-me que se pode dizer - de uma maneira talvez as cerimonias, como os relatos legendirios, e urn operador, urn tanto apressada ou esquemitica, mas em suma bastante urn intensificador de poder. justa quanta ao essencial - que 0 discurso hist6rico, 0 dis- Parece-me que podemos reencontrar essa dupla fun~ao curso dos historiadores, essa pritica que consiste em narrar do discurso hist6rico em seus tres eixos tradicionais na Idade a hist6ria permaneceu por muito tempo 0 que ela era decerto Media. 0 eixo geneal6gico narrava a antiguidade dos reinos, na Antiguidade e 0 que era ainda na Idade Media: ela per- ressuscitava os grandes ancestrais, reconhecia as fa~anhas maneceu por muito tempo aparentada com os rituais de po- dos her6is fundadores dos imperios ou das dinastias. Nesse der. Parece-me que se pode compreender 0 discurso do his- tipo de tarefa genea16gica, trata-se de fazer com que a gran- toriador como urna especie de cerimonia, falada ou escrita, deza dos acontecimentos ou dos homens passados possa cau- que deve produzir na realidade urna justifica~ao do poder e, cionar 0 valor do presente, transformar sua pequenez e sua ao mesmo tempo, urn fortalecimento desse poder. Parece- cotidianidade em algo igualmente her6ico e justo. Esse eixo me tamhem que a fun~ao tradicional da hist6ria, desde os geneal6gico da hist6ria - que encontramos essencialmente primeiros analistas romanos l ate tarde na Idade Media, e nas formas de narrativa hist6rica sobre os antigos reinos, talvez no seculo XVII e mais tardiamente ainda, foi a de ex- sobre os grandes ancestrais - deve expressar a ancianidade pressar 0 direito do poder e de intensificar seu brilho. Duplo do direito; deve mostrar 0 carater ininterrupto do direito do papel: de uma parte, ao narrar a hist6ria, a hist6ria dos reis, soberano e, por conseguinte, mostrar com isso a fon;a inex- dos poderosos, dos soberanos e de suas vit6rias (ou, even- tirpivel que ele ainda possui no presente; e, enfim, a genea- tualmente, de suas derrotas provis6rias), trata-se de vincular logia deve elevar 0 valor do nome dos reis e dos principes juridicamente os homens ao poder mediante a continuidade com todos os renomes que os precederam. Os grandes reis da lei, que se faz aparecer no interior desse poder e em seu fundamentam, pois, 0 direito dos soberanos que lhes sucedem funcionamento; de vincular, pois, juridicamente os homens e transmitem, assim, seu brilho para a pequenez de seus su- il continuidade do poder e mediante a continuidade do po- cessores. Ai esti 0 que se poderia chamar a fun~ao genea16- der. De outra parte, trata-se tamhem de fascimi-los pela in- gica da narrativa hist6rica.

Hi tamhem a fun~ao de memoriza~ao, que vamos en-

contrar, pelo contririo, nao nas narrativas de antiguidade e

1. A palavra anais designava, para as escritores romanos antes de Tito

na ressurreil;ao dos antigos reis e her6is, mas, pelo contnirio, Livia, as antigas hist6rias que eles consultavam. Os anais sao a forma primiti- va da hist6ria, oeles as acontecimentos sao relatados ana a ana. Os Annales nos anais e nas cronicas realizadas dia a dia, de ano em ano, maximi, redigidos pelo Grande Pontifice, foram editados em 80 livros no in!- no curso mesmo da hist6ria. Esse registro permanente da cia do seculo II antes de nossa era. hist6ria praticado pelos analistas serve, tamhem ele, para 78 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 28 DE JANEIRO DE 1976 79

fortalecer 0 poder. Ele e tambem uma especie de ritual do dois aspectos, essas dnas faces, que estao perpetuamente con- poder: mostra que 0 que os soberanos e os reis fazem jamais jugadas. De urn lado 0 aspecto juridico: 0 poder vincula pela e vao, jamais inutil ou pequeno, jamais abaixo da dignidade obriga9ao, pelo juramento, pelo compromisso, pela lei e, do da narrativa. Tudo quanta eles fazem pode e merece ser dito outro, 0 poder tern urna fun9ao, urn papel, urna eficacia e e preciso guardar perpetuamente sua lembran9a, 0 que magicos: 0 poder deslurnbra, 0 poder petrifica. Jupiter, deus significa que do menor feito e gesto de urn rei se pode, e se altamente representativo do poder, deus por excelencia da deve, fazer uma a9ao brilhante e uma fa9anha; e, ao mesmo primeira fun9ao e da primeira ordem na triparti9ao indo- tempo, inscreve-se carla uma de suas decisoes como uma europeia, e a urn s6 tempo 0 deus com vinculos e 0 deus especie de lei para seus suditos e de obriga9ao para seus com raios. Pois bern, eu creio que a historia, tal como fun- sucessores. A hist6ria, portanto, toma memonivel e, ao tor- ciona ainda na Idade Media, com suas pesquisas de antigui- nar memoravel, insere os gestos num discurso que coage e dade, suas cronicas do dia-a-dia, suas coletaneas de exem- imobiliza os menores feitos em monumentos que vao petri- plos postas em circula9ao e ainda e sempre essa representa- fica-los e deixa-Ios de certo modo eternamente presentes. 900 do poder, de que nao e simplesmente a imagem, mas Enfim, a terceira fun9ao dessa historia, como intensifica9ao tambem 0 processo de revigoramento. A historia e 0 discur- do poder, e por em circula9ao exemplos. 0 exemplo e a lei so do poder, 0 discurso das obriga90es pelas quais 0 poder viva ou ressuscitada; ele pennite julgar 0 presente, subme- submete; e tambem 0 discurso do brilho pelo qual 0 poder te-Io a uma lei mais forte do que ele. 0 exemplo e, de certo fascina, aterroriza, imobiliza. Em resumo, vinculando e modo, a gloria feita lei, e a lei funcionando no brilho de urn imobilizando, 0 poder e fundador e fiador da ordem; e a nome. E no ajustamento da lei e do brilho a urn nome que 0 historia e precisamente 0 discurso pelo qual essas duas fun- exemplo tern for9a de - e funciona como - urna especie de 90e S que asseguram a ordem vao ser intensificadas e torna- ponto, de elemento pelos quais 0 poder vai ficar fortalecido. das mais eficazes. De urn modo geral, pode-se portanto

Vincular e deslumbrar, subjugar valorizando obriga- dizer que a historia, ate tarde ainda em nossa sociedade, foi 90es e intensificando 0 brilho da sua for9a: parece-me, es- uma historia da soberania, urna historia que se desenvolve quematicamente, que sao essas as duas fun90es que encon- na dimensao e na fun9ao da soberania. E uma historia "jupi- tramos sob as diferentes formas da historia, tal como era teriana". Nesse sentido, a hist6ria, tal como a praticavam na praticada tanto na civiliza900 romana quanta nas socieda- Idade Media, estava ainda em continuidade direta com a des da Idade Media. Ora, essas duas fun90es correspondem historia dos romanos, a historia tal como a narravam os com muita exatidao aos dois aspectos do poder tal como era remanos, a de Tito Livio 3 ou ados primeiros analistas. E representado nas religi5es, nos rituais, nos mitos, nas lendas romanas e, de urn modo geral, indo-europeias. No sistema europeennes de fa souverainete, Paris, Gallimard, 1940; Mythe et epopee, indo-europeu de representa9ao do poder', h:i sempre esses Paris, Gallimard, I: L 'ideologie des trois jonctions dans les epopees des peu-

pies indo-europeens, 1968; II: Types epiques indo-europeens: un heros, un

sorcier, un roi, 1971; III: Histoires romaines, 1973.

2. Michel Foucault aqui se refere naturalmente aos trabalhos de G. 3. Tito Livio, Ab Urbe condita libri (dos quais nos restam os 1ivros I.X, Dumezil, em especial a: Mitra-Varuna. Essai sur deux representations indo- XXI·XLV e a mctade da quinta decada). 80 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 28 DE JANEIRO DE 1976 81

isto nao s6 na pr6pria forma da narrativa, nao s6 pelo fato ela nao une; ela subjuga. E 0 postulado de que a hist6ria dos de que os historiadores da Idade Media jamais viram dife- grandes contem a fortiori a hist6ria dos pequenos, 0 postu- ren.;:as, descontinuidades, rupturas entre a hist6ria ramana e lado de que a hist6ria dos fortes traz consigo a hist6ria dos a deles, aquela que narravam. A continuidade entre a hist6- fracos, vai ser substituido por um principio de heterogenei- ria tal como a praticavam na Idade Media e a hist6ria tal dade: a hist6ria de uns nao e a hist6ria dos outros. Vai se des- como a praticavam na sociedade romana era mais profunda cobrir, ou em todo caso afirmar, que a hist6ria dos saxoes ainda, na medida em que a narrativa hist6rica dos rornanos, vencidos depois da batalha de Hastings nao e ados norman- comO aquela da Idade Media, tinha certa fun9ao politica, dos que foram vencedores nessa mesma batalha. Vai se que era precisamente a de ser um ritual de fortalecimento aprender que 0 que e vit6ria para uns e derrota para outros. da soberania. a que foi a vit6ria dos francos e de Cl6vis, cumpre ler tam-

Se bem que esb09ado grosseiramente, e este, creio eu, bem, inversamente, como a derrota, 0 inicio da subjuga9ao

o pano de fundo a partir do qual se pode tentar situar e ca- e da escravidao dos galo-romanos. a que e direito, lei ou racterizar, no que ela pode ter de especifico, essa nova for- obriga9ao, se olhamos a coisa do lado do poder, 0 novo dis-

ma de discurso que aparece justamente no extremo [1m da curso mostrani como abuso, como violencia, como extor-

Idade Media, para dizer a verdade, mesmo no seculo XVI e sao, se nos colocamos do outro lado. Afinal de contas, a

no inicio do seculo XVII. a discurso hist6rico nao vai ser posse da terra pelos grandes senhores feudais e 0 conjunto

mais 0 discurso da soberania, nem sequer da ra9a, mas [sen,] dos tributos que eles reclamam vao ser vistos, e vao ser

o discurso das ra9as, do enfrentamento das ra9as, da luta denunciados, como atos de violencia, confiscos, pilhagens,

das ra9as atraves das na90es e das leis. Nesta medida, eu tributos de guerra coletados violentamente de popula90es

creio que e uma hist6ria absolutamente antitetica da hist6ria submissas. Em conseqiiencia, a grande forma da obriga9ao

da soberania tal como era constituida ate entao. E a primeira geral, cuja for9a a hist6ria intensificava ao cantar a gl6ria

hist6ria nao romana, anti-romana que 0 acidente tenha co- do soberano, se desfaz, e vemos, ao contri!rio, a lei aparecer

nhecido. Por que anti-romana, e por que contra-hist6ria, em como uma realidade de dupla face: triunfo de uns, submis-

rela9ao a esse ritual de soberania de que eu lhes falava sao de outros.

agora hit pouco? Por certo numero de razoes que aparecem, Nisso a hist6ria que aparece enta~, a hist6ria da luta das

acho eu, facilmente. Primeiro, porque nessa hist6ria das ra9as, e uma contra-hist6ria. Mas eu creio que ela 0 e igual-

ra9as e do enfrentamento permanente das ra9as sob as leis e mente de uma outra forma, mais importante ainda. Nao

atraves delas, aparece, ou melhor, desaparece, a identifica- somente, de fato, essa contra-hist6ria dissocia a unidade da

9ao implicita entre 0 povo e seu monarca, entre a na9ao e lei soberana que obriga, mas, ainda por cima, quebra a con-

seu soberano, que a hist6ria da soberania, das soberanias, tinuidade da gl6ria. Ela deixa patente que a luz - 0 famoso

fazia aparecer. Doravante, nesse novo tipo de discurso e de deslumbramento do poder - nao e algo que petrifica, solidi-

priltica hist6rica, a soberania jil nao vai unir 0 conjunto em fica, imobiliza 0 corpo social por inteiro, e, por conseguin-

uma unidade que seril precisamente a unidade da cidade, da te, 0 mantem na ordem, mas e, de fato, uma luz que divide,

na9ao, do Estado. A soberania tem uma fun9ao particular: que adara de um lado, mas deixa na sombra, ou lan9a para

,.r 82 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 28 DE JANEIRO DE 1976 83

,, a noite, urna outra parte do corpo social. E precisamente a forma hebraico-biblica do que nurna forma do analista que :

; l


, historia, a contra-historia que nasce com a narrativa da luta nana, no dia-a-dia, a historia e a gloria ininterrupta do poder. das ra,as, vai falar do lado da sombra, a partir dessa som- Eu creio que, de urn modo geral, jamais se deve esquecer de bra. Ela vai ser 0 discurso daqueles que nao tern a gloria, ou que a Biblia foi, a partir da segunda metade da Idade Media daqueles que a perderam e se encontram agora, por uns pelo menos, a grande forma na qual se articularam as obje- tempos talvez, mas por muito tempo decerto, na obscurida- ,5es religiosas, morais, politicas, ao poder dos reis e ao des- de e no silencio. Isso faz com que esse discurso - diferente- potismo da Igreja. Essa forma - assim como, alias, muito mente do canto ininterrupto pelo qual 0 poder se perpetuava, amiUde a propria referencia aos textos biblicos - funcionou, se fortalecia, ao mostrar sua antiguidade e sua genealogia - na maior parte dos casos, como obje,ao, critica, discurso de va ser uma tomada de palavra irruptiva, urn apelo: "Nao te- oposi,ao. Jerusalem, na Idade Media, sempre foi objetada a mos, atras de nos, continuidade; nao temos, atds de nos, a todas as Babilonias ressuscitadas; sempre foi objetada it Roma grande e gloriosa genealogia em que a lei e 0 poder se mos- etema, it Roma dos Cesares, aquela que derramava 0 sangue tram em sua for,a e em seu brilho. Saimos da sombra, nao dos justos nos circos. Jerusalem e a obje,ao religiosa e poli- tinhamos direitos e nao tinhamos gloria, e e precisamente tica it Idade Media. A Biblia foi a arma da miseria e da insur- por isso que tomamos a palavra e come,amos a contar nos- rei<;ao, foi a palavra que subleva contra a lei e contra a glo- sa historia." Essa tomada de palavra aparenta esse tipo de ria: contra a lei injusta dos reis e contra a bela gloria da discurso nao tanto com a pesquisa da grande jurisprudencia Igreja. Nessa medida, eu creio que nao e, pois, surpreen- ininterrupta de urn poder fundado de hi muito, mas com dente ver surgir, no final da Idade Media, nO seculo XVI, na urna especie de ruptura profetica. 0 que faz igualmente com epoca da Reforma e tambem na epoca da Revolu,ao Inglesa, que esse novo discurso va se aproximar de certo nfunero de uma forma de historia que e estritamente oposta it historia fomlas epicas, ou miticas, ou religiosas que, em vez de nar- da soberania e dos reis - it historia romana - ever essa nova rar a gloria sem macula e sem interrup,5es do soberano, se historia articulada a partir da grande reforma biblica da pro- empenham, ao contra.rio, em contar, em formular a infelici- fecia e da promessa. dade dos ancestrais, os exilios e as servid5es. Ele vai enu- o discurso historico que aparece nesse momento pode, merar menos as vit6rias do que as derrotas sob as quais se pois, ser considerado urna contra-historia, oposta it historia curvaram durante todo 0 tempo em que ainda e necessario romana, por esta razao: nesse novo discurso historico, a esperar a terra prometida e 0 curnprimento das velhas promes- fun<;ao da memoria vai mudar totalmente de sentido. Na sas que restabeleceriio, justamente, tanto os antigos direitos hist6ria de tipo romano, a memoria tinha, essencialmente, quando a gloria perdida. de garantir 0 nao-esquecimento - ou seja, a manuten<;ao da

Com esse novo discurso da guerra das ra,as, vemos lei e 0 aumento perpetuo do brilho do poder it medida que delinear-se algo que, no fundo, se aproxima bern mais da ele dura. Pelo contrario, a nova historia que aparece vai ter historia mitico-religiosa dos judeus do que da historia poli- de desenterrar alguma coisa que foi escondida, e que foi tico-Iegendaria dos romanos. Estamos muito mais do lado escondida nao somente porque menosprezada, mas tambem da Biblia do que do lado de Tito Livio, muito mais numa porque, ciosa, deliberada, maldosamente, deturpada e dis- 84 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 28 DE JANEIRO DE 1976 85

!' far9ada. No fundo, 0 que a nova historia quer mostrar e que you seus direitos, nem de mostrar que 0 poder esta onde ele :i o poder, os poderosos, os reis, as leis esconderam que nas- esta e que sempre esteve onde esta ainda. Trata-se de reivin- ceram no acaso e na injusti9a das batalhas. Afinal de con- dicar direitos ignorados, ou seja, declarar guerra declarando tas, Guilherme, 0 Conquistador, DaD queria, com razao, ser direitos. 0 discurso historico de tipo romano pacifica a so- chamado 0 Conquistador, pois queria disfar9ar que os direi- ciedade, justifica 0 poder, fundamenta a ordem - ou a ordem tos que ele exercia, ou as violencias que ele exercia sobre a das tres ordens - que constitui 0 corpo social. Ao contririo, Inglaterra, eram direitos conquistados. Ele queria mostrar-se o discurso de que eu Ihes estou falando, aquele que se mani- como 0 sucessor dinastico legitimo, disfar9ar, pois, 0 nome festa no final do seculo XVI e que se pode dizer urn discur- de conquistador, assim como, afinal de contas, Clovis pas- so historico de tipo biblico, dilacera a sociedade e so fala de seava com urn pergaminho para fazer que acreditassem que direito justo para declarar guerra as leis. ele devia sua realeza ao reconhecimento de urn Cesar roma- Eu gostaria entao de resumir tudo isso fazendo a se- no e incerto. Eles tentavam, esses reis injustos e parciais, guinte especie de proposi9aO. Nao se poderia dizer que ate valorizar-se para todos e em nome de todos; eles aceitam o final da Idade Media, e talvez mais alem ainda, houve que falem de suas vitorias, mas nao querem que saibam que uma historia - urn discurso e uma pritica historicos - que suas vit6rias eram a derrota dos Qutros, era a "nossa derro- era urn dos grandes rituais discursivos da soberania, de uma ta". Portanto, 0 papel da historia sera 0 de mostrar que as soberania que se mostrava e se constituia, atraves dele, como leis enganam, que os reis se mascaram, que 0 poder ilude e uma soberania unitaria, legitima, ininterrupta e brilhante? A que os historiadores mentem. Nao sera, portanto, urna his- essa historia, come90u a se opor uma outra: urna contra-his- toria da continuidade, mas urna historia da decifra9ao, da de- loria, que e aquela da servidao sombria, da degrada9ao, tec9ao do segredo, da devolu9ao da astucia, da reapropria- aquela da profecia e da promessa, aquela tamhem do saber 9ao de urn saber afastado ou enterrado. Seri a decifra9ao de secreto que deve ser reencontrado e decifrado, aquela, en- uma verdade selada. fim, da declara9ao conjunta e simultanea dos direitos e da

Enfim, eu creio que essa historia da luta das ra9as que guerra. A historia de tipo romano era, no fundo, uma hist6ria aparece nos seculos XVI-XVII e urna contra-hist6ria noutro profundamente inserida no sistema indo-europeu de repre- sentido, ao mesma tempo mais simples e mais elementar, po- senta9ao e de funcionamento do poder; ela era vinculada, rem mais forte tamhem. E que, longe de ser urn ritual ine- com toda a certeza, a organiza9ao das Ires ordens no topo rente ao exercicio, a exibi9ao, ao fortalecimento do poder, das quais se encontrava a ordem da soberania e, por conse- ela e nao somente a critica, mas ataque a ele e a reivindica- guinte, ela ficou for90samente vinculada a certo dominio 9ao dele. 0 poder e injusto nao porque decaiu de seus mais de objetos e a cerlo tipo de personagens - a lenda dos herois elevados exemplos, mas pura e simplesmente porque nao e dos reis -, porque era 0 discurso do duplo aspecto, magi- nos pertence. Em certo sentido, pode-se dizer que essa nova co e juridico, da soberania. Essa historia, de modelo roma-

hist6ria, como a antiga, busca expressar 0 direito atraves das no e com fun90es indo-europeias, se viu constrangida por peripecias do tempo. Mas nao se trata de estabelecer a gran- uma historia de tipo biblico, quase hebraico, que foi, desde de, a longa jurisprudencia de urn poder que sempre conser- o fim da Idade Media, 0 discurso da revolta e da profecia, 86 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 28 DE JANEIRO DE 1976 87

do saber e do apelo il subversao violenta da ordem das coi- dizer, de urn certo modo indo-europeu de contar e de perce- sas. Esse novo discurso e vinculado, nao mais a uma orga- ber a hist6ria. No limite, poderiarnos dizer que, quando nas- nizacao temilria, como 0 discurso hist6rico das sociedades ce 0 grande discurso sobre a hist6ria da luta das racas, acaba indo-europeias, mas a uma percepcao e a uma reparticao bi- a Antiguidade - e, com Antiguidade, quero dizer essa cons- nilria da sociedade e dos homens: de urn lado uns, do outro ciencia de continuidade que se tinha, ainda tarde na Idade os outros, os injustos e os justos, os senhores e aqueles que Media, em relacao it Antiguidade. A ldade Media ignorava, Ihes sao submissos, os ricos e os pobres, os poderosos e claro, que era a ldade Media. Mas ignorava lambem, se assim aqueles que s6 tern seus bracos, os invasores das terras e aque- podemos dizer, que nao era, que nao era mais, a Antiguida- les que tremem diante deles, os despotas e 0 povo ameac a- de. Roma ainda estava presente, funcionava como uma es- dor, os homens da lei presente e aqueles da piltria futura. pecie de presenca hist6rica permanente e atual no interior

Foi em meados da ldade Media que Petrarca formulou da Idade Media. Roma era percebida como dividida em mil esta questao que acho bastante surpreendente e, em todo canais que atravessavarn a Europa, mas supunha-se que todos caso, fundamental. Ele dizia 0 seguinte: "Que hil, entao, na esses canais remontavam aRoma. Nao convem esquecer hist6ria, que nao seja a louvacao de Roma?'" Eu creio que que todas as hist6rias politicas, nacionais (ou pre-nacionais) com essa unica pergunta ele caracterizava com uma palavra que se escreviam naquele momento, sempre se conferiam, a hist6ria tal como efetivamente ela sempre fora praticada, como ponto inicial, urn certo mito troiano. Todas as nac5es nao somente na sociedade ramana, mas nessa sociedade me- da Europa reivindicavarn ter nascido da queda de Tr6ia. Ter dieval il qual ele pr6prio, Petrarca, pertencia. Alguns seculos nascido da queda de Tr6ia queria dizer que todas as nac5es, depois de Petrarca, aparecia, nascia no Ocidente uma hist6- todos os Estados, todas as monarquias da Europa reivindi- ria que, precisamente, compreendia coisa muito diferente cavam ser irmas de Roma. Assim e que a monarquia france- que a louvacao de Roma, uma hist6ria em que se tratava, sa derivava pretensamente de Franco, a monarquia inglesa muito pelo contnirio, de desmascarar Roma como uma nova de urn certo Bruto. Cada uma das grandes dinastias se con-

Babi16nia, e em que se tratava de reivindicar, contra Roma, feria, nos fllhos de Priamo, ancestrais que asseguravam urn

os direitos perdidos de Jerusalem. Nasciarn uma forma to- laco de parentesco geneal6gico com Roma antiga. E, ainda no

talmente diferente de hist6ria, urna funcao totalmente dife- seculo Xv, urn sultilo de Constantinopla escrevia ao doge de

rente do discurso hist6rico. Poderiamos dizer que essa his- Veneza: "Mas por que fariamos a guerra, se somos irmaos?

t6ria e 0 comeco do fun da historicidade indo-europeia, quero Os turcos, todos sabem, nascerarn, sairam do incendio de

Tr6ia e tambem sao descendentes de Priamo. Os turcos",

dizia ele, "todos sabem que sao descendentes de Turco,

4. "Quid est enim aliud omnis historia quam ramana Jaus?" (Petrarca, filho de Priamo, como Eneias e como Franco." Roma estil, lnvectiva contra eum qui maledixit Italiae, 1373). Assinalamos que essa Frase pois, presente no interior mesmo dessa consciencia hist6rica de Petrarca e citada pOT E. Panofsky in Renaissance and Renascenses in Western An, Estocolmo, Almqvist & Wiksell, 1960 (trad. fr.: La Renaissance

da Idade Media, e nao hil ruptura entre Roma e esses inurne- et ses avant-courriers dans ['art d'Occident, Paris, Flammarion, 1976, p. 26). raveis reinos que vemos aparecer a partir dos seculos V-VI.

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Ora, 0 que 0 discurso da luta das rayas vai fazer apare- pertence, de pleno direito e totalmente, aos oprimidos; que

cer e, precisamente, essa especie de ruptura que vai mandar ele fai, ao menos em sua origem, essencialmente 0 discurso

para urn outro mundo algo que vai aparecer desde entao como dos subjugados, 0 discurso do povo, uma historia reivindi-

uma antiguidade: aparecimento de urna consciencia de rup- cada e falada pelo povo. De fato, curnpre ver imediatamen-

tura que nao havia sido reconhecida ate entao. Surgem, na te que e urn discurso que foi dotado de urn grande poder de

consciencia da Europa, acontecimentos que ate entao eram circulayao, de urna grande aptidao para a metamorfose, de

apenas vagas peripecias que nao tinham, no fundo, arranha- uma especie de polivalencia estrategica. E verdade que 0

do a grande unidade, a grande legitimidade, a grande forya vemos, primeiro talvez, esboyar-se em temas escatologicos

fulgurante de Roma. Aparecem acontecimentos que vao [en- ou em mitos que acompanharam movimentos populares na ta~] constituir os verdadeiros primordios da Europa - pri- segunda metade da Idade Media. Mas e preciso assinalar mordlOs de sangue, primordios de conquista: sao as inva- que 0 reencontramos muito depressa - logo em seguida - na soes dos francos, as invasoes dos normandos. Aparece algo forma da erudiyao historica, do romance popular ou das es- que Val, preclsamente, individualizar-se como "a Idade Me- peculayoes cosmo-biologicas. Ele foi por muito tempo urn dia" (e sera preciso esperar 0 inicio do seculo XVIII para discurso das oposiyoes, dos diferentes grupos de oposiyao; que, na consciencia historica, seja isolado 0 fenomeno a que foi, circulando muito depressa de urn a outro, urn instru- se chamara feudalismo). Aparecem novas personagens, os mento de cntica e de luta contra urna forma de poder, divi- francos, os gauleses, os celtas; aparecem tambem outras per- dido todavia entre os diferentes inimigos ou as diferentes sonagens mais genericas, que Sao a gente do Norte e a gente formas de oposiyao a esse poder. Vemo-Io, de fato, servir, do SuI; aparecem os dominadores e as submissos, os vence- sob suas diferentes formas, ao pensamento radical ingles no

dores e os vencidos. Sao estes agora que entram no teatro do momenta da revoluyao do seculo XVII, mas, alguns anos

discurso historico e que dai em diante constituem seu prin- depois, apenas transformado, vemo-Io servir a reayao aris-

cIpal referenclal. A Europa se povoa de recordayoes e de tocratica francesa contra 0 poder de Luis XlV. No inicio do

ancestrais cuja genealogia ela ate entao nunca fizera. Ela se seculo XIX, ele foi vinculado, com toda a certeza, ao projeto

fissura sobretudo numa divisao binaria que ate entao igno- pos-revolucionario de escrever, por fim, uma historia cujo rava. Uma consciencia historica totalmente diferente se cons- verdadeiro sujeito seria 0 povol . Mas, alguns anos depois, vo- titui e se formula ao mesmo tempo atraves desse discurso ces 0 veem servir a desqualificayao das sub-rayas coloniza- sobre a guerra das rayas e desse apelo a sua ressurreiyao. das. Portanto, mobilidade, polivalencia desse discurso: sua Nessa medida, pode-se identificar 0 aparecimento dos dis- origem, no final da Idade Media, nao 0 marcou suficiente- cursos sobre a guerra das rayas com uma organizayao do mente para que so funcione politicamente nurn sentido. tempo totalmente diferente na consciencia, na pratica e na Segunda observayao: nesse discurso em que se trata da propria politica da Europa. A partir dai, eu gostaria de fazer guerra das rayas e em que 0 termo "raya" aparece bastante certo numero de observayoes.

Primeiramente, eu gostaria de insistir no fato de que 5. De Mignet a Michelet, passando pelos autores que M. Foucault exa- esse dlscurso da luta das rayas, seria erroneo considerar que minara nos cursos seguintes. 90 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 28 DE JANEIRO DE 1976 91

cedo, fica bern claro que essa palavra mesma - "ra9a" - nao hist6rico na Europa, podemos situa-los, aproximadamente,

e pregada a urn sentido biol6gico estave!. No entanto, essa no momento de urna especie de interferencia, de choque,

palavra niio e absolutarnente variave!. Ela designa, final- entre a hist6ria da soberania e a hist6ria da guerra das ra9as:

mente, urna certa clivagem hist6rico-politica, arnpla sem du- por exemplo, no inicio do seculo XVII na Inglaterra, quando

vida, mas relativarnente fixa. Diriio, e nesse discurso dizem, o discurso que narrava as invasoes e a grande injusti9a dos

que ha duas ra9as quando se faz a hist6ria de dois grupos que normandos contra os saxoes veio interferir em todo urn tra-

niio tern a mesma origem local; dois grupos que niio tern, pelo balho hist6rico que os juristas monarquistas estavam em-

menos na origem, a mesma lingua e em geral a mesma reli- preendendo para narrar a hist6ria ininterrupta do poder dos

giiio; dois grupos que s6 formararn urna unidade e urn todo reis da Inglaterra. Foi 0 cruzamento dessas duas prliticas his-

politico a custa de guerras, de invasoes, de conquistas, de t6ricas que trouxe a explosiio de todo urn campo de saber.

batalhas, de vit6rias e de derrotas, em surna, de vioJencias; Da mesma forma, quando, no fim do seculo XVII e no ini-

urn vinculo que s6 se estabeleceu atraves da violencia da

cio do seculo XVIII, a nobreza francesa come90u a fazer

guerra. Enfim, diriio que ha duas ra9as quando ha dois gru-

sua genealogia niio na forma da continuidade mas, ao con-

pos que, apesar de sua coabita9iio, niio se misturararn por

trario, na forma de privilegios que ela teria tido outrora, e causa de diferen9as, de dissimetrias, de barragens devidas

que depois teria perdido e que se trataria de recuperar, todas aos privilegios, aos costumes e aos direitos, adistribui9iio das

as pesquisas hist6ricas que se fizerarn a partir desse eixo fortunas e ao modo de exercicio do poder.

vieram interferir na historiografia da monarquia francesa tal

Terceira observa9iio: podemos, pois, reconhecer duas

.como Luis XIV a havia constituido, a havia feito constituir-se; grandes morfologias, dois grandes focos principais, duas fun- 90eS politicas do discurso hist6rico. De urn lado, a hist6ria dai ainda urna formidavel extensiio do saber hist6rico. Assim romana da soberania, do outro, a hist6ria biblica da servidiio tambem, no inicio do seculo XIX, outro momento fecundo: e dos exilios. Eu niio creio que a diferen9a entre essas duas quando 0 discurso sobre a hist6ria do povo, de sua servidiio hist6rias seja exatarnente a diferen9a entre urn discurso ofi- e de suas sujei90es, a hist6ria dos gauleses e dos francos, cial e, digamos, urn discurso rUstico*, urn discurso tao con- dos camponeses do terceiro estado, veio interferir na hist6- dicionado pelos imperativos politicos que niio era capaz de ria juridica dos regimes. Portanto, interferencias perpetuas e produzir urn saber. De fato, essa hist6ria, que se conferia produ9iio de campos e de conteudos de saber, a partir desse como tarefa a decifra9iio dos segredos e a desmistifica9iio choque entre a hist6ria da soberania e a hist6ria da luta das do poder, produziu ao menos tanto saber quanto aquela que ra9as. tentava reconstituir a grande jurisprudencia ininterrupta do Ultima observa9iio: atraves ou apesar de todas essas in- poder. Eu acho mesmo que se poderia dizer que os grandes terferencias, foi evidentemente do lado da hist6ria, eu ia desbloqueios, os momentos fecundos na constitui9iio do saber dizer biblica, em todo caso do lado da hist6ria-reivindica-

9iiO, da hist6ria-insurrei9iio, que se colocou 0 discurso revo-

lucionlirio - 0 da Inglaterra do seculo XVII e 0 da Fran9a, e

* Manuscrito, no Jugar de "oficial" e "rustico": "cientifico" e "ingenuo". da Europa, no seculo XIX. Essa ideia da revolu9iio, que per-

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92 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 28 DE JANEIRO DE 1976 93

passa todo 0 funcionamento politico e toda a hist6ria do quando eles narravam a luta das ra,as."6 A hist6ria do pro- Ocidente faz mais de dois seculos e que e, alias, em sua ori- jeto e da pnitica revoluciomirios nao e, ereio eu, dissociavel gem e em seu conteudo, finalmente muito enigmatica, eu dessa contra-hist6ria que rompeu com a forma indo-euro- creio que nao se pode dissocia-Ia do aparecimento e da exis- peia de praticas hist6ricas vinculadas ao exercicio da sobe- tencia dessa pratica de uma contra-hist6ria. Afinal de con- rania; ela nao e dissociavel do aparecimento dessa contra- tas, que significariam, que poderiam ser, a ideia e 0 projeto hist6ria que e a hist6ria das ra,as e da importancia que seus revoluciommos sem, primeiro, essa decifrayao das dissime- enfrentamentos tiveram no Ocidente. Poderiamos dizer, com trias, dos desequilibrios, das injusti,as e das violencias que uma palavra, que se abandonou, que se come,ou a abando- funcionam apesar da ordem das leis, sob a ordem das leis, nar, no fim da Idade Media, nos seculos XVI e XVII, uma atraves da ordem das leis e gra,as a ela? Que seriam a ideia, sociedade cuja consciencia hist6rica ainda era de tipo roma- a pn\tica, 0 projeto revoluciomirios, sem a vontade de tornar no, au seja, ainda centrada em rituais da soberania enos Dutra vez visivel uma guerra real, que se desenvolveu e con- seus mitos, e que depois se entrou numa sociedade de tipo, tinua a se desenvolver, mas que, precisamente, a ordem si- digamos, modemo (urna vez que nao temos outras palavras, lenciosa do poder tern por fun,ao e por interesse sufocar e e a palavra modemo e evidentemente vazia de sentido) _ mascarar? Que seriam a pratica, 0 projeto e 0 discurso revo- sociedade cuja consciencia hist6rica nao e centrada na sobe- lucionitrios, sem a vontade de reativar essa guerra atraves rania e no problema de sua funda,ao, mas na revolu,ao, em de urn saber hist6rico preciso, e sem a utiliza,ao desse saber suas promessas e em suas profecias de liberta,6es futuras. como instrumento nessa guerra e como elemento tatico no interior da guerra real que se trava? Que quereriam dizer 0 projeto e 0 discurso revolucionitrios, sem 0 objetivo de uma 6. Deveria se tratar, na realidade, da carta de K. Marx a J. Weydemeyer certa inversao final da rela,ao das for,as e 0 deslocamento de 5 de marl;o de 1852, na qual Marx escreve notadamente: "Enfim, se eu definitivo no exercicio do poder? Fosse tu, Faria os senhores democratas em geral notarem que melhor fariam se

eles pr6prios se familiarizassem com a literatura burguesa antes de se perrniti-

Decifra,ao das dissimetrias, tomar outra vez visivel a rem ladrar contra 0 que e 0 seu contrmo. Esses senhores deveriam, por exem- guerra, reativa,ao da guerra: nao foi 0 todo do discurso revo- plo, estudar as obras hist6ricas de Thierry, Guizot, John Wade, etc., e adquirir lucionitrio que nao parou de agitar a Europa desde pelo menos algumas luzes sobre 'a hist6ria das classes no passado'" (Karl Marx- o fim do seculo XVIII, mas foi mesmo assim uma trama Friedrich Engels Gesamtausgabe, Dritte Abteilung, Briefwechsel, Bedim,

,?iez, t 5,1987, p. 75; trad. fr.: K. Marx & F. Engels, Correspondance, Paris, importante sua, precisamente aquela que havia sido forma- Editions Sociales, 1959, t III, p, 79). Cf. tambem a carta de Marx a Engels de da, definida, instituida e organizada nessa grande contra- 27 de julho de 1854, na qual Thierry e definido como "'0 pai da luta das hist6ria que narrava, desde 0 fim da Idade Media, a luta das classes' na historiografia francesa" (Gesamtausgabe, t 7, 1989, pp, 129-32, ra,as. Nao convem esquecer, afinal de contas, que Marx, no cita9ao p. 130; trad. fr.: in Correspondance, t. IV, 1975, pp. 148-52. No

manuscrito M. Foucault escreve: "Em 1882 ainda, Marx dizia a Engels: a his- fim de sua vida, em 1882, escrevia a Engels dizendo-Ihe:



t6ria do projeto e da pnitica revolucionarios nao e dissociave1 dessa contra- "Mas, nossa luta de classes, tu sabes muito bern onde a en- hist6ria das raGas e da importancia que ela teve no Ocidente nas lutas politicas" contramos: nos a encontramos nos historiadores franceses (citado manifestamente de memoria). 94 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 28 DE JANEIRO DE 1976 95

Compreende-se entao, a partir dai, creio eu, como e por lingua, pelo direito, etc., vai ser substituido pelo de uma so- que 0 discurso p6de se tomar, em meados do seculo XIX, ciedade que sera, ao contrano, biologicamente monistica. Ela um novo objeto de disputa. Com efeito, no momento em sera evidentemente amea,ada por certo numero de elemen- que esse discurso [... J estava se deslocando, ou se traduzin- tos heterogeneos, mas que nao the sao essenciais, que nao do, ou se convertendo num discurso revoluciomirio, em que dividem 0 corpo social, 0 corpo vivo da sociedade, em duas a no,ao de luta das ra,as ia ser substituida por aquela de partes, mas que sao de certo modo acidentais. sera a icteia luta de classes - e ainda, quando digo "meados do seculo de estrangeiros que se infiltraram, sera 0 tema dos transvia- XIX", e tarde demais, era a primeira metade do seculo XIX, dos que sao os subprodutos dessa sociedade. Enfim, 0 tema uma vez que essa transforma,ao da luta das ra,as em luta do Estado, que era necessariamente injusto na contra-hist6- das classes foi operada por [ThiersF- portanto, no momen- ria das ra9as, vai se transfonnar em tema inverso: 0 Estado to em que se faz essa conversao, era normal que, de outro nao e0 instrumento de uma ra9a contra uma autra, mas e, e lado, tentassem recodificar em termos nao de luta das clas- deve ser, 0 protetor da integridade, da superioridade e da pu- ses, mas de luta das ra,as - das ra,as no sentido biol6gico e reza da ra,a. A icteia da pureza da ra,a, com tudo 0 que com- medico do termo - essa velha contra-hist6ria. E e assim que, porta a urn s6 tempo de monistico, de estatal e de biol6gico, no momento em que se forma uma contra-hist6ria de tipo sera aquela que vai substituir a icteia da luta das ra,as. revoluciommo, vai-se formar uma Dutra contra-hist6ria, Quando 0 tema da pureza da ra,a toma 0 lugar do da luta mas que sera contra-hist6ria na medida em que esmagara, das ra,as, eu acho que nasce 0 racismo, ou que esta se ope- numa perspectiva bioI6gico-medica, a dimensao hist6rica rando a conversao da contra-hist6ria em urn racismo biol6- que estava presente nesse discurso. Eassim que voces veem gico. 0 racismo nao e, pois, vinculado por acidente ao dis- aparecer algo que vai ser justamente 0 racismo. Retomando, curso e il politica anti-revolucionana do Ocidente; nao e sim- reciclando a forma, 0 alvo e a pr6pria fun,ao do discurso plesmente urn edificio ideol6gico adicional que teria apare- sobre a luta das ra,as, mas deturpando-os, esse racismo se cido em dado momento, numa especie de grande projeto anti- caracterizara pelo fato de que 0 tema da guerra hist6rica - com revolucionario. No momenta em que 0 discurso da luta das suas batalhas, suas invas6es, suas pilhagens, suas vit6rias rac;as se transformou em discurso revoluciomirio, 0 racismo e suas derrotas - sera substituido pelo tema biol6gico, p6s- foi 0 pensamento, 0 projeto, 0 profetismo revolucionarios evolucionista, da luta pela vida. Nao mais batalha no sentido virados noutro sentido, a partir da mesma raiz que era 0 dis- guerreiro, mas luta no sentido bio16gico: diferencia,ao das curso da luta das ra,as. 0 racismo e, literalmente, 0 discur- especies, sele,ao do mais forte, manuten,ao das ra,as mais so revoluciomu-io, mas pelo avesso. Ou, ainda, poderiamos bern adaptadas, etc. Assim tambem, 0 tema da sociedade bi- dizer isto: se 0 discurso das ra,as, das ra,as em luta, foi mes- nana, dividida entre dnas ra,as, dois grupos estrangeiros, pela rno a arma utilizada contra 0 discurso hist6rico-politico da

soberania romana, 0 discurso da ra,a (a ra,a no singular)

foi uma maneira de inverter essa arma, de utilizar seu gume

7. Cf. sobretudo A. Thiers, Histoire de la Revolutionfranfaise, Paris, 1823-1827,10 yol., e Histoire du Cansu/at et de [,Empire, Paris, 1845-1862, em proveito da soberania conservada do Estado, de uma 20 val. soberania cujo brilho e cujo vigor nao sao agora assegura- 96 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 28 DE JANEIRO DE 1976 97

dos por rituais magico-juridicos, mas por tecnicas medico- a formula9ao do tema da luta das ra9as. E e assim que 0 ra- normalizadoras. A custa de urna transferencia que foi a da cismo de Estado, na epoca nazista, vai ser acompanhado de lei para a norma, do juridico para 0 biol6gico; it custa de uma por9ao de elementos e de conota90es, como, por exem- urna passagem que foi a do plural das ra9as para 0 singular plo, os da luta da ra9a germiinica subjugada, durante urn tem- da ra9a; it custa de uma transforma9ao que fez do projeto de po, pelos vencedores provis6rios que sempre foram, para a liberta9ao a preocupa9ao da pureza, a soberania do Estado as- Alemanha, as potencias europeias, os eslavos, 0 Tratado de sumiu, tornau a levar em considera9ao, reutilizou em sua Versalhes, etc. Ele tambem foi acompanhado pelo tema da estrategia pr6pria 0 discurso da luta das ra9as. A soberania volta do her6i, dos her6is (0 despertar de Frederico, e de to- do Estado transformou-o assim no imperativo da prote9ao dos os que foram os guias e os Fuhrer da na9ao); do tema da ra9a, como urna alternativa e uma barragem para 0 apelo da retomada de urna guerra ancestral; do tema do advento de revolucionario, que derivava, ele pr6prio, desse velho dis- urn novo Reich que e 0 imperio dos ultimos dias, que deve curso das lutas, das decifra90es, das reivindica90es e das pro- garantir 0 triunfo milenar da ra9a, mas que e tambem, de urna messas. forma necessaria, a iminencia do apocalipse e do ultimo dia.

Enfim, eu gostaria de acrescentar a isso mais urna coisa. Reciclagem, pois, ou reimplanta9ao, reinser9ao nazista do Esse racismo, assim constituido como a transforma9ao, al- racismo de Estado na lenda das ra9as em guerra. ternativa ao discurso revolucionario, do velho discurso da Em face dessa transforma9ao nazista, voces tern a trans- luta das ra9as, passou ainda no seculo xx por duas trans- forma9ao de tipo sovietico, que consiste em fazer, de certo forma90es. Aparecimento portanto, no fim do seculo XIX, modo, 0 inverso: nao uma transforma9ao dramlitica e tea- daquilo que poderiamos chamar de racismo de Estado: racis- tral, mas uma transforma9ao sub-repticia, sem dramaturgia mo biol6gico e centralizado. E esse tema e que foi, se nao legendaria, mas difusamente "cientista". Ela consiste em profundamente modificado, pelo menos transformado e uti- retomar 0 discurso revolucionario das lutas sociais - justa- lizado nas estrategias especificas do seculo XX. Podemos mente aquele que era oriundo, por muitos de seus elementos, assinalar essencialmente dois deles. De uma parte, a trans- do velho discurso da luta das ra9as - e em faze-Io coincidir forma9ao nazista, que retoma 0 tema, instituido no final do com a gestao de uma policia que assegura a higiene silen- seculo XIX, de urn racismo de Estado encarregado de pro- ciosa de uma sociedade ordenada. 0 que 0 discurso revolu- teger biologicamente a ra9a. Mas esse tema e retomado, con- cionario designava como inimigo de classe vai se tomar, no vertido, de certa forma em modo regressivo, de maneira que racismo de Estado sovietico, urna especie de perigo biol6gi- seja reimplantado, e que funcione, no interior de urn discurso co. 0 inimigo de classe, que e agora? Pois bern, e 0 doente, e profetico, que era justamente aquele em que aparecera, an- o transviado, e 0 IOlleo. Em conseqiiencia, a arma que Qll- tigamente, 0 tema da luta das ra9as. E assim que 0 nazismo trora devia lutar contra 0 inimigo de classe (arma que era a vai reutilizar toda uma mitologia popular, e quase medieval, da guerra ou, eventualmente, a da dialetica e da convic9ao) para fazer 0 racismo de Estado funcionar numa paisagem agora nao pode ser mais do que uma policia medica que eli- ideol6gico-mitica que se aproxima daquela das lutas popu- mina, como urn inimigo de ra9a, 0 inimigo de classe. Por- lares que puderam, em dado momento, sustentar e permitir tanto, temos, de urn lado, a reinser9ao nazista do racismo de 98 EM DEFESA DA SOClEDADE

Estado na velha lenda das ra,as em guerra e, do outro, a rein- ser,ao sovietica da luta das classes nos mecanismos mudos

AULA DE 4 DE FEVEREIRO DE 1976 de urn racismo de Estado. E e assim que 0 canto rouco das ra,as que se enfrentam atraves das mentiras das leis e dos reis, esse canto que, afinal de contas, produziu a primeira Resposta sabre 0 anti-semitismo. - Guerra e soberania forma do discurso revolucionario, tomou-se a prosa admi- em Hobbes. ,- 0 discurso da conquista na lnglaterra. entre

as monarqulstas, as parlamentaristas e as Levellers. - 0 nistrativa de urn Estado que se protege em nome de urn pa- esquema bimirio e 0 historicismo paNtica. - 0 que Hobbes trimonio social que deve ser guardado puro. queria eliminar.

Portanto, gloria e infilmia do discurso das ra,as em luta. o que eu quis lhes mostrar foi esse discurso que nos apar- tou, com toda a certeza, de urna consciencia historico-juridica centrada na soberania e que nos fez entrar numa forma de historia, nurna forma de tempo ao mesmo tempo sonhado e sabido, sonhado e conhecido, em que a questao do poder ja nao pode ser dissociada da questao das servidoes, das liber- , Vma ou duas semanas atras, [comunicaram]-me certo ta,oes e das alforrias. Petrarca se perguntava: "Que ha na numero de perguntas e de obje,oes, orais e escritas. Gosta- historia que nao seja louva,ao de Roma?" Pois bern, nos - na mUlto de discutir com voces, mas e diftcil neste espa,o e e isso que decerto caracteriza a nossa consciencia histori- e neste chma. De qualquer forma, depois da aula, voces ca e que esta vinculado ao aparecimento dessa contra-histo- podem VIr me ver em meu escritorio se tiverem perguntas ria -, nos nos perguntamos: "Que ha na historia que nao a

para me fazer. Mas ha urna qual eu gostaria ainda assim seja 0 apelo arevolu,ao ou 0 medo dela?" E acrescentamos d~ responder urn pouquinho, primeiro porque me foi feita simplesmente esta pergunta: "E se Roma, de novo, conquis- v::nas vezes, depois porque eu havia achado poder respon- tasse a revolw;ao?" de-la de antemao e devo acreditar que as explica,oes nao

Entiio, depois dessas tropelias, eu tentarei, a partir da estavam sufIclentemente claras. Disseram-me: "0 que sig- proxima vez, retomar urn pOlleD essa hist6ria do discurso mfIca fazer 0 raClsmo ter inicio no seculo XVI ou no XVII das ra,as em alguns de seus pontos, no seculo XVII, no ini- reportar 0 racismo apenas aos problemas da soberania e d~ cio do seculo XIX e no seculo XX. Estado, quando se sabe bern, afinal de contas, que 0 racis-

mo rehglOso (0 racismo anti-semita em especial) e,ostia desde

a Idade Media?" Eu gostaria entao de voltar ao que nao ex-

phqueI, portanto, suficiente e claramente.

, . Para mim nao se trata, aqui, de fazer por ora uma his-

tona do raClsmo no sentido geral e tradicional do termo. Nao

quero fazer a historia daquilo que pode ser no Ocidente a

consciencia de pertencer a uma ra~a, nem ~ hist6ria dos ri- 100 EM DEFESA DA SOC1EDADE AULA DE 4 DE FEVERE1RO DE 1976 101

tos e mecanismos pelos quais se tentou excluir, desqualifi- superficial do tema da luta das rayas, mas nao tive tempo. car, destruir fisicamente urna raya. 0 problema que eu quis Creio que 0 que se pode dizer - mas voltarei a isso mais calocar eDutro, e DaD diz respeito ao racismo nem, em pri- tarde - e 0 seguinte: 0 anti-semitismo, com efeito, como ati- meira instiincia, ao problema das rayas. Tratava-se - e con- tude religiosa e racial, nao interveio de urna forma suficien- tinua sempre se tratando para mim - de tentar ver como apa- temente direta, para que se possa leva-lo em conta na hist6- receu, no Ocidente, uma certa analise (critica, hist6rica e ria que lhes you fazer, antes do seculo XIX. 0 velho anti- political do Estado, de suas instituiyoes e de seus mecanis- semitismo do tipo religioso foi reutilizado num racismo de mos de poder. Essa analise e feita em termos binaTIos: 0 cor- Estado somente no seculo XIX, a partir do momenta em po social nao e composto por uma piramide de ordens ou que se constituiu urn racismo de Estado, no momenta em que por uma hierarquia, naD constitui urn organismo coerente e o Estado teve de aparecer, de funcionar e de se mostrar como unitario, mas e composto por dois conjuntos, nao s6 perfei-

o que assegura a integridade e a pureza da raya, contra a raya tamente distintos, mas tambem opostos. E essa relayao de

ou as rayas que 0 infiltram, que introduzem em seu corpo oposiyao existente entre esses dois conjuntos que constituem o corpo social e que trabalham 0 Estado e, de fato, urna re-

elementos nocivos e que e preciso, conseqiientemente, ex-

pulsar por razoes que sao de ordem politica e biol6gica ao layao de guerra, de guerra permanente, pois 0 Estado nada mais e que a maneira mesma pela qual continua a travar-se mesmo tempo. Foi nesse momenta que 0 anti-semitismo se essa guerra, sob formas aparentemente pacificas, entre os desenvolveu, retomando, utilizando, extraindo da velha for- dois conjuntos em questao. A partir dai, eu gostaria de mos- ya do anti-semitismo, toda uma energia e toda uma mitolo- trar como se articula urna analise desse tipo, evidentemente, gia que nao haviam sido, ate entao, utilizadas na analise com base a urn s6 tempo numa esperanf;a, n:un imperativo politica da guerra intema, da guerra social. Naquele momen- e numa politica de revolta ou de revoluyao. E esse 0 fundo to, os judeus pareceram ser - e foram descritos como -, a de meu problema, nao e 0 racismo. urn s6 tempo, a raya presente no meio de todas as rayas e

o que me parece historicamente bern justificado e que aquela cujo carater biologicamente perigoso reclama, da essa forma de analise politica das relayoes de poder (como parte do Estado, certo numero de mecanismos de recusa e relayoes de guerra entre duas rayas no interior de urna so- de exclusao. Foi P0rlanto a reutilizayao, no racismo de Esta- ciedade) nao interfere, pelo menos em primeira instiincia, no do, de urn anti-semitismo que tinha, ereio eu, outras razoes, problema religioso. Essa analise, voces a encontram efeti- que provocou os fen6menos do seculo XIX, que acabam vamente formulada, formulando-se, no final do seculo XVI por fazer os velhos mecanismos do anti-semitismo sobre- e no principio do seculo XVII. Em outras palavras, a divisao, por-se a essa analise critica e politica da luta das rayas no a percepyao da guerra das rayas se antecipa as nOyoes de luta interior de uma sociedade. Foi por isso que nao apresentei social ou de luta de classe, mas nao se identifica de modo nem 0 problema do racismo religioso nem 0 problema do algum com urn racismo do tipo, se voces quiserem, religioso. anti-semitismo na Idade Media. Tentarei falar dele, em com- Nao falei do anti-semitismo, e verdade. Eu queria fazer urn pensayao, quando abordar 0 seculo XIX. Mais urna vez, pouco isso da ultima vez, quando fiz uma especie de exame estou as ordens para responder a perguntas mais precisas.

EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 4 DE FEVEREIRO DE 1976 103 102

Hoje, eu gostaria de tentar ver como a guerra come90u forma, nos Estados da Europa, quais sao as rela90es entre a aparecer como analisador das rela90es de poder, no f,m urn Estado e outro, senao as de dois homens que estao de pe do seculo XVI e no inicio do seculo XVII. Ha, claro, urn urn na frente do outro, a espada na mao e os olhos fixos urn nome que a gente logo encontra: 0 de Hobbes, que aparece no outrO?4 De qualquer forma, portanto, mesmo depois da como, a primeira vista, quem pos a rela9ao de guerra no constitui9ao do Estado, a guerra amea9a, a guerra esta pre- fundamento e no principio das rela90es de pode r. No fundo sente. Dai esse problema: em primeiro lugar, 0 que e essa da ordem, por tras da paz, abaixo da lei, no nascimento do guerra, preliminar ao Estado e que 0 Estado esta destinado, grande automato que constitui 0 Estado, 0 soberano, 0 Le- em principio, a fazer cessar, essa guerra que 0 Estado repele, viata, nao ha somente, para Hobbes, a guerra, mas a malS em sua pre-hist6ria, na selvageria, para suas fronteiras mis- geral de todas as guerras, aquela que se manifesta em todos teriosas, e que no entanto esta presente? Em segundo lugar, os instantes e em todas as dimensoes: "a guerra de todos con- como essa guerra engendra 0 Estado? Qual e 0 efeito, na

tra todos"'. E essa guerra de todos contra todos, Hobbes constitui9ao do Estado, do fato de que foi a guerra que 0 en-

nao a situa simplesmente no nascimento do Estado - na ma- gendrou? Qual e 0 estigma da guerra no corpo do Estado,

nba real e ficticia do Leviata -, ele a segue, ele a ve amea- uma vez constituido? Ai estao as duas questoes que eu gos-

9ar e manar, depois mesmo da constitui9ao do Estado, em taria de [considerar] urn pouquinbo.

seus intersticios, nOS limites e nas fronteiras do Estado. Qual e entiio essa guerra, a guerra que Hobbes descreve

Voces se lembram dos tres exemplos de guerra permanente antes mesmo e no principio da constitui9ao do Estado? Sera

que ele cita. Primeiramente, ele diz isto: mesmo quando, a guerra dos fortes contra os fracos, dos violentos contra os

nurn Estado civilizado, urn viajante deixa seu domicilio, nun- timidos, dos corajosos contra os covardes, dos grandes con-

ca se esquece de fechar com cuidado a fechadura da porta, tra os pequenos, dos selvagens arrogantes contra os pasto-

pois bern sabe que h:\ urna guerra permanente que e travada e

res timidos? sera urna guerra que articulada com Iiase em

entre os ladroes e os roubados 2 . Dutro exemplo que ele clta: diferen9as naturais imediatas? Voces sabem que de modo

nas florestas da America, encontram-se ainda tribos cujo algum e esse 0 caso em Hobbes. A guerra primitiva, a guer-

regime e 0 da guerra de todos contra todos'. E, de qualquer ra de todos contra todos e urna guerra de igualdade, nascida

da igualdade e que se desenrola no elemento dessa igualdade.

A guerra e 0 efeito imediato de urna nao-diferen9a ou, em

1. "Fora dos Estados civis, ha sempre uma guerra de carla qual contra

cada quaL" "Com isso fica claro que, enquanto os homens vivem sem urn pa-

tado caso, de diferen9as insuficientes. De fato, diz Hobbes, se

rler em comUIU que rnantenha a todos respeitosos, eles estao na condil;ao que se tivesse havido grandes diferen9as, se houvesse efetivamen-

denomina guerra, e essa guerra e guerra de cada qual contra cada qual" (Th. te entre os homens desigualdades que se veem e se manifes-

Hobbes, Leviathan, op. cit., primeira parte, cap. XIII, p. 62; trad. fro citada, p. tam, que sao muito claramente irreversiveis, e evidente que

124). Sabre 0 "bellum omnium contra omnes", cf. tamMm Elementorum phi-

a guerra seria por isso mesmo imediatamente brecada. Se

losophiae seelio tertia de Give, Paris, 1642, I, 1, XIII (trad. fr.: Le citoyen, QU

les fondements de la politique, Paris, Flammanon, 1982).

2. Th. Hobbes, Leviathan, loco cit.



3. Ibid., p. 63 (trad. fr. citada, p. 124). 4. Ibid., loco cit. 104 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 4 DE FEVEREIRO DE 1976 105 houvesse diferenc;as naturais marcantes, visiveis, macic;as, Mas, esse estado de guerra, 0 que ele e exatamente? das duas urna: ou haveria efetivamente enfrentamento entre 0 Mesmo 0 fraco sabe - ou acredita em todo caso - que nao forte e 0 fraco - mas esse enfrentamento e essa guerra real esta longe de ser tao forte quanta 0 seu vizinho. Portanto, se resolveria imediatamente com a vitoria do forte sobre 0 ele nao vai renunciar aguerra. Entretanto, 0 mais forte - en- fraco, vitoria que seria definitiva por causa da propria for,a fim, aquele que e urn pouquinho mais forte do que os ou- do forte; ou entao nao haveria enfrentamento real, 0 que quer tros - sabe que, apesar de tudo, ele pode ser mais fraco do dizer, pura e simplesmente, que 0 fraco, sabendo, percebendo, que 0 outro, sobretudo se 0 outro utiliza a asmcia, a surpresa , constatando sua propria fraqueza, renunciaria antes mesmo a alianc;a, etc. Portanto, urn nao vai renunciar it guerra, mas do enfrentamento. De sorte que - diz Hobbes -, se houves- o outro - 0 mais forte - vai procurar, apesar de tudo, evim-la. se diferenc;as naturais marcantes, nao haveria guerra; pois, Ora, aquele que quer evitar a guerra so podera evim-Ia Com ou a rela,ao de for,a seria fixada logo de saida por urna uma condi,ao: que mostre que esta pronto para fazer a guer- guerra inicial que excluiria que ela continuasse, au entao, ra e que nao esta pronto para renunciar a ela. E ele mostra- ao contrano, essa rela,ao de for,a perrnaneceria virtual dada ra que nao esta pronto para renunciar a guerra, fazendo 0 a propria timidez dos fracos. Portanto, se houvesse diferen,a, que? Pois bem [agindo] de tal maneira que 0 outro, que esm nao haveria guerra. A diferen,a pacifica5 Em compensa- a ponto de fazer a guerra, vai ficar com davidas sobre a sua ,ao, no estado de nao-diferen,a, de diferen,a insuficiente - propria fon;a e, por conseguinte, renunciani a ela, e renun- no estado em que se pode dizer que ha diferen,as, mas me- ciara, esse outro, simplesmente na medida em que sabe que diocres, fugidias, minusculas, instaveis, sem ardem e sem o primeiro, por sua vez, nao esta pronto para renunciar a ela. distin,ao; nessa anarquia das pequenas diferen,as que ca- Em resumo, no tipo de rela,oes que se encadeiam a partir racteriza 0 estado de natureza, 0 que acontece? Mesmo dessas diferen,as mediocres e desses enfrentamentos alea- quem e um pouquinho mais fraco do que os outros, do que t6rios cujo resultado nao e conhecido, essa rela,ao de for,a urn outro, meSilla esse ainda assim esta suficientemente pro- efeita do que? E feita do jogo entre tres series de elementos. ximo do mais forte para perceber-se forte 0 bastante para Primeiro, das representa,oes calculadas: eu me represento nao ter de ceder. Portanto, 0 fraco jamais renuncia. Quanto a for,a do outro, represento-me que 0 outro se representa mi- ao forte, quem e simplesmente um pouquinho mais forte do nha for,a, etc. Segundo, das manifesta,oes enfMicas e acen- que os outros nunca e forte 0 bastante para nao ficar inquie- tuadas de vontade: demonstra-se que se quer a guerra, mos- to e, por conseguinte, para nao ter de tomar cautela. Portanto, tra-se que nao se renuncia a guerra. Terceiro, enfim, utili- a nao-diferenciac;ao natural cria incertezas, riscos, acasos e, zam-se taticas de intimida,ao entrecruzadas: receio tanto por conseguinte, a vontade, de ambas as partes, de enfren- fazer a guerra que so ficarei tranqiiilo se voce recear a guer- tar-se; e 0 aleatorio na rela,ao primitiva das for,as que cria ra pelo menos tanto quanta eu - e mesmo, na medida do esse estado de guerra. possivel, um pouco mais. Isto quer dizer, em suma, que esse

estado que Hobbes descreve nao e em absoluto um estado

natural e brutal, no qual as for,as viriam se enfrentar dire-

5. Ibid., pp. 60-2 (tract. fro citada, pp. 123·4). tamente: nao se esta na ordem das rela,oes diretas das for- 106 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 4 DE FEVEREIRO DE 1976 107

r 9aS reais. 0 que se encontra, 0 que se enfrenta, trecruza, no estado de guerra primitiva de Hobbes, nao sao

0 que se en- no dia em que nascesse 0 Estado; trata-se, de fato, de urna

especie de pano de fundo permanente que M de funcionar,

I

i armas, nao sao punhos, nao sao for,as selvagens e desen- com suas asmcias elaboradas, com seus calculos mesclados, freadas. Nao M batalhas na guerra primitiva de Hobbes, nao assim que algo nao de a seguran,a, nao fixe a diferen,a e M sangue, nao M cadaveres. Ha representa,oes, manifesta- nao coloque a for,a, enfim, de urn certo lado. Portanto, nao 90es, sinais, express5es enfaticas, astuciosas, mentirosas; M guerra no inicio, em Hobbes. M engodos, vontades que sao disfar,adas em seu contrario, Mas como esse estado, que nao e a guerra, mas sim os inquietudes que sao camufladas em certezas. Esta-se no tea- jogos das representa,oes pelos quais, justamente, nao se faz tro das representa,oes trocadas, esta-se nurna rela,ao de a guerra, vai engendrar 0 Estado - com uma maiuscula - 0 medo que e uma rela,ao temporalmente indefinida; nao se Leviata, a soberania? A esta segunda pergunta, Hobbes r~s esta realmente na guerra. Isto quer dizer, finalmente, que 0 ponde distinguindo duas categorias de soberania: a sobera- estado de selvageria bestial, em que os individuos vivos se nia de institui,ao e a soberania de aquisi,a0 7. Fala-se muito devorariam uns aos outros, nao pode de forma alguma apa- da soberania de institui,ao, e, em gera!, e a esta que se reduz, recer como a caracteriza,ao primeira do estado de guerra que se resume a anaIise de Hobbes. Na verdade, as coisas segundo Hobbes. 0 que caracteriza 0 estado de guerra e sao mais complicadas. Voces tern urna republica de institui,ao uma especie de diplomacia infinita de rivalidades que sao e urna republica de aquisi,ao e, no proprio interior desta, naturalmente igualitarias. Nao se esta na "guerra"; esta-se duas formas de soberania, de sorte que, no total: os Estados no que Hobbes denomina, precisamente, "0 estado de guer- de institui,ao, os Estados de aquisi,ao, e tres tipos, tres for- ra". Ha urn texto em que ele diz: "A guerra nao consiste mas de soberania vern, de certo modo, trabalhar essas formas somente na batalba enos combates efetivos; mas nurn espa- de poder. Tomemos, primeiramente, as republicas de insti- ,0 de tempo - e 0 estado de guerra - em que a vontade de se tui,ao, as que sao mais conhecidas; nao me demoro nelas. enfrentar em batalhas e suficientemente demonstrada."6 0 Que e que [ocorre] no estado de guerra, para fazer cessar espa,o de tempo designa, pois, 0 estado e nao a batalha, em esse estado de guerra em que, mais urna vez, nao e a guerra que 0 que esta em jogo nao sao as proprias for,as mas a von- mas a representa,ao e a amea,a da guerra que intervem? Pois tade, urna vontade que e suficientemente demonstrada, ou bern, alguns homens vao decidir. Mas 0 que? Nao tanto trans- seja, [dotada] de urn sistema de representa,oes e de manifes- ferir a alguem - ou a varios - uma parte de seus direitos e ta,oes que e operante nesse campo da diplomacia primana. de seus poderes. Eles nem sequer decidem, no fundo, trans-

Portanto, ve-se bern por que e como esse estado - que mitir todos os seus direitos. Decidem, ao contrario, conceder nao e a batalha, 0 enfrentamento direto das for,as, mas certo a alguem - que tambem podem ser vanos ou urna assembleia estado dos jogos das representa,oes urnas contra as outras- - 0 direito de representa-los, total e integralmente. Nao se nao e urna fase que 0 homem abandonaria definitivamente

7. Em toda a discussao que se segue, M. Foucault se refere ao Leviathan,

6. Ibid., p. 62 (trad. fro citada, p. 124). segunda parte (trad. fr,; "De la repubIique"), caps. XVII, XVIII, XIX, XX. 108 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 4 DE FEVEREIRO DE 1976 109

trata de uma rela,ao de cessao ou de delega,ao de algo per- constituido a partir do modelo de que acabei de falar, 0 mo- tencente aos individuos, mas de uma representa,ao dos pr6- deJa da institui,ao. Suponbamos agora que esse Estado seja prios individuos. Isto quer dizer que 0 soberano assim cons- atacado por outro numa guerra, com batalhas reais e deci- tituido valera integralmente para os individuos. Ele nao teni, saes armadas. Suponbamos que um dos dois Estados assim pura e simplesmente, uma parte do direito deles; estari ver- constituidos seja vencido pelo outro: seu exercito e vencido, dadeiramente no lugar deles, com a totalidade do poder deles. dispersado, sua soberania destruida; 0 inimigo ocupa a terra. Como diz Hobbes, "a soberania assim constituida assume a Estamos portanto, enfim, naquilo que procurivamos desde personalidade de todoS"8. E, com a condi,ao desse desloca- o come~o, isto e, numa verdadeira guerra, com uma verda- mento, os individuos assim representados estarao presentes deira batalha, uma verdadeira rela,ao de for,a. Hi vencedo- em seu representante; e 0 que 0 representante - ou seja, 0 res e vencidos, e os vencidos estao amerce dos vencedores soberano - fizer, cada um deles, por isso mesmo, estari fa- a sua disposi,ao. Olhemos agora 0 que vai acontecer: os ven~ zendo. Enquanto representante dos individuos, 0 soberano e cidos estao a disposi,ao dos vencedores, isto e, estes podem modelado exatamente com base nos individuos mesmos. E, matar os vencidos. Se eles os matam, ji nao bi, e evidente, pois, uma individualidade fabricada, mas e uma individua- problema: a soberania do Estado desaparece pura e simples- lidade real. Quando 0 soberano e um monarca naturalmente mente porque os individuos desse Estado desapareceram. individual, isso nao 0 impede de ser fabricado como sobera- Mas se os vencedores deixam a vida aDS vencidos, 0 que e no; e, quando se trata de uma assembleia - embora se trate que vai acontecer? Deixando a vida aDS vencidos, OU melhor, de um grupo de individuos -, nao deixa de se tratar de uma tendo os vencidos 0 beneficia provis6rio da vida, das duas individualidade. E isso, portanto, no que concerne as repu- uma: ou eles VaG revoltar-se contra os vencedores ou seja blicas de institui,ao. Voces veem que, nesse mecanismo, bi recome,ar efetivamente a guerra, tentar inverter ~ rela,a~ somente 0 jogo da vontade, do pacto, da representa,ao. de for,a, e estamos de novo naquela guerra real que a der-

Olhemos agora a outra forma de constitui,ao das repu- rota acabava, pelo menos provisoriamente, de suspender; ou blicas, a outra coisa que pode acontecer a uma republica ou eles correro efetivamente 0 risco de morrer, ou naG recome- a outra: 0 mecanismo da aquisi,a0 9 . Aparentemente, e total- ,am a guerra, aceitam obedecer, trabalhar para os outros, mente diferente, e mesmo justamente 0 contririo. No caso ceder a terra aos vencedores, pagar-Ihes tributos; estamos das republicas de aquisi,ao, parece que lidamos com uma aqui, e evidente, numa rela,ao de domina,ao, totalmente soberania que seria fundamentada nas rela,oes de for,a a um fundamentada na guerra e no prolongamento, na paz, dos s6 tempo reais, hist6ricas e imediatas. Para compreender efeitos da guerra. Domina,ao, dirao voces, e nao soberania. esse mecanismo, cumpre supor nao um estado primitivo de Pois bern, nao, diz Hobbes; estamos ainda e sempre na rela- guerra, mas realmente uma batalha. Vejamos um Estado ji ,ao de soberania. Por que? Porque, uma vez que os vencidos

preferiram a vida e a obediencia, por isso mesmo reconstitui-

ram uma soberania, fizeram de seus vencedores os seus

8. Cf. ibid., p. 88; cap. XVIII (trad. fro citada, p. 180). representantes, restauraram urn soberano no lugar daquele

9. Ibid., cap. XX. que a guerra havia derrubado. Nao e, pois, a derrota que fun- liD EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 4 DE FEVEREJRODE 1976 III

damenta urna sociedade de domina,ao, de escravidao, de ser- vencido~, no crepusculo da derrota, nao hi diferen,a de na- vidao, de urna maneira brutal e fora do direito, mas 0 que se tureza. E que, de fato, Hobbes quer mostrar que 0 que e passou nessa derrota, depois mesmo da batalha, depois decisivo na constitui,ao da soberania nao e a qualidade da mesmo da derrota, e de certa maneira independentemente vontade, nem mesmo sua forma de expressao ou seu nivel. dela: e algo que e 0 medo, a renUncia ao medo, a renUncia No fundo, pouco importa que se esteja com a faca na gar- aos riscos da vida. E isso que faz entrar na ordem da sobe- ganta, pouco imporya que se possa ou nao formular explici- rania e nurn regime juridico que e 0 do poder absoluto. A tamente a vontade. E preciso e basta, para que haja soberania, vontade de preferir a vida it morte: e isso que vai fundamen- que esteja efetivamente presente urna certa vontade radical que tar a soberania, urna soberania que e tao juridica e legitima faz que se queira viver mesmo quando nao se pode viver quanta aquela que foi constituida a partir do modo da insti- sem a vontade de urn outro. tui,ao e do acordo mutuo. Portanto, a soberania se constitui a partir de uma forma

De urna forma bern estrarrha, Hobbes acrescenta a essas radical de vontade, forma que importa poucO. Esta vontade duas formas de soberania - a da aquisi,ao e a da institui,ao e vinculada ao medo e a soberania nunca se forma por cima, - uma terceira, da qual diz que e muito proxima daquela da ou seja, por uma decisao do mais forte, do vencedor, ou dos aquisi,ao, daquela que aparece no crepusculo da guerra e pais. A soberania se forma sempre por baixo, pela vontade apos a derrota. Esse outro tipo de soberania e aquela, diz ele, daqueles que tern medo. De sorte que, apesar do corte que que liga uma crian9a aos pais - au, mais exatamente, a pode aparecer entre as duas grandes formas de republica (a mae lO . Suponbamos, diz ele, urna crian,a que nasce. Seus da institui,ao nascida atraves de rela,ao mutua e a de aqui- pais (0 pai, numa sociedade civil, a mae, no estado de natu- si,ao nascida da batalha), aparece entre ambas uma identi- reza) podem perfeitamente deixi-Ia morrer, ou mesmo faze-la, dade profunda de mecanismos. Nao importa se se trata de pura e simplesmente, morrer. Ela nao pode, em nenburn caso, urn acordo, de uma batalha, de uma rela,ao pais/filhos; de viver sem os pais, sem a mae. E, durante aIlOS, espontanea- qualquer forma encontramos a mesma serie: vontade, medo mente, sem que tenba de formular sua vontade de outra ma- e soberania. E pouco importa que essa serie seja desenca- neira senao pela manifesta,ao de suas necessidades, de seus deada por urn cilculo implicito, por uma rela,ao de violen- berros, de seu medo, etc., a crian,a vai obedecer aos pais, it cia, por urn fato natural; pouco importa que seja 0 medo que mae, vai fazer exatamente 0 que ela Ihe mandar fazer, por- engendre uma diplomacia infinita, que seja 0 medo de urna que e dela, e dela somente, que depende sua vida. Portanto, faca na garganta ou 0 choro de uma crian,a. De qualquer a mae vai exercer sobre ela sua soberania. Ora, diz Hobbes, forma, a soberania esti fundada. No fundo, tudo se passa entre esse consentimento da crian,a (consentimento que nem como se Hobbes, longe de ser 0 teorico das rela,oes entre a sequer passa por urna vontade expressa ou por urn contrato) guerra e 0 poder politico, tivesse desejado eliminar a guerra it soberania da mae para conservar sua propria vida e 0 dos como realidade historica, como se ele tivesse desejado eli-

minar a genese da soberania. Hi no Leviatii todo urn inicio do

discurso que consiste em dizer: pouco importa que nos tenba-

to. Ibid. Cf. tambem De Cive, II, IX. mos combatido ou nao, pouco importa que voces tenham 112 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 4 DE FEVEREIRO DE 1976 113

sido vencidos au oao; de qualquer forma, e 0 meSilla meca- tegia teorica e politica que Hobbes queria, precisamente, eli- nismo que intervem para voces, os vencidos, 0 meSilla que minar e tornar impossive!. 0 que Hobbes queria, pois, nao encontramos no estado natural, na constitui,ao do Estado, ou refutar mas tamar impossivel, esse vis-a-vis estrategico, era que encontramos ainda, com toda a naturalidade, na rela,ao uma certa maneira de fazer 0 saber historico funcionar na mais terna e mais natural que ha, ou seja, aquela entre os pais luta politica. Mais precisamente, 0 vis-a-vis estrategico do e os filhos. Hobbes torna a guerra, 0 fato da guerra, a rela,ao Leviata .0, acho eu, a utiliza,ao politica, nas lutas contem- de for,a efetivamente manifestada na batalha, indiferentes a poriioeas, de certo saber historico referente as guerras, as in- constitui,ao da soberania. A constitui,ao da soberania igno- vas5es, as pilhagens, as espoliac;oes, aos confiscos, as rapinas, ra a guerra. E haja ou nao guerra, essa constitui,ao se faz da as extors5es, e os efeitos de tudo isso, os efeitos de todos mesma forroa. No fundo, 0 discurso de Hobbes .0 urn certo esses comportamentos de guerra, de todos os feitos de bata- "nao" a guerra: nao .0 ela realmente que engendra os Esta- lhas e das lutas reais nas leis e nas institui,5es que aparen- dos, nao .0 ela que se ve transcrita nas rela,5es de soberania temente regulamentam 0 poder. ou que reconduz ao poder civil - e as suas desigualdades - Nurna palavra, 0 que Hobbes quer eliminar .0 a con- dissimetrias anteriores de uma rela,ao de for,a que teriam quista, ou ainda a utiliza,ao, no discurso historico e na pri- side manifestadas no proprio fato da batalha. tica politica, desse problema que .0 0 da conquista. 0 adver-

Dai 0 problema: a quem, ao que se dirige essa elimina- sano invisivel do Leviata .0 a conquista. Esse enorroe homem ,ao da guerra, ficando entendido que nunca, nas teorias ju- artificial que tanto fez estremecer todos os partidarios da ridicas do poder anteriormente formuladas, nunca a guerra ordem estabelecida do direito e da filosofia, 0 ogro estatal, havia desempenhado esse papel que Hobbes Ihe recusa com a enorroe silhueta que se destaca na vinheta que abre 0 Le- teimosia? A que adversano, no fundo, Hobbes se dirige quan- viatii e que representa 0 rei com a espada erguida e 0 baculo do, em todo urn estrato, em toda uma linha, em toda urna na mao, no fundo ele pensava bern. E .0 por isso que, final- frente de seu discurso, ele repete obstinadamente: mas, de mente, mesmo os filosofos que tanto 0 censuraram, no fundo, qualquer forma, nao tern importiincia que haja ou nao uma o amaro, e por isso que seu cinismo encantou meSilla os guerra; nao .0 de guerra que se trata na constitui,ao das so- mais timoratos. Parecendo proclamar a guerra em toda par- beranias. Eu acho que aquilo a que se dirige 0 discurso de te, do inicio ate 0 fim, 0 discurso de Hobbes dizia, na reali- Hobbes nao .0, se voces quiserem, urna teoria precisa e deter- dade, justo 0 contrario. Dizia que, guerra ou nao guerra, minada, algo que seria como que seu adversario, seu parcei- derrota ou nao, conquista ou acordo, .0 tudo a mesma coisa: ro polemico; nao .0, tampouco, algo que seria como que 0 "V6s a quisestes, sois vos, os suditos, que constituistes a 80- nao-dito, 0 incontornavel do discurso de Hobbes e que berania que vos representa. Nao nos aborreceis mais, por- Hobbes tentaria, apesar de tudo, contornar. De fato, na epo- tanto, com vossos repisamentos historicos: ao cabo da con- ca em que Hobbes escrevia, havia algo que se poderia cha- quista (se quiserdes realmente que tenha havido urna conquis- mar nao de seu adversario polemica, mas de seu vis-a-vis tal, encontrareis ainda 0 contrato, a vontade amedrontada estrategico. Ou seja, menos certo contelido do discurso que dos sliditos." 0 problema da conquista esta, portanto, assim se deveria refutar, do que certo jogo discursivo, certa estra- resolvido, no inicio por essa no,ao de guerra de todos con- 114 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 4 DE FEVEREIRO DE 1976 115

tra todos e no final pela vontade, juridicamente ate valida, do outro; e depois, 0 outro fenomeno que veio juntar-se a este, desses vencidos amedrontados, no crepusculo da batalha. a consciencia, que era muito viva fazia seculos e ate nas Logo, creio que Hobbes pode mesmo parecer escandalizar. camadas populares mais amplas, do fato historico da velha Na verdade, ele tranqiiiliza: enuncia sempre 0 discurso do clivagem da conquista. contrato e da soberania, ou seja, 0 discurso do Estado. Eo Essa presen,a da conquista normanda de Guilherme, a claro, censuraram-Ihe, e VaG censurar-lhe ruidosamente, dar de 1066, em Hastings, manifestara-se, manifeslava-se de mui- demais a esse Estado. Mas, afinal de conlas, e preferivel, tas formas ao mesmo tempo, nas institui,oes e na experiencia para a filosofia e para 0 direito, para 0 discurso filosofico- historica dos suditos politicos na Inglaterra. Ela se manifes- juridico, dar demais ao Estado a nao the dar 0 suficiente. E, tava sobretudo, muito explicitamente, nos rituais de poder, mesmo criticando-o por ter dado demais ao Estado, em sur- urna vez que ate Henrique VII, ou seja, no inicio do seculo dina sao-lhe reconhecidos por ter conjurado certo inimigo XVI, os atos reais precisavam bern que 0 rei da Inglaterra insidioso e barbaro. exercia sua soberania em virtude do direito de conquista.

o inimigo - ou melhor, 0 discurso inimigo ao qual se Ele se apresentava como sucessor do direito de conquiSla dos dirige Hobbes - e aquele que se ouvia nas lutas civis que normandos. Portanto, a formula desapareceu com Henrique fissuravam 0 Estado, naquele momento, na Inglaterra. Eo urn VII. Essa presen,a da conquista tambem se manifestava na discurso com duas vozes. Vma dizia: "Somos os conquista- pratica do direito, cujos atos e processos se faziam em lin- dores e sois os vencidos. Talvez sejamos estrangeiros, mas vos gua francesa, e na qual tambem os conflitos entre jurisdi- sois domesticos." Ao que a outra voz respondia: "Talvez te- ,oes inferiores e tribunais regios eram absolutamente cons- nhamos sido conquistados, mas nao 0 permaneceremos. lantes. Formulado de cima e em idioma estrangeiro, 0 direito Estamos em nosso pais e vos saireis dele." Foi esse discurso era na Inglaterra urn estigma da presen,a estrangeira, era a da luta e da guerra civil permanente que Hobbes conjurou marca de outra na,ao. Nessa prlitica do direito, nesse direito ao repor 0 contrato atras de toda guerra e de toda conquista e formulado noutra lingua, vinham juntar-se, de urna parte, salvando assim a teoria do Estado. Oai 0 fato, e claro, de a aquilo a que eu chamaria 0 "sofrimento lingiiistico" daque- filosofia do direito ter dado depois, como recompensa, a les que nao podem se defender juridicamente em seu pro- Hobbes 0 titulo senatorial de pai da filosofia politica. Quan- prio idioma, e, da outra, uma certa figura estrangeira da lei. do 0 capitolio do ESlado foi amea,ado, urn ganso despertou Nessa dupla medida, a pratica do direito era inacessivel. Oai os filosofos que dormiam. Foi Hobbes. a reivindica,ao que se encontra muito cedo na Idade Media

Esse discurso (ou melhor, eSsa prlitica) contra 0 qual inglesa: "Queremos urn direito que seja nosso, urn direito que Hobbes erguia todo urn muro do Leviatii, parece-me que se formule em nossa lingua, que seja unificado por baixo, a

surgiu - se nao pela primeira vez, pelo menos com suas di- partir da lei comum que se opoe aos estatutos regios." A

mensoes essenciais e sua virulencia politica - na Inglaterra, conquista - eu tome as coisas urn pOlleD ao acaso - mani- e sem duvida pelo efeito da conjun,ao de dois fenomenos: festava-se tambem na presen,a, na sobreposi,ao e no en- primeiro, claro, a precocidade da luta politica da burguesia frentamento de dois conjuntos legendarios heterogeneos: de

contra a monarquia absoluta, de urn lado, e a aristocracia, urn lado, 0 conjunto das narrativas saxas, que no fundo , 116 EM DEFESA DA SOCIEDADE

AULA DE 4 DE FEVEREIRO DE 1976

117


eram narrativas populares, cren9as miticas (a ~olta dOdrei mandos, em proveito da aristocracia e da monarquia norman-

Haroldo) cultos dos reis santos (como 0 do r~l Eduar 0), das, por causa das multiplas rela90es que havia entre os nor-

narrativa~ populares do tipo Robin Hood (e sera dedssa mlto- mandos, em seu pais de origem, e a Bretanha e os bretoes:

-

logia como voces sab em, que Walter Scott -" urn os gran- logo, dois conjuntos mitol6gicos fortes, em tomo dos quais



.' . d esdeMarxll-extrainilvanhoeecertonurne-

des msplra or 't . aa a Inglaterra sonhava, em modos absolutamente diferentes,

ro de romances l2 que foram historicamente capl als par _ seu passado e sua hist6ria.

consciencia hist6rica do seculo XIX). Olante desse conJun

Bem mais importante do que tudo isso, 0 que marcava

os

to mitol6gico e popuIar encont ram, ao contrano ' urn can-



" a presen9a e os efeitos da conquista na Inglaterra, era toda

junto de lendas aristocniticas e quase monarq~lcas que~e urna mem6ria hist6rica das revo!tas, que tinham, cada urna

desenvolvem na corte dos reis normandos e que sao reatlVa s

delas, efeitos politicos bem precisos. Algumas dessas revol-

, I XVI no momenta do desenvolvlmento do abso-

no secu 0 , . Imente da tas tinham, alias, um carater racial sem duvida muito acen-

. 'ico dos Tudor" Trata-se essenCla

lutlsmo monarqu t a len tuado, como a primeira delas, as de Monmouth, por exem-

lenda do ciclo arturiano l3 . Claro, nao e exa:amen e. um_ - plol4 Outras (como aquela ao fim da qual fora concedida a

da normanda mas uma lenda nao-saxa. E a reatlva9ao de Magna Carta) haviam ocasionado a limita9ao do poder regio

Ih lenda; celticas que foram redescobertas pelos n~r

vean~~s sob a camada saxa das popula90es.. Essas lendas cel- e medidas precisas de expulsao dos estrangeiros (no caso,

tlcas ~ m com toda a naturalidade reatlvadas pelos nor-

menos normandos do que poitevinos, angevinos, etc.). Mas

m lora tratava-se de urn direito do povo ingles que estava vincula-

do a necessidade de expulsar estrangeiros. Havia, portanto,

, S f ' E Marx-Aveling, "Karl Marx toda uma serie de elementos que permitiam codificar as

11. Sabre K. Marx lettor de W. co~, c... ur das Jakr 1895, pp.

- Lose Blatter", in Osterreichischer Arbelter-~alender fi L' . Leipziger

grandes oposi90es sociais nas formas hist6ricas da conquista

4· F M hri Karl Marx; Geschichte semes Lebens, etpzlg, . . e da domina9ao de wna ra,a sobre a outra. Tal codifica9ao,

51-, . eng,. XV I (trad. fr.: Karl Marx, HLStOlre

Buchdruckerei Actlengesellschaft, 1918, '. M. L dres T. ou, em todo caso, os elementos que permitiam tal codifica-

de sa VIe, Pan's , Editions Sociales, 1983); I. Berhn, Karl arx, on

. ,

9ao eram antigos. Encontramos, ja na Idade Media, nas cro-



Butterworth, 1939, cap. XI... In 1 t rra de Ricardo Corayao de Leaa; nicas, frases como estas: "Dos normandos descendem as

12 A ayao de Ivanhoe se situa na g a e d L . XI Co-

. do plano a Franl;a e UlS . a!tas personalidades deste pais; os homens de baixa condi-

Quentin Durward (~823) temhco~o ~e~ Thierry e sabre a teoria dos con-

nhece~se a influencla de Ivan oe so re . ,ao sao filhos dos saxoes."15 Isto quer dizer que os confIitos

quistadores e dos eonquista~~s. 1 dan e das narrativas centradas em tomo - politicos, economicos, juridicos - eram, por causa destes

13. E 0 eiclo das tradu;oes t: ~ chefe cia resistencia a invasao dos

n

da figura mitiea do so~er~o ~~taa:~ do se~ulo V. Essas trad i90es e essas nar-



saxoes por volta cia pnmerra . . ' I XII por Geoffrey of 14. Geoffrey of Monmouth conta a historia da na9ao breta a partir do

- .das la pnmerra vez no seeu 0

rativas serao reum . ~e [' gum Britanniae libri XII (Heidelberg, primeiro conquistador, 0 troiano Bruto; historia que, depois das conquistas

Monmouth em De orzgme et ges IS re d B t (1155) e Roman de Rou romanas, redundou na resistencia dos bretoes contra os invasores saxiSes e na

1687), e depois por Robert Wa~e e~,R0m.a~ ~etii~ remanejacia por Chretien decadencia do reino bretao. Trata-se de uma das obras mais populares da

( 1160-1174)·eoquesedenommaa matenab, d . ul XII Idade Media, que introduziu a lenda arturiana nas literaturas europeias.

de Troyes em' Lancelot e em PercevaI , no curso cia segunda metade 0 sec 0 . 15. M. Foucault, no manuscrito, menciona a "Cronica de Gloucester". 118 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 4 DE FEVEREIRO DE 1976 119

elementos que acabo de enumerar, com muita facilidade ar- que ele fosse efetivamente 0 proprietario da Inglaterra - ti- ticulados, codificados e transformados nurn discurso, em dis- nha urn sinal e urna cau,ao historicos na vitoria normanda. cursos que eram os da oposi,ao das ra,as. E, de urna maneira E, quando ainda era apenas rei da Escocia, Jaime I dizia bern logica, no final do seculo XVI e no inicio do seculo XVII, que, como os normandos tomaram posse da Inglaterra, as quando apareceram novas formas politicas de luta, entre a leis do reino sao estabelecidas por eles 17 - 0 que tinba duas burguesia, de urn lado, e a aristocracia e a monarquia, do ou- conseqiiencias. Primeiro, que a Inglaterra fora tomada e, por- tro, foi ainda nesse vocabulario da luta racial [que esses con- tanto, que todas as terras inglesas pertenciam aos norman- flitos] se expressaram. Essa especie de codifica,ao ou, pelo dos e ao chefe dos normandos, ou seja, ao rei. E enquanto menos, os elementos que estavam prontos para a codifica- chefe dos normandos que 0 rei tern efetivamente a posse da ,ao intervieram muito naturalmente. E, se eu digo codifica,ao, terra inglesa, e seu proprietario. Segundo, 0 direito nao tern e porque a teoria das ra,as nao funcionou como urna tese de ser 0 direito comurn as diferentes popula,oes sobre as particular de urn gropo contra 0 outro. De fato, nessa cliva- quais se exerce a soberania; 0 direito e a propria marca da gem das ra,as e em seus sistemas de oposi,ao, tratou-se de soberania normanda, foi estabelecido pelos normandos e, e urna especie de instrumento, a urn so tempo discursivo e po- evidente, para eles. E, com uma habilidade que devia inco- litico, que permitia a ambos os lados formularem suas pro- prias teses. A discussao juridico-politica dos direitos do so- berano e dos direitos do povo deu-se na Inglaterra, no se- derivata est" (Jaime I, Oratio habita in camera stellata [1616J, in Opera edita

a Jacobo Montacuto ... , Francofurti ad Moenum et Lipsiae, 1689, p. 253). culo XVII, a partir dessa especie de vocabulario [engendrado

"Nihil est in terris quod non sit infra Monarchiae fastigium. Nee eoim solum pelo] fato da conquista, pela rela,ao de domina,ao de uma Dei Vicarii sunt Reges, deique throno insident: sed ab ipso Dea Deorum ra,a sobre a outra e pela revolta - ou pela amea,a perma- nomine honorantur" (Oratio habita in comitis regni ad omnes ordines in

nente da revolta - dos vencidos contra os vencedores. E, en- pa/atio albaulae [1609], in Opera edita..., p. 245; sabre 0 "Divine Right of

tao, voces vao encontrar a teoria das ra,as, ou 0 tema das Kings" ver tambem 0 Basilikon doron, sive De Institutione principis. in

ra,as, tanto nas posi,oes do absolutismo monirrquico quan- Opera edita... , pp. 63·85).

17. "Et quamquam in aliis regionibus ingentes regii sanguinis factae sint

to nas dos parlamentares ou parlamentaristas, quanto nas mutationes, sceptri jure ad novos Dominos jure belli translato; eadem tamen

posi,oes mais extremas dos Levellers ou dos Diggers. illic cernitur in terram et subditos potestatis regiae vis, quae apud nos, qui

A primazia da conquista e da domina,ao, voces a Dominos numquam mutavimus. Quum spurius iIle Nonnandicus validissimo

encontram efetivamente formulada naquilo a que chamarei, cum exercitu in Angliam transiisset, quo, obsecro nisi annorum et belli jure Rex

com uma palavra, "0 discurso do rei". Quando Jaime I de- factus est? At ille leges dedit, non accepit, et vetus jus, et consuetudinem regni

antiquavit, et avitis possessionibus eversis homines novas et peregrinos impo-

clarava a Camara Estrelada que os reis sentam-se no trono

suit, suae militiae comites; quemad.modum hodie pleraque Angliae nobilitas

de Deus 16 , ele se referia, claro, a teoria teologico-politica do Nonnannicam prae se fert originem; et leges Nonnannico scriptae idiomatem

direito divino. Mas, para ele, essa elei,ao divina - que fazia facilem testantur auctorem. Nihilominus posteri ejus sceptrum illud hactenus

faciliter tenuerunt. Nee hoc soli Nonnanno licuit: idem jus omnibus fuit, qui

ante illum vietae Angliae leges dederunt" (Jaime I, Jus liberae Monarchiae,

16. "Monarchae proprie sunt judices, quibus juris dicendi potestatem sive De mutuis Regis liberi et populi nascendi conditione illi subditi officiis proprie commisit Deus. Nam in throno Dei sedent, unde omnis ea facultas [1598], in Opera edita... , op. cit., p. 91). 120 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 4 DE FEVEREIRO DE 1976 121 ;'

"

iI



madar razoavelmente os adversfui.os, 0 rei, au pelo menos transportou, claro, modelos europeus para outros continentes os partidarios do discurso do rei, faziam valer uma estra- mas que ela tambem teve numerosas repercussoes sobre o~ nhissima, mas importantissima, analogia. Eu creio que foi mec~sm?s de poder no Ocidente, sobre os aparelhos, insti- Blackwood que a formulou pela primeira vez em 1581, num tw90es e tecmcas de pader. Houve toda urna serie de modelos texto que se chama Apologia pro regibus, onde se diz isto colomms que foram trazidos para 0 Ocidente e que fez com que e muito curioso. Ele diz: "De fato, deve-se compreen- que 0 OCldente pudesse praticar tambem em si mesmo a!go der a situa9aO da Inglaterra na epoca da invasao normanda como uma coloniza9iio, um colonialismo intemo. como se compreende agora a situa9ao da America perante as Ai esta como 0 tema da oposi9ao das ra9as funcionava potencias que ainda nao se denominavam coloniais. Os nor- no dlscurso d~ rei. Foi esse mesmo tema da conquista nor- mandos foram na lnglaterra 0 que a gente da Europa e atual- manda que artlculou a propria replica que os parlamentares mente na America." Blackwood fazia urn paralelo entre opunham a esse dlSCurSO do rei. 0 modo como os parla- Guilherme, 0 Conquistador, e Carlos V. Dizia, a proposito de mentares refutavam as pretensoes do absolutismo monarqui- Carlos V: "Ele submeteu pela for9a uma parte das jndias co se artlculava, tambem ele, com base nesse dualismo das Oddentais, deixou aos vencidos seus bens, nao em proprie- ra9as e no fato da conquista. A analise dos parlamentares e dade nua, mas simplesmente em usufruto, e mediante uma dos parlamentanstas come9ava, de maneira paradoxa! com presta9aO. Pois bern, 0 que Carlos V fez na America, e que urn tIpo de nega9ao da conquista, ou melhor, de envolvimen- achamos perfeitamente legitimo, ja que fazemos a mesma to da conqulsta num elogio de Guilherme, 0 Conquistador, e coisa, nao nos enganemos, os normandos fizeram na 10- de sua IegltImldade. Ai esta como eles realizavam sua ana- glaterra. Os normandos estao na lnglaterra com 0 mesmo lise. DlZl~: ~inguem deve se enganar a esse respeito _ e, direito que nos na America, ou seja, com 0 direito que e 0 msto, voces veem quanta estamos proximos de Hobbes _

HastIngs, a batalha, a propria guerra, nao e isso 0 importante: da coloniza9aO."18

No fundo, G~I!herme era mesmo 0 rei legitimo. E era mes-

E temos, nesse final no seculo XVI, se nao pela primeira

mo 0 rei legltIm~, pura e simplesmente porque (e entao se vez, pelo menos uma primeira vez, acho eu, uma especie de

exumava certo numero de fatos historicos, verdadeiros ou repercussao, sobre as estruturas juridico-politicas do Ociden-

falsos) Haroldo - antes mesmo da morte de Eduardo, 0 Con- te, da pratica colonial. Nunca se deve esquecer que a coloni- fessor, que havla realmente designado Guilherme como seu za.;:ao, com suas tecnicas e suas armas politicas e juridicas, sucessor - prestara 0 juramento de que nao se tomaria rei da

lnglaterra mas cederia 0 trono ou aceitaria que Guilherme

sublsseao trono da lnglaterra. De qualquer forma, isso nao

18. "Carolus quintus imperator nostra memoria partem quandam occi- o~orrena: tendo Harol?o morrido na batalha de Hastings, ja dentalium insularum, veteribus ignotam, nobis Americae, vocabulo non ita pridem auditam, vi subegit, victis sua reliquit, non mancipio, sed U511, nee eo

nao havla sucessor legrtImo - se se admitisse a legitimidade quidem perpetua, nee gratuito, ac immuni (quod Anglis obtgit Vilielmi Dothi de Haroldo - e, por conseguinte, a coroa devia pura e sim- beneficia) sed in vitae tempus annuae prestationi certa lege locationis obliga- pl~smente caber a GUilherme. De sorte que Guilherme nao tal' (A. Blackwood, Adversus Georgii Buchanani dialogum, de jure regni vew a ser oconquistador da lnglaterra, mas veio a ser herdei- apud ScoloS, pro regibus apologia, Pictavis, apud Pagaeum, 1581, p. 69). ro dos dlreltos, dos direitos nao de uma conquista, mas do 122 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 4 DE FEVEREIRO DE 1976 123

reino da Inglaterra tal como ele existia. Veio a ser herdeiro de vinheta, que se pode por em paralelo com a do Leviatii, de um reino que era vinculado por certo nillnero de leis - e disposta assim: numa faiJm, urna bataIha, duas tropas armadas herdeiro de uma soberania que era limitada pelas leis mes- (trata-se evidentemente dos normandos e dos saxoes em mas do regime saxao. Isso faz que 0 que legitima, nessa Hastings) e, no meio das duas tropas, 0 cadaver do rei Ha- analise, a monarquia de Guilherme, seja igualmente 0 que roldo; logo, a monarquia Iegitima dos saxoes desapareceu , lhe limita 0 poder. Alias, acrescentam os parlamentaristas, se efetivamente. Embaixo uma cena, em formato maior, repre- \' se tivesse tratado de uma conquista, se realmente a batalha senta Guilherme sendo coroado. Mas esse coroamento e en- de Hastings tivesse acarretado uma rela9ao de pura domina- cenado da seguinte maneira: uma estalua chamada Britiinia 9ao dos normandos sobre os saxoes, a conquista nao pode- estende a Guilherme um papel no qual se Ie: "Leis da Ingla- ria ter-se mantido. Como voces quereriam - dizem eles - que terra"20. 0 rei Guilherme recebe sua coroa de um arcebispo algumas dezenas de milhares de infelizes normandos, per- de York, enquanto outro eclesiastico estende-Ihe um papel no didos nas terras da Inglaterra, possam ter-se mantido nelas qual hi: "Juramento do rei"21. De sorte que, com isso, repre- e assegurado efetivamente um poder permanente? Teriam senta-se que Guilherme nao e efetivamente 0 conquistador sido de qualquer forma assassinados em suas camas no cre- que pretendia ser, mas e 0 herdeiro legitimo, um herdeiro puscuIo da batalha. Ora, ao menos num primeiro tempo, nao cuja soberania esta limitada pelas leis da Inglaterra, pelo re- houve grandes revoltas, 0 que prova bem que, no fundo, os

conhecimento da Igreja e pelo juramento que ele prestou. vencidos nao se consideravam tanto como vencidos e ocu-

Winston Churchill, 0 do seculo XVII, escrevia em 1675: "No pados por vencedores, mas reconheciam efetivamente nos

fundo, Guilherme nao conquistou a Inglaterra; foram os normandos homens que podiam exercer 0 poder. Assim, com

ingleses que conquistaram Guilherme."22 E foi simplesmen- essa aceital;ao, com esse nao-massacre dos normandos e

te depois dessa transferencia ~ perfeitamente legitima ~ do com essa nao-revolta, eles validavam a monarquia de Gui-

poder saxao para 0 rei normando, dizem os parlamentaristas, Iherme. E Guilherme, alias, prestara juramento, fora coroa- do pelo arcebispo de York; haviam-Ihe dado a coroa e ele se que come90u realmente a conquista, isto e, todo um jogo de comprometera, no decorrer dessa cerimonia, a respeitar as espolia90es, de desmandos, de abuso de direito. A conquista leis das quais os cronistas diziam que eram leis boas, antigas, foi essa longa deturpa9ao que seguiu a instala9ao dos nor- aceitas e aprovadas. Logo, ele estava vinculado ao sistema da mandos e que organizou na Inglaterra aquilo que se chama monarquia saxa que 0 havia precedido. com razao naquele momento 0 "normandismo", au 0 "juga

Num texto que se chama Argumentum Anti-Normanni- cum 19 e que e representativo dessa tese, ve-se uma especie 20. "The excellent and most famous Laws of St. Edward."

21. "Coronation Oath." Para a ilustra9ao dessa vinheta, ver, "An Ex-

planation of the Frontispiece", in Argumentum Anti-Nomannicum... , op. cit., 4

19. Argumentum Anti-Normannicum. or an Argument proving, from p. s. fo!. ancient histories and records, that William, Duke of Normandy, made no 22. W. S. Churchill, Divi Britannici, being a remark upon the lives ofall absolute conquest of England by the word, in the sense of our modern wri- the Kings of this Isle, from the year of the world 2855 unto the year ofgrace ters, Londres, 1682. Esta obra foi erroneamente atribuida a E. Coke. 1660, Londres, 1675, fols. 189-90.

124 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 4 DE FEVEREIRO DE 1976 125

nonnando"23, isto e, urn regime politico sistematicamente de, sob 0 titulo de Miroirs de justice", se lratava de urna ex-

dissimetrico e sistematicamente favoravel it aristocracia e it posi9ao de certo nfunero de pr:iticas de jurisprudencia, de

monarquia normandas. E foi contra esse "nonnandismo" - e direito privado e publico, da Idade Media. Coke 0 fez funcio- nilo contra Guilherme - que ocorreram todas as revoltas da nar como a exposi9ao do direito saxilo. Representavam esse Idade Media; foi contra esses abusos, atrelados it monarquia direito saxilo como a lei original e, ao mesmo tempo, histo- normanda, que foram impostos os direitos do Parlamento, ricamente aut1mtica - dai a importilocia desse manuscrito - verdadeiro herdeiro da tradi9ilo saxil; foi contra esse "nor- do povo saxilo, que elegia seus chefes, que tinha seus pr6prios mandismo", posterior a Hastings e ao advento de Guilher- juizes* e s6 reconhecia 0 poder do rei em tempos de guer- me, que lutaram os tribunais inferiores quando queriam abso- ra, como chefe de guerra e nilo, em absoluto, como exercendo lutamente impor a "lei comurn"* contra os estatutos regios. uma soberania absoluta e incontrolada sobre 0 corpo social. Econtra ele tambem que a luta atual, a do seculo XVII, esta Tratava-se, pois, de urna figura hist6rica que tentavam - me- desenrolando-se.

diante as pesquisas sobre a antiguidade do direito - fixar sob

Ora, 0 que e esse velho direito saxilo que vemos foi

uma forma historicamente precisa. Mas, ao mesmo tempo, aceito, de fato e de direito, por Guilherme, que vemos tam-

esse direito saxao se mostrava e era caracterizado como a ex- bern que os normandos quiseram sufocar ou deturpar nos

pressilo mesma da razilo humana no estado natural. Juristas anos que se seguiram it conquista e que, com a Magna Carta, com a institui9ilO do Parlamento e com a revolu9ilo do se- culo XVII, tentou-se restabelecer? Pois bern, trata-se de urna tues and substances embellies which I have observed, and which have been certa lei saxa. E, nesse ponto, interveio de uma forma im- used by holy customs since the time of King Arthur and C. [ ... ] In this booke

in effect appeareth the whole frame of the auntient common Lawes of this portante a influencia de urn jurista que se chamava Coke e

Realme" (E. Coke, La Neufme Part des Reports de S. Edv. Coke, Londres, que pretendia ter descoberto, que efetivamente havia desco- 1613, Prefacio "Lectori/To the Reader", fols. 1-32 pp. ss. Cf. tambem La berto, urn manuscrito do seculo XIII que ele pretendia que Tierce Part des Reports de S. Edv. Coke, Londres, 1602, Prefacio, fols. 9·17; era a formula9ilo das velhas leis saxils'4, quando, na realida- La Huictfeme Part des Reports de S. Edv. Coke, Londres, 1611, Prefacio; La

Dix.me Part des Reports de S. Edv. Coke, Londres, 1614, Prefacio, fols. 1-48,

quanto aexposi9ao da historia "of the nationall Lawes of their native country".

23. A teoria do "Norman yoke" (Oil do "Norman bondage") fora difun- Hi que assinalar que Coke se referira a Mirrors ofiustice igualmente em seus dicta, ao longo dos seculos XVI e XVII, por escritores politicos (Blackwood, institutes. Ver em especial The Fourth Part of the Institutes of the Laws of etc.), pelos "Elizabethan Chroniclers" (Holinshed, Speed, Daniel, etc.), pela England, Londres, 1644, caps. VIII, XI, XIII, XXXV; mas sobretudo The "Society of Antiquarians" (Detden, Harrison, Nowell), pelos juristas (Coke, Second Part ofthe institutes ofthe Laws ofEngland, Londres, 1642, pp. 5-78). etc.), com 0 objetivo de "glorify the pre-Norman past", antes da invasao e da 25. The Mirror ofJustice e urn texto escrito originariamente em frances conquista. no tim do seculo XIV,provavelmente por Andrew Hom. Vma tradu9ao ingle-

* Manuscrito: "Common Law". sa de 1646 fani desse texto uma das referencias fundamentais para todos os

24. "I have a very auntient and learned treatise of the Lawes of this partidirios, tanto parlamentaristas quanto radicais revolucionanos, do "Common kingdome whereby this Realme was governed about 1100 years past, of the Law". title and subject of which booke the Author shaltel you himself in these words. '" Manuscrito, no lugar de "que tinha seus pr6prios juizes": "que eram seus Which Summary I have intituled 'The Mirrors oflustice', according to the ver- pr6prios juizes". 126 EM DEFESA DA SOClEDADE AULA DE 4 DE FEVEREIRO DE 1976 127

como Selden26 , por exemplo, ressaltavam que era um direi- Esse mesmo fato da conquista, voces vaG encontra-lo to maravilhoso e bem proximo da razao hurnana, urna vez uma terceira vez, mas desta vez na posi9ao radical daqueles que era na ordem civil quase igual ao de Atenas e, na ordem que foram os mais contranos nao somente amonarquia, mas militar, quase igual ao de Esparta. Quanto ao conteudo das ate aos parlamentaristas, ou seja, nos discursos mais peque- leis religiosas e morais, 0 Estado saxao teria sido muito pro- no-burgueses ou, se voces preferirem, mais populares, dos ximo das leis de Moises. Atenas, Esparta, Moises: 0 saxao Levellers, dos Diggers, etc. Mas dessa vez 0 historicismo so era, e claro, 0 Estado perfeito. Os "saxoes se tomaram" (e no limite extremo vai cair nessa especie de utopia dos direi- nurn texto de 1647 que se diz isto) "urn pouco como os tos naturais de que eu falava M pouco. No fundo, entre os judeus, distintos de qualquer outro povo: suas leis eram dig- Levellers vamos encontrar, de certo modo ao pe da letra, a nas enquanto leis e seu govemo era como 0 reino de Deus, propria tese do absolutismo monarquico. Os Levellers vaG cujo jugo e comodo e cujo fardo e leve"". De sorte que, co- dizer isto: "Efetivamente, a monarquia tem razao quando diz mo voces veem, 0 historicismo que opunbam ao absolutismo que houve invasao, derrota e conquista. E verdade, houve dos Stuart tendia para urna utopia fundadora, em que se urna conquista, e e disso que se deve partir. Mas a monar- mesclavam a urn so tempo a teoria dos direitos naturais, um

quia absoluta se serve do fato da conquista para nele ver 0 modelo historico valorizado e 0 sonbo de uma especie de

fundamento legitimo de seus direitos. Para nos, ao contnirio, reino de Deus. E foi essa utopia do direito saxao, suposta-

ja que vemos [que M] conquista, ja que houve efetivamen- mente reconbecido pela monarquia normanda, que deveria

te derrota dos sax5es perante os normandos, cumpre consi- tomar-se a base juridica da republica nova que os parlamen- tares queriam estabelecer. derar que essa derrota e essa conquista nao sao de modo

algum 0 ponto inicial do direito ~ do direito absoluto ~ mas

sim de um estado de nao-direito que invalida todas as leis e

26. M. Foucault se refere provavelmente a An Historical Discourse of todas as diferen9as sociais que marcam a aristocracia, 0 re- the uniformity of Government of England. The First Part, Londres, 1647, 2

gime da propriedade, etc." Todas as leis, tais como funcio- tomas, redigido por Nathaniel Bacon com base nos manuscritos de John Selden (ver An Historical and Political Discourse of the Laws and Government of nam na Inglaterra - e um texto de John Warr, A corrup<;iio England... collectedfrom some manuscript notes ofJohn Selden... by Nathaniel e a deficiencia das leis inglesas, que diz isto -, devem ser Bacon, Landres, 1689). A prop6sito dos saxoes, Selden diz que "their judicial consideradas "como tricks, armadilhas, maldades"28. As leis were very suitable to the Athenian, but their military more like the Lacede- monian" (p. 15; ver caps. IV-XLIII). De J. Selden cf. tambem Analecton An- globritannicon libri duo, Francofurti, 1615; Jani Anglornm, in Opera omnia 28. "The laws of England are full of tricks, doubts and contrary to them- latina et anglica, Landini, 1726, vol. II. selves; for they were invented and established by the Nonnans, which were of

27. "Thus the Saxons become somewhat like the Jewes, divers from all all nations the most quarrelsome and most fallacious in contriving of contro- other people; their lawes honourable for the King, easie for the subject; and versies and suits" (J. WaIT, The Corrnption and Deficiency of the Laws of their government above all other likest unto that of Christs Kingdome, whose England, Londres, 1649, p. 1; cf. em especial caps. II e III. Ver tambem yoke is easie, and burthen light: but their motion proved so irregular as God Administration Civil and Spiritual in Two Treatises, Londres, 1648, I, § was pleased to reduce them by another way" (An Historical Discourse..., op. cit.. XXXVII). Assina1arnos que a frase de Warr e citada em parte par Ch. Hill, in pp. 112-3). Puritanism and Revolution, Londres, Seeker and Warburg, 1958, p. 78. 128 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 4 DE FEVEREIRO DE 1976 129

sao armadilhas: nao sao de modo algum limites de poder, mas o conjunto do sistema legal - devem ser reconsideradas, re- instrumentos de poder; nao sao meios de fazer reinar a jus- tomadas na base. As rela90es de propriedade sao inteiramen- ti9a, mas meios de fazer servir aos interesses. Em conse- te invalidadas pelo fato da conquista. qiiencia, 0 objeto principal da revolu9ao deve ser a supres- Em terceiro lugar, tem-se - dizem os Diggers - a prova sao de todas as leis p6s-normandas, na medida em que, de de que 0 governo, as leis, 0 estatuto da propriedade sao, no maneira direta ou indireta, elas asseguram 0 Norman yoke, fundo, apenas a continua9ao da guerra, da invasao e da der- o jugo normando. As leis, dizia Lilburne, sao feitas pelos con- rota, no fato de que 0 povo sempre compreendeu como efei- quistadores29 . Supressao, por conseguinte, do aparelho legal tos da conquista seus govemos, suas leis e suas rela90es de inteiro. propriedade. 0 povo, de certo modo, denunciou sem cessar

Em segundo lugar, supressao tamhem de todas as dife- o caritter de pilhagem da propriedade, de extorsao das leis e ren9as que opoem a aristocracia - e nao s6 a aristocracia, de domina9ao do governo. E ele 0 mostrou pura e simples- mas a aristocracia e 0 rei, 0 rei como senda urn dos aristo- mente porque nao parou de se revoltar - e a revolta nada cratas - ao resto do povo, pois os nobres e 0 rei nao tern mais e, para os Diggers, que essa outra face da guerra, cuja com 0 povo uma rela9ao de prote9ao, mas uma simples e face permanente e a lei, 0 poder e 0 governo. Lei, poder e constante rela9ao de rapina e de roubo. Nao e a prote9ao re- governo significam a guerra, a guerra de uns contra os ou- gia que se estende sobre 0 povo; e a extorsao nobiliaria, de tros. Portanto a revolta nao vai ser a ruptura de urn sistema que 0 rei se beneficia e que 0 rei garante. Guilherme e seus pacifico de leis por urna causa qualquer. A revolta vai ser 0 sucessores, dizia Lilburne, fizeram de seus companheiros reverso de urna guerra que 0 govemo nao para de travar. 0 de banditismo, de pilhagem e de roubo, duques, baroes e governo e a guerra de uns contra os outros; a revolta vai sig- 10rdes JO . Em conseqiiencia, 0 regime da propriedade ainda e nificar a guerra dos outros contra uns. E claro, as revoltas ate atualmente 0 regime guerreiro da ocupa9ao, do confisco e da agora nao obtiveram resultado - nao s6 porque os normandos pilhagem. Todas as rela90es de propriedade - bern como todo ganharam, mas tamhem porque as pessoas ricas se benefi-

ciaram, por conseguinte, do sistema normando, e deram, por

trai9ao, sua ajuda ao "normandismo". Houve trai9aO dos ricos,

29. Ver em especial J. Lilbume, The Just Mans Justification, Londres, houve trai9ao da Igreja. E mesmo aqueles elementos que os 1646, pp. 11~3; ver tambem A Discourse betwixt John Li/burne, close priso- ner in the Tower of London, and Mr. Hugh Peters, Landres, 1649; Englands

parlamentares valorizavam como sendo uma limita9ao ao Birth-right Justified against all arbitrary usurpation, Landres, 1645; Regal! direito romano - mesmo a Magna Carta, 0 Parlamento, a Tyrannie Discovered, Londres, 1647; Englands New Chains Discovered, pnitica dos tribunais -, tudo isso, no fundo, e ainda e sempre Londres, 1648. A maioria dos panfletos dos Levellers foram reunidos in W. o sistema normando e suas extorsoes que intervem; sim- Haller & G. Davies, eds., The Levellers Tracts 1647-1653, Nova York, Co- plesmente com a ajuda de uma parte da popula9ao, a mais lumbia University Press, 1944.

30. Guilhenne, 0 Conquistador, e seus sucessores "made Dukes, Earles,

favorecida e a mais rica, que traiu a causa saxa e passou Barrons and Lords of their fellow Robbers, Rogues and Thieves" (Regall Ty- para 0 lado normando. De fato, tudo que e aparente conces- rannie... , op. cit., p. 86). A atribuiyao desse panfleto a 1. Lilbume nao e segura; sao nao passa de trai9ao e astucia de guerra. Por conseguin- R. Overton provavelmente colaborou em sua redayao. te, longe de dizer com os parlamentares que e preciso con- 130 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 4 DE FEVEREIRO DE 1976 131

tinuar as leis e impedir que 0 absolutismo monirrquico pre- forem, que nao se possarn .analisar em termos de domina9ao vale9a contra elas, os Levellers e os Diggers vao dizer que e de uns sobre os outros? E claro, essa formula9ao fica em preciso se livrar das leis atraves de uma guerra que respon- suspenso. Encontrarno-la a titulo de frases conc1usivas; elas ded a guerra. Curnpre travar a guerra civil ate 0 fim contra 0 nunca ocasionararn efetivamente urna analise historica nem poder normando. uma priltica politica coerente. Ainda assim voces veem for-

E a partir dai que 0 discurso dos Levellers vai desagre- mular-se ai, pela primeira vez, a ideia de que toda lei, seja gar-se em virrias dire90es que flcaram, em sua maioria, ela qual for, toda forma de soberania, seja ela qual for, todo pouco elaboradas. Uma foi urna dire9ao propriarnente teo- tipo de poder, seja ele qual for, devem ser analisados nao 16gico-racial, isto e, urn pouco a maneira dos parlarnentaris- nos termos do direito natural e da constitui9ao da soberania,

as tas: "Volta leis saxas, que sao as nossas e sao justas porque mas como 0 movimento indefinido - e indefinidamente his-

sao tambem leis naturais." E depois, ve-se aparecer uma ou- torico - das rela90es de domina9ao de uns sobre os outros. tra forma de discurso, que fica urn pouquinbo em suspenso Se eu insisti muito sobre esse discurso Ingles em torno

e que diz isto: 0 regime normando e urn regime de pilbagem e da guerra das ra9as foi porque creio que nele se ve funcio-

de extorsao, e a san9ao de uma guerra; e, sob esse regime, nar, pela primeira vez no modo politico e no modo hist6ri- que encontramos? Encontramos, historicamente, as leis saxas. co, ao mesmo tempo como prograrna de a9ao politica e como Entao, nao se poderia fazer a mesma analise a respeito das busca de saber historico, 0 esquema bim\rio, urn certo es- leis saxas? As leis saxas nao erarn, tambem elas, a san9ao quema binirrio. Esse esquema da oposi9ao entre os ricos e de urna guerra, urna forma de pilhagem e de extorsao? 0 re- os pobres decerto ja existia e havia pontuado a percep9ao da gime saxao nao era, em ultima analise, urn regime de domi- sociedade tanto na Idade Media como nas cidades gregas. na9iio, da mesma forma que 0 normando? Nao se deve, por Mas era a primeira vez que urn esquema binario nao era sim- conseguinte, remontar a mais longe ainda e dizer - e isso plesmente uma maneira de articular urna queixa, urna rei- que encontramos em certos textos dos Diggers3l - que no vindica9ao, de constatar urn perigo. Era a primeira vez que fundo a domina9ao come9a com toda forma de poder, isto esse esquema binilrio que pontuava a sociedade podia arti- e, que nao hil formas hist6ricas de poder, sejam elas quais cular-se sobretudo a partir dos fatos de nacionalidade: lingua,

pais de origem, hibitos ancestrais, espessura de urn passado

comum, existencia de urn direito arcaico, redescoberta das

31. Os textos mais conhecidos dos Diggers aos quais M. Foucault po~ dena estar se referindo aqui sao aS dais manifestos anonimos: Light Shining

velhas leis. Urn esquema binilrio que permitia, de outra par- in Buckinghamshire, s.l, 1648; More Light Shining in Buckinghamshire, s.l, te, decifrar, em toda a sua extensao hist6rica, todo urn con- 1649. cr. tambem G. Winstanley et aZ., To his Excellency the Lord Fairfax junto de institui90es com a sua evolu9ao. Permitia tarnbem and the Counsell of Warre the brotherly request of those that are called analisar as institui90es atuais em termos de enfrentamento e Diggers sheweth, Londres, 1650; G. Winstanley, Fire in the Bush, Landres, de guerra, a urn so tempo cientificarnente, hipocritamente,

1650; The Law ofFreedom in a Platform, or True Magistracy Restored, Lan- dres, 1652 (cf. G.H. Sabine, ed., The Works of Gerrard Winstanley, with an

mas violentamente travada entre as ra9as. Enfim, urn esque- appendix ofdocuments relating to the Digger Movement, Ithaca, N. Y. Cornell ma binario que fundamentava a revolta nao apenas no fato

University Press, 1941). de que a situa9ao dos mais infelizes se havia tornado intole- 132 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 4 DE FEVERE[RO DE [976 133

ravel e que curnpria mesmo que eles se revoltassem, ja que mente indefinida, indefinidamente espessa e multipla de do- niio podiam fazer-se ouvir (era, se voces quiserem, 0 discurso mina9iio. Niio se sai da domina9iio, portanto niio se sai da das revoltas da Idade Media). Ai, agora, temos urna revolta hist6ria. 0 discurso filos6fico-juridico de Hobbes foi urna que vai se formular como urn tipo de direito absoluto: tem- maneira de brecar esse historicismo politico que era, pois, 0 se 0 direito Ii revolta niio porque niio foi possivel fazer-se d~scurso e 0 saber efetivamente ativos nas lutas politicas do ouvir e porque e necessario romper a ordem se se quiser seculo XVII. Tratava-se de breca-Io, exatamente como no se- restabelecer urna justi9a mais justa. A revolta, agora, se jus- culo XIX 0 materialismo dialetico brecara tambem ele 0 tifica como urna especie de necessidade da hist6ria: corres- discurso do historicismo politico. 0 historicismo politico ponde a certa ordem social que e a da guerra, Ii qual ela dara encontrou dois obstaculos: no seculo XVII, 0 obstaculo do fim como uma derradeira peripecia. d~scurso filos6fico-juridico que tentou desqualificit-Io; no

Em conseqiiencia, a necessidade 16gica e hist6rica da seculo XIX, sera 0 materialismo dialetico. A opera9iio de revolta vern inserir-se no interior de toda urna analise hist6- Hobbes consistiu em explorar todas as possibilidades mes- rica que poe a nu a guerra como tra90 permanente das rela- mo as mais extremas, do discurso filos6fico-juridic;, para 90es sociais, como trama e segredo das institui90es e dos fazer calar 0 dlSCurSO do historicismo politico. Pois bern, e sistemas de poder. E eu creio que esse era 0 grande adver- desse discurso do historicismo politico que eu gostaria de sario de Hobbes. Foi contra isso que e 0 adversario de todo fazer tanto a hist6ria quanta 0 elogio. discurso filos6fico-juridico que fundamenta a soberania do Estado, que ele disp6s toda urna frente de batalha do Leviatii. Era contra isso que Hobbes dirigia, portanto, sua analise do nascimento da soberania. E, se ele quis tanto eliminar a guer- ra, era porque queria, de urna forma precisa e pontual, eli- minar esse temvel problema da conquista inglesa, categoria hist6rica dolorosa, categoria juridica dificil. Era preciso evi- tar esse problema da conquista em tomo do qual, em ultima analise, se haviam dispersado todos os discursos e todos os programas politicos da primeira metade do seculo XVII. Era isso que se devia eliminar; e, de urn modo mais geral, e a mais longo prazo, 0 que se devia eliminar era 0 que eu denominaria 0 "historicismo politico", au seja, essa especie de discurso que se ve delinear-se atraves das discussoes de que eu Ihes faiei, que se formula em algumas das fases mais radicais e que consiste em dizer: assim que se lida com rela- 90es de poder, niio se esta no direito e niio se eslit na sobe- rania; esta-se na dominay8.o, esta-se nessa re1ayao historica-

AULA DE 11 DE FEVEREIRO DE 1976

A narrativa das origem. - 0 milo troiano. - A heredita-

riedade da Franra. - "Franco-Gal/ta. "- A invasiio, a historia

e 0 direito publico. - 0 dualismo nacional. - 0 saber do prin-

cipe. - "Estado da Franra" de Boulainvi/liers. - 0 cartorio,

a repartiriio publica e 0 saber da nobreza. - Urn novo sujeito

da historia. - His/aria e constituiriio.

Eu you come9ar com uma narrativa que circulou na

Fran9a desde 0 inicio da Idade Media, ou quase, ate 0 Re- nascimento ainda, ou seja, a historia dos franceses que des- cendiam dos francos, e dos francos que eram, por sua vez, troianos que, conduzidos pelo rei Franco, filho de Priamo, haviam deixado Troia no momenta do incendio da cidade, se refugiado inicialmente nas margens do Danubio, depois na Germ:inia nas margens do Reno, e finalmente encontrado, ou melhor, fundado na Fran9a a sua pitria. Essa narrativa, niio quero tentar saber 0 que ela podia significar na Idade Media, ou 0 papel que podia ter essa lenda, tanto do periplo quanta da funda9iiO da pitria. Quero simplesmente interro- gar-me sobre este ponto: e surpreendente, afinal, que essa narrativa possa ter sido retomada, possa ter continuado a cir- cular numa epoca como 0 Renascimento 1. Niio, em absolu-

1. Conhecem-se, desde a His/aria Francorum do pseudo Fredegario (727) ate a Franciade de Ronsard (1572), pelo menos uns cinqiienta testemu- nhas sabre a lenda da origem troiana dos francos. Ou M. Foucault se refere a essa tradil;ao, ou se apoia num texto precise que poderia ser aquele de que A. 136 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 11 DE FEVEREIRODE 1976 137

to, por causa do carater fantastico das dinastias ou dos fatos que 0 Estado Romano (que era apenas, afinal de contas um hist6ricos aos quais ela se refena, mas, antes, porque n~s.sa irrnao, quando muito urn irmao mais velho) desaparece~, os lenda no fundo, ha urna elisao completa de Roma e da Gaha, Qutros Innaos - os irmaos mais m090S -, naturalmente, por da G,\lia a principio inimiga de Roma, da Galia invasora da causa do direito mesmo das gentes, 0 herdaram. A Fran~a, Iralia e sitiadora de Roma; elisao tambem da Galia enquanto por urna especie de direito natural e reconhecido por todos colonia romana, elisao de Cesar e da Roma imperial. E eli- sucede ao Imperio. E isto quer dizer duas coisas. Primeiro:

sao, por conseguinte, de toda urna lite;atura romana que que 0 reI da Fran~a herda, sobre seus suditos, direitos e po-

era, porem, perfeitamente conheclda na epoca. _ deres que eram os do imperador romano sobre os seus: a

Eu creio que se pode compreender a ehsao de Roma soberania do rei da Fran~a acaba sendo do mesmo tipo da so-

dessa narrativa troiana somente se se renuncla a conslderar beranla do lmperador romano. 0 direito do rei e 0 direito

essa narrativa das origens como urna especie de tentativa de romano. E a lenda de Troia e urna maneira de narrar com

historia que ainda estatia envolvida com velhas cren~as. Pa- imagens, ou de por em imagens, 0 principio que fora for-

rece-me, ao contrario, que e urn discurso que tem urna fun- mulado na Idade Media, em especial por Boutillier, quando

~ao precisa, que nao e tanto de narrar 0 passado ou contar as dlZla que 0 rei da Fran~a e imperador em seu reino'. Tese

origens quanto de dizer 0 direito, dizer 0 d,re,to do poder; importante, voces compreendem, ja que se trata, em suma,

e no fundo urna li~ao de direito publico. Foi enquanto h- do acompanhamento historico-mitico, ao longo de toda a Ida-

~~o de direito publico, creio eu, que essa narr~tiva circulou. de Media, do desenvolvimento do poder monarquico que se

E e porque se trata de urna li~ao de d,re,to pubhco que no formou baseado no modo do imperium romano e reativando

fundo Roma esra ausente dela. Mas esra igualmente presente os direitos imperiais que haviam sido codificados na epoca

sob urna forma de certo modo desdobrada, deslocada, gemea: de Justiniano.

Roma esta la, mas em espelho e em imagem. Dizer, com Mas dizer que a Fran~a herda 0 Imperio e dizer tambem

efeito, que os francos tambem sao, como os romanos, fugl- que a Fra~~a, irma ou .prima de Roma, tem direitos iguais

tivos de Troia, dizer que a Fran~a e, de certo modo, em rela- aos da propna Roma. E d,zer que a Fran~a nao depende de

9[0 ao troneD troiano, 0 Dutro ramo, em face de ~m r~o urna monarquia universal que quisesse, depois do Imperio,

que seria 0 ramo romano, significa dizer duas ou tres COlsas ressuscitar 0 Imperio Romano. A Fran~a e tao imperial quan-

que sao politica e juridicamente, acho eu, unportantes. to todos os outros descendentes do Imperio Romano' e tao

Dizer que os francos tambem sao, como as ro~anos, imperial quanto 0 Imperio Alemao; nao e em nada sUbordi-

fugitivos de Troia, significa primeiramente que, no d,a em nada aos Cesares germanicos. Nenhurn la~o de vassalismo

pode vincula-la legitimamente it monarquia dos Habsburgo

Thierry fala em Recits des temps merovingiens, precedes de Consi~erations

sur l'histoire de France, Paris, 1840, au seja: Les grandes chromques de 2. "Sabei que eIe e imperador em seu reino e que pode fazer tudo e

Saint-Denis (redigidas na segunda metade do seculo XII e publicadas por tanto quanto ao direito imperial pertence" (1. Boutillier, Somme rorale, ou Ie

Paulin Paris em 1836; reed. J. Viard em 1920). Pode-se ler grande parte des- Grand coutumier general de pratiques civiles [seculo XIV], Bruges, 1479).

sas narrativas em Dam M. Bouquet, Recueil des historiens des Gaules et de Esse texto, na edi9ao de 1611, e citado por A. Thierry em Considerations sur

fa France, Paris, 1739-1752, t.Il e Ill. l'histoire de France, op. cit. 138 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE II DE FEVEREIRO DE 1976 139

e subordimi-Ia, por conseguinte, aos grandes sonbos de mo- seja absolutamente exato. A referencia, quando se diz que narquia universal que eram acalentados, naquele momento, foram as Guerras de Religiao que permitiram pensar a dua- por ela. Ai esm, portanto, por que, nessas condi90es, era pre- lidade nacional, e urn texto de Fran90is Hotman, Franco- ciso que Roma fosse elidida. Mas era preciso que fosse eli- Gallia4 , datado de 1573, cujo proprio titulo parece indicar dida tambem a Galia romana, a de Cesar e ada coloniza9ao, que era nurna especie de dualidade que 0 autor pensava. Com para que de maneira alguma a Galia e os sucessores dos gau- efeito, nesse texto, Hotman retoma a tese germanica que cir- leses pudessem parecer estar, ainda e sempre, sob a subor- culava naquele momento no Imperio dos Habsburgo e que dina9ao de urn imperio. E curnpria iguaJrnente que as invasoes era, no fundo, 0 equivalente, 0 frente a frente, 0 vis-ii-vis da francas, que rompiam no interior a continuidade com 0 Im- tese troiana que circulava na Fran9a. Essa tese germanica, perio Romano, fossem elididas. A continuidade interior do que fora formulada certo ntimero de vezes, em especial por imperium romano ate a monarquia francesa excluia a ruptura alguem que se chamava Beatus Rhenanus, diz isto: "Nos das invasoes. Mas a nao-subordina9ao da Fran9a ao Impe- nao somos romanos, nos, alemaes, somos germanos. Mas, par rio, aos herdeiros do Imperio (e, em especial, a monarquia causa da forma imperial que herdamos, somos os sucesso- universal dos Habsburgo) implicava que nao aparecesse a res naturais e juridicos de Roma. Ora, os francos que inva- subordina9ao da Fran9a a antiga Roma; portanto, que a Galia diram a GaIia sao germanos, como nos. Quando eles invadi- romana desaparecesse; noutras palavras, que a Fran9a fosse ram a Galia, por certo deixaram sua Germania natal; mas, de urna especie de outra Roma - outra querendo dizer inde- urn lado, na medida em que eram germanos, continuaram pendente de Roma, mas ainda assim Roma. 0 absolutismo germanos. Permanecem, em conseqiiencia, no interior de do rei valia, pois, como em Roma mesma. Ai esm, em linbas nosso imperium; e como, de Dutro lado, e1es invadiram e gerais, a fun9ao das aulas de direito publico que se podem ocuparam a Galia, venceram os gauleses, eles proprios exer- encontrar na reativa9aO, ou no prosseguimento, dessa mito- cern, necessariamente, sobre essa terra de conquista e de logia troiana ate tarde no Renascimento, e isso nurna epoca coloniza9ao, 0 imperium, 0 poder imperial de que sao, en- em que os textos romanos sobre a GaIia, a GaIia romana, eram quanto germanos, eminentemente revestidos. Por conseguin- bern conbecidos. te a Galia, a terra gaulesa, a Fran9a agora, devem por uma

Dizem as vezes que foram as Guerras de Religiao que dupla razao, tanto por urn direito de conquista e de vitoria permitiram derrubar essas velhas mitologias (que, acho eu, quanto pela origem germanica dos francos, subordina9ao a eram urna li9ao de direito publico) e que introduziram, pela monarquia universal dos Habsburgo."5 primeira vez, 0 tema daquilo que Augustin Thierry denomi- nanl mais tarde a "dualidade nacional"3, 0 tema, se voces

4. F. Hotman, Franco-Gallia, Genebra, 1573 (trad. fr.: La GauZefran- quiserem, de dois grupos hostis que constituem a estrutura

90ise, Colonia, 1574; reed.: La Gaulefranraise, Paris, Fayard, 1981). permanente do Estado; mas eu nao creio, contudo, que isso 5. Cf. Reali Rhenani Rerum Germanicarum /ibri !res, Basileia, 1531.

Cumpre, todavia, referir-se a edil;ao de Dim de 1693 para encontrar, no co-

mentario e nas notas redigidas pelos membros do Colegio Hist6rico Imperial,

3. A. Thierry, ibid., p. 41 (ed. de 1868). a genealogia e 0 elogio da "Europae Corona" dos Habsburgo (cf. Beati Rhena- 140 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 11 DE FEVEREIRO DE 1976 141

E essa tese que, curiosamente, ate certo ponto natural- o que acontece quando urn Estado sucede a outro Estado? 0 mente, Fran90is Hotman vai retomar, reintroduzir na Fran9a que acontece - e como fica 0 direito publico e 0 poder dos em 1573. A partir daquele momento, e pelo menos ate 0 ini- reis - quando os Estados nao se sucedem pelo [efeito de] uma cio do seculo XVII, ela vai ter urn sucesso considenivel. especie de continuidade que nada interrompe, mas nascem, Hotman retoma a tese alema e diz: "Com efeito, os francos, tern sua fase de poderio, depois sua decadencia e, por fim, que em dado momento invadiram a Galia e constituiram desaparecem inteiramente? Hotman formulou, de fato, esse uma nova monarquia, nao sao troianos; sao germanos. Eles problema - mas eu nao penso que tenha formulado urn pro- venceram os romanas e as expulsaram." Reprodu~ao quase blema diferente, muito diferente, daquele, se voces quiserem, literal da tese germilnica de Rhenanus. Eu disse "quase", da natureza ciclica e da vida precaria dos Estados -, 0 pro- pois ha, todavia, urna diferen9a, que e fundamental: Hotman blema das duas na90es estrangeiras* no interior do Estado. nao diz que os francos venceram os gauleses; diz que ven- De urn modo geral, alias, nenhum dos autores contemporii- ceram os romanos 6 . neos das Guerras de Religiao admitiu a ideia de que urna

A tese de Hotman e, com toda a certeza, importante dualidade - de ra9a, de origem, de na9ao - viria perpassar a porque introduz, quase na mesma epoca em que 0 vemos monarquia. Era impossivel porque, de urna parte, os parti- aparecer na Inglaterra, 0 tema fundamenli'l da invasao (que danos de urna religiao unica - que evidentemente expunham e ao mesmo tempo a cruz dos juristas e a noite dos reis) no a principia "uma fe, urna lei, urn rei" - naa padiam reivin- curso da qual desaparecem uns Estados e nascem outros. E, dicar a unidade de religiao admitindo uma dualidade intema de fato, em tome disso que vao entabular-se todos os deba- na na9ao; de outra parte, aqueles que, ao contrario, reclama- tes juridico-politicos. Dai em diante, a partir dessa descon- yam a possibilidade de 0P9aO religiosa, a liberdade de cons- tinuidade fundamental, e evidente que ja nao se podera ex- ciencia, so podiam fazer que admitissem sua tese com a por urna aula de direito publico que teria como fun9ao ga- condi9ao de dizer: "Nem a liberdade de consciencia, nem rantir 0 carater ininterrupto da genealogia dos reis e de seu a possibilidade de 0P9ao religiosa, nem a propria existencia de poder. Dai em diante, 0 grande problema do direito publico duas religioes num corpo de na9ao, podem de forma algu- vai ser 0 problema daquilo a que urn sucessor de Hotman, rna comprometer a unidade do Estado. A unidade do Estado Etienne Pasquier, chama a "outra continua/tao"7, ou seja: nao e ferida pela liberdade de consciencia." Logo, que se

adote a tese da unidade religiosa ou, ao contrano, que se sus- ni libri Ires Institutionum Rerum Germanicarum nov-antiquarum, historico-

tente a possibilidade de uma liberdade de consciel1cia, a tese geographicarum, juxta primarium Collegi Historici Imperia/is scopum illus- da unidade do Estado foi fortalecida ao longo de todas as tralarum,Vim, 1693, em especial pp. 569-600. Ver tambem os comentarios em Guerras de Religiao. anexo aedi<;:8.o de Estrasburgo: Argentoratii, 1610). Quando Hotman contou sua historia, 0 que quis dizer

6. Cf. F. Hatman, Franco-Gallia, op. cit. cap. N: "De ortu Francorum, foi coisa muito diferente. Foi uma maneira de propor urn qui Gallia occupata, eius nomen in Franciam vel FrancogaUiam mutarunt" (pp. 40-52, ed. de 1576).

7. E. Pasquier, Recherches de la France, Paris, 1560-1567,3 vol. Pas- * Manuscrito, no 1ugar de "0 problema das duas na«oes estrangciras": quier foi aluno de Hotman. "0 problema de que houve na Fran<;a duas na<;6es estrangeiras". 142 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE II DE FEVEREIRO DE 1976 143



modelo juridico de governo oposto ao absolutismo romano os romanos: os gauleses, ei-Ios libertados; e, com os irmaos que a monarquia francesa queria reconstituir. A historia da germiinicos, eies nao formam mais do que urna linica e mes- origem germiinica da invasao e urna forma de dizer: "Nao, rna na9ao, cujas constitui90es e leis fundamentais - como nao e verdade, 0 rei da Fran9a nao tern 0 direito de exercer come9am a dizer os juristas da epoca - sao as leis funda- sobre seus suditos urn imperium de tipo romano." 0 proble- mentais da sociedade germiinica. Isto e: soberania do povo ma de Hotman nilo e, pois, a disjun9ao de dois elementos he- que se reline regularmente no Campo de Marte ou nas as- terogeneos no povo; e a delimita9ao interna do poder mo- sembleias de maio; soberania do povo que elege seu rei narquic0 8. Dai 0 modo como ele conta a fabula, quando diz: como quer e que 0 depoe quando e necessario; soberania de "Os gauleses e os germanos eram, de fato, originalmente, urn povo que so e regido por magistrados cujas fun90eS sao povos irmaos. Estabeleceram-se em dnas regioes vizinhas, temporarias e sempre it disposi9ao do conselho. E foi essa deste lado e do lado de la do Reno. Portanto, nao havera ne- constitui9ao germamca que os reis depois violaram, para con- nhurna caracteristica de invasao estrangeira quando os ger- seguir construir 0 absolutismo de que a monarquia francesa manos forem it Galia. Na realidade, irao quase it casa deles, do seculo XV[12 e urn testemunho. E verdade que na histo- em todo caso it casa de seus irmaos9 . Mas, entao, quem era ria contada por Hotman nao se trata absolutamente de esta- estrangeiro para os gauleses? Os estrangeiros sao os romanos, belecer urna dualidade. Mas, ao contrario, de atar firmemen- que impuseram, com a invasao e com a guerra (a guerra nar- te uma unidade de certo modo germano-francesa, franco- rada por CesarIO), urn regime politico que e 0 do absolutis- gaulesa, franco-galiana, como ele diz. Trata-se de estabelecer mo; eles estabeleceram - eles, os estrangeiros - algo estra- urna unidade profunda e, ao mesmo tempo, de contar, de nho it Galia: 0 imperium romano. Os gauleses resistiram du- certo modo sob a forma de historia, 0 desdobramento do pre- rante seculos, mas de urna forma que nao teve muito sucesso. sente. E claro que aqueles romanos invasores de que fala Foram, por fim, seus irmaos germiinicos que, la pelos secu- Hotman sao 0 equivalente, transposto para 0 passado, da los IV e V, come9aram a empreender, em favor dos irmaos Roma do papa e de seu clero. Os germanos fraternais e li- gauleses, uma guerra que foi urna guerra de liberta9ao. E os bertadores sao, evidentemente, a religiao reformada vinda germanos vieram, pais, naD como invasores, mas como urn de aJem-Reno; a unidade do reino com a soberania do povo povo irmao que ajuda urn povo irmao a libertar-se dos inva- e 0 projeto politico de urna monarquia constitucional, sus- sores, e dos invasores romanos."11 Eis, portanto, expulsos tentado por nurnerosos circulos protestantes da epoca.

Esse discurso de Hotman e importante porque organi-

za, de urna forma que decerto vai ser definitiva, 0 projeto de

8. "Semper reges Franci habuerunt [... j non tyrannos, aut camefices: sed libertatis suae custodes, praefectos, tutores sibi constituerunt" (F. Hotman, limitar 0 absolutismo monarquico it redescoberta, no passa- Franco-Gallia, ed. citada, p. 54). do, de certo modelo historico preciso que, em dado momento,

9. Cr., ibid., p. 62.

lO. Julio Cesar, Commentarii de bello gallica, cf. em especiallivros VI, VII. VIII. 12. Ibid" pp. 65 e 55., oode Hotman descreve em particular a "continui-

11. F. Hotman, Franco-Gallia, ed. citada, pp. 55 62.

M dade dos poderes do conselho publico" atraves das diferentes dinastias.

144 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 11 DE FEVEREIRO DE 1976 145

teria fixado os direitos reciprocos do rei e de seu povo e urna especie de volta ao mito troiano que, de fato, se reati-

que teria sido, mais tarde, esquecido e violado. 0 vinculo que va em meados do seculo XVII; mas, sobretudo, a funda9ao

vai existir, desde 0 seculo XVI, entre a delirnita9ao do direito e a introdu9ao de urn tema absolutamente novo e que vai ser

da monarquia, a reconstitui9ao de urn modelo passado e, de fundamental. Trata-se do tema daquilo a que eu chamaria

certo modo, a revolu9ao enquanto exuma9ao de uma cons- urn "galo-centrismo" radical. Os gauleses, que Hotman mos-

titui9ao fundamental e esquecida, e isso que e organizado, trara como parceiros importantes na pre-hist6ria da monar- acho eu, no discurso de Hotman, e de forma algurna urn quia francesa, eram de certa forma urna materia inerte, urn dualismo. Essa tese germanica, no inicio, tinha origem pro- substrato: gente que fora vencida, ocupada, e que precisou testante. Na verdade, ela circulou muito depressa nao so- ser libertada do exterior. Mas, a partir do seculo XVII, esses mente nos meios protestantes mas tambem nos meios cat6- gauleses vao se tomar 0 principio capital, motor de certo licos, a partir do momenta em que (sob 0 reinado de Henri- modo, da hist6ria. E, por urna especie de inversao das pola- que III e sobretudo no momento da conquista do poder por ridades e dos valores, os gauleses e que serao 0 elemento Hennque IV) os cat6licos, ao contrario, tiveram interesse primeiro, fundamental, e os germanos, ao contnirio, vao ser em procurar urna limita9ao do poder monarquico e, brusca- apresentados apenas como urna especie de prolongamento mente, voltaram-se contra 0 absolutismo monarquico. De sor- dos gauleses. Os germanos sao somente urn epis6dio na his- te que essa tese protestante da origem germiinica, voces a t6ria dos gauleses. Essa e a tese que voces encontram em encontram nos historiadores cat6licos, como Jean du Tillet, gente como Audigier l4 ou TarauJt15, etc. Audigier conta, por Jean de Serres l 3, etc. A partir do final do primeiro ter90 do exempl0, que os gauleses foram os pais de todos os povos da seculo XVII, essa tese vai ser objeto de urn empreendirnento Europa. Certo rei da Galia, que se chamava Ambigato, viu-se que visa, se nao exatamente desqualifica-la, pelo menos con- diante de urna na9ao tao rica, tao plena, tao plet6rica, com tamar essa origem germanica, 0 elemento genna-nieD, com urna popula9ao tao exuberante, que precisou liquidar uma o que ele comportava de duplamente inaceitavel para 0 parte dela. Ele enviou, assim, urn de seus sobrinhos a Italia poder monarquico: inaceitavel quanta ao exercicio do poder e outro, urn certo Sigovegio, a Germania. E foi a partir dai, e aos principios do direito publico; inaceitavel igualmente dessa especie de expansao e de coloniza9ao, que os gaule- com rela9ao a politica europeia de Richelieu e de Luis XIV ses e a na9ao francesa teriam sido de certo modo a matriz

Para contomar essa ideia da funda9ao germanica da de todos os outros povos da Europa (e mesmo mais alem da Fran9a, foram empregados vanos meios, sobretudo dois: urn, Europa). Foi assim, diz Audigier, que a na9ao francesa teve

14. P. Audigier, De l'origine des Fran~ois et de leur empire, Paris, 1676.

13. Jean du Tillet, Les memoires et recherches, Rauen, 1578; Recueil des Rays de France, Paris, 1580; Remonstrance ou Advertissement d fa 15. J.-E. Tarault, Annales de France, avec les alliances, genealogies,

conquetes, fondations ecclisiastiques et civiles en ['un et l'autre empire et noblesse tant du parti du Roy que des rebelles, Paris, 1585. Jean de Serres, Memoires de fa troisierne guerre civile. et des demiers troubles de fa France dans [es royaumes etrangers, depuis Pharamond jusqu'au roi Louis treizieme, Paris, 1570; Inventaire general de l'histoire de France, Paris, 1597. ' Paris, 1635. 146 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 11 DE FEVEREIRO DE 1976 147

"uma mesma origem com tudo 0 que 0 mundo jamais teve Essa fabula permitia afirmar 0 carMer autoctone da po- de mais terrivel, de mais bravo e de mais glorioso, ou seja, pula9ao gaulesa. Permitia tambem afirmar a existencia de os viindalos, os godos, os borguinhoes, os ingleses, os hern- fronteiras naturais da G,Uia: as descritas por Cesar!? - e que los, os silingos, os hunos, os gepidas, os alanos, os quados, eram igualmente 0 objetivo politico de Richelieu e de Luis os ur6es, os rufienos, os turingios, os lombardos, as turcos, os XIV em sua politica exterior. Tratava-se igualmente, nessa tartaros, os persas e mesma os normandos"16, narrativa, nao so de apagar qualquer diferen9a racial, mas

Logo, os francos que, nos seculos IV e V', vao invadir sobretudo de apagar qualquer heterogeneidade entre urn di- a Galia nao passavam de descendentes dessa especie de Ga- reito germanico e urn direito romano. Era necessario mos- lia primitiva; eram simplesmente gauleses avidos de rever trar que os germanos haviam renunciado ao seu proprio seu pais. Nao se tratava em absoluto, para eles, de libertar direito para adotar 0 sistema juridico-politico dos romanos. urna Galia escravizada, de libertar irmaos vencidos. Tratava- E, enfim, era necessario fazer os feudos e as prerrogativas da se meramente de urna saudade profunda e tambem do desejo nobreza derivarem nao dos direitos fundamentais e arcaicos de beneficiar-se de urna civiliza9ao galo-romana prospera. dessa mesma nobreza, mas simplesmente de urna vontade do Os primos, os filhos prodigos, retornavam. Mas, ao retornar, rei, cujos poder e absolutismo seriam anteriores a propria or- nao derrubaram de modo algum 0 direito romano implantado ganiza9a o do feudalismo. Tratava-se, Ultimo ponto, de fazer a na GaJia, mas, ao contnmo, 0 reabsorveram. Reabsorveram pretensao a monarquia universal passar para 0 lado frances. a Galia romana - ou deixaram-se reabsorver nessa GaJia. A Desde que a Galia era 0 que Tacito denominava (a prop6sito, conversao de Clovis e a manifesta9ao do fato de que os alias, sobretudo da Germiinia) a vagina nationum 18, e desde antigos gauleses, tornados germanos e francos, readotavam que a Galia era mesmo, com efeito, a matriz de todas as na- os valores e 0 sistema politico e religioso do Imperio Ro- 90eS, a quem deveria caber a monarquia universal senao aque- mano. Ese, no momenta do retorno, os francos tiveram de Ie, ao monarca, que herdava essa terra da Galia? lutar, nao foi contra os gauleses nem sequer contra os roma- Claro, em torno desse esquema houve muitas varia90es, nos (cujos valores eles absorviam); foi contra os burglindios nas quais nao me detenho. Se fiz essa narrativa um tanto e os godos (que eram hereges enquanto arianos), ou contra os sarracenos increus. Foi contra estes que travaram a guerra. 17. Cf. Cesar, De bello galUco, liv. I, 1. E, para recompensar os guerreiros que haviam lutado assim 18. Na realidade, e 0 bispo Ragvaldsson que, no concilio de Basih~ia em contra godos, burglindios e sarracenos, os reis Ihes deram 1434, a proposito da questiio sabre a "fibrica do genera humano", indica a

Escandimivia como be~o original da humanidade, fundamentando-se numa os feudos. A origem daquilo que ainda nao se chama, naque-

crOnica de Jordanis do seculo VI: "Hac igitur Scandza insula quasi officina la epoca, feudalismo foi assim estabelecida numa guerra. gentium aut certe velut vagina natianum [...] Gothi quondam memorantur

egressi" (De arigine actibusque Getarum, in Manumenta Germaniae Hista-

rica, Auctarum antiquissimorum tami V, pars I, Berolini, 1882, pp. 53-138,

16. P. Audigier, De l'origine des Fran~ojs... , op. cit., p. 3 cital;iia p. 60). Em tomo dessa questiio vai abrir-se um amplo debate, depois

* Manuscrito, no lugar de "seculos IV e V", "seculos V e VI" (0 que da redescoberta do texto de Tacita, De origine et situ Germaniae, editado em corresponde aepoca da conquista). 1472. 148 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE II DE FEVEREIRO DE 1976 149

longa, foi porque eu queria reporta-la ao que se passava na sao Meroveu, Clovis, Carlos Martelo, Carlos Magno, Pepino; Inglaterra na mesma epoca. Entre 0 que se dizia na Ingla- os textos sao 0 de Gregoire de Tours l9, os cartulitrios de Car- terra sobre a origem e a funda,ao da monarquia inglesa e 0 los Magno. Aparecem os costumes, como 0 Campo de Marte, que se diz em meados do seculo XVII sobre a funda,ao da as assembleias de maio, 0 ritual dos reis elevados ao poder, monarquia francesa, M pelo menos urn ponto em comum e etc. Aparecem acontecimentos como 0 batismo de Clovis a uma diferen,a fundamental. 0 ponto em comum - e eu acho batalha de Poitiers, a coroa,ao de Carlos Magno; ou aned'o- que ele e importante - e 0 fato de que a invasao, com suas tas simbolicas, como a do vaso de Soissons, em que se ve 0 formas, seus motivos, suas conseqiiencias, tornou-se um rei Clovis renunciar a uma pretensao diante do direito de problema historico, na medida em que esta em jogo um fato seus guerreiros e vingar-se disso em seguida. juridico-politico importante: compete it invasao dizer 0 que Tudo isso nos fornece uma nova paisagem historica, urn sao a natureza, os direitos, os limites do poder monitrquico; referencial novo, que so se compreende na medida em que compete, de fato, it historia da invasao dizer 0 que sao os existe uma correla,ao muito forte entre esse material novo conselhos do rei, as assembleias, as cortes soberanas; com- e as discussoes politicas sobre 0 direito publico. De fato, a pete it invasao dizer 0 que e a nobreza, quais sao os direitos historia e 0 direito publico vao de par. Os problemas levan-

da nobreza perante 0 rei, os conselhos do rei e 0 povo. Em tados pelo direito publico e a delimita,ao do campo histori-

resumo, e it invasao que se pede que formule os proprios co tern uma correla,ao fundamental - e, alias, "historia e

principios do direito publico. direito publico" sen! uma expressao consagrada ate 0 final

Na epoca em que Grotius, Pufendorf, Hobbes procura- do seculo XVIII. Se voces olharem como de fato, e bern

yam no direito natural as regras de constitui,ao de um Esta- depois do final do seculo XVIII, e no seculo XX, ensina-se

do justo, come,ava, em contraponto e em oposi,ao, uma a historia, a pedagogia da historia, voces verao, e 0 direito

enorme investiga,ao historica sobre a origem e a validade publico que lhes contam. Ja nao sei 0 que se tornaram os

dos direitos efetivamente exercidos - e isto no ambito de livros escolares atualmente, mas nao faz tanto tempo ainda,

urn fato historico ou, se voces preferirem, de uma certa fatia a historia da Fran,a come,ava com a historia dos gauleses.

de historia "que vai ser a regiao juridica ~ politicamente mais E a frase "nossos ancestrais, os gauleses" (que faz rir porque

sensivel de toda a historia da Fran,a. E 0 periodo que val, a ensinavam aos argelinos, aos africanos) tern urn sentido

grosso modo, de Meroveu a Carlos Magno, do seculo V ao muito preciso. Dizer "nossos ancestrais, os gauleses" e, no

seculo IX, do qual se disse sem parar (repetiam isso desde fundo, formular uma proposi,ao que tern urn sentido na

o seculo XVII) que era 0 periodo mais desconhecido. Des- teoria do direito constitucional e nos problemas levantados

conhecido? Talvez. Mas certamente 0 mais percorrido. Em pelo direito publico. Quando se conta com detalhes a bata-

todo caso, entram agora - pela primeira vez, acho eu - no lha de Poitiers, isto igualmente tern um sentido muito preci-

horizonte de uma historia da Fran,a que fora destinada, ate so, na medida em que e efetivamente essa guerra, nao entre

entao, a estabelecer a continuidade do poder do imperium

regio e so relatava historias de troianos e de francos, novas

personagens, novos textos, novos problemas: as personagens 19. Gregoire de Tours. Histaria Francornm (575-592), Paris, 1512. 150 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 11 DE FEVEREIRO DE 1976 151

os francos e os gauleses, mas entre os francos, os gauleses lhes falar, mas por urn discurso que e, creio eu, de tipo abso- e invasores de outra ra9a e de outra religiao, que permite lutamente novo por suas fun90es, por seus objetos, por suas fixar a origem do feudalismo em algo diferente de urn con- conseqih~ncias. flito interno entre francos e gauleses. E a histeria do vaso de Nao foram as guerras civis ou sociais, nem as lutas re- Soissons - que, acho eu, povoou todos os livros de histeria ligiosas do Renascimento, nem os conflitos da Fronda, que e que talvez se ensine ainda hoje - foi certamente urna das introduziram 0 tema do dualismo nacional como 0 reflexo mais seriamente estudadas durante todo 0 seculo XVIII. A ou a expressao deles; foi urn conflito, foi urn problema apa- histeria do vasa de Soissons e a histeria de urn problema de rentemente lateral, algo que 50 quaiifica, em geral, como com- direito constitucional: na origem, quando se partilhavam as bate de retaguarda, e que nao 0 e, acho eu - voces verao _, riquezas, quais eram efetivamente os direitos do rei perante que permitiu pensar duas coisas capitais ainda nao inscritas os direitos de seus guerreiros e, eventualmente, da nobreza na histeria nem no direito publico. E, de urna parte, 0 pro- (na medida em que tais guerreiros estao na origem da no-

blema de saber se, efetivamente, a guerra de grupos hostis breza)? Acreditou-se que se ensinava a histeria; mas, no se-

constitui a subestrutura do Estado; e, de outra, 0 problema culo XIX e ainda no seculo XX, os manuais de histeria

de saber se 0 poder politico pode ser considerado ao mesmo eram de fato manuais de direito publico. Ensinava-se 0 direi-

tempo 0 produto, 0 arbitro ate certo ponto, porem 0 mais das to publico e 0 direito constitucional sob as especies cheias

vezes 0 instrurnento, 0 aproveitador, 0 elemento desequili- de imagens da histeria.

brante e partidarista nessa guerra. E urn problema preciso e

Primeiro ponto, pois: 0 aparecimento na Fran9a desse novo campo histerico que e, alias, totalmente semelhante limitado, mas essencial todavia, creio eu, a partir do qual a (quanto ao seu material) ao que se passa na Inglaterra no tese implicita da homogeneidade do corpo social (que nem momenta em que, em torno do problema da monarquia, se sequer necessita ser formulada de tanto que e aceita) vai ser reativa 0 tema da invasao. No entanto, hi urna diferen9a quebrada. Mas como? Pois bern, a partir de urn problema fundamental em compara9ao a Inglaterra. Se, na Inglaterra, que eu diria de pedagogia politica: que deve saber 0 princi- a conquista e a dualidade racial normandos/saxoes eram 0 pe, de onde e de quem ele deve receber seu saber; 0 que esta ponto de articula9ao essencial da histeria, na Fran9a, em com- habilitado para constituir 0 saber do principe? De uma for- pensa9ao, ate 0 fim do seculo XVII, nao hi nenhuma hete- ma precisa, tratava-se, pura e simplesmente, da famosa edu- rogeneidade no corpo da na9ao, e todo 0 sistema de paren- ca9ao do duque de Borgonha, que voces sabem como criou tesco fabuloso entre gauleses e troianos, depois entre gauleses problemas, por urna por9ao de razoes (nao penso aqui so- e germanos, depois entre gauleses e ramanas, etc., permite mente em seu aprendizado elementar, pois, na epoca em que assegurar uma continuidade na transmissao do poder e uma se passam os acontecimentos de que vou falar, ele ja era homogeneidade sem problemas no corpo da na9ao. Ora, e adulto). Trata-se do conjunto dos conhecimentos sobre 0 justamente essa homogeneidade que vai ser quebrada no fi- Estado, 0 governo, 0 pais, necessarios a quem vai ser cha- nal do seculo XVII, e nao por urn edificio teerico, ou teeri- mado, dentro de alguns anos, quando Luis XIV tiver morri- co-mitolegico, suplementar ou diferente, do qual acabo de do, a dirigir esse Estado, esse governo e esse pais. Portanto, 152 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 11 DE FEVEREIRO DE 1976 153

naO e do Telemaque 20 que se trata, mas desse enorme rela- de urn ensaio sobre 0 antigo governo da Fran,a, ate Hugo torio sobre 0 estado da Fran,a que Luis XIV encomendou it Capeto. sua administra,ao e a seus intendentes, destinado ao neto, 0 Nesse texto de Boulainvilliers - mas aqueles que se se- duque de Borgonba, que ia ser seu herdeiro. Balan,o da Fran- guiram tambem vao retomar 0 problema" -, trata-se de ,a (estudo geral da situa,ao, da economia, das institui,5es, valorizar as teses favoritveis it nobreza. Critica-se, pois, a ve- dos costumes da Fran,a) na medida em que ele deve cons-

nalidade dos cargos, que sao desfavoriveis it nobreza empo- tituir 0 saber do rei, saber com 0 qual ele vai poder reinar.

brecida; protesta-se contra 0 fato de que a nobreza foi espo-

Luis XIV pede, pois, esses relatorios aos seus inten-

liada de seu direito de jurisdi,ao e dos lucros que eram vin- dentes. Depois de varios meses, eles sao juntados e reunidos.

culados a este; reclama-se urn lugar de direito no Conselho do o circulo do duque de Borgonba - circulo que era constitui- rei para a nobreza; critica-se 0 papel desempenbado pelos do de todo urn nucleo da oposi,ao nobiliaria, de uma nobre- za que reprovava ao regime de Luis XIV ter ferido seu intendentes na administra,ao das provincias. Mas, sobretu- poderio econ6mico e seu poder politico - recebe esse re!a- do, no texto de Boulainvilliers e nesse empreendimento de torio, e encarrega alguem que se chama Boulainvilliers de recodifica,ao dos relatorios [apresentados] ao rei, trata-se apresenta-Io ao duque de Borgonba, de toma-Io mais leve, de protestar contra 0 fato de que 0 saber dado ao rei, e de- pois era enorme, e depois de explid.-lo, de interpreta-Io: de recodifica-Io - se voces preferirem. Boulainvilliers, de fato,

tres sur les anciens Parlemens de France, avec l'histoire de ce royaume depuis faz a triagem, faz a depura,ao daqueles enormes relatorios, Ie commencement de la monarchie jusqu 'a Charles VIII. On y a joint des Me- resume-os em dois grossos volumes. Enfim, redige a apre- a

moires presentes M Ie due d'Or!eans, Londres, 1728. senta,ao, que ele acompanba com certo nUmero de reflex5es 22, M. Foucault faz alusao as obras historicas de Boulainvilliers relacio- criticas e com urn discurso: 0 acompanhamento necessaria, nadas com as institui90es politicas francesas. Trata-se sobretudo de: Memoire

sur la noblesse du roiaume de France fait par M Ie comte de Boulainvilliers pois, daquele enorme trabalho administrativo de descri,ao e

(1719) (trechos publicados in A. Devyver, Le sang epure. Les prejuges de de analise do Estado. Esse discurso e assaz curioso, uma race chez les gentilhommes franrais de I 'Ancien Regime, Bruxelas, Editions vez que se trata, para esclarecer 0 estado atual da Fran,a", de l'Universite, 1973, pp. 500-48); Memoire pour la noblesse de France con-

tre les Dues et Pairs, s.1., 1717; Memoires presentes aMgr. Ie duc d'Or!eans,

Regent de France, Haia/Amsterdam, 1727; Histoire de I 'ancien gouvernement

20. Fenelon, Les aventures de Tefemaque, Paris, 1695. de la France avec quatorze lettres historiques sur les Parlements ou Etats

21. Trata-se de Eta! de fa France dans lequel on voit tout ce qui regarde le Generaux, Haia/Amsterdam, 1727, 3 vol. (versao reduzida e modificada das gouvernement eccIesiastique, Ie militaire, fa justice, Ies finances. Ie commerce, Memoires); Traite sur l'origine et les droits de la noblesse (1700), in Conti~ les manufactures, Ie nombre des habitants, et en general tout ce qui peut Jaire nuation des memoires de litterature et d 'histoire, Paris, 1730, t. IX, pp. 3-106

a cannairre fond cette monarchie; extrait des memoires dresses par les inten- (republicado, com numerosas modifica90es, com 0 titulo: Essais sur la nobles-

a dants du royaume, par ordre du roy Louis XIV fa sollieitation de Monseigneur se contenant une dissertation sur son origine et ahaissement, par Ie feu M, Ie

a Ie due de Bourgogne, pere de Louis XV present regnant. Avec des Memoires comte de Boulainvilliers, avec des notes historiques, critiques et politiques, historiques sur l'ancien gouvernement de cette monarchie jusqu'a Hugues Amsterdam, 1732); Abrege chronologique de I 'histoire de France, Paris, Capet, par Ie comte de Boulainvilliers, Londres, 1727, 2 vol. in-folio, No ano se- 1733, 3 vol.; HL~toire des anciens Parlements de France ou Etats Generaux guinte sai urn terceiro volume com 0 titulo Etat de la France, contenant XIV let- du royaume, Londres, 1737. 154 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE II DE FEVEREIRO DE 1976 155

pois ao principe, seja urn saber fabricado pela propria ma- ou de Montlosier24 (cujo problema sera bern mais complica- quina administrativa. Trata-se de protestar contra 0 fato de do, uma vez que escreveni, no inicio d.a Restauracao, contra que 0 saber do rei acerca dos seus suditos seja inteiramente a administra9ao publica imperial), 0 verdadeiro alvo de todos colonizado, ocupado, prescrito, definido, pelo saber do Esta- esses historiadores ligados a rea9ao nobili:iria sera 0 meca- do acerca do Estado. 0 problema e este: 0 saber do rei acer- nismo de saber-poder que, desde 0 seculo XVII, vincula 0 ca de seu reino e acerca de seus suditos devera ser isomorfo aparelho administrativo ao absolutismo do Estado. Eu creio ao saber do Estado acerca do Estado? Os conhecimentos bu- que as coisas se passaram urn pouco como se a nobreza, em- rocniticos, fiscais, economicos, juridicos, que sao necessa- pobrecida, repelida em parte do exercicio do poder, tivesse rios ao funcionarnento da monarquia administrativa, deve- adotado como objetivo principal de sua ofensiva e de sua rno ser reinjetados no principe pelo conjunto das informa- contra-ofensiva nao tanto a reconquista direta e imediata de 90es que the sao dadas e que the permitirao governar? Em seus poderes nem, tampouco, a recupera9ao de suas rique- surna, 0 problema e este: a administra9ao, 0 grande apare- zas (que por certo se haviarn tornado definitivarnente ina- lho administrativo que 0 rei deu amonarquia, e de certa for- cesslveis), mas urn elo importante no sistema do poder, que ma grudada ao proprio principe, forma urn so todo com 0 a nobreza havia menosprezado desde sempre, mesmo na principe pela vontade arbitraria e ilimitada que este exerce epoca em que estava, contudo, no auge de seu poderio: essa sobre urna administra9ao publica que esta, com efeito, intei- pe9a estrategica, menosprezada pela nobreza, fora, em seu ramente em suas maos e it sua disposiCao; e e por isso que lugar, ocupada pela 19reja, pelos c1erigos, pelos magistra- niio se pode resistir a ela. Mas 0 principe (e a administra9ao dos, depois pela burguesia, pelos administradores publicos, forma urn so todo com ele pelo poder do proprio principe), pelos proprios financistas. A posi9ao que deveria ser reo- por bern ou por mal, vai ser levado a formar urn so todo com cupada em primeirissimo lugar, 0 objetivo estrategico que sua administra9ao publica, a ser grudado a ela, pelo saber Boulainvilliers vai fixar dal em diante para a nobreza, a con- que essa administra9ao publica the retransmite, dessa feita di9aO de todas as desforras, nao e, como se dizia no vocabu- de baixo para cima. A administra9ao publica permite ao rei lario da corte, "0 favor do principe". 0 que se tern de recon- fazer que reine sobre 0 pais uma vontade sem limites. Mas,

quistar e 0 que se tern de ocupar agora e 0 saber do rei; 0 inversamente, a administra9ao publica reina sobre 0 rei pela qualidade e pela natureza do saber que ela the impoe.

Eu creio que 0 alvo de Boulainvilliers e daqueles que 0 de l'economie socia/e, Londres, 1773; Les maximes du gouvernement monar- rodeavarn na epoca - 0 alvo, igualmente, de seus sucessores em chique pour servir de suite ala elements de la politique, Londres, 1778. meados do seculo XVllI (como 0 conde du Buat-N an9ay23) 24. As obras de carater hist6rico de F. de Reynaud, conde de Mon-

tlosier, sao muito numerosas. Limitamo-nos a assinalar aquelas que estao rela-

cionadas com os problemas levantados por M. Foucault nos cursos: De la mo-



23. Dentre as obras de carater hist6rico de L. G. conde de Buat-Nanl;ay, narchie fran9aise depuis son etablissement jusqu 'il nos jours, Paris, 1814, 3 cf.: Les origines au ['Ancien gouvernement de la France. de ['ltatie, de vol.; Memoires sur la Revolutionfran9aise, Ie Consulat, I'Empire, la Restauration l'Al/emagne. Paris, 1757; Histoire ancienne des peuples de ['Europe, Paris, et Ies principaux evenements qui l'ont suivie, Paris, 1830. Sobre Montlosier, 1772, 12 vol.; Elements de fa politique, au Recherche sur les vrais principes cf., infra, aula de lOde maryo. 156 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE II DE FEVEREIRO DE 1976 157

saber do rei ou urn certo saber comum aos reis e aos nobres: forma do direito, 0 conjunto das usurpa,oes que ele, 0 rei, lei implicita, compromisso reciproco do rei para com sua cometeu [para com] sua nobreza. aristocracia. Trata-se de despertar a memoria, que foi atur- E contra esse saber dos escrivaes que a nobreza quer didamente distraida, dos nobres, e as recorda,oes, ciosa e valorizar urna outra forma de saber que sera a historia. Uma talvez maldosamente sepultadas, do monarca, para recons- historia que tera como caracteristica passar para 0 exterior tituir 0 justo saber do rei, que sera 0 justo fundamento de do direito, para tras do direito, para dentro dos intersticios urn govemo justo. Trata-se, por conseguinte, de urn contra- desse direito; urna historia que nao sera simplesmente como saber, de todo urn trabalho que vai assumir a forma de pes- havia sido ate entao, 0 desenrolar cheio de imagens, drama- quisas historicas absolutamente novas. Eu digo contra-saber tizado, do direito publico. Ao contrario, ela vai tentar retomar porque esse saber novo e esses metodos novos para investir o direito publico em sua raiz, recolocar as institui,oes do o saber do rei se definem primeiro, para Boulainvilliers e direito publico nurna rede, mais antiga, de outros compromis- seus sucessores, de uma maneira negativa em comparac;ao a sos mais profundos, mais solenes, mais essenciais. Contra 0 dois saberes eruditos, dois saberes que sao as duas faces (e saber do escrivao, em que 0 rei so pode encontrar 0 louvor talvez as duas fases tambem) do saber adrninistrativo. Nesse de seu absolutismo (isto e, ainda e sempre, 0 louvor de momento, 0 grande inimigo desse saber novo pelo qual a Roma), trata-se de valorizar urn fundo de eqiiidade historica. nobreza quer voltar a tomar pe no saber do rei, 0 saber que Por tras da historia do direito, trata-se de despertar compro- e preciso descartar, e 0 saber juridico: aquele do tribunal, do missos nao escritos, fidelidades que nao tiveram cartas, nem procurador, do jurisconsulto e do escrivao. Saber, claro, odia- textos, sem duvida. Trata-se de reativar teses esquecidas e 0 vel para os nobres, urna vez que foi esse saber que os pos na sangue derramado pela nobreza pelo rei. Trata-se tambem arapuca, que os espoliou mediante argilcias que eles nao com- de fazer que 0 proprio edificio do direito se mostre - inclu- preendiam, que os despojou, sem que eles sequer pudessem sive em suas institui,oes mais validas, inclusive naquelas dar-se bern conta disso, de seus direitos de jurisdi,ao e, ordena,oes mais explicitas e mais reconhecidas - como 0 depois, ate de seus bens. Mas e urn saber que e odiavel tam- resultado de toda uma serie de iniqiiidades, de injusti,as, de bern porque e urn saber de certo modo circular, que remete abusos, de espolia,oes, de trai,oes, de infidelidades, come- do saber ao saber. Quando 0 rei, para conbecer seus direi- tidos pelo poder monarquico, que renegou seus compromis- tos, interroga os escrivaes e os jurisconsultos, qual resposta sos para com a nobreza, e igualmente pelos homens de lei, podera obter senao urn saber estabelecido do ponto de vista que usurparam ao mesmo tempo 0 poder da nobreza e, tal- do juiz e do procurador, que ele, 0 proprio rei, criou, e em vez sem se darem conta disso tambem, 0 poder monarqui- que, por conseguinte, nao e surpreendente que 0 rei encon- co. A historia do direito sera, pois, a denuncia das trai,oes, tre, naturalmente, os louvores de seu proprio poder (louvores e de todas as trai,oes que estavam relacionadas com as trai- que, alias, talvez mascarem os sutis desvios de poder opera- ,oes. Trata-se, nessa historia que vai se opor, em sua pro- dos pelos procuradores, pelos escrivaes, etc.)? Saber circular, pria forma, ao saber do escrivao e do juiz, de abrir os olhos em todo caso. Saber em que 0 rei so pode encontrar a imagem do principe para as usurpa,oes de que ele nao teve cons- mesma de seu proprio absolutismo, que Ihe remete, sob a ciencia e de the restituir as for,as, a lembran,a dos vinculos 158 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE lJ DE FEVEREIRO DE 1976 159

que decerto ele pr6prio teve interesse de esquecer, e de fa- infindaveis; urna hist6ria da maneira pela qual a Igreja, com zer que esquecessem. Contra 0 saber dos escrivaes, que re- asmcia, fez que Ihe dessem terras e rendas; urna hist6ria da mete sempre de urna atualidade para outra, do poder para 0 maneira pela qual a burguesia endividou a nobreza; uma poder, do texto da lei para a vontade do rei, e inversarnente, hist6ria da maneira pela quai 0 fisco regio corroeu as ren- a hist6ria sera a arma da nobreza traida e hurnilhada; urna das dos nobres, etc. hist6ria cuja forma profundamente antijuridica sera, por tras Esses dois grandes discursos - 0 do escriviio e 0 do in- da escrita, a decifra~iio, a rememora~iio para alem de todos tendente, 0 do tribunal e 0 da reparti~iio publica - aos quais os desusos e a denilncia daquilo que 0 saber ocultava de quer se opor a hist6ria da nobreza, niio tiveram a mesma hostilidade aparente. Ai esta 0 primeiro grande adversario cronologia: a luta contra 0 saber juridico e decerto mais desse saber hist6rico que a nobreza quer lan~ar para reocupar forte, mais ativa e mais intensa na epoca de Boulainvilliers, o saber do rei. isto e, entre 0 fim do seculo XVII e 0 inicio do seculo XVIII;

a outro grande adversano e 0 saber, niio mais do juiz a luta contra 0 saber economico decerto tomou-se muito ou do escrivao, mas do intendente; nao mais 0 cartorie, mas mais violenta em meados do seculo XVIII, na epoca dos a reparti~iio publica. Saber, tambem ele, odiavel. E por ra- fisiocratas (0 grande adversano de du Buat-Nan~ay sera a fi- zoes simetricas, ja que foi 0 saber dos intendentes que per- siocracia25 ). De qualquer forma, trate-se do saber dos in- mitiu restringir as riquezas e 0 poder dos nobres. Eurn saber tendentes, das reparti~oes publicas, do saber economico, que, tambem ele, pode fascinar 0 rei e iludi-Io, urna vez que trate-se do saber do escriviio e do tribunal, 0 que esrn em e gra~as a ele que 0 rei pode fazer que aceitem seu poderio, questiio e 0 saber que se constitui do Estado ao Estado, 0 qual obter a obediencia, assegurar 0 fisco, etc. E urn saber admi- foi substituido por outra forma de saber, cujo perfil geral e nistrativo, sobretudo economico, quantitativo: saber das ri- a hist6ria. Mas a hist6ria de que? quezas atuais ou virtuais, saber dos impostos suportaveis, das Ate entiio, a hist6ria sempre fora apenas a hist6ria que taxas uteis. Contra esse saber dos intendentes e da reparti- o poder contava sobre si mesmo, a historia que 0 poder ~iio publica, a nobreza quer valorizar urna outra forma de mandava que contassem sobre ele: era a hist6ria do poder pe- conhecimento: urna hist6ria, dessa feita, das riquezas e niio 10 poder. Agora, a hist6ria que a nobreza come~a a contar mais uma hist6ria econ6mica, ou sej a, uma histeria dos des- contra 0 discurso do Estado sobre 0 Estado, do poder sobre locarnentos das riquezas, das extorsoes, dos roubos, dos pas- o poder, e urn discurso que vai fazer, creio eu, explodir 0 ses de magica, dos desvios, dos empobrecimentos, das minas. proprio funcionamento do saber hist6rico. E ai que se des- Vma hist6ria, por conseguinte, que passa por tras do proble- faz, creio eu - e isso e importante - a dependencia entre, de ma da produ~iio das riquezas, para mostrar atraves de que mi- urn lado, a narrativa da hist6ria e, do outro, 0 exercicio do nas' dividas, acumula~oes abusivas, se constituiu, de fato, poder, seu fortalecimento ritual, a formula~iio cheia de ima- certo estado das riquezas que niio passa, afinal de contas, de urna mescia de desonestidades realizadas pelo rei com a bur- guesia. Sera, pois, contra a analise das riquezas, urna hist6ria 25. Cf. L. G. conde de Buat-Nan9ay, Remarques d'un Fran9ais, ou da maneira pela qual os nobres se arruinaram nas guerras Examen impartial du livre de M. Necker sur lesfinances, Genebra, 1785. 160 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE II DE FEVEREIRO DE 1976 161

gens do direito publico. Com Boulainvilliers, com esse dis- A na,ao, nessa epoca, nao 10 em absoluto algo que se

curso da nobreza reaciomiria do final do seculo XVII, apa- definiria pela unidade dos territ6rios, por uma morfologia

rece urn novo sujeito da hist6ria. Isso quer dizer duas coisas. politica definida ou por um sistema de sujei,oes a urn impe-

De uma parte, urn novo sujeito que fala: 10 alguem diferente rium qualquer. A na,ao nao tern fronteiras, nao tern sistema

que vai tomar a palavra na hist6ria, que vai contar a hist6ria; de poder definido, nao tern Estado. A na,ao circula por tras

alguem diferente vai dizer "eu" e "nos" quando narrar a his- das fronteiras e das institui,oes. A na,ao, ou melhor, "as" na-

t6ria; alguem diferente vai fazer 0 relato de sua pr6pria hist6- ,oes, ou seja, os conjuntos, as sociedades, os agrupamentos

ria; alguem diferente vai reorientar 0 passado, os aconteci- de pessoas, de individuos que tern em COmum urn estatuto,

mentos, as direitos, as injusti<;as, as derrotas e as vitorias, em costumes, usos, uma certa lei particular - mas lei entendida

torno de si mesmo e de seu pr6prio destino. Deslocamento, muito mais como regularidade estatutaria do que como lei em conseqiiencia, do sujeito que fala na hist6ria, mas deslo- estatal. Edisto, destes elementos, que se trata na hist6ria. E camento do sujeito da hist6ria no sentido de que houve uma sao estes elementos, 10 a na,ao, que vai tomar a palavra. A modifica,ao no objeto mesmo da narrativa, em seu sujeito nobreza 10 uma na,ao em face de muitas outras na,oes que entendido como tema, objeto, se voces preferirem: ou seja, circulam no Estado e se opoem umas as outras. E dessa modifica,ao do elemento primeiro, anterior, mais profundo, no,ao, desse conceito de na,ao que vai sair 0 famoso pro- que vai permitir definir em compara,ao a ele os direitos, as blema revolucionirio da na<;ao; e dai que VaG sair, e claro, institui<;5es, a monarquia e a propria terra. Em resumo, do os conceitos fundamentais do nacionalismo do seculo XIX;

10 dai tambem que vai sair a no,ao de ra,a; 10 dai, por fim, que se falara sera das peripecias de alguma coisa que passa

que vai sair a no,ao de classe. sob 0 Estado, que perpassa 0 direito, que 10 a urn s6 tempo

Com esse novo sujeito da hist6ria - sujeito que fala na mais antigo e mais profunda do que as institui,oes.

hist6ria e sujeito falado na hist6ria - aparece tambem, 10 cla-

Esse novo sujeito da hist6ria, que 10 ao mesmo tempo

ro, toda uma nova morfologia do saber hist6rico, que dai em quem fala na narrativa hist6rica e aquilo de que fala essa

diante vai ter urn novo dominio de objetos, um referencial narrativa hist6rica, esse novo sujeito que aparece quando se novo, todo urn campo de processos ate entao nao somente descarta 0 discurso administrativo OU juridico do Estado so- obscuros, mas tambem totalmente menosprezados. Remon- bre 0 Estado, 0 que e? E 0 que urn historiador daquela

metodo niio a reativa,iio ritual dos atos fundamentais do po- absoluta do soberano da absoluta docilidade de sua admi- der, mas, ao contnmo, uma decifra~ao sistematica de suas nistra,iio. Niio e, portanto, tanto como can,iio das velhas Ii- inten,Des maldosas e a rememora<;iio de tudo quanto ele berdades quanto como desconectador do saber-poder admi- tiver sistematicamente esquecido. E urn metodo de denun- nistrativo, que 0 discurso da hist6ria, que essa velha hist6ria cia perpetua daquele que foi 0 mal na hist6ria. III niio se trata dos gauleses e dos germanos, que a longa narrativa de C16- da hist6ria gloriosa do poder; e a hist6ria de seus submun- vis e de Carlos Magno, viio ser instrumentos de luta contra dos, de suas maldades, de suas trai,Des. o absolutismo. E por isso que esse tipo de discurso - que e

Por isso mesmo, esse discurso novo (que tern, pois, urn portanto de origem nobiliaria e reacionaria - vai circular sujeito novo e urn referencial novo) e acompanbado tam- sobretudo, com muitas modifica,Des e conflitos de forma, bern por aquilo a que se poderia chamar urn pathos novo, justamente cada vez que urn grupo politico quiser, por uma inteiramente diferente do grande ritual cerimonial que acom- ou outra raziio, atacar esse ponto de articula,iio entre 0 po- panbava ainda obscuramente 0 discurso da hist6ria, quando der e 0 saber no funcionamento do Estado absoluto da mo- se narravam as hist6rias de troianos, de germanos, etc. Ja narquia administrativa. E e por isso que, naturalmente, esse niio e 0 carater cerimonial do fortalecimento do poder, mas mesmo tipo de discurso (ate em snas formula,Des), voces viio urn pathos novo, que vai marcar com seu esplendor urn pen- encontra-Io tanto no que se poderia chamar a direita quanto samento que sera, em grande parte, 0 pensamento de direi- na esquerda, na rea,iio nobiliaria ou nos textos dos revolu- ta na Fran,a, ou seja: a paixiio quase er6tica pelo saber his- cionarios de antes ou depois de 1789. Eu Ihes cito simples- t6rico; segundo, a perversiio sistematica de uma inteligen- mente urn texto a prop6sito do rei injusto, do rei das malda- cia interpretativa; terceiro, a obstina,iio da denUncia; quarto, des e das trai,Des: "Qual castigo", diz 0 autor que se dirige por fim, a articula,iio da hist6ria baseada em algo que sera naquele momento a Luis XVI, "cres que merece urn homem urn conluio, urn ataque contra 0 Estado, urn golpe de Estado tiio barbaro, infeliz herdeiro de urn magote de rapinas? Cres ou urn golpe no Estado ou contra 0 Estado. que a lei de Deus niio foi feita para ti? Ou es mais que urn

o que eu quis Ihes mostrar niio foi deveras 0 que deno- homem para que tudo deva ser relacionado com tua gl6ria e minam a "hist6ria das ideias". Niio quis tanto Ihes mostrar subordinado it tua satisfa,iio? Quem es entiio? Pois, se niio es como a nobreza havia representado quer suas reivindica,Des, urn deus, es urn monstro!" Esta frase niio e de Marat, e do quer seus inforttinios, atraves do discurso hist6rico, mas, conde de Buat-Nan,ay, que a escrevia em 1778 a Luis XVF6. realmente, como, em torno dos funcionamentos do poder, se E ela sera repetida, textualmente, pelos revolucionarios dez produzira, se formara certo instrumento de luta - no poder anos depois. e contra 0 poder; e esse instrumento e urn saber, urn saber Voces compreendem por que, se efetivamente este novo novo (ou, em todo caso, parcialmente novo), que e essa no- tipo de saber hist6rico, esse novo tipo de discurso, desem- va forma da hist6ria. A evoca,iio da hist6ria sob essa forma vai ser, no fundo, creio eu, a cunha que a nobreza tentou cravar entre 0 saber do soberano e os conbecimentos da 26. L. G. conde de Buat-Nam;ay, Les maximes du gouvernement administra,iio; e isto a fim de poder desconectar a vontade monarchique... ,op. cit., t. II, pp. 286-7.

EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE II DE FEVEREIRO DE 1976 165 164

penha esse papel politico maior nO ponto de articula,ao en- Esse Ministerio da Historia tinha urn titular, Jacob-Ni- tre 0 poder e 0 saber da monarquia administrativa, 0 poder colas Moreau, e foi ele quem, junto com muitos outros, reuniu regio nao pode deixar de tentar retomar, por sua vez, 0 con- a imensa cole,ao" de documentos medievais e pre-medie- trole dele. Da mesma forma que esse discurso circulava vais a partir dos quais, no inicio do seculo XIX, historiado- assim da direita para a esquerda, da rea,ao nobiliaria para res como Augustin Thierry e Guizot poderao trabalhar. Em urn projeta revoluciomirio burgues, do mesmo modo 0 poder todo caso, na epoca em que se ve aparecer essa institui,ao

regio tentau apropriar-se dele ou controla-Io. E e assim que, - esse verdadeiro Ministerio da Historia - seu sentido e bern

a partir de 1760, vemos 0 poder regio - 0 que prova 0 valor claro: portanto, no momento em que os enfrentamentos po-

politico, a parada politica capital que havia nesse saber his- liticos do secuIo XVIII passavam por urn discurso historico,

torico - tentar organizar esse saber historico, de certo modo na epoca em que, mais precisamente, mais profundamente,

recoloca-Io em seu jogo de saber e de poder, entre 0 poder o saber historico era mesmo urna arma politica contra 0 saber

administrativo e os conhecimentos que se formavam a par- do tipo administrativo da monarquia absoluta, a monarquia

tir dele. E assim que, a partir de 1760, vemos esbo,ar-se quis recolonizar de certo modo esse saber. Se voces preferi-

institui,oes que seriam, grosso modo, uma especie de Mi- rem, a criac;ao do Ministerio da Hist6ria parece ser uma con-

nisterio da Historia. Primeiro, por volta de 1760, cria,ao de cessao, a primeira aceita,ao implicita, pelo rei, de que exis-

uma Biblioteca das Finan,as que deve fornecer a todos os te mesmo urna materia historica que pode deixar claras, tal-

ministros de Sua Majestade os memoriais, informa,oes e es- vez, as leis fundamentais do reino. Ja e, dez anos antes dos

clarecimentos necessarios; em 1763, cria,ao de urn Arquivo Estados-Gerais, a primeira aceita,ao implicita de uma espe-

de Documentos para aqueles que quisessem estudar a histo- cie de constitui,ao. E, alias, e a partir desses materiais reu-

ria e 0 direito publico na Fran,a. Enfim, essas duas institui- nidos que os Estados-Gerais vao ser projetados e organiza-

,oes sao reunidas, em 1781, numa Biblioteca de Legisla,iio dos em 1789: logo, primeira concessao do poder monarquico,

_ notem bern os termos -, de Administra,iio, Histaria e Direi- primeira aceita,ao implicita de que algo pode imiscuir-se

to Publico. E urn texto urn pouco posterior diz que essa bi- entre seu poder e sua administra,ao, e que sem a constitui,ao,

blioteca e destinada aos ministros de Sua Majestade, itque- as leis fundamentais, a representa,ao do povo, etc.; mas tam-

les que sao encarregados de alguma parte da administra,ao bern reimplanta,ao desse saber historico, sob uma forma

publica geral, e a eruditos e jurisconsultos que, encarrega- autoritaria, no proprio lugar em que quiseram utiliza-lo

dos pelo Chanceler ou pelo Ministro da Justi,a de trabalhos contra 0 absolutismo, ja que esse saber era urna arma para

e de obras uteis a legisla,ao, it historia e ao publico, serao reocupar 0 saber do principe: entre seu poder, os conheci-

pagos it custa de Sua Majestade27 · mentos e 0 exercicio da administra,1io publica. Foi ai, entre

27. Sabre essa questac, cf. J.-N. Moreau, Plan des travaux litteraires 28. Cf. l.·N. Moreau, Principes de morale, de politique et de droit

ordonnes par sa Majeste pour fa recherche, fa collection et Z'emploi des monu- publique pUlses dans "his/oire de notre monarch ie, au Discours sur I'histoire

ments de l'histoire et du droit public de fa monarchiefrant;aise, Paris, 1782. deFrance, Paris, 1777-1789,21 voL 166 EM DEFESA DA SOCIEDADE

o principe e a administra9ao publica, que se pos urn Minis- terio da Historia para restabelecer de certo modo 0 vinculo,

AULA DE 18 DE FEVEREIRO DE 1976 para fazer a historia funcionar no jogo do poder monarquico e de sua administra9iio. Entre 0 saber do principe e os conhe- cimentos de sua administra9ao publica, criou-se urn Minis- Nariio e nafOes. - A conquista romana. - Grandeza e terio da Historia que deveria, entre 0 rei e sua administra9ao, decadencia dos romanos. - Da liberdade dos germanos

segundo Boulainvilliers. - 0 vasa de Soissons. - Origens do estabelecer, de urna forma controlada, a tradi9ao ininterrupta feudalismo. - A Igreja, 0 direito, a lingua do Estado. - As Ires da monarquia. generalizQroes da guerra em Boulainvilliers: a lei da hist6-

Eis urn pouco 0 que eu queria lhes dizer sobre a intro- ria e a lei da natureza; as instituiroes da guerra; 0 calculo das dU9ao desse novo tipo de saber histOrico. Tentarei em seguida larras. ~bservafoes sabre a guerra. ver como, a partir dele e nesse elemento, aparece a luta en- tre as na90es, isto e, algo que vai tomar-se luta das ra9as e luta das classes.

Da ultima vez, tentei mostrar-lbes como, em tome da

rea9ao nobiliana, houvera nao exatamente inven9ao do dis-

curso historico, mas, antes, desagrega9ao de urn discurso his-

torico preliminar que ate entao tivera COmo fun9ao - como

dizia Petrarca 1 - cantar a louva9ao de Roma; que ate entiio

fora interior ao discurso do Estado sobre si mesmo; que tive-

ra como fun9aO manifestar 0 direito do Estado, fundamentar

sua soberania, contar sua genealogia ininterrupta e ilustrar,

com herois, fa9anhas, dinastias, a legitimidade do direito pu-

blico. Essa desagrega9ao da louva9ao de Roma, no final do

seculo XVII e no inicio do seculo XVIII, deu-se de duas

maneiras. De urna parte, pela evoca9ao, pela reativa9ao do

fato da invasao - que ja, voces se lembram, a historiografia

do seculo XVI havia objetado ao absolutismo monarquico.

Recorda-se entao a invasao; introduz-se essa grande ruptu-

ra no tempo: a invasao dos germanos nos seculos V-VI, e a

preteri9ao, e 0 momenta da ruptura do direito publico, 0

1. Cf. supra, aula de 28 de janeiro; cf. tambem aula de 11 de fevereiro. 168 EM DEFESA DA SOC1EDADE AULA DE 18 DE FEVERE1RO DE 1976 169

momenta em que as hordas que afluem da Germania poem za quanta naqueles oriundos da burguesia, e que fazia dizer termo ao absolutismo romano. De outra parte, a outra ruptu- que a nobreza era uma na9ao, que a burguesia tarnbem era ra, 0 outro principio de desagrega9ao - que e, acho eu, mais urna na9ao. Tudo isto teni urna importancia capital sob a Re- importante - e a introdu9ao de urn novo sujeito da histaria, volU9 aO, em especial no texto de Sieyes sobre 0 terceiro esta- no duplo sentido de que se trata de uma nova area de obje- do3, que tentarei comentar para voces. Mas essa no~ao vaga, tos para a narrativa histarica e, ao mesmo tempo, de urn imprecisa, mavel de na9ao, essa ideia de urna na9ao que nao novo sujeito que fala na histaria. 18. nao e 0 Estado falando e detida no interior das fronteiras mas e, ao contrario, uma de si mesmo, e algo diferente falando de si, e esse algo dife- especie de massa de individuos maveis de urna fronteira it rente que fala na histaria e que se toma por objeto de sua outra, atraves dos Estados, sob os Estados, num nivel infra- narrativa histarica e essa especie de entidade nova que e a estatal, voces a encontrariio ainda par muito tempo no seculo na9ao. A na9ao entendida, claro, no sentido lato da palavra. XIX, em Augustin Thierry4, em Guizot5, etc. Eu tratarei de voltar a isso, pois e dessa n09ao de na9ao que Portanto, temos urn novo sujeito da histaria, e eu vou vaG irradiar-se ou derivar n090es como as de nacionalidade, tentar mostrar-lhes como e por que era a nobreza que havia de ra9a, de classe. No seculo XVIII, essa n09ao deve ser en- introduzido assim, na grande organiza9ao estatal do discur- tendida ainda nurn sentido muito ample. so histarico, esse principio de desagrega,ao que era a na9ao

Everdade que, na EncyclopMie, voces encontrarn uma como sujeito-objeto da nova histaria. Mas que e essa nova defini9ao que eu diria estatal da na9ao, porque os enciclo- historia, em que ela consistia, como a vemos instaurar-se no pedistas dao quatro criterios a existencia da na,a0 2 Primei- inicio do seculo XVIII? Eu creio que a razao pela qual e ro, deve ser urna grande multidao de homens; segundo, deve nesse discurso da nobreza francesa que vemos desenvolver- ser urna multidao de homens que habitam urn pais definido; se esse novo tipo de histaria aparece clararnente quando 0 terceiro, esse pais definido deve ser circunscrito por frontei- comparamos com 0 que era - no seculo XVII, urn seculo ras; e, quarto, essa multidao de homens, assim estabelecida antes ou quase - 0 problema Ingles. no interior de fronteiras, deve obedecer a leis e a urn governo A oposi9ao parlamentar e a OPOSi9ao popular inglesa, (micos. Portanto, voces tern ai uma defini9ao, de certo modo entre 0 fim do seculo XVI e 0 inicio do seculo XVII, ti- urna fixa9ao da na,ao: de uma parte, nas fronteiras do Es- nham, no fundo, de resolver urn problema relativarnente tado, de outra, na prapria forma do Estado. Eu creio que essa simples. Tratava-se, para elas, de mostrar que havia, na mo- e uma defini9ao polemica que visava, se nao refutar, pelo narquia inglesa, dois sistemas de direito opostos e ao mes- menos excluir a defini9ao arnpla que reinava naquele mo- mo tempo duas na,oes. De urn lado, 0 sistema de direito cor- mento, que encontramos tanto nos textos oriundos da nobre-

2. "Palavra coletiva que se usa para exprimir uma quantidade conside- 3. E.-J. Sieyes, Qu'est-ce que Ie Tiers-Etat?, ed. cit. Sabre Sieyes, ef. favel de pove, que habita certa area de pais, encerrada em certos limites e que infra, aula de 10 de mania. obedece ao mesmo govemo" (art. "Nai;iio", in Encyclopedie, au Dictionnaire 4. Sabre Augustin Thierry, ver a mesma aula. raisonne des sciences, des arts et des metiers, Lucca, 1758,1. XI, pp. 29-30). 5. Sabre Fram;ois Guizot, ver a mesma aula. 170 EM DEFESA DA SOCIEDADE

respondente a na,ao normanda: nesse sistema de direito

AULA DE 18 DE FEVEREIRO DE 1976 171 I

I

Dai a complexidade do problema e dai, acho eu, 0 carater encontramos bloqueadas, de certo modo urna com a outra, a aristocracia e a monarquia. Essa na,ao traz em si urn siste- ma de direito que e 0 do absolutismo, e ela 0 imp6s pela violencia da invasao. Logo, monarquia e aristocracia (Qirei-



infinitamente mais elaborado da analise que voces encon-

tram em Boulainvilliers, se comparada com aquela que en-

contravamos varias decadas antes.

I

J



Mas eu yOU considerar Boulainvilliers simplesmente a to de tipo absolutista e invasao). E tratava-se de valorizar, titulo de exemplo, ja que, de fato, se trata de todo urn nueleo, contra esse conjunto, urn outro, 0 do direito saxao: 0 direi- de toda urna constela,ao de historiadores da nobreza que to das liberdades fundamentais e que acabava sendo a urn come,am a formular suas teorias na segunda metade do se- so tempo 0 direito dos habitantes mais antigos, de urn lado, culo XVII (0 conde d'Estaing em cerca de 1660-1670, por e ao mesmo tempo 0 direito reivindicado pelos mais pobres, exempl06), e isso ira ate 0 conde du Buat-Nan,ay7, no limi- em todo caso por aqueles que nao pertenciam nem a fami- te ate 0 conde de Montlosier8 no momento da Revolu,ao, lia real nem as familias aristocraticas. Portanto, dois gran- do Imperio e da Restaura,ao. 0 papel de Boulainvilliers e des conjuntos, e tratava-se de valorizar 0 mais antigo e mais importante, ja que foi ele quem tentou retranscrever os rela- liberal, em detrimento do mais novo que trouxera - com a torios dos intendentes feitos para 0 duque de Borgonba, e invasao - 0 absolutismo. Era urn problema simples. ele pode, assim, servir-nos de ponto de referencia e de per-

o problema da nobreza francesa urn seculo depois, no fil geral valido provisoriamente para todo 0 mund09 . Como final do seculo XVII e no inicio do seculo XVIII, era evi- Boulainvilliers faz sua analise? Primeira questao: quando os dentemente muito mais complicado, ja que se tratava, para francos penetram na Galia, que encontram a sua frente? Nao ela, de lutar em duas frentes. De urna parte, contra a monar- encontram, evidentemente, aquela patria perdida para onde quia e suas usurpa,oes do poder, de outra, contra 0 terceiro queriam ter voltado por causa de sua riqueza e de sua civi- estado, que se aproveita justamente da monarquia absoluta liza,ao (como queria a velha narrativa hist6rico-Iendaria do para invadir, por sua vez e em seu proveito, os direitos da seculo XVII, segundo a qual os francos, gauleses que haviam nobreza. Logo, luta em duas frentes, que nao pode ser tra- vada da mesma forma nurna e na outra. Contra 0 absolutis- mo da monarquia, a nobreza vai valorizar as liberdades fun- 6. Conde Joachim d'Estaing, Dissertation sur fa noblesse d'extraction damentais que se pretende sejam as do povo germano ou op. cit. franco que invadiu a Galia em dado momento. Logo, contra 7. Sabre du Buat~Nan~ay, cf. supra, aula de 10 de mar90.

8. Sabre Montlosier, ver a mesma aula. a monarquia, valorizar as liberdades. Mas, contra 0 terceiro 9. A analise do trabalho hist6rico de Boulainvilliers que M. Foucault de- estado vao valorizar ao contrario, os direitos ilimitados de- senvolve nesta aula (e na seguinte) Ii: fundamentada nos textos ja assinalados vidos Ainvasao. Isto' quer dizer que, de urn lado - contra 0 nas notas 21-22 da aula de 11 de fevereiro, em especial: Memoires sur l'his- terceiro estado -, sera preciso ser de certo modo os vencedo- toire du gouvernement de fa France, in Etat de fa France... , op. cit.; Histoire res absolutos cujos direitos nao sao limitados; mas, do outro de l'ancien gouvernement de fa France... , op. cit.; Dissertation sur fa nobfes-

sefranfoise servant de Preface aux Memoires de fa maison de eroi et de Bou- lado - contra a monarquia -, sera preciso valorizar urn direi- fainvilliers, in A. Devyver, Le sang epure... , op. cit.; Memoires presentes a to quase constitucional que e 0 das liberdades fundamentais. Mgr. Ie due d'Orfeans ... , op. cit. 172 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 18 DE FEVEREIRO DE 1976 173

deixado a patria, teriam almejado em dado momento voltar deles. A partir dai vemos os romanos constituirem para si para ela). A Galia que Boulainvilliers descreve nao e em abso- uma certa nobreza de que necessitavam uma nobreza nao luto uma Galia feliz, urn tanto arcadica, que teria esquecido militar - que poderia ter-se oposto a eles '-, mas uma nobre- as violencias de Cesar na fusao feliz de urna unidade nova- za ailininistrativa, destinada a ajuda-Ios em sua organiza9ao mente constituida. 0 que os francos encontrarn, quando en- da Gaha romana e, sobretudo, em todos os procedimentos tram na Galia, e urna terra de conquista. E terra de conquista pelos quais vao servir-se da riqueza da Galia e garantir um quer dizer que 0 absolutismo romano, 0 direito regio ou im- sistema fiscal proveitoso para eles. Cria-se assim uma nova

nobreza, urna nobreza civil, juridica, administrativa, que tem perial instaurado pelos romanos, nao era de modo algum,

como caracteristica, em primeiro lugar, urna pratica agu9ada nessa Galia, urn direito aclimatado, aceito, acatado, que for-

fina e habil do direito romano ~, em segundo lugar, 0 co: maya urn so corpo com a terra e 0 povo. Esse direito era urn

nheclmento da lingua romana. E em torno desse conheci- fato de conquista, a Galia esta sujeitada. 0 direito que nela

mento da lingua e da pralica do direito que aparece uma reina nao e em absoluto urna soberania consentida, e um fato

nova nobreza. de domina9ao. E e 0 proprio mecanismo dessa domina9ao,

Essa descri9ao permite dissipar 0 velho milo do seculo que durou ao longo de toda a ocupa9ao romana, que Bou-

XVII,. da Galia romana feliz e arcadica. A refuta9ao desse lainvilliers tenta situar, valorizando certo numero de fases.

mlto e, eVldentemente, uma maneira de dizer ao rei da Fran-

De inicio os romanos, entrando na Galia, teriam tido

c;a: se reivindicais 0 ahsolutismo romano, na verdade nao como primeiro cuidado desannar, e claro, aquela aristocra- reivindicais um direito fundamental e essencial na terra da cia guerreira que fora a unica for9a militar a se opor real- Galia, mas uma historia precisa e particular, cujos procedi- mente a eles; desarmar a nobreza, rebaixa-la tambem poli- mentos nao sao particularmente honrosos. Em todo caso e tica e economicamente, e isto mediante (ou, em todo caso,

no interior de urn mecanismo de sujeic;ao que vas vas in~e em correla9ao com) uma eleva9ao artificial da rale, a quem ris. E, alias, esse absolutismo romano, que foi implantado lisonjeiarn, diz Boulainvilliers, com a ideia de igualdade. Isto por certo numero de mecanismos de domina9ao, foi final- quer dizer que, mediante um procedimento proprio de todos mente derrubado, varrido, vencido, pelos germanos - me-

os despotismos (e que se vira, alias, desenvolver-se na repu- nos, alias, pelos acasos de uma derrota militar do que pela

blica romana desde Mario ate Cesar), faz-se os inferiores nec."ssldade de urna degrada9ao interna. E af que comep

acreditarem que um pouco mais de igualdade em seu pro- entao a segunda parte da analise de Boulainvilliers - 0 mo-

veito dara muito mais liberdade a todos. E, de fato, gra9as a mento em que ele analisa os efeitos reais da domina9ao ro-

essa "igualitariza9ao", chega-se a um governo despotico. Da mana sobre a Galia. Ao entrar na Galia, os germanos (ou os

mesma forma, os romanos tomararn a sociedade gaulesa igua- francos) encontraram uma terra de conquista que era a es-

litaria ao rebaixar a nobreza, ao elevar a rale, e puderam trutura militar da Galia*' Dai em diante, os romanos nao ti-

assim estabelecer seu proprio cesarismo. Essa e a primeira

fase, que se conclui, sob Caligula, com 0 massacre sistemati-

co dos antigos nobres gauleses que resistiarn tanto aos roma- * "que era a estrutura militar da Galia" nao figura no manuscrito; em

nos quanto a esse rebaixarnento que caracterizava a politica seu lugar: "e urn pais arruinado pelo absolutismo". 174 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 18 DE FEVERE1RO DE 1976 175

nham mais nada para poder defender a Galia contra as inva- de urn direito substituir-se a outro direito. Ja nao sao em soes que vinham do outro lado do Reno. E - urna vez que ja absoluto estes os problemas forrnulados. 0 problema nao e nao tinham urna nobreza - para defender a terra gaulesa que o de saber se, no fundo, 0 regime romano ou 0 regime fran- ocupavam, foram obrigados a recorrer a mercenarios, ou co eram legitimos ou nao. 0 problema e saber quais foram as seja, a homens que nao combatiam por si mesmos ou para causas intemas da derrota, ou seja, em que 0 governo roma- defender sua terra, mas por urn soldo. A existencia de urn no (legitimo ou nao, afinal de contas nao e esse 0 proble- exercito mercenano, de urn exercito paga, implica, claro, ma) era logicamente absurdo ou politicamente contradit6rio. urn fisco enorrne. Portanto, vai ser preciso extrair da Galia Esse famoso problema das causas da grandeza e da deca- nao s6 os mercenarios, mas tambem com que paga-los. Dai dencia dos romanos, que vai ser urn dos grandes lugares- duas coisas. Primeiro: aurnento consideravel dos impostos comuns da literatura hist6rica ou politica do seculo XVIIIIO, em moeda. Segundo: eleva9ao exagerada dessas moedas ou e que Montesquieu ll retomara depois de Boulainvilliers, ainda, como diriamos hoje, desvaloriza9ao. Dai urn feno- tern urn sentido muito preciso. E que se lan9a ai, pela pri- meno duplo: de urn lado, a moeda perde 0 valor por causa meira vez, urna analise de tipo economico-politico, quando dessa desvaloriza9ao e, mais curiosamente ainda, depois s6 houvera, ate entao, 0 problema da preteri9ao, da mudan- disso ela fica cada vez mais rara. Essa ausencia de moeda 9a do direito, da mudan9a de urn direito absolutista para urn vai acarretar urn arrefecimento dos neg6cios e urn empo- direito de tipo gerrnanico, isto e, de urn modelo totalmente brecimento geral. E nesse estado de desola9ao global que a diferente. E ai que 0 problema das causas da decadencia dos conquista franca vai ocorrer, ou melhor, vai ser possivel. A romanos se torna 0 modelo mesmo de urn novo tipo de ana- permeabilidade da Galia a invasao franca esta ligada a essa lise hist6rica. Isso e tudo quanto a urn primeiro conjunto de ruina do pais, cujo principia era, pois, a existencia de trapas analises que podemos encontrar em Boulainvilliers. Eu sis- mercemirias. tematizo urn pOlleD tudo i880, mas e para tentar ir urn pOlleD

Voltarei mais tarde a esse tipo de analise. Mas 0 que e mais depressa. interessante e se pode assinalar de imediato e que a analise Depois do problema da Galia e dos romanos, 0 segundo de Boulainvilliers ja nao e em absoluto do mesmo tipo da- problema, ou grupo de problemas, que tomarei como exem- quela que ainda se podia encontrar algurnas decadas antes, quando a questao forrnulada era essencialmente a do direito

10. Essa literatura comeo:;a com Maquiavel CDiscorsi sopra fa prima publico, ou seja, esta: 0 absolutismo romano, com seu siste-

deca di Tita Livia [1513-1517], Floren<;a, 1531), prossegue com Bossuet ma de direito, subsiste de direito mesmo depois da invasao (Discours sur ['Histoire universelle, Paris, 1681), com E. W. Montagu franca? Os francos aboliram, legitimamente ou nao, 0 tipo (Reflections on the Rise and Fall of the Ancient Republics, Londres, 1759), de soberania romana? Tal era 0 prpblema hist6rico que se com A. Ferguson (The History ofthe Progress and Termination of the Roman

Republic, Londres, 1783) e termina com a obra de Edward Gibbon, History of forrnulava, em linhas gerais, no seculo XVII. Agora, 0 pro-

the Decline and Fall ofthe Roman Empire, Londres, 1776~ 1788,6 vol. blema, para Boulainvilliers, ja nao e em absoluto saber se 0 11. Charles~Louis de Montesquieu, Considerations sur fes causes de fa direito permanece ou nao permanece, se pertence ao direito grandeur des Romain.~ et de leur decadence, Amsterdam, 1734. 176 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 18 DE FEVERE1RO DE 1976 177



plo das amilises de Boulainvilliers, e 0 que ele propoe a res- Em todo caso, temos, portanto, uma sociedade em que 0 po- peito dos francos: quem sao esses francos que entram na Ga- rler e minima, ao menos em tempo de paz, e por conseguin- lia? Esse e 0 problema redproco daquele de que acabo de Ihes te, a liberdade maxima. falar: 0 que faz a for,a desses homens ao mesmo tempo Ora, 0 que e essa liberdade de que se beneficiam as incultos, barbaros, relativamente poueo numerosos, e que pessoas dessa aristocracia guerreira? Essa liberdade nao e puderam assim, efetivamente, entrar na Galia e destruir 0 em absoluto uma liberdade de independencia, nao e em mais formidavel dos imperios que a historia conhecera ate absoluto essa liberdade pela qual, fundamentalmente, urn entao? Portanto, trata-se de mostrar a for,a dos francos, em respeita os outros. A liberdade de que se beneficiam os guer- face da fraqueza dos romanos. A for,a dos francos primei- reiros germanos era essencialmente a liberdade do egoismo, ro: e que eles se beneficiam daquilo que os romanos haviam da avidez, do gosto pela batalha, do gosto pela conquista e acreditado dever dispensar, isto e, da existencia de urna aris- pela rapina. A liberdade desses guerreiros nao e a da tole- tocracia guerreira. A sodedade franca e inteiramente orga- rauda e da igualdade para todos; e uma liberdade que so nizada em torno de seus guerreiros que, embora tenham pode se exercer mediante a domina,ao. Isto quer dizer que, atras de si toda uma serie de homens que sao servos (ou, em longe de ser uma liberdade do respeito, e uma liberdade da todo caso, servidores que dependem dos clientes), sao no ferocidade. E urn dos sucessores de Boulainvilliers, Freret, fundo 0 linico povo franco, uma vez que 0 povo germano e fazendo a etimologia da palavra "franco", dira que ela nao composto essencialmente de Leu/e, de leudes, de homens quer absolutamente dizer "livre", no sentido em que a en- que sao todos eles homens de armas; 0 contrario, pois, dos tendemos agora, mas essencialmente "feroz",jerox. A pala- mercemirios. De Dutro lado, esses homens de armas, essas vra "franco" tern exatamente as mesmas conota<;oes que a aristocracias guerreiras, atribuem-se urn rei, mas que s6 tern palavra latina ferox, tern todos os sentidos dela, diz Freret, como fun,ao solucionar contendas ou problemas de justi,a favoraveis e desfavoraveis. Ela quer dizer "altivo, intrepido, em tempo de paz. Os reis nao passam de magistrados civis, orgulhoso, cruel"12. E e assim que come,a 0 famoso grande nada mais. Alem disso, os reis sao escolhidos mediante urn retrato do "barbaro" que vamos encontrar ate 0 fim do secu- consentimento comum pelos grupos dos leudes, pelos gru- 10 XIX e, claro, em Nietzsche, [em quem] a liberdade sera pos dos homens de armas. So no momenta das guerras - equivalente a urna ferocidade que e gosto pelo poder e avi- quando se necessita de urna organiza,ao forte e de urn po- dez determinada, incapacidade de servir mas desejo sempre der unico - e que se atribuem urn chefe, cuja chefia obede- pronto a sujeitar, "costumes impolidos e grosseiros, odio ce a prindpios totalmente diferentes e e absoluta. 0 chefe e pelos nomes, pela lingua, pelos costumes romanos. Amador urn chefe de guerra, que nao e for,osamente 0 rei da socie- da liberdade, valente, ligeiro, infiel, avido de ganhos, impa- dade civil mas que, em certos casos, pode se-lo. Alguem co- mo Clovis - de uma [...] importfmcia historica - era a urn so tempo 0 irbitro civil, 0 magistrado civil escolhido para so- 12. Cf. N. Freret, De l'origine des Franr;ais et de leur etablissement dans lucionar as contendas, e depois tambem 0 chefe de guerra. fa Gaule, in (Euvres completes, Paris, 1796-1799, t. V, Paris, ano VII, p. 202. 178 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 18 DE FEVEREIRO DE 1976 179

ciente, inquieto"13*, etc.: sao esses os epitetos que Boulain- as terras dele, nenhum direito, por conseguinte, do tipo da villiers e seus sucessores utilizam para descrever esse novo soberania romana, sobre 0 conjunto das terras da Gilia. E, grande barbaro louro, que faz assim, atraves de seus textos, tornando-se assim proprietirios independentes e individuais, sua entrada solene na histaria europeia, quero dizer na his- e claro que nao havia razao nenhuma para que eles aceitas- toriografia europeia. sem, acima deles, urn rei que teria sido, de certo modo, ° her-

Esse retrato da grande ferocidade loura dos germanos deiro dos imperadores romanos. permite explicar, primeiramente, como os guerreiros fran- E e aqui que come,a a histaria do vaso de Soissons, ou cos, que entraram na G:ilia, puderam e deveram necessaria- melhor, ai ainda, a historiografia do vaso de Soissons. Qual mente recusar qualquer assimila,ao com os galo-romanos, e essa histaria? Voces sem duvida a aprenderarn em seus em especial, qualquer sujei,ao a esse direito imperial. Eles livros escolares. E uma inven,ao de Boulainvilliers, de seus eram livres demais, quero dizer altivos demais, arrogantes predecessores e de seus sucessores. Pin,ararn em Gregoire demais, etc., para nao impedir 0 chefe de guerra de tornar-se de Tours essa historia que depois vai ser um dos lugares-co- soberano no sentido romano da palavra. Erarn avidos demais muns de discussoes histaricas infinitas. Quando, depois de de conquista e de domina,ao, em sua liberdade, para nao se nao me lembro qual batalha 14 , Clovis reparte 0 saque, ou apoderarem, eles proprios, a titulo individual, da terra gau- melhor, preside enquanto magistrado civil it distribui,ao do lesa. De sorte que 0 rei, que era [...] seu chefe de guerra, saque, voces sabem que diante de certo vaso ele diz: "Este, nao se tornou, com a vitoria dos francos, proprietario das eu ° queria!"; mas urn guerreiro levanta-se e diz: "Nilo tens terras da Gilia, mas cada um dos guerreiros se beneficiou, direito a esse vaso, pois, mesmo sendo rei, tu partilharas 0 ele praprio e diretamente, da vitoria e da conquista; reser- saque com os outros. Nao tens nenhurn direito de apreen- you para si uma parte das terras da Galia. Remotamente e sao, nao tens nenhum direito de posse primeira e absoluta esse - nao me detenho nos detalhes, que sao complicados, sobre 0 que foi ganho na guerra. 0 que foi ganho na guerra na analise de Boulainvilliers - 0 inicio do feudalismo. Cada deve ser dividido em propriedades absolutas entre os dife- urn tomou efetivamente um peda,o de terra; 0 rei sa tinha rentes vencedores, e 0 rei nao tern nenhurna preeminencia."

Ai esta a primeira fase da histaria do vaso de Soissons. Vol-

13. Cf. F. Nietzsche, Zur Genealogie der Moral; eine Streitschrifi, Leipzig,

taremos it segunda depois. 1887, Erste Abhandlung: "Gut und Bose", "Gut und Schlecht", § 11; Zweite Essa descri,ao de uma comunidade germanica feita por Abhandlung: "Schuld", "Schlechtes Gewissen und Verwandtes" §§ 16, 17 e 18 Boulainvilliers permite, portanto, explicar como os germanos (tract. fr.: La genealogie de fa morale. Un ecrU polemique, Paris, Gallimard, foram absolutamente recalcitrantes it organiza,ao romana 1971); vet tambem Morgenrote: Gedanken iiber die moralischen Vorurtheile,

do poder. Mas tarnbem permite explicar como e por que Chemnitz, 1881, Zweitw Buch, § 112 (tract. fr.: Aurore. Pensees sur les pn?juges moraux, Paris, Gallimard, 1970). Cf. a ciw;ao de Boulainvilliers in A. De'Y)"Ver, essa conquista da Galia, povoada erica, por esse povo pobre Le sang epure..., op. cit., p. 508: "Eles eram, alias, muito amantes da liberdade, e pouco numeroso, p6de, apesar de tudo, perdurar. Ai tam- valentes, ligeiros, infieis, avidos do ganho, inquietos, impacientes: e assim que os antigos autores os descrevem."

* Passagem entre aspas no manuscrito. 14. Trata-se da tomada de Soissons contra 0 romano Siagrio em 486. 180 EM DEFESA DA SOClEDADE

AULA DE 18 DE FEVERE1RO DE 1976 181

bem a compara9ao com a lnglaterra e interessante. Voces se

i~ventou: isto e, 0 feudalismo como sistema historico-juri- lembram de que os ingleses estavam igualmente diante des-

dICD que caracteriza a sociedade, as sociedades europeias, te problema: como e possivel que sessenta mil guerreiros

desde os seculos VI, VII, VIII ate 0 seculo XV aproximada- normandos tenham conseguido instalar-se na lnglaterra e

mente. Esse sistema do feudalismo nao havia sido isolado resistir? Boulainvilliers tem 0 mesmo problema. Mas eis

nem pelos historiadores nem pelos juristas, antes das anali- como ele 0 resolve, por sua vez. Ele diz isto: se os francos

ses de Boulainvilliers. E essa felicidade de uma casta mili- puderam, com efeito, resistir nessa terra conquistada, e por-

tar sustentada e mantida por urna popula9ao camponesa que que tomaram como primeira precau9ao nao s6 nao dar, mas confiscar as armas dos gauleses, de maneira que permane- lhe paga tributos em produtos agricolas que e, de certo modo, cesse, bem isolada no meio do pais, urna certa casta militar o clIma dessa unidade juridico-politica do feudalismo. nitidamente diferenciada das outras, casta militar que e urna Terceiro conjonto de fatos que Boulainvilliers analisa e casta inteiramente germauica. Os gauleses ja nao tem armas, que eu gostaria igualmente de isolar, pois sao importantes: mas, em compensa9ao, vao deixar-Ihes a ocupa9ao real de e a serie dos fatos pelos quais essa nobreza, ou melhor, essa

aristocracia guerreira, assim instalada na Galia, pOde final- suas terras, ja que, precisamente, os germanos ou os francos nao vao ter outra ocupa9ao alem de guerrear. Uns, portanto, mente perder 0 essencial de seu poder e de sua riqueza e

ver-se, afinal de contas, refreada pelo poder monarquico. A guerreiam, os outros ficam em suas terras e as cultivam. Pe-

analise que Boulainvilliers faz e aproximadamente a se- dem-lhes simplesmente certo tributo que deve permitir aos

guinte: 0 rei dos francos era portanto, no inicio, urn rei de germanos assegurar sua fun9ao militar. Tributos que, por

dupla conjuntura, no sentido de que, enquanto chefe de guer- certo, nao sao leves, mas sao IDuito menos pesados do que

ra, s6 fora designado durante 0 tempo da guerra. 0 carater os impostos que os romanos tentavam coletar. Muito menos

absoluto de seu poder, por conseguinte, so valia enquanto pesados porque quantitativamente menos importantes e,

durava a propria guerra. De outra parte, enquanto magistra- sobretudo, porque, quando os romanos exigiam para seus

do civil, ele DaD pertencia necessariamente a uma (mica e mercenarios urn imposto em moeda dos camponeses, os

mesma dinastia: nenhum direito de sucessao; tinha de ser camponeses nao podiam da-Io. Agora s6 pedem tributos em

eleito. Ora, esse soberano, esse chefe de dupla conjuntura especie que sempre podem fomecer. Nesta medida, entre os

v~i, s~ tornar, pOlleD a pOlleD, 0 monarca permanente, here- camponeses gauleses, aos quais s6 se pedem tributos em

dllarlO e absoluto, que a maior parte das monarquias euro- especie, e essa casta guerreira, ja nao M hostilidade. Por-

peias - em especial a monarquia francesa - conheceu. Como tanto, temos assim urna sorte de Galia franca feliz, estivel,

se deu essa transforma9ao? Primeiro, pelo proprio fato da muito menos pobre do que era a Galia romana no fim da

conquista, pelo proprio sucesso militar, pelo fato de que um ocupa9ao romana. Uns diante dos outros, gauleses e francos

exercito pouco numeroso se implantara num pais imenso estavam - diz Boulainvilliers - felizes com a posse tranqiii-

que, era de se supor, seria recalcitrante, pelo menos inicial- la do que tinham: 0 franco com 0 engenho do gaules e este

mente. Logo, e normal que 0 exercito franco tenha ficado

de certo modo, em pe de guerra nessa GaIia que acabava d~ com a seguran9a que 0 primeiro Ihe proporcionava. Temos ai 0 nucleo daquilo que Boulainvilliers, como voces sabem,

ocupar. E, por essa razao, aquele que so era chefe durante a 182 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 18 DE FEVERE[RO DE [976 183

dura9ao da guerra ficou, por causa da ocupa9ao, ao mesmo cracia gaulesa. Eis como Boulainvilliers faz sua analise. Ele tempo chefe de guerra e chefe civil. Portanto, a organiza9ao diz isto: no fundo, quando os francos chegaram, quais foram, militar se mantem pelo fato mesmo da ocupa9ao. Ela se man- entre os gauleses, as camadas da popula9ao que mais sofre- tern, mas nao sem problemas, nao sem dificuldades, nao ram? Nao tanto, pois, os camponeses (os quais, ao contrfuio, sem revoltas de parte justamente dos francos, dos guerrei- viram seus impostos em moeda se transformarem em tribu- ros francos, que nao aceitam que a ditadura militar se pro- tos em especie), mas a aristocracia gaulesa, cujas terras fo- longue de certo modo ate na paz. De sorte que 0 rei, para ram, claro, confiscadas pelos guerreiros germiinicos e fran- manter seu poder, tambem foi obrigado a recorrer de novo a cos. Essa aristocracia e que acabou sendo efetivamente es- mercenanos, que ele vai arrebanhar precisamente nesse povo poliada. Ela sofreu com isso, e 0 que e que ela fez? Ja nao gaules que deveria ter deixado desarmado, ou ainda no ex- lhe restava senao urn tinico refUgio, porquanto ela ja nao ti- terior. Em todo caso, eis que a aristocracia guerreira vai

nha suas terras e 0 proprio Estado romano havia desapare- come9ar a ver-se imprensada entre urn poder mom\rquico cido; tinha urn Unico abrigo, que era a Igreja. Foi assim que que tenta manter seu carater absoluto e urn povo gaules que

a aristocracia gaulesa refugiou-se na Igreja; ela nao so e chamado pouco a pouco pelo proprio monarca para sus-

desenvolveu 0 aparelho da Igreja, mas ai, atraves da Igreja, tentar seu poder absoluto.

ela, de urn lado, aprofundou, estendeu sua influencia sobre

E ai gue encontramos 0 segundo episodio do vaso de o povo mediante todo 0 sistema de cren9as que ela fazia cir-

Soissons. Eo momenta em que Clovis, que nao havia engoli-

do a proibi9ao que the fora feita de tocar no vaso, passando cular; ela desenvolveu igualmente, na Igreja, seus conheci- uma revista militar, reconhece 0 guerreiro que 0 havia impe- mentas de latim e, terceiro, nela cultivou 0 direito romano

dido de par a mao no dito cujo. Ent1io, pegando seu grande que era urn direito de forma absolutista. De sorte que, ine:

machado, 0 born Clovis racha 0 cranio do guerreiro, dizendo- vitavelmente, quando os soberanos francos tiveram, de urna

lhe: "Lembra-te do vasa de Soissons." Temos ai, exatamente, parte, de apoiar-se no povo contra a aristocracia germiinica

o momenta em que aquele que devia ser apenas urn magistra- e, de outra, de fundar urn Estado (em todo caso uma monar-

do civil - Clovis - mantem a forma militar do seu poder, quia) do tipo romano, que melhores aliados eles poderiam

mesmo para resolver a questao civil. Serve-se justamente de encontrar do que aqueles homens que tinham tanta influen-

urna revista militar, ou seja, de urna forma que manifesta 0 cia sobre 0 povo, de urn lado, e que, de outro com 0 latim

carater absoluto de seu poder, para resolver urn problema que conheciam tao bern 0 direito romano? Foram' naturalment~

deveria ser apenas urn problema civil. 0 monarca absoluto os aristocratas gauleses, foi a nobreza gaulesa refugiada na

nasce, pois, no momenta em que a forma militar do poder e Igreja que se tornou a aliada natural dos novos monarcas ,

da disciplina come9a a organizar 0 direito civil. no mesma momento em que estes tentavam constituir seu

A segunda opera9ao, mais importante, pela qual 0 poder absolutismo. E foi assim que a Igreja, com 0 latim, com 0

civil vai assurnir a forma absoluta e esta: de urn lado, pois, direito romano, com a pratica judiciaria, tornou-se a grande

o poder civil recorre ao povo gaules para formar urn bando aliada da monarquia absoluta.

de mercenarios. Mas constitui-se outra alian9a, que dessa Ha em Boulainvilliers, como voces veem, todo urn des-

feita e a alian9a entre 0 poder monarquico e a antiga aristo- tino importante que e dado ao que se poderia chamar de lin-

EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 18 DE FEVEREIRO DE 1976 185 184

gua dos saberes, 0 sistema lingua-saber. Ele mostra como a Oai 0 apelo de Boulainvilliers - a que? Essencialmente aristocracia guerreira foi posta it margem por urna alian9a - e isto percorre toda a sua obra -, nao e justamente, como entre a monarquia e 0 povo, por intermedio da Igreja, do era 0 caso, por exemplo, dos historiografos parlamentares latim e da pratica do direito. 0 latim tomou-se lingua de Es- (e sobretudo populares) ingleses do seculo XVII, it revolta tado, lingua de saber e lingua juridica. E, se a nobreza per- dos nobres espoliados de seus direitos. Ao que a nobreza e deu seu poder, foi na medida em que pertencia a outro sis- convidada e, essencialmente, it reabertura do saber: reaber- tema lingiiistico. A nobreza falava as linguas germanicas, lura de sua propria memoria, tomada de consciencia, recupe- nao conbecia 0 latim. De sorte que, no momenta em que ra9ao do conbecimento e do saber. E a isso que Boulain- todo 0 novo sistema de direito estava sendo implantado par villiers convida, em primeira insmncia, a nobreza: "V6s nao ordena90es em latim, ela nem sequer compreendia 0 que recuperareis 0 poder se nao recuperardes 0 estatuto dos Ihe estava acontecendo. E compreendia-o tao pouco - e era saberes de que fostes espoliados - ou melhor, que vos ja- tao importante que nao compreendesse - que justamente a mais havieis procurado possuir. Pois, de fato, sempre havieis Igreja, de um lado, e 0 rei, do outro, fizeram todo 0 possivel combatido sem vos dar conta de que a partir de certo mo- para que a nobreza continuasse ignorante. Boulainvilliers mento a verdadeira batalha, pelo menos no interior da so- faz toda uma historia da educa9ao da nobreza mostrando ciedade, ja nao passava pelas armas e sim pelo saber." Nossos que, se a Igreja, por exemplo, insistiu tanto na vida no alem ancestrais - diz Boulainvilliers - tiveram a vaidade capri- como a unica razao de estar aqui neste mundo, foi essen- chosa de 19norar 0 que eram. Houve urn esquecimento per- cialmente para fazer as pessoas bem-educadas acreditarem petuo de si mesmo, que parece provir da imbecilidade ou do

que, de fato, nada do que se passava aqui era importante e feiti90. Retomar consciencia de si, descobrir as fontes do

que 0 essencial do destino delas devia passar-se do outro saber e da memoria significa denunciar todas as mistifica-

lado. E foi assim que aqueles germanos, tao itvidos de pos- 90es da historia. E sera retomando consciencia de si inse-

suir e de dominar, aqueles grandes guerreiros louros tao rindo-se de novo na trama do saber, que a nobreza ~odera

apegados ao presente, foram aos poucos sendo transforma- voltar a ser urna for9a, colocar-se como sujeito da historia.

dos em pessoas tipo cavaleiros, tipo cruzados, que negli- Colocar-se como urna for9a na historia implica, pois, como

genciavam inteiramente 0 que se passava em suas proprias primeira fase, retomar consciencia de si e reinserir-se na

terras e em seu proprio pais, e se encontraram espoliados de ordem do saber.

sua fortuna e de seu poder. As Cruzadas, como grande ca- Ai esta certo nllinero de temas que eu isolei nas obras

minbada para 0 alem, sao para Boulainvilliers a expressao, consideraveis de Boulainvilliers e que me parecem introdu-

a manifesta9ao do que se passava quando essa nobreza ficou zir urn tipo de analise que evidentemente vai ser fundamental

inteiramente voltada para 0 mundo do alem, enquanto no para todas as analises historico-politicas desde 0 seculo XVIII

lado de ca, au seja, em suas proprias terras, no momento em ate hoje. Importancia dessas analises, por que? Primeiro

que estavam em Jerusalem, que e que se passava? 0 rei, a e

pe!a primazia gera! que nelas concedida it guerra. Mas eu

Igreja, a antiga aristocracia gaulesa manipulavam as leis em creio que 0 que e sobretudo importante, uma vez que a pri-

latim que deviam espolia-Ios de suas terras e de seus direitos. mazia concedida it guerra nessas analises e a forma que a 186 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 18 DE FEVEREIRO DE 1976 187

narrativa de guerra assume nelas, e 0 papel que Boulain- sao dos francos, sob os galo-romanos houve a invasao dos villiers faz essa narrativa de guerra desempenhar. Pois eu germanos), quer ainda desigualdades que traduzem guerras creio que para utilizar, como ele faz, a guerra como analisa- e violencias. Assim e que os gauleses, por exemplo, ja esta- dor gera! da sociedade, Boulainvilliers faz a guerra passar yam divididos entre aristocratas e nao-aristocratas. Entre os por tres generaliza~5es sucessivas ou sobrepostas. Primeiro, medas, entre os persas, voces encontram igualmente uma aris- ele a generaliza com rela9ao aos fundamentos do direito; se- tocracia e um povo. Isso prova com evidencia que houve, gundo, ele a generaliza com rela9ao a forma da batalha; ter- por tras disso, lutas, violencias e guerras. E, alias, todas as ceiro, ele a generaliza com rela9ao ao fato da invasao e ao vezes que se veem as diferen9as entre aristocracia e povo outro fato reciproco da invasao que e a revolta. Sao essas tres atenuar-se numa sociedade ou num Estado, pode-se ter cer- generaliza90es que agora eu gostaria de situar um pouco. teza de que 0 Estado vai entrar em decadencia. Grecia e

Primeiro, generaliza9ao da guerra com rela9ao ao di- Roma perderam seus estatutos, e desapareceram mesmo reito e aos fundamentos do direito. Nas analises anteriores, como Estados, desde que sua aristocracia entrou em deca- as dos protestantes franceses do seculo XVI, dos parlamen- dencia. Logo, em toda parte desigualdades, em toda parte vio- taristas franceses do seculo XVII e dos parlamentaristas in- lencias que fundamentam desigualdades, em toda parte guer- gleses da mesma epoca, a guerra e essa especie de episodio ras. Nao hi sociedades que possam perdurar sem essa espe- de ruptura que suspende 0 direito e 0 subverte. A guerra e 0 cie de tensao belicosa entre uma aristocracia e uma massa barqueiro que permite ir de um sistema de direito para outro. de povo. Em Boulainvilliers, a guerra nao desempenha esse papel, a Agora, a aplica9ao teorica dessa mesma ideia e a se- guerra nao interrompe 0 direito. A guerra, na verdade, en- ·guinte. Boulainvilliers diz: pode-se, e claro, conceber uma valve inteiramente 0 direito, envolve mesmo, inteiramente, especie de liberdade primitiva antes de qualquer domina9ao, o direito natural, a ponto de deixa-Io irreal, abstrato e de cer- de qualquer poder, de qualquer guerra, de qualquer servi- to modo ficticio. De que a guerra tenha envolvido inteira- dao, mas essa liberdade que se pode conceber entre indivi- mente 0 direito natural, a tal ponto que esse direito nao seja duos que nao teriam entre si nenhuma rela9ao de domin~ao, mais do que uma abstra9ao inutilizavel, Boulainvilliers da essa liberdade em que todo 0 mundo, em que todas as pes- tres provas; da andamento a essa ideia de tres formas. Pri- soas seriam iguais umas com rela9ao as outras, esse par li- meiro, no modo historico, ele diz isto: pode-se percorrer a berdade-igualdade so pode ser, na realidade, algo sem for9a historia tanto quanto se quiser, em todos os sentidos, pois e sem conteudo. Porque... 0 que e a liberdade? A liberdade nao como quer que seja nunca se encontrarao direitos naturais. consiste, e claro, em impedir-se de invadir a liberdade dos Em nenhuma sociedade, seja ela qual for, ha direitos natu- outros, pois, nesse momento, ja nao seria uma liberdade. Em rais. 0 que os historiadores acreditavam descobrir, por exem- que consiste a liberdade? A liberdade consiste em poder to- plo entre os saxoes ou entre os celtas, isto e, um tipo de mar, em poder se apropriar, em poder aproveitar, em poder pequena praia, de pequena ilha de direito natural, tudo isso comandar, em poder obter a obediencia. 0 primeiro criterio esta inteiramente errado. Em toda parte so se encontra algo da liberdade e poder privar os outros da liberdade. Para que que e, quer a propria guerra (sob os franceses houve a inva- serviria e em que consistiria, concretamente, 0 fata de ser 188 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 18 DE FEVERE1RO DE 1976 189

livre, se nao se pudesse justamenre invadir a liberdade dos for,a da hist6ria em compara,ao it for,a da natureza: e isso, outros? Essa e a primeira expressao da liberdade. A liberda- finalmente, que faz que a hist6ria tenha envolvido inteira- de, para Boulainvilliers, e portanto 0 contrano da igualda- mente a natureza. A natureza ja nao pode falar quando a de. E 0 que vai se exercer pela diferen,a, pela domina,ao, hist6ria come,a, pois, na guerra entre a hist6ria e a natureza, pela guerra, por todo urn sistema de rela,oes de for,a. Vma a vencedora e sempre a hist6ria. Ha uma rela,ao de for,a liberdade que nao se traduz numa rela,ao de for,a desiguali- entre natureza e hist6ria, e essa rela,ao de for,a e definiti- taria s6 pode ser uma liberdade abstrata, impotente e fraca. varnente em favor da hist6ria. Logo, 0 direito natural nao

Dai uma especie de aplica,ao, a um s6 tempo hist6rica existe, ou existe apenas como vencido: e sempre 0 grande e te6rica, dessa ideia. Boulainvilliers diz (e ai ainda, esque- vencido da hist6ria, e "0 outro" (e como os gauleses diante matizo muito): admitarnos que 0 direito natural tenha efeti- dos romanos, como os galo-romanos diante dos germanos). vamente existido em dado momento, de certa forma no mo- A hist6ria e a germanidade, se voces preferirem, com rela,ao mento fundador da hist6ria, um direito em que as pessoas it natureza. Portanto, primeira generaliza,ao: a guerra en- seriam livres, de uma parte, e iguais. A fraqueza dessa li- volve inteiramente a hist6ria, em vez de ser simplesmente berdade e tamanha, ja que e precisarnente uma liberdade sua desordena,ao e sua interrup,ao. abstrata, ficticia, sem conteudo efetivo, que ela s6 pode Segunda generaliza,ao da guerra, com rela,ao it forma desaparecer diante da for,a hist6rica de uma liberdade que da batalha. Para Boulainvilliers, e verdade que a conquista, funciona como desigualdade. E, se e verdade que existiu em a invasao, a batalha ganha ou perdida, fixam uma rela,ao de algum lugar, ou num instante qualquer, algo como essa li- for,a; mas, de fato, essa rela,ao de for,a que se expressa na berdade natural, como essa liberdade igualitaria, como esse batalha foi, no fundo, estabelecida antes, e por algo que nao direito natural, ele nao pode resistir it lei da hist6ria, que faz as batalhas antecedentes. 0 que estabelece a rela,ao de for,a que a liberdade s6 seja forte, s6 seja vigorosa e s6 seja plena, e 0 que faz que uma na,ao va ganhar uma batalha e a outra se for a liberdade de alguns garantida it custa dos outros; s6 se perde-la, 0 que e? Pois bern, e a natureza e a organiza,ao houver uma sociedade que garanta a desigualdade essencia!. das instituii;5es militares, e0 exercito, sao as instituir;oes

A lei igualitaria da natureza e fraca em face da lei desi- militares. Elas sao importantes, de uma parte, porque per- gualitaria da hist6ria. Logo, e normal que a lei igualitaria da mitem, claro, obter vit6rias e tarnbem porque permitem ar- natureza tenha cedido 0 lugar, e definitivamente, para a lei ticular a sociedade por inteiro. No fundo, para Boulain- desigualitaria da hist6ria. Por ser 0 direito original e que 0 villiers, 0 importante, 0 que vai de fato fazer que a guerra direito natural nao e fundador, como dizem os juristas, mas va ser 0 principio de analise de uma sociedade, 0 que para excluido pelo vigor maior da hist6ria. A lei da hist6ria e sem- ele e determinante numa organiza,ao social e 0 problema pre mais forte do que a lei da natureza. E isso que Boulain- da organiza,ao militar ou, pura e simplesmente, este: quem villiers sustenta quando diz que a hist6ria conseguiu final- possui as armas? A organiza,ao dos germanos repousa es- mente criar uma lei natural de antltese entre a liberdade e a sencialmente no fato de que alguns - os leudes - tinharn as igualdade, e que essa lei natural e mais forte do que a lei armas e os Qutros nao as tinham. 0 que caracteriza 0 regi- inscrita naquilo a que chamam 0 direito natura!. A maior me da Galia franca e que se tomou 0 cuidado de retirar as ar- 190 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 18 DE FEVEREIRO DE 1976 191

mas dos gauleses e de reserva-Ias aos germanos (os quais eesse mecanismo binario simples que marcara com a chan- deviam ser sustentados, enquanto homens de armas, pelos cela da guerra 0 corpo social inteiro, mas uma guerra COD- gauleses). As altera,5es come,aram a ocorrer quando essas siderada alem e aquem da batalba, a guerra como maneira leis de distribui,ao das armas numa sociedade come,aram a de fazer a guerra, como maneira de preparar e de organizar se embaralhar, quando os rornanos recorreram a mercena- a guerra. A guerra entendida como distribui,ao das armas, rios, quando os reis francos organizararn milicias, quando natureza das armas, tecnicas de combate, recrutamento, Filipe Augusto recorreu a cavaleiros estrangeiros, etc. Foi a retribui,ao dos soldados, impostos destinados ao exercito; a partir desse momento que a organiza,ao simples, que per- guerra como institui9ao intema e nao mais como evento mitia aos germanos, e apenas aos gennanos, au aaristocra- bruto da batalha: .0 isso que, nas analises de Boulainvilliers, cia guerreira, possuir armas, foi embaralhada. .0 operador. Se ele consegue fazer a historia da sociedade

Ora, esse problema da posse das armas - e .0 nesse sen- francesa, .0 seguindo perpetuamente 0 fio que, por tras da tido que ele pode servir de ponto de partida para urna anali- batalha e por tras da invasao, faz aparecer a institui,ao mili- se geral da sociedade - de urn lado .0 ligado, claro, a proble- tar e, mais alem da institui,ao militar, 0 conjunto das institui- mas tecnicos. Por exemplo, quem diz cavaleiros diz lan,as, ,5es e da economia do pais. A guerra .0 uma economia geral armaduras pesadas, etc., mas diz igualmente urn exercito das armas, urna economia dos homens armados e dos ho- pOlleD numeroso de homens ricas. Quem diz, ao contnirio, mens desarmados, nurn dado Estado, e com todas as series arqueiros, armaduras leves, vai dizer exercito nurneroso. A institucionais e econ6micas que derivam dai. E essa formi- partir dai, vemos delinear-se toda urna serie de problemas davel generaliza,ao da guerra com rela,ao ao que ela ainda economicos e institucionais: se ha urn exercito de cavaleiros, era entre os historiadores do seculo XVII que, .0 evidente, urn exercito pesado e pOlleD numeroso de cavaleiros, entao confere a Boulainvilliers a importante dimensao que eu tento os poderes do rei sao for,osamente limitados, pois urn rei Ihes mostrar. nao pode pagar 0 exercito tiio dispendioso dos cavaleiros. Sao Enfim, terceira generaliza,ao da guerra na analise de os proprios cavaleiros que serao obrigados a se sustentar. Boulainvilliers, nao com rela,ao ao fato da batalha, mas, com Em compensayao, com urn _ exercito de infantaria, tern-se rela,ao ao sistema invasao-revolta, que eram os dois gran- urn exercito numeroso, que os reis podem pagar; dai 0 cres- des elementos que se fazia intervir para distinguir a guerra cimento do poder momirquico, mas ao mesma tempo aumen- nas sociedades (por exemplo, na historiografia inglesa do to do fisco. Portanto, voces veem que, dessa vez, ja nao .0 seculo XVII). 0 problema de Boulainvilliers nao .0, pois, como resultado da invasao que a guerra deixaria sua marca simplesmente distinguir quando houve invasao, quais foram nurn corpo social, mas que, por intermedio das institui,5es os efeitos da invasao; tampouco consiste simplesmente em militares, ela acaba tendo efeitos gerais sobre a ordem civil mostrar se houve ou nao revolta. Mas 0 que ele quer fazer inteira. 0 que, por conseguinte, serve de analisador da so- .0 mostrar como certa rela,ao de for,a, que fora manifesta- ciedade ja nao .0 somente a especie de dualidade simples da pela invasao e pela batalha, pouco a pouco, e obscura- invasores/invadidos, vencedores/vencidos, lembran,a da ba- mente, se inverteu. 0 problema dos historiografos ingleses talba de Hastings ou lembran,a da invasiio dos francos. Ja nao era distinguir em toda parte, em todas as institui,5es, onde 192 EM DEFESA DA SOCIEDADE

AULA DE 18 DE FEVEREIRO DE 1976 193

estavam os fortes (os normandos) e onde estavam os fracos nhou, portanto, para a Igreja, e isso Ihes deu urna influencia (os saxoes). 0 problema de Boulainvilliers e saber como, sobre 0 povo, mas igualmente conhecimentos de direito. Foi pois, os fortes se tomaram fracos e como os fracos se torna- isso que, pouco a pouco, os deixou em condi,oes de esta- ram fortes. Eesse problema da passagem da for,a para a fra- rem mais proximos do rei, como conselheiros do rei e, por queza e da fraqueza para a for,a que vai constituir 0 essen- conseguinte, de tomarem a por a mao num poder politico e cial de sua am\lise. nurna riqueza economica que Ihes haviam escapado outrora.

Essa analise e essa descri,ao da mudan,a, Boulain- A forma, os elementos que constituiam a fraqueza da aris- villiers vai faze-las a partir daquilo que se poderia denomi- tocracia gaulesa foram ao mesmo tempo, e a partir de certo nar a determinac;ao dos mecanismos internos de inversao, momento, os principios de sua reviravolta. cujos exemplos se podem encontrar facilmente. Com efeito, o problema que Boulainvilliers analisa nao e, portanto: o que deu for,a it aristocracia franca - bern no come,o da- quem foi vencedor e quem foi vencido, mas quem se tornou quilo a que logo se chamara a Idade Media - foi 0 que? Foi forte e quem se tornou fraco? Por que 0 forte se tornou fra- o fato de que, tendo invadido e ocupado a Galla, os francos co, e por que 0 fraco se tornou forte? Isto quer dizer que a se atribuiram, a eies proprios e diretamente, terras. Logo, eies historia aparece agora como sendo essencialmente urn cal- eram diretamente proprietarios das terras e recebiam por culo das for,O$. Na mesma medida em que vai ser preciso isso rendas em especie, que asseguravam, de urn lado, a cal- fazer uma descri,ao dos mecanismos das rela,oes de for,a, ma da popula,ao camponesa e, de outro, a propria for,a da essa analise vai necessariamente levar a que? Ao fato de cavalaria. Ora, e precisamente isso, ou seja, 0 que fazia a que a grande dicotomia simples vencedores/vencidos ja nao for,a deles, que pouco a pouco vai tornar-se 0 principio da vai ser exatamente pertinente para a descri,ao de todo esse fraqueza deles, por causa dessa dispersao dos nobres em processo. A partir do momento em que 0 forte se torna fraco suas terras e pelo fato de que, sustentados para fazer a guer- e 0 fraco se tarna forte, vai haver novas oposi<;oes, novas ra pelo sistema de tributos, eies foram, de uma parte, afas- divagens, novas distribui,oes: os fracos vao se aliar entre tados da proximidade com 0 rei que eles haviam criado e, si, os fortes vao procurar a alian,a de alguns contra alguns de Dutra, s6 se ocuparam com a guerra, e com a guerra entre outros. 0 que era ainda, na epoca das invas5es, uma especie si. Em conseqiiencia, negligenciaram tudo quanto podia ser de grande batalha maci,a, exercito contra exercito, francos a educa,ao, a instru,ao, 0 aprendizado do latim, 0 conheci- contra gauleses, normandos contra sax5es, essas duas gran- mento. Todo esse conjunto de coisas vai se tomar 0 principio des massas nacionais vao se dividir, se transformar por mul- da impotencia deles. tiplos canais. E vao aparecer entao lutas diversO$, com revi-

Inversamente, se voces tomam 0 exemplo da aristocra- ravoltas de frente, alian,O$ conjunturais, reagrupamentos cia gaulesa, no inicio da invasao franca, ela estava no ul.ti- mais ou menos permanentes: alian,a do poder monarquico mo grau da fraqueza: cada proprietano gaules fora espolla- com a antiga nobreza gaulesa; apoio desse conjunto no po- do de tudo. E era isso precisamente, essa fraqueza, que hlS- vo; ruptura do entendimento tacito entre os guerreiros fran- toricamente se tornou a for,a deles, por urn desenvolvimento cos e os camponeses gauleses quando os guerreiros francos, necessario. 0 fato de serem expulsos das terras os encami- empobrecidos, vaa aumentar suas exigencias e exigir tribu- 194 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 18 DE FEVERE1RO DE 1976 195

tos mais elevados, etc. Todo esse pequeno sistema de apoios, que narravam a historia no interior do direito publico, no de alian9as, de conflitos intemos, e isso agora que vai, de interior do Estado, a guerra era pois, essencialmente, a rup- certo modo, generalizar-se nurna forma de guerra, que os tura do direito, 0 enigma, a especie de massa escura ou de historiadores, ate 0 seculo XVII, ainda concebiam essencial- acontecimento bruto que curnpria mesmo toma-Io como ele mente no modo do grande enfrentamento da invasao. era, e que nao era, nao somente, principio de inteligibilida-

Ate 0 seculo XVII a guerra era mesmo, essencialmente, de - nao se tratava disso - mas, ao contrario, principio de a guerra de urna massa contra outra massa. Boulainvilliers, ruptura. Ai, ao contrario, e a guerra que vai precipitar urn por sua vez, faz a rela9ao de guerra penetrar em toda a rela- tipo de gabarito de inteligibilidade na propria ruptura do 9aO social, vai subdividi-Ia por mil canais diversos e mos- direito e que vai, pois, perrnitir determinar a rela9ao de for9a trar a guerra como urna especie de estado permanente entre que sustenta permanentemente certa rela9ao de direito. Bou- grupos, frentes, unidades tMicas, de certo modo, que se ci- lainvilliers vai, assim, poder integrar esses acontecimentos vilizam uns aos outros, se op5em uns aos Dutros, OU, ao - que antigamente eram apenas violencia e apresentados em contrario, se aliam uns com os outros. Ja nao ha essas gran-

sua massividade -, essas guerras, essas invasoes, essas mu-

dan9as, em toda urna camada de conteudos e de profecias des massas estaveis e multiplas, vai haver urna guerra mul-

que envolvem a sociedade inteira (ja que isso toca, como tipla, nurn sentido urna guerra de todos contra todos, mas urna

voces viram, ao direito, aeconomia, ao sistema fiscal, are- guerra de todos contra todos nao mais, de modo algum, e

ligiao, as cren9as, a instru9ao, a pratica da lingua, as institui- evidente, no sentido abstrato e - creio eu - irreal que Hobbes

90eS juridicas). A historia, a partir do proprio fato da guerra apresentava quando falava da guerra de todos contra todos e

e a partir da analise que se faz em termos de guerra, vai tentava mostrar como nao e a guerra de todos contra todos poder relacionar todas essas coisas: guerra, religiao, politica, que e operadora no interior do corpo social. Em Boulain- costumes e caracteres, e vai ser, pais, urn principia de inte- villiers, ao contrario, vamos ter uma guerra generalizada, ligibilidade da sociedade. A guerra e que deixa a sociedade que vai percorrer tanto todo 0 corpo social quanto toda a his- inteligivel em Boulainvilliers e, penso eu, a partir dai, em toria do corpo social; mas nao, e evidente, como guerra dos todo 0 discurso historico. Quando eu falo de gabarito de in- individuos contra os individuos, mas como guerra de gru- teligibilidade, nao quero dizer, e claro, que 0 que Boulain- pos contra grupos. E e essa generaliza9ao da guerra que e, villiers disse e verdadeiro. Pode-se mesmo, verossimilmente, acho eu, caracteristica do pensamento de Boulainvilliers. demonstrar que tudo 0 que ele disse, pe9a por pe9a, e errado.

Eu gostaria de terminar dizendo-Ihes isto. Essa genera- Simplesmente, eu diria que se pode demonstrar isso. Por liza9ao triplice da guerra leva a que? Ela leva ao seguinte: a que, gra9as a ela, Boulainvilliers chegou ao ponto em que

soberania. Mas dessa feita ja nao se trata de ilustrar pela narrativa historica a os historiadores do direito [... J' Para aqueles historiadores continuidade de uma soberania que e legitima porque continua de urn extre·

rno a Dutro no elemento do direito.

Trata-se de dizer como nasce a institui9aO singular, a figura hist6rica

* lnterrupl;ao nas grava<;oes. 0 manuscrito diz explicitamente: "Num modema do Estado absoluto atraves do jogo de rela90es de fon;a que sao uma sentido, e sempre realmente 0 analogo ao problema juridico: como nasce a especie de guerra generalizada entre as na90es." 196 AULA DE 18 DE FEVERE1RO DE 1976 197

EM DEFESA DA SOCIEDADE

exemplo, 0 discurso que era feito no seculo XVII sobre as de run campo historico-politico, 0 funcionamento da histo-

origens troianas ou sobre a emigra,ao dos francos que teriam ria na luta politica foram tornados possiveis a partir do

deixado a Galia em dado momento, sob urn certo Sigove- momenta em que, num discurso como 0 de Boulainvilliers,

gio, e que teriam voltado mais tarde, nao se pode dizer que essa rela,ao de for,a (que era de certo modo 0 objeto exclu-

~eja pertinente ao regime de verdade ou de erro que e 0 nosso.

sivo das preocupa,oes do Principe) pOde tornar-se objeto E inatribuivel para nos em termos de verdade ou de erro. do saber para urn grupo, uma na.;ao, uma minaria, uma clas- Em compensa,ao, 0 gabarito de inteligibilidade exposto por se, etc. A organiza,ao de run campo historico-politico come- Boulainvilliers instaurou - creio eu - urn certo regime, urn ,a assim. 0 funcionamento da historia na politica, a utiliza,ao certo poder de divisao verdade/erro, que se pode aplicar ao da politica como ca!culo das rela,oes de for,a na historia, discurso do proprio Boulainvilliers, e que pode fazer dizer, tudo isso se integra aqui. alias, que seu discurso e falso, em seu conjunto, e falso em Outra observa,ao ainda. Eque, como voces veem, che- seu detalhe. E mesmo, se voces quiserem, totalmente falso. ga-se a iMia de que a guerra foi no fundo a matriz de ver- Ainda assim foi esse gabarito de inteligibilidade que foi dade do discurso historico. "Matriz de verdade do discurso estabelecido para nosso discurso historico. E e a partir de historical' quer dizer 0 seguinte: a verdade, contrariamente uma inteligibilidade desse tipo que nos, daqui para a frente, ao que a filosofia ou 0 direito quiseram fazer acreditar, nao podemos dizer 0 que e verdadeiro ou errado no discurso de comeya, a verdade e 0 logos nao comec;am onde cessa a vio- Boulainvilliers. lencia. Ao contrario, foi quando a nobreza come,ou a travar

E sobre isso tambem que eu gostaria de insistir, e que, sua guerra politica, a urn so tempo contra 0 terceiro estado fazendo a rela,ao de for,a intervir como uma especie de e contra a monarquia, foi no interior dessa guerra e pensan- guerra continua no interior da sociedade, Boulainvilliers po- do na historia como guerra, que algo como 0 discurso his- dia recuperar - mas dessa vez em termos historicos - todo torico que conhecemos agora pOde estabelecer-se. urn tipo de analise que se encontrava em Maquiave!. Mas, Penultima observa,ao: voces sabem que hi run lugar- em Maquiavel, a rela,ao de for,a era essencialmente descri- comum que pretende que sejam as classes em ascensao que ta como tecnica politica a ser posta entre as maos do sobe- trazem ao mesmo tempo os valores do universal e a potencia rano. Dai em diante, a rela,ao de for,a e run objeto historico da racionalidade. Muito esfor,o foi feito para tentar demons- que alguem que nao 0 soberano - ou seja, algo como uma trar que era a burguesia que havia inventado a historia, ja na,ao (a maneira da aristocracia ou mais tarde da burgue- que a historia - todos sabem - e racional e ja que a burgue- sia, etc.) - pode situar e deterrninar no interior de sua histo- sia do seculo XVIII, classe ascendente, trazia consigo 0 ria. A rela,ao de for,a, que era run objeto essencialmente universal e 0 raciona!. Pois bern, eu acho que se tern, quan- politico, se torna agora run objeto historico, ou melhor, run do se olham as coisas run pouco mais de perto, 0 exemplo de objeto historico-politico, ja que e analisando essa rela,ao de uma classe que, na mesma medida em que estava em plena for,a que, por exemplo, a nobreza vai poder tomar cons- decadencia, despojada de seu poder politico e economico,

implantou runa certa racionalidade historica de que a bur- ciencia de si mesma, reencontrar seu saber, tornar a ser uma

guesia em seguida, 0 proletariado depois, se apossarao. Mas for,a politica no campo das for,as politicas. A constitui,ao 198 EM DEFESA DA SOCIEDADE

eu nao direi que e porque estava em decadencia que a aris- AULA DE 25 DE FEVEREIRO DE 1976 tocracia francesa inventou a historia. E porque ela fazia a guerra que pOde atribuir-se, precisamente, sua guerra como objeto, sendo a guerra a urn so tempo 0 ponto inicial do dis- curso, a condi,ao de possibilidade da emergencia de urn Boulainvilliers e a constitui9iio de urn continuo histori- discurso historico e 0 referencial, 0 objeto para 0 qual se co-politico. - a historicismo. - Tragedia e direito publico. -

A administraroo central da historia. - Problematica das Lu- volta esse discurso, sendo a guerra, ao mesmo tempo, aqui- zes e genealogia dos saberes. - As quatro opera90es do saber 10 a partir de que 0 discurso fala e aquilo de que ele fala. disciplinar e seus efeitos. - A filosofia e a clenda. - 0 disci-

Enfim, derradeira observa,ao: se Clausewitz pOde urn plinamento dos saberes. dia dizer, urn seculo depois de Boulainvilliers e por conse- guinte dois seculos depois dos historiadores ingleses, que a guerra era a politica continuada por outros meios, e porque houve alguem que, no seculo XVII, na virada do seculo XVII para 0 XVIII, pOde analisar, expor e mostrar a politica como sendo a guerra continuada por outros meios. Falando-lhes de Boulainvilliers, eu nao queria de modo

algum mostrar-lhes que com ele come,ava algo como a his-

toria, ja que, afinal de contas, nao ha razao para dizer que a

historia nasce antes com ele do que, por exemplo, com os

juristas do seculo XVI que haviam examinado os monurnen-

tos do direito publico; do que com os parlamentares que ao

longo de todo 0 seculo XVII haviam pesquisado, nos arqui-

vos e na jurisprudencia do Estado, 0 que poderiam ser as

leis fundamentais do reino; do que com os beneditinos que

haviam sido os grandes colecionadores de codices desde 0

fim do seculo XVI. De fato, 0 que se constituiu no inicio do

seculo XVIII, com Boulainvilliers, foi algo ~ creio eu ~ que

e urn campo historico-politico. Em que sentido? Primeiro,

neste: tomando a na,ao, ou melhor, as na,oes, como objeto,

Boulainvilliers analisou - sob as institui,oes, sob os aconte-

cimentos, sob os reis e sob 0 poder deles - algo diferente,

essas sociedades por conseguinte, como se dizia na epoca,

em que se ligavam os interesses, os costumes e as leis ao

mesmo tempo. Portanto, tomando esse objeto, ele praticava

uma dupla conversao. De uma parte, fazia (e creio que era a 200 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 25 DE FEVEREIRO DE 1976 201

primeira vez que isso sucedia) a historia dos suditos - ou seja, Fazendo essa historia, definindo 0 cariller relacional do po- passava para 0 outro lado em rela,ao ao poder; come,ava a der e analisando-o na historia, Boulainvilliers recusava - e dar status na historia a algo que se tomara no seculo XIX, e esse, acho eu, 0 outro aspecto de sua opera,ao - 0 mode- com Michelet, a historia do povo ou dos povos l . Ele desco- 10 juridico da soberania que fora, ate entao, a tinica manei- bria certa materia da historia que era 0 outro lado da rela,ao ra que se tinha de pensar a rela,ao entre 0 povo e 0 monar- de poder. Mas analisava essa nova materia da historia nao ca, ou ainda entre 0 povo e os que govemam. Nao e em ter- como uma substancia inerte, mas como uma fon;a ou for- mos juridicos de soberania, mas em termos historicos de

,as, pois 0 proprio poder nao passava de uma delas, uma es- domina,ao e de jogo entre as rela,oes de for,a que Bou- pecie de for,a singular, a mais estranha dentre todas as for- Iainvilliers descreveu esse fenameno do poder. E foi nesse ,as que lutavam entre si no interior do corpo social. 0 poder

campo que ele colocou 0 objeto de sua analise historica. e aquele do pequeno grupo dos que 0 exercem mas nao tern

Fazendo isso, atribuindo-se como objeto urn poder que for,a; e, no entanto, esse poder, afinal de contas, esse poder

era essencialmente relacional e nao adequado a forma juri- se toma a mais forte de todas as for,as, uma for,a a qual

dica da soberania, definindo, pois, urn campo de for,as onde nenhurna outra pode resistir, salvo violencia ou revolta. 0 que

atua a rela,ao de poder, Boulainvilliers tomava como obje- Boulainvilliers descobria era que a historia nao devia ser a historia do poder, mas a historia desse par monstruoso, es- to do saber historico a mesma coisa que fora analisada por tranho em todo caso, cujo enigma nenhuma fic,ao juridica MaquiaveF, mas em termos prescritivos de estrategia - de podia reduzir ou analisar exatamente, isto e, par formado urna estrategia vista somente do lado do poder e do Princi- pelas for,as originarias do povo e a for,a finalmente cons- pe. Dirao que Maquiavel fez outra coisa que dar ao Principe tituida de alguma coisa que nao tern for,a mas que e, porem, conselhos, serios Oll ironicos - essa ja e uma Dutra questao-, o poder. na gestao e na organiza,ao do poder; e que, afinal de con-

Deslocando 0 eixo, 0 centro de gravidade, de sua ana- tas, 0 proprio texto do Principe e repleto de referimcias his- lise, Boulainvilliers fazia algo importante. Sobretudo, por- toricas. Dirao tambem que Maquiavel fez os Discursas sabre que ele definia 0 principio daquilo que se poderia denominar a primeira decada de Tita Livia, etc. Mas, na verdade, em o cariller relacional do poder: 0 poder nao e uma proprieda- de, nao e urna potencia; 0 poder sempre e apenas urna rela,ao

2. N. MaquiaveI, Ii Principe, Roma, 1532; Discorsi sopra la prima que so se pode, e so se deve, estudar de acordo com termos deca di Tita Livia. op. cit.; Dell'arte della guerra, Floreo9a, 1521; lstoriefio- entre os quais atua essa rela,ao. Portanto, nao se pode fazer rentine, Floreoya, 1532. Sao numerosissimas as traduyoes francesas de 0 nem a historia dos reis nem a historia dos povos, mas a his- Principe. Os outros textos podem seT lidos na ediyao de E. Barincou (Maquia- toria daquilo que constitui, urn em face do outro, esses dois vel,

tratara de Maquiavel sobretudo em dois ensaios, '''Dmnes et singulatim' ..."

(1981) e "The political Technology of Individuals" (1982); ver tambem a aula

no Col1ege de France de 1~ de fevereiro de 1978 sobre "A 'govemabilidade'"

1. J. Michelet, Le peuple, Paris, 1846. (textos citados supra, aula de 21 de janeiro, nota 13).

202 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 25 DE FEVEREIRO DE 1976 203

Maquiavel, a historia nao e 0 dominio no qual ele vai anali-

E, no fundo, quando Boulainvilliers analisa atraves da

sar rela90es de poder. A historia, para Maquiavel, e simples-

historia toda urna serie de rela90es precisas entre, se voces

mente urn lugar de exemplos, uma especie de coletanea de

quiserem, organiza9ao militar e fisco, ele nada mais faz

jurisprudencia ou de modelos taticos para 0 exercicio do po-

senao aclimatar, ou melhor, utilizar, para suas analises his-

der. A historia, para Maquiavel, sempre se limita a registrar

toricas, urna forma de rela9ao, urn tipo de inteligibilidade,

rela90es de for9a e calculos ocasionados por essas rela90es.

urn modelo de rela90es que eram exatamente aqueles que 0

Em compensa9ao, para Boulainvilliers (e e isso, acho eu,

saber administrativo, 0 saber fiscal, 0 saber dos intendentes

o importante), a rela9ao de for9a e 0 jogo do poder sao a pro-

haviam definido por sua vez. Por exemplo, quando Boulain-

pria substancia da historia. Se ha historia, se ha acontecimen-

tos, se OCOrre alguma coisa cuja memoria se pode e se pre- villiers explica a rela9ao que ha entre 0 mercenarismo, a

cisa guardar, e precisamente na medida em que atuam entre eleva9ao do fisco, 0 endividamento campones, a impossibi-

os homens rela90es de poder, rela90es de for9a e certo jogo lidade de comercializar os produtos da terra, ele nada mais

de poder. A narrativa historica, por conseguinte, e 0 calculo faz senao retomar, mas na dimensao historica, 0 que na epo-

politico tern para Boulainvilliers exatamente 0 mesmo objeto. ca estava em questao entre os intendentes ou financistas do

Sem duvida a narrativa historica e 0 calculo politico nao tern reinado de Luis XlV. Voces encontrarn exatarnente as mesmas

a mesma finalidade, mas aquilo de que falam, aquilo de que especula90es, por exemplo, em pessoas como Boisguilbert'

se trata na narrativa e no calculo, esta exatamente em conti- ou Vauban'. A rela9ao entre endividamento rural e ennque-

nuidade. Logo, temos em Boulainvilliers, creio eu, pela pri- cimento urbano foi igualmente uma discussao essencial em meira vez, urn continuo historico-politico. Pode-se dizer tam- todo 0 final do seculo XVII e no inicio do seculo XVIII. bern, noutro sentido, que Boulainvilliers abriu urn campo Portanto, e realmente 0 mesmo modo de inteligibilidade que historico-politico, pela razao que se segue. Eu lhes disse, e se encontra no saber dos intendentes e nas analises histori- acho que e fundamental para compreender a partir de que cas de Boulainvilliers, mas ele e 0 primeiro a ter feito esse Boulainvilliers falava, que para ele se tratava de considerar, tipo de rela9ao funcionar no interior do dominio da narrati- como critico, 0 saber dos intendentes, essa especie de ana- va historica. Em outras palavras, Boulainvilliers faz funclO- lise e de programa de govemo que os intendentes ou, de urn

nar como principio de inteligibilidade da historia 0 que ate modo geral, a administra9ao publica monarquica, propunham

entiio era apenas 0 principio de racionalidade na gestao do incessantemente ao poder. Boulainvilliers, e verdade, se opoe

Estado. 0 fato de a historia e a gestao do Estado entrarem radicalmente a esse saber, mas reimplantando no interior de seu proprio discurso, e para faze-las funcionar para seus fins pessoais, as proprias analises que se encontram nesse saber 3. Pierre Ie Pesant de Boisguilbert, Le derail de fa France, s.1., 1695; dos intendentes. Trata-se de confisca-lo e de faze-lo funcio- Factum de fa France (1707), in Economistes financiers du XV/IIe siide, nar contra 0 sistema da monarquia absoluta, que era ao mes- Paris, 1843; Testament politique de M. de Vauban, Marechal de France, s.1:, mo tempo 0 lugar de nascimento e 0 campo de utiliza9ao 1707, 2 voL; Dissertation sur 1a nature des richesses, de l 'argent et des tn- desse saber administrativo, desse saber dos intendentes, des- huts, Paris, s.d.

4. Sebastien Ie Prestre de Vauban, Methode generale et facile pourlaire se saber economico.

Ie denombrement des peuples, Paris, 1868; Projet d 'une dixme royale, 5.1., 1707. 204 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 25 DE FEVEREIRO DE 1976 205

em continuidade e, acho eu, urn fenomeno capital. A utili- dizia 0 direito narrando as guerras, para uma hist6ria que zac;ao do modelo de racionalidade administrativa do Estado agora faz a guerra decifrando a guerra e a luta que perpas- como gabarito de inteligibilidade especulativa da hist6ria, e sam todas as instituic;oes do direito e da paz. Logo, a hist6ria isso que constitui 0 continuo hist6rico-politico. Urn conti- tomou-se urn saber das lutas que se estende por si mesmo e nuo que vai fazer com que, dai em diante, falar da hist6ria funciona num campo de lutas: combate politico e saber his- e analisar a gestao do Estado podera se fazer segundo 0 t6rico estao, dai em diante, ligados urn ao outro. E, se por mesmo vocabulario e segundo 0 mesmo gabarito de inteli- certo e verdade que nunca houve enfrentamentos que nao gibilidade ou de calculo. fossem acompanhados de recordac;oes, de memoriais, de

ereio, por fim, que Boulainvilliers constituiu urn con- diversos rituais de memoriza<;ao, eu efeio que agora, a par- tinuo hist6rico-politico na medida em que, quando narra, tir do seculo XVIll - e e ai que a vida e 0 saber politicos co- ele tern urn projeto precise e especifico: trata-se realmente, mec;am a inserir-se nas lutas reais da sociedade -, a estrate- para ele, de tomar a dar i! nobreza urna mem6ria que ela per- gia, 0 calculo imanente a essas lutas vao articular-se basea- deu e, ao mesmo tempo, urn saber que ela sempre menospre- dos nurn saber hist6rico que e decifrac;ao e anilise das forc;as. zou. Tomando-Ihe a dar mem6ria e saber, 0 que Boulain- Nao se pode compreender a emergencia dessa dimensao es- villiers quer fazer e tomar a dar-Ihe forc;a, reconstituir a pecificamente modema da politica sem compreender como nobreza como forc;a no interior das forc;as do campo social. o saber hist6rico tomou-se, a partir do seculo XVIll, urn Em conseqiiencia, para Boulainvilliers, tomar a palavra na elemento de luta: a urn s6 tempo descric;ao das lutas e arma area da hist6ria, contar urna hist6ria, nao e simplesmente na luta. Logo, organizaC;ao desse campo hist6rico-politico. descrever uma relac;ao de forc;a, nao e simplesmente reutili- A hist6ria nos trouxe a ideia de que estamos em guerra, e zar, em proveito da nobreza, por exemplo, urn calculo de in- fazemos a guerra atraves da hist6ria. teligibilidade que era, ate enta~, 0 do govemo. Trata-se de A este respeito - estando isto fixado -, duas palavras an- modificar, com isso mesmo, em seu proprio dispositive e tes de retomar essa guerra que e travada atraves da hist6ria em seu equilibrio atual, as relac;oes de forc;a. A hist6ria nao dos povos. Uma, primeiro, a prop6sito do historicismo. e simplesmente urn analisador ou urn decifrador das forc;as, e Todos sabem, e claro, que 0 historicismo e a coisa mais hor- urn modificador. Em conseqiiencia, 0 controle, 0 fato de ter rorosa do mundo. Nao hi! filosofia digna desse nome, nao razao na ordem do saber hist6rico, em resumo, dizer a ver- hi teoria da sociedade, nao hi epistemologia urn pouco su- dade da hist6ria, e por isso mesmo ocupar urna posic;ao es- perior ou elevada que nao devam, evidentemente, lutar radi- trategica decisiva. calmente contra a mediocridade do historicismo. Ninguem

Para resumir tudo isso, pode-se dizer que a constituic;ao ousaria confessar que e historicista. E eu creio que se pode- de urn campo hist6rico-politico se traduz pelo fato de que ria mostrar facilmente como, desde 0 seculo XIX, todos os se passou de urna hist6ria que ate entao tinha como func;ao grandes fi16sofos foram, de uma maneira ou de outra, anti- dizer 0 direito narrando as fac;anhas dos her6is ou dos reis, historicistas. Poderiamos mostrar, acho eu, iguaimente, como suas batalhas, suas guerras, etc., passou-se de urna hist6ria que todas as ciencias humanas so se sustentam, e talvez no limite

206 EM DEFESA DA SOClEDADE AULA DE 25 DE FEVEREIRO DE 1976 207

so existam, por serem anti-historicistas 5· Poderiamos mos- Pois bem, eu creio que esse no essencial entre 0 saber

trar tambem como a historia, a disciplina historica, em seus historico e a prMica da guerra, e, grosso modo, 0 que cons-

recursos (que tanto a encantam) seja a uma filosofia da his- titui 0 nucleo do historicismo, esse nucleo ao mesmo tempo

toria, seja a uma idealidade juridica e moral, seja as cien- irredutivel e que sempre se tem de expurgar, por causa des-

cias humanas, procura escapar ao que poderia ser sua incli- sa ideia que foi relan,ada sem parar de um ou dois milenios

na,ao fatal e interior ao historicismo. para eli e a que se pode chamar "platonica" (se bem que

Mas 0 que e esse historicismo, de que todo 0 mundo, sempre convem desconfiar dessa atribui,ao geral ao pobre

trate-se da filosofia, das ciencias humanas, da historia, des- Platao de tudo quanta se quer banir); essa ideia que veros-

confia tanto? Que e esse historicismo que se deve a qual- similmente se encontra ligada a qualquer organiza,ao do

quer pre,o conjurar e que a modernidade filosofica, cienti- saber ocidental: a de que 0 saber e a verdade nao podem nao

fica e mesmo politica, sempre tentou conjurar? Pois bem, pertencer ao registro da ordem e da paz, que jamais se pode

eu creio que 0 historicismo nada mais e senao 0 que acabo encontrar 0 saber e a verdade do lado da violencia, da de-

precisamente de evocar: esse no, essa dependencia incon- sordem e da guerra. A proposito dessa ideia (seja ela plat6- tormivel da guerra a historia e, reciprocamente, da hist6ria nica ou nao, pouco importa) de que 0 saber e a verdade nao a guerra. 0 saber historico, por mais longe que va, jamais podem pertencer a guerra, mas so podem ser da ordem e da encontra nem a natureza, nem 0 direito, nem a ordem, nem paz, eu acho que 0 que e importante e que 0 Estado moder- a paz. Por mais longe que va, 0 saber historico so encontra no a reimplantou profundamente em nossa epoca mediante o indefinido da guerra, isto e, as for,as com suas rela,oes e o que se poderia denominar 0 "disciplinamento" dos sabe- seus enfrentamentos, e os acontecimentos nos quais se deci- res no seculo XVIII. E e essa ideia que nos torna insuportavel dem, de uma maneira sempre provisoria, as rela,oes das o historicismo, que nos torna insuportavel aceitar algo como for,as. A historia encontra apenas a guerra, mas, essa guer- uma circularidade indissociavel entre 0 saber historico e as ra, a historia jamais pode domina-Ia inteiramente; a historia guerras que sao ao mesmo tempo narradas por ele e que, jamais pode contornar a guerra nem encontrar suas leis fun- porem, 0 perpassam. Logo, problema e, se voces preferirem, damentais, nem impor seus limites, pura e simplesmente primeira tarefa: tentar ser historicistas, ou seja, analisar essa porque a propria guerra sustenta esse saber, passa por esse rela,ao perpetua e incontornavel entre a guerra narrada pela saber, atravessa-o e determina-o. Esse saber sempre e ape- historia e a hist6ria perpassada par essa guerra que ela narra. nas uma arma na guerra, ou ainda urn dispositivo tatico no I'<: nesta linha que tentarei enta~ continuar esta pequena his- interior dessa guerra. A guerra se trava, portanto, atraves da toria dos gauleses e dos francos que eu comecei. historia, e atraves da historia que a narra. E, de seu lado, a his- I'<: isso quanta a primeira observa,ao, quanta a primei- toria nunca pode decifrar senao uma guerra que ela propria ra digressao a proposito desse historicismo. Segunda coisa: faz ou que passa por ela. um tema que acabei de abordar M pouco, isto e, 0 discipli-

namento dos saberes no seculo XVIII, ou melhor, se voces

5. Sabre 0 anti-historicismo do saber contemporaneo, cf. em especial preferirem, por um outro prisma, uma obje,ao que se pode Les mots et les choses, op. cit., cap. X, § IV. fazer. Colocando assim a historia, a historia das guerras e a

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208 EM DEFESA DA SOCIEDADE

cerimonia, de ritual de memorizayao dos problemas do di-

guerra atraves da historia como 0 grande aparelho discursi-

reito publico. Poderiamos dizer a mesma coisa da tragedia

vo pelo qual se fez no seculo XVIII a critica do Estado fa- francesa, a de Comeille, e lalvez mais ainda da de Racine, jus-

z~n~o ~,essa ,relayao guerralhistoria a condiyao de emer~en tamente, E, alias, de um modo geral, acaso a tragedia grega

Cla da polltlCa [...] a ordem tinha, pois, como funyao res- tarnbem nao e sempre, essencialmente, uma tragedia do di-

tabelecer a continuidade em seu discurso. * reito? Eu creio que ha dependencia fundamental, essencial,

[No momenta em que os juristas se interrogavam sobre entre a tragedia e 0 direito, entre a tragedia e 0 direito publico,

os arqUlvos para conhecer as leis fundamentais do reino de- bern como, verossirnilmente, ha dependencia essencial en-

lineava-se uma historia dos historiadores que nao era 0 ~an tre 0 romance e 0 problema da norma, A tragedia e 0 direito,

to do poder sobre si mesmo. Nao convem esquecer que no o romance e a norma: talvez se devesse olhar tudo isso,

seculo XVII, e nao somente na Franya, a tragedia era uma Em todo caso, a tragedia na Franya no seculo XVII e, ela

das grandes formas rituais nas quais se manifestava 0 direito tambem, uma especie de representayaO do direito publico,

pUbli,~o e ,se de~atiam seus problemas, Pois bern, as trage- uma represenlayao historico-juridica do poder publico. Com dlaS hlstoncas de Shakespeare sao tragedias do direito e uma diferenya, claro - e e essa a diferenya fundamental do rei, essencialmente centradas no problema do usurpador entre ela e Shakespeare (genialidade a parte) -, de urn lado, e da decadencia, do assassinio dos reis e do nascimento de na tragectia classica francesa em geral so se trata dos reis urn ser novo constituido pela coroayao de urn rei. Como urn antigos. Codificayao ligada, por certo, a prudencia politica. individuo podeni receber pela violencia, pela intriga, pelo Mas, afinal de conlas, tampouco se deve esquecer que, en- assaSSllllO e a guerra um poderio publico que deve fazer rei- tre todas as razoes dessa referencia a Antiguidade, ha 0 se- nar a paz, a justiya, a ordem e a felicidade? Como a ilegitimi- guinte: 0 direito monarquico no seculo XVII na Franya, e dade podeni produzir a lei? Ao passo que na mesma epoca sobretudo sob Luis XlV, considera-se, por sua forma e mes- a teoria e a historia do direito se empenhavam em tecer a con- mo pela continuidade de sua historia, como situando-se em tinuidade sem ruptura do poder publico, a tragectia de Shakes- linha direta com relayao as monarquias antigas, E realmen- peare, p~r ,sua vez, se aferra]6, ao contrario, a essa chaga, a te 0 mesmo tipo de poder e 0 mesmo tipo de monarquia, e essa especle de ferida repetida que 0 corpo da realeza traz substancial e juridicamente a mesma monarquia que encon- desde que ha morte violenta dos reis e adventos de sobera~ tramos em Augusto ou Nero, no limite em Pirro e depois nos ilegitimos. Eu creio, portanto, que a tragectia shakes- em Luis XlV. Por outro lado, na tragedia classica francesa,

hi referencia a Antiguidade, mas presenya tambem dessa peariana e, ao menos por urn de seus eixos, uma especie de

instituiyao que parece de certo modo limitar os poderes tri-

gicos da tragedia e faze-la cair num teatro da galantaria e da

* 0 ajustamento do sentido a partir da graval;ao foi dificil. De fato as intriga: a presenya da corte, Tragedia da Antiguidade e trage- 18 primeiras paginas do manuscrito foram recolocadas no final no desenr~lar dia da corte, Mas que e a corte, senao precisamente - e isto de do curso. uma forma incontestivel em Luis XIV -, tambem ai, uma

6. 0 texto entre colchetes foi estabelecido segundo 0 manuscrito de M. especie de aula de direito publico? A corte tern essencial- Foucault. 210 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 25 DE FEVEREIRO DE 1976 21 I

mente como fun9ao constituir, organizar urn lugar de mani- monarquia ate enmo, ou seja, cantar 0 pr6prio poder, mas ao festa9ao cotidiana e permanente do poder monarquico em mesmo tempo permitia tambem a Racine continuar na mes- seu esplendor. No fundo, a corte e essa especie de opera9ao rna fun9ao que havia exercido quando escrevia tragedias. ritual permanente, recome9ada dia ap6s dia, que requalifica Solicitava-Ihe, no fundo, que escrevesse, como histori6gra- urn individuo, urn homem particular, como sendo 0 rei, como fo, 0 quinto ato de urna tragedia feliz, ou seja, a eleva9ao do senda 0 monarca, como senda 0 soberano. A corte, em seu homem privado, do homem de corte e de cora9ao, ate 0 ritual mon6tono, e a opera9ao incessantemente renavada pela ponto em que se toma chefe de guerra e monarca, detentor qual urn homem que se levanta, que passeia, que come, que da soberania. Confiar sua historiografia a urn poeta tritgico tern seus amores e suas paixoes, e ao mesma tempo, atraves nao era em absoluto, no fundo, sair da ordem do direito, nao disso, a partir disso e sem que nada disso seja de algum mo- era trair de modo aIgum a velha fun9ao da hist6ria, que era do eliminado, urn soberano. Tomar seu amor soberano, tor- dizer 0 direito, e dizer 0 direito do Estado soberano. Era-por nar sua alimenta9ao soberana, tomar soberanos seu despertar urna necessidade vinculada ao absolutismo do rei - retor- e seu deitar: e nisso que consiste a opera9ao especifica do nar, ao contrario, a fun9ao mais pura e mais elementar da ritual e do cerimonial da corte. E, ao passo que a corte re- historiografia regia, nessa monarquia absoluta da qual nao qualifica incessantemente 0 cotidiano como soberano, como se pode esquecer que, por urna especie de estranho remer- a pessoa de urn monarca que e a substiincia mesma da mo- gulho no arcaismo, ela fazia da cerimonia do poder urn mo- narquia, a tragedia faz isso, de certo modo, em sentido inver- menta politico intenso, e em que a corte, como cerim6nia so: a tragedia desfaz e recompoe, se voces quiserem, 0 que do poder, era urna aula cotidiana de direito publico, urna ma- o ritual cerimonial da corte estabelece a cada dia. nifesta9ao cotidiana de direito publico. Compreende-se que

A tragedia classica, a tragedia raciniana, 0 que e que ela a hist6ria do rei possa ter retomado assim sua forma pura, faz? Ela tern como fun9ao - em todo caso esse e urn de seus

sua forma magico-poetica de certo modo. A hist6ria do rei eixos - constituir 0 avesso da cerimonia, mostrar a cerimo-

nao podia nao voltar a ser 0 canto do poder sobre si mesmo. nia rasgada, 0 momento em que 0 detentor do poderio pUbli-

Logo, absolutismo, cerimonial da corte, ilustra9ao do direi- co, 0 soberano, vai-se decompondo aos poucos em homem

to publico, tragedia classica, historiografia do rei: tudo isto, de paixao, em homem de c6lera, em homem de vingan9a,

acho eu, pertencia a urn mesmo conjunto. em homem de amor, de incesto, etc., e em que 0 problema

Perdoem-me essas especula90es sobre Racine e a his- e saber se, a partir dessa decomposi9ao do soberano em ho-

toriografia. Pularnos urn seculo (justarnente 0 seculo que foi mem de paixao, 0 rei-soberano podera renascer e recompor- se: morte e ressurrei9ao do corpo do rei no cora9ao do mo- inaugurado por Boulainvilliers) e tomarnos 0 derradeiro dos narca. E e esse 0 problema juridico, muito mais do que psi- monarcas absolutos com seu derradeiro histori6grafo, Luis col6gico, que e apresentado pela tragedia raciniana. Nessa XVI e Jacob-Nicolas Moreau, sucessor longinquo de Racine, medida, vOCes compreendem bern que Luis XlV, ao pedir a de quem euja Ihes disse algumas palavras e que era 0 admi- Racine que se tomasse seu histori6grafo, nada mais fazia nistrador, 0 ministro da hist6ria que Luis XVI havia nomea- senao continuar na linha daquilo que era a historiografia da do por volta dos anos 1780. Se 0 compararmos com Racine, 212 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 25 DE FEVERE1RO DE 1976 213

quem e Moreau? Paralelo perigoso, mas que talvez nao seja quisa7· Com a diferen9a, portanto, de que Moreau nao e Ra- desfavonivel a quem voces acham. Moreau e 0 defensor eru- cine, de que Luis XVI nao e Luis XlV, e de que se esta dito de wn rei, claro, que teni, em sua vida, urn certo mune- longe da descri93.0 cerimoniosa da passagem do Reno - qual ro de ocasioes de ser defendido. Defensor, e exatamente e a diferen9a entre Moreau e Racine, entre a antiga historio- esse 0 papel que ele tem quando e nomeado, hi pela decada grafia (a que encontramos em seu ponto, de certo modo, de 1780 - nurn momento em que, justamente, os direitos da mais puro no final do seculo XVII) e essa especie de hist6- monarquia sao atacados em nome da hist6ria, e isto de hori- ria de que 0 Estado esta se incumbindo e cujo controle esta zontes bem diferentes, nao somente do lado da nobreza, mas assumindo no final do seculo XVIII? Podemos dizer que a dos parlamentares, mas da burguesia tambem. Foi 0 mo- hist6ria deixou de ser urn discurso do Estado sobre si mesmo mento em que a hist6ria se tornou, justamente, 0 discurso desde que talvez se tenba largado a historiografia de corte pelo qual cada "na9ao", entre aspas, e em todo caso cada para cair nurna historiografia de tipo administrativo? Eu ordem, cada c1asse, valoriza seu pr6prio direito; 0 momento acho que a diferen9a e consideravel e, em todo caso, que re- em que a hist6ria se tornou, se voces preferirem, 0 discurso quer ser medida. geral das lutas politicas. Nesse momento, portanto, cria9iio E ai entiio, nova digressiio, se voces quiserem. 0 que de urn Ministerio da Hist6ria. E e quando voces me diriio: a distingue 0 que se poderia denominar a hist6ria das ciencias hist6ria escapou realmente a esse ponto ao Estado, ja que se da genealogia dos saberes e que a hist6ria das ciencias se si- ve, urn seculo depois de Racine, aparecer urn histori6grafo tua essencialmente num eixo que e, em linhas gerais, 0 eixo que e pelo menos tiio ligado ao poder do Estado, ja que ele conbecimento-verdade, ou, em todo caso, 0 eixo que vai da tern verdadeiramente, ele exerce, como acabei de dizer, uma estrutura do conbecimento a exigencia da verdade. Em con- fun9iiO, se niio ministerial, pelo menos administrativa? traste com a hist6ria das ciencias, a genealogia dos saberes

De que se tratava entiio nessa cria9iio, nessa adminis- se situa nurn eixo que e diferente, 0 eixo discurso-poder ou, se tra9iio central da hist6ria? Tratava-se de armar, nessa bata- voces preferirem, 0 eixo pratica discursiva-enfrentamento lha politica, 0 rei, na medida em que ele niio passa, afinal de de poder. Ora, parece-me que, quando a aplicamos a esse contas, de urna for9a dentre outras, e atacada pelas outras. periodo privilegiado por carradas de razoes, que e 0 seculo Tratava-se tambem de tentar estabe1ecer urn tipo de paz irn- XVIII, quando a aplicamos a essa area, a essa regiiio, a ge- posta nessas lutas hist6rico-politicas. Tratava-se de codifi- nealogia dos saberes tem primeiro de desmantelar, antes de car de urna vez por todas esse discurso da hist6ria para que mais nada, a problematica das Luzes. Ela tem de desmante- ele pudesse integrar-se apnitica do Estado. Dai as tarefas que lar 0 que na epoca (e, alias, no seculo XIX e ainda no XX) haviam sido confiadas a Moreau: cotejar os docurnentos da administra9iio publica, po-los a disposi9ao da pr6pria admi- 7.0 resultado desse enorme trabalho realizado pOf J.~N. Moreau se nistra9iio publica (primeiro a da fazenda, depois as outras) e, encontra em Principes de morale, de politique et de droit public... , op. cit. enfirn, abrir esses docurnentos, esse tesouro de docurnen- Para uma ilustra~ao dos criterios utilizados por J.-N. Moreau na preparal;ao

desse trabalho, e para a sua historia, cf. tambem 0 Plan des travaux litteraires tos, a pessoas que seriam pagas pelo rei para fazer ossa pes- ordonnes par sa Majes/e... , op. cit. 214 EM DEFESA DA SOC/EDADE AULA DE 25 DE FEVERE/RO DE /976 215

foi descrito como 0 progresso das Luzes, a 1uta do conheci- 93.0 aos outros, as delimita90es de independencia, as exigen- mento contra a ignorancia, da razao contra as quimeras, da cias de segredo, tomaram-se mais fortes e, de certo modo, experiencia contra os preconceitos, dos raciocinios contra 0 mais tensas. Nessa mesma ocasi3.o, desenvolveram-se pro- erro, etc. Tudo isso, que foi descrito e simbolizado como a cessos de anexa93.o, de confisco, de aprOpria93.0 dos sabe- caminhada do dia dissipando a noite, e disso que e preciso, res menores, mais particulares, mais loeais, mais artesanais, acho eu, livrar-se: [e preciso, em compenSa93.0,] perceber pelos maiores, eu quero dizer os mais gerais, os mais indus- no curso do seculo XVIII, em vez dessa rela93.0 entre dia e triais, aqueles que circulavam mais faciimente; urna especie noite, entre conhecimento e ignorancia, algo muito diferen- de imensa luta economico-politica em tomo dos saberes, a te: urn imenso e multiplo combate, nlio, pois, entre conheci- prop6sito desses saberes, a prop6sito da dispers3.o e da hete- mento e ignorancia, mas urn imenso e multiplo combate dos rogeneidade deles; imensa luta em tomo das indu90es eco- saberes uns contra os outros - dos saberes que se opoem en- nomicas e dos efeitos de poder ligados II posse exclusiva de tre si por sua morfologia pr6pria, por seus detentores inimi- urn saber, II sua dispers3.o e ao seu segredo. E nesta forma gos uns dos outros e por seus efeitos de poder intrinsecos. de saberes mUltiplos, independentes, heterogeneos e secretos

Vou usar aqui urn ou dois exemplos que me afastarlio que se deve pensar 0 que foi chamado de desenvolvimento provisoriamente da hist6ria - 0 problema, se voces preferi- do saber tecnol6gico do seculo XVIII; e nessa forma de mul- rem, do saber tecnico, tecnol6gico. Costuma-se dizer que 0 tiplicidade, e n3.o no progresso do dia sobre a noite, do co- seculo XVIII e 0 seculo de emergencia dos saberes tecnicos. nhecimento sobre a ignoriincia. De fato, 0 que se passou no seculo XVIII foi algo muito Ora, nessas lutas, nessas tentativas de anexa93.0 que S3.0 diferente. Primeiro, a existencia plural, polimorfa, mUltipla, ao mesmo tempo tentativas de generaliza93.0, 0 Estado vai dispersa, de saberes diferentes, que existiam com suas dife- intervir, direta ou indiretamente, mediante, acho eu, quatro ren9as conforme as regiOes geogra£icas, conforme 0 porte procedimentos. Primeiro, a elimina93.0, a desquaiifica93.0 da- das empresas, das oficinas, etc. - estou falando de conheci- quilo que se poderia charnar de pequenos saberes inuteis e mentos tecnol6gicos, nlio e? -, conforme as categorias so- irredutiveis, economicamente dispendiosos; elimina93.0 e des- ciais, a eduCa93.0,a riqueza daqueles que os detinham. E tais qualifica93.0, portanto. Segundo, normaliza93.0 desses sabe-

saberes estavam em luta uns com os outros, uns diante dos res entre si, que val permitir ajuslli-los uns aos outros, faze-los oUlros, nurna sociedade em que 0 segredo do saber tecnol6- comunicar-se entre si, derrubar as barreiras do segredo e gico valia riqueza e em que a independencia desses saberes, das delimita90es geogrMicas e tecnicas, em resurno, tomar uns em rela93.0 aos oUlros, significava tamoom a independen- intercambhiveis n3.o s6 os saberes, mas tambem aqueles que

cia dos individuos. Portanto, saber mUltiplo, saber-segredo, os detem; normaliza93.0, pois, desses saberes dispersos. Ter-

saber que funciona como riqueza e como garantia de inde- ceira opeTa93.o: classifica93.0 hienirquica desses saberes que

pendencia: era nesse fracionamento que funcionava 0 saber perrnite, de certo modo, encaixa-los uns nos outros, desde tecnol6gico. Ora, II medida que se desenvolveram tanto as for- os mais especificos e mais materiais, que serno ao mesmo

9as de produ93.o quanto as demandas economicas, 0 valor tempo os saberes subordinados, ate as formas mais gerais,

desses saberes aumentou, a luta desses saberes uns com rela- ate os saberes mais formals, que serno a urn s6 tempo as 216 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA. DE 25 DE FEVEREIRO DE 1976 217

formas envolventes e diretrizes do saber. Portanto, classifica- teudo e uma forma ao saber medico, como impor regras 9iiO hierarquica. E, enfim, a partir dai, possibilidade da quar- homogeneas a pratica dos tratamentos, como impor essas ta opera9iio, de urna centraliza9iio piramidal, que perruite 0 a

regras popula9iio, menos, alias, para faze-la compartilhar controle desses saberes, que assegura as sele90es e permite esse saber do que para torOlI-lo aceitivel a ela? Isso foi a transruitir a urn so tempo de baixo para cima os conteudos cria9iio dos hospitais, dos dispensarios, da Sociedade Real desses saberes, e de cima para baixo as dire90es de conjunto de Medicina, a codifica9iio da profissiio medica, toda urna e as organiza90es gerais que se quer fazer prevalecer. enorme campanha de higiene publica, toda urna enorme

A esse movimento de organiza9iio dos saberes tecnolo- campanha tambem sobre a higiene dos recem-nascidos e das gicos correspondeu toda urna serie de pnlticas, de empreen- crian9as, etc. 8 dimentos, de institui90es. A Enciclopedia, por exemplo. Ha- No fundo, em todos esses empreendimentos, dos quais bituaram-se aver na Enciclopedia apenas seu lado de opo- eu Ihes citei somente dois exemplos, tratava-se de quatro

a si9iiO politica ou ideologica monarquia e a urna forma, coisas: sel~iio, normaliza9iio, hierarquiza9iio e centraliza9iio. pelo menos, de catolicismo. De fato, seu interesse tecnologi- Siio essas as quatro opera90es que podemos ver em anda- co niio deve ser atribuido a urn rnaterialismo filos6fico, mas mento nwn estudo urn pouco detalhado daquilo que e deno- realmente a urna opera9iio, a urn so tempo politica e econ6mi- minado 0 poder disciplinar'. 0 seculo XVlIl foi 0 seculo do ca, de homogeneiza9iio dos saberes tecnologicos. As grandes disciplinamento dos saberes, ou seja, da organiza9iio inter- investiga90es sobre os metodos do artesanato, sobre as tec- na de cada saber como uma disciplina tendo, em seu campo nicas metalfugicas, sobre a extra9iio mineira, etc. - essas proprio, a urn so tempo criterios de sele9iio que permitem grandes investiga90es que se desenvolveram desde meados descartar 0 falso saber, 0 nao-saber, formas de normaliza9iio ate 0 fun do seculo XVlIl - corresponderam a esse empreen- e de homogeneiza9iio dos conteUdos, forrnas de hierarqui- dimento de normaliza9iio dos saberes tecnicos. A existencia, za9iio e, enfim, urna organiza9iio interna de centraliza9iio a cria9iio ou 0 desenvolvimento de grandes escolas, como a desses saberes em torno de urn tipo de axiomatiza9iio de fato. das Minas ou das Obras Publicas, etc., permitiram estabele-

Logo, organiza9iio de cada saber como disciplina e, de outro cer niveis, cortes, estratos, ao mesmo tempo qualitativos e

lado, escalonamento desses saberes assim disciplinados do quantitativos, entre os diferentes saberes, 0 que permitiu a

interior, sua intercomunica9iio, sua distribui9iio, sua hierar- hierarquiza9iio deles. E, enfim, 0 corpo de inspetores, que em toda a superficie do reino deram informa90es e conselhos para a organiza9iio e a utiliza9iio desses saberes tecnicos, 8. Sabre os procedimentos de nonnalizallao no saber medico, podemos assegurou a fun9iio de centraliza9iio. Poderiamos dizer a mes- citar 0 conjunto dos textos de M. Foucault que vao de Naissance de fa clinique. rna coisa tambem - usei 0 exemplo dos saberes tecnicos - a Une archeologie du regard medical (Paris, PUP. 1963) as conferencias brasilei-

ras sobre a histOria da medicina em 1974 (cf. Dits et ecrits, III, n'!' 170, 196 e proposito do saber medico. Toda a segunda metade do 229) e, enfun, a analise do policiamento medico em "La politique de la sante au seculo XVlIl viu desenvolver-se todo urn trabalho de ho- XVIIIe siecle" (1976 e 1979) (in Dits et ecrits, ITI, n~ 168 e 257). mogeneiza9iio, normaliza9iio, classifica9iio e centraliza9iio, 9. Sabre 0 poder disciplinar e seus efeitos sabre 0 saber, veT em parti- ao mesmo tempo, do saber medico. Como conferir urn con- cular Surveiller et punir. Naissance de la prison, Paris, Gallimard, 1975. 218 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 25 DE FEVEREIRO DE 1976 219

quiza,ao reciproca nwna especie de campo global ou de dis- mento da Universidade. E claro, nao 0 aparecimento no sen- ciplina global a que chamam precisamente a "ciencia". A tido estrito, ja que as universidades tinham sua fun,ao, seu ciencia niio existia antes do seculo XVIII. Existiam ci'mcias, papel e sua existencia muito antes. Mas, a partir do fim do existiam saberes, existia tambem, se vOCes quiserem, a filo- seculo XVIII e do inicio do seculo XIX - a cria,ao da uni- sofia. A filosofia era justamente 0 sistema de organiza,ao, versidade napoleonica se situa precisamente ai -, aparece algo ou melhor, de comunica,ao, dos saberes uns em rela,ao aos que e como wna especie de grande aparelho uniforme dos sa- outros - e e nesta medida que ela podia ter wn papel efeti- beres, com suas diferentes categorias e seus diferentes pro- YO, real, operacional, no interior do desenvolvimento dos co- longamentos, seu escalonamento e seus pseudopodes. A nhecimentos. Aparece agora, com 0 disciplinamento dos sa- universidade tern sobretudo wna fun,ao de sele,ao, nao tanto beres, em sua singularidade polimorfa, ao mesmo tempo 0 das pessoas (afinal de contas, isso nao e muito importante, fato e a regra que agora estiio incorporados na nossa cultura essencialmente), mas dos saberes. 0 papel da sele,ao, ela 0 e que se chama "ciencia". Desaparece, creio eu, nesse mo- exerce com essa especie de monopolio de fato, mas tambem mento, e pelo mesmo motivo, de wn lado 0 papel ao mesmo de direito, que faz que wn saber que nao nasceu, que nao se tempo fundamental e fundador da filosofia. A filosofia, dai formou no interior dessa especie de campo institucional, em diante, j a nao tera nenhwn papel efetivo para desempe- com limites alias relativamente instaveis, mas que constitui nhar no interior da ciencia e dos processos de saber. Desapa- em linhas gerais a universidade, os organismos oficiais de reee ao mesmo tempo, e reciprocamente, a mathesis, como pesquisa, fora disso, 0 saber em estado selvagem, 0 saber nas- projeto de uma ciencia universal que serviria tanto de ins- cido alhures, se ve automaticamente, logo de saida, se nao trumento formal quanta de fundamento rigoroso a todas as totalmente excluido, pelo menos desclassificado a priori. ciencias. A ciencia, como dominio geral, como policiamento Desaparecimento do cientista-amador: e wn fato conhecido disciplinar dos saberes, tomou 0 lugar tanto da filosofia quan- nos seculos XVIII-XIX. Portanto: papel de sele,ao da uni- to da mathesis. E doravante ela vai formular problemas es- versidade, sele,ao dos saberes; papel de distribui,ao do es- pecificos ao policiamento disciplinar dos saberes: proble- calonamento, da qualidade e da quantidade dos saberes em mas de classifica,ao, problemas de hierarquiza,ao, problemas diferentes niveis; esse e 0 papel do ensino, com todas as de vizinhan,a, etc. barreiras que existem entre os diferentes escal5es do apare-

Dessa mudan,a consideravel do disciplinamento dos sa- lho universit:irio; papel de homogeneiza,ao desses saberes beres e do abandono, em conseqiiencia, tanto do discurso com a constitui,ao de wna especie de comunidade cientifica filosOfico operante na ciencia quanto do projeto interne as com estatuto reconhecido; organiza,ao de wn consenso; e, ciencias de mathesis, 0 seculo XVIII so tomou consciencia, enfim, centraliza,ao, mediante 0 carater direto ou indireto, voces sabem, sob a forma de wn progresso da razao. Mas eu de aparelhos de Estado. Compreende-se 0 aparecimento, pois, acho que apreendendo bern que, sob aquilo que se denomi- de algo como a universidade, com seus prolongamentos e nou 0 progresso da razao, 0 que se passava era 0 disciplina- suas fronteiras incertas, no inicio do seculo XIX, a partir do mento de saberes polimorfos e heterogeneos, e que se pode momento em que, justamente, se operou esse por em disci- compreender certo nillnero de coisas. Primeiro, 0 apareci- plina os saberes, esse disciplinamento dos saberes.

220 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 25 DE FEVEREIRO DE 1976 221

Segundo fato que se pode compreender a partir dai: 0 conteudo dos enunciados pOde ser um obstaculo il renova~ao

que seria como que uma mudan~a na forma do dogmatismo. do estoque dos saberes cientificos, assim tambem, em com-

A partir do momento em que OCOrre uma forma de controle pensa~ao, 0 disciplinamento no nivel das enuncia90es per-

no mecanismo, portanto na disciplina interna dos saberes mitiu uma velocidade de renova9ao dos enunciados muito

mediante um aparelho a isso destinado; a partir do moment~ maior. Passou-se, se voces preferirem, da censura dos enun-

em que se tem essa forma de controle, voces compreendem ciados para a disciplina da enuncia9ao, ou ainda, da ortodo-

que se pode perfeitamente renunciar a algo que seria a orto- xia para algo a que eu chamaria a "ortologia", e que e a

doxia dos enunciados. Ortodoxia onerosa, ja que essa velha forma de controle que se exerce agora a partir da disciplina.

ortodoxia, esse principio, que funcionava como modo de Bem! Eu me perdi um pouco em tudo isso... Estuda-

funcionamento religioso, eclesiastico, de controle sobre 0 mos, pudemos mostrar, como as tecnicas disciplinares de

saber, tinha de acarretar a condena~ao, a exclusao de certo poder!O, consideradas em seu nivel mais tenue, mais ele-

nUmero de enunciados que eram cientificamente verdadei- mentar, consideradas no nive! do proprio corpo dos indivi-

ros e cientificamente fecundos. Essa ortodoxia - que inci- duos, haviam conseguido mudar a economia politica do po-

dia sobre os proprios enunciados, que selecionava os que der, haviam-lhe modificado os aparelhos; como tambem essas

eram conformes e os que nao eram conformes, os que eram tecnicas disciplinares de poder incidentes sobre 0 corpo ha-

aceita,:eis e os q.ue nao eram aceitaveis -, a disciplina, 0 viam provocado nao so um aCUmulo de saber, mas tambem

disclphnamento Interno dos saberes que e implantado no individuado dominios de saber possiveis; e, depois, como

seculo XVII vai substituir essa ortodoxia por outra coisa: um as disciplinas de poder aplicadas aos corpos haviam feito

controle que nao incide, pois, sobre 0 conteudo dos enun- sair desses corpos sujeitados algo que era uma ahna-sujeito,

ciados, sobre sua conformidade OU nao com certa verdade urn "eu", uma psique, etc. Tudo isto, tentei estudar no ano r

mas sobre a regularidade das enuncia~oes. 0 problema secl passado ll . Eu penso que agora deveriamos estudar como

JI

~ber quem falou e se era qualificado para falar, em que ocorreu uma outra forma de disciplinamento, de por em dis-



mV~1 se sltua esse enunciado, em que conjunto se pode co- ciplina, contemporaneo do primeiro, que nao incide sobre

loca-Io, em que e em que medida ele e conforme a outras os corpos mas incide sobre os saberes. E poderiamos mos-

formas e a outras tipologias de saber. Isso permite ao mes- trar, acho eu, como esse disciplinamento incidente sobre os mo tempo, de um lado, um liberalismo num sentido se nao saberes provocou um desbloqueio epistemologico, uma nova indefinido, pelo menos muito mais amplo quanto ~o pro- forma, uma nova regularidade na prolifera9ao dos saberes. prio conteudo dos enunciados e, do outro, um controle infi- Poderiamos mostrar como esse disciplinamento organizou nitamente mais rigoroso, mais abrangente, mais amplo em um novo modo de rela9ao entre poder e saber. Poderiamos sua superficie de apoio, no nivel mesmo dos procedimentos da enuncia~ao. E, com isso, deduz-se dal naturahnente uma

10. Cf. em especial 0 curso no College de France, anos 1971-1972: possibilidade de rota~ao muito maior dos enunciados, um Theories et institutions penales e 1972-1973: La societe punitive, no prelo. de~gaste ~uito mais rapido das verdades; dai um desbloqueio II. Cf. 0 curso no College de France, anos 1974-1975: Les anormaux, eplstemologlCO. Asslm como a ortodoxia incidente sobre 0 no prelo. 222 EM DEFESA DA SOC/EDADE AULA DE 25 DE FEVERE/RO DE 1976 223

mostrar, enfim, como, a partir desses saberes disciplinados, temporanea da cri~o da Escola de Minas, da Escola de

apareceu urna regra nova que ja nao e a regra da verdade, Obras PUblicas - a Escola de Obras PUblicas e urn pouco mas a regra da ciencia. diferente, pouco importa - corresponde, tambem ela, a esse



Tudo isto nos afasta urn pouco da historiografia do rei, disciplinamento do saber. Trata-se, para 0 poder monarqui- de Racine e de Moreau. Poderiamos retomar a analise (mas co, de disciplinar 0 saber hist6rico, os saberes hist6ricos, e nao 0 farei aqui) e mostrar como, no momento em que, jus- de estabelecer assim urn saber de Estado. S6 que, com esta tamente, a hist6ria, 0 saber hist6rico, entrava nurn campo diferen~a em rela~ao ao saber cientifico: que, na mesma me- geral de combate, a hist6ria se encontrava, mas por outras dida em que a hist6ria era realmente - acho eu - urn saber razoes, na mesma situa~ao, no fundo, que esses saberes tec- essencialmente antiestataI, entre a hist6ria disciplinada pelo nol6gicos de que eu lhes falava h:i pouco. Tais saberes tecno- Estado, tornada conteudo do ensino oficial, e essa hist6ria 16gicos, em sua dispersao, em sua morfologia pr6pria, em ligada as lutas, como consciencia dos sujeitos em luta, houve sua regionaliza~ao, em seu caciter local, com 0 segredo que urn enfrentamento perpetuo. 0 enfrentamento nao foi redu- os rodeava, eram a urn s6 tempo 0 motivo e 0 instrumento zido pelo disciplinamento. Enquanto, na ordem da tecnolo- de urna luta economica e de urna luta politica; e, nessa luta gia, pode-se dizer que, em linhas gerais, 0 disciplinamento geral dos saberes tecnol6gicos uns contra os outros, 0 Es- operado no decorrer do seculo XVIII foi eficaz e bem-suce- tado interviera com urna fun~ao, com urn papel de discipli- dido, em compensa~ao, no que se refere ao saber hist6rico, namento: ou seja, a urn s6 tempo, de sele~ao, de homoge- houve disciplinamento, mas esse disciplinamento nao s6 nao neiza~ao, de hierarquiza~ao, de centraliza~ao. E 0 saber his- impediu, mas acabou fortalecendo, atraves de todo urn jogo t6rico, por sua vez, por razoes totalmente diferentes, entrou, de lutas, de confiscos, de contesta~oes reciprocas, a hist6ria aproximadamente na mesma epoca, nurn campo de lutas e de nao estatal, a hist6ria descentralizada, a hist6ria dos sujeitos batalhas. Nao mais por razoes diretamente economicas, mas em luta. E, nesta medida, voces tern perpetuamente dois ni- por razoes de luta, e de luta politica. Quando, de fato, 0 sa- veis de consciencia e de saber hist6rico, dois niveis, claro, ber hist6rico, que ate enta~ fizera parte desse discurso que que vao ficar cada vez mais defasados urn em rela~ao ao o Estado, ou 0 poder, fazia sobre si mesmo, quando ele foi outro. Mas essa defasagem jamais impedir:i a existencia de enucleado em rela~ao a esse poder e quando se tornou urn urn e de outro: de urna parte, urn saber efetivamente disci- instrumento de luta politica, ao longo de todo 0 seculo XVIII, plinado sob forma de disciplina hist6rica, de outra, urna da mesma forma e pela mesma razao houve tentativa, de consciencia hist6rica polimorfa, dividida e combatente, que parte do poder, de retoma-Io e de disciplina-Io. A cria~ao, nada mais e que 0 outro aspecto, a outra face da conscien- no fim do seculo XVIII, de urn Ministerio da Hist6ria, a cia politica. E urn pouco dessas coisas, ja no fim do seculo cr\a~ao do grande acervo de arquivos que, alias, ia se tornar XVIII e no inicio do seculo XIX, que eu tentarei Ihes falar. a Ecole des Chartes' no seculo XIX, aproximadamente con-

· Escola superior destmada a formalfao de especialistas em documentos antigos. (N. do T.) AULA DE 3 DE MARCO DE 1976

Generalizariio tatica do saber hist6rico. - ConstituifCio,

Revoluriio e historia dc/iea. - 0 selvagem e 0 barbaro. - rres

filtragens do barbara: taacas do discurso historico. - Ques-

toes de metoda: 0 campo epistemico e 0 anti-historicismo da

burguesia. - Reativariio do discurso historico na Revolufiio.

- Feudalismo e romance gatica.

A ultima vez, eu Ihes mostrei como fora formado, cons- tituido, urn discurso hist6rico-politico, urn campo hist6rico- politico em tomo da rea9lio nobili3r:ia do inicio do seculo XVIII. Agora eu gostaria de me colocar noutro ponto do tempo, ou seja, ao redor da Revolu9lio Francesa, nurn dado momento em que se pode apreender, creio eu, dois proces- sos. De urna parte, ve-se como esse discurso, que fora ori- ginalmente Iigado il rea9lio nobili3r:ia, se generalizou, nlio tanto, nlio somente pelo fato de que se teria tornado a forma de certo modo regular, can6nica, do discurso hist6rico, mas tambem na medida em que se tomou urn instrumento tatico que ja nlio era utilizavel somente pela nobreza, e sim, em ultima analise, nurna estrategia ou noutra. 0 saber hist6rico,

de fato, ao longo do seculo XVIII, claro que por meio de

certo nUmero de modifica90es nas proposi90es fundamen-

tais, tomou-se por fim urna especie de arma discursiva uti-

lizavel, exibivel por todos os advers3r:ios do campo politico.

Em surna, eu gostaria de Ihes mostrar como esse discurso

hist6rico nlio deve ser tornado como a ideologia ou 0 produ-

to ideol6gico da nobreza e de sua posi9lio de classe, e que

226 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 3 DE MAR90 DE 1976 227

nao e de ideologia que se trata; trata-se de outra coisa, que rea9ao nobiliaria no inicio do seculo XVIII, para se tomar esse

tento justamente identificar, e que seria, se voces quiserem, instrumento geral de todas as lutas politicas, de qualquer

a tMica discursiva, urn dispositivo de saber e de poder que, ponto de vista que as consideremos, do fun do seculo XVIII?

precisamente, enquanto tMica, pode ser transferivel e se tor- Primeira questao, razao dessa polivalencia tatica: como e

na finalmente a lei de forma9ao de urn saber e, ao mesmo por que esse instrumento tao especifico, esse discurso afi- tempo, a forma comurn it batalha politica. Logo, generaliza- nal tao singular, que consistia em cantar 0 louvor dos inva-

9ao do discurso da hist6ria, mas enquanto tMica. sores, p6de se tomar urn instrumento geral nas taticas enos

o segundo processo que vemos delinear-se no momento enfrentamentos politicos do seculo XVIII? da Revolu9ao e 0 modo como essa tatica abriu-se em tres Eu creio que a razao disso, podemos encontra-la na di- dire90es, correspondentes a !res batalhas diferentes, que aca- re9ao que se segue. Portanto, Boulainvilliers fizera da dua- baram produzindo tres tMicas, tambem elas diferentes: urna lidade nacional 0 principio de inteligibilidade da hist6ria. que e centrada nas nacionalidades, e que vai se encontrar Inteligibilidade queria dizer tres coisas. Tratava-se primeiro, essencialmente em continuidade, de urn lado, com os fen6- para Boulainvilliers, de descobrir 0 conflito inicial (bata!ha, menos da lingua, e, por conseguinte, com a filologia; a outra guerra, conquista, invasao, etc.), 0 conflito inicial, 0 nucleo que e centrada nas classes sociais, tendo como fen6meno belicoso do qual podiam derivar as outras batalhas, as outras central a domina9ao econ6mica: por conseguinte, rela9ao lutas, todos os outros enfrentamentos, seja a titulo de conse- fundamental com a economia politica; enfim, urna terceira qiiencia direta, seja por urna serie de deslocamentos, de mo- dire9ao, que dessa feita vai ser centrada nao mais nas nacio- difica90es, de reviravoltas nas rela90es de for9a. Logo, uma nalidades, nem nas classes, mas na ra'1a, tendo, como feno- especie de grande genealogia das lutas atraves de todos os myno central, as especifica90es e sele90es biol6gicas; por- diferentes combates que haviam sido registrados pela hist6- tanto, continuidade entre esse discurso hist6rico e a proble- ria. Como descobrir a luta fundamental, como reatar 0 fio Iruitica biol6gica. Filologia, economia politica, biologia. Falar, estrategico de todas essas batalhas? A inteligibilidade hist6- trabalhar, viver l . E tudo isso que vamos ver reinvestir-se ou rica que Boulainvilliers queria introduzir significava igual- rearticular-se em tOIDO desse saber hist6rico e das taticas mente que se tratava niio s6 de descobrir essa batalha nuclear que !he sao ligadas.

fundamental e a maneira pela qual os outros combates deri-

A primeira coisa de que gostaria de !hes falar hoje e, vavam dela, mas que curnpria tambem localizar as trai90es, pois, dessa generaliza9ao tatica do saber hist6rico: de que as alian9as antinaturais, as asmcias de uns e as covardias forma ela se deslocou de seu lugar de nascimento, que era a

dos outros, todas as preteri90es, todos os calculos inconfes-

saveis, todos os imperdoaveis esquecimentos que haviam tor-

nado possivel essa transforrna9ao e, ao mesmo tempo, de cer-

1. Trata-se aqui, visivelmente, da retomada e da reformulaciio "genea- logica" dos campos do saber e das formas de discursividade cuja analise to modo, a adultera9ao dessa rela9ao de for9a e desse en- "arqueoI6gica" Michel Foucault havia desenvolvido em Les mots et les frentamento fundamentais. Tratava-se de fazer urn tipo de choses (op. cit.). grande exame hist6rico ("de quem e 0 erro?"), e, portanto, 228 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 3 DE MAR90 DE 1976 229

nao s6 de reatar 0 flo estrategico, mas lambem de tra9ar, da hist6ria, 0 momenta de constitui9ao do reino. Eu digo atraves da hist6ria, a linha as vezes sinuosa, mas ininterrupta, "ponto constituinte", "momento de constitui93.0", para evitar das partilhas morais. Terceiro, essa inteligibilidade hist6ri- urn pouco, sem todavia apaga-Ia totahnente, a palavra "cons- ca queria dizer outra coisa: tratava-se, para alem de todos titui9aO". De fato, e mesmo de constitui9ao, voces estiio ven- esses deslocamentos taticos, para alem de todas essas mal- do, que se trata: faz-se hist6ria para restabelecer a constitui- versa90es hist6rico-morais, de redescobrir, de trazer outra vez 9ao, mas a constitui9ao de modo algum entendida como urn it luz, certa rela9ao de for9a que fosse a urn s6 tempo a boa conjunto explicito de leis que teriam sido forrnuladas em e a verdadeira. A verdadeira rela9ao de for9a - no sentido de dado momento. Tampouco se trata de reencontrar uma es- que se tratava de redescobrir certa rela9ao de fOf9a que nao pecie de conven9ao juridica fundadora, que teria sido acer- era ideal, que era real, que era efetivamente registrada, inse- tada, no tempo ou no arquitempo, entre 0 rei, entre 0 sobe- rida pela hist6ria no decorrer de certa prova de for9a decisi- rano e seus suditos. Trata-se de reencontrar algo que tern, va que fora, nessa ocorrencia, a invasao da Galia pelos fran- portanto, consistencia e situa9aO hist6rica; que nao e tanto cos. Logo, urna certa rela9ao de for9a que fosse historica- da ordem da lei quanta da ordem da for9a; que 000 e tanto da mente verdadeira, historicamente real, e, em segundo lugar, ordem do escrito quanta da ordem do equilibrio. Algo que e que fosse urna boa rela9ao de for9a, porque ela seria desem- urna constitui9aO, mas quase como a entenderiam os medi- bara9ada de todas as altera90es que as trai90es, os diferentes cos, ou seja: rela9ao de fOf9a, equilibrio e jogos de propor90es, deslocamentos a fizeram sofrer. 0 tema dessa busca de in- dissimetria estavel, desigualdade congruente. Ede tudo isso teligibilidade hist6rica era este: tratava-se de redescobrir que falavam os medicos do seculo XVIII quando evocavam

a "constitui9ao"'. Essa ideia de constitui9ao, na literatura urn estado de coisas que fosse urn estado de for9a em sua

hist6rica que se ve forrnar-se em torno da rea9ao nobiliaria, retidao original. E, esse projeto, voces 0 encontram forrnu-

e, de certo modo, medica e militar ao mesmo tempo: rela- lado claramente por Boulainvilliers e por seus sucessores.

9ao de for9a entre 0 bern e 0 mal, rela9ao de for9a lambem Boulainvilliers dizia, por exemplo: trata-se de lembrar nos-

entre os adversarios. Esse momenta constituinte que se trata sos usos presentes em sua verdadeira origem, de descobrir

de reencontrar, deve-se alcan9a-Io pelo conhecimento e pelo os principios do direito comurn da na9ao e de examinar 0

restabelecimento de urna rela9ao de for9a fundamental. Tra- que foi mudado na seqiiencia do tempo. E du Buat-Nan9ay,

ta-se de instaurar uma constitui9ao que seja acessivel nao urn pouco mais tarde, deveria dizer: e de acordo com 0 co-

pelo restabelecimento de velhas leis, mas por algo que seria nhecimento do espirito primitivo do governo que se deve revigorar certas leis, moderar aquelas cujo vigor excessivo po- deria alterar 0 equilibrio, restabelecer a harmonia e as rela90es.

2. A doutrina medica da "constitui93.0" tern uma tonga historia, mas aqui

Portanto, tres tarefas nessa [especie] de projeto de ana- M. Foucault se refere decerto Ii teona anatomopato16gica fonnulada no secuto lise da inteligibilidade da hist6ria: reatar 0 fio estrategico, XVIII, a partir de Sydenham, Le Brun, Bardeu, e que sera desenvolvida, na tra9ar 0 fio das divisoes morais e restabelecer a retidiio de primeira metade do seculo XIX. por Bichat e pela Escola de Paris (cf. Naissance algo a que se pode chamar 0 ponto constituinte da politica e de la ciinique, op. cit.). 230 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 3 DE MAR90 DE /976 231

uma revolu~ao das for~as - revolu~ao no sentido em que, rios, dizia Boulainvilliers, crescem e caem em decadencia precisamente, se trata de passar do auge da noite para 0 da forma como a luz do sol ilumina 0 territ6ri03 · Revolu~ao auge do dia, do ponto mais baixo para 0 ponto mais alto. 0 que solar, revolu~ao da hist6ria: voces veem que as duas coisas foi possivel, a partir de Boulainvilliers - e eu acho que e agora estiio ligadas. Portanto, temos esse par, esse vinculo isso 0 fundamental -, foi 0 acoplamento dessas duas no- de tres temas - constitui~ao, revolu~ao, hist6ria ciclica: ai ~5es, a de constitui~ao e a de revolu~ao. Enquanto na litera- esta, se voces quiserem, um dos aspectos do instrumento tura hist6rico-juridica, que fora essencialmente ados parla- tatico que Boulainvilliers inventara. mentares, entendia-se por constitui~ao essenclalmente as leis Segundo aspecto: procurando 0 ponto constituinte - que fundamentais do reino, ou seja, um aparelho juridico, algu- seja born e verdadeiro - na hist6ria, 0 que e que Boulain- rna coisa da ordem da conven~ao, ficava evidente que essa villiers quer fazer? Trata-se, para ele, de recusar procurar volta da constitui~ s6 podia ser 0 restabelecimento, de certo esse ponto constituinte na lei, claro, mas tambem de recusar modo decis6rio, das leis trazidas de volta it plena luz. A par- procura-Io nanatureza: antijuridicismo (e do que acabei de tir do momento, ao contrano, em que a constitui~ao ja niio lhes falar ha pouco), mas igualmente antinaturalismo. 0 gran- e uma estrutura juridica, um conjunto de leis, mas uma rela- de adversano de Boulainvilliers e de seus sucessores sera a ~ao de for~a, fica muito claro que essa rela~ao niio pode ser natureza, sera 0 homem natural; ou ainda, se voces preferi- restabelecida a partir do nada; s6 se pode restabelece-Ia se rem, 0 grande adversario desse genero de analise (e e nisso existir algo como um movimento ciclico da hist6ria, se exis- tir, em todo caso, algo que permita fazer a hist6ria girar em

3. Em Essai surla noblesse de France contenant une dissertation sur son torno de si mesma e traze-Ia de volta a seu ponto inicial. Em origine et abaissement (obm redigia por volta de 1700 e editada em 1730 in conseqiiencia, voces veem que se reintroduz ai, com essa ideia Continuation des memoires de litterature... ,.t. IX, op. cit.), a prop6sito do de uma constitui~ao que e medico-militar, ou seja, rela~ao de "declinio", da "decadencia" da antiga RaIna, Boulainvilliers reconhece que esse for~a, algo como uma filosofia da hist6ria ciclica, a ideia, em e "urn destino comum a todos os Estados de tonga dura(jao", e acrescenta: "... 0

mundo e 0 joguete de uma sucessao continua; por que a nobreza e suas vanta~ todo caso, de que a hist6ria se desenvolve de acordo com gens estariam fora da regra comum?" Nao obstante, a prop6sito dessa suces~ circulos. E, por isso, eu digo que essa ideia "se introduz". sao, ele pensa que "dos nossos muitos filhos, alguem abrini essa obscuridade Para dizer a verdade, ela se reintroduz ou, se voces preferi- em que vivemos para devolver ao nosso nome seu antigo brilho" (p. 85). rem, 0 velho tema milenarista da volta das coisas se acopla Quanta a ideia de cielo, encontramo-la mais na mesma epoea em Scienza nuova

(Napoles, 1725) de G. B. Vico. Em Astrologia mondiale (1711) de Boulain- a um saber hist6rico articulado. villiers, editada porRenee Simon em 1949, e formulada a ideia "pre-hegelia-

Essa filosofia da hist6ria como filosofia do tempo ci- na", poderiamos dizer, da ''transferencia das monarquias de uma regiao e de clico se torna possivel a partir do seculo XVIII, desde que se uma na~ao para outra". Trata-se ai, para Boulainvilliers, de uma "ordem" que puseram em ~iio as duas no~5es, de constitui~ao e de rela~ao ''nao tern, todavia, nada de fixo, porquanto nao ha sociedade sempre duradou-

ra e os Imperios mais vastos e mais temidos estao sujeitos a destruir~se por de for~a. Com efeito, em Boulainvilliers, voces veem apare-

meios iguais aqueles que os formaram; muitas vezes nascem outras socieda- cer, creio que pela primeira vez, no interior de um discurso des, no proprio seio deles, que usam por seu turno de fo~a e de persuasao, hist6rico articulado, a ideia de uma hist6ria ciclica. Os impe- fazem conquistas sobre as antigas e as sujeitam por sua vez" (pp. 141~2). 232 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 3 DE MARi;:O DE 1976 233

tambem que as analises de Boulainvilliers viio se tornar ins- discurso hist6rico-politico, inaugurado por Boulainvilliers, trumentais e taticas), e 0 homem natural, e 0 selvagem, construiu urna outra personagem, que e tao elementar, se entendido em dois sentidos: 0 selvagem, born ou mau, esse voces quiserem, quanto 0 selvagem dos juristas (e logo dos homem natural que os juristas ou os te6ricos do direito cria- antropologistas), mas que e constituido de modo muito di- ram, antes da sociedade, para constituir a sociedade, como ferente. Esse adversario do selvagem e 0 barbaro. elemento a partir do qual 0 corpo social podia constituir-se. o barbaro se opOe ao selvagem, mas de que maneira? Pri- Procurando 0 ponto da constitui9iio, Boulainvilliers e seus meiro, nisto: no fundo, 0 selvagem e sempre selvagem na sucessores niio tentavam reencontrar esse selvagem, anterior, selvageria, com outros selvagens; assim que esta nurna rela- de certo modo, ao corpo social. 0 que eles tambem querem 9iiO de tipo social, 0 selvagem deixa de ser selvagem. Em conjurar e esse outro aspecto do selvagem, esse outro ho- mem natural que e 0 elemento ideal, inventado pelos econo-

compensa9ao, 0 barbaro e alguem que s6 se compreende e

que s6 se caracteriza, que s6 pode ser definido em compa- l mistas, esse homem que niio tern hist6ria nem passado, que ra9iio a urna civiliza9iio, fora da qual ele se encontra. Niio

s6 e movido por seu interesse e que troca 0 produto de seu trabalho por outro produto. 0 que 0 discurso hist6rico-poli-

h:i barbaro, se nao h:i em algum lugar urn ponto de civiliza-

9iiO em compara9ao ao qual 0 barbara e exterior e contra 0

t tico de Boulainvilliers e de seus sucessores quis, pois, con- qual ele vern lutar. Urn ponto de civiliza9iio - que 0 barba- II jurar foi, a urn s6 tempo, 0 selvagem te6rico-juridico, 0 sel- ro despreza, que 0 barbaro inveja - em compara9ao ao qual 0 I:

vagem saido de suas florestas para contratar e fundar a so- barbaro se encontra nurna rela9iio de hostilidade e de guer-

ciedade, e foi igualmente 0 selvagem homo oeconomicus que ra permanente. Niio h:i barbaro sem urna civiliza9ao que ele

e destinado atroca e ao escambo. Esse par, no fundo, do sel- procura destruir e da qual procura apropriar-se. 0 barbaro e

vagem eda troca e, creio eu, absolutamente fundamental, sempre 0 homem que invade as fronteiras dos Estados, e

nao s6 no pensamento juridico, nao s6 na teoria do direito no aquele que vern topar nas muralhas das cidades. 0 barbaro,

seculo XVIII; mas e tambem esse par do selvagem e da troca diferentemente do selvagem, nao repousa contra urn pano

que vamos encontrar continuamente, desde 0 seculo XVIII de fundo de natureza ao qual pertence. Ele s6 surge contra

e a teoria do diieito ate a antropologia dos seculos XIX e urn pano de fundo de civiliza9iio, contra 0 qual vern se cho-

XX. No fundo, esse selvagem, nesse pensamento juridico do car. Ele niio entra na hist6ria fundando urna sociedade, mas

seculo XVIII, bern como no pensamento antropol6gico penetrando, incendiando e destruindo urna civiliza9iio. Por-

dos seculos XIX e XX, e essencialmente 0 homem da troca; tanto, eu creio que 0 primeiro ponto, a diferen9a entre 0 bar-

e 0 trocador, 0 trocador dos direitos ou 0 trocador dos bens. baro e 0 ;elvagem, e essa rela9ao com urna civiliza9iio, por-

Enquanto trocador dos direitos, ele funda a sociedade e a sobe- tanto com urna hist6ria previa. Niio h:i barbaro sem urna his-

rania. Enquanto trocador dos bens, ele constitui urn corpo t6ria previa, que e a da civiliza9ao que ele vern incendiar. E,

social que e, ao mesmo tempo, urn corpo economico. Oesde de outra parte, 0 barbaro nao e 0 vetor de trocas, como 0

o seculo XVIII, 0 selvagem e 0 sujeito da troca elementar. selvagem. 0 barbaro e essencialmente vetor de algo muito di-

Pois bern, foi no fundo contra esse selvagem (cuja impor- ferente da troca: e 0 vetor de domina9iio. 0 barbaro, diferen-

tiincia era grande na teoria juridica do seculo XVIII) que 0 temente do selvagem, se apodera, se apropria; pratica niio a

234 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 3 DE MARr;O DE 1976 235

ocupa9iio primitiva do solo, mas a rapina. Isto quer dizer que forma aceitavel, e juridica, da bondade? 0 barbaro, em com-

sua rela9iio de propriedade e sempre secundliria: sempre se pensa9iio, niio pode niio ser mau e maldoso, mesmo que se

apodera apenas de urna propriedade previa; da mesma for- lhe reconhe9am qualidades. Ele so pode ser cheio de arro-

ma, poe os outros a seu servi90, manda outros cultivarem a giincia e desurnano, ja que niio e, justamente, 0 homem da

terra, manda cuidarem de seus cavalos, prepararem suas ar- troca e da natureza; ele e 0 homem da historia, e 0 homem

mas, etc. Sua liberdade, tambem ela, so repousa na liberdade da pilhagem e do incendio, e 0 homem da domina9iio. "Urn

perdida dos outros. E, na rela9iio que mantem com 0 poder, povo altivo, brutal, sem patria, sem lei", dizia Mably (que,

o barbaro, diferentemente do selvagem, jamais cede sua porem, amava muito os barbaros); ele tolera violencias atro-

liberdade. 0 selvagem e aquele que tern entre as miios urna zes, pois para ele elas estiio na ordem das coisas publicas4 .

especie de superabundiincia de liberdade, que ele acaba ce- No barbaro, a alma e grande, nobre e altiva, mas sempre as-

dendo para garantir sua vida, sua seguran9a, sua proprieda- sociada a velhacaria e a crueldade (tudo isto esta em Mably).

de, seus bens. 0 barbaro, por sua vez, nunca cede sua liber- De Bonneville dizia, falando dos barbaros: "esses aventu-

dade. E, quando se atribui urn poder,. quando se atribui urn reiros [...] so respiram a guerra [...] a espada era 0 direito

rei, quando elege urn chefe, ele 0 faz niio, em absoluto, para deles e eles 0 exerciam sem remorsos"5. E Marat, tambem

diminuir sua propria parte de direitos, mas, ao contrlirio, pa- ele grande amigo dos barbaros, os diz "pobres, grosseiros,

ra multiplicar sua for9a, para ficar mais forte em suas rapi- sem comercio, sem artes, mas livres"6. Romem d.a natureza,

nas, para ficar mais forte em seus roubos e em seus estu- o barbaro? Sim e niio. Niio, no sentido de que esta sempre

pros, para ser urn invasor mais certo de sua propria for9a. .E ligado a urna historia (e a urna historia previa). 0 barbaro

como multiplicador de sua propria for9a individual que 0 surge contra 0 pano de fundo de historia. E, se ele se repor-

barbaro instala urn poder. Isto quer dizer que 0 modelo de ta a natureza, dizia du Buat-Nan9ay (que visava ao seu ini-

govemo, para 0 barbaro, e urn govemo necessariamente mi- migo intimo, Montesquieu), se e 0 homem natural, e que a

litar, que niio repousa em absoluto nesses contratos de ces-

siio civil que caracterizam 0 selvagem. Foi essa personagem

do barbaro que, acho eu, a historia do tipo da de Boulain- 4. "Urn povo altivQ, brutal, sem patria, sem lei [ ... ] Os franceses

villiers p6s em cena no seculo XVIII. podiam tolerar, da parte de seu chefe, algumas violencias atrozes mesmo, por-

Compreende-se entiio muito bern por que 0 selvagem, que elas estavam na ordem dos costumes publicos" (G.-B. de Mably,

Observations sur ['histoire de France, Paris, 1823, cap. I, p. 6; 1~ ed.

apesar de tudo, mesmo quando se the reconhecem algumas Genebra, 1765).

maldades e alguns defeitos, no pensamento juridico-antro- 5. N. de Bonneville, Histoire de l'Europe moderne depuis !'irruption

pologico de nossos dias e ate nas utopias bucolicas e ameri- des peuples du Nord dans I'Empire romainjusqu'u fa paix de 1783, Genebra,

canas que encontramos agora, 0 selvagem, como voces sa- 1789, voL I, l~ parte, cap, I, p. 20, A citayao tennina assim: "a espada era 0

bern, e sempre born. E como niio seria born, ja que tern pre- direito deles, e eles 0 exerciam sem remorsos, como 0 direito da natureza".

6. "Pobres, grosseiros, sem comercio, sem artes, sem industria, mas

cisamente como fun9iio trocar, dar - dar, e claro, da melhor livres" (Les chafnes de f'esclavage. Ouvrage destine u developper Ies noirs

maneira possivel para seus interesses, mas nurna forma de aUentats des princes contre Ie peuple, Paris, ano I, cap. "Des vices de la cons-

reciprocidade em que reconhecemos, se voces quiserem, a titution politique"; cf. reed. Paris Union Generale d'Editions, 1988, p, 30).

___________1 _ 236 EM DEFESA DA SOClEDADE AULA DE 3 DE MAR(:O DE 1976 237

natureza das coisas e 0 que? E a rela9ao do sol com a lama nao, em absoluto, revolu9aO ou barbarie, mas revolu9aO e que ele faz secar, e a rela9ao do carda com 0 asno que dele barbarie, economia da barbarie na revolu9ao. Verei nao urna se alimenta7· prova, mas urna especie de confirma9ao de que e este 0 pro-

Nesse campo hist6rico-politico, em que 0 saber das ar- blema, nurn texto que alguem me entregou ou~o dia, no mo- mas e constantemente utilizado como instrumento politico, mento em que eu estava saindo da aula. E um texto de eu creio que se pode conseguir caracterizar cada urna das Robert Desnos, que mostra perfeitamente bem como, ate no grandes tMicas que vao ser estabelecidas no seculo XVIII, seculo XX ainda, esse problema - eu ia dizer: socialismo ou pelo modo como se faz atuar os quatro elementos que esta- barbarie' - revolu9aO ou barbarie e urn problema falso, e que l yam presentes na anaIise de Boulainvilliers: a constitui9ao, o verdadeiro problema e: revolu9ao e barbarie. Pois bem, 1 a revolu9ao, a barbarie e a domina9ao. No fundo, 0 problema tomarei como testemunho esse texto de Robert Desnos, que, I

l't vai ser 0 de saber: como vai se estabelecer 0 ponto de jun- suponho, foi publicado em La revolution surrealiste, nao 9aO 6tirno entre a fUria da barbarie, de urn lado, e 0 equili- sei, pois faltam referencias. Eis 0 texto. Ate parece saido brio dessa constitui9ao que se quer encontrar? Como fazer diretamente do seculo XVIII: "Oriundos do Leste tenebro- que atuem, numa organiza9ao correta das for9as, 0 que 0 so, os civilizados continuam para 0 Oeste a mesma marcha de barbara pode trazer consigo de violencia, de liberdade, etc.? Atila, de Tamerlao e de tantos outros desconhecidos. Quem Que e preciso, noutras palavras, conservar, e que e preciso diz civilizados diz antigos barbaros, ou seja, bastardos dos descartar do barbaro para fazer que funcione uma constitui- aventureiros da noite, ou seja, aqueles que 0 inimigo (roma- 9aO justa? Que e preciso encontrar, de fato, de barbarie util? nos, gregos) corrompeu. Expulsos das orlas do Pacifico e o problema e, no fundo, a filtragem do barbara e da barbarie: das encostas do Himalaia, 'essas grandes companhias', infieis como se deve filtrar a domilla9ao barbara para consumar a it sua missao, encontram-se agora diante daqueles que os ex- revolu9ao constituinte? E este problema, e sao as diferentes pulsaram nos dias nao muito longinquos das invasoes. Filhos solu90es para esse problema da filtragem necessaria da bar- de Kalmuk, netos dos hunos, dispam-se urn pouco dessas barie para a revolu9aO constituinte, e isso que vai definir - roupas copiadas do vestuario de Atenas e de Tebas, das cou- no campo do discurso hist6rico, nesse campo hist6rico-po- ra9as apanhadas em Esparta e em Roma, e apare9am nus litico - as posi90es taticas dos diferentes grupos, dos dife- como seus pais em cima de seus pequenos cavalos. E voces, rentes interesses, dos diferentes centros da batalha - seja a nobreza ou 0 poder monarquico, seja a burguesia ou as dife- rentes tendencias da burguesia. 8. M. Foucault alude aqui ao gropo de reflexao que, a partir de 1948,

Eu creio que todo esse conjunto de discursos hist6ri- comeyara a reunir-se em toma de Cornelius Castoriadis e que, a partir de cos, no seculo XVIII, e dominado pelo seguinte problema: 1949, publicara Socialisme ou barbarie. A revista deixara de ser publicada no

n? 40, em 1965. Impulsionados por Castoriadis e por Claude Lefort, trotskis-

laS dissidentes, militantes, intelectuais (dentre os quais Edgard Morin, Jean-

7. Cf. L. G. conde du Buat-Nanc;ay, elements de lapolitique... , op. cit., Franc;ois Lyotard, Jean Laplanche, Gerard Genette, etc.) desenvolviam temas voL I, liv. I, cap. I-IX: "De l'egalite des hommes". 0 contexto dessa citayao tais como, por exemplo, a critica do regime sovietico, a questao da democra- (se e que e uma), que nao pudemos encontrar, poderia ser esse. cia direta, a critica do reformismo, etc. 238 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 3 DE MARr;O DE 1976 239

nonnandos lavradores, pescadores de sardinhas, fabricantes mostrar que a monarquia francesa nao tern atnis de si uma

de sidIa, subarn wn pouco nesses barcos arriscados que, mais invasao gerrnlinica que a teria introduzido e que teria sido,

alem do circulo polar, tra~ararn wna longa esteira antes de de certo modo, sua portadora. Trata-se de mostrar que tampou-

atingir esses prados Umidos e essas florestas abundantes co a nobreza tern como ancestrais os conquistadores vindos

de ca~a. Matilha, reconhe9a seu·dono! Acreditava fugir dele, do outro lado do Reno, e que, portanto, os privilegios da desse Oriente que a expulsava investindo-a do direito de nobreza - que a colocam entre 0 soberano e os outros sudi- destrui9ao que voce nao soube conservar, e eis que voce 0 tos - ou the foram concedidos tardiamente, ou ela os usur- encontra de costas, uma vez terminada a volta ao mundo. Pe- pou mediante algwn meio obscuro. Em suma, em vez de 90-lhe, nao imite 0 cao que quer agarrar a cauda, correra per- reportar a nobreza privilegiada a wna horda barbara funda- petuarnente atnis do Oeste, pare. Preste-nos conta wn pouco dora, trata-se de esquivar esse nucleo barbaro, de faze-lo de sua misslio, grande exercito oriental, tornado hoje Os Oei- desaparecer e de deixar de certo modo a nobreza em sus- dentais.''9 penso - de fazer dele uma cria9ao tardia e superficial a wn s6

Pois bern, concretamente, para tentar ressituar os dife- tempo. Essa tese e, claro, a tese da monarquia, a que voces rentes discursos hist6ricos e as raticas politicas a que eles se encontram em toda wna serie de historiadores, que vai de prendem, Boulainvilliers havia introduzido ao mesmo tem- Dubos lO a Moreau". po, na hist6ria, 0 grande barbaro louro, 0 fato juridico e his- Essa tese, articulada nwna proposi9ao fundamental, re- t6rico da invasao e da conquista violenta, a apropria9ao das sulta aproximadamente nisto: pura e sifnplesmente, os fran- terras e a sujei~ao dos homens e, enfim, wn poder monar- cos - diz Dubos, diril em seguida Moreau - no fundo sao quico extremamente limitado. De todos esses ~os maci- wn mito, wna ilusao, wna cria9ao total de Boulainvilliers. 90S e solidarios que constituiam a irruP9ao do fato da bar- Os francos nao existem: isto quer dizer que, primeiro, nao bane na hist6ria, quais os que vao ser descartados? E 0 que houve em absoluto invasao. De fato, que e que se passou? vai se conservar para reconstituif a rel~ao correta de for9a Houve invasOes, mas feitas por outros: invasao dos butgUn- que deve sustentar 0 reino? Tomarei tres grandes modelos dios, invasao dos godos, contra as quais os romanos nada de filtro. Houve muitos outros no seculo XVIII; tomo estes podiam. E foi contra essas invasoes que os romanos recor- porque foram politicamente, e tambem epistemologicamente reram - mas a titulo de aliados - a wna pequena popula9ao sem duvida, os mais ifnportantes; correspondem cada qual a tres posi90es politicas bern diferentes.

Privneira filtragem do barbaro, a mais rigorosa, a filtra- 10. Cf. 1.-B. Dubos, Histoire critique de l'etablissement de la monar- gem absoluta, a que consiste em tentar nao deixar passar chiejran9aise dans Ies Gaules, Paris, 1734. nada do barbaro para a hist6ria: trata-se, nesta posi9ao, de 11. cr. J.-N. Moreau, Lefons de morale, de po/itique et de droit public,

. puisees dans I'his/oire de 10 monarchie, Versalhes, 1773; Expose historique

des administrations populaires aux plus anciennes epoques de notre monar-

9. R. Desnos, "Description d'une revoltc prochaine", La Revolution chie, Paris. 1789; Exposition et defense de notre constitution monarchique sumaJiste, n~ 3, 15 de abril de 1925, p. 25. Reed.: La revolution sumo/iste franfaise. prechJees de /'Bistoire de toutes nos assembIees nationales. Paris. (1924-1929). Pari" 1975. 1789.

240 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 3 DE MAR(:O DE 1976 241

que tinha alguns meritos militares e que eram precisamente Dubos. A ordem triunfou. Logo, os francos foram absorvidos

os francos. Mas os francos nao foram recebidos, de modo e seu rei ficou simplesmente, de certo modo, no topo, na su-

algum, como invasores, como grandes barbaros suscetiveis perficie do edificio galo-romano apenas penetrado por alguns

de domina9ao e de rapina, mas como pequena popula9ao, imigrantes de origem gerrnanica. Apenas 0 rei ficou, pois,

aliada e uti!. De sorte que eles receberam imediatamente os no topo do edificio, rei que herdou precisamente direitos

direitos de cidadania; nao so os converteram imediatamente cesareos do imperador romano. 1sto quer dizer que nao se

em cidadaos galo-romanos, mas lhes deram os instrumentos teve, em absoluto, como acreditava BouIainvilliers, urna aris-

de poder politico (e, a esse respeito, Dubos lembra que Clovis, tocracia de tipo barbaro mas, logo de saida, urna monarquia

afinal de contas, foi consul romano). Portanto, nem invasao absoluta. E foi vanos seculos mais tarde que ocorreu a rup-

nem conquista, mas imigra9ao e alian9a. Nao houve inva- tura; que ocorreu algo analogo it invasao, mas urna especie

sao, mas nem sequer se pode dizer que houve urn povo fran- de invasao interna 13. co, com sua legisla9ao e seus costumes. Primeiro, pura e Ai, a analise de Dubos se desloca para 0 fim dos caro-

simplesmente, porque eles eram muito pouco nurnerosos lingios e 0 inicio dos Capetos, onde localiza urn enfraqueci- diz Dubos, para poder tratar os gauleses "como turco a mou: mento do poder central, desse poder absoluto de tipo cesa- ro"12 e impor-lhes seus proprios Mbitos e seus proprios cos- reo, de que os merovingios se tinham beneficiado no inicio. tumes. Eles nem sequer podiam, perdidos como estavam Em compensa9ao, os oficiais delegados pelo soberano ou- nessa rnassa galo-romana, manter seus proprios Mbitos. Por- torgam-se cada vez mais poder: 0 que era de sua al9ada admi- tanto, eles literalmente dissolveram-se. E, alias, como nao nistrativa, eles transforrnaram em feudos, como se fosse pro- se teriam dissolvido nessa sociedade e nesse aparelho politi- priedade deles. E e assim que nasce, a partir dessa decom- co galo-romano, urna vez que nao tinham realmente nenhurn posi9ao do poder central, urna coisa, que e 0 feudalismo: conhecimento nem da administra9ao publica nem do gover- feudalismo que vOCes veem que e urn fenomeno tardio, de no? Ja a arte da guerra deles, Dubos pretende que a tinham modo algum ligado it invasao, mas it destrui9ao interna do copiado dos romanos. Em todo caso, os mecanismos da admi- poder central, e que constimi urn efeito, que tern os mesmos nistra9ao publica que eram, diz Dubos, admiraveis na Galia efeitos que urna invasao, mas urna invasao que teria sido feita romana, os francos nao tiveram 0 cuidado de destrui-los. do interior por pessoas que usurparam urn poder do qual Nada da Galia romana foi desnaturado pelos francos, diz eram simplesmente delegados. "0 desmembramento da so-

berania e a mudan9a dos oficios em senhorias produziram" -

e urn texto de Dubos que eu leio para voces - "efeitos total-

12. Velha expressao que significa "tratar alguem como as turcos trata- vam as mauros". Dubos escreve: "Queira 0 leitor concordat em prestar aten-

mente semelhantes aos da invasao estrangeira, elevaram en- 900 ao humor natural dos habitantes da GaIia., que em nenhum seculo passaram tre 0 rei e 0 povo urna casta dominadora e fizeram da Galia por esrupidos nem por covardes, sem lan;:ar mao de outras provas; ver-se-a bern que e impassivel que urn punhado de francos tenha tratado como lurea a mouro urn milhao de romanos das GaIias" (Histoire critique..., vol. IV, liv. VI, pp. 212-3). 13. No tocante acritica de Boulainvilliers em Dubos, cf. ibid., caps. 8 e 9. 242 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 3 DE MARC;:O DE 1976 243

uriJ. verdadeiro pais de conquista."14 Esses tres elementos - Outra filtragem agora, outra filtragem do barbaro. Tra- invasao, conquista, dominayao - que caracterizavam, segun- ta-se, nesse outro tipo de discurso, dessa feita, de dissociar do Boulainvilliers, 0 que sucedeu no momento dos francos, urna liberdade germiinica, ou seja, uma liberdade barbara, Dubos os reencontra, rnas como fenomeno interno, devidos do carater exclusivo dos privilegios da aristocracia. Em ou- ao nascimento, ou correlativos ao nascimento, de uma aris- tras palavras, trata-se - e nisso essa tese, essa tatica, vai ficar tocracia, mas de uma aristocracia, como voces veem, artifi- muito proxima da de Boulainvilliers - de continuar a valo- cial e completamente protegida, completamente indepen- rizar, contra 0 absolutismo romano da monarquia, as liber- dente da invasao franca e da barbarie que ela trazia consigo. dades que os francos e os barbaros trouxeram consigo. Os Entiio, e contra essa conquista, contra essa usurpayiio, con- bandos hirsutos, vindos do outro lado do Reno, entraram de tra essa invasao interior, que vao se desencadear as lutas: 0 fato na Galia e trouxeram consigo suas liberdades. Mas esses monarca de urn lado, as cidades igualmente, que haviam bandos hirsutos nao eram germanos guerreiros constituindo guardado a liberdade dos municipios rornanos, vao lutarjun- urn nueleo aristocnitico, que ia manter-se como tal no corpo tos contra os feudais. da sociedade galo-romana. Houve uma inundayiio de guer-

Voces tern ai, nesse discurso de Dubos, de Moreau e de reiros, siro, mas trata-se, de fato, de todo urn povo em armas. todos os historiadores monarquistas, a inversiio, peya por pe- A forma politica e social que se introduziu na Galia nao foi ya, do discurso de Boulainvilliers, tendo, porem, esta impor- a de urna aristocracia, foi, ao contnirio, a de uma democra-

cia, da mais ampla democracia. E entao essa tese, voces tante transformayao: 0 foco da analise historica se desloca

encontram em Mablyl" em Bonneville l6 e em Marat ainda, por causa da invasao, e dos primeiros merovingios, para este

em Les chaines de I'esclavage [As correntes da escravidao]. outro fato que foi 0 nascimento do feudalismo e dos primei-

Portanto, democracia barbara dos francos, que nao conhe- ros Capetos. Voces veem tambem - e isso e importante - que

ciam forma alguma de aristocracia, que so conheciam urn a invasao da nobreza e analisada niio como 0 efeito de urna

povo igualitario de soldados-cidadaos: "Urn povo altivo, vitoria militar e a irrupyao da barbarie, mas como 0 resultado brutal", diz Mably, "sem patria, sem lei"l', no qual cada sol- de urna usurpayao interna. 0 fato da conquista e sempre afrr- dado-cidadao so vivia do saque e niio queria ser incomoda- mado, mas despojado tanto de sua paisagem barbara quanto do por nenhum castigo. Sobre esse povo, nenhuma autori- dos efeitos de direito que a vitoria militar podia acarretar. Os dade continua, nenhuma autoridade razoavel ou constituida. nobres nao sao barbaros, sao escroques, escroques politicos. Pois bern, segundo Mably, foi essa democracia brutal, bar- E essa a primeira posiyao, a primeira utilizayao uitica - por bara, que se estabeleceu na Galia. E, a partir dai, a partir desse inversao - do discurso de Boulainvilliers. estabelecimento, uma serie de processos: essa avidez, esse

14. Apenas a Ultima frase parece ser uma cital;30: depois de ter falado 15. G.-B. de Mably, Obsell'ations sur I'histoire de France, op. cit. das usurpa90es dos oficiais momirquicos e da conversao das comissoes dos 16. N. de Bonneville, Histoire de I'Europe moderne depuis /'irruption duques e condes em dignidades hereditirias, Dubas escreve: "Foi entao que as des peuples du Nord. .. , op. eft. G

egolsmo dos barbaros francos, que era qualidade quando se gados. E, em conseqiiencia, mediante uma curnplicidade en- tratava de transpor 0 Reno e de invadir a Galla, toma-se defeito tre os nobres que fizeram 0 rei e 0 rei que fez 0 feudalismo asslm que eles se instalam; os francos ja niio se ocupam senao que nasce, acima da democracia barbara, a figura gemea da de pilhagens e de apropriac;5es. Negligenciam tanto 0 exer- monarquia e da aristocracia. Contra 0 pano de fundo da de- cicio do poder quanto as assembleias de marc;o ou de maio mocracia germanica, ternos, pais, esse duplo processo. Ecla- que controlavam a cada instante, a cada ano, 0 poder mo- ro, a aristocracia e a monarquia absoluta brigarao urn dia, mas narquico. Portanto, deixam 0 rei agir, deixam constituir-se nao convem esquecer que elas sao, no fundo, irmas gemeas. tambem, acima deles, uma monarquia que tende a tomar-se Terceiro tipo de discurso, terceiro tipo de analise, ter- absoluta. E 0 elero, decerto ignorando todos esses ardis - ceira titica ao mesmo tempo, que e no fundo a mais sutil e segundo Mably -, interpreta os costumes germiinicos em ter- a que ted a fortuna historica maior, se bern que, na mesma mos de direito romano: creem-se suditos de urna monarquia, epoca em que foi formulada, ela 0 tenha tido decerto com enquanto eram de fato 0 corpo de uma republica. infinitamente menos brilho do que a tese de Dubos ou a de

Quanto aos funcionarios oficiais do soberano, eles tam- Mably. Trata-se, nessa terceira operac;ao titica, de distinguir bern assurnem cada vez mais poder, de sorte que se esta dei- no fundo duas barbaries: uma, ados germanos, que vai ser xando a democracia geral que fora trazida pela barbarie a barbarie rna, aquela de que e necessaria emancipar-se; e franca e entrando nurn sistema a urn s6 tempo monarquico depois urna barbarie boa, a barbarie dos gauleses, que e a e aristocratico. E urn lento processo, contra 0 qual hi, toda- unica realmente portadora de liberdade. Com isso, fazem-se via, urn momenta de reac;ao. E quando Carlos Magno, sen- duas operac;5es importantes: de urn lado, vai-se dissociar li- tindo-se justamente cada vez mais dominado e ameac;ado berdade e germanidade, que haviam sido unidas por Boulain- pela aristocracia, ap6ia-se de novo nesse povo que os reis villiers; e, do outro, vai-se dissociar a romanidade e 0 abso- precedentes haviam menosprezado. Carlos Magno restaura 0 lutismo. Isto quer dizer que vao se descobrir na Galia romana Campo de Marte e as assembleias de maio; deixa todos en- esses elementos de liberdade acerca dos quais todas as teses trarem nessas assembl6ias, meSilla os nao-guerreiros. Logo, precedentes haviam admitido mais ou menos que haviam curto instante de volta ademocracia gennanica, e mais tarde, sido importadas pelos francos. Em linhas gerais, se voces depois desse interregno, retomada do lento processo que faz quiserem, enquanto a tese de Mably era obtida por urna trans- desaparecer a democracia - e duas figuras gemeas vao nas- formac;ao da tese de Boulainvilliers, desagregaC;ao demo- cer. De uma parte, a de uma monarquia, a de [Hugo Capeto]. critica das liberdades germanicas, obtem-se a nova tese, que E como a monarquia consegue estabelecer-se? Na medida e a de Brequigny 18, de ChapsaP9, etc., por uma intensifica- em que, contra a democracia barbara e franca, os aristocratas aceitam escolher urn rei que vai tender cada vez mais para 18. L. G. O. F. de Brequigny, Dip/ornata, chartae, epistolae et alia o absolutismo; mas, por outro lado, como recompensa des- monumenta ad resfranciscas speclantia, Paris, 1679-1783; Ordonnances des sa sagrac;ao regia operada pelos nobres na pessoa de Hugo rois de France de la troisieme race, Paris, 1. XI, 1769, e t. XII, 1776. Capeto, os Capetos vao dar como feudo aos nobres as alc;a- 19. J.-F. Chapsal, Discours sur fa feodalite et l'allodialilli, suivi de

Dissertations sur leji-anc-alleu des coutumes d'Auvergne, du Bourdonnais, du das administrativas e os cargos de que haviam sido encarre- Nivernois, de Champagne, Paris, 1791. 246 EM DEFESA DA SOCfEDADE AULA DE 3 DE MARC;O DE 1976 247

,ao e urn deslocamento daquilo que fora, de certo modo, se beneficiam naquele momento de urn novo enriquecimento. registrado urn pouco marginalmente por Dubos, quando dis- Quando se instala 0 feudalismo, no final do reinado dos ca- sera que contra 0 feudalismo se levantaram juntos 0 rei e rolingios, .0 claro que os grandes senhores laico-eclesiasti- depois as cidades, as cidades que haviam resistido a usurpa- cos vao tentar passar a mao nessa riqueza reconstituida das ,ao feudal. cidades. Mas .0 ai que as cidades, tendo adquirido forc;a

A tese de Brequigny, de Chapsal, a que vai se tomar, atraves da historia gra,as as suas riquezas, as suas liberda- por sua importancia, a tese dos historiadores burgueses do des, gra,as tambem a comunidade que formavam, vao poder seculo XIX (de Augustin Thierry, de Guizot), consiste em lutar, resistir, revoltar-se. E sao todos esses grandes movi- dizer que, nO fundo, 0 sistema politico dos romanos tinha mentos de revolta das comunas, que vemos desenvolverem- dois pIanos. Claro, no nivel do governo central, da grande se desde os primeiros Capetos e que acabariio por impor, administrac;ao publica romana, lida-se, pelos menos desde 0 tanto ao poder monirquico quanto a aristocracia, 0 respeito Imperio, com urn poder absoluto. Mas os romanos haviam de seus direitos e, ate certo ponto, suas leis, seu tipo de eco- deixado aos gauleses as liberdades originarias que eram deles. nomia, suas formas de vida, seus costumes, etc. 1550 nos De sorte que a Galia romana e, em certo sentido, uma parte seculos XV e XVI. desse grande imperio absolutista, mas .0 igualmente salpica- Voces estao vendo que dessa vez temos urna tese que, da, penetrada, de toda urna serie de focos de liberdade que muito mais do que as teses anteriores, muito mais ate do sao, no fundo, as velhas liberdades gaulesas ou celticas, que que a de Mably, vai poder ser a tese do terceiro estado, ja que os romanos deixaram intocadas e que vao continuar a fun- e a primeira vez que a historia da cidade, a historia das ins- cionar nas cidades, naqueles famosos municipios do Imperio titui,oes urbanas, a historia lambem da riqueza e de seus romano, cnde, com uma forma que alias e mais ou menos efeitos politicos, vao poder ser articuladas no interior da ana- copiada da velha cidade romana, as liberdades arcaicas, as lise historica. 0 que e feito, ou ao menos esbo,ado, nessa liberdades ancestrais dos gauleses e dos celtas vao continuar historia e urn terceiro estado que se forma nao simplesmen- a funcionar. A liberdade (e e pela primeira vez, acho eu, que te pelas concess6es do rei, mas gray a sua energia, a sua

3s isso aparece nessas analises historicas) .0, pois, urn fenome- riqueza, ao seu comercio, gra<;as a urn direito urbano muito no compativel com 0 absolutismo romano; e urn fen6meno elaborado, copiado em parte do direito' romano, mas igual- gaules, mas e sobretudo urn fenomeno urbano. A liberdade mente articulado com base na antiga liberdade, ou seja, na pertence as cidades. E .0 precisamente na medida em que per- antiga barbarie gaulesa. Desde ja, e pela primeira vez, a ro- tence as cidades que essa liberdade vai poder lular e tomar-se manidade que sempre tivera no pensamento historico e poli- uma for,a politica e historica. Sem duvida, essas cidades tico do seculo XVIII a cor do absolutismo e que sempre es- romanas vao ser destruidas quando se produz a invasao dos tivera do lado do rei, vai colorir-se de liberalismo. E, longe francos e dos germanos. Mas os francos e os germanos, cam- de ser a forma teatral na qual 0 poder monarquico vai refle- poneses nomades, em todo caso barbaros, menosprezam as tir sua historia, a romanidade, gra,as a essas analises de que cidades e se instalam no campo aberto. Portanto, as cidades lhes estou falando, vai ser urn objeto da propria burguesia. se reconstituem, menosprezadas que eram pelos ffarreos, e A burguesia vai poder recuperar a romanidade, sob a forma 248 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 3 DE MARr;O DE 1976 249

do municipio gala-romano, como sendo, de certo modo, seu alto, porquanto se remonta ate a organiza,ao municipal dos foro de nobreza. A municipalidade galo-romana e a nobre- romanos e, finalmente, ate as velhas liberdades gaulesas e za do terceiro estado. E e essa municipalidade, essa forma celticas; formidavel subida para tras. De outro lado, a hist6ria de autonomia, de liberdade municipal, que 0 terceiro estado vai, para baixo, estender-se atraves de todas as lutas, atraves vai reclamar. Tudo isso, e claro, deve ser ressituado no de- de todas as revoltas comunais que, desde a inicio do feuda- bate que ocorreu no seculo XVIII em torno, justamente, das lismo, vao levar ao advento, parcial em todo caso, da bur- liberdades e das autonomias municipais. Remeto voces, par guesia como for,a econ5mica e politica, nos seculos XV e exemplo, ao texto de Turgot que data de 1776 20 . Mas voces XVI. Dai em diante e urn milenio e meio de hist6ria que vai veem que, por essa mesma razao, a romanidade vai poder, se tornar 0 campo do debate hist6rico e politico. 0 fato juri- as vesperas da Revolu,ao, despojar-se de todas as conota- dico e hist6rico da invasao agora se fragmentou completa- ,5es monarquistas e absolutistas que haviam sido suas ao mente, e lidamos com urn imenso campo de lutas generali- longo do seculo XVIII. Vai poder haver uma romanidade li- zadas que cobrem, pois, 1500 anos de hist6ria, com atores beral, a qual, por conseguinte, vai tentar voltar mesmo quem tao variados quanta os reis, a nobreza, 0 clero, os soldados, nao e monarquista, mesmo quem nao e absolutista. Pode-se os oficiais mom\rquicos, 0 terceiro estado, os burgueses, as voltar a romanidade, mesmo quando se e burgues. E voces camponeses, as habitantes das cidades, etc. E urna hist6ria sabem que a Revolu,ao nao se privani disso. que se ap6ia sabre institui,5es como as liberdades romanas

Outra importiincia tambem desse discurso de Brequigny, as liberdades municipais, a Igreja, a educa,ao, a comercio: de Chapsal, etc., e que ele permite, voces estao venda, urn a lingua e assim por diante. Fragmenta,ao geral do campo formidavel alargamento do campo hist6rico. No fundo, com da hist6ria; e e precisamente nesse campo que os historia- os historiadores ingleses do seculo XVII, mas tambem com dores do seculo XIX vao retomar 0 trabalho. Boulainvilliers, partiu-se do pequeno nucleo que era a fato Voces me dido: por que todos esses detalhes, por que da invasao, daquelas algumas decadas, daquele seculo, em essa introdu,ao dessas diferentes titicas no interior do campo todo caso, durante 0 qual as hordas barbaras haviam tornado da hist6ria? E verdade que eu poderia ter, pura e simples- de assalto a Galia. E voces veem que, pouco a pouco, assis- mente, passado diretamente para Augustin Thierry, para timos a todo urn alargamento. Ja se viu, por exemplo, com Montlosier e para todos as que, a partir dessa instrurnenta- Mably, a importancia que tinha urna personagem como Car- ,ao do saber, tentaram pensar 0 fenameno revolucionario. los Magno; como tambem, com Dubos, a analise hist6rica Demorei-me nisso por duas raz6es. Primeiro, por uma razao se havia estendido para as primeiros Capetos e para a feu- de metoda. Como voces estao vendo, pode-se muito bern si- dalismo. E eis que agora, com as analises de Brequigny, de tuar como, a partir de Boulainvilliers, constitui-se urn dis- Chapsal, etc., a foco, 0 dominio do saber historicamente util curso historico e politico cuja area de objetos, cujos ele- e politicamente fecundo vai, de urn lado, estender-se para a mentos pertinentes, cujos conceitos, cujos metodos de ana-

lise sao muito proximos uns dos outros. Formou-se uma

especie de discurso hist6rico no decorrer do seculo XVIII

20. R.-J. Turgot, Memoire sur les municipaliMs, Paris, 1776. que e comum a toda uma serie de historiadores contudo 250 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 3 DE MARr;:O DE 1976 251



muito opostos em suas teses bern como em suas hipoteses regularidade do campo epistemico, e a homogeneidade no ou em seus sonhos politicos. Pode-se perfeitamente, sem modo de forma9ao do discurso, que vai deixa-lo utilizavel ruptura nenhurna, percorrer toda essa rede de proposi90es nas lutas que, quanta a elas, sao extradiscursivas. Era por fundamentais que esteiam cada tipo de analise; todas as essa razao de metodo, portanto, que insisti nessa distribui9ao transforma90es pelas quais se pode passar de urna hist6ria das diferentes tMicas discursivas no interior de urn campo que [louva] os francos (como Mably, como Dubos) para hist6rico-politico coerente, regular e formado de maneira urna hist6ria, ao contrario, da democracia franca. Pode-se muito densa21 . muito bern passar de uma dessas hist6rias para a outra si- lnsisti nisso tambem por outra razao - uma razao de tuando algumas transforma90es muito simples nas propo- fato - que diz respeito ao que se passou no momenta mes- siyoes fundamentais. Ternos, pais, uma trama epistemica mo da Revolu9ao. Trata-se disto: il parte a ultima forma de muito densa de todos os discursos hist6ricos, sejam quais discurso de que acabo de lhes falar (a de Brequigny ou de forem afinal as teses hist6ricas e os objetivos politicos que Chapsal, etc.), voces estao venda que, no fundo, os que eles se proponham. Ora, essa trama epistemica ser tao densa tinham menos interesse em investir seus projetos politicos nao significa de modo algum que todo 0 mundo pense da na hist6ria eram, claro, as pessoas da burguesia ou do tercei- mesma forma. Essa e mesma, pelo contnirio, a condiyao pa- ro estado, porque retornar il constitui9aO, pedir a volta a algo ra que se possa nao pensar da mesma forma, e a condi9ao como urn equilibrio de for9as, implicava de certo modo que para que se possa pensar de uma forma diferente e para que se estivesse seguro de, no interior dessa rela9ao de for9a, essa diferen9a seja politicamente pertinente. Para que os encontrar-se a si mesma. Ora, era bern evidente que 0 ter- diferentes sujeitos falem, possam ocupar posi90es tatica- ceiro estado, a burguesia nao podiam muito, em todo caso an- mente opostas, para que possam, uns em face dos outros, tes de meados da ldade Media, situar-se a si mesmos como encontrar-se em posiy3.o de adversarios, para que, em con- sujeitos hist6ricos nesse jogo de rela90es de for9a. En- seqiiencia, a oposi9ao seja uma oposi9ao tanto na ordem do quanta se interrogavam os merovingios, as carolingios, as saber quanta na ordem da politica, era justamente preciso invasoes francas ou ainda mesmo Carlos Magno, como se que houvesse esse campo muito denso, essa rede muito poderia encontrar algurna coisa que fosse da ordem do ter- densa que regularizasse 0 saber hist6rico. Quanto mais re- ceiro estado ou da burguesia? Dai 0 fato de que a burguesia, gularmente formado e 0 saber, mais e possivel, para os su- contrariamente ao que se diz, foi, no seculo XVlII, certa- jeitos que nele falam, distribuir-se segundo linhas rigorosas mente a mais reticente, a mais relutante il hist6ria. Profun- de afrontamento, e mais e possive! fazer esses discursos, damente, a aristocracia e que foi hist6rica. A monarquia 0 assim afrantados, funcionarem como conjuntos taticos dife- foi, os parlamentares igualmente. Mas a burguesia ficou rentes em estrategias globais (em que nao se trata simples- mente de discurso e de verdade, mas igualmente de poder,

21. Esta passagem e uma pel;a significativa para ser incorporada a de status, de interesses economicos). Em outras palavras, a documental;3.0 do debate e das controversias suscitadas pelo conceito de epis- reversibilidade tatica do discurso depende diretamente da teme, elaborado por Foucault em Les mots et fes choses (op. cit.) e retomado homogeneidade das regras de forma9ao desse discurso. E a em L 'archeofogie du savoir (op. cit.), cap. IV, § VI. 252 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 3 DE MAR!;O DE 1976 253

muito tempo anti-historicista, ou anti-historiadora, se voces guesia, por sua vez, reativou toda uma serie de saberes his-

preferirem. toricos, de certo modo a titulo de replica polemica a multi-

Esse carater anti-historiador da burguesia, nos 0 vemos plicidade das referencias historicas que voces encontram nos

manifestar-se de duas formas. Primeiro, durante toda a pri- Cademos da Nobreza. E depois voces tern uma segunda rea- meira parte do seculo XVIII, a burguesia foi, antes, favora- tiva,ao historica que e, sem duvida, mais importante e mais vel ao despotismo esclarecido, ou seja, a uma certa forma interessante. Era a reativa,ao, na propria Revolu,ao, de certo de modera,ao do poder monarquico, que nao repousava po- nllmero de momentos ou de formas historicas que funciona- rem na historia, mas numa limita,ao devida ao saber, a filo- ram, se voces preferirem, como fatos da historia, cuja volta

sofia, a tecnica, a administra,ao publica, etc. E depois, a ao vocabulario, as institui,oes, aos signos, as manifesta,oes, burguesia, na segunda parte do seculo XVIII, sobretudo an- as festas, etc., permitia dar uma figura visivel a uma Revo- tes da Revolu,ao, tentou escapar ao historicismo ambiente lu,ao compreendida como ciclo e como volta. reclamando uma constitui,ao, que nao fosse justamente uma E foi assim que voces tiveram duas grandes formas his- re-constituic;ao, mas fosse essencialmente, se nao anti-histo- toricas reativadas na Revoluc;ao, a partir mesmo, de eerte rica, pelo menos a-historica. Dai, voces compreendem, 0 re- modo, desse rousseaunismo juridico que fora 0 fio diretor curso ao direito natural, 0 recurso a algo como 0 contrato so- durante muito tempo. De uma parte, reativa,ao de Roma, me- cial. 0 rousseaunismo da burguesia no final do seculo XVIII, lhor, reativa,ao da cidade romana, ou seja, tanto da Roma antes e no inicio da Revolu,ao, era exatamente uma respos- arcaica, republicana e virtuosa, quanta da cidade galo-ro- ta ao historicismo dos outros sujeitos politicos que lutavam mana, com suas liberdades e sua prosperidade: dai a festa nesse campo da teoria e da analise do poder. Ser rousseau- romana, como ritualiza,ao politica dessa forma historica que niano, apelar precisamente ao selvagem, apelar ao contrato, vinha, a titulo de constitui,ao, de certo modo fundamental, era escapar a toda essa paisagem que era definida pelo bar- das liberdades. Outra figura reativada, a figura de Carlos baro, por sua hist6ria e por suas relac;5es com a civilizac;ao. Magno, de quem voces viram 0 papel que the dava Mably e

E claro, esse anti-historicismo da burguesia nao ficou que e tornado como ponto de jun,ao entre as liberdades inalterado; ele nao impediu toda uma rearticula,ao da histo- francas e as liberdades galo-romanas: Carlos Magno, 0 ho- ria. No momento da convoca,ao dos Estados-Gerais, voces mem que convocava 0 povo para 0 Campo de Marte; Carlos veem que os Cademos de Queixas estao cheios de referen- Magno soberano-guerreiro, mas ao mesmo tempo protetor cias hist6ricas, mas as principais delas sao, e 6bvio, as da do comercio e das cidades; Carlos Magno rei germiinico e propria nobreza. E foi simplesmente para responder a mul-

imperador romano. Houve todo urn sonho carolingio que se tiplicidade dessas ref"rencias feitas as capitulares, ao edito de Pistes22 , as praticas merovingias ou carolingias, que a bur-

dou~se da organiz39ao do sistema monetario, ordenou-se a demo1i9ao dos

castelos construidos pelos senhores e concedeu-se a virias cidades 0 direito

22. Num coocHio realizado em Pistes (au Pitres), cujas resolw;:5es tra- de cunhar moeda. A assembleia instruiu tambem 0 processo de Pepino II, rei zero 0 nome de Edito de Pistes, sob a influencia do arcebispo Hincmar, cui- da Aquitania, que foi declarado despojado de seus Estados.

254 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 3 DE MAR90 DE 1976 255

desenvolveu ja no lU1CIO da Revolu,ao, que atravessou a tram assim textos - este e do padre Proyart: "Senhores fran-

Revolu,ao e do qual se fala muito menos do que da festa cos, somos mil contra urn: fomos por bastante tempo vossos

romana. 0 Campo de Marte, a festa de 14 de julho de 1790 vassalos, tarnai-vas os nossos, apraz-nos reaver 0 patrim6-

e uma festa carolingia; ela se passa precisamente no Campo nio de nossos pais."" E isso que 0 padre Proyart queria que

de Marte, e era uma certa rela,ao do povo assim reunido o terceiro estado dissesse Ii nobreza. E Sieyes, em seu famo-

com seu soberano, essa rela,ao de modalidade carolingia, que so texto ao qual eu vollarei da proxima vez, dizia: "Por que

ela permitia, ate certo ponto, reconstituir ou reativar. E, em nao mandar embora para as florestas da Franconia todas essas

todo caso, essa especie de vocabulario historico implicito familias que conservam a louca pretensao de ser oriundas

que esta presente na festa de julho de 1790. E a melhor da ra,a dos conquistadores e de ter herdado direitos de con-

prova disso, alias, e que num clube de jacobinos, em junho quiSla?"26 E, em 1795 ou 1796, nao me lembro mais, Boulay

de 1790, algumas semanas antes da festa, alguem havia pe- de la Meurthe dizia, depois dos grandes movimentos de emi-

dido que Luis XVI fosse, no decorrer dessa festa, destituido gra,ao: "Os emigrados representam os vestigios de uma con-

de seu titulo de rei, que se substituisse esse titulo de rei pelo quista de que a na,ao francesa pouco a pouco libertou-se."27

de imperador, e que se gritasse Ii sua passagem nao "Viva 0 Voces veem que aqui se formou algo que tamb"m vai

rei!" mas "Luis, 0 imperador!", pais, quem e imperador ser importante bern no inicio do seculo XIX, ou seja, a rein-

"imperat sed non regit", comanda mas naD governa, e impe- lerpreta,ao da Revolu,ao Francesa e das lutas politicas e

rador e nao e rei. Cumpria, dizia tal projeto23 , que Luis XVI sociais que a perpassaram, em termo de historia das ra~as.

voltasse do Campo de Marte com a coroa imperial na cabe,a. E e igualmente do lado dessa execra,ao do feudalismo que

E e, claro, no ponto de confluencia desse sonho carolingio se deve por certo recolocar a valoriza,ao ambigua do goti-

(urn pouco desconhecido) com 0 sonho romano que vamos co que vemos aparecer nos famosos romances medievais da encontrar, claro, 0 imperio napoleonico. epoca da Revolu,ao; esses romances que sao a urn so tempo

Outra forma de reativa,ao historica no interior da Re- romances de terror, de pavor e de misterio, mas igualmente ro- vo]u,ao: a execra,ao do feudalismo, daquilo a que Antrai- mances politicos, pois sao sempre narrativas de abuso de gues, nobre aliado Ii burguesia, chamava "0 mais espantoso poder, de extorsoes; e a fabula de soberanos injustos, de se- flagelo com que 0 ceu, em sua colera, pudesse castigar uma na,ao livre"24. Pois bern, essa execra,ao do feudalismo as- sume varias formas. Primeiro, 0 retorno puro e simples da 25. 1.-B. Proyart, Vie du Dauphin pere de Louis XV, Paris/Lyon, 1782,

vol. I, pp, 357-8. Citado in A. Devyver, Le sang epure... , op. cit., p. 370. tese de Boulainvilliers, da tese da invasao. E voces encon-

26. E,-J. Sieyes, Qu 'est-ce que Ie Tiers-Etat?, ed. citada. cap. II, pp. 10·1.

A frase comelVa, no texto, assim: "Por que nao destituiria ele [0 Terceiro Es-

tado]. .."

23. Tratawse de uma m09ao apresentada na sessao de 17 de junho de 27. Cf. A.·I, Boulay de la Meurthe, Rapport presenfe Ie 25 Vendemiaire an 1790 (cf. F.-A. Aulard, La societe des jacobins, Paris, 1889-1897, t. I, p. 153). VI au Conseil des Cinq-Cents sur les mesures d'osfracisme, d'exil, d'expulsion les

24. E. L. H. 1., conde de Antraigues, Memoires sur la constitution des a

plus con venables aux principes de justice et de liberti:, ef les plus propres con- Etats provinciaux, impressa em Vivarois, 1788, p. 61. solider la republique. Citado in A. Devyver, Le sang epure... , op. cit., p. 415.

256 EM DEFESA DA SOCIEDADE

nhores implacaveis e sanguinitrios, de padres arrogantes, etc.

o romance g6tico e um romance de fic,ao cientifica e poli- AULA DE lODE MARC;O DE 1976

tica: fic,ao politica na medida em que se trata de romances

essencialmente centrados no abuso de poder, e de fic,ao

cientifica na medida em que se trata da reativa,ao, no plano Reelaborar;iio politico do ideia de nar;iio no Revolur;i:io:

Sieyes. - Conseqiiencias tearicas e efeitos sabre 0 discurso

do imaginario, de todo urn saber sobre 0 feudalismo, de to-

historico. - as dois gabaritos de inteligibilidade do nova leo-

do um saber sobre 0 g6tico que tem, no fundo, urn seculo de ria: dominar;iio e totalizar;iio. - Montlosier e Augustin Thierry.

idade. Nao foi a literatura, nao foi a imagina,ao que intro- - Nascimento do dialetica.

duziram, no final do seculo XVIII, como uma novidade ou

como um renascimento absoluto esses temas do g6tico e do

feudalismo. Eles se inseriram, de fato, na ordem do imagina-

rio na mesma medida em que esse g6tico e esse feudalismo

foram 0 m6bil de uma luta agora secular no plano do saber e das formas de poder. Muito antes do primeiro romance g6- tlCO, quase um seculo antes, brigava-se em torno do que Eu creio que no seculo XVIII 0 discurso da hist6ria, eram, hist6rica e politicamente, os senhores, seus feudos, seus essencialmente ele e quase s6 ele, e que fizera da guerra 0 poderes, suas formas de domina,ao. Todo 0 seculo XVIII analisador principal, e quase exclusivo, das rela,oes politicas; foi, no plano do direito, da hist6ria e da politica, impregna- o discurso da hist6ria, portanto, e nao 0 discurso do direito, do pelo problema do feudal. E foi somente no momento da e nao 0 discurso da teoria politica (com seus contratos, seus Revolu,ao - portanto um seculo depois desse enorme tra- selvagens, seus homens das pradarias ou das florestas, seus es- balho no plano do saber e no plano da politica - que final- tados da natureza, a luta de todos contra todos, etc.); nao foi mente houve uma reassull9aO, imagimiria, nesses romances isso, foi 0 discurso da hist6ria. Entao, eu gostaria agora de de fic,ao cientifica e politica. Nesse dominio, voces tive- mostrar como, e de uma forma um pouco paradoxal, e a ram entao, por essa razao, 0 romance g6tico; mas tudo isso partir da Revolu,ao que esse elemento da guerra, constitu- deve ser recolocado nessa hist6ria do saber e das tMicas tivo mesmo da inteligibilidade hist6rica do seculo XVIII, vai politicas que ele permite. Pois bem, entiio, da pr6xima vez, ser, se nao eliminado do discurso da hist6ria, pelo menos re- eu lhes falarei da hist6ria como retomada da Revolu,ao. duzido delimitado, colonizado, implantado, repartido, civi-

lizado ~e voces preferirem, e ate certo ponto apaziguado. E

que, afinal de contas, a hist6ria (tal como a havia narrado

Boulainvilliers, ou du Buat-Nan,ay, pouco importa) fizera

surgir 0 grande perigo; 0 grande perigo de que fiquemos

presos numa guerra infindavel; 0 grande perigo de que to-

das as nossas rela,oes, sejam elas quais forem, sejam sem-

pre da ordem da domina,ao. E e esse duplo perigo, da guer- 258 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 10 DE MAR90 DE 1976 259

ra infindavel como pano de fundo da histaria e da rela,ilo posi,ilo era em ultima analise a mais dificil, que tinha mais

da domina,ilo como elemento principial da politica, que vai dificuldade para utilizar 0 discurso da histaria como arrna

ser, no discurso histarico do seculo XIX, reduzido, reparti- no combate politico. Gostaria de Ihes mostrar, agora, como

do em perigos regionais, em episadios transitarios, retrans- veio 0 desbloqueio, nilo, em absoluto, porque a burguesia de

crito em crises e em violencias. Porero mais ainda, acho ell, certo modo se atribuiu ou reconheceu uma histaria, mas a

mais essencialmente, esse perigo vai ser destinado a uma es- partir de algo bern particular que foi a reelabora,ilo nilo his-

pecie de apaziguamento final, nilo no sentido do equilibrio tarica, mas politica, dessa famosa no,ilo de "na,ilo" que a

born e verdadeiro que os historiadores do seculo XVIII ha- aristocracia convertera no sujeito e no objeto da histaria no

viam buscado, mas no sentido de reconcilia,ilo. seculo XVIII. Foi deste papel, ou seja, da reelabora,ilo poli-

Essa inversilo do problema da guerra no discurso da his- tica da na,ilo, da ideia de na,ilo, que se fez uma transforma-

taria, eu nilo creio que seja 0 efeito do transplante ou, de ,ilo que tornou possivel urn novo tipo de discurso hist6rico.

certo modo, do controle assumido por uma filosofia diale" Tomarei, se nilo exatamente como ponto inicial, pelo menos

tica sobre a histaria. Eu creio que houve algo como uma como exemplo dessa transforrna,ilo, evidentemente, 0 famo-

dialetiza,ilo interna, uma autodialetiza,ilo do discurso his- so texto de Sieyes sobre 0 terceiro estado, texto que, como

torico que corresponde, e claro, ao seu emburguesamento. voces sabem, formula as tres quest5es: "Que e 0 Terceiro Es-

E 0 problema seria saber como, a partir desse deslocamen- tado? Tudo. Que ele foi ate agora na ordem politica? Nada.

to (se nilo dessa decadencia) do papel da guerra no discurso o que ele exige ser? Tornar-se alguma coisa nela."l Texto

histarico, essa rela,ilo de guerra dominada assim no interior ao mesmo tempo famoso e desgastado, mas que, creio eu,

do discurso histarico vai reaparecer, mas com urn papel ne- quando 0 olhamos urn pouco mais de perto, traz certo nu-

gativo, de certo modo exterior: urn papel nilo mais constitu- mero de transforma,5es essenciais. tivo da histaria, mas protetor e conservador da sociedade; a A propasito da na,ilo (volto a coisas ja ditas para resu- guerra nilo mais como condi,ilo de existencia da sociedade mi-Ias), voces sabem que, em linhas gerais, a tese da mo- e das rela,5es politicas, mas condi,ilo de sua sobrevivencia narquia absoluta era a de que a na,ilo nilo existia, ou de que em suas relayoes politicas. Vai aparecer, nesse momento, a pelo menos, se existia, ela sa podia existir na medida em ideia de uma guerra interna como defesa da sociedade con- que encontrava sua condi,ilo de possibilidade, e sua unida- tra os perigos que nascem em seu praprio corpo e de seu de substancial, na pessoa do rei. Ha na,ilo nilo porque ha pr6prio corpo; e, se voces preferirem, a grande reviravolta urn grupo, uma multidilo, urna multiplicidade de individuos do histarico para 0 biolagico, do constituinte para 0 medico que habitariam numa terra, que teriam a mesma lingua, os no pensamento da guerra social. mesmos costumes, as mesrnas leis. Nao e isso que faz a nayao.

Entao, hoje, eu vou tentar descrever esse movimento o que faz a na,ilo e que hi individuos que, uns ao lado dos de autodialetiza,ilo e, por conseguinte, de emburguesamen- DutrOS, nao sao mais do que individuos, nao formam sequer to, da histaria, do discurso histarico. Eu tentei lhes mostrar, da ultima vez, como e por que, no campo hist6rico-politico que fora constituido no seculo XVIII, era a burguesia, cuja 1. E.-J. Sieyes, Qu 'esf-ce que Ie Tiers.Etat?, ed. citada, p. 1.

260 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 10 DE MARt:;O DE 1976 261

urn conjunto, mas tern, todos, cada qual individualmente, uma quer e necessario que haja urn governo. Antes mesmo da for-

certa rela91io, a urn so tempo juridica e fisica, com a pessoa ma91io de qualquer governo, antes do nascimento do sobe-

real, viva, corporal do rei. E 0 corpo do rei, em sua rela91io rano, antes da delega91io do poder, a na91io existe, contanto

fisico-juridica com cada urn de seus suditos, que faz 0 corpo que ela se tenha atribuido uma lei comum, por meio de uma

da na9ao. Urn jurista do final do seculo XVII dizia: "cada instancia que ela qualificou para atribuir as leis e que e pre- particular representa urn s6 individuo em relayao ao rei"*. cisamente a legislatura. Logo, a na91io e muito menos do que A na91io n1io forma corpo. Ela reside por inteiro na pessoa do requeria a defini91io da monarquia absoluta. Mas e, por outro rei. E e dessa na91io - mero efeito juridico, de certo modo, do lado, muito mais do que 0 exigido pela defini91io da rea91io corpo do rei, que so tinha sua realidade na realidade linica e nobiliaria. Para esta, para a historia tal como a escrevia Bou- individual do rei - que a rea91io nobiliiria havia tirado urna lainvilliers, bastava, para que houvesse uma na91io, que hou- multiplicidade de "na90es" (ao menos duas, em todo caso); e, vesse homens agrupados por urn certo interesse, e que houves- a_partir dai, ela havia estabelecido, entre essas na90es, rela- se entre eles urn certo llUmero de coisas em cornuro, como 90es de guerra e de domina91io; fizera 0 rei passar para 0 lado os costumes, os Mbitos, eventualmente uma lingua. dos instrumentos de guerra e de domina91io de urna na91io so- Para que haja uma na91io, segundo Sieyes, deve haver, bre a outra. N1io e 0 rei que constitui a na91io; e urna na91io que portanto, leis explicitas e instancias que as formulem. 0 par se atribui urn rei precisamente para lutar contra as outras lei-legislatura e a condi9ao formal para que haja na91io. Mas na90es. E essa historia, escrita pela rea91io nobiliiria, fizera essa e apenas a primeira etapa da defini91io. Para que uma dessas rela90es a trama da inteligibilidade historica. na9ao subsista, para que sua lei seja aplicada, para que sua

Com Sieyes, vamos ter urna defini91io totalmente dife- legislatura seja reconhecida (e isto n1io so no exterior, pelas rente, ou melhor, urna defini91io desdobrada, da na91io. De outras na90es, mas no interior mesmo), para que ela subsis- urna parte, urn estado juridico. Sieyes diz que para que haja ta e prospere como condi91io n1io mais formal de sua exis- uma nac;ao sao necessanas duas coisas: uma lei cornUID e urna tencia juridica, mas como condi91i0 historica de sua existen- legislatura'. E isso quanto ao estado juridico. Esta primeira cia na historia, eprecise Dutra coisa, e precise outras condi- defini91io da na91io (ou melbor, de urn primeiro conjunto de 90eS. E e nestas condi90es que Sieyes se detem. S1io as con- condi90es necessirias para que a na91io exista) exige portanto, di90es de certo modo substanciais da na91io, e Sieyes ve para que se possa falar da na91io, muito menos do que exigia dois grupos delas. Acima de tudo, 0 que ele denomina "tra- a defini91io da monarquia absoluta. Isto quer dizer que, para balhos", ou seja, primeiro a agricultura, segundo 0 artesana- que haja na91io, n1io e necessario que haja urn rei. Nem se- to e a industria, terceiro 0 comercio, quarto as artes liberais.

Porem, aIem desses "trabalhos", e precise 0 que ele deno-

mina "fun90eS": e 0 exercito, e a justi9a, e a Igreja e e a

* Manuscrito, antes de "cada particular": "0 rei representa a nal;.3.0 administra91io publicaJ . "Trabalhos" e "fun90es": diriamos, int~ira e". Esta passagem e dada como citada in P. E. Lemontey, (Euvres, Pans, t. Y, 1829, p. 15.

2. "Vma lei comum e uma representalVao comum, e isso que faz uma 3. "Que e precise para que uma Na<;:ao subsista e prospere? Trabalhos Nal;ao" (ibid., p. 12). particulares e fuo<;:oes publicas" (ibid., p. 2: cf. cap. I, pp. 2-9). 262 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 10 DE MAR!;O DE 1976 263

decerto com mais verossimilhan~a, "fun~5es" e "aparelhos" Uma na~ao so pode existir como na~ao, so pode entrar e para designar esses dois conjuntos de requisitos histaricos subsistir na hist6ria, se e capaz de comercio, de agricultura, da na~ao. Mas 0 importante e precisamente que seja nesse de artesanato; se tem individuos suscetiveis de formar urn nivel de fun~5es e de aparelhos que sejam definidas as con- exercito, urna magistratura, urna igreja, urna administra~ao di~5es da existencia histarica da na~ao. Ora, fazendo isso, publica. Isto quer dizer que urn grupo de individuos pode acrescentando a essas condi~5es juridico-formais da na~ao, sempre reunir-se, pode sempre atribuir-se leis e urna legis- condi~5es histarico-funcionais, eu creio que Sieyes inverte latura; pode atribuir-se uma constitui~ao. Se ele nao tem (e e a primeira coisa que se pode assinalar) a dire~ao de tadas essas capacidades de praticar 0 comercio, 0 artesanato, a as analises que haviam sido feitas ate entao, seja no sentido agricultura, de formar urn exercito, uma magistratura, etc., da tese monarquista, seja nurna dire~ao do tipo rousseauniana. jamais ele sera, historicamente, uma na<;3.o. Ele 0 sera, tal-

Com efeito, enquanto havia reinado a defmi~ao juridica vez, juridicamente, mas nunca historicamente. Nunca e0 da na~ao, no fundo esses elementos que Sieyes isola como contrato, nem a lei, nem 0 consenso, que podem ser real- condi~ao substancial da na~ao - a agricultura, 0 comercio, mente criadores de na~ao. Mas, inversamente, pode perfei- a industria, etc. - 0 eram? Nao eram a condi~ao para que a tamente acontecer que urn grupo de individuos tenha com nar;ao existisse; erarn, ao contnirio, 0 efeito da existencia que, tenha a capacidade historica de formar seus trabalhos, da na~ao. Era precisamente quando os homens, distribuidos de exercer suas fun~5es, apesar de jamais ter recebido urna individualmente na superficie da terra, no limite da floresta lei comurn e uma legislatura. Elas estarao, de certo modo, ou nas pradarias, queriam desenvolver sua agricultura, ter essas pessoas, de posse dos elementos substanciais e fun- urn comercio, pader ter entre si re1ac;oes de tipo economica, cionais da na~ao; nao estarao de posse de seus elementos que se atribuiam urna lei, urn Estado ou urn govemo. Isto quer fonnais. Serao capazes de na<;ao; nao serao uma nac;ao. dizer que todas essas fun~5es so eram, na realidade, da ordem Ora, a partir dai, pode-se analisar - 0 que Sieyes faz - da conseqiiencia ou, em todo caso, da ordem da finalidade, o que se passa na Fran~a no final do seculo XVlII, segundo em compara~ao a constitui~ao juridica da na~ao; e era apenas ele. Ha, de fato, uma agricultura, urn comercio, urn artesa- quando essa organiza~ao juridica da na~ao estava adquirida nato, artes liberais. Quem garante essas diferentes fun~5es? que essas fun~5es podiam manifestar-se. Quanto aos apare- o terceiro estado, e 0 terceiro estado somente. Quem faz fun- Ihos - como 0 exercito, a justi~a, a administra~ao publica, cionar 0 exercito, a igreja, a administra~ao publica, ajusti~a? etc. -, eles tampouco eram a condi~ao para que a na~ao exis- E claro, em certos cargos importantes, encontram-se pes- tisse; eram, se nao os efeitos dela, pelo menos seus instrumen- soas que pertencem a aristocracia, mas, em nove decimos tos e sua garantia. Uma vez constituida a na~ao e que se podia desses aparelhos, e 0 terceiro estado, segundo Sieyes, que ga- atribuir-se algo como urn exercito ou urna justi~a. rante seu funcionamento. Em compensal;ao, esse terceiro

Ora, voces estao vendo que Sieyes inverte a analise. Faz estado que, efetivamente, assume em si as condi~5es subs- esses trabalhos e essas fun~5es, ou essas fun~5es e esses tanciais da na~ao, nao recebeu 0 estatuto formal delas. Nao aparelhos, passarem antes da na~ao - antes, se nao historica- hi na Fran~a leis comuns, mas uma serie de leis das quais mente, pelo menos na ordem das condi~5es de existencia. umas se aplicam anobreza, outras ao terceiro estado, outras 264 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 10 DE MAR(:O DE 1976 265

ao clero, etc. Nao hi leis comuns. Nao ha legislatura tam- deveria, de direito, coincidir com 0 Estado. 0 terceiro esta- pouco, porque as leis ou as ordena,Des sao fixadas por urn do e urna na,ao completa. 0 qU(l constitui a na,ao esta nele. sistema que Sieyes chama "aulico"4, 0 sistema da corte, ou Ou ainda, se quisermos traduzir essas mesmas proposi,Des seja, do arbitrio monarquico. de Dutra maneira: "Tuda 0 que e nacional e nossa", diz 0

Dessa analise, creio que se pode tirar certo nllinero de terceiro estado, "e tudo 0 que e nosso e nac;ao"6. conseqiiencias. Vmas, e claro, sao de ordem imediatamente Essa formula,ao politica, da qual Sieyes nao e 0 inven- politica. Sao imediatamente politicas nisto: e que, como se tor nem 0 tinico formulador, vai, claro, ser a matriz de todo vi" a Fran,a nao e urna na,ao,ja que the faltam as condi,Des urn discurso politico que, como voces bern sabem, ainda formais, juridicas, da na,ao; leis comuns, legislatura. E, no nao esta esgotado agora. A matriz desse discurso politico entanto, ha na Franc;a "uma" nac;ao, isto e, urn grupo de in- apresenta, ereio eu, duas caracteristicas. Primeiro, certa rela- dividuos que trazem em si a capacidade de garantir a exis- ,ao nova da particularidade com a universalidade, uma certa tencia substancial e historica da na,ao. Essas pessoas sao rela,ao que e exatamente 0 inverso daquela que havia ca- portadoras das condi,Des historicas de existencia de urna racterizado 0 discurso da rea,ao nobiliaria. No fundo, a rea- na,ao e da na,ao. Dai a formula central do texto de Sieyes, ,ao nobiliaria fazia 0 que? Ela extraia do corpo social, cons- que so se pode compreender precisamente numa compara- tituido pelo rei e seus suditos, ela extraia da unidade monar- ,ao polemica, explicitamente polemica, com as teses de Bou- quica urn certo direito singular, selado pelo sangue, afirmado lainvilliers, de du Buat-Nan,ay, etc., e que e: "0 Terceiro na vitoria: 0 direito singular dos nobres. E ela pretendia, seja Estado e uma na,ao completa."5 Essa formula quer dizer 0

qual for a constitui,ao do corpo social que a rodeava, guar- seguinte: esse conceito de nac;8.o, que a aristocracia quisera

dar para a nobreza 0 absoluto e singular privilegio desse di- reservar para urn grupo de individuos que so tinham para si

reito; portanto, extrair, da totalidade do corpo social, esse algo como costumes e urn estatuto comuns, nao e suficien-

direito particular e faze-Io funcionar em sua singularidade. te para cobrir 0 que e a realidade historica da na,ao. Mas,

Aqui, vai se tratar de coisa muito diferente. Vai se tratar de por outro lade, 0 conjunto estatal constituido pelo reino da

dizer, ao contrario (e 0 que 0 terceiro estado vai dizer): "Nao Fran,a nao e realmente urna na,ao, na medida em que nao

passamos de uma na,ao entre outros individuos. Mas essa abrange exatamente as fun,Des historicas que sao necessa-

na,ao que nos constituimos e a tinica que pode constituir rias e suficientes para constituir urna na,ao. Onde vamos

efetivamente a na~ao. Talvez nao sejamos, nos sozinhos, a encontrar, por conseguinte, 0 Dueleo hist6rico de uma nac;ao,

totalidade do corpo social, mas somos capazes de trazer co- que sera "a" nac;ao? No terceiro estado, e no terceiro estado

nosco a fun,ao totalizadora do Estado. Somos suscetiveis somente. Por si so, 0 terceiro estado e condi,ao historica da

de universalidade estatal." E entao, segunda caracteristica existencia de uma nac;ao, mas de urna na<;ao que, voces veem,

a

6. "0 Terceiro abarca tudo quanta pertence nayao; e tudo quanto nao



4. Cf. ibid., cap. II, p. 17. e0 Terceiro nao pode ser visto como sendo da nayao. Que e 0 Terceiro?

5. Cf. ibid., cap. I, p. 2. Tudo" (ibid., p. 9). 266 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 10 DE MARC;;O DE 1976 267

desse discurso, vamos ter uma inversao do eixo temporal da mais forte quanto mais capacidades estatais ela detiver, em

reivindicayao. Dai em diante, nao e em nome de urn direito relayao a ela. Isto quer dizer tambem que a peculiaridade de

passado, estabelecido quer por urn consenso, quer por uma urna nayao nao e tanto dominar as outras. 0 que vai consti-

vitoria, quer por uma invasao, que vai se articular a reivin- tuir 0 essencial da funyao e do papel hist6rico da nayao nao

dicayao. A reivindicayao vai poder se articular a partir de sera exercer sabre as outras nac;oes uma relac;ao de domina-

urna virtualidade, de urn futuro, de urn futuro que e iminente, 9aO; sera alga diferente; sera administrar a si mesma, gerir,

que ja esta presente no presente, pois se trata de urna certa govemar, assegurar, por si, a constituic;ao e 0 funcionamen-

funyao de universalidade estatal, ja assegurada por "uma" to da figura e do poder estatais. Nao dominayao, mas esta-

nayao dentro do corpo social, a qual, em nome disso, exige tizayao. A nayao ja nao e, portanto, essencialmente urn par- que seu estatuto de nayao unica seja efetivamente reconbe- ceiro em relayoes barbaras e belicosas de dominayao. A na- cido, e reconbecido na forma juridica do Estado. yao e 0 nucleo ativo, constitutivo, do Estado. A nayao e0 Es-

Ai esm, se voces quiserem, 0 que se refere as conseqiien- tado ao menos em pontilhado, e 0 Estado na medida em que cias politicas deste tipo de anilise e de discurso. Vamos ter ele esta nascendo, formando-se e encontrando suas condi- conseqiiencias te6ricas tambem, que sao as seguintes. Voces yoes hist6ricas de existencia num grupo de individuos. estao vendo que 0 que define, nessas condiyoes, uma nayao Ai esHlo, se voces quiserem, as conseqiiencias teoricas nao e seu arcaismo, sua ancestralidade, sua relac;ao com 0 no nivel daquilo que se entende por nayao. Conseqiiencias passado; e sua relayao com alguma coisa diferente, sua rela- agora para 0 discurso hist6rico. 0 que vamos ter, agora, eurn yao com 0 Estado. Isso quer dizer varias coisas. Primeiro, discurso hist6rico que reintroduz, e ate certo ponto recolo- que a nayaa se especifica nao essencialmente em compara- °

ca em seu centro, problema do Estado. E, nisso, vamos ter C;aa a outras nac;oes. 0 que caracteriza "a" nayaa DaD e uma urn discurso hist6rico que, ate certo ponto, se aproximara relayao horizontal com outros grupos (que seriam nayoes daquele discurso hist6rico tal como existia no seculo XVII, diferentes, nayoes adversas, opostas oujustapostas). 0 que e do qual tentei lhes mostrar que era, essencialmente, uma vai caracterizar a na<;3o e uma relac;ao, ao contnirio, verti- certa maneira, para 0 Estado, de fazer urn discurso sobre si cal, que vai desse corpo de individuos, suscetiveis de cons- mesmo. Esse discurso que tinba funyoes justificadoras, li- tituir urn Estado, ate a existencia efetiva do pr6prio Estado. rurgicas: era 0 Estado narrando seu pr6prio passado, ou seja, E ao longo desse eixo vertical nayao/Estado, ou virtualida- estabelecendo sua pr6pria legitimidade, e fortalecendo-se, de estatallrealidade estatal, que a nayao vai ser caracterizada de certo modo, no plano de seus direitos fundamentais. Era e situada. Isto quer dizer tambem que 0 que constitui a forya isso 0 discurso da hist6ria no seculo XVII ainda. Foi contra de urna nayao nao e tanto seu vigor fisico, suas aptidoes ele que a reayao nobiliaria havia lanyado seu petardo, e esse militares, de certo modo sua intensidade barbara, que os tipo de discurso hist6rico, no qual a nayao era, precisamente, historiadores nobiliirios do inicio do seculo XVIII quise- aquilo com 0 que se podia decompor a unidade estatal e mos- ram descrever. 0 que constitui agora a forya de uma nayao trar que, sob a aparencia formal do Estado, existiam outras e algo como capacidades, virtualidades que, todas elas, se foryas que, justamente, nao eram as foryas do Estado, mas ordenam na figura do Estado; uma nayao sera forte, tanto as foryas de urn grupo particular, que tinba sua hist6ria par- 268 EM DEFESA DA SOC/EDADE AULA DE /0 DE MARr;:O DE /976 269

ticular, sua rela<;ao com 0 passado, suas vit6rias, seu sangue, sera substituida por uma luta que e, de certo modo, de outra

suas rela,5es de domina,ao, etc. subsmncia: nao urn enfrentamento arrnado, mas urn esfor,o,

Agora, vamos ter urn discurso da historia que se apro- uma rivalidade, uma tensao direcionada para a universalida-

xima do Estado e que ja nao sera, em suas fun,5es essen- de do Estado. 0 Estado e a universalidade do Estado e que

ciais, antiestatal. Mas, nessa nova historia, nao se tratani de vao ser, a urn so tempo, 0 mobil e 0 campo de batalha da

fazer 0 Estado enunciar urn discurso que sera 0 dele proprio luta; em conseqiiencia, luta que, na mesma medida em que

e 0 de sua justifica,ao. Vai se tratar de fazer a historia das nao tera como finalidade e como expressao a domina,ao,

rela,5es que se tramam eternamente entre a na,ao e 0 Es- mas tera como objeto e espa,o 0 Estado, sera essencialmente

tado, entre as virtualidades estatais da na,ao e a totalidade civil. Ela vai se desenrolar essencialmente atraves e em di-

efetiva do Estado. Isso permite escrever urna historia que, re,ao da economia, das institui,5es, da produ,ao, da admi-

claro, nao sera derivada do circulo da revolu,ao e da recons- nistra,ao. Vamos ter uma luta civil, em compara,ao it qual titui,ao, da volta revolucionadora it ordem primitiva das coi- a luta militar, a luta sangrenta, so pode ser urn momento

sas, como era 0 caso no seculo XVII. Mas vamos ter, agora, excepcional, ou uma crise, ou urn episodio. A guerra civil, ou poderemos ter, urna historia do tipo retilineo, em que 0 longe de ser 0 pano de fundo de todos os enfrentamentos e momento decisivo sera a passagem do virtual para 0 real, a das lutas, nao passara, de fato, de urn episodio, de uma fase passagem da totalidade nacional para a universalidade do Es- de crise, em compara<;ao a uma luta que agora vai ser preci- tado, uma historia, por conseguinte, que estara polarizada so considerar em termos DaD de guerra, nao de domina<;ao, para 0 presente e para 0 Estado ao mesmo tempo; urna his- nao em termos militares, mas em termos civis. toria que culmina nessa iminencia do Estado, da figura total, E eu acho que e ai que se coloca uma das quest5es fun- completa e plena do Estado no presente. E isto vai permitir damentais da historia e da politica, nao somente do seculo tambem - segunda coisa - escrever urna historia em que a XIX, mas ainda do seculo XX. Como se pode compreender rela,ao das for,as que sao postas em jogo nao sera urna re- uma luta em terrnos propriamente civis? Isso que chamamos la,ao do tipo guerreiro, mas urna rela,ao do tipo inteiramen- a luta, a luta economica, a luta politica, a luta pelo Estado, te civil, se voces quiserem. pode ser efetivamente analisado em termos nao guerreiros,

Eclaro, na analise de Boulainvilliers, eu tentei Ihes mos- em termos propriamente economico-politicos? Ou devemos trar como 0 enfrentamento das na,5es nurn mesmo corpo descobrir, por tras disso, algo queOseria, justamente, 0 pano social se dava por intermedio de institui,5es (da economia, de fundo indefinido da guerra e da domina,ao, que os his- da educa,ao, da lingua, do saber, etc.). Mas essa utiliza,ao toriadores do seculo XVIII haviam tentado assinalar? Em das institui,5es civis estava ali apenas a titulo de instrumen- todo caso, a partir do seculo XIX e a partir dessa redefini- to para urna guerra que continuava a ser fundamentalmente ,ao da no,ao de na,ao, teremos uma historia que vai procu- urna guerra; eram apenas os instrurnentos de urna domina,ao rar, de encontro ao que se fazia no seculo XVIII, 0 pano de que continuava a ser sempre urna domina,ao de tipo guer- fundo civil da luta dentro do espa,o do Estado que deve subs- reiro, do tipo da invasao, etc. Vamos agora, ao contrario, ter tituir 0 pano de fundo guerreiro, militar, sangrento, da guer- uma historia em que a guerra - a guerra para a domina,ao - ra que os historiadores do seculo XVIII haviam assinalado. 270 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE lODE MARr;O DE 1976 271

Ai esta, se voces quiserem, 0 que diz respeito as condi- a Fran9a continha dois povos, urn povo vencedor e urn povo ,oes de possibilidade desse novo discurso historico. Concre- vencido"9. Temos mesmo, portanto, ainda nesse momento, lamente, qual forma in1 assumir essa nova historia? Eu creio o mesmo ponto inicial, 0 mesmo gabarito de inteligibilidade que, se quisermos situa-la de uma forma global, podemos do seculo XVIII. dizer que ela vai se caracterizar pelo jogo, pelo ajustamento, Mas, a esse primeiro gabarito, acrescenta-se urn outro, de dois gabaritos de inteligibilidade que se justapoem, se que completa e inverte ao mesmo tempo essa dualidade ori- entrecruzam, ate certo ponto, e se corrigem reciprocamente. ginaria. E um gabarito que, em vez de funcionar a partir de o primeiro e 0 gabarito de inteligibilidade que havia sido um ponto de origem que seria a primeira guerra, a primeira constituido e utilizado no seculo XVIII. Isto quer dizer que, invasao, a primeira dualidade nacional, funciona, ao contnirio, na historia tal como vamos ve-la escrita por Guizot, Augus- regressivamente, a partir do presente. Esse segundo gabari- tin Thierry, Thiers, Michelet tambem, vai se propor, no ini- to e precisamente aquele que foi tornado possivel pela ree- cio, uma rela,ao de for,a, uma rela,ao de luta, e isto na pro- labora,ao da ideia de na,ao. 0 momento fundamental ja pria for,a que the reconheciam ja no seculo XVIII: ou seja, nao e a origem, 0 ponto inicial da inteligibilidade, nao e 0 a guerra, a batalha, a invasao, a conquista. Os historiadores, elemento arcaico; e, ao contr:irio, 0 presente. E temos ai, acho digamos, do tipo ainda aristocratico como Montlosier7 (mas eu, urn fenomeno importante, que e a inversao do valor do tambem Augustin Thierry, mas tambem Guizot) se propoem presente no discurso historico e politico. No fundo, na his- sempre essa luta como matriz, se voces quiserem, de uma

toria e no campo historico-politico do seculo XVIII, 0 pre- historia. A. Thierry, por exemplo, diz: "Acreditamos ser uma

sente era sempre 0 momenta negativo, era sempre algo oco, na<;ao, e somas duas na<;oes na mesma terra, duas na<;oes

calma aparente, esquecimento. 0 presente era 0 momenta em inimigas em suas recorda90es, inconciliaveis em seus pro-

que, atraves de uma por,ao de deslocamentos, de trai,oes, jetos: uma outrora conquistou a outra." E, claro, alguns dos

de modifica,oes das rela,oes de for,a, 0 estado primitivo de senhores passaram para 0 lado dos vencidos, mas 0 resto, au seja, aqueles que continuaram a ser as senhores, 0 resto, guerra havia sido como que embaralhado e achava-se irre- "tao alheio a nossas afei,oes e a nossos costumes quanta se conhecivel; nao so irreconhecivel, mas profundamente es- tivesse chegado ontem entre nos, tao surdo a nossas palavras quecido mesmo por aqueles que teriam tido proveito, porem, de liberdade e de paz quanta se nossa linguagem the fosse em utiliza-Io. A ignorancia dos nobres, sua distra,ao, sua desconhecida, como a linguagem de nossos antepassados 0 pregui,a, sua avidez, tudo isso fizera que eles tivessem es-

a era dele, 0 resto segue seu caminho sem se preocupar com quecido a rela,ao de for,a fundamental que definia a rela- o nosso"8 E Guizot diz tambem: 'OM mais de treze seculos, ,ao deles com os outros habitantes de suas terras. E, alem

disso, 0 discurso dos c1erigos, dos juristas, dos administra-

dores do poder monarquico, havia encoberto essa rela,ao de

7. F. de Reynaud, conde de Montlosier, De fa monarchie franraise depuis son etablissement jusqu'a nosjours. Paris, 1814, vol. I-III.

8. A. Thierry, "Sur l'antipathie de race qui divise la nation fraol;aisc", Le censeur europeen, 2 de abril de 1820, compilado in Dix ans d'eludes histo- 9. Cf. F. Guizot, Du gouvernement de fa France depuis fa Restauration riques, Paris, 1835, p. 292. et du ministere aCluel, Paris, 1820, p. I. 272 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 10 DE MARr;:O DE 1976 273

for,a inicial, de sorte que 0 presente era, para a historia do menos, entrecruzam-se parcialmente em suas fronteiras. Te-

seculo XVIII, sempre 0 momenta do profundo esquecimento. mos, no fundo, urna hist6ria que e escrita, de urn lado, em for-

Dai a necessidade de sair do presente por urn despertar, vio- ma de domina,ao - tendo, como segundo plano, a guerra -

lento e subito, que devia passar, primeiro e acima de tudo, e, de outro lado, em forma de totaliza,ao - tendo, do lado pela grande reativa,ao do momenta primitivo na ordem do do presente, na iminencia, em todo caso, daquilo que se pas-

saber. Despertar da consciencia, a partir desse ponto de es- sou e daquilo que se vai passar, a emergencia do Estado. quecimento extremo que era 0 presente. Portanto, urna historia que se escreve, a urn s6 tempo, em

Ao contrario, agora, no gabarito de inteligibilidade da termos de come,o dividido e em termos de conclusao tota- historia, a partir do momenta em que a historia e polarizada lizadora. E eu creio que 0 que define a utilidade, a utiliza- pela rela,ao na,ao/Estado, virtualidade/atualidade, totalida- bilidade politica do discurso hist6rico e a maneira no fundo de funcional da na,aoluniversalidade real do Estado, voces pela qual se faz funcionar, urn em rela,ao ao outr~, esses ga: veem bern que 0 presente vai ser 0 momento mais cheio 0 baritos; a maneira pela qual se vai privilegiar urn ou 0 outro. momento da maior intensidade, 0 momenta solene em q~e Em linhas gerais, 0 privilegio concedido ao primeiro se faz a entrada do universal no real. Esse ponto de contato gabarito de inteligibilidade - 0 do come,o dilacerado - vai do universal e do real num presente (urn presente que acaba fomecer uma hist6ria que diremos, se voces concordarem, de suceder e que vai suceder), na iminencia do presente, e reacionaria, aristocrMica, de direita. 0 privilegio concedido isso que Ihe vai dar, a urn s6 tempo, 0 valor, a intensidade, ao segundo - ao momenta presente da universalidade - vai e que vai constitui-lo como principio de inteligibilidade. 0 fornecer uma hist6ria que sera uma hist6ria do tipo liberal presente ja nao e 0 momenta do esquecimento. 13, ao con- ou burguesa. Mas, de fato, nenhuma dessas duas hist6rias trario, 0 momenta em que vai brilhar a verdade, aquele em cada qual com sua posi,ao tMica pr6pria, podera eximir-s~ que 0 obscuro, ou 0 virtual, vai revelar-se em plena luz. 0 de utilizar, de urna maneira ou de outra, os dois gabaritos. que faz que 0 presente se tome, ao mesmo tempo, revelador Eu gostaria, para tanto, de Ihes dar dois exemplos: urn ex- e analisador do passado. traido de uma historia tipicamente de direita, tipicamente

Eu ereio que a hist6ria, tal como a vemos funcionar no aristocratica, que, ate certo ponto, trilhava a linha direta da- seculo XIX, ou pelo menos na primeira metade do seculo quela do seculo XVIII, mas que, de fato, a desloca conside- XIX, utiliza os dois gabaritos de inteligibilidade: aquele que ravelmente e faz, apesar de tudo, que funcione 0 gabarito de se estende a partir da guerra inicial, que vai atravessar todos inteligibilidade que se estende a partir do presente. 0 outro os processos historicos e que os anima em todos os seus de- sera urn exemplo inverso: ou seja, nurn historiador conside- senvolvimentos; e tarnhem outro gabarito de inteligibilida- rado liberal e burgues, mostrar 0 jogo desses dois gabaritos, de que vai remontar da atualidade do presente, da realiza- e mesmo desse gabarito de inteligibilidade a partir da guer- ,ao totalizadora do Estado, ao passado, que reconstitui sua ra, que nao e porem, para ele, absolutamente privilegiado. genese. De fato, esses dois gabaritos nunca funcionam urn o primeiro exemplo, portanto: uma hist6ria do tipo de sem 0 outro: sempre sao utilizados quase em concorrencia, direita, aparentemente dentro da linha da rea,ao nobiliaria do vaa sempre urn de encontro ao outro, sobrepoem-se mais ou seculo XVIII, e aquela que foi escrita no inicio do seculo

274 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 10 DE MARC;:O DE 1976 275

XIX por Montlosier. Nurna historia como essa encontra- XVIII. Montlosier fala de uma rela9ao de domina9ao que

mos, no inicio, urn privilegio das rela90es de domina9ao: e resulta de urna guerra, claro, ou melhor, de urna multiplici-

sempre essa rela9ao da dualidade nacional, essa rela9ao de dade de guerras, que ele nao procura, no fundo situar. E diz: domina9ao caracteristica da dualidade nacional, que vamos o essencial nao e tanto 0 que se passou na hora da invasao encontrar ao longo de toda a historia. E 0 livro, os livros de dos francos, porque, na verdade, as rela90es de domina9ao Montlosier sao salpicados de invectivas do seguinte genero, existiam muito antes e sao muito mais multiplas do que isso. que ele dirige ao terceiro estado: "Ra9a de libertos, ra9a de Na GaIia, bern antes mesmo da invasao romana, ja havia urna escravos, povo tributario, licen9a vos foi outorgada para ser- rela9ao de domina9ao entre uma nobreza e urn povo que era des livres, mas nao para serdes nobres. Para nos tudo e de tributario. Esse era 0 resultado de urna guerra antiga. as ro- direito, para vos tudo e de favor. Nao somos de vossa comu- manos chegaram, trazendo sua guerra consigo, mas trazen- nidade, somas urn todo por nos mesmos." E, at tambem, vo- do igualmente urna rela9ao de domina9ao entre sua aristo- ces encontram 0 famoso tema de que eu lhes falava a propo- cracia e as pessoas que nao passavam de clientes desses ricos, sito de Sieyes. No mesmo sentido, Jouffroy escrevia numa desses nobres ou desses aristocratas. E, ai tambem, rela9ao revista qualquer (nao sei mais qual) urna frase como esta: de domina9ao resultante de uma velha guerra. E depois che- "A ra9a setentrional se apoderou da Galia sem dela extirpar garam os germanos com sua propria rela9ao intema de su- os vencidos; ela legou aos seus sucessores as terras da con- jei9ao entre os que eram guerreiros livres e os outros que quista para govemar, e os homens da conquista para reger." 10 nao passavam de suditos. Portanto, afinal, 0 que se consti-

A dualidade nacional e afirmada por todos esses histo- tuiu no inicio da Idade Media, na aurora do feudalismo, nao riadores que sao, grosso modo, emigrados, que voltam a foi a sobreposi9ao pura e simples de urn povo vencedor e de Fran9a e reconstituem de certo modo, no momenta da rea- urn povo vencido, mas a mescla de tres sistemas de dornina9ao 9ao ultra, uma especie de momento privilegiado da invasao. intema; 0 dos gauleses, 0 dos romanos e 0 dos germanos 11 . Mas, olhando-a mais de perto, a analise de Montlosier fun- No fundo, a nobreza feudal da Idade Media nao e mais que ciona de modo muito diferente daquele que se via no seculo a mescla dessas tres aristocracias, que se constituiram nurna

nova aristocracia e exerceram urna rela9ao de domina9ao

sobre pessoas que eram, por sua vez, a mescla dos tributa-

10. Michel Foucault aludc aqui a Achille Jouffroy d'Abbans (1790- rios gauleses, dos clientes romanos e dos suditos germanos.

1859). Partidario dos Bourbons, publicou em L 'Observaleur artigos favora- De sorte que temos urna rela9ao de domina9ao entre algo

veis ao direito divino, ao parler absoluto e ao ultramontanismo. Depois da que era urna nobreza, que era uma na9ao, mas que era tam-

queda de Carlo,s X, publicou urn jamal, La legitimite, cuja difusao foi proibi- bern a na9ao inteira, ou seja, a nobreza feudal; e depois (no

da na Fraoya. E autor, entre outras, de uma brochura: Des idees liherates du

Franr;ais (1815); de uma narrativa da Revoluyao: Les Jastes de l'anarchie

exterior dessa na9ao, como objeto, como parceiro de sua

(1820): e de uma obm hist6rica sabre a Oalia: Les siecles de la monarchie franr;aise (1823). A citaya.o de Jouffroy esta em L 'observateur des colonies. de fa marine, de la politique. de fa litterature et des arts, IX fasciculo, 1820, 11. F. de Reynaud, conde de Montlosier, De la monarchie fran~aise. p. 299. cr. A. Thierry, "Sur l'antipathic de race...", art. cit. op. cit., liv. I, cap. I, p. 150.

276 EM DEFESA DA SOC/EDADE AULA DE 10 DE MARr;O DE 1976 277

rela,ito de domina,ito), vamos ter todo urn povo de tributa- seqiiencia, de uma classe, de classes, no interior do corpo

rios, de servos, etc., que sito, na realidade, nito a outra parte social. Ora, a partir dessa fabrica,ao de urna nova classe, 0

da na,ito, mas que estito fora da na,ito. Portanto, Montlosier que vai acontecer? Pois bem, 0 rei se serve dessa nova classe

faz funcionar urn monismo no plano da na,ito, e em proveito para arrancar da nobreza seus privilegios economicos e po- da nobreza, e depois urn dualismo no plano da domina,ito. liticos. Que meios emprega? Ai tambem, Montlosier repete

Ora, em compara,ito a isso, qual vai ser 0 papel, segun- o que seus predecessores disseram: mentiras, trai,oes, alian- do Montlosier, da monarquia? Pois bem, 0 papel da monar- ,as antinaturais, etc. 0 rei utiliza tambem a for,a viva dessa quia foi 0 de constituir, a partir dessa massa fora da na,ito _ nova classe; utiliza as revoltas: revoltas das cidades contra os e que era 0 resultado, a mescla dos suditos germanos, dos senhores, rebeliao dos camponeses contra os proprietarios clientes romanos, dos tributarios gauleses -, uma nal;ao, urn das terras. Ora, por tras de todas essas revoltas, diz Mon- outro povo. Ai esta 0 papel do poder regio. A monarquia tlosier, que se deve ver? 0 descontentamento dessa nova libertou os tributarios, concedeu direitos as cidades, tomou- classe, e claro. Mas sobretudo a mao do rei. 0 rei e que ani- as independentes da nobreza; ela libertou mesmo os servos mava todas as revoltas, porque cada revolta enfraquecia 0 e criou pe,a por pe,a algo de que Montlosier diz que era poder dos nobres e, por conseguinte, fortalecia 0 poder dos urn novo povo, igual em direito ao antigo povo, ou seja, a no- reis, que obrigavam as Dobres a fazer concess5es. E, alias, breza, e muito superior em nilmero. 0 poder regio, diz Mon- por um processo circular, cada medida regia de liberta,ao dosier, constituiu uma classe imensa 12. aumentava a arrogancia e a for,a do novo povo. Cada con-

Ha, nesse tipo de analise, a reativa,ito, claro, de todos cessao que 0 rei fazia a essa nova classe acarretava novas os elementos que vimos ser utilizados no seculo XVIII, mas revoltas. Ha, pais, urn vinculo essencial, em tada a hist6ria com urna modifica,ito fundamental: e que, voces estito da Fran,a, entre a monarquia e a revolta popular. Monarquia venda, os processos da politica, tudo que se passou desde a e revolta popular sao intimamente ligadas. E a transferencia Idade Media ate 0 seculo XVII e 0 seculo XVIII, para Mon- para a monarquia de todos os poderes politicos que a nobre- tlosier, nao consiste simplesmente em modificar, em deslo- za havia possuido outrora se faz essencialmente pela arma car as rela,oes de for,a entre dois parceiros que teriam sido dessas revoltas, dessas revoltas preparadas, animadas, em dados logo de saida e que teriam sido postos frente a frente todo caso sustentadas e favorecidas, pelo poder monarquico. desde a invasao. De fato, 0 que aconteceu foi a cria,ao, no A partir dai, a monarquia arroga 0 poder apenas a si, interior de um conjunto que era mono-nacional e por intei- mas s6 pode faze-lo funcionar, s6 pode exerce-lo recorrendo ro concentrado em torno da nobreza, de algo diferente: a a essa nova classe. Confiani, pais, sua justi9a e sua adminis- cria,ao de urna nova na,ao, de um novo povo, daquilo que tra9ao publica a essa nova dasse, que se ve, assim, incum- Montlosier chama de urna nova classe lJ · Fabrica,ao em con- bida de todas as fun,oes do Estado. De sorte que 0 derra-

deiro momenta do processo s6 pode ser, e claro, a revolta

Ultima: aquela em que 0 Estado inteiro, tendo caido nas maos

12. Cf. ibid., !iv. III, cap. 11, pp. 152 SS. dessa nova classe, nas maos do povo, escapa ao poder mo-

13. Cf. ibid., loco cit.

mirquico. J8. nao vaa ficar, frente a frente, senao urn rei, que 278 EM DEFESA DA SOC/EDADE AULA DE IO DE MARC;O DE /976 279

na realidade s6 tern como poder aquele que Ihe foi dado mula9ao de que tudo partiu de urn estado de guerra e de urna

pelas revoltas populares, e, do outro lado, urna classe popu- rela9ao de domina9ao. Temos, nessas reivindica90es politi-

lar que tern entre as maos todos os instrumentos do Estado. cas da epoca da Restaura9ao, a afirma9ao de que a nobreza

Derradeiro epis6dio, derradeira revolta, que se faz contra deve reaver seus direitos, recuperar os bens nacionalizados,

quem? Pois bern, contra aquele que esqueceu que era 0 der- reconstituir as rela90es de domina9ao que ela havia exerci- radeiro aristocrata a ainda possuir poder: 0 rei. do outrora em rela9ao ao povo inteiro. E claro, ha essa afir-

A Revolu9ao Francesa se mostra portanto, na analise ma9ao, mas voces veem que 0 discurso hist6rico que e feito,

de Montlosier, como 0 derradeiro epis6dio desse processo de em seu nucleo, em seu conteudo central, e urn discurso his- transferencia que constituiu 0 absolutismo monarquico 14 · A t6rico que faz 0 presente funcionar como momento pleno, conclusao dessa constitui9ao do poder monarquico e a Re- momento da efetua9ao, momenta da totaliza9ao, momenta volu9ao. A Revolu9aO derrubou 0 rei? De modo algum. A a partir [do qual] todos os processos hist6ricos que entabu- Revolu9ao concluiu a obra dos reis, expressou literalmente a laram as rela90es entre a aristocracia e a monarquia chegam verdade dessa obra. A Revolu9ao deve ser lida como a con- finalmente a seu ponto ultimo, derradeiro, a seu momento clusao da monarquia: conclusao tragica, talvez, mas conclu- pleno, aquele em que se constitui urna totalidade estatal en- sao politicamente verdadeira. E a cena de 21 de janeiro de tre as maos de urna coletividade nacional. E, nessa medida,

1793 talvez tenha decapitado 0 rei; decapitou-se 0 rei, mas pode-se dizer que esse discurso - sejam quais forern os temas coroou-se a monarquia. A Conven9ao e a verdade da mo- politicos ou os elementos de analise que se referem a hist6- narquia posta a nu, e a soberania, arrancada da nobreza pelo ria de Boulainvilliers ou de du Buat-Nan9ay, ou sao direta- rei, esta agora, de urna forma absolutamente necessaria, nas mente transplantados dela - funciona na verdade com base maos de urn povo que vern a ser, diz Montlosier, 0 herdeiro em outro modelo. legitimo dos reis. Montlosier, aristocrata, emigrado, acirra- Agora eu gostaria de examinar, para terminar, outro tipo do adversario da menor tentativa de liberaliza9ao sob a de hist6ria, diretamente oposta. E a hist6ria de Augustin Restaura9ao pode escrever isto: "0 povo soberano: que nao Thierry, adversario explicito de Montlosier. Nele, 0 ponto o censurem com demasiado amargor. Ele limitou-se a con- da inteligibilidade da hist6ria vai ser, e claro, de forma pri- surnar a obra dos soberanos seus predecessores." Portanto, vilegiada, 0 presente. Explicitamente, 0 segundo gabarito, o povo e 0 herdeiro, e 0 herdeiro legitirno, dos reis; limitou-se aquele que vai partir do presente, do presente pleno, para a consurnar a obra dos soberanos, seus predecessores. Se- revelar os elementos e os processos do passado, e que sera guiu, ponto por ponto, a estrada que the fora tra9ada pelos utilizado. Totaliza9ao estatal: e isso que deve ser projetado reis, pelos parlamentos, pelos homens da lei e pelos cientis- sobre 0 passado; e deve-se fazer a genese dessa totaliza9ao. tas. De sorte que se tern em Montlosier, voces estiio venda, A Revolu9ao e precisamente, para Augustin Thierry, esse emoldurando de certa forma a pr6pria analise hist6rica, a for- "momento pleno": de urna parte, a Revolu9ao - diz ele - e,

claro, 0 momenta da reconcilia9ao. Ele coloca essa reconci-

lia9ao, essa constitui9ao de urna totalidade estatal, na famosa

14. Ibid., liv. II, cap. II, p. 209. cena em que Bailly, como voces sabem, ao acolher os repre-

280 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 10 DE MAR<;O DE 1976 281

sentantes da nobreza e do clero no mesmo local em que es- de origem em algo como urna invasao. Mas, se houve luta e

tavam os do terceiro estado, respondeu: "Ai esm a familia enfrentamento ao lange de toda a Idade Media, e ate no mo-

reunida."15 mento atual, nao foi, no fundo, porque vencedores e venci-

Portanto, partamos desse presente. 0 momento atual e dos se enfrentaram atraves das instituiyoes; foram, na reali-

o da totalizayao na forma do Estado. Seja como for, essa to- dade, dois tipos economico-juridicos de sociedade que se

talizayao s6 pOde ocorrer no processo violento da Revoluyao, constituiram e entraram em rivalidade urn com 0 outro pela

e esse momenta pleno da reconciliayao traz ainda a fisiono- administrayao e pela posse do Estado. Tivemos, antes mes-

mia e os trayos da guerra. E Augustin Thierry diz que a mo da constituiyao da sociedade medieval, urna sociedade Revoluyao Francesa nada mais e, no fundo, do que 0 derra- rural, organizada depois da conquista e de acordo com urna

deiro epis6dio de urna luta que durou mais de treze seculos, forma que vai ser, muito cedo, a do feudalismo; e depois, a luta entre os vencedores e os vencidos1 6. Entao, todo 0 em face disso, urna sociedade urbana que, por sua vez, tinha

urn modelo romano e urn modelo gaules. E, no fundo, 0 en- problema da analise hist6rica, para Augustin Thierry, vai

frentamento e, nurn sentido, 0 resultado da invasao e da ser 0 de mostrar como uma luta entre vencedores e vencidos

conquista, mas e essencial, substancialmente, a luta entre pOde atravessar toda a hist6ria e conduzir a urn presente que,

duas sociedades, cujos conflitos vao ser, por momentos, con- justamente, ja nao tern a forma da guerra e de urna domina-

flitos armadas, mas, quanta ao essencial, urn enfrentamen- yao dissimetrica, que continuariam as precedentes ou que as

to de ordem politica e economica. Guerra, talvez, mas guer- inverteriam noutro sentido; e 0 de mostrar de que forma

ra do direito e das liberdades de urn lado, contra a divida e essa guerra pOde levar a genese de urna universalidade em a riqueza do outro. que a luta, ou a guerra em todo caso, tern de desaparecer. Esses enfrentamentos entre dois tipos de sociedade pela

Como e que, das duas partes, pode haver urna que foi constituiyao de urn Estado, e isso que vai ser 0 motor fun- portadora de universalidade? E esse 0 problema da hist6ria, damental da hist6ria. Ate os seculos IX-X, as cidades e que para Augustin Thierry. E sua analise, entao, vai consistir em saem perdendo nesse enfrentamento, nessa luta pelo Estado descobrir a origem de urn processo que e duelo, no inicio, e pela universalidade do Estado. E depois, a partir dos seculos mas que sera monista e universalista ao meSilla tempo, no X-XI, renascimento, ao contnirio, das cidades, que ocorre a final. 0 essencial do enfrentamento, para Augustin Thierry, partir do modele italiano no Sui, a partir do modelo n6rdi- e justamente que 0 que sucedeu, claro, encontra seu ponto co nas regiaes do Norte. Nova forma, em todo caso, de

organizayao juridica e economica. E, se a sociedade urbana

prevalece, finalmente, nao e em absoluto porque teria obti-

15. A. Thierry, Essai sur l'histoire de laformation et des progres du do algo como urna vit6ria militar, mas, pura e simplesmente, Tjers~Etat, in (Euvres completes, t. Y, Paris, 1868, p. 3. Thierry escreve; "A porque tern a seu favor, e cada vez mais, nao somente a ri- famBia esrn completa."

queza, mas a capacidade administrativa, e tambem uma mo-

16. Cf. em especial A. Thierry, "Sur l'antipathie de race...", art. cit., e "Histoire veritable de Jacques Bonhonune", Le censeur europeen, maio de 1820, ral, uma certa maneira de viver, uma certa maneira de ser, artigo igualmente compilado in Dix ans d'etudes historiques, op. cit. uma vontade, instintos inovadores - diz Augustin Thierry-, 282 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 10 DE MAR<;O DE 1976 283

wna atividade tambem, que the dame for9a bastante para se, ele sozinho, da na9ao e do Estado. Constituir sozinho a

que suas institui90es deixem, wn dia, de ser locais e se tor- na9ao e incwnbir-se do Estado quer dizer assegurar as fun-

nem, enfim, as pr6prias institui90es do direito politico e do 90es de universalidade que fazem que desapare9am, por isso

direito civil do pais. Universaliza9ao, por conseguinte, a mesmo, tanto a dualidade antiga quanto todas as rela90es de

partir nao de wna rela9ao de domina9ao, que teria se virado domina9ao que puderam funcionar ate enmo. A burguesia,

inteiramente a seu favor, mas peio fate de que todas as fun- o terceiro estado, torna-se portanto 0 povo, torna-se portanto 90es constitutivas do Estado estao, nascem em suas maos, o Estado. Ele tern a for9a do universal. E 0 momento pre- ou passam, em todo caso, por suas maos. E a essa for9a, que sente - aquele em que escreve Augustin Thierry - .0 preci-

.0 a for9a do Estado e ja nao .0 a for9a da guerra, a burguesia samente 0 momento desse desaparecimento das dualidades, nao dani wn usa guerreiro, ou s6 dara urn uso guerreiro das na90es, das classes tambem. "Imensa evolu,ao", diz Au- quando, realmente, for for9ada a isso. gustin Thierry, "que fez desaparecer sucessivamente do solo

E dois grandes episOdios, duas grandes fases, nessa his- onde vivemos todas as desigualdades violentas ou ilegiti- t6ria da burguesia e do terceiro estado. Primeiro, quando 0 mas, 0 senhor e 0 escravo, 0 vencedor e 0 vencido, 0 senhor terceiro estado sente que tern entre as maos todas as for9as eo servo, para mostrar, afinal, no lugar deles wn mesmo povo, do Estado, 0 que ele vai propor, pois bern, .0 wna especie de wna lei igual para todos, wna na9ao livre e soberana."17 pacto social iI nobreza e ao clero. E .0 assim que se consti- Voces estao vendo que com analises como esta, de wna tuem, a wn s6 tempo, a teoria e as institui90es das tres ordens. parte, temos claro a evacua9ao ou, em todo caso, a delimi- Mas .0 wna unidade facticia, que nao corresponde verdadei- ta9ao estrita da fun,ao da guerra como analisador dos pro- ramente iI realidade da rela9ao de for9a, nem iI vontade da ·cessos hist6rico-politicos. A guerra ja nao .0 senao momen- parte adversa. De fato, 0 terceiro estado ja tern todo 0 Esta- tiinea e instrwnental em compara9ao a enfrentamentos que, do na mao, e a parte adversa, ou seja, a nobreza, nem sequer por sua vez, nao sao do tipo belicoso. Segundo, 0 elemento quer reconhecer wn direito qualquer ao terceiro estado. .E essencial ja nao .0 essa rela,ao de domina9ao que agiria de nesse momento que come9a, no seculo XVIII, wn novo pro- uns a outros, de wna na9ao a outra, de wn grupo a outro: a cesso, que vai ser urn processo mais violento de enfrenta- rela9ao fundamental .0 0 Estado. E voces estao vendo, afi- mento. E a Revolu9ao sera precisamente 0 ultimo epis6dio nal, como, no interior de analises como essas, vemos deli- de guerra violenta, que reativa, claro, os antigos conflitos, near-se algo que .0, eu diria, imediatamente assimilavel, mas que .0, de certo modo, apenas 0 instrwnento militar de imediatamente transferivel, a urn discurso filos6fico do tipo wn conflito ou de wna luta que nao sao da ordem guerreira, dialetico. que sao essencialmente da ordem civil e que tern como obje- A possibilidade de wna filosofia da hist6ria, ou seja, 0 to e como espa90 0 Estado. 0 desaparecimento do sistema aparecirnento, no inicio do seculo XIX, de wna filosofia que das tres ordens, os abalos violentos da Revolu9aO, tudo isso s6 constitui, no fundo, wna linica coisa: a hora em que 0 ter- ceiro estado, tornado na9ao, tornado a na,ao, mediante absor- 17. A. Thierry, Essai sur l'histoire... du Tiers-Etat, in op. cit., p. 10. A 9ao de todas as fun,oes estatais, vai efetivamente incumbir- citayao, inexata, foi restabelecida no texto de acordo com 0 original. 284 EM DEFESA DA SOCIEDADE

encontrani na hist6ria, e na plenitude do presente, 0 momento AULA DE 17 DE MARCO DE 1976 em que 0 universal se expressa em sua verdade, voces veem

que essa filosofia, eu nao digo que e preparada, digo que ja

funciona no interior do discurso hist6rico. Houve urna auto- Do poder de soberania ao poder sabre a vida. - Fazer dialetiza9ao do discurso hist6rico que foi feita independen- viver e deixar morrer. - Do homem-corpo ao homem-espe· temente de qualquer transferencia explicita, ou de qualquer cie: nascimento do biopoder. - Campos de aplica~ao do bio- utiliza9ao explicita, de urna filosofia dialetica para 0 discur- poder. - A populafiio. - Da morte, e da morte de Franco ~m so hist6rico. Mas a utiliza9ao, pela burguesia, de urn discurso especial. - Articulafoes da disciplina e da regulamentarQo:

a cidade operaria, a sexualidade, a norma. - Biopoder e ra- hist6rico, a modifica9ao, pela burguesia, dos elementos fun- cismo. - Fun90es e areas de aplicQfiio do racismo. - a nazis- darnentais da inteligibilidade hist6rica que ela havia recolhido mo. - a socialismo. do seculo XVIII, foi, ao mesmo tempo, urna autodialetiza- 9ao do discurso hist6rico. E voces compreendem como, a partir dai, entre discurso da hist6ria e discurso da filosofia, puderam estabelecer-se rela90es. No fundo, a filosofia da Cumpre, pois, tentar terminar, fechar urn pOUCO 0 que hist6ria nao existia, no seculo XVIII, seniio como especula9ao eu disse este ano. Eu havia tentado expor urn pouquinho 0 sobre a lei geral da hist6ria. A partir do seculo XIX, come- problema da guerra, encarada como gabarito de inteligibili- 9a algo novo e, creio eu, fundamental. A hist6ria e a filoso- dade dos processos hist6ricos. Parecera-me que essa guerra fia vao formular esta questao em comum: 0 que, no presen- fora concebida, inicial e praticamente durante todo 0 seculo te, traz consigo 0 universal? 0 que, no presente, e a verdade XVIII ainda, como guerra das ra9as. Era urn pouco essa his- do universal? Essa e a questao da hist6ria, essa e igualmen- t6ria da guerra das ra9as que eu queria reconstituir. E tentei, te a questiio da filosofia. Nasceu a dialetica. da ultima vez, mostrar-lhes como a pr6pria n09ao de guerra

fora finalmente eliminada da analise hist6rica pelo principio

da universalidade nacional*. Eu gostaria agora de lhes mos-

trar como 0 tema da ra9a vai, nao desaparecer, mas ser reto-

mado em algo muito diferente que e 0 racismo de Estado.

E entao e 0 nascimento do racismo de Estado que eu gos-

taria de )hes narrar urn pouquinho hoje, pelo menos de situar

o problema para voces. . .

Parece-me que urn dos fen6menos fundamentals do se-

culo XIX foi, e 0 que se poderia denominar a assun9ao da

* Manuscrito, a frase prossegue; depois de "nacional": "na epoca da

RevolUl;ao". 286 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 17 DE MARr;:O DE 1976 287

vida pelo poder: se voces preferirem, urna tomada de poder efetivamente em si a propria essencia desse direito de vida

sobre 0 homem enquanto ser vivo, urna especie de estatiza- e de morte: e porque 0 soberano pode matar que ele exerce

9iio do biologico ou, pelo menos, uma certa inclina9iio que seu direito sobre a vida. E essencialmente urn direito de es-

conduz ao que se poderia chamar de estatiza9iio do biologi- pada. Niio M, pois, simetria real nesse direito de vida e de

co. Creio que, para compreender 0 que se passou, podemos morte. Niio e 0 direito de fazer morrer ou de fazer viver. Niio

nos referir ao que era a teoria classica da soberania que, em e tampouco 0 direito de deixar viver e de deixar morrer. E 0

ultima analise, serviu-nos de pano de fundo, de quadro para direito de fazer morrer ou de deixar viver. 0 que, e claro,

todas essas analises sobre a guerra, as ra9as, etc. Na teoria introduz urna dissimetria flagrante.

classica da soberania, voces sabem que 0 direito de vida e E eu creio que, justamente, urna das mais maci9as trans-

de morte era urn de seus atributos fundamentais. Ora, 0 forma90es do direito politico do seculo XIX consistiu, niio

direito de vida e de morte e urn direito que e estranbo, estra- digo exatamente em substituir, mas em completar esse velho

nho ja no nivel teorico; com efeito, 0 que e ter direito de direito de soberania - fazer morrer ou deixar viver - com

vida e de morte? Em certo sentido, dizer que 0 soberano tern outro direito novo, que niio vai apagar 0 primeiro, mas vai pe- direito de vida e de morte significa, no fundo, que ele pode netra-lo, perpassa-lo, modifica-lo, e que vai ser urn direito,

fazer morrer e deixar viver; em todo caso, que a vida e a ou melhor, urn poder exatamente inverso: poder de "fazer" morte DaD sao desses fenomenos naturais, imediatos, de eer- viver e de "deixar" marrero 0 direito de soberania e, portan- to modo originais ou radicais, que se localizariam fora do to, 0 de fazer morrer ou de deixar viver. E depois, este novo campo do poder politico. Quando se vai urn pouco rnais alem direito e que se instala: 0 direito de fazer viver e de deixar e, se voces quiserem, ate 0 paradoxo, isto quer dizer no fundo morrer. que, em rela9iio ao poder, 0 sudito niio e, de pleno direito, Essa transforma9iio, e claro, niio se deu de repente. Pode- nem vivo nem morto. Ele e, do ponto de vista da vida e da se segui-la na teoria do direito (mas ai serei extremamente morte, neutro, e e simplesmente por causa do soberano que rapido). Voces ja veem, nos juristas do seculo XVII e sobre- o sudito tern direito de estar vivo ou tern direito, eventual- tudo do seculo XVIII, formulada essa questiio a proposito do mente, de estar morto. Em todo caso, a vida e a morte dos direito de vida e de morte. Quando os juristas dizem: quan- suditos so se tomam direitos pelo efeito da vontade sobera- do se contrata, no plano do contrato social, ou seja, quando na. Ai esta, se voces quiserem, 0 paradoxa te6rico. Para- os individuos se reunem para constituir urn soberano, para doxo teorico que deve se completar, evidentemente, por delegar a urn soberano urn poder absoluto sobre eles, por urna especie de desequilibrio pratico. Que quer dizer, de que 0 fazem? Eles 0 fazem porque estiio premidos pelo peri- fato, direito de vida e de morte? Niio, e claro, que 0 sobera- go ou pela necessidade. Eles 0 fazem, por ~onseguinte, para no pode fazer viver como pode fazer morrer. 0 direito de proteger a vida. E para poder viver que constituem urn so- vida e de morte so se exerce de urna forma desequilibrada, e berano. E, nesta medida, a vida pode efetivamente entrar sempre do lado da morte. 0 efeito do poder soberano sobre nos direitos do soberano? Niio e a vida que e fundadora do a vida so se exerce a partir do momento em que 0 soberano direito do soberano? E niio pode 0 soberano reclamar efeti- pode matar. Em ultima analise, 0 direito de matar e que detem vamente de seus suditos 0 direito de exercer sobre eles 0

288 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 17 DE MARr;O DE 1976 289

poder de vida e de morte, ou seja, pura e simplesmente, 0 po- disciplinar, mas que a embute, que a integra, que a modifica der de mata-los? Nao deve a vida ficar fora do contrato na parcialmente e que, sobretudo, vai utiliza-la implantando-se medida em que ela e que foi 0 motivo primordial, inici~l e de certo modo nela, e incrustando-se efetivamente gra,as a fundamental do contrato? Tudo isso e uma discussao de fi- essa tecnica disciplinar previa. Essa nova tecnica nao supri- losofia politica que se pode deixar de lado, mas que mostra me a tecnica disciplinar simplesmente porque e de outro bern como 0 problema da vida come,a a problematizar-se nivel, esta noutra escala, tern outra superficie de suporte e e no campo do pensamento politico, da analise do poder poli- auxiliada por instrumentos totalmente diferentes. tico. De fato, 0 nivel em que eu gostaria de seguir a trans- Ao que essa nova tecruca de poder nao disciplinar se forma,ao nao e 0 nivel da teoria politica, mas, antes, 0 nivel aplica e - diferentemente da disciplina, que se dirige ao dos mecanismos, das tecrucas, das tecnologias de poder. En- corpo - a vida dos homens, ou ainda, se voces preferirem, ela tao, ai, topamos com coisas familiares: e que, nos seculos se dirige nao ao homem-corpo, mas ao homem vivo, ao ho-

XVII e XVIII, viram-se aparecer tecnicas de poder que eram mem ser vivo; no limite, se voces quiserem, ao homem-espe-

essencialrnente centradas no corpo, no corpo individual. Eram cie. Mais precisamente, eu diria isto: a disciplina tenta reger

todos aqueles procedimentos pelos quais se assegurava a dis- a multiplicidade dos homens na medida em que essa multi-

tribui,ao espacial dos corpos individuais (sua separa,ao, plicidade pode e deve redundar em corpos individuais que

seu alinhamento, sua coloca,ao em serie e em vigiliincia) e devem ser vigiados, treinados, utilizados, eventualmente pu- a organiza,ao, em tomo desses corpos individuais, de todo nidos. E, depois, a nova tecnologia que se instala se dirige a urn campo de visibilidade. Eram tambem as tecrucas pelas multiplicidade dos homens, nao na medida em que eles se quais se incurnbiam desses corpos, tentavam aurnentar-Ihes a resurnem em corpos, mas na medida em que ela forma, ao for,a uti! atraves do exercicio, do treinamento, etc. Eram contrario, urna massa global, afetada por processos de con- igualmente tecnicas de racionaliza,ao e de economia estrita junto que sao proprios da vida, que sao processos como 0 de urn poder que devia se exercer, da maneira menos onero- nascimento, a morte, a produ,ao, a doen,a, etc. Logo, depois sa possivel, mediante todo urn sistema de vigiliincia, de hie- de urna primeira tomada de poder sobre 0 corpo que se fez rarquias, de inspe,oes, de escritura,oes, de relatorios: toda consoante 0 modo da individualiza,ao, temos uma segunda essa tecnologia, que podemos chamar de tecnologia disci- tomada de poder que, por sua vez, nao e individualizante mas plinar do trabalho. Ela se instala ja no final do seculo XVII e que e massificante, se voces quiserem, que se faz em dire,ao no decorrer do seculo XVIIII. nao do homem-corpo, mas do homem-especie. Depois da ana-

Ora, durante a segunda metade do seculo XVIII, eu creio tomo-politica do corpo hurnano, instaurada no decorrer do que se ve aparecer algo de novo, que e uma outra tecnolo- seculo XVIII, vemos aparecer, no fim do mesmo seculo, algo gia de poder, nao disciplinar dessa feita. Vma tecnologia de que ja nao e uma anatomo-politica do corpo hurnano, mas poder que nao exclui a primeira, que nao exclui a tecnica que eu chamaria de urna "biopolitica" da especie hurnana.

De que se trata nessa nova tecnologia do poder, nessa

biopolitica, nesse biopoder que esm se instalando? Eu lhes

1. Sabre a questao da tecnologia disciplinar, ver Surveiller et punir, op. cit. dizia em duas palavras agora ha pouco: trata-se de urn con-

290 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 17 DE MARr;:O DE 1976 291

junto de processos como a propor9ao dos nascimentos e dos to dos tratamentos que podem custar. Em surna, a doen9a

obitos, a taxa de reprodu9ao, a fecundidade de urna popula- como fenomeno de popula9ao: niio mais como a morte que se

9ao, etc. Sao esses processos de natalidade, de mortalidade, abate brutalmente sobre a vida - e a epidemia - mas como

de longevidade que, justamente na segunda metade do se- a morte permanente, que se introduz sorrateiramente na

culo XVIII, juntamente com urna por9ao de problemas eco- vida, a corroi perpetuamente, a diminui e a enfraquece.

nomicos e politicos (os quais nao retorno agora), constitui- Sao esses fenomenos que se come9a a levar em conta no

ram, acho eu, os primeiros objetos de saber e os primeiros final do seculo XVIII e que trazem a introdu9ao de urna me-

alvos de controle dessa biopolitica. E nesse momento, em dicina que vai ter, agora, a fun9aO maior da higiene publica,

todo caso, que se lan9a mao da medi9ao estatfstica desses com organismos de coordena9ao dos tratamentos medicos,

fenomenos com as primeiras demografias. E a observa9ao de centraliza9ao da informa9ao, de normaliza9ao do saber, e

dos procedimentos, mais ou menos espontaneos, mais ou que adquire tambem 0 aspecto de campanha de aprendizado

menos combinados, que eram efetivamente postos em exe- da higiene e de medicaliza9ao da popula9ao. Portanto, pro-

cU9ao na popula9ao no tocante a natalidade; em surna, se vo- blemas da reprodu9ao, da natalidade, problema da morbida-

ces preferirem, 0 mapeamento dos fenomenos de controle de tambem. 0 outro campo de interven9ao da biopolitfca vai

dos nascimentos tais como eram praticados no seculo XVIII. ser todo urn conjunto de fenomenos dos quais uns sao univer-

Isso foi tambem 0 esb090 de urna politica de natalidade ou,

sais e outros sao acidentais, mas que, de uma parte, nunea

em todo caso, de esquemas de interven9ao nesses fenome-

sao inteiramente compreensiveis, mesmo que sejam aciden-

nos globais da natalidade. Nessa biopolitica, nao se trata sim-

plesmente do problema da fecundidade. Trata-se tambem tais, e que acarretam tambem conseqiiencias anaIogas de. in-

do problema da morbidade, nao mais simplesmente, como capacidade, de por individuos fora de circuito, de neutrahza- justamente fora 0 caso ate entiio, no nivel daquelas famosas 9aO, etc. Sera 0 problema muito importante, ja no inicio do

epidemias cujo perigo havia atormentado tanto os poderes se.oulo XIX (na hora da industrializa9ao), da velhice, do mdi-

politicos desde as profundezas da Idade Media (aquelas fa- viduo que cai, em conseqiiencia, para fora do campo de capa- mosas epidemias que eram dramas temporitrios da morte cidade, de atividade. E, da outra parte, os acidentes, as enfer- multiplicada, da morte tornada iminente para todos). Nao e midades as anomalias diversas. E e em rela9ao a estes feno- de epidemias que se trata naquele momento, mas de algo menos ~ue essa biopolitica vai introduzir nao somente insti- diferente, no final do seculo XVIII: grosso modo, aquilo que tui90es de assistencia (que existem faz muito tempo), mas se poderia chamar de endemias, ou seja, a forma, a natureza, mecanismos muito mais sutis, economicarnente mUlto malS a extensao, a dura9ao, a intensidade das doen9as reinantes racionais do que a grande assistencia, a urn so tempo maci9a nurna popula9ao. Doen9as mais ou menos dificeis de extir- e lacunar, que era essencialmente vinculada a Igreja. Vamos par, e que nao sao encaradas como as epidemias, a titulo de ter mecanismos mais sutis, mais racionais, de seguros, de causas de morte mais freqiiente, mas como fatores perma- poupan9a individual e coletiva, de seguridade, etc.' nentes - e e assim que as tratam - de subtra9ao das for9as, diminui9ao do tempo de trabalho, baixa de energias, custos 2. Sabre todas essas questoes, ver 0 Curso no College de France, anos economicos, tanto por causa da produ9ao nao realizada quan- 1973-1974: Le pouvoir psychiatrique, no prelo.

292 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 17 DE MARr;O DE 1976 293

Enfim, ultimo dominio (enumero os principais, em todo como problema politico, como problema a um s6 tempo cien-

caso os que aparecerarn no final do seculo XVIII e no inicio tifico e politico, como problema biol6gico e como problema

do XIX; haveni muitos outros depois): a preOCUpa9aO com as de poder, acho que aparece nesse momento.

rela90es entre a especie humana, os seres humanos enquanto Segundo, 0 que e importante tarnbem - afora 0 apareci-

especie, enquanto seres vivos, e seu meio, seu meio de exis- mento desse elemento que e a popula9aO - e a natureza dos

tencia - sejam os efeitos brutos do meio geognifico, clima- fenamenos que sao levados em considera9aO. Voces estao

tico, hidrografico: os problemas, por exemplo, dos pantanos, venda que sao fenomenos coletivos, que s6 aparecem com

das epidemias ligadas a existencia dos pantanos durante to- seus efeitos econamicos e politicos, que s6 se tornam perti-

da a primeira metade do seculo XIX. E, igualmente, 0 pro- nentes no nivel da massa. Sao fenamenos aleat6rios e im-

blema desse meio, na medida em que nao e um meio natural previsiveis, se os tomarmos neles mesmos, individualmente,

e em que repercute na popula9ao; um meio que foi criado mas que apresentam, no plano coletivo, constantes que e fa-

por ela. Sera, essencialmente, 0 problema da cidade. Eu Ihes cil, ou em todo caso possive!, estabelecer. E, enfim, sao fe-

assinalo aqui, simplesmente, alguns dos pontos a partir dos namenos que se desenvolvem essencialmente na dura9ao,

quais se constituiu essa biopolitica, algumas de suas praticas que devem ser considerados num certo limite de tempo rela-

e as primeiras das suas areas de interven9aO, de saber e de tivarnente longo; sao fenamenos de serie. A biopolitica val se

poder ao mesmo tempo: e da natalidade, da morbidade, das dirigir, em suma, aos acontecimentos aleat6rios que OCOf-

incapacidades biol6gicas diversas, dos efeitos do meio, e rem numa popula9aO considerada em sua dUra9aO.

disso tudo que a biopolitica vai extrair seu saber e definir 0 A partir dai - terceira coisa, acho eu, importante -, essa

campo de interven9aO de seu poder. tecnologia de poder, essa biopolitica, vai implantar mecanis-

Ora, em tudo isso, eu creio que hi certo numero de coi- mos que tern certo numero de fun9aes muito diferentes das

saS que sao importantes. A primeira seria esta: 0 aparecimen- fun90es que erarn as dos mecanismos disciplinares. Nos me-

to de urn elemento - eu ia dizer de uma personagem - novo, canismos implantados pela biopolitica, vai se tratar sobretudo,

que no fundo nem a teoria do direito nem a pratica discipli- e claro, de previs5es, de estimativas estatisticas, de medi-

nar conhecem. A teoria do direito, no fundo, s6 conhecia 0 90es globais; vai se tratar, igualmente, nao de modificar tal

individuo e a sociedade: 0 individuo contratante e 0 corpo fenameno em especial, nao tanto tal individuo, na medida

social que fora constituido pelo contrato voluntario ou im- em que e individuo, mas, essencialmente, de intervir no

plicito dos individuos. As disciplinas lidavam praticamente nivel daquilo que sao as determina90es desses fenamenos

com 0 individuo e com seu corpo. Nao e exatarnente com a gerais, desses fenamenos no que eles tern de global. Vai ser

sociedade que se lida nessa nova tecnologia de poder (ou, en- preciso modificar, baixar a morbidade; vai ser preciso encom-

fim, com 0 corpo social tal como 0 definem os juristas); nao pridar a vida; vai ser preciso estimular a natalidade. E trata-

e tampouco com 0 individuo-corpo. Eurn novo corpo: corpo se sobretudo de estabelecer mecanismos reguladores que,

multiplo, corpo com inumeras cabe9as, se nao infinito pelo nessa popula9aO global com seu campo aleat6rio, vao poder

menos necessariarnente numerivel. E a n09aO de "popula- fixar urn equilibrio, manter uma media, estabelecer uma es-

9aO". A biopolitica lida com a popula9aO, e a popula9aO pecie de homeostase, assegurar compensa((oes; em suma,

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294 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 17 DE MARr;O DE 1976 295

de instalar mecanismos de previdencia em tomo desse alea- certo nllinero de estudos recentes; que a grande ritualiza~ao

torio que e inerente a uma popula~ao de seres vivos, de oti- publica da morte desapareceu, ou em todo caso foi-se apa-

mizar, se voces preferirem, urn estado de vida: mecanismos, gando, progressivamente, desde 0 fim do seculo XVIII ate

como voces veem, como os mecanismos disciplinares, des- agora. A tal ponto que, agora, a morte - deixando de ser uma

tinados em suma a maximizar for~as e a extrai-Ias, mas que daquelas cerimonias brilhantes da qual participavam os in-

passam por caminhos inteiramente diferentes. Pois ai nao se dividuos, a familia, 0 grupo, quase a sociedade inteira - tor-

trata, diferentemente das disciplinas, de um treinamento in- nou-se, ao contnirio, aquilo que se esconde; ela se tomou a

dividual realizado por urn trabalho no proprio corpo. Nao se coisa mais privada e mais vergonbosa (e, no limite, e menos

trata absolutamente de ficar ligado a um corpo individual, o sexo do que a morte que hoje e objeto do tabu). Ora, eu

como faz a disciplina. Nao se trata, por conseguinte, em abso- creio que a razao por que, de fato, a morte tomou-se assim

luto, de considerar 0 individuo no nivel do detalhe, mas, pelo essa coisa que se esconde nao estit numa especie de deslo-

contnirio, mediante mecanismos globais, de agir de tal ma- camento da angUstia ou de modifica~ao dos mecanismos re-

neira que se obtenbam estados globais de equilibrio, de re- pressivos. Esm numa transfo~1io das tecnologias de poder.

gularidade; em resumo, de levar em conta a vida, os processos o que outrora conferia brilho (e isto ate 0 final do seculo

biologicos do homem-especie e de assegurar sobre eles nao XVIII) it morte, 0 que the impunha sua ritualiza~ao t1io ele-

uma disciplina, mas uma regulamenta~a03. vada, era 0 fato de ser a manifesta~ao de uma passagem de

Aquem, portanto, do grande poder absoluto, dramlitico, um poder para outro. A morte era 0 momento em que se pas-

sombrio que era 0 poder da soberania, e que consistia em po- sava de um poder, que era 0 do soberano aqui na terra, para

der fazer morrer, eis que aparece agora, com essa tecnologia aquele outro poder, que era 0 do soberano do alem. Passava-

do biopoder, com essa tecnologia do poder sobre a "popula- se de uma inst1incia de julgamento para outra, passava-se de

~ao" enquanto tal, sobre 0 homem enquanto ser vivo, um

um direito civil ou publico, de vida e de morte, para um di-

parler continuo, cientifico, que e 0 parler de "fazer viver". reito que era 0 da vida etema ou da dana~ao etema. Passa-

A soberania fazia morrer e deixava viver. E eis que agora gem de um poder para outro. A morte era igualmente uma

aparece um poder que eu chamaria de regulamenta~ao e que transmissao do poder do moribundo, poder que se transmi-

consiste, ao contnirio, em fazer viver e em deixar morrer. tia para aqueles que sobreviviam: ultimas palavras, ultimas

recomenda~oes, ultimas vontades, testamentos, etc. Todos

Eu creio que a manifesta~ao desse poder aparece con-

cretamente nessa famosa desqualifica~ao progressiva da mor- esses fenomenos de poder e que eram assim ritualizados.

Ora, agora que 0 poder e cada vez menos 0 direito de

te, na qual os sociologos e os historiadores se debru~aram

fazer morrer e cada vez mais 0 direito de intervir para fazer

com tanta freqiiencia. Todo 0 mundo sabe, sobretudo desde

viver, e na maneira de viver, e no "como" da vida, a partir

do momento em que, portanto, 0 poder intervem sobretudo

3. Michel Foucault voltanl a todos esses mecanismos sobretudo no

nesse nivel para aumentar a vida, para controlar seus aci-

Cursa no College de France, anos 1977-1978: Securite, terri/oire et popula- dentes, suas eventualidades, suas deficiencias, dai por dian-

tion e 1978-1979: Naissance de fa biopolitique, no preto. te a morte, como termo da vida, e evidentemente 0 termo, 0 I



!I

_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _+.i , 296 EM DEFESA DA SOC1EDADE AULA DE 17 DE MAR(:ODE 1976 297 limite, a extremidade do poder. Ela esta do lado de fora, em cebeu que ja estava morto e que 0 faziam viver apos sua mor- rela9ao ao poder: e 0 que cai fora de seu dominio, e sobre 0 te. Eu creio que 0 choque entre esses dois sistemas de po- que 0 poder so tera dominio de modo geral, global, estatis- der, 0 da soberania sobre a morte e 0 da regulamenta9ao da tieo. Isso sobre 0 que 0 poder tem dominio nao e a morte, e vida, acha-se simbolizado nesse pequeno e alegre evento. a mortalidade. E, nessa medida, e normal que a morte, agora, Eu gostaria agora de retomar a compara9ao entre a tec- passe para 0 iimbito do privado e do que ha de mais privado. nologia regulamentadora da vida e a tecnologia disciplinar do Enquanto, no direito de soberania, a morte era 0 ponto em corpo de que eu lhes falava agora ha pouco. Temos portanto, que mais brilhava, da forma moos manifesta, 0 absoluto poder desde 0 seculo XVIII (ou em todo caso desde 0 fim do se- do soberano, agora a morte vai sef, ao contnirio, 0 momen~ culo XVIII), duas tecnologias de poder que sao introduzidas to em que 0 individuo escapa a qualquer poder, volta a Sl com certa defasagem cronologica e que sao sobrepostas. mesma e se ensimesma, de certa modo, em sua parte malS Uma tecnica que e, pois, disciplinar: e centrada no corpo, privada. 0 poder ja nao conhece a morte. No sentido estrito, produz efeitos individualizantes, manipula 0 corpo como fo- o poder deixa a morte de lado. co de for9as que e preciso tomar uteis e doceis ao mesmo

Para simbolizar rudo isso, tomemos, se voces quiserem, tempo. E, de outro lado, temos urna tecnologia que, por sua a morte de Franco, que e um evento apesar de tudo muito, vez, e centrada DaD no corpo, mas na vida; uma tecnologia muito interessante, pelos valores simb6licos que faz atuar, que agrupa os efeitos de massas proprios de uma popula9ao , uma vez que moma aquele que tinha exercido 0 direito so- que procura controlar a serie de eventos fortuitos que podem berano de vida e de morte com a selvageria que voces co- Dearrer numa massa viva; uma tecnologia que procura con- nhecem, 0 mais sanguinario de todos os ditadores, que havia trolar (eventualmente modificar) a probabilidade desses even- feito reinar de modo absoluto, durante quarenta anos, 0 dl- tos, em todo caso em compensar seus efeitos. E uma tecno- reito soberano de vida e de morte e que, na hora que ele logia que visa portanto nao 0 treinamento individual mas mesma vai morfer, entra nessa especie de novo campo do pelo equilibrio global, algo como uma homeostase: a' segu~ poder sobre a vida que consiste nao so em organizar a ~ida, ran9a do conjunto em rela9ao aos seus perigos intemos. Logo, DaD so em fazer viver, mas, em suma, em fazer 0 mdlvlduo urna tecnologia de treinamento oposta a, ou distinta de, urna viver mesmO alem de sua morte. E, mediante urn poder que tecnologia de previdencia; urna tecnologia disciplinar que se nao e simplesmente proeza cientifica,. mas efetivamen;e distingue de urna tecnologia previdenciaria ou regulamenta- exercicio desse biopoder politico que fOl mtroduzldo no se- dora; uma tecnologia que emesmo, em ambos os casas, tec- culo XIX , faz-se tao bem as pessoas viverem que se consegue

. nologia do corpo, mas, nurn caso, trata-se de urna tecnologia

faze-las viver no mesmo momento em que elas devenam, em que 0 corpo e individualizado como organismo dotado de

biologicamente, estar mortas ha muito tempo. Foi assim que capacidades e, no outro, de uma tecnologia em que os cor-

aquele que havia exercido 0 poder absoluto de Vida e de mor- pos sao recolocados nos processos biologicos de conjunto.

te sobre centenas de milhares de pessoas, aquele mesmo Poderiamos dizer isto: tudo sucedeu como se 0 poder,

caiu sob 0 impacto de urn poder que organizava tao bem a que tinha como modalidade, como esquema organizador, a

vida, que olhava tao pouco a morte, que ele nem sequer per- soberania, tivesse ficado inoperante para reger 0 corpo eco- 298 EM DEFESA DA SOC/EDADE AULA DE 17 DE MARr;O DE 1976 299

namico e politico de uma sociedade em via, a urn so tempo, Iho de Estado (0 que prova que a disciplina nem sempre e de explosao demogcifica e de industrializa9ao. De modo que institucional). E, da mesma forma, essas grandes regula90es it velha meciinica do poder de soberania escapavam muitas globais que proliferaram ao longo do seculo XIX, nos as en- coisas, tanto por baixo quanto por cima, no nivel do detalhe contramos, e claro, no nivel estatal, mas tambem abaixo do e no nivel da massa. Foi para recuperar 0 detalhe que se deu nivel estatal, com toda urna serie de institui90es subestatais, urna primeira acomoda9ao: acpmoda9ao dos mecanismos como as institui90es medicas, as caixas de auxilio, os segu- de poder sobre 0 corpo individual, com vigiliincia e treina- ros, etc. Essa e a primeira observa9ao que eu queria fazer. mento - isso foi a disciplina. Eclaro, essa foi a acomoda9ao Por outro lado, esses dois conjuntos de mecanismos, mais facil, mais comoda de realizar. E por isso que ela se urn disciplinar, 0 outro regulamentador, nao estao no mes- realizou mais cedo - ja no seculo XVII, inicio do seculo mo nivel. Isso lhes permite, precisamente, nao se excluirem XVIII - em nivellocal, em formas intuitivas, empiricas, fra- e poderem articular-se urn com 0 outro. Pode-se mesmo di- cionadas, e no iimbito limitado de institui90es como a esco- zer que, na maioria dos casas, os mecanismos disciplinares la, 0 hospital, 0 quartel, a oficina, etc. E, depois, voces tern de poder e os mecanismos regulamentadores de poder, os em seguida, no final do seculo XVIII, urna segunda acomo- mecanismos disciplinares do corpo e os mecanismos regu- da9ao, sobre os fenomenos globais, sobre os fenomenos de lamentadores da popula9ao, sao articulados urn com 0 outro. popula9ao, com os processos biologicos ou bio-sociologi- Urn ou dois exemplos: examinem, se quiserem, 0 problema da cos das massas hurnanas. Acomoda9ao muito mais dificil, cidade, ou, mais precisamente, essa disposi9ao espacial pen- pois, e claro, ela implicava orgaos complexos de coordena- sada, concebida, que e a cidade-modelo, a cidade artificial, 9aO e de centraliza9ao. a cidade de realidade utopica, tal como nao so a sonharam,

Temos, pois, duas series: a serie corpo - organismo - mas a constituiram efetivamente no seculo XIX. Examinem disciplina - institui90es; e a serie popula9ao - processos bio- algo como a cidade operaria. A cidade operana, tal como logicos - mecanismos regulamentadores* - Estado. Urn existe no seculo XIX, 0 que e? Ve-se muito bern como ela conjunto organico institucional: a organo-disciplina da ins- articula, de certo modo perpendicularmente, mecanismos dis- titui9ao, se voces quiserem, e, de outro lado, urn conjunto ciplinares de controle sobre 0 corpo, sobre os corpos, por biologico e estatal: a bio-regulamenta9ao pelo Estado. Nao sua quadricula, pelo recorte mesmo da cidade, pela locali- quero fazer essa oposi9ao entre Estado e institui9ao atuar za9ao das familias (cada uma numa casal e dos individuos no absoluto, porque as disciplinas sempre tendem, de fato, (cada urn num comodo). Recorte, por individuos em visibi- a ultrapassar 0 ambito institucional e local em que sao con- lidade, normaliza9ao dos comportamentos, especie de con- sideradas. E, depois, elas adquirem facilmente uma dimensao trole policial espontiineo que se exerce assim pela propria estatal em certos aparelhos como a policia, por exemplo, disposi9ao espacial da cidade: toda urna serie de mecanis- que e a urn so tempo urn aparelho de disciplina e urn apare- mos disciplinares que e facil encontrar na cidade operaria.

E depois voces tern toda uma serie de mecanismos que sao,

ao contrano, mecanismos regulamentadores, que incidem so-

* Manuscrito, no Jugar de "regulamentadores": "previdenciarios". bre a POpula9ao enquanto tal e que permitem, que induzem 300 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 17 DE MARr;O DE 1976 301

comportamentos de poupan,a, por exemplo, que sao vincu- gular, tern sempre duas ordens de efeitos: urn sobre 0 corpo, lados ao habitat, a loca,ao do habitat e, eventualmente, a sua sobre 0 corpo indisciplinado que e imediatamente punido compra. Sistemas de seguro-saude ou de seguro-velhice; re- por todas as doen,as individuais que 0 devasso sexual atrai gras de higiene que garantem a longevidade 6tima da popu- sobre si. Vma crian,a que se masturba demais sera muito la,ao; press5es que a pr6pria organiza,ao da cidade exerce doente a vida toda: puni,ao disciplinar no plano do corpo. sobre a sexualidade, portanto sobre a procria,ao; as press5es Mas, ao mesmo tempo, uma sexualidade devassa, perverti- que se exercem sobre a higiene das familias; os cuidados da, etc., tern efeitos no plano da popula,ao, urna vez que se dispensados as crian,as; a escolaridade, etc. Logo, voces tern sup5e que aquele que foi devasso sexualmente tern uma mecanismos disciplinares e mecanismos regulamentadores. hereditariedade, urna descendencia que, ela tambem, vai ser

Considerem urn outro dominio - enfim, nao inteiramen- perturbada, e isso durante gera,5es e gera,5es, na setima ge- te outro -; considerem, noutro eixo, algo como a sexualidade. ra,ao, na setima da setima. E a teoria da degenerescencia4 : No fundo, por que a sexualidade se tomou, no seculo XIX, a sexualidade, na medida em que esta no foco de doen,as urn campo cuja importitncia estrategica foi capital? Eu creio individuais e uma vez que esta, por outro lado, no nucleo da que, se a sexualidade foi importante, foi por uma por,ao de degenerescencia, representa exatamente esse ponto de arti- raz5es, mas em especial houve estas: de urn lado, a sexuali- cula,ao do disciplinar e do regulamentador, do corpo e da dade, enquanto comportamento exatamente corporal, depende popula,ao. E voces compreendem entao, nessas condi,5es, de urn controle disciplinar, individualizante, em forma de por que e como urn saber tecnico como a medicina, ou me- vigilitncia permanente (e os famosos controles, por exem- Ihor, 0 conjunto constituido por medicina e higiene, vai ser plo, da masturba,ao que foram exercidos sobre as crian,as no seculo XIX urn elemento, nao 0 mais importante, mas desde 0 fim do seculo XV1Il ate 0 seculo XX, e isto no meio aquele cuja importancia sera consideravel dado 0 vinculo familiar, no meio escolar, etc., representam exatamente esse que estabelece entre as influencias cientificas sobre os pro- lado de controle disciplinar da sexualidade); e depois, por cessos biol6gicos e organicos (isto e, sobre a popula,ao e outro lado, a sexualidade se insere e adquire efeito, por seus efeitos procriadores, em processos biol6gicos amplos que concemem nao mais ao corpo do individuo mas a esse ele- 4. M. Foucault se refere aqui a teoria, elaborad.a na Fran9a, em meados

do seculo XIX, pelos alienistas, em especial por B.-A. Morel (Traite des mento, a essa unidade multipla constituida pela popula,ao.

degenerescences physiques, intellectuelles et morales de l'espece humaine, A sexualidade esta exatamente na encruzilhada do corpo e Paris, 1857; Traite des maladies mentales, Paris, 1870), por V. Magnan da popula,ao. Portanto, ela depende da disciplina, mas de- (Le{:ons cliniques sur les maladies mentales, Paris, 1893) e por M. Legrain & pende tambem da regulamenta,ao. V. Magnan (Les degeneres, eta! mental et syndromes episodiques, Paris,

A extrema valoriza,ao medica da sexualidade no secu- 1895). Essa teoria da degenerescencia, fundamentada no principio da trans- 10 XIX teve, assim creio, seu principio nessa posi,ao privi- missibilidade da tara chamada "hereditaria", foi 0 nueleo do saber medico

sobre a loucura e a anonnalidade na segunda metade do seculo XIX. Muito legiada da sexualidade entre organismo e popula,ao, entre cedo adotada pela medicina legal, ela teve efeitos consideraveis sobre as dou- corpo e fen6menos globais. Dai tambem a ideia medica se- trinas c as praticas eugenicas e nolo deixou de influenciar toda uma literatura, gundo a qual a sexualidade, quando e indisciplinada e irre- toda uma criminologia e toda uma antropologia.

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sobre 0 corpo) e, ao mesmo tempo, na medida em que a me- seu exercicio. Paradoxos que aparecem de urn lado com 0 dicina vai ser uma tecnica politica de interven9ao, com efei- poder atomico, que nao e meramente 0 poder de matar, se- tos de poder proprios. A medicina e urn saber-poder que inci- gundo os direitos que sao concedidos a todo soberano, mi- de ao mesmo tempo sobre 0 corpo e sobre a popula9ao, so- lhOes e centenas de milhOes de homens (afinal de contas, bre 0 organismo e sobre os processos biologicos e que vai, isso e tradicional). Mas 0 que faz que 0 poder at5mico seja, portanto, ter efeitos disciplinares e efeitos regulamentadores. para 0 funcionamento do poder politico atual, urna especie

De urna forma mais geral ainda, pode-se dizer que 0 de paradoxa dificil de contomar, se nao totalmente incon- elemento que vai circular entre 0 disciplinar e 0 regulamen- tomavel, e que, no poder de fabricar e de utilizar a bomba tador, que vai se aplicar, da mesma forma, ao corpo e it atOmica, temos a entrada em cena de urn poder de soberania popula9ao, que permite a urn so tempo controlar a ordem que mata mas, igualmente, de urn poder que e 0 de matar a disciplinar do corpo e os acontecimentos aleatorios de urna propria vida. De sorte que, nesse poder atomico, 0 poder que multiplicidade biologica, esse elemento que circula entre se exerce, se exerce de tal forma que e capaz de suprimir a urn e outro e a "norma". A Donna e 0 que pode tanto se vida. E de suprimir-se, em conseqiiencia, como poder de as-

aplicar a urn corpo que se quer disciplinar quanta a uma po- segurar a vida. Ou ele e soberano, e utiliza a bomba atomica,

pula9ao que se quer regulamentar. A sociedade de normali- mas por isso nao pode ser poder, biopoder, poder de assegurar

za((ao nao e, pais, nessas condi\=oes, uma especie de socie- a vida, como ele 0 e desde 0 seculo XIX. Ou, noutro limite,

dade disciplinar generalizada cujas institui95es disciplinares voces tern 0 excesso, ao contnirio, nao mais do direito sobe-

teriam se alastrado e finalmente recoberto todo 0 esp~o - rano sobre 0 biopoder, mas 0 excesso do biopoder sobre 0

essa nao e, acho eu, senao uma primeira interpretal;ao, e in- direito soberano. Esse excesso do biopoder aparece quando

suficiente, da ideia de sociedade de normaliza9ao. A socie- a possibilidade e tecnica e politicamente dada ao homem, dade de normaliza9ao e urna sociedade em que se cruzam, nao so de organizar a vida, mas de fazer a vida proliferar, de conforme uma articula9ao ortogonal, a norma da disciplina fabricar algo vivo, de fabricar algo monstruoso, de fabricar e a norma da regulamenta9ao. Dizer que 0 poder, no seculo - no limite - virus incontrolaveis e universalmente destrui- XIX, tomou posse da vida, dizer pelo menos que 0 poder, dores. Extensao formidavel do biopoder que, em contraste no seculo XIX, incumbiu-se da vida, e dizer que ele conse- com 0 que eu dizia agora ha pouco sobre 0 poder atomico, guiu cobrir toda a superficie que se estende do orgilnico ao vai ultrapassar toda a soberania hurnana. biologico, do corpo it popula9ao, mediante 0 jogo duplo das Desculpem-me esses longos percursos a respeito do tecnologias de disciplina, de urna parte, e das tecnologias de biopoder, mas eu creio que e contra esse pano de fundo que regulamenta9ao, de outra. se pode encontrar 0 problema que eu havia tentado expor.

Portanto, estamos num poder que se incurnbiu tanto do Entao, nessa tecnologia de poder que tern como objeto corpo quanta da vida, ou que se incurnbiu, se voces preferi- e como objetivo a vida (e que me parece urn dos tra90s fun- rem, da vida em geral, com 0 polo do corpo e 0 polo da po- damentais da tecnologia do poder desde 0 seculo XIX), como pula9ao. Biopoder, por conseguinte, do qual logo podemos vai se exercer 0 direito de matar e a fun9ao do assassinio, se localizar os paradoxos que aparecem no proprio limite de e verdade que 0 poder de soberania recua cada vez mais e 304 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 17 DE MARI"y'O DE 1976 305

que, ao contrfuio, avanya cada vez mais 0 biopoder disciplinar biologico. Isso vai permitir ao poder tratar urna populayiio ou regulamentador? Como urn poder como este pode matar, como uma mistura de ra~as OU, mais exatamente, tratar a es- se e verdade que se trata essencialmente de aurnentar a vida, pecie, subdividir a especie de que ele se incumbiu em sub- de prolongar sua durayiio, de multiplicar suas possibilidades, grupos que seriio, precisamente, rayas. Essa e a primeira fun- de desviar seus acidentes, ou entiio de compensar suas defi- yiio do racismo: fragmentar, fazer cesuras no interior desse ciencias? Como, nessas condiyoes, e possivel, para urn poder continuo biologico a que se dirige 0 biopoder. politico, matar, redamar a morte, pedir a morte, mandar ma- De outro lado, 0 racismo teni sua segunda funyiio: teni

a tar, dar a ordem de matar, expor morte niio so seus inimi- como papel permitir uma relayiio positiva, se voces quise- gos mas mesmo seus proprios cidadiios? Como esse poder rem, do tipo; "quanta mais voce matar, mais voce fani mar- que tern essencialmente 0 objetivo de fazer viver pode dei- rer", ou "quanto mais voce deixar morrer, mais, por iS80 xar marrer? Como exercer 0 parler da morte, como exercer a mesmo, voce viveni". Eu diria que essa relayiio ("se voce quer funyiio da morte, num sistema politico centrado no biopoder? viver, e preciso que voce faya morrer, e preciso que voce pos-

E ai, creio eu, que intervem 0 racismo. Niio quero de sa matar") afinal niio foi 0 racismo, nem 0 Estado modemo, modo algum dizer que 0 racismo foi inventado nessa epoca. que inventou. :E a rela9ao guerreira: "para viver, e preciso Ele existia hi muito tempo. Mas eu acho que funcionava de que voce massacre seus inimigos". Mas 0 racismo faz jus- outro modo. 0 que inseriu 0 racismo nos mecanismos do tamente funcionar, faz atuar essa relayiio de tipo guerreiro - Estado foi mesmo a emergencia desse biopoder. Foi nesse "se voce quer viver, e preciso que 0 outro morra" - de uma momento que 0 racismo se inseriu como mecanismo funda- maneira que e inteiramente nova e que, precisamente, e mental do poder, tal como se exerce nos Estados modemos, compativel com 0 exercicio do biopoder. De uma parte, de e que faz com que quase niio haja funcionamento moderno fato, 0 racismo vai permitir estabelecer, entre a minha vida do Estado que, em certo momento, em certo limite e em e a morte do outro, urna relayiio que niio e urna relayao mili- certas condiyoes, niio passe pelo racismo. tar e guerreira de enfrentamento, mas urna relayiio do tipo

Com efeito, que e 0 racismo? E, primeiro, 0 meio de biologico: "quanto mais as especies inferiores tenderem a de- introduzir afinal, nesse dominio da vida de que 0 poder se saparecer, quanto mais os individuos anormais forem elimi- incumbiu, urn corte: 0 corte entre 0 que deve viver e 0 que a

nados, menos degenerados haveni em relayiio especie, mais deve morrer. No continuo biologico da especie humana, 0 eu - niio enquanto individuo mas enquanto especie - vive- aparecimento das rayas, a distinyiio das rayas, a hierarquia das rei, mais forte serei, mais vigoroso serei, mais poderei pro- rayas, a qualificayiio de certas rayas como boas e de outras, liferar". A morte do outro niio e simplesmente a minha vida, ao contnirio, como inferiores, tudo iS80 vai ser uma manei- na medida em que seria minha seguranya pessoal; a morte ra de fragmentar esse campo do biologico de que 0 poder se do outro, a morte da raya ruim, da raya inferior (ou do dege- incumbiu; uma maneira de defasar, no interior da populayiio, e

nerado, ou do anormal), 0 que vai deixar a vida em geral uns grupos em relayiio aos outros. Em resumo, de estabelecer mais sadia; mais sadia e mais pura. urna cesura que seni do tipo biologico no interior de urn do- Portanto, rela<;ao nao militar, guerreira ou politica, mas minic considerado como senda precisamente urn dominio relayao biologica. E, se esse mecanismo pode atuar e por- 306 EM DEFESA DA SOC/EDADE AULA DE /7 DE MARr;:O DE /976 307

que os inimigos que se trata de suprimir nao sao os adver- ceu entre a teoria biologica do seculo XIX e 0 discurso do sirios no sentido politico do termo; sao os perigos, extemos poder. No fundo, 0 evolucionismo, entendido num sentido ou intemos, em rela9ao it popula9ao e para a popula9ao. Em lato - ou seja, nao tanto a propria teoria de Darwin quanto outras palavras, tirar a vida, 0 imperativo da morte, so e o conjunto, 0 pacote de suas n090es (como: hierarquia das admissivel, no sistema de biopoder, se tende nao it vitoria especies sobre a more comurn da evolu9ao, luta pela vida en- sobre os adversirios politicos, mas it elimina9ao do perigo tre as especies, sele9ao que elimina os menos adaptados)-, biologico e ao fortalecimento, diretarnente ligado a essa eli- tomou-se, com toda a naturalidade, em alguns anos do se- mina9ao, da propria especie ou da ra9a. A ra9a, 0 racismo, culo XIX, niio simplesmente urna maneira de transcrever em e a condi9ao de aceitabilidade de tirar a vida numa sociedade termos biologicos 0 discurso politico, niio simplesmente de normaliza9ao. Quando voces tern urna sociedade de nor- uma maneira de ocultar urn discurso politico sob urna ves- maliza9ao, quando voces tern urn poder que e, ao menos em timenta cientifica, mas realmente urna maneira de pensar as toda a sua superficie e em primeira instincia, em primeira rela90es da coloniza9iio, a necessidade das guerras, a crimi- linha, urn biopoder, pois bern, 0 racismo e indispensivel nalidade, os fenomenos da loucura e da doen9a mental, a como condi9ao para poder tirar a vida de alguem, para po- historia das sociedades com suas diferentes classes, etc. Em der tirar a vida dos outros. A fun9ao assassina do Estado so outras palavras, cada vez que houve enfrentamento, conde- pode ser assegurada, desde que 0 Estado funcione no modo na9ao it morte, luta, risco de morte, foi na forma do evolucio- do biopoder, pelo racismo. nismo que se foi for9ado, literalmente, a pensi-los.

Voces compreendem, em consequencia, a importfu1cia - E pode-se compreender tambem por que 0 racismo se eu ia dizer a importincia vital - do racismo no exercicio de desenvolve nessas sociedades modernas que funcionam ba- urn poder assim: e a condi9ao para que se possa exercer 0 di- seadas no modo do biopoder; compreende-se por que 0 racis- reito de matar. Se 0 poder de normaliza9ao quer exercer 0 mo vai irromper em certo numero de pontos privilegiados, velho direito soberano de matar, ele tern de passar pelo ra- que sao precisamente os pontos em que 0 direito a morte e cismo. Ese, inversamente, urn poder de soberania, ou seja, necessariamente requerido. 0 racismo vai se desenvolver urn poder que tern direito de vida e de morte, quer funcionar primo com a colonizar;:ao, ou seja, com 0 genocidio coloni- com os instrumentos, com os mecanismos, com a tecnolo- zador. Quando for preciso matar pessoas, matar popula90es, gia da normaliza9ao, ele tambem tern de passar pelo racis- matar civiliza90es, como se poderi faze-lo, se se funcionar mo. E claro, por tirar a vida nao entendo simplesmente 0 no modo do biopoder? Atraves dos temas do evolucionis- assassinio direto, mas tarnbem tudo 0 que pode ser assassi- mo, mediante urn racismo. nio indireto: 0 fato de expor it morte, de multiplicar para al- A guerra. Como e possivel niio so travar a guerra contra guns 0 risco de morte ou, pura e simplesmente, a morte po- os adversanos, mas tambem expor os proprios cidadiios it litica, a expulsao, a rejei9ao, etc. guerra, fazer que sejam mortos aos milh5es (como aconte-

A partir dai, eu creio que se pode compreender certo ceu justamente desde 0 seculo XIX, desde a segunda metade nillnero de coisas. Pode-se compreender, primeiro, 0 vinculo do seculo XIX), seniio, precisamente, ativando 0 tema do ra-

que rapidamente - eu ia dizer imediatamente - se estabele- cismo? Na guerra, vai se tratar de duas coisas, dai em diaute: 308 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 17 DE MARr;:O DE 1976 309

destruir nao simplesmente 0 adversano politico, mas a ra,a que seria uma especie de opera,ao ideologica pela qual os adversa, essa [especie] de perigo biologico representado, para Estados, ou uma classe, tentaria desviar para urn adversano a ra,a que somos, pelos que estao a nossa frente. E claro, mitico hostilidades que estariam voltadas para [eles] ou agi- essa e apenas, de certo modo, uma extrapola,ao biologica do tariam 0 corpo social. Eu creio que e muito mais profundo do tema do inimigo politico. No entanto, mais ainda, a guerra- que uma velha tradi,ao, muito mais profundo do que uma isto e absolutamente novo - vai se mostrar, no final do nova ideologia, e outra coisa. A especificidade do racismo seculo XIX, como uma maneira nao simplesmente de forta- modemo, 0 que faz sua especificidade, nao esta ligado a lecer a propria ra,a eliminando a ra,a adversa (conforme os mentalidades, a ideologias, a mentiras do poder. Esta ligado temas da sele,ao e da luta pela vida), mas igualmente de atecnica do poder, atecnologia do poder. Esta ligado a isto regenerar a propria ra,a. Quanto mais numerosos forem os que nos coloca, longe da guerra das ra,as e dessa inteligibi-

lidade da historia, num mecanismo que permite ao biopoder que morrerem entre nos, mais pura sera a ra,a a que perten-

exercer-se. Portanto, 0 racismo e ligado ao funcionamento cernos.

de urn Estado que e obrigado a utilizar a ra,a, a elimina,ao

Voces tern ai, em todo casa, urn racismo da guerra, novo

das ra,as e a purifica,ao da rap para exercer seu poder sobe- no final do seculo XIX, e que era, acho eu, necessitado pelo

rano. A justaposi,ao, ou melhor, 0 funcionamento, atraves fato de que urn biopoder, quando queria fazer a guerra, do biopoder, do velho poder soberano do direito de morte como poderia articular tanto a vontade de destruir 0 adver- implica 0 funcionamento, a introdu,ao e a ativa,ao do ra- sario quanta 0 risco que assumia de matar aqueles mesmos cismo. E e ai, ereio eu, que efetivamente ele se enraiza. cuja vida ele devia, por defini,ao, proteger, organizar, mul- Voces compreendem entae, nessas condi90es, como e tiplicar? Poderiamos dizer a mesma coisa a proposito da por que os Estados mais assassinos sao, ao mesma tempo, criminalidade. Se a criminalidade foi pensada em termos de for,osamente os mais racistas. E claro, ai temos de tomar 0 racismo foi igualmente a partir do momenta em que era exemplo do nazismo. Afinal de contas, 0 nazismo e, de fato, preciso tamar passivel, nurn mecanismo de biopoder, a con- o desenvolvimento ate 0 paroxismo dos mecanismos de poder dena,ao a morte de urn criminoso ou seu isolamento. Mes- novos que haviam sido introduzidos desde 0 seculo XVIII. rna coisa com a loucura, mesma coisa com as anomalias Nao ha Estado mais disciplinar, claro, do que 0 regime na- diversas. zista; tampouco ha Estado onde as regulamenta,oes biolo-

Em linhas gerais, 0 racismo, acho eu, assegura a fun- gicas sejam adotadas de uma maneira mais densa e mais ,ao de morte na economia do biopoder, segundo 0 principio insistente. Poder disciplinar, biopoder: tudo isso percorreu, de que a morte dos outros e 0 fortalecimento biologico da sustentou a muque a sociedade nazista (assun,ao do biolo- propria pessoa na medida em que ela e membro de uma ra,a gico, da procria,ao, da hereditariedade; assun,ao tambem ou de uma popula,ao, na medida em que se e elemento da doen,a, dos acidentes). Nao ha sociedade a urn so tempo numa pluralidade unitaria e viva. Voces estao vendo que ai mais disciplinar e mais previdenciaria do que a que foi im- estamos, no fundo, muito longe de um racismo que seria, plantada, ou em todo caso projetada, pelos nazistas. 0 con- simples e tradicionalmente, desprezo ou odio das ra,as umas trole das eventualidades proprias dos processos biologicos pelas outras. Tambem estamos muito longe de urn racismo era urn dos objetivos imediatos do regime. 310 EM DEFESA DA SOCIEDADE AULA DE 17 DE MAR<;O DE 1976 311

Mas, ao mesmo tempo que se tinha essa sociedade Tern-se, pais, na sociedade nazista, esta coisa, apesar de universalmente previdenciaria, universalmente segurado- tudo, extraordinma: e urna sociedade que generalizou abso- ra, universalmente regulamentadora e disciplinar, atraves lutamente 0 biopoder, mas que generalizou, ao mesmo tempo, dessa sociedade, desencadeamento mais completo do poder o direito soberano de matar. Os dois mecanismos, 0 classi- assassino, ou seja, do velho poder soberano de matar. Esse co, arcaico, que dava ao Estado direito de vida e de morte poder de malar, que perpassa todo 0 corpo social da socie- sabre seus cidadaos, e 0 novo mecanisme organizado em dade nazista, se manifesta, antes de tudo, porque 0 poder de tomo da disciplina, da regulamenta,ao, em surna, 0 novo me- matar, 0 poder de vida e de morte e dado nao simplesmente canismo de biopoder, vern, exatamente, a coincidir. De sor- ao Estado, mas a toda uma serie de individuos, a uma quan- te que se pode dizer isto: 0 Estado nazista toruou absoluta- tidade consideravel de pessoas (sejam os SA, os SS, etc.). mente co-extensivos 0 campo de uma vida que ele organiza, No limite, todos tern 0 direito de vida e de morte sobre 0 protege, garante, cultiva biologicamente, e, ao mesmo tem- seu vizinho, no Estado nazista, ainda que fosse pelo com-

po, 0 direito soberano de matar quem quer que seja - nao s6 portamento de dem\ncia, que permite efetivamente supri-

os outros, mas os seus pr6prios. Houve, entre as nazistas, mir, ou fazer suprimirem, aquele que esta a seu lado.

uma coincidencia de urn biopoder generalizado com urna

Portanto, desencadeamento do poder assassino e do po-

ditadura a urn s6 tempo absoluta e retransmitida atraves de der soberano atraves de todo 0 corpo social. 19ualmente, pelo

todo 0 corpo social pela formiditvel jun,ao do direito de ma- fato de a guerra ser explicitamente posta como urn objetivo politico - e nao meramente, no fundo, como urn objetivo po- tar e da exposi,ao it morte. Temos urn Estado absolutamen- litico para obter certo numero de meios, mas como uma es- te racista, urn Estado absolutamente assassino e urn Estado pecie de fase ultima e decisiva de todos os processos politi- absolutamente suicida. Estado racista, Estado assassino, Es- cos -, a politica deve resultar na guerra, e a guerra deve ser tado suicida. !sso se sobrepoe necessariamente e resultou, e a fase final e decisiva que vai coroar 0 conjunto. Em conse- claro, ao mesmo tempo na "solu,ao final" (pela qual se quis qiiencia, nao e simplesmente a destrui,ao das outras ra,as eliminar, atraves dos judeus, todas as outras ra,as das quais que e 0 objetivo do regime nazista. A destrui,ao das outras os judeus eram a urn s6 tempo 0 simbol0 e a manifesta,ao) ra,as e uma das faces do projeto, sendo a outra face expor dos anos 1942-1943 e depois no telegrama 71 pelo qual, em sua pr6pria ra,a ao perigo absoluto e universal da morte. 0 abril de 1945, Hitler dava ordem de destruir as condi,oes de risco de morrer, a exposi,ao it destrui,ao total, e urn dos vida do pr6prio povo alemao5 . principios inseridos entre os deveres fundamentais da obe- diencia nazista, e entre os objetivos essenciais da politica. E preciso que se chegue a urn ponto tal que a popula,ao intei- 5. Hitler, ja em 19 de marc;:o, tamara disposic;:oes para a destruic;:ao da ra seja exposta it morte. Apenas essa exposi,ao universal de infra-estrutura logistica e dos equipamentos industriais da Alemanha. Tais

disposic;:oes estao enunciadas em dais decretos, de 30 de marc;:o e de 7 de toda a popula,ao it morte podera efetivamente constitui-la

abril. Sabre esses decretos, cf. A. Speer, Erinnerungen, Berlim, Propylaen- como ra,a superior e regenera-la definitivamente perante as Verlag, 1969 (trad. fr.: Au creur du Troisieme Reich, Paris, Fayard, 1971). ra,as que tiverem sido totalmente exterminadas ou que se- Foucault certamente leu a obra de J. Fest, Hitler, Frankfurt/BerlimlViena, rao definitivamente sujeitadas. Verlag Ullstein, 1973 (trad. fro Paris, Gallimard, 1973). 312 EM DEFESA DA SOCIEDADE

AULA DE 17 DE MAR(:O DE 1976 313

SolU9ao final para as outras ra9as, suicidio absoluto da do poder, nao e apresentado e analisado por ele -, [0 socia- ra9a [alema]. Era a isso que levava essa meciinica inscrita lismo, pais,] nao pade deixar de reativar, de reinvestir esses no funcionamento do Estado modemo. Apenas 0 naZlsmo, mesmos mecanismos de poder que vimos constituirem-se e claro, levou ate 0 paroxismo 0 jogo entre 0 direito sobera-

atraves do Estado capitalista ou do Estado industrial. Em todo no de matar e os mecanismos do biopoder. Mas tal jogo esta

caso, uma coisa e certa: e que 0 tema do biopoder, desen- efetivamente inscrito no funcionamento de todos os Esta-

volvido no fim do seculo XVIII e durante todo 0 seculo XIX, dos. De todos os Estados modemos, de todos os Estados

nao s6 nao foi criticado pelo socialismo mas lambem, de fato, capitalistas? Pois bem, nao e certo. Eu creio que justamente

foi retomado por ele, desenvolvido, reimplantado, modifi- - mas essa seria uma outra demonstra9ao - 0 Estado SOCla-

cado em certos pontos, mas de modo algum reexaminado

e lista, 0 socialismo, tao marcado de racismo quanta 0 fun-

em suas bases e em seus modos de funcionamento. A ideia, em cionamento do Estado moderno, do Estado capitalista. Em

Suma, de que a sociedade ou 0 Estado, ou 0 que deve subs- face do racismo de Estado, que se formou nas condi90es de

tituir 0 Estado, tem essencialmente a fun9ao de incumbir-se que Ihes falei, constituiu-se um social-racismo que nao es-

da vida, de organiza-Ia, de multiplica-Ia, de compensar suas perou a forma9ao dos Estados socialistas para aparecer. 0

eventualidades, de percorrer e delimitar suas chances e pos- socialismo foi, logo de saida, no seculo XIX, um raClsmo. E seja Fourier", no inicio do seculo, sejam os anarquistas no final do seculo, passando por todas as formas de SOClalls- mo, voces sempre veem neles urn componente de racismo.

Ai, e muito diftcil para mim falar disso. Falar disso de

sibilidades biol6gicas, parece-me que isso foi retomado tal

qual pelo socialismo. Com as conseqiiencias que isso tem,

uma vez que nos encontramos num Estado socialista que

deve exercer 0 direito de matar ou 0 direito de eliminar, ou

I

o direito de desqualificar. E e assim que, inevitavelmente, qualquer jeito e fazer uma afirma9ao que nao admite replica.



voces VaG encontrar 0 racismo - nao 0 racismo propriamen- Demonstra-Io para voces implicaria (0 que eu quena fazer)

te etnico, mas 0 racismo de tipo evolucionista, 0 racismo uma outra bateria de aulas no fim. Em todo caso, eu gosta-

biol6gico - funcionando plenamente nos Estados socialistas ria simplesmente de dizer isto: de um modo geral, parece-

(tipo Uniao Sovietica), a prop6sito dos doentes mentais, dos

e me - ai urn pOlleD uma conversa informal - que 0 socialis-

criminosos, dos adversarios politicos, etc. Isso e tudo quan- mo, na medida em que nao apresenta, em primeira ins~ancia,

to ao Estado. os problemas economicos ou juridicos do tipo de propnedade ou do modo de produ9ao - na medida em que, em conse-

o que me parece interessante tambem, e que faz tempo

me e problem:\tico, e que, mais uma vez, nao e simplesmente qiiencia, 0 problema da meciinica do poder, dos mecanismos

no plano do Estado socialista que se encontra esse mesmo

funcionamento do racismo, mas tambem nas diferentes for-

6. De Ch. Fourier, ver sobretudo a esse respeito: Theorie des quatre mas de analise ou de projeto socialista, ao longo de todo 0 mouvements et des destinees generales, Leipzig [Lyon], 1808; Le nouveau mon- seculo XIX e, parece-me, em toma do seguinte: cada vez de industriel et soctetaire, Paris, 1829; La fausse industrie morcelie, repug- que um socialismo insistiu, no fundo, sobretudo na transfor- nante. mensongere, Paris, 1836,2 vol. ma9ao das condi90es economicas como principio de trans- 314 EM DEFESA DA SOClEDADE AULA DE 17 DE MAR90 DE 1976 315

forma,iio e de passagem do Estado capitalista para 0 Estado te ponto) niio reavaliaram - ou admitiram, se voces preferi- socialista (em outras palavras, cada vez que e1e buscou 0 rem, como sendo 6bvio - esses mecanismos de biopoder que principio da transforma,iio no plano dos processos econo- o desenvolvimento da sociedade e do Estado, desde 0 seculo micos), ele nao necessitou, pelo menos imediatamente, de XVlII, havia introduzido. Como se pode fazer urn biopoder racismo. Em compensa,iio, em todos os momentos em que funcionar e ao mesmo tempo exercer os direitos da guerra, o socialismo foi obrigado a insistir no problema da luta, da os direitos do assassinio e da fun,iio da morte, senao passan- luta contra 0 inimigo, da elimina,iio do adversano no pr6prio do pelo racismo? Era esse 0 problema, e eu acho que conti- interior da sociedade capitalista; quando se tratou, por con- nua a ser esse 0 problema. seguinte, de pensar 0 enfrentamento fisico com 0 adversario de classe na sociedade capitalista, 0 racismo ressurgiu, por- que foi a unica maneira, para urn pensamento socialista que apesar de tudo era muito ligado aos temas do biopoder, de pensar a raziio de matar 0 adversario. Quando se trata sim- plesmente de elimina-lo economicamente, de faze-lo perder seus privi1egios, niio se necessita de racismo. Mas, quando se trata de pensar que se vai ficar frente a frente com ele e que vai ser preciso brigar fisicamente com ele, arriscar a pr6pria vida e procurar mata-lo, foi preciso racismo.

Em conseqiiencia, cada vez que voces veem esses 80- cialismos, farmas de socialismo, momentos de socialismo que acentuam esse problema da luta, voces tern 0 racismo. E assim que as formas de socialismo mais racistas foram claro, 0 blanquismo, a Comuna, e foi a anarquia, muito mai~ do que a social-democracia, muito mais do que a Segunda Internacional e muito mais do que 0 pr6prio marxismo. 0 racismo socialista s6 foi liquidado, na Europa, no fim do se- culo XIX, de uma parte pela domina,iio de uma social-demo- cracia (e, temos mesmo de dizer, de urn reformismo ligado a essa social-democracia) e, da outra, por certo numero de processos como 0 caso Dreyfus na Fran,a. Mas, antes do caso Dreyfus, todos os socialistas, enfim os socialistas em sua extrema maioria, eram fundamentalmente racistas. E eu creio que eram racistas na medida em que (e terminarei nes-

Resumo do curso*

* Publicado no Annuaire du College de France, 76 e annee, Histoire des systemes de pensee, annee 1975-1976, 1976, pp. 361-6. Republicado in Dits et ecrits, 1954·1988, ed. par D. Defert & F. Ewald, colab. 1. Lagrange, Paris, Gallimard, "Bibliotheque des sciences humaines", 1994,4 vol.; cf. III, n? 187, pp. 124-30.

Para realizar a analise concreta das rela,5es de poder,

deve-se abandonar 0 modelo juridico da soberania. Este, de

fato, pressup5e 0 individuo como sujeito de direitos naturais

ou de poderes primitivos; prop5e-se 0 objetivo de explicar a

genese ideal do Estado; enfim, faz da lei a manifesta,iio fun-

damental do poder. Dever-se-ia tentar estudar 0 poder niio a

partir dos termos primitivos da rela,iio, mas a partir da pro-

pria rela,iio na medida em que ela e que determina os ele-

mentos sobre os quais incide: em vez de perguntar a sujei-

tos ideais 0 que puderam ceder de si mesmos ou de seus po-

deres para deixar-se sujeitar, deve-se investigar como as re-

la,5es de sujei,iio podem fabricar sujeitos. Assim tambem,

em vez de buscar a forma UIlica, 0 ponto central do qual de-

rivariam todas as formas de poder por conseqiiencia ou

desenvolvimento, deve-se primeiro deixa-Ias valer em sua

multiplicidade, em suas diferen,as, em sua especificidade,

em sua reversibilidade: estuda-Ias, pois, como rela,5es de for-

c;a que se entrecruzam, remetem umas as outras, convergem

ou, ao contrario, se op5em e tendem a anular-se. Enfim, em

vez de conceder urn privilegio il lei como manifesta,iio de

_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _,l,, _ 320 EM DEFESA DA SOCfEDADE RESUMO DO CURSO 321

poder, e preferivel tentar localizar as diferentes tecnicas de ·

coer,ao por ele empregadas.

Se e preciso fazer a analise do poder coincidir com 0 Aparece urn paradoxo ao primeiro olhar. Com a evolu-

esquema proposto pela constitui,ao juridica da soberania, ,ao dos Estados desde 0 inicio da Idade Media, parece que

se e preciso pensar 0 poder em termos de rela,oes de for,a, as praticas e as institui,oes de guerra seguiram urna evolu-

deve-se por isso decifra-lo segundo a forma geral da guerra? 9ao vislvel. De uma parte, elas tiveram tendencia a concen-

A guerra pode valer como analisador das rela,oes de for,a? trar-se entre as maos de urn poder central que era 0 Unico a ter

Essa questao abrange varias outras: o direito e os meios da guerra; por essa razao mesma, elas

- deve a guerra ser considerada urn estado de coisas se apagaram, nao sem lentidao, da rela,ao de homem com primeiro e fundamental em rela,ao ao qual todos os fenome- homem, de grupo com grupo, e urna linha de evolu,ao as nos de domina,ao, de diferencia,ao, de hierarquiza,ao so- conduziu a ser cada vez mais urn privilegio de Estado. De ciais deverao ser considerados como derivados? outra parte, e em conseqiiencia, a guerra tende a tornar-se 0

- os processos de antagonismos, de enfrentamentos e apanagio profissional e tecnico de urn aparelho militar cio- de lutas entre individuos, grupos ou classes dependem em samente definido e controlado. Nurna palavra: urna socie- ultima instancia dos processos gerais da guerra? dade inteiramente perpassada de rela,oes guerreiras foi sendo

- 0 conjunto das no,oes derivadas da estrategia ou da substituida aos poucos por urn Estado dotado de institui,oes tMica podem constituir urn instrumento valido e suficiente militares. para analisar as rela,oes de poder? Ora, mal estava terminada essa transforma,ao e apare-

- as instituic;5es militares e guerreiras, de uma forma ceu urn certo tipo de discurso sobre as rela,oes entre a geral os procedimentos praticados para travar a guerra, sao, sociedade e a guerra. Formou-se urn discurso sobre as rela- de perto ou de longe, direta ou indiretamente, 0 nucleo das ,oes entre a sociedade e a guerra. Urn discurso hist6rico- institui,oes politicas? juridico - muito diferente do discurso filosOfico-juridico or-

- mas a questao que se deveria formular primeiro seria denado ao problema da soberania - faz da guerra 0 pano de esta: como, desde quando e como come,ou-se a imaginar fundo permanente de todas as institui,oes de poder. Esse que e a guerra que funciona nas rela,oes de poder, que urn discurso apareceu pouco tempo depois do fim das guerras combate ininterrupto perturba a paz e que a ordem civil e de Religiao e no inicio das grandes lutas politicas inglesas fundamentalmente uma ordem de batalha? do seculo XVII. Segundo tal discurso, que foi ilustrado na In-

Foi essa a questao formulada no curso deste ano. Co- glaterra por Coke ou Lilburne, na Fran,a por Boulain- mo se enxergou a guerra na filigrana da paz? Quem procurou villiers e mais tarde por du Buat-Nan,ay, foi a guerra que no ruido e na confusao da guerra, na lama das batalhas, 0 presidiu ao nascimento dos Estados: mas nao a guerra ideal principio de inteligibilidade da ordem, das institui,oes e da - a imaginada pelos fil6sofos do estado natural-, mas guer- hist6ria? Quem pensou primeiro que a politica era a guerra ras reais e batalhas efetivas; as leis nasceram em meio a ex- continuada por outros meios? pedi,oes, a conquistas e a cidades incendiadas; mas a guer-

ra continua tambem a causar estragos no interior dos meca- 322 EM DEFESA DA SOCIEDADE RESUMO DO CURSO 323

nismos do poder, ou pelo menos a constituir 0 motor secre- funciona como privilegio para ser mantido ou restabelecido, to das institui<;oes, das leis e da ordem. Sob os esquecimentos, trata-se de fazer valer uma verdade que funciona como urna as Husoes ou as mentiras que nos fazem crer em necessida- arma. Para 0 sujeito que faz semelhante discurso, a verdade des naturais ou nas exigencias fundamentais da ordem, universal e 0 direito geral sao ilusoes ou ciladas. deve-se encontrar a guerra: ela e a cifra da paz. Ela divide permanentemente 0 corpo social inteiro; coloca cada urn de 2. Trata-se, ademais, de urn discurso que inverte os va- n6s num campo ou no outro. E essa guerra, nao basta en- lores tradicionais da inteligibilidade. Explica<;ao por baixo, contra-la como urn principio de explica<;ao; e preciso reati- que nao e a explica<;ao pelo mais simples, pelo mais ele- va-la, faze-Ia deixar as formas latentes e surdas em que ela mentar e mais claro, mas pelo mais confuso, pelo mais obs- prossegue sem que a percebamos bern e leva-Ia a uma bata- curo, pelo mais desordenado, pelo mais votado ao acaso. 0 Iha decisiva para a qual devemos preparar-nos, se quisermos que deve valer como principio de decifra<;ao e a confusao ser vencedores. da violencia, das paixoes, dos 6dios, das desforras; e tam-

Atraves dessa tematica caracterizada de urna maneira bern 0 tecido das circunstiincias miudas que fazem as derrotas muito vaga ainda, pode-se compreender a importancia des- e as vit6rias. 0 deus eliptico e sombrio das batalhas deve sa forma de analise. ilurninar as longas jornadas da ordem, do trabalho e da paz.

o furor deve explicar as harmonias. Assim e que, no princi-

1. 0 sujeito que fala nesse discurso nao pode ocupar a pio da hist6ria e do direito, farao valer uma serie de fatos posi<;ao do jurista ou do fil6sofo, ou seja, a posi<;ao do su- brutos (vigor fisico, for<;a, tra<;os de carater), urna serie de jeito universal. Nessa luta geral de que fala, ele esm for<;osa- acasos (derrotas, vit6rias, sucessos ou insucessos das conju- mente de urn lado ou do outro; esta no meio da batalha, tern ra<;oes, das revoltas ou das alian<;as). E e somente acima des- adversarios, combate por uma vit6ria. Sem duvida, procura se enredamento que se delineara urna racionalidade cres- fazer valer 0 direito; mas trata-se de seu direito - direito sin- cente, ados calculos e das estrategias - racionalidade que, gular marcado por uma rela<;ao de conquista, de domina<;ao il medida que se sobe e que ela se desenvolve, fica cada vez ou de ancianidade: direitos da ra<;a, direitos das invasoes mais fragil, cada vez mais maldosa, cada vez mais ligada il triunfantes ou das ocupa<;oes milenares. E, se ele fala tam- ilusao, a quimera, a mistificayiio. Portanto, temos at exata- bern da verdade, e daquela verdade perspeetiva e estrategica mente 0 contrano dessas anillises tradicionais que tentam que Ihe permite granjear a vit6ria. Portanto, temos ai urn dis- encontrar sob 0 acaso de aparencia e de superficie, sob a curso politico e hist6rico que tern pretensao il verdade e ao brutalidade visivel dos corpos e das paixoes, urna racionali- direito, mas excluindo-se a si pr6prio, e explicitamente, da uni- dade fundamental, permanente, vinculada por essencia ao versalidade juridico-filos6fica. Seu papel nao e aquele com justo e ao bern. que os legisladores e os fil6sofos sonharam, de S610n a Kant: estabelecer-se entre os adversanos, no centro e acima da con- 3. Esse tipo de discurso se desenvolve inteiramente na fusao, impor urn armisticio, fundar uma ordem que reconci- dimensao hist6rica. Nao empreende avaliar a hist6ria, os go- lie. Trata-se de expor urn direito atingido de dissimetria e que vernos injustos, os abusos e as vioIencias pelo principio 324 EM DEFESA DA SOCIEDADE RESUMO DO CURSO 325

ideal de uma razao ou de uma lei; mas revelar, ao contnirio, soberauia - trate-se de uma "republica de institui9ao" ou de sob a forma das institui90es ou das legisla90es, 0 passado uma "republica de aquisi9ao" - se estabelece, nao por um esquecido das lutas reais, das vitarias ou das derrotas dissi- fato de domina9ao belicosa, mas, ao contrario, por um cM- muladas, 0 saugue seco nos cOdigos. Atribui-se como cam- culo que permite evitar a guerra. Para Hobbes, a nao-guer- po de referencia 0 movimento infindavel da histaria. Mas e- ra e que funda 0 Estado e Ihe da sua forma. lhe possivel, ao mesmo tempo, apoiar-se nas formas miticas 2! A histaria das guerras como matrizes dos Estados foi tradicionais (a era perdida dos graudes ancestrais, a iminen- decerto esb09ada no seculo XVI, no final das guerras de Re- cia dos tempos novos e das desforras milenares, a vinda do ligiao (na Frau9a, por exemplo, em Hotman). Mas foi so- novo reino que apagara as antigas derrotas): e urn discurso bretudo no seculo XVII que se desenvolveu esse tipo de que sera capaz de trazer tanto a nostalgia das aristocracias aualise. Na Inglaterra, primeiro, na oposi9ao parlamentar e que se extinguem quanta 0 ardor das desforras populares. entre os puritanos, com a ideia de que a sociedade inglesa,

Em suma, em contraste com 0 discurso filosOfico-juri- desde 0 seculo XI, e uma sociedade de conquista: a monar- dico que se ordena pelo problema da soberauia e da lei, esse quia e a aristocracia, com suas institui~oes proprias, seriam discurso que decifra a permanencia da guerra na sociedade de importa9ao normanda, enquanto 0 povo saxao teria, nao e urn discurso essencialmente histarico-politico, um discur- sem dificuldade, conservado alguns vestigios de suas liber- so em que a verdade funciona como arma para uma vitaria dades primitivas. Contra esse pano de fundo de domina9ao partidaria, urn discurso sombriamente eritico e ao meSilla guerreira, historiadores ingleses como Coke ou Selden re- tempo intensamente mitico. constituem os principais episadios da histaria da Inglaterra;

cada um deles e aualisado quer como uma conseqiiencia, quer

* como uma retomada do estado de guerra historicamente

primeiro entre duas ra9as hostis e que diferem por suas ins-

o curso deste auo foi dedicado ao aparecimento desta titui90es e por seus interesses. A revolu9aO de que tais his- forma de analise: como a guerra (e seus diferentes aspectos, toriadores SaO contemporiineos, testemunhas e as vezes pro- invasao, batalha, conquista, vitaria, rela90es dos vencedores tagonistas seria, assim, a derradeira batalha e a desforra dessa com os vencidos, pilhagem e apropria9ao, subleva90es) foi velha guerra. utilizada como urn aualisador da histaria e, de um modo Encontra-se uma aualise do mesmo tipo na Fran9a, geral, das rela90es sociais? porem mais tardiamente, e sobretudo nOs meios aristocniti-

II Deve-se de inicio descartar algumas falsas paterni- cos do fim do reinado de Luis XVI. Boulainvilliers fomece- dades. E sobretudo a de Hobbes. 0 que Hobbes denomina a ra a formula9ao mais rigorosa dela: mas, dessa feita, a his- guerra de todos contra todos nao e em absoluto uma guerra taria e narrada e os direitos sao reivindicados em nome do real e histarica, mas um jogo de representa90es pelo qual vencedor; a aristocracia francesa, atribuindo-se uma origem cada qual mede 0 perigo que cada qual representa para si, germanica, outorga-se urn direito de conquista, portauto de calcula a vontade que os outros tern de lutar e avalia 0 risco posse eminente sobre todas as terras do reino e de domina- que ele praprio assumiria se tivesse recorrido a for9a. A 9ao absoluta sobre todos os habitautes gauleses ou roma- 326 EM DEFESA DA SOClEDADE

nos; mas ela se atribui tambem prerrogativas em rela9ao ao poder monarquico que s6 teria sido estabelecido na origem por seu consentimento e deveria sempre ser mantido dentra dos limites entao fixados. A hist6ria assim escrita ja nao e, como na Inglaterra, a hist6ria do enfrentamento perpetuo Situariio do curso entre vencidos e vencedores, tendo, como categoria funda- mental, a subleva9ao e as concessoes arrancadas, sera a his- t6ria das usurpa90es ou das trai90es do rei com rela9ao a no- breza da qual ele e oriundo e de seus conluios antinaturais com urna burguesia de origem galo-ramana. Esse esquema de analise retomado por Freret e sobretudo por du Buat- Nan9ay foi motivo de toda urna serie de polemicas e a oca- siao de pesquisas hist6ricas consideraveis ate a Revolu9ao.

o importante e que 0 principio da analise hist6rica seja buscado na dualidade e na guerra das ra9as. E a partir dai e por interrnedio das obras de Augustin e de Amedee Thierry que vao se desenvolver no seculo XIX dois tipos de decifra- 9ao da hist6ria: urn se articulara a partir da luta de classes, o outro, do enfrentamento biol6gico.

1

Ministrado de 7 de janeiro a 17 de man;o de 1976, entre



o lan,amento de Surveiller et punir [Vigiar e punir] (feve-

reiro de 1975) e 0 de La volante de savoir [A vontade de sa-

ber] (outubro de 1976), este curso ocupa, no pensamento e

nas pesquisas de Foucault, uma posi,ao especifica, estrate-

gica poderiamos dizer: e uma especie de pausa, de momento

de interrup,ao, de virada, decerto, em que ele avalia 0 ca-

minho percorrido e tra,a as linhas das pesquisas vindouras.

Em Em defesa da sociedade, Foucault apresenta, na

abertura do curso, e em forma de balan,o e de levantamento,

os delineamentos gerais do poder "disciplinar" - poder que

se aplica singularmente aos corpos pelas tecnicas da vigi-

liincia, pelas puni,5es normalizadoras, pela organiza,ao pa-

n6ptica das institui,5es punitivas - e esbo,a no final do curso

o perfil daquilo a que chama 0 "biopoder" - poder que se

aplica globalmente it popula,ao, it vida e aos vivos. Foi na

tentativa de estabelecer uma "genealogia" desse poder que

Foucault se interrogou depois sobre a "governabilidade", po-

der que se exerceu, desde 0 fim do seculo XVI, atraves dos

dispositivos e das tecnologias da razao de Estado e do "po-

+

330 EM DEFESA DA SOCIEDADE SITUA9AO DO CURSO 331



liciamento". A questiio das disciplinas Foucault havia con- cursos e que, portanto, sera preciso esperar ate entiio para

sagrado 0 curso de 1972-1973 (La sociere punitive [A so- tentar fazer um balan,o definitivo dela.

ciedade punitiva]), de 1973-1974 (Le pouvoir psychiatrique Foucault nunca dedicou um livro ao poder. Esbo,ou va-

[0 poder psiquilitrico]), de 1974-1975 (Les anarmaux [Os rias vezes seus delineamentos essenciais; explicou-se incan-

anormais]) e, enfim, a obra Surveiller et punir; il governabi- savelmente; niio foi avaro de advertencias e de esclarecimen-

lidade e ao biopoder ele consagraril 0 primeiro volume de tos. Ao contrario, estudou seu funcionamento, seus efeitos,

Histaire de la sexualite [Hist6ria da sexualidade] (La vo- seu "como", em numerosas analises hist6ricas que pode

lante de savoir, dezembro de 1976) e, em seguida, 0 curso realizar sabre os hospicios, a loueura, a medicina, as pri-

de 1977-1978 (Securite, territoire et population [Seguran,a, soes, a sexualidade, 0 "policiamento". A questiio do poder

territ6rio e popula,iio]), de 1978-1979 (Naissance de la bio- se espraia, pois, ao longo de todas essas analises, forma um

politique [Nascimento da biopolitica]) e 0 inicio do curso s6 todo com elas, e-Ihes imanente e, por isso mesmo, e-lhes

de 1979-1980 (Du gouvernement des vivants [Do governo indissociavel. Como a problemitica se enriqueceu sob a

dos vivos]). pressiio dos acontecimentos e ao longo de seu desenvolvi-

Como a questiio dos dois poderes, de sua especificida- mento interno, seria viio querer inseri-la a qualquer pre,o nu-

de e de sua articula,iio, era central nesse curso - junto com ma coerencia, numa continuidade linear e sem falhas. Trata-se

a da guerra como "analisador" das rela,oes de poder e a do antes, cada vez, de um movimento de retomada: Foucault,

nascimento do discurso hist6rico-politico da luta das ra,as-, por um procedimento que the e pr6prio, nunca parou ate 0

pareceu oportuno, para tentar "situa-la", evocar alguns pon- fim da vida de "reler", de tornar a situar e de reinterpretar

tos que, parece-nos, deram azo a mal-entendidos, a equivo- seus antigos trabalhos il luz dos ultimos, numa especie de

cos, a falsas interpreta,oes, a falsifica,oes algumas vezes. reatualiza,iio incessante. E por isso mesmo que ele sempre se

Trata-se, de uma parte, do nascimento da problematica do defendeu de ter querido propor uma "teoria geral" do poder,

poder em Foucault; trata-se, de outra parte, do funciona- que niio deixaram de Ihe atribuir, no que concerne, por

mento dos dispositivos e tecnologias do poder nas socieda- exemplo, ao "panoptismo". Sobre as rela,oes verdade/poder,

des liberais enos totalitarismos, do "dialogo" com Marx e saber/poder, ele dizia em 1977: "... essa camada de objetos,

Freud, a prop6sito dos processos de produ,iio e da sexuali- melhor, essa camada de rela,oes, e dificil de apreender; e

dade e, enfim, a questiio das resistencias. Empregaremos de- como niio se tem teoria geral para apreende-las, eu sou, se

poimentos diretos, tirados sobretudo dos textos reunidos em voces quiserem, um empirista cego, isto quer dizer que es-

Dits et ecrUs' . Cumpre, niio obstante, salientar que a docu- tou na pior das situa,oes. Niio tenho teoria geral e tampouco

menta,iio completa sobre a questiio do poder, dos poderes, tenho instrumento seguro" (DE, III, 216: 404). A questiio do

niio estaci disponivel antes do termino da publica,iio dos poder, dizia ele ainda em 1977, "come,ou a colocar-se em

sua nudez" por volta dos anos 1955, contra 0 pano de fundo

dessas "duas sombras gigantescas", dessas "duas heran,as

* Abrevia9ao das referencias a Dits et ecrits = DE, volume, n~ do art.: negras" que foram, para ele e para a sua gera,iio, 0 fascis-

pagina(s). mo e 0 stalinismo. "A niio-analise do fascismo e um dos

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fatos politicos importantes destes ultimos trinta anos." (DE, naO as conh.eceremos mais de novo. Fen6menos singulares, III, 218: 422.) Se a questao do seculo XIX foi a da pobreza por consegumte, mas nao se deve negar que em militos pontos - dizia ele -, a questao colocada pelo fascismo e pelo stali- f~sclsmo e stalinismo simplesmente prolongaram toda urna nismo foi a do poder: "pouquissimas riquezas" de urn lado, sene de mecan,smos que ja existiam nos sistemas sociais e "excesso de poder" do outro (cf. DE, III, 232: 536). Desde politicos do Ocidente. Afinal de contas, a organiza9ao dos os anos trinta, nos circulos trotskistas, havia-se analisado 0 grande~ parlldos,.0 desenvolvimento de aparelhos policiais, fenomeno burocr:\tico, a burocratiza9ao do Partido. A ques- a eXlstencla de tecmcas de repressao como os campos de tao do poder e retomada nos anos cinqiienta, a partir, pois, trabalho, tudo isso e uma heran9a realmente constituida das das "heran9as negras" do fascismo e do stalinismo; nesse s?cledades ocidentais liberais que 0 stalinismo e 0 fascismo momenta e que teria ocorrido a clivagem entre a antiga teo- so llveram de fazer deles." (Ibid., pp. 535-6.)

ria da riqueza, nascida do "escandalo" da miseria, e a pro- . ,~sslm, havena, entre "sociedades liberais" e Estados to-

blematica do poder. Sao os anos do relatorio Kruchev, do tahtanos, urna filia9ao bern estranha, do nonnal ao patol6-

inicio da "desestaliniza~ao", da revolta hungara, da guerra gleO, ao monstruoso mesmo, sobre a qual curnpriria, cedo ou

da Argelia. tarde, mterrogar-se. Ainda em 1982, a prop6sito dessas duas

As rela90es de poder, os fatos de domina9ao, as praticas "doen9as" do poder, dessas duas "febres" que foram 0 fas-

de sujei9ao nao sao especificos dos "totalitarismos", perpas- Clsmo e 0 stalinismo, Foucault escrevia: "Vma das numero- sam da mesma forma as sociedades denominadas "demo- sas razoes que fazem com que elas sejam tao desconcertan- craticas", aquelas que Foucault estudou em suas pesquisas tes para nos e que, a despeito de sua singularidade historica hist6ricas. Que rela9ao ha entre sociedade totalitaria e so- elas nao sao inteiramente originais. a fascismo e 0 stalinis~ ciedade democratica? Em que a racionalidade politica delas, mo. ut~lizaram e ampliaram os mecanismos ja presentes na a utiliza9ao que fazem das tecnologias e dispositivos do po- malOna das outras sociedades. Nao somente isso, mas, ape- der se parecem ou se distinguem? A prop6sito disso, Foucault sar de sua loucura intema, e1es utilizaram, numa larga me- dizia em 1978: "As sociedades ocidentais, de urn modo ge- dida, as ideias e os procedimentos de nossa racionalidade ral as sociedades industriais e desenvolvidas do fim deste politica." (DE, IV, 306: 224.) Transferencia de tecnologias e seculo, sao sociedades que sao penetradas por essa inquie- prolongamento, pois, adoenl;a, aloucura, sem contar a mons- ta9ao surda, ou mesmo por movimentos de revolta total- truosidade. "Continuidade" tambem do fascismo e do stali- mente explicitos que questionam essa especie de superpro- nismo, nas biopoliticas de exclusiio e de extennina9ao do dU9ao de poder que 0 stalinismo e 0 fascismo decerto mani- politicamente perigoso e do etnicamente impuro - biopoliti- festaram no estado nu e monstruoso." (DE, III, 232: 536.) cas introduzidas ja no seculo XVIII pelo policiamento medi- E, urn pOlleD acima, na mesma conferencia: "E claro, fas- co e assumidas, no seculo XIX, pelo darwinismo social, cismo e stalinismo correspondiam ambos a uma conjuntura pelo eugenismo, pelas teorias medico-Iegais da hereditarie- precisa e bern especifica. Decerto fascismo e stalinismo pro- dade, da degenerescencia e da ra9a; e ler-se-ao, a esse res- duziram seus efeitos em dimensoes desconhecidas ate entao peito, as considera90es de Foucault na ultima aula, a de 17 e que podemos esperar, se nao pensar racionalmente, que de mar90, de Em defesa da sociedade. Afinal de contas, um 334 EM DEFESA DA SOCIEDADE SITUA9AO DO CURSO 335

dos objetivos, sem duvida 0 objetivo essencia], desse curso a dire,ao, intensificando algumas ou atenuando outras: e mesmo a analise da utiliza,ao que 0 fascismo, sobretudo "Nao ha, pais, urn foeo u.nico de oode sairiam como que por (mas 0 stalinismo tambem), deu as biopoliticas raciais no emana,ao todas essas rela,5es de poder, mas urn emaranha- "governo dos vivos" pelo vies da pureza de sangue e da or- mento de rela,5es de poder que, em surna, torna possivel a todoxia ideol6gica. domina,ao de uma classe sobre a outra, de urn grupo sobre

Foucault manteve, a prop6sito das rela,5es entre poder o outro." (Ibid., p. 379.) "No fundo", eSCreve ainda Foucault e economia politica, uma especie de "dialogo ininterrupto" em 1978, "e verdade que a questao que eu forrnulava, eu a com Marx. Com efeito, Marx nao ignorava a questiio do forrnulava ao marxismo bern como a outras concep,5es da poder e das disciplinas, ainda que nos atenbamos apenas as hist6ria e da politica, e ela consistia nisto: as rela,5es de analises do primeiro livro de 0 capital (sobre a "jornada de poder nao representam, em compara,ao, por exemplo, com trabalho", "a divisao do trabalho e a manufatura", "as maqui- as rela,5es de produ,ao, urn nivel de realidade totalmente nas e a grande industria") e a do ultimo livro sobre 0 "pro- complexo e relativamente, mas somente relativamente, in- cesso de circula,ao do capital"; (cf. DE, IV, 297 [a. 1976]: dependente?" (DE, III, 238: 629.) E poder-se-ia entiio per-

182-201, esp. 186 ss.); assim tambem Foucault nao ignorava, guntar se 0 "capitalismo", modo de produ,ao em que vern por sua vez, as coer,5es exercidas pelos processos econo- inserir-se essas relac;oes de poder, naD representou por seu micos sobre a organiza,ao dos espa,os disciplinares. Mas, turno urn grande dispositivo de codifica,ao e de intensifi- em Marx, as rela,5es de domina,ao parecem estabelecer-se, ca,ao dessas rela,5es "relativamente autonomas" pelas seg- na fabrica, unicamente mediante 0 jogo e os efeitos da rela- menta,5es, pelas hierarquias, pela divisao do trabalho esta- ,ao "antagonista" entre 0 capital e 0 trabalho. Para Foucault, belecidas nas manufaturas, nas oficinas e nas fabricas, pe- ao contrario, essa rela,ao s6 teria sido possivel pelas sujei- las relac;oes decerto "economicas" e conflituosas entre a for- ,5es, pelos treinamentos, pelas vigiliincias produzidas e ,a de trabalho e 0 capital, mas tambem, e sobretudo, pelas administradas previamente pelas disciplinas. A esse respei- regulamenta,5es disciplinares, pela sujei,ao dos corpos, pe- to, dizia ele; "... quando se necessitou, na divisao do trabalho, las regula,5es sanitarias que adaptaram, intensificaram, do- de pessoas capazes de fazer isto, de outras capazes de fazer braram essa for,a as coer,5es economicas da produ,ao. Nao aquilo, quando se teve medo tambem de que movimentos seria 0 trabalho, portanto, que teria introduzido as discipli- populares de resistencia, ou de inercia, ou de revolta vies- nas, mas, fiuito pele contnirio, as disciplinas e as normas sem transtornar toda essa ordem capitalista que estava nas- que teriam tornado possivel 0 trabalho tal como ele se orga- cendo, enta~ foi preciso uma vigilancia precisa e concreta niza na economia chamada capitalista. sobre todos os individuos, e creio que a medicaliza,ao de Poder-se-ia dizer 0 mesmo a prop6sito da "sexualida- que eu falava esta ligada a isso" (DE, III, 212: 374). Por- de" ("dialogo", dessa vez, mas num tom mais acalorado, com tanto, nao seria a burguesia "capitalista" do seculo XIX que a medicina do seculo XIX e sobretudo com Freud). Foucault teria inventado e imposto as rela,5es de domina,ao; ela nunca negou a "centralidade" da sexualidade nos discursos as teria herdado dos mecanismos disciplinares dos seculos e nas praticas medicas a partir do inicio do seculo XVIII. Mas XVII e XVIII, e s6 teria necessitado utiliza-las, mudar-lhes descartou a ideia, anunciada por Freud e depois teorizada 336 EM DEFESA DA SOCIEDADE SITUA9A-O DO CURSO 337



pelo "freudo-marxismo", de que essa sexualidade s6 teria sido Portanto, 0 que faz a especificidade e a importancia do negada, recalcada, reprimida; muito pelo contririo, ela teria trabalho e da sexualidade, 0 que faz tambem que tenham ocasionado, segundo Foucault, toda uma prolifera,ao de dis- sido "investidos", "superinvestidos" pelos discursos da eco- cursos eminentemente positivos pelos quais, na realidade, se nomia politica, de um lado, e pelo saber medico, do outro, exerceu esse poder de controle e de normaliza,ao dos indi- e que neles, atraves deles, vieram conjugar-se, intensifican- viduos, dos comportamentos e da popula,ao, que e 0 biopo- do assim suas ascendencias e seus efeitas, tanto as rela'\toes der. A "sexualidade" nao seria, pois, 0 receptaculo dos se- do poder disciplinar quanta as tecnicas de normaliza,ao do gredos de onde se faria surgir, desde que se soubesse detec- biopoder. Esses dois poderes nao constituiriam, pois, como ta-los e decifra-Ios, a verdade dos individuos; ela e, antes, 0 se disse as vezes, duas "teorias" no pensamento de Foucault, dominio no qual, desde a campanha contra 0 onanismo das uma exclusiva da outra, uma independente da outra, uma crian,as surgida na Inglaterra na primeira metade do seculo sucessiva aDutra, mas, antes, dais modos conjuntos de fun- XVIII, se exerceu 0 poder sobre a vida em duas formas, a cionamento do saber/poder, tendo, e verdade, focos, pontos da "ani\tomo-politica do corpo humano" e a da "biopolitica de aplica,ao, finalidades e mobeis especificos; 0 treinamen- da popu]a,ao". Em tomo da sexualidade teriam vindo arti- to dos corpos, de uma parte, a regula,ao da popula,ao, da cular-se, assim, apoiando-se e refon;ando-se reciprocamente, Dutra. Ler-se-ao, a esse respeito, as amilises de Foucault so- os dois poderes, 0 das disciplinas do corpo e 0 do govemo da bre a cidade, a norma, a sexualidade na aula de 17 de mar,o popula,ao. "As disciplinas do corpo e as regulamenta,6es de Em defesa da sociedade, e 0 capitulo final "Direito de da popula,ao constituem os dois polos" - escrevia ele em morte e poder sobre a vida", de La volante de savoir. La volante de savoir - "em torno dos quais se desenvolveu a Onde ha poder, ha sempre resistencia, sendo urn organiza,ao do poder sobre a vida. A implanta,ao, no de- co-extensivo ao outro: "...desde que ha urna rela,ao de poder, correr da idade classica, dessa grande tecnologia com dupla ha uma possibilidade de resistencia. Nunca somos pegos na face - anat6mica e biologica, individualizante e especifi- armadilha pelo poder: sempre podemos modificar-lhe 0 cante, voltada para os desempenhos do corpo e olhando para dominio, em determinadas condi,6es e segundo uma estra- os processos da vida - caracteriza um poder cuja mais alta tegia precisa" (DE, III, 200: 267). 0 campo no qual se es- fun,ao talvez ja nao seja doravante a de matar, mas a de in- praia 0 poder nao e, pois, 0 de uma domina,ao "sombria e vestir a vida de parte a parte" (p. 183). Dai a importancia do estave]": "Em toda parte estamos em luta [...] e, a todo ins- sexo, nao como deposito de segredos e fundamento da ver- tante, vamos da rebeliao a domina,ao, da domina,ao a re- dade dos individuos, mas, antes, como alvo, como "mobil po- beliiio, e e toda essa agita,iio perpetua que eu gostaria de litico". Com efeito, "de um lado ele depende das disciplinas tentar fazer que aparer;a." (DE, III, 216: 407.) 0 que carac- do corpo: treinamento, intensifica,ao e distribui,ao das for- teriza 0 poder, em seus escopos e em suas manobras, seria ,as, ajustamento e economia das energias. Do outro, ele de- portanto menos uma potencia sem limites do que uma espe- pende da regula,ao das popula,6es, por todos os efeitos glo- cie de inefidcia constitutiva: "0 poder niio e onipotente, bais por ele induzidos [...] Utilizam-no como matriz das dis- onisciente, ao contrario", dizia Foucault em 1978 a respeito ciplinas e como principio das regula,6es" (ibid., pp. 191-2)Y; das analises realizadas em La volante de savoir. "Se as rela- 338 EM DEFESA DA SOCIEDADE SITUA<;:AO DO CURSO 339

90es do poder produziram formas de investiga9ao, de anali- aquela, regulamentada e codificada, do direito e da sobera- ses dos modelos de saber, foi precisamente" - acrescentava nia, do que aquela, estrategica e beiicosa, das lutas. A rela9ao ele - "porque 0 poder nao era onisciente, mas porque era entre poder e resistencia esta menos na forma juridica da cego, porque estava num impasse. Se se assistiu ao desen- soberania do que naquela, estrategica, da luta que enta~ curn- volvimento de tantas rela90es de poder, de tantos sistemas prira analisar. de controle, de tantas formas de vigilancia, foi precisamente Essa e uma linba de for9a desse curso, numa epoca em porque 0 poder era sempre impotente." (DE, III, 238: 629.) que Foucault se interessava muito pelas institui90es milita- Sendo a hist6ria 0 ardil da razao, nao seria 0 poder 0 ardil res e pelo exercito (cf. a esse respeito, DE, III, 174: 89; 200: da hist6ria, aquele que sempre ganba? - perguntava-se ele 268; 229: 515; 239: 648, e mais tarde, em 1981, IV, 297: ainda em La volante de savair. Muito peio contrario: "Isso 182-201). A pergunta que ele se fazia entao era esta: essas seria desconbecer 0 carater estritamente relacional das rela- lutas, esses enfrentamentos, essas estrategias serao analisa- 90es de poder. Elas s6 podem existir em fun9ao de uma mul- veis na forma binana e maci9a da domina9ao (dominantesl tiplicidade de pontos de resistencia: estes desempenbam, dominados) e, portanto, em ultima instiincia, da guerra? nas rela90es de poder, 0 papel de adversano, de alvo, de apoio, "Deve-se entao", escrevia ele em La volonte de savoir, "in- de saliencia onde se agarrar. Esses pontos de resistencia es- verter a f6rmula e dizer que a politica e a guerra prossegui- tao presentes em toda parte na rede do poder" (p. 126). da com Dutros meios? Talvez, se se quisesse manter sempre

Mas essa resistencia, essas resistencias, como se mani- uma distiincia entre guerra e politica, dever-se-ia adiantar, festam, que formas assurnem, como sao analisaveis? Ha que ao contriirio, que essa multiplicidade das reia90es de for9a salientar, a esse respeito e acima de tudo, isto: se 0 poder, pode ser codificada - em parte e jamais totalmente - seja na como Foucault diz nas duas primeiras aulas do curso, s6 se forma da 'guerra', seja na forma da 'politica': essas seriam desenvolve e s6 se exerce nas formas do direito e da lei, se nao duas estrategias diferentes (mas prontas para cair urna na e algo que se toma ou que se troca, se nao se constr6i a par- outra) para integrar essas rela90es de for9a desequilibradas, tir de interesses, de uma vontade, de uma inten9ao, se nao heterogeneas, instaveis, tensas" (p. 123). Objetando aos mar- se origina no Estado, se nao e, pois, dedutivel e inteligivel a xistas, a prop6sito do conceito de "luta das classes", 0 fato partir da categoria juridico-politica da soberania (mesmo de se terem interrogado mais sobre 0 que e a classe do que que 0 direito, a lei e a soberania possam representar uma es- sobre 0 que e a luta (cf. DE, III, 200: 268;206:310-311), ele pecie de codifica9ao, de fortalecimento mesmo desse poder afirmava: "0 que eu gostaria de discutir, a partir de Marx, - cf. DE, III, 218: 424; 239: 654), tampouco a resistencia, nao pertence ao problema da sociologia das classes, mas ao entao, nao e da ordem do direito, de urn direito, e vai a muito metoda estrategico referente illuta. E ai que se arraiga meu mais alem, pois, do ambito juridico daquilo a que se chamou, interesse por Marx, e e a partir dai que eu gostaria de for- desde 0 seculo XVII, 0 "direito de resistencia": ela nao se mular os problemas." (DE, III, 235: 606.) fundamenta na soberania de urn sujeito previo. Poder e re- As rela90es entre guerra e domina9ao, Foucault ja havia sistencias se enfrentam, com taticas mutaveis, m6veis, ffild- consagrado a aula de lOde janeiro do Curso de 1973 sobre tiplas, num campo de rela90es de for9a cuja 16gica e menos A saciedade punitiva. Nela denuncia a teoria de Hobbes 340 EM DEFESA DA SOCIEDADE SITUA(;:AO DO CURSO 341

sobre a "guerra de todos contra todos", analisa as rela,oes A tais questoes e consagrado, essencialmente, 0 curso

entre guerra civil e poder e descreve as medidas de defesa que publicamos aqui. Nele Foucault analisa os ternas da guer-

tomadas pela sociedade contra 0 "inimigo social" que, desde ra e da domina,ao no discurso historico-politico da luta das

o seculo XVIII, 0 criminoso se tornou. Em 1967 e 1968, ra,as nos Levellers e nos Diggers ingleses e em Boulain-

como lembra Daniel Defert em sua "Cronotogia" (DE, I: villiers: com efeito, suas narrativas da domina,ao dos nor-

30-32), Foucault lia Trotski, Guevara, Rosa Luxemburgo e mandos sobre os saxoes, depois da batalha de Hastings, e

Clausewitz. A proposito dos escritos dos Black Panthers, que dos francos germiinicos sobre os gato-romanos depois da

estava lendo na mesma epoca, ele dizia numa carta: "Eles invasao da Galia, sao fundamentadas na historia da con-

desenvolvem urna analise estrategica liberta da teoria mar- quista, que eles opoem as "fic,oes" do direito natural e ao

xista da sociedade" (ibid., p. 33). Numa carta de dezembro universalismo da lei. E ai, e nao em Maquiavet ou em

de 1972, diz querer empreender a analise das rela,oes do Hobbes, segundo Foucault, que teria origem urna forma ra- poder a partir da "mais denegrida das guerras: nem Hobbes, dical de historia, que fala de guerra, de conquista, de domi- nem Clausewitz, nem luta das classes, a guerra civil" (ibid., na,ao e que funciona como arma contra a realeza e a nobreza p. 42). Enfim, em agosto de 1974, noutra carta, escreve na Inglaterra, contra a realeza e 0 terceiro estado na Fran,a. ainda: "Meus marginais sao incrivelmente familiares e ite- Foucault, que retoma aqui, direta ou indiretamente, urna tese rativos. Vontade de me ocupar de outras coisas: economia formulada em 1936, nurn contexto teorico-politico e com politica, estrategia, politica" (ibid., p. 45). objetivos totalmente diferentes, por Friedrich Meinecke em

Sobre a eficacia do modelo estrategico para a analise Die Entstehung des Historismus, chama de "historicismo" das rela,oes de poder, Foucault parece, nao obstante, ter he- esse discurso historico-politico da conquista: discurso de sitado muito: "as processos de domina,ao nao serao mais lutas, discurso de batalhas, discurso de ra,as. A "dialetica", complexos, mais complicados do que a guerra?" pergunta- no seculo XIX, teria codificado, e portanto "neutralizado", va-se ele nurna entrevista de dezembro de 1977 (DE, III, essas lutas, depois do uso dado a elas por Augustin Thierry 215: 391). E, nas perguntas dirigidas a revista Herodote (ju- em suas obras sobre a conquista normanda e sobre a forma- Iho-setembro de 1976), ele escrevia: "A no,ao de estrategia ,ao do terceiro estado, e antes que 0 nazismo utilize a ques- e essencial quando se quer fazer a analise do saber e de suas tao racial nas politicas de discrimina,ao e de extermina,ao rela,oes com 0 poder. Sera que ela implica necessariamente que se conhecem. E, se e verdade que esse discurso histori- que atraves do saber em questao se faz a guerra?/ A estra- co-politico obriga 0 historiador a aderir a urn campo ou ao tegia nao permite analisar as rela,oes de poder como tecnica outro, afastando-se da posi,ao "mediana" - a posi,ao "de de dominar;iio?/ au devemos dizer que a domina,ao nao pas- irbitro, de juiz, de testemunha universal" (DE, III, 169: 29) sa de urna forma continuada da guerra?" (DE, III, 178: 94.) que foi a do filosofo, de Solon a Kant -, se e verdade tam- E acrescentava, urn pouco mais tarde: "A reta,ao de for,a bern que esses discursos nascem na guerra e nao na paz, ain- na ordem da politica e uma reta,ao de guerra? Pessoalmen- da assim a reta,ao biniria, introduzida nesses discursos pe- te, por ora nao me sinto pronto para responder de urn modo los fatos de domina,ao, e que 0 modelo da guerra explica, definitivo com sim ou com nao." (DE, III, 195: 206.) nao parece justificar totalmente nem a multiplicidade das 342 EM DEFESA DA SOCIEDADE SITUA9AO DO CURSO 343

lutas reais suscitadas pelo poder disciplinar nem, e ainda lido por inteiro) a prop6sito dessas rela,oes entre poderes e menos, os efeitos de govemo sobre os comportamentos pro- lutas: "Em suma, toda estrategia de enfrentamento sonha tor- duzidos pelo biopoder. nar-se estrategia de poder; e toda rela,ao de poder tende,



Ora, e mesmo para a analise deste ultimo tipo de poder tanto se segue sua propria linha de desenvolvimento quanto que se orientavam as pesquisas de Foucault depois de 1976, se se choca com resistencias frontais, a tornar-se estrategia e talvez seja essa uma das razoes, se nao de abandonar, pelo ganhadora." (Ibid., p. 242.) menos de por em discussao posteriormente a problematica Foucault levantara a questiio do poder ja em L'histoire da guerra que ainda esta no centro de Em defesa do socie- de 10 folie, poder esse que e ativo e se exerce atraves das tec- dade. Num real que e "poHlmico", "nos lutamos todos con- nicas administrativas e estatais do "grande encerramento" tra todos", dizia ele em 1977 (DE, III, 206: 311). Mas essa dos individuos perigosos (os vagabundos, os criminosos, os afirma,ao, aparentemente hobbesiana, nao deve iludir. Nao loucos). Ela sera retomada, no inicio dos anos setenta, nos e 0 grande enfrentamento binmo, a forma intensa e violenta cursos no College de France sobre a produ,ao e os regimes que as lutas assumem em certos momentos, mas somente da verdade na Grecia antiga, sobre os mecanismos punitivos em certos momentos, da hist6ria: os enfrentamentos codifi- na Europa desde a Idade Media, sobre os dispositivos de nor- cados na forma da "revolu,ao". Ii antes, no campo do po- maliza,ao da sociedade disciplinar. Mas, no segundo plano der, urn conjunto de lutas pontuais e disseminadas, uma de tudo isso, hi 0 contexto politico-militar, as "circunstancias multiplicidade de resistencias locais, imprevisiveis, hetero- hist6ricas", como as chamava Canguilhem, dos conflitos in- geneas que 0 fato maci,o da domina,ao e a l6gica binaria temacionais e das lutas sociais, na Fran,a, depois de 1968. da guerra nao conseguem apreender. No fim de sua vida, em Dessas circunstancias, nao podemos refazer aqui a his- 1982, num texto que e um pouco seu "testamento" filos6fi- toria. Lembremos brevemente, para rememorar, que eram co, em que ele tentava, como costumava fazer - e isso alias os anos da Guerra do Vietna, do "Setembro Negro" (1970) que parece ser uma das "figuras" de seu pensamento -, re- na Jordania, da agita,ao estudantil (1971) em Portugal con- pensar e dar nova perspectiva a todas essas questoes it luz tra 0 regime de Salazar, tres anos antes da "Revolu,ao dos de seus ultimos trabalhos, Foucault escrevia que seu prop6- Cravos", da ofensiva terrorista do IRA (1972) na Irlanda, da sito nao fora 0 de "analisar os fenomenos de poder, nem de recrudescencia do conflito entre arabes e israelenses com a lam;ar as bases de uma analise assim", mas, antes, produzir guerra do Kippur, da normaliza,ao da Checoslovaquia, do "uma hist6ria dos diferentes modos de subjetiva,ao do ser regime dos coroneis na Grecia, da queda de Allende no humano em nossa cultura". 0 exercicio do poder consistiria Chile, dos atentados fascistas na Itilia, da greve dos mineiros entao, segundo ele, sobretudo em "conduzir condutas", de na Inglaterra, da agonia feroz do franquismo na Espanha, da acordo com 0 modo da pastora,ao crista e da "govemamen- tomada de poder pelos khmers vermelhos no Camboja, da talidade". "0 poder", escrevia ele, "no fundo, e menos da guerra civil no Libano, no Peru, na Argentina, no Brasil e em ordem do enfrentamento entre dois adversarios, ou do com- numerosos Estados africanos. promisso de um com 0 outro, do que da ordem do 'gover- o interesse de Foucault pelo poder tern sua origem aqui: no'" (DE, IV, 306: 237). E coneluia (mas 0 texto deve ser na vigilancia, na aten,ao e no interesse com que ele seguia 344 EM DEFESA DA SOCIEDADE SITUA<;AO DO CURSO 345

o que Nietzsche denominava "die grosse Politik": a ascen- Eo nazismo - acrescentava ele - nada mais faria que "ligar", sao dos fascismos em quase toda parte no mundo, as guer- por sua vez, esse novo racismo, como meio de defesa inter- ras civis, a instaurayao das ditaduras militares, os objetivos na da sociedade contra os anormais, ao racismo elnico que geopoliticos opressivos das grandes potencias (dos Estados era endemico no seculo XIX. Unidos no Vietna, notadamente); ele se enraiza tambem, e Contra 0 pano de fundo da guerra, das guerras, das lu- sobretudo, em sua "pnitica politica" dos anos setenta, que tas e revoltas desses anos em que, como se diz, "0 tempo Ihe havia permitido apreender ao vivo, in loco, 0 funciona- estava quente", Em defesa da sociedade bern poderia ser mento do sistema carcerano, observar 0 destino reservado entao 0 ponto de encontro, a junyao, a articulayao do pro- aos detentos, estudar suas condiyoes materiais de vida, denun- blema politico do poder e da questao historica da raya: a ge- ciar as praticas da administrayao penitenciana, apoiar os neaiogia do racismo a partir dos discursos historicos sobre conflitos e as revoltas em todo lugar onde rebentavam. a luta das rayas, nO seculo XVII e no secuio XVIII, e suas

Quanto ao racismo, foi urn tema que apareceu e que foi transforrnayoes no secuIo XIX e no seculo xx. Sobre a guer- abordado nos seminanos enos cursos sobre a psiquiatria, ra, essa guerra que atravessa 0 campo do poder, poe as for- sobre as puniyoes, sobre os anormais, sobre todos esses sabe- yas em contronto, distingue amigos e adversanos, engendra res e pniticas em que, em torno da teoria medica da "dege- dominayoes e revoltas, poderiamos evocar urna "lembranya nerescencia", da teoria medico-legal do eugenismo, do dar- de inf"ancia" de Foucault, tal como ele mesmo contava, nurna winismo social e da teoria penal da "defesa social", elabo- entrevista de 1983, a respeito do "terror" de que fora tornado, ram-se, no seculo XIX, as tecnicas de discriminayao, de em 1934, por ocasiao do assassinato do chanceler Dollfuss: isolamento e de normalizayao dos individuos "perigosos": a "A ameaya da guerra era nosso pano de fundo, 0 contexto de aurora precoce das purificayoes etnicas e dos campos de nossa existencia. Depois veio a guerra. Muito mais do que as trabaIbo (que urn criminalista frances do final do secuIo XIX, cenas cia vida familiar, sao esses acontecimentos concernen- 1. Leveille, por ocasiao de urn Congresso Internacional Pe- tes ao mundo que constituem a substiincia da nossa memoria. nitenciano em Sao Petersburgo, aconselhava a seus colegas Digo 'nossa' memoria, porque estou quase certo de que a russos construirem na Siberia, como lembra 0 proprio Fou- maioria dos jovens e das jovens franceses da epoca viveram a cault; cf. DE, III, 206: 235). Nasceu urn novo racismo quan- mesma experiencia. Pesava urna ameaya sobre a nossa vida do 0 "saber da hereditariedade" - ao qual Foucault planeja- privada. Talvez seja essa a razao pela qual sou fascinado pela va consagrar suas futuras pesquisas, em seu texto de candi- historia e pela relayao entre a experiencia pessoal e os acon- datura ao College de France (cf. DE, I, n? 71: 842-846) - se tecimentos em que nos inserimos. Eesse, penso eu, 0 nueleo acoplou com a teoria psiquiatrica da degenerescencia. Diri- de meus desejos teoricos." (DE, IV; 336: 528.) gindo-se a seu auditorio, ele dizia no fim de sua ultima aula Quanto it "conjuntura intelectual" dos anos que prece- (18 de maryO de 1975) do curso de 1974-1975 sobre Os anor- dem 0 curso, anos marcados pela crise do marxismo e pela mais: "Voces veem como a psiquiatria pode efetivamente, a ascensao do discurso neoliberal, e dificil, se nao impossivel, partir da nOyao de degenerescencia, a partir das analises da saber a que obras Foucault faz referencia, implicita ou expli- hereditariedade, ligar-se, ou melhor, dar azo a urn racismo." citamente, em Em defesa da sociedade. Desde 1970 foram

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traduzidas e publicadas obras de M. Weber, H. Arendt, E. causa disso, me interessa." (DE, Ill, 212: 376-377.) Quanto

Cassirer, M. Horkheimer e T. W Adorno, A. Soljenitsyn. ao "metoda", e a respeito de L'archeologie du savoir, ele di-

Vma homenagem explicita e prestada, no curso, a Anti-(Edi- zia: "Nao tenho metodo que aplicaria da mesma forma a

pe de G. Deleuze e F. Guatari. Foucault nao mantinha, ao que dominios diferentes. Ao contrano, eu diria que e urn mes-

parece, uma caderneta de leituras e, de outro lado, nao gos- mo campo de objetos, urn dominio de objetos que tento iso-

tava do debate de autor com autor: it polemica, ele preferia lar utilizando instrumentos que encontro au eric, no mesma

a problematiza~ao (cf. DE, IV, 342: 591-598). Tambem nao momenta em que estou fazendo minha pesquisa, mas sem

podemos fazer senao urna ideia conjetural sobre a sua ma- privilegiar de modo algurn 0 problema do metodo." (DE,

neira de ler os livros, de utilizar a docurnenta~ao, de explorar Ill, 216: 404.)

as fontes (haveria todo urn trabalho a fazer sobre isso, sobre A vinte anos de distitncia, este curso nada perdeu de sua

a "fitbrica" de seus livros). Tampouco sabemos muito bern atualidade e de sua urgencia: e 0 descarte das teorias juridi- como preparava seus cursos. 0 que publicamos aqui, e cujo cas e das doutrinas politicas, incapazes de explicar bern as manuscrito pudemos consultar gra~as it cortesia e it ajuda rela~6es de poder e as rela~6es de for~a no enfrentamento de Daniel Defert, e quase inteiramente redigido. Nao obs- dos saberes e nas lutas reais; e uma releitura da epoca das tante, nao corresponde ao que foi efetivamente pronuncia- Luzes em que se deveria ver a desqualifica~ao dos saberes do: sao "blocos de pensamento" que serviam a Foucault de "menores" em proveito da centraliza9ao, da normalizay3.o, pista, de referencia, de fio condutor, e a partir dos quais em do disciplinamento de saberes dominantes, em vez do pro- geral ele improvisava, desenvolvendo e aprofundando este ou gresso da Razao; e a critica da ideia segundo a qual a histo- aquele ponto, antecipando este curso ou voltando itquele ria seria uma inven~ao e uma heran~a da burguesia ascen- outro. Temos tambem a impressao de que nao procedia com dente no seculo XVIII; e 0 elogio acentuado do "historicis- urn plano inteiramente preestabelecido, mas, antes, a partir de mo", dessa historia que fala de conquistas e de domina~6es, urn problema, de problemas, e que 0 curso se desenrolava uma "historia-batalha", no verdadeiro sentido da palavra, que portanto "fazendo-se", por urna especie de engendra~ao in- se construiu a partir da luta das ra~as em oposi~ao ao direito terior, com bifurca~6es, antecipa~6es, abandonos (por exem- natural; e, enfim, desde a transforma~ao dessa luta no seculo plo, a aula prometida sobre a "repressao" que ele nao dara e XIX, a formula~ao de urn problema, aquele da regulamenta- retomara em La volante de savoir). No tocante ao seu traba- ~ao biopolitica dos comportamentos, aquele, como memoria lho, it sua maneira de trabalhar, Foucault escrevia em 1977: recente e horizonte proximo, do nascimento e do desenvol- "Nao sou urn fi1osofo nem urn escritor. Nao fa~o urna obra, vimento do racismo e do fascismo. Os leitores de Foucault, fa~o pesquisas que sao historicas e politicas ao mesmo tempo; habituados its suas mudan~as de cenario, its suas modifica- sou arrastado muitas vezes por problemas que encontrei nurn ~6es das perspectivas com rela~ao its ideias dominantes e livro, que nao pude resolver nesse livro, tento, pois, tram-los aos saberes estabelecidos, nao ficarao surpresos. Quanto aos no livro seguinte. Ha tambem fenomenos de conjuntura que especialistas, so podemos sugerir-Ihes que nito esque~am fazem que, em dado momento, tal problema pare~a ser urn que este texto nao e urn livra, mas urn curso, e que devem problema urgente, politicamente urgente, na atualidade, e, por portanto toma-Io como tal: nao urn trabalho de erudi~ao mas,

348 EM DEFESA DA SOCIEDADE SlTUA9AO DO CURSO 349

antes, a formula91io de um problema "urgente", 0 do racis- M. Bloch, "Sur les grandes invasions. Quelques positions de mo, e a abertura de uma pista, 0 esb090 de um tra9ado genea- problemes", Revue de synthese, 1940-1945; G. Huppert, The logico, para tenlaf repensa-Io. Como le-Io entao? Poderiamos Idea ofPerfect History; Historical Erudition and Historical para isso lembrar, como conclusao, 0 que Foucault dizia em Philosophy in Renaissance France, Urbana, University of 1977; "A questiio da ~ilosofia e a questao deste presente que Illinois Press, 1970 (trad. fr.: L'idee de I'histoire parfaite, somos nos mesmos. E por isso que hoje a filosofia e intei- Paris, Flarnmarion, 1973); L. Poliakov, Histoire de I'antise- ramente politica e inteiramente historiadora. Ela e a politica a

mitisme, III: De Voltaire Wagner, Paris, Calmann-Levy, imanente it historia, e a historia indispensavel it politica." 1968, e Le mythe aryen, Paris, Calmann-Levy, 1971; c.-G. (DE, III, 200; 266.) Dubois, Celtes et Gaulois au XVI' siecle. Le developpement

d'un mythe litteraire, Paris, Vrin, 1972; A. Devyver, Le sang

· epure. Les prejuges de race chez les gentilshon;mes fran-

,ais de ['Ancien Regime, 1560-1720, Bruxelas, Editions de

Quanto aos estudos que Foucault poderia ter consulta- l'Universite, 1973; A. louanna, L'idee de race en France au do, para a prepara9ao deste curso, ficamos apenas nas hipo- XVI' siecle et au debat du XVII' siecle, tese defendida em teses. As fontes sao citadas nas notas, mas e praticamente junho de 1975 na Universidade de Paris IV e difundida pelas impossivel saber se se trata de uma leitura direta ou de um Editions Champion em 1976. emprestimo de uma obra de segunda mao. Uma bibliografia Assinalemos tambem que 0 problema da historiografia "cientifica" so poderia ser estabelecida a partir das notas que das ra9as fora apresentado, depois de Meinecke, por G. Foucault tomava cuidadosamente, uma cita9ao por folha, Lukacs no VII capitulo de Die Zerstorung der Vernunji, Ber- com referencias bibliogrificas, edi9ao, pagina; mas ele as lim, Aufbau Verlag, 1954 (trad. fr.: La destruction de la rai- classificava depois tematicamente, e nao como documenta- son, Paris, I.:Arche, 1958-1959), e em Der historische Roman, 9ao para este ou aquele volume, para este ou aquele curso. Berlim, Aufbau Verlag, 1956 (trad. fr.: Le roman historique, Esse trabalho de reconstitui9aO da "biblioteca" de Foucault Paris, Payot, 1965). est:i por fazer, e ultrapassa, em todos os casos, 0 ambito des- Lembremos igualmente, sobre a questao do mito troia- ta nota. no, dois antigos trabalhos alemaes; E. Luthgen, Die Quellen

Para abrir pistas e para orientar os leitores e os futuros und der historische I#rt der friinkischen Trojasage, Bonn, pesquisadores, limitamo-nos a assinalar, por ora, algumas R. Weber, 1876, e a tese de M. Klippel, Die Darstellung obras que se reportam a questoes levantadas no curso e que des friinkischen Trojanersagen, Marburg, Beyer und Hans estavam disponiveis na epoca em que Foucault 0 preparava. Knecht, 1936.

· "mito troiano" e hist6ria das ral;as: · Levellers e Diggers:

Th. Simar, Etude critique sur la formation de la doctri- 1. Frank, The Levellers, Cambridge Ma., Harvard Uni- ne des races, Bruxelas, Lamertin, 1922; 1. Barzun, The versity Press, 1955; H. N. Brailsford, The Levellers and the French Race, Nova York, Columbia University Press, 1932; English Revolution (editado por Ch. Hill), Londres, Cresset 350 EM DEFESA DA SOCIEDADE SITUA<;AO DO CURSO 351

Press, 1961, e sobretudo Ch. Hill, Puritanism and Revolu- Reizov, L'historiographie romantique fran,aise (1815-1830), tion, Londres, Seeker & Warburg, 1958; do mesmo autor, Editions de Moscou, 1957; S. Mellon, The Political Uses of Intellectual Origins ofthe English Revolution, Oxford, Cla- History in French Restoration, Stanford, Ca., Stanford Uni- rendon Press, 1965, e The World Turned upside down, Lon- versity Press, 1958; M. Seliger, "Augustin Thierry: Race- dres, Temple Smith, 1972. thinking during the Restoration", Journal ofHistory ofIdeas,

XIX, 1958; R. N. Smithson, Augustin Thierry: Social and

· a ideia imperial romana e a "translatio imperii" da Political Consciousness in the Evolution ofHistorical Method, Idade Media ao Renascimento: Genebra, Droz, 1972.

F. A. Yates, Astraea. The Imperial Theme in the Sixteenth Century, Londres-Boston, Routledge and Kegan · 0 "anti-semitismo" da esquerda francesa no seculo XIX: Paul, 1975 (trad. fr.: Astraea, Paris, Boivin, 1989). R. F. Byrnes, Antisemitism in Modern France, Nova

York, H. Fertig, 1969 Wed. 1950); Rabi [w. Rabinovitch],

· Boulainvilliers: Anatomie dujudafsmefran,ais, Paris, Ed. de Minuit, 1962;

R. Simon, Henry de Boulainvilliers, historien, politi- L. Poliakov, Histoire de I'antisemitisme, III, Paris, Calmann- que, philosophe, astrologue, Paris, Boivin, 1942, e Un revol- Levy, 1968. Foucault talvez conhecesse os inilmeros traba- te du grand sieele, Henry de Boulainvilliers, Garches, Ed. Ihos de E. Silbemer reunidos em volume com 0 titulo So- du Nouvel Humanisme, 1948. zialisten zur Judenfrage, Berlim, Colloquium Verlag, 1962,

e a obra de Zosa Szajkowski, Jews and the French Revolutions

· A discussao entre "romanistas" e "germanistas" a pro- of1789, 1830 and 1848, Nova York, Ktav Pub!. House, 1970 p6sito da monarquia francesa, da historiografia e da "cons- (reed. 1972). titui91io" no seculo XVIII:

E. Carcassonne, Montesquieu et Ie probleme de la cons- · Assinalemos enfim a publica91io por Gallimard, em titution fran,aise au XVIII' sieele, Paris, PUF, 1927 (Genebra, fevereiro de 1976, dos dois volumes de R. Aron, Penser la Slatkine Reprints, 1970); L. Althusser, Montesquieu. La po- guerre, Clausewitz. litique et l'histoire, Paris, PUF, 1959.

ALESSANDRO FONTANA e

· A. Thierry e a historiografia na Fran9a durante a Res- MAURO BERTANI taura91io e sob a Monarquia de Julho:

P. Moreau, L'Histoire en France au XIX' sieele, Paris, Les Belles Lettres, 1935; K. 1. Carrol, Some Aspects of the Historical Thought ofAugustin Thierry, Washington, D. C., Catholic University of American Press, 1951; F. Engel-Ja- nosi, Four Studies in French Romantic Historical Writings, Baltimore, Md., Johns Hopkins University Press, 1955; B. INDICE DAS NOC;;OES E DOS CONCEITOS

Absolutismo: 211; (eliminayao do - no socialis-

(- da monarquia francesa): mol: 314.

141-4; America: 102

(- do rei): 138, 147; Analise existencial: 8.

(-romano): 141-3, 168, 173; Amilise(s)

(constitui93.0 do - momirqui- (- hist6rica e economico-po-

co): 278; litica): 175.

(dissociay3.o entre - e roma- (- hist6rico-politicas e guer-

nidade): 244-6 ra): 185-6;

Analistas: 77-80.

(nascimento do - entre os

Anarquismo

francos): 183

(- e racismo): 312. Acaso(s)

Anatomo-politica

(- no principio da hist6ria): (- do corpo humano): 289.

64. Anomalia(s): 308; Administra~iio publica: 154-5, (nascimento do problema

165-6; da -): 291.

(- segundo Boulainvilliers): Anorrnais

154-5; (elimina9ao dos individuos

(conhecimentos da - e histo- -): 305.

ria): 162-3; Anti-lEdipe: 9.

(saber da -): 152-7. Anti-historicismo Adversario (- da burguesia): 251-3. 354 EM DEFESA DA SOCIEDADE iNDlCE DAS NOC;DES E DOS CONCEITOS 355

Antipsiquiatria: 8, 18. Barbaro: 10-4, 19, 27, 178, (tecnologia do -): 294; Ciencia(s): 45, 218; Anti-semitismo: 99-101; 233-8, 240-4; (tecnologias regulamentado- (- como policiamento disci-

(- religioso): 101. (- e selvagem): 228-35; ras do -): 297. plinar dos saberes): 218; Antropologia (~na historiografia europeia): Biopolitica: 289-94; (- e poder): 14-5;

(- nos seculos XIX e XX): 178. (- da especie hurnana): 289; (- humanas e anti-historicis-

232. Batalha(s): 23, 58-9, 106, 108- (mecanismos da -): 293-4. mol: 205-6; Aparelho(s) 9, III, 189-91; Bio-regulamenta,ao: 298. (hist6ria das -): 213-4;

(- de aprendizagem): 52; (- e nascimento das leis): 58. Burguesia: 36-9, 159, 197,248, (projeto de urna - universal):

(- de Estado): 298-9; Beneditinos: 199. 251-3,282-4; 217-8.

(- de poder): 52. Biblia: 82-3; (- e constitui,ao): 252; Classe(s): 168;

(- escolar): 51-2; (- e discursos de insurrei- (- e despotismo esclarecido): (- e classes em Montlosier):

(- militar): 55. ,ao): 83-6, 90-1. 252; 276-7; Apocalipse: 67. Binario(a) (ver tambem: Divi- (-ena,ao): 168; (- sociais, dominac;ao econo- Aristocracia: 182-3, 192; sao); (-, relac;oes de forc;a e consti- mica, economia politica):

(- e hist6ria): 251; (concep,ao - da sociedade): tui,ao): 251; 226;

(- e liberdade barbara): 243-4; 59; (inimigo de -): 97;

(anti-historicismo da -): 197,

(- e rei): 156-8;

(esquema - na ac;ao politica e (luta das -): 26, 92;

252;


na pesquisa hist6rica): 131.

(- franca e parler momirqui- (fun,Des de universalidade (luta de - e conflito de ra,a):

(oposir;ao - no corpo social):

co): 181-2; da-): 283. 72-3;

100;

(-gaulesaelgreja):183,192; (na,ao e -): 161.



Binarismo

(- guerreira): 176, 181-2; Campo epistemico Coen;5es

(- social): 86.

(- inglesa): 114; (regularidade do -): 251. (- disciplinares): 44-7.

Biologia

(nascimento da - segundo Du- Campo hist6rico-politico: 236, College de France: 3.

(ra,a, sele,Des biol6gicas, -):

bos): 241-2. 226. 251; Colonialismo Arqueologia: 16. Biol6gico (constituir;30 de - com Bou- (- interno do Ocidente): 121. Atenas: 126. (estatiza,ao do -): 286. lainvilliers): 199,204. Coloniza,ao: 121, 307 (ver

Biopoder: 289, 294, 296, 302- Capitalismo tambem: Domina((ao; Pnitica Babi16nia: 86. 9,311-5; (- industrial): 43. colonial); Barbarie (-, direito de matar e Estados Cidade (direito da -): 120;

(- e constitui,ao): 236; modemos): 311; (- operaria): 299; (politica europeia da -): 71.

(- e democracia): 243-5; (excesso do - sabre 0 direito (reativaC;30 d.a - gale-roma- Comportamento(s)

(- e revolu,ao): 237; soberano): 303; na): 253. (medicaliza,ao dos -): 46.

(desaparecimento da-): 238-9; (fabrica,ao do vivente pelo -): Cidade(s) Conhecimento(s): 12-3,35;

(filtragem da -): 236-9; 303; (- modelo): 299-300; (- e verdade): 213;

(irrup,ao da - na hist6ria): (paradoxos do -): 303; (problema da - no seculo (- sobre 0 Estado): 151;

238. (racismo e Estado no -): 306; XIX): 292, 299-300. (- sobre 0 governo): 151; 356 EM DEFESA DA SOCIEDADE

iNDICE DAS NOr;OES E DOS CONCEITOS 357

(hierarquiza<;:iio cientifica do Corpo social: 28, 44, 81-2, 100,

(- e barbarie): 243-4; (- civil e forma militar do

-): 13. 190,232,309-10.

(- parlamentares): 42; poder): 182; Conquista: 113-5, 117-8, 121, Corpo(s): 35, 42-3;

(volta a- germanica segundo (- comum da na,ao): 228;

123-4,127,129,132,281; (- e disciplina): 221, 289,

Mably): 243. (-e guerra): 150, 194-5,

(- e discurso hist6rico): 113; 298,300,302;

Derrota(s) 204-5;

(- e francos): 178; (- e poder): 42, 292;

(causas internas da-): 175; (- e hist6ria): 60-1, 168-9,

(- e govemo segundo os Le- (- e saberes): 221;

(narrativa das -): 82. 204-5,211;

vellers): 129; (- individual nas tecnologias

Descontinuidade: 16. (- e hist6ria da nobreza):

(- e rela,aes de propriedade disciplinares): 298;

Desejo(s) 157-8;

segundo os Levellers): 129; (- multiplo como objeto do

(medicaliza,ao dos -): 46. (- e poder): 19-20,29-30;

(- normanda): 115; biopoder): 292;

Despotismo esclarecido (- e soberania normanda):

(direito de - na Inglaterra): (- nas tecnologias previden-

(- e burguesia): 252. 119;

115. ciarias): 297;

Desrazao (- da coloniza,ao): 120; Consciencia: 272; (- no principie da hist6ria):

(- e verdade): 65. (- da conquista na Inglater-

(- hist6rica): 87, 93, 98; 64;

DiaJetica: 68-9, 72; ra): 115;

(nova tomada cia - de 5i entre (-, norma e popula,ao): 302;

(- como pacifica<;ao autorita- (- da nobreza): 147, 170;

a nobreza): 185. (distribui,ao espacial dos -

ria do discurso historico- (- de matar): 286-8, 303-7; Conservadorismos sociais individuais): 288.

politico): 69; (- de matar, Estados moder-

(estrategia global dos -): 73. Corte

(- e sujeito universal): 69; nos e biopoder): 312; Constitui,ao: 165,229-32,251; (- e soberano): 210.

(- e totaliza,ao): 69: (- do povo na 1nglaterra): 118;

(- e barbarie): 236; Critica: 7-11.

(- e verdade reconciliada): 69; (- imperial): 172;

(- e burguesia): 251; Cursors)

(- hegeliana): 69; (- mOTIClrquico na Fran9a no

(- fund~mental segundo Hot- (hist6rico dos - de M. Fou-

(nascimento da -): 283-4. seculo XVll): 209;

man): 144. cault): 4-6.

Diferen,a(s) (- natural): 188,252; Contradi<;ao (que e urn - ?): 3-4;

(- em Hobbes): 103-7; (- nonnando segundo os Le-

(l6gica da -): 69.

(-, guerra e hist6ria segundo vellers): 129; Contra-hist6ria: 76, 80-5, 92-5, Defesa

Boulainvilliers): 188-9. (- publico): 44-5,136,140-1,

98. (- da sociedade): 26, 73;

Diggers: 118, 127, 129-30. 148-9,164,167,195,211; Contrato: 20-2, 252, 287; (- da sociedade e guerra): 258;

Direita: 163-4; (- romano): 41, 137, 146;

(- e funda,ao da sociedade): (- da sociedade e racismo):

(pensamento de - oa Fran- (- saxao): 124-6, 170;

232; 73.

,a): 162. (fundamentos do - e guerra

(- e opressao): 24; Degenerados

Direito(s): 30-2,41,43,45-7, segundo Boulainvilliers):

(- na teoria do direito): 292; (- e especie): 305.

60-1,107-8,118-21,136-41, 186-9;

(discurso do - em Hobbes): Degenerescencia

150, 156-7, 169-70, 172-3, (sistemas opostos de - na In-

114. (teoria da -): 73, 301.

257, 286-8, 303, 309-11; glaterra): 169; Controle: 39; Democracia(s)

(- absoluto e revoltas): 132; (teoria do -): 31,41,44,232,

(- sobre 0 corpo): 300-1. (- barbara dos francos): 243-4;

(- antidisciplinar): 47; 292.

1 358 EM DEFESA DA SOCIEDADE iNDICE DAS NO<;OES E DOS CONCElTOS 359

Disciplina(s): 44-8, 292, 294, (- da revolta): 85-6; (auto-dialetiza<;iio do -): 258, (dispositivos de -): 51;

298-9 (ver tambem: Coerl'iio; (- de insurreil'iio e Biblia): 284; (operadores de -): 51-3;

Poder); 82-6, 90, 92; (dialetiza<;iio interna do -): (ordem da- e political: 257-8;

(- da enuncial'iio): 221; (- de oposil'iio): 89; 258; (sistemas da - intema em

(- e bio-regulamental'iio): 298; (- do direito): 257; (proposir;oes fundamentais Montlosier): 276-7.

(- e corpo): 221, 288-9; (- do Estado sobre 0 Esta- do -): 250; Dualidade

(- e institui<;oes): 298; do): 160; (trama epistemica do -): 250; (- das na<;oes no Estado): 141.

(- e saberes): 221; (- do rei): 118-20; (transformal'oes no -): 250; (- nacionaI): 139,227,274;

(corpo nas -): 292; (- e Jutas): 251; (virtual e real no -): 268. (- nacional em Montlosier):

(discurso das -): 45-6. (- filos6fico do tipo dialetico): Dispositivos 274-6; Disciplinamento 284; (- de dominal'iio): 51; (- nacional original segundo

(- como contrale da regula- (- mitico): 68; (- de poder): 19. A. Thierry e Guizot):

ridade das enuncia\=oes): (- revolucionario): 91-8; Divisiio(oes): 228; 270-1 ;

220-1. (- revolucionario e racismo): (- binaria): 89. (- racial na Inglaterra): 150;

(- do saber hist6rico): 222-3; 97; Doenl'a(s): 301; Dualismo

(- dos saberes): 207, 216-22; (- teo16gico-racial entre os (- como fenomeno de popu- (- nacional na Franl'a): 151. Discurso da guerra das rar;as: Levellers e os Diggers): Ial'iio): 290-1.

130; (- e sexualidade): 301; Economia

80-1,97-8.

(emburguesamento do-): 258; (- mental): 307; (- e poder): 19-21; Discurso das ral'as: 80-1,97-8.

(enfrentamentos dos -): 250; Dominal'iio: 24, 31-4, 36, 40, (- e saberes miJltiplos): 215. Discurso historico-politico: 56-

(medicaliza<;iio dos -): 46. 44,51-3, 109-10, 118, 131, Economia politica: 226.

9, 62-8;

Discurso(s) cientifico(s): 14-5; 172,187,226,275-6; Elimina~ao

(- como discurso de perspec- (- do perigo bioI6gico): 73,

(efeitos de poder do -): 14-9; (- barbara): 236;

tiva): 61; 306;

(institucionalizac;ao dos -): 14. (- burguesa): 36-8;

(generalizal'iio do -): 225; (- dos individuos anorrnais):

Discurso(s) hist6rico(s): 90-2; (- colonial): 75;

(sujeitodo-): 61; 305.

(- como conjuntos taticos di- (- e barbaro): 233-4;

(verdade no -): 61. ferentes): 250; (- e direito): 31-2, 40, 172; Encyclopedie Discurso juridico-filos6fico: 56- (- como instrumento tatico): (- e hist6ria): 132-3,273; (- e homogeneiza~ao dos sa-

9,67-9; 225; (- e liberdade entre os fran- beres tecnicos): 216.

(- e historicismo politico): (- e burguesia): 284; cos): 177-8; Enfrentamento(s): 11, 18, 22,

130-3; (- e conquista): 113; (- e poder): 201; 281;

(universalidade no -): 62. (- e Estado): 268; (- e poder segundo os Dig- (- das ral'as): 72-3; Discurso racista: 75, 94-6 (ver (- e poder): 250; gers): 130-1; (- dos discursos): 250;

tambem Racismo). (- e presente): 279-80; (- e racionalidade): 64; (- dos grupos sob 0 Estado): Discurso(s) (- e verdade): 250; (- romana): 172-3; 161-2;

(- critico): 68; (- na real'iio nobiliaria): 267; (- segundo Boulainvilliers): (- entre hist6rias): 222-3;

(- da hist6ria): 257-9; (- no seculo XV111): 267; 268-9; (- fisico no socialismo): 314. 360 iNDICE DAS NOr;OES E DOS CONCElTOS 361

EM DEFESA DA SOCIEDADE

Enuncia9ao (discurso do - sabre 0 -): Feudos (- na historiografia momir-

(disclpllna da -): 221. 159; (origem dos -): 146. quica): 240-1; Enunciado(s): 220-1. (fun<;iio totalizadora do -): Filologia (aliaoc;a entre remanos e -): Esparta: 126. (-, lingua, naclonalidades): 239-41;

265; Especie 226. (democracla barbara dos -):

(fun<;oes constitutivas do -):

(- e degenerados): 305; Filosofia: 28, 218; 243-4;

282;

(fortalecimento da ra<;a e da (- da historia): 230-1, 283-4; (mito dos -): 239;



(funda<;iio do - do tipo roma-

-): 305. (- do seculo XIX e anti-hls- (origem genmlnica dos -):

no pelos rels francos): 183; Estado(s): 34, 39, 44, 95-6. 100- toricismo): 205-6; 139.

(nascimento e decadencia dos

9,265-9,272-4,277-8,281-3, (- e guerra das ra<;as): 71-2; Freudismo: 50.

-): 140-1; Freudo-marxismo: 50.

298-9,309-13,315; (- e historia): 283-4;

(racionalidade administrativa Fuhrer: 67, 97.

(- de aquisl<;iio): 108-9; (- e saberes): 218.

do -): 204;

(- de institui<;iio): 108-9; (- political: 28, 112-3;

(racismo de -): 73,96-8,285, Galia: 145-7, 170-6, 178-81;

(- e bio-regulamenta<;iio): 298; Filosofia grega

306,312; (- franca): 180;

(- e disciplinamento dos sa- (posi<;iio mediana na -): 61.

(saber do - sobre 0 -): 154. (- prlmitiva): 146;

beres): 207-8; Fil6sofo

Estatiza9ao (- personagem da paz): 62. (- romana): 146,245;

(- e dlscurso historico): 269-

(- do biologico): 298. (- segundo Boulainvilliers):

70; Fisco

Estrangelro(s) (- e organizac;ao nobiliiria): 173-4;

(- e guerra): 55-6, 58-9, 102-3,

(expulsiio dos-): 117. 203-4. (- segundo Montlosier): 274-

107-8;

Estrategla(s): 52-3; For<;a(s): 66,105-6,187-8,200- 6;



(- e historia): 212-3, 222-3;

(- e na<;iio): 168-9, 266-8, (- globals): 52, 250. 2, 228-30, 234 (ver tambem: (mito da - romana): 173.

272; Evolucionlsmo: 72, 307. Rela<;iio das -). Gauleses: 88, 91, 142, 145-7,

(- e popula<;iio): 298-9; Exclusiio: 101; Fran<;a: 91, 135-8, 140; 149, 163;

(- e saberes): 215-6; (mecanismos de -): 38. (- e na<;iio): 264; (liberdades orlginais dos -):

(- e saberes tecnoI6gicos): Exercito: 27, 55, 190-1. (- segundo Sieyes): 264; 246.

222; (continuidade entre Rama e a Genealogia(s): 13-9;

(administra<;iio do - e inteligl- Feudallsmo: 88, 146, 181,256; -): 137-8. (- como anticiencias): 14.

bllidade da hlstoria): 203-4; (- segundo Mably): 244-5; Francos: 88, 91, 136, 138-40, (- da nobreza francesa): 91;

(analise do -): 100; (execrac;ao do - durante a 146, 150, 177, 180, 243-6, (- das lutas em Boulain-

(aparelhos de -): 40, 298-9; Revolu<;iio): 255-6; 275; villiers): 227-8;

(constitui<;:ao de urn - e 50- (inicia do - segundo Boula- (- e propriedade da Galia): (- dos saberes): 19;

cledades segundo A. Thier- invilliers): 178; 192; Genocidio: 302.

ry): 280-1; (invenc;ao do - segundo Bou- (- e soberania rcmana): 179- Germanos: 140, 147, 162, 167,

(constitui<;iio do -): 111-2, lainvilliers): 180-1; 81 ; 173,189-90,275-6;

148; (nascimento do - segundo (- na Galia segundo Mably): (- segundo Montlosier): 275.

(critica do -): 208; Dubos): 241-2. 243-4; Govemo(s): 129, lSI;

d 362 EM DEFESA DA SOCIEDADE iNDICE DAS NO,;(JES E DOS CONCEITOS 363

(- despotico seguodo Bou- (- como rela<;ao social per- (- segundo A. Thierry): 270; Historia: 61, 65, 93, 99, 133,

lainvilliers): 172; manente): 56; (- segundo Boulainvilliers): 164-6, 195-7, 202-8, 230,

(- e guerra segundo os Le- (- como trama ininterrupta 186, 194, 268; 249-51, 255,272-4, 307(ver

vellers e os Diggers): 129- da historia): 70; (denega~ao da - em Hob- tambem: Contra-hist6ria; Dis-

31; (- de Religiao): 141; bes): 111-4; curso hist6rico; Genealogia(s);

(- e na~ao): 267; (- de todos contra todos): (efeitos gerais da - sabre a Saber historico);

(espirito primitivo do -): 228. 102-3; ordem civil): 190-1; (- biblica da servidao e dos Guerra(s): 3, 22-7, 53-6, 58-9, (- e biopoder): 308; exilios): 90;

(elimina<;ao da - na nova his-

85,92,99,101-14,121,129- (- e continua~ao da political: (- ciclica): 230-1;

toria): 269;

30, 146, 176, 178-9, 181-2, 55; (- como calculo das for~as):

(estado de -): 105-8; 193;

194-5,257-8,260,273,280- (- e corpo social): 190, 194; (estatiza~ao da -): 55-6;

3,307-10; (- e direito): 194-5,204-5; (- como contra-saber da no-

(pratica da - e saber histori- breza): 157-8, 196-7;

(- como analisador da socie- (- e Estado(s»: 55-6, 102-3,

dade segundo Boulainvil- co): 205-8; (- como retomada da Revo-

107-8;


liers): 186,189; (pniticas e institui~6es de -): lu~ao): 256;

(- e fundamentos do direito

(- como analisador das rela- segundo Boulainvilliers): 55; (- como saber antiestata!):

~6es de poder): 53-4, 102; 186-9; (redu~ao da - no discurso da 223;

(- como analisador das rela- (- e historia): 66, 194-8; historia): 257-8, 282-3; (- como saber das lutas):

~6es politicas): 257; (- e institui~6es de poder): 56; (rela~6es de -): 100-1. 153;

(- como cifra da paz): 59; (- e lei): 58-9, 129-30; .Guerra civil: 130, 280-2. (- da burguesia): 282-3;

(- como conclusao da politi- (- e nascimento dos Esta- Guerra das ra~as: 100,285 (ver (- da Iuta das ra~as): 87,94,

ca no nazismo): 310; dos): 58; tambem: Luta das ra~as; Ra- 99;

(- como condi<;ao de sobrevi- (- e poder): 3, 22-6, 129, 132; ~a(s»;

(- de tipo biblico e discurso

vencia da sociedade): 258; (- e poder politico): 56-9, (- como matriz da guerra de oposi~ao): 82-5,89,91;

(- como estado perrnanente Ill; social): 70; (- e barbaro): 233-4;

segundo Boulainvilliers): (- e political: 55, 198; (- e burguesia): 197,252-3;

(- e racismo modemo): 309;

194; (- e regenera~ao da ra~a): (- e conhecimentos da admi-

(discurso da -): 75, 81-2, 88-

(- como gabarito de inteligi- 307-8; nistra~ao publica): 162-3,

9,92-3; 165-6;

bilidade dos processos his- (- e revolta): 55; (filosofia e -): 71; (- e constitui~ao): 228-30;

toricos): 285; (- e revolu~ao): 282-3;

(- como matriz da verdade do (teoria da -): 71; (- e decifra~ao da verdade):

(- e soberania): 111-2;

discurso historico): 197; (transcri<;ao biol6gica da teo- 83-4;

(- e universalidade): 280-1;

(- como matriz das tecnicas ria da -): 71. (- e direito): 60-1, 167-8,

(- nas amilises hist6rico-po-

de domina~ao): 53; liticas do soculo XVlll): Guerra social: 71-2, 258. 204-5, 210-1;

(- como principia de inteli- 185-6; (- e direito publico): 148-50;

gibilidade da sociedade): (- permanente): 59, 102; Higiene: 97, 300; (- e Estado): 212-3, 222-3;

195; (- primitiva): 103-4; (- e medicinal: 301-2. (- e filosofia): 283-4; 364 EM DEFESA DA SOCIEDADE iNDICE DAS NOr;:i)ES E DOS CONCElTOS 365

(- e fon;a): 66, 199-202; (lei da - e direito natural): (- e tragedia): 21 0-1; (- e direito publico): 148;

(-e guerra): 66, 194-7,204- 188-9; (- protestante): 167. (- e poder monarquico): 148;

5,257; (lei nao igualitaria da -): Homem (- segundo A. Thierry): 280-1;

(- e guerra segundo Bou- 188-9; (- da troca): 232; (- segundo Dubos): 239-41;

lainvilliers): 186-9; (ministerio da -): 164-6, 212, (- -especie): 289, 292, 294; (inversao da lese da -): 254-5;

(- e historicismo): 205-7; 222; (- natural): 231; (origem gennanica da -):

(- e luta das ra,as): 80-3; (nova -): 169; (- vivo): 286, 289, 292, 294; 142.

(- e luta politica): 222-3; (principio da -): 64; (regulamentac;ao dos proces- Irracionalidade

(-emonarquia): 163-6,251-2; 50S bio16gicos do - -espe- (- fundamental e verdade):

(narrativa da - e administra-

(- e natureza segundo Bou- cie): 296-7. 65.

,ao do Estado em Boula-

lainvilliers): 188-9; Homo oeconomicus: 232.

invilliers): 203-4;

(- e politica nos seculos XIX Jerusalem: 83, 86.

(narrativa da - e exercicio do

e XX): 269; Ideologia: 40. Judeus: 101, 126,311 (vertam-

poder): 159-60;

(- e poder): 66, 76-80, 83-4; Igreja: 155,159; bern: Ra,ajudia);

(sujeito da -): 159-60, 168; (hist6ria mitico-religiosa dos

(- e saber do soberano): 162-3; (- e aristocracia gaulesa):

(verdade da - e posic;ao es- -): 82.

(- e soberania): 80, 85, 167; 182-3;

trategica): 204.

(- e universalidade juridical: (- e nobreza gennanica): 184;

Historicidade (alianr;a entre - e monarquia Lei(s): 77,161,261,263-4;

61 ;


(- indo-europeia): 86-7, 93. franca): 183-4. (- como instrumentos de po-

(- genealogica): 77;

Historicismo: 205-7; Imperium der segundo os Levellers):

(- mitico-Iendaria dos roma-

(- dos Levellers e dos Dig- (- romano): 137. 127;

nos): 82;

(- mitico-religiosa dos ju- gers): 127-8; Individuo(s): 34-5; (- como legitimidade funda-

(- dos parlarnentaristas In- (- corpo): 292; mental): 50;

deus): 82;

(- na luta politica): 196-7; gleses): 127-8;· (- e poder): 34-5. (- comum): lIS;

(- romana da soberania): 91; (- e historia): 205-6; Inimigo(s): 306; (- comum e estatutos re-

(- segundo Boulainvilliers): (aoti- - e ciencias humanas): (- de c1asse): 97-8; gios): lIS;

199-204; 205-6; (- de ra,a): 97-8. (- e conquista): 127;

(- segundo Maquiavel): 201-2; (aoti- - e filosofia do seculo Institui,ao(6es): 10, 27, 31-2, (- e constitui,ao): 230;

(discurso da -): 257-8; XIX): 205-6. 54, 189-91, 298; (- e guerra): 58, 129-30;

(ensino de -): 149; Historicismo politico: 132-3; (- e disciplina): 298; (- e lutas reais): 113;

(filosofia da -): 230-1,283-4; (- e discurso juridico-filos6- (- e Estado): 298; (- fundamentais dos genna-

(fun,6es da -): 75-80, 83; fico): 132-3; (- e !utas reais): 113. nos): 143;

(gabaritos de inteligibilidade (elimina,ao do - em Hob- (- psiquiatrica): 8, 18; (- na Fran,a segundo Sieyes):

da nova -): 270-3; bes): 132-3; Internamento: 36. 264;

(inteligibilidade da - e racio- (elogio do -): 132-3. Invasao(6es): 120, 140, 148, (- original do povo saxao):

nalidade na administra~ao Historiografia: 178; 150,167,174,228,239,246, 125;

do Estado): 203-4; (- do rei): 21 0-1, 222; 274; (- saxas): 124, 130; 366 EM DEFESA DA SOC/EDADE iND/CE DAS NOr;:r)ES E DOS CONCE/TOS 367

(- saxas e soberania norman- luta): 56-9; Medicaliza,ao: 38, 46, 291. (- universal na Fran,a): 147;

da): 121-2; (- da burguesia): 248-9; Medicina (ver tambem: Tecni- (alian,a entre - franca e Igre-

(batalhas e nascimento das (- da nobreza contra a monar- cas medico-normalizadoras); ja): 183;

~): 58-9. quia e a burguesia): 170-1; (- como saber-poder): 302; (papel da - em Montlosier): Levellers: 118, 127, 130. (- de(as) classe(s): ver Clas- (- como tecnica political: 302; 276. Leviata: 34, 40,102, 107. se(s)); (- e constitui,ao): 229; Morbidade: 290-2. Liberalismo (- dos saberes tecnologicos): (- e higiene): 301. Mortalidade: 296;

(romanidade do -): 247-8. 222; (- e higiene publica): 291; (processo de -): 290, 293. Liberdade(s): 170, 177, 187-8, (- e submissiio): 24; (papel da -): 46. Morte: 110,285-8,291,295-7;

234, 246, 248-9; (- fundamental segundo Bou- Memoria: 83; (- de Franco): 296;

(- primitiva segundo Bou- lainvilliers): 227-8; (- hist6rica das revoltas na (- do outro e racismo): 305;

lainvilliers): 187; (- politica e saber historico): Inglaterra): 117; (- e biopoder): 296, 303, 305;

(constitui,ao das -): 253; 112-3, 196-7; (- perdida da nobreza): 204. (desqualificayao progressiva

(dissocial;ao entre - e germa- (- politicas inglesas do secll- Metodo da -): 294;

nidade): 245-6. 10 XVll): 56-9; (precau,oes de -): 29, 32, (direito de -): 286-7; Lingua(s): 226; (fundo civil da - e Estado pa- 34-5,40. (exposiyao it - e racismo):

(- e direito na Inglaterra): ra os historiadores do se- Minoria: 16.

306.


115; culo XIX): 269; Mito

(- e sistema do saber em (problema da - no socialis- (- troiano): 87, 135-7, 145.

Na,ao(oes): 160-1, 167-70,259-

Boulainvilliers): 183-4. mol: 314-5; Monarquia: 164-6, 251, 276-8;

(- latina e pnitica do direito): 67;

(teoria da - pela vida): 72. (- absoluta): 241;

184; (- e burguesia): 169;

Luta das ra,as: 26, 92-4, 118 (~absoluta inglesa): 114; Logos: 197. (- e classe): 161;

(ver tambem: Ra,a(s)); (- absoluta na Fran,a): 170;

(~e Estado): 168-9, 266-8, Loucura: 36-9, 307-8; (- e historia): 80-4; (- absoluta segundo Mably):

(medicaliza,ao da -): 38. 244; 272;

(discurso da -): 75-6, 81-2, Luta(s): 93-8, 113, 166, 205, 84,94-5; (- administrativa): 41; (- e na,oes segundo a nobre-

212,251; (discurso da - convertido em (- constitucional segundo Hot- za): 259-60;

(- civil e luta militar segun- discurso do poder): 72-3; man): 143-4; (- e nobreza segundo Mont-

do a nova historia): 268-9; (historia da -): 84-5, 94. (- e aristocracia segundo Ma- losier): 274-6;

(- civis na Inglaterra): 114; Luzes bly): 244; (~era,a): 161;

(~como matriz de uma his- (problematica das -): 213. (-e revollas populares): 277-8; (- e terceiro estado): 264-6,

toria): 269; (- feudal): 41; 282-3;

(~como tensao voltada auni- Magna Carta: 117, 124, 129. (- francesa): 148; (- estrangeiras dentro do Es-

versalidade do Estado): Marxismo: 8-9, 14-5, 19,314. (- francesa e invasao genna- tado): 141;

268-9; Materialismo historico: 133. nica): 239; (-, lei e legislatura): 261-4;

(- da aristocracia francesa Mathesis (- universal dos Habsburgo): (- segundo a monarquia abso-

contra a monarquia abso- (desaparecimento da -): 218. 137-9; luta): 260; 368 EM DEFESA DA SOCIEDADE

iNDICE DAS NOr;:OES E DOS CONCEITOS 369

(- segundo a rea,ao nobilia- (estado -): 104;

(esquecimento de si pela -): Origem(ns)

ria): 259-60; (homem -): 173.

185; (narrativa das -): 135-6.

(- segundo Boulainvilliers): Nazismo: 19,96-7; (genealogia da - francesa): 91; Ortologia

261,268-9; (biopoder no -): 309-12; (inven,ao tardia da -): 239; (- como disciplina da enun-

(- segundo Sieyes): 260-5; (exposi,ao a destrui,ao total (luta da - contra a monarquia cia,ao): 221.

(- sujeito e objeto da nova e-): 310; e a burguesia): 170; Dutro

historia): 168; (extenninayao das ra9as e -): (memoria perdida da -): 204; (rela,ao de tipo biologico en-

(criterios da existencia da -): 310; (rebaixamento da - pelos ro- tre eu e 0 -): 304-5.

168; (guerra, conclusao da politi- manos): 172-3;

(defini,ao juridica da -): 262; ca no -): 310; (reconstitui<;ao da - como Paixoes

(duas - na 1nglaterra): 169- (poder disciplinar e -): 311; for,a): 204; (- no principio da historia):

70; (ra<;a superior segundo 0 -): (ruina da -): 158-9; 64.

(homogeneidade da - france- 310; (saber negligenciado pela -): Particularidade

sa): 150-1; (sociedade disciplinar e pre- 204. (- e universalidade no dis-

(luta entre as -): 166; videnciciria no -): 310; Norma: 45, 73, 302; curso politico): 265-6.

(nobreza e -): 161. (suicidio absoluto da ra9a e (~ entre poderes disciplinar e Patrimonio biol6gico Nacionalidade(s): 168; -): 311. regulamentador): 302. (perigos para 0 -): 73.

(-, lingua e filologia): 226; Neutralidade Normaliza,ao: 46 (ver tambom: Paz

(movimentos das - na Eu- (- e verdade): 60-1. Tecnicas medico-nonnaliza- (- e verdade): 61-2.

ropa): 71. Nobreza: 155-7, 161-2, 168- doras); Perigo(s) Narrativa(s) 70, 197; (- da sociedade): 73; (- e defesa da sociedade):

(- da hist6ria e exercicio do (- administrativa gala-roma- (- dos comportamentos): 299; 258;

poder): 159-60; na): 172-3; (sociedade de -): 46, 302, (- internos): 297;

(- das derrotas): 81-2; (- e consciencia de si): 185, 306. (- para 0 patrim6nio biologi-

(- das origens): 136. 196-7; Norman yoke: 128. co): 73;

(- do direito): 137; (- e na,ao segundo Montlo- Normandismo: 129. (elimina,ao dos ~ biologi-

(- normandas): 115-7; sier): 274-6; Normandos: 88, 91, 117, 119- cos): 73, 306;

(- saxas): 115-7; (- e racionalidade hist6rica): 24, 129-30, 192; (inimigos enquanto - para a Narrativa historica: 160, 168; 196; (invasao e conquista da In- popuia,ao): 306;

(- e caleul0 politico): 202. (- e saber do rei): 154-8; glaterra pelos -): 179-81. (no,ao de - biologico): 97, Natalidade (- feudal em Montlosier): 101;

(fen6menos globais de -): Ordem: 63,79, 85; (ra,a como - biologico): 72-3,

274-6;

(- civil contra ordem de ba- 100-1,308.



290,293. (- gaulesa e rei): 192-3;

talha): 54. Poder(es): 19-36,38-47,49-54, Natureza, natural: 231; (- germanica e Igreja): 183-4;

Organiza9ao militar 58-9, 66, 76, 78-9, 84-5, 92,

(- e historia segundo Bou- (- segundo Boulainvilliers):

(- e ocupa,ao franca): 181-2; 110, 121, 132, 199-202,246,

lainvilliers): 188-9; 153-4, 185; (- e sociedade): 189-91. 286-9,294-9,302-7,309-10;

ii

EM DEFESA DA SOCIEDADE jNDICE DAS NOt:;OES E DOS CONCElTOS 371



370

(med.nica do - nos seculos (- e bio-regulamenta~iio): Propriedade

(- assassino): 309-10; (relar;oes de - e conquista se-

XVII e XVIII): 42; 292-3,298;

(_ atornico e biopoder): 303; gundo os Levellers): 129-

(mecanismos de -): 28, 30-1, (- e Estado): 298;

(_ de soberania): 294, 298, 30.

(medicaliza~iio da -): 291.

303; 36,59;

(re1a~iio(5es) de -): 51-2, Potencia(s) Psicanalise: 10,14-5.

(-disciplinar): 47, 217, 309; Psiquiatria (ver: Institui~iio psi-

200-1 ; (- e poderes): 49.

(_ e contrato): 20-1, 24; quiatrica).

(sistema indo-europeu de re- Povo(s): 89, 91,182,243-4;

(_ e defesa da sociedade): 26; Pureza

presenta~iio do -): 78-80, (- e reis entre os francos se-

(- e direito): 19-20, 29; gundo Mab1y): 243-4; (- da ra~a): 95, 101, 305,

85-6;


(_ e discurso hist6rico): 250; 308.

(taticas do -): 39-40; (- e soberano durante a Re-

(_ e dornina~iio): 34,40; Purificar;ao

(tecnicas de - e corpo): 287-8; volu~iio): 253-4;

(_ e domina<;;ao segundo os (tecnicas disciplinares de -): (- soberano e reis segundo (- da ra~a): 309.

Diggers): 130-1; Montlosier): 278-9; (- permanente e racismo): 73;

221-2;

(_ e institui~oes): 32-3, 46-7; (tecnicas e tecnologias de -): (direitos do - na Ing1aterra):



(_ e re1a~iio de for~a): 23, Ra~a(s): 95 (ver tambem: Guer-

35-6,287-8; 118.

199-200; (unidade do - na teoria da Presente: 271-3; ra das -; Luta das -);

(_ e repressiio): 22-4, 48, 50; soberania): 52-3. (- adversa como perigo bio-

(- como principia de inteli-

(_ e saber): 17,40,46; Poder politico: 41, 286-8; gibilidade): 272; 16gico): 307-8;

(- e sujeito): 50; (_ e guerra): 41, 56-9, Ill, (- e discurso hist6rico): 279; (- como perigo bioI6gico):

(- e verdade): 28; 151 ); (- e esquecimento do estado 307-8;

(_ individualizante): 288-9; (concep~iio juridica e liberal (- em guerra e racismo de

primitivo de guerra): 271;

(_ psiquiatrico): 25,40; do -): 19-20; (- segundo A. Thierry): 279; Estado): 97-8;

(- regio): 30-1; (concep~iio marxista do -): (desdobramento do -): 143; (- inferior): 305;

(analise do -): 21-2, 32-6, 19-20. (valor do - no discurso histo- (- judia como perigo bio16-

36-40; Policia: 97, 298. rico-politico): 271. gico): 100-1;

(carater relaciona! do - segun- Politica: 20, 22, 55,197-8,257; (- no sentido medico-bioI6-

Previdencia

do Bou1ainvilliers): 200-1; (_ como continua<;;ao da guer- (mecanismos de -): 293-4; gico): 89,94-5;

(cerirnonia do -): 208-9; ra): 55; (tecnologia biopolitica de -): (- superior no nazismo): 310;

(circula~iio do -): 34-5; (- do Principe): 70; h sele~5es bio16gicas, bio-

297.


(continuidade do -): 76-7, (_ e hist6ria nos seculos XIX 10gia): 226;

Previdencia(s): 298;

84-5; e XX): 269; (binarismo das -): 26;

(mecanismos de -): 291;

(discurso do - e teoria biolo- (constitui~iio da-): 172;

(sistemas de -): 300. (conceito de -): 26;

gica): 306-7; (tim da -): 23. (conflito de - e guerra de

Principe: 201;

(dispositivos de -): 19; Popu1a~iio: 290-1, 293-4, 306-8;

(saber do -): 151-2. classe): 71-2;

(fonna rni1itar do - e organiza- (_ como objeto dos mecanis-

Produ~iio (desdobramento de urna -):

~iio do direito civil): 182; mos regu1arizadores): 302;

(- capitalista): 37. 72-2;

(limites do -): 28; (-, corpo e nonna): 302-3;

- 372 EM DEFESA DA SOCIEDADE

iNDICE DAS NOr;xJES E DOS CONCEITOS 373

(destruiyao da - adversa): (- como ideologia): 39-40; (- e ra,as em guerra): 97. (- segundo Boulainvilliers):

307-8; (- sovi6tico): 97; 196-7;

(- da guerra): 308-9;

Rea9ao nobiliaria: 164. (- segundo Maquiavel): 196.

(discurso das -): 80-1, 97-8; (- e anarq~ismo): 311;

(elimina,ao das -): 308-9; Reconciliac;iio Representa,ao(6es): 106-8;

(- e biopoder): 303-7;

(enfrentamento das -): 71-2; (- e guerra): 279-80; (jogo das - ca!culadas): 105-6.

(- e coloniza,ao): 307; Repressao

(extenninac;iio das - no na- (- e revolu,ao): 279-82.

(- e defesa da sociedade): (- e poder): 21-5,47-8,50-1;

zismo): 310; Rei: 30-2, 152-8, 176, 178-9,

72-3; (conceito de -): 21-3, 38, 47-8;

(fortalecimento da - e da es- 181-2,241;

(- e direito de morte, de ma- (noc;ao de - na analise politi-

pecie): 25; (- e aristocracia segundo Ma-

tar): 306-9; bly): 244-5; co-psicologica): 50.

(guerra das -): 71-2, 100-1, (- e discurso revolucionirio): Republica

285, 308-9; (- e direito cesareo): 241;

95-6; (- e imperador): 254; (- de aquisi,ao): 108-11;

(guerra e regenerayao de sua (- e Estado): 308-9; (- de institui,ao): 107-8, Ill.

propria -): 307-8; (- e pavo entre os francos

(- e fortalecimento de uma segundo Mably): 244-5; Revolta(s): 117, 129, 131-2,247,

(inimigo de -): 97-8; popula,ao): 308-9; 249,277;

(integridade da -): 94-5; (- e revoltas): 278-9;

(- e fuoc;ao assassina do Es- (- enquanto magistrado ci- (- e abusos): 124;

(luta das -): 22-3, 92-6, 117-8; (- e direito absoluto): 132;

tado no biopoder): 306; vil): 181-2;

(prote,ao biologica da -): (- e guerra): 129-30;

94-5;

(- e genocidio colonizador): (~orpo do - e suditos): 259-



307; (- raciais): 117-8;

(regenera9ao da - e guerra): 60;

(- e guerra): 307-8; (- segundo Bou1ainvilliers):

307-8; (direito do -): 137;

192;

(- e na,ao): 161; (historiografia do -): 21 0-1,



(sub- -): 89; (discurso da -): 85-6.

(- e purifica<;;iio pennanen- 222-3.

(sub- - e perigos biologicos): Revolu,ao: 42, 91, 93, 230;

72-3; te): 72-3; Reich: 97;

(- burguesa inglesa): 56;

(suicidio absoluto da - no (-e socialismo): 312-5; (Terceiro -): 67.

(- como cielo e como volta):

nazismo): 312; (- e tecnologia do poder): Relac;iio de domina<;iio (ver: Do- 253.

(superioridade da -): 94-5; 308-9; mina<;ao). (- da historia): 230-1;

(teoria das -): 71-2, 118. (- moderno e guerra das ra- Rela,ao de(as) for,a(s): 22-4, (- e barbarie): 236-8; Racionalidade ,as): 308-9; 53,104-5,108-9,112,188-9, (- e constitui,ao): 228-30;

(- e domina,ao): 64; (-religioso): 100-1; 204,227-30; (- e guerra): 281-2;

(- e ilusao): 64; (- socialista e social-demo- (- como objeto hist6rico-po- (- e reconcilia,ao): 279-80;

(- estrategica): 64; cracia): 314-5; litico): 196-7; (- e romanidade): 247-8;

(- historica e nobreza): 197-8; (- tradicional): 308-9; (- como substancia da hist6- (- francesa): 225-6, 278;

(potencia da -): 197-8. (exposic;iio a morte no -): ria): 202; (- francesa e hist6ria das ra- Racismo: 75, 94-7, 99 (ver tam- 306; (- e rela,6es de verdade): ,as): 255-6;

bern: Discurso racista); (historia do -): 99-100. 61-2; (- francesa e monarquia):

(- biologico): 96-7; Racismo de Estado: 72-3,96-8, (- fundamental na nova his- 278-9;

(- biologico-social): 72; 285,309; toria): 271-2; (- inglesa): 89, 124, 128;

374 EM DEFESA DA SOCIEDADE INDICE DAS NOr;OES E DOS CONCEITOS 375 Roma: 83, 86-8, 98, 136-9, 143; (- do soberano e historia): Saberes (colonizay3o do - pela mo-

(continuidade entre - e a 162-3; (- e corpo): 221-2; narquia): 165-6;

Fran,a): 137-8; (- e desordem): 207; (- e disciplina): 221-2; (reativa,ao dos - pela bur-

(louvor de -): 167; (- e ordem): 207; (- e Estado): 215-6; guesia): 252;

(reativa,ao da - republicana (- e paz): 207; (- multiplos e economia): (regulariza,ao do -): 250;

durante a Revolu,ao): 253. (- e poder): 18,40,46; 214-5; Romance (taticas do -): 226-7;

(- e sujeitos): 250; (- tecnicos): 214-6; (valor politico do -): 165-6.

(- e norma): 209. (- tecnologicos multiplos): Sax6es: 91,117,122,126,192.

(- e violencia): 207;

(- gotico): 255-6; 222;

(- juridico): 157-8; Sele,6es biologicas: 226. Romanidade (centraliza,ao dos -): 216-7; Selvagem: 232-4;

(-local e diferencial): 12;

(- como mobil para a bur- (combate dos - na epoca das

(- medico no seculo XVllI): (- e barbaro): 233-4;

guesia): 247-8. Luzes): 213-4;

216-7; (- e troca): 234.

(- e liberalismo): 247-8; (disciplinarnento dos -): 217-

(- negligenciado pela nobre- Servidao

(- e revolu,ao): 247-8; 23; Romanos: 142, 172-4, 240-2, za): 204; (historia biblica da -): 90-1;

(efeitos de poder dos -): 214;

246; (- ocidental e ideia platoni- (historia da -): 85-6.

(genealogia dos -): 13-6,

(sistema juridico-politico dos cal: 207; 213-4; Sexualidade

-): 147; (- tecno16gico no seculo (hierarquiza,ao dos -): 216-7; (-, corpo e popula,ao): 300;

(sistema politico dos - segun- XVIII): 213-6; (insurrei,ao dos -): 12-3; (- e doen,as): 300-2;

do a historiografia dos se- (aparelhos e instrumentos de (insurreiyao dos - sujeita- (controle da -): 36-9;

culos XVllI-XIX): 246-7. -): 38-9; dos): 11; (controle disciplinar da -): Rousseaunismo (apelo il recupera,ao do - (tuta econ6mico-politica em 300;

(- da burguesia): 253. por Boulainvilliers): 185; torna dos - no securo (medicaliza,ao da -): 38; Ruptura (critica do - do intendente XVllI): 214-5; (regulamenta,ao da -): 300;

(- profetica): 82; em Boulainvilliers): 202; (normaliza,ao dos -): 215-6. (valoriza,ao medica da -):

(momento da - do direito pu- (disciplinamento dos -): 207, Saber(es) historico(s): 161,201, 300-2.

blico): 167. 217-23; 205-6; (vigilancia da -): 300;

(sistema do - e lingua em (- como arma discursiva): Sistema indo-europeu Saber Boulainvilliers): 183-4; 225; (- de representa,ao do poder):

(- administrativo): 158-9; (utiliza,ao do - administrativo (- como anna na guerra): 78-80, 85-6.

(- do escrivao): 157-9; 206-8; Soberania: 30-2, 79, 85, 99,

contra a monarquia abso-

(- do Estado sobre 0 Estado): (- como arma political: 165-6; 108-15, 137, 167;

luta): 202.

153-4; (- como instrumento de luta (- de aquisi,ao): 108-10;

(volta do -): 11-3;

(- do intendente): 158-9; entre a nobreza): 162-3; (- de institui,ao): 107-8;

Saber/Poder: 155, 226;

(- do principe): 151-2; (- das guerras): 113; (- do Estado): 95-6;

(- administrativo): 163;

(-do rei): 154-7; (- e guerra): 206; (- do pavo entre os genna-

(- segundo Boulainvilliers):

(- e luta political: 113, 205; nos): 143;

(- do rei e nobreza): 154-7; 185.

(- na Europa): 91-2; (- do rei da Fran,a): 137; 376 EM DEFESA DA SOCfEDADE iNDfCE DAS NOr;:DES E DOS CONCEfTOS 377

(~e pavo segundo Montlo- (enfrentamento fisico no -): (constitui<;5es dos -): 35; (- estatal): 279-80;

sier): 278-9; 312-5; (fabrica<;ao dos -): 52; (- nacional e universalidade

(- e vontade): 113-4; (eliminaf;ao do adversario no (nobreza como - da hist6ria do Estado): 268.

(- na tragectia classical: 21 0-1; -): 312-5. segundo Boulainvilliers): Totalizayao

(- nonnanda e leis saxas): Sociedade: 160, 258 (ver tam- 185. (- e dialetica): 68-9;

121-2; bern: Defesa da -); Sujei<;ao(5es): 26; (- e historia): 272-3.

(- racismo e Estado): 308-9; (- e constitui<;ao de urn Es- (procedimentos de -): 32-6, (- estatal segundo A. Thierry):

(- romana e francos): 178-81; tado segundo A. Thierry): 40; 279-80;

(- romana): 173-4; 281-2; (rela<;oes de -): 51-2; (- nacional): 280;

(modelo juridico da -): 49- (- e norrnaliza<;ao): 45-6, (tecnicas de -): 52. Trabalho

52,200-1 ; 305-6; (tecnologia disciplinar do -):

(poder de -): 294, 298, 303; (- e organiza<;ao militar): 189- Tatica(s): 53 27.

(rela<;ao(5es) de -): 109; 92; (- de intimida<;ao): 105. Tragedia(s)

(teoria da -): 34, 40-4, 49- (- urbana e capacidade admi- (- discursivas): 251; (- de Racine): 209;

52,285-7, nistrativa): 281-2; (- discursiva e ideologia): (- e historiografia): 210-1; Soberano: 102; (concep<;ao binaria da -): 59- (- francesa como liy30 e ce

225-6; R


(- como homem de paixao 60;

Tecnicas rimonia de direito publi-

em Racine): 210-1; (estmtura binaria da -): 59-

(- disciplinares de poder): co): 208-9;

(- e morte): 285-7; 60, 94-5.

221; (- grega): 209;

(- e pavo durante a Revolu- Sofista

(- medico-normalizadoras): (- historicas): 208;



<;ao): 253-4; (discurso do -): 68.

96. (lei e ilegitimidade nas -):

(- e sUdito): 285-7; Soissons

(historia do vaso de -): 179, Tecnologia(s) 208.

(constitui<;ao do -): 287-8;

182. (- disciplinar): 297, 302; Transviado: 95, 97.

(direitos do - na Inglaterra):

Stalinismo: 19. (-regulamentadora): 297, 302. Troca: 232-3, 235.

117-8;

SUdito(s)/Sujeito(s): 49-52; (- previdenciaria): 297; Troia: 87, 135-6.



(individualidade fabricada do

-): 107-8; (- da historia): 159-62, 168; Tempo

(- do discurso hist6rico-poli- (organiza<;ao do -): 88. Universal

(saber do - e historia): 162-3.

tico): 60-1; Teona bio16gica (- e verdade): 284; Social-democracia

(- e liquida~ao do racismo (- e poder): 286; (- e discurso do poder): 307. (entrada do - no real): 272;

socialista): 314-5. (- e saber): 250; Terceiro Estado: 170,251,264- (potencia do - e burguesia): Social-racismo: 312. (- e soberania): 113; 5,282-3; 283; Socialismo: 312-4; (- e soberano): 286; (- como sujeito hist6rico): (valor do -): 197.

(- e biopoder): 312-5; (- guerreador): 63; 251; Universalidade

(- e mecanica do poder): (- que fala na historia): 159- (- e universalidade estatal): (- do Estado e totalidade na-

312-3; 60, 167-8; 265; cional): 268;

(- e racismo): 312-5; (- unive,sal e dialetico): 69; (- segundo Sieyes): 258-60, (- e guerra): 281;

(- incumbencia da vida): (ausencia de - neutro na 50- 261-2. (- e particularidade no dis-

312-5; ciedade): 60; Totalidade curso politico): 265; 378 EM DEFESA DA SOCIEDADE

(- estatal): 281; (decifra,ao da - e historia):

(- estatal no terceiro estado): 82-3; INDICE ONOMASTICO

265; (dependencia da - it paz e it

(- no discurso juridico-filo- neutralidade): 61-2;

sofico): 62; (discurso da -): 28;

(fun,5es de - da burguesia): (divisao entre verdade e er-

282-3. ro): 196; Universaliza9ao (efeitos da -): 28;

(- e sociedade burguesa): 282. (produ,ao da -): 28; Universidade (regime da -): 196;

(aparecimento e funl;ao da (rela,5es de - e rela,5es de

-): 218-9. for,a): 61-2.

Vida: 94, 109-10, 285-9, 291, Vencedores/vencidos: 109, 111- 294-7,301-7,313;

2, 114, 118, 120, 190, 193, .(- e biopoder): 296-7;

271,275,280,283.

(problema da - no pensa- Alexandre, 0 Grande: 67. 230-4,236,238-9,241-4,245, Verdade

mento politico): 288; Antraigues (E. L. H. L. d'): 248-9, 254, 257, 261, 264,

(- como arma): 68-9;

(proter;ao da - e contrato so- 254. 268,279.

(- e conhecimento): 213;

cial): 287; Arlur: 116 Boulay de Ia Meurthe (A. J.):

(- e desordem): 207;

(- e desrazao): 65;

(tecnologia regulamentadora Atila: 237. 255.

(- e dialetica): 68-9; da -): 297; Audiger (P.): 145-6. Bouquet (M.): 136.

(- e dissimetria): 61-2; (teoria da luta pela -): 72. Augusto: 190. Boutillier (1.): 137.

(- e guerra): 207; Violencias: 92. Aulard (F.-A.): 254. Brequigny (L. G. O. F. de):

(- e guerra no discurso his- Virus 245-6, 248, 251.

torico): 197; (fabrica,ao de - incontrola- Bacon (N.): 126. Bruto: 87, 117.

(- e irracionalidade funda- veis e destruidores pelo Bailly (1. S.): 279. Buat-Nan,ay (L. G. du): 154,

mental): 65; biopoder): 303. Barincou (E.): 201. 159, 163, 171, 228, 235-6,

(- e ordem): 207; Visibilidade Berlin (1.): 116. 257,264,279.

(- e paz): 207; (campo de -): 288; Bichat (X.): 229. Buonarroti (F. M.): 57-8.

(- e poder): 28; (colocar;ao em - dos indivi- Binswanger (L.): 8.

(- e universal): 283-4; duos): 299. Blackwood (A.): 120, 124. Caligula: 172.

(- e violencia): 207; Vivo Boisguilbert (P. de): 203. Carlos Magno: 67, 148-9, 163,

(- no discurso hist6rico-po- (fabrica,ao do ser - pelo bio- Bonneville (N. de): 235, 243. 244,248, 253.

litico): 60-1; poder): 303. Bordeu (T.): 229. Carlos Martelo: 149.

Bossuet (1. B.): 175. Carlos V, 120.

Boulainvilliers (H. de): 57, 135, Carlos X: 274.

152-6, 169-60, 167, 171-81, Cassirer (E.): 63.

183-9, 191-204,211,227-8, Castoriadis (C.): 237.

380 EM DEFESA DA SOClEDADE iNDICE ONOMASTICO 381

Cesar (J.): 136, 138, 142, 147, Filipe Augusto: 190. Jaime I: 118-9. Montlosier (F. de): 155, 171,

172. Fourier (Ch.): 312. Jordanis: 147. 249,257, 270, 274-8.

Chapsal (J.-F.): 245-6, 248, Franco: 87. Jouffroy d' Abbans (A. F. L. ): Moreau (J.-N.): 164-5, 211-3,

251. Franco (F.): 296. 274. 222,239,242.

Chretien de Troyes: 116. Fredegano (pseudo): 135. Juquin (P.): 18. Morel (B.-A.): 301.

Churchill (W. S.): 123. Frederico Barba-Roxa: 67. Justiniano: 137. Morin (E.): 237.

Clausewitz (K. von): 3, 22-3, Frederico 11: 67.

54-5, 198. Freret (N.): 57, 177. Kant (1.): 62-3. Nero: 209.

Clovis: 81, 84, 146, 149, 163, Freud (S.): 22. Nietzsche (F.): 24, 177-8.

176,179,182,240. Lagrange (J.): 8. Nowel (R.): 124.

Coke (E.): 57, 122, 124-5. Genette (G.): 237. Laplanche (J.): 237.

Comeille (P.): 209. Gibbon (E.): 175. Lefort (C.): 237.

Overton (R.): 128.

Courtet (A. V.): 58. Gregoire de Tours: 149, 179. Legrain (M.): 301.

Crooke (A.): 34. Grotius (H.): 148. Lilbume (J.): 57, 128.

Panofsky (E.): 86.

Guattari (F.): 9, 16. Luis XIV: 70, 89, 91,147,151-

Paris (P.): 136.

Daniel (S.): 124. Guilherme, 0 Conquistador: 84, 2,203,209-11,213.

Pasquier (E.): 140.

Darwin (Ch.): 71, 307. 115, 120-4, 128. Luis XVI: 163,211,213,254.

Davies (G.): 128. Pepino: 149.

Guiraudet (J.): 121. Lyotard (J.-F.): 237.

Defert (D.): 8. Petrarca (F.): 86, 98, 167.

Guizot (F.): 93, 165, 169,246, Pirro: 209.

Deleuze (G.): 9, 16. Mably (G.-B. de): 235, 243-5,

270-1. Platao: 207.

Desnos (R.): 237-8. 247-8,250,253.

Devyver (A.): 153, 171, 178, Magnan (V.): 301. Priamo: 87.

Haller (W.): 128. Proyart (L.-B.): 255.

255. Maquiavel (N.): 26, 69-70, 175,

Dreyfus (A.): 314. Haroldo: 116, 121, 123. Pufendorf(S.): 148.

196,201-2.

Dubos (J.-B.): 239-42, 245-6, Harrison (W.): 124.

Marat (J.-P.): 163,235,243.

248,250. Hegel (G. W. F.): 22. Marcuse (H.): 9. Racine (J.): 209, 210-3, 222.

Dumezil (G.): 78. Heidegger (M.): 8. Mario: 172. Reich (W.): 9, 22, 24, 37.

Henrique V11: 115. Marx (K.): 92-3, 116. Reiche (R.): 37.

Eduardo, 0 Confessor: 67, 116, Hill (Ch): 127. Marx-Aveling (E.): 116. Rhenanus (B.): 140.

121. Hitler (A.): 311. Mehring (F.): 116. Richelieu: 144, 147.

Eneas: 87. Hobbes (Th.): 26, 34, 59, 70, Meroveu: 148-9. Ronsard (P. de ): 135.

Engels (F.): 92-3. 99, 102-14, 121, 132-3, 148. Michelet (J.): 89, 200. Rousseau (J.-J.): 41.

Estaing (J. d'): 57, 171. Holinshed (R.): 124. Miguet (F. A. M.): 89.

Ewald (F.): 8. Hom (A.): 125. Moises: 126. Sabine (G. H.): 130.

Hotman (F.): 139-45. Monmouth (G. de): 116-7. Scott (W.): 116.

Fenelon (F. de): 152. Hugo Capeto: 153, 244. Montagu (E. W.): 175. Selden (J.): 124, 126.

Ferguson (A.): 175. Huisman (D.): 8. Montesquieu (C.-L. de): 175, Serres (J. de): 144.

Fest (J.): 311. Husser! (E.): 8. 235. Shakespeare (W.): 208-9.

_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _\I000o.. I

_ 382 EM DEFESA DA SOCIEDADE

Siagrio: 179. Tillet (J. du): 144. Sieyes (E.-J.): 57, 169,255,257, Tito Livio: 76,79, 82.

259-65,274. Turco: 87. Simon (R.): 231. Turgot (R.-J.): 248. Solon: 62. Speed (J.): 124. Vauban (S. de): 203. Speer (A.): 311. Vernant (J.-P.): 61. Sydenham (T.): 229. Viard (1.): 136.

Vico (G. B.): 231. Tacito: 147. Vidal-Naquet (P.): 61. Tamerlao: 237. Tarault (J.-E.): 145. Wace (R.): 116. Thierry (Amedee): 51. Wade (1.): 93. Thierry (Augustin): 43, 71, 93, WaIT (1.): 127.

lI6, 136-8, 165, 169, 246, Weber (A.): 8.

249,257,270,279-81,283. Weydemeyer (J.): 93. Thiers (L.-A.): 94, 270. Winstanley (G.): 130.

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