Meu tipo inesquecível



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Senhorita Simpson – Parte I

UESC 2010
A SENHORITA SIMPSON (UMA NOVELA)
Esta é uma história do gênero "meu tipo inesquecível” como aquelas publicados na Seleções do Reader's Digest. O meu tipo inesquecível é a senhorita Simpson.

Esta é também, num certo sentido, uma história do meu pai. Meu pai e Miss Simpson nunca chegaram a se conhecer, embora um dia ela houvesse passado as mãos nos cabelos dele, algo compulsivamente mas com doçura, correspondendo a um certo estilo.
O Gordo estava roncando na última carteira. Também, coitado, trabalhava o dia inteiro para sustentar a família e ainda freqüentava o curso noturno. Mas a classe não tinha piedade: o Paiva jogou uma bolinha de papel no Gontijo, chamando a atenção dele para o Gordo dormindo. O Gontijo mastigou a bolinha até ela ficar no ponto e já ia dispará-la de zarabatana na cabeça do Gordo, quando o Paiva fez sinal para ele que não. Aí escreveu rapidamente um bilhete e pe¬diu para o Santos ler e passar de mão em mão até o Gontijo.

Neste momento chegou o Acácio e quase estraga tudo.

O Acácio sempre chegava atrasado e cumprimentava bem alto e sorridente a senhorita Simpson, em inglês. Era para a senhorita Simpson não lhe dar falta e ela não dava, porque o Acácio era o mais bonitão e simpático da turma e a senhorita Simpson gostava dele, como todos nós. O Acácio continuava se exibindo em inglês para a senhorita Simpson e o Paiva teve de fazer um monte de sinais para ele ficar quieto, pelo menos desta vez. O Acácio veio então sentar-se na carteira vizinha à do Paiva e perguntou por quê? Aí o Paiva cochi­chou no ouvido dele o porquê e o Acácio ficou quietinho prestando atenção na aula, enquanto eu permanecia bem aprumado na carteira em frente ao Gordo para a senhorita Simpson não flagrar ele dormindo em cima dos braços sobre a carteira.

Quando a aula terminou, o Acácio saiu com a mão ca­valheirescamente postada no ombro de Miss Simpson, per­guntando a ela o que tinha sido dado no início, que ele per­dera, e a senhorita Simpson toda satisfeita foi explicando a ele o quê. Tinha sido sobre a profissão de Mr. Jones, um dos personagens principais do livrinho de inglês. Mr. jones tra­balhava como corretor de imóveis e achava sua ocupação muito interessante porque ele podia fazer muitas relações. A gente foi saindo logo atrás deles em fila indiana, pé ante pé, para não acordar o Gordo, coitado, que trabalhava o dia in­teiro para sustentar a família e ainda freqüentava o curso noturno.

Foi só na rua que a gente se dispersou rápido, cada um para o seu lado, mas ainda a tempo de ver o Acácio se despe­dindo da senhorita Simpson com um beijo na testa e dizendo para ela:

- Valeu!


No dia seguinte o Gordo não veio à aula e Miss Simpson parecia mais séria e corada do que nunca e logo eu, poxa, fui escolhido para a argüição:

- Você tem um jardim, Mr. Silva? - ela perguntou, em inglês.

- Não, não tenho.

- Não gosta de plantas?

- Gosto. Gosto muito.

- Então por que não tem um jardim?

- Porque eu vivo sozinho.

- Isso não é motivo para não ter um jardim.

A turma caiu em cima de mim na maior gozação e eu fiquei todo ruborizado, eu sabia, por causa da quentura nas faces, aquele bando de moleques. Mas também, porra, como é que ia explicar numa língua estrangeira que eu saíra de casa e, se não tinha mais nem televisão, como é que ia ter um jardim?

- Estão rindo de que, seus babaquaras, vocês sabem muito bem da minha situação - eu disse para eles, me es­quecendo de que ali na sala a gente era proibido de falar em português, como Miss Simpson bem me lembrou:

- In English, please. In English.

- How do we say babaquara in English? - perguntou o Santos, sem mover um músculo da face.

- Say what? - perguntou a senhorita Simpson

- Babaquara disse o Santos, apontando para mim.

Eu me levantei da carteira:

- Pelo menos não tenho que ir correndo toda noite pra casa com medo da minha mulher igual a vocês - eu disse. A mulher do Santos vinha buscar ele de carro todas as noites.

- Por isso não, que eu sou um bachelor - disse o Acácio , que acabara de chegar e foi elogiado pela senhorita Simpson.

- Very well, Mr. Acácio. Bachelor. Very well.

Também que vantagem: o Acácio excursionava pelo menos uma vez por ano ao estrangeiro e tinha de saber mes­mo um pouco de inglês. E se estava assim de mulher atrás dele, para que ele iria casar?



Mr. fones é viúvo e mora sozinho e tem um cachorro. Todas as manhãs, Rex, o cachorro de Mr. Jones, vai buscar o jornal na porta da casa e o leva para Mr. Jones ler na cama.
Isso já era na noite seguinte e antes mesmo do Paiva abrir a boca, com aquele risinho, eu já sabia o que ele ia dizer para mim: "Por que você também não compra um cachorro, Mr. Silva?".

Eu apelei, tá certo, mas também o Paiva sabia que minha ferida era recente:

- Olha aí, Paiva, se você continuar com essas gracinhas, vou te dar uma porrada lá fora.

- Mas eu não disse nada - disse o Paiva.

- Não disse, mas pensou - disse eu, mais calmo.

- In English, please - disse a senhorita Simpson, batendo na mesa com o taco de bilhar que servia para apontar palavras no quadro-negro.






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