"Mídia, Reality Show e Subjetividade"



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"Mídia, Reality Show e Subjetividade"
"É hora do espetáculo da perversidade: o aprisionamento da subjetividade nos reality shows"
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"Você tem alma? Essa pergunta - filosófica, teológica ou simplesmente incongruente - encerra hoje uma nova dimensão. Confrontada aos neurolépticos, à aeróbica e ao massacre da mídia, a alma ainda existe? " (Kristeva, 2002, p.9)

Um fenômeno recente tem chamado a atenção de diversos estudiosos: os "reality shows". Estes programas estão tomando conta da televisão mundial, em especial a brasileira neste momento. Tais programas expõem seus participantes a situações limites e dão margem a uma série de análises. O enfoque deste trabalho será no Big Brother II, veiculado pela Rede Globo de Televisão, já que este se mantém entre os quatro maiores índices de audiência da emissora ,(4)o que evidencia seu alto alcance populacional. Lançar-se-á um olhar microscópico, especialmente nos valores embutidos na estrutura e funcionamento do programa, bem como nas características da subjetividade dos participantes, principalmente do vencedor, aspectos estes que difundem uma forma de ser na atualidade.

O Big Brother surgiu em 1999, na Holanda e foi criado pela produtora Endemol, uma das maiores empresas de entretenimento da Europa. O nome Big Brotherfoi inspirado no livro "1984", do escritor inglês George Orwell. No livro, todos os habitantes de um país fictício são vigiados diariamente por câmeras que funcionam como os olhos do governo. O autor alerta para o perigo de estarmos caminhando para uma sociedade controlada por câmeras. Passados pouco mais de 50 anos da publicação do romance de Orwell, o Temor ao totalismo cedeu lugar à sedução, através da invasão de câmeras em programas televisivos.

Em 2000, o programa Big Brother começou a ser exportado para outros países, como Alemanha, Espanha, Estados Unidos, Inglaterra, Portugal, Suíça, Suécia e Bélgica. Em todos eles o programa foi um sucesso, não só na televisão, como também na Internet. Seus participantes e vencedores tornaram-se famosos do dia para a noite e faturaram prêmios e dinheiro.

Para entender melhor a dinâmica do programa, serão expostas algumas de suas regras fundamentais:
· O número de participantes são 12, previamente selecionados pela Rede Globo de Televisão. Estes permanecem confinados em uma casa com 38 câmaras, sendo vigiados 24 horas por dia por um período de 60 dias. O número de dias pode sofrer pequenas alterações no decorrer do programa;

Antes de iniciar o programa os 12 participantes ficam reclusos por 7 dias em um quarto de hotel, e não mantém nenhum tipo de contato entre eles, nem com o mundo externo;

A cada semana dois participantes vão para o "paredão" , sendo um escolhido pelo líder e o outro eleito via votação sigilosa por parte de grupo. Apenas um será eliminado, conforme votação feita pelos telespectadores;
· A votação para o paredão é realizada no confessionário, espaço este no qual cada participante tem privacidade em relação aos outros membros, uma vez que o que dizem ali não poder ser revelado ao grupo durante a permanência na casa. O confessionário é utilizado também, para a direção se comunicar individualmente com os participantes;

Depois da eliminação semanal de cada participante, têm-se uma final com 2 pessoas. O telespectador, via telefone e/ou internet, escolherá o vencedor que levará a quantia de 500 mil reais, sendo que o segundo e terceiro colocados ganham 30 e 20 mil, respectivamente.

Cada participante recebe um microfone, o qual deve estar constantemente ligado durante a permanência na casa;

É proibido o uso de qualquer meio de comunicação entre os participantes que não possa ser capturado pelas câmeras ou decodificado pelo público (escrita, gestos, etc);

Os participantes não têm acesso as notícias do mundo externo, pois na casa não há telefone, rádio, televisão, jornal, revista, internet e etc;

A cada semana é eleito um líder através de uma prova, estabelecida pela direção do programa;


· O líder tem algumas regalias tais como: imunidade, quarto privativo, uma sessão de cinema, um frigobar abastecido, e também o direito a conversar com internautas;

A cada semana ocorre a prova da comida que deve ser cumprida em grupo, para que recebam o Kit de alimentação. No caso desta não ser realizada com sucesso, não recebem o Kit, e passam a semana apenas com sal, arroz, carne seca e doce de leite.

No caso de agressão física o participante é excluído da casa;

Entre 10:00 e 12:00 horas ocorre o "toque de despertar", onde todos os participantes são obrigados a acordar e levantar;

Os participantes têm obrigações com a manutenção da rotina doméstica, tais como, , cozinhar, lavar, passar, limpar a casa, etc.

Apesar de não ser uma regra, vale a pena destacar que durante todo o programa há festas proporcionadas pela direção com freqüência de pelo menos uma vez por semana e recebem ainda, visitas esporádicas de artistas, jogadores de futebol e apresentadores de programas de televisão.


O programa Big BrotherBrasil é exibido diariamente, em horário nobre, sendo que nas 2ª, 4ª, 5ª e 6ª feiras há apenas edição. Na 3ª, sábado e domingo o programa é transmitido ao vivo intercalado com edições. Nestes dias o programa é conduzido por um "animador" que interage com os participantes da casa e com o telespectador.

Este estudo tem como base a constatação empírica, e de autores como Thompson (1998), Guareschi (2000) e Ramonet (1999) entre outros. Todos estes mostram que vivemos hoje, uma "cultura midiática", de modo que é impossível entender qualquer fenômeno fora do grande capítulo da comunicação. Segundo Guareschi (2000), as pessoas adultas dos países ocidentais gastam entre 25 a 30 horas por semana olhando a televisão. Isto, sem contar o tempo que elas empregam lendo jornais, livros, revistas, e consumindo outros produtos das indústrias de comunicação de grande escala transnacionais. Há poucas sociedades no mundo de hoje que não foram atingidas pelas instituições e mecanismos da comunicação, conseqüentemente, que não estejam abertas às imagens e formas simbólicas mediadas pelos meios de comunicação de massa.

Desde o início das sociedades modernas, os meios de comunicação contribuíram decisivamente para a construção da subjetividade dos seres humanos. Sempre em sintonia com o surgimento e consolidação das sociedades capitalistas modernas, os meios de comunicação desenvolveram-se de forma espantosa. É impossível pensar o mundo contemporâneo, sem levar em conta o papel dos media. Um dos traços fundamentais deste mundo contemporâneo é exatamente o inesgotável fluxo de imagens e de conteúdos simbólicos, disponibilizados pelos meios de comunicação a um número cada vez maior de pessoas, e que de certa maneira, conformam a realidade, as relações sociais e a subjetividade individual.

A realidade do final do século exige cada vez mais que sujeitos saibam lidar com uma imensa gama de informações que invadem diariamente sua vida cotidiana, de uma forma desconhecida para as gerações precedentes. Lidar com o impacto deste fluxo acelerado de informações e, principalmente, dar-lhes um significado, ou seja, interpretá-las integrando-as em sua visão de mundo, é hoje uma tarefa inevitável dos sujeitos modernos. (Guareschi,2000,p.43)

Chomsky(6)apud Guareschi (2000), afirma que os meios de comunicação de massa servem como sistemas de comunicação de mensagens e símbolos para a população em geral, cuja função é divertir, informar, distrair, como também influenciar os indivíduos com valores, crenças e códigos de comportamento.

Atualmente o individuo é visto quase que exclusivo no seu papel de consumidor. Em decorrência disso, as mercadorias da indústria se orientam segundo o princípio de sua comercialização e não segundo seu próprio conteúdo e figuração adequada. No conceito de Indústria Cultural, Adorno (1986) esclarece sobre os produtos adaptados ao consumo das massas, e que em grande medida determinam esse consumo. O consumidor não é o senhor, como a Indústria Cultural gostaria de fazer crer. Ele também não é o sujeito dessa indústria, mas sim seu objeto. A Indústria Cultural é importante como formadora da consciência de seus consumidores. Segundo Adorno,

A Industria Cultural impede a formação de indivíduos autônomos, independentes, capazes de decidir conscientemente. Também está intrinsecamente ligada aos elementos do mundo industrial, onde exerce um papel específico de portadora da ideologia dominante. Esta, atribui sentido a todo o sistema unido à ideologia capitalista, a qual, contribui para falsificar as relações dos homens com outros homens, bem como dos homens com a natureza.

Todos estes aspectos têm forte influência no processo de padronização (Adorno, 1986) dos indivíduos, que é a eliminação total da diferença, com a uniformização de todos as pessoas. Assim, a Indústria Cultural é a ferramenta utilizada para se alcançar esta padronização. Haja visto, que todos nós assistimos aos mesmos programas, consumimos os mesmo produtos, usamos as mesmas roupas. Há também uma padronização do homem no aspecto do mundo interno, porque até a forma de pensar, sentir, desejar, vivenciar, relacionar-se está seguindo aos padrões, ou seja, até o âmago da vida interna está sofrendo a influência opressora dos media. Todos seguem cegamente o que ela nos coloca como certo, tornando-nos exatamente iguais, com a total eliminação da diferença. Este processo que tem como conseqüência o sofrimento psicosocial.

Outro aspecto dessa padronização, é a ilusão de liberdade a qual estamos submetidos (Adorno, 1986), porque acreditamos que somos livres para escolher. Este mecanismo da Indústria Cultural é tão perverso que além de nos tornar todos iguais, exige que sejamos "diferentes". Assim, temos uma infinidade de marcas para escolher, o que nos faz acreditar que estamos livres para tal escolha. Mas isso não é real, porque em sua essência todos os produtos são iguais, haja visto que uma sociedade que é guiada pelos princípios de comercialização, faz com que os produtos percam a importância de conteúdo e fiquem restringidos à aparência. Esta falsa liberdade só vem fomentar o individualismo exacerbado no qual vivemos, sob o constante bombardeamento de slogans como "você é único", "você deve ser diferente".

Costa (1984), ao discutir sobre a educação psicológica, introduz a idéia de que esta, atinge seu objetivo quando consegue formar um Tipo Psicológico Ordinário (p.73), que é a resposta ao que a sociedade pede em determinado momento. Portanto, cada contexto histórico terá o seu próprio Tipo Psicológico Ordinário.





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