Matéria de Salvação Pública


O Jornalismo Cearense e a Tensão Política dos Anos Findos do Estado Novo



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O Jornalismo Cearense e a Tensão Política dos Anos Findos do Estado Novo

O uso de jornais como fontes históricas situados temporalmente no período do Estado Novo, exige o cuidado metodológico de atentar ao importante elemento de análise das condições de produção das fontes: a questão da censura. No que concerne ao recorte temporal do presente trabalho, cumpre explicitar que a primeira metade da década de 1940 foi permeada por ações de repressão à imprensa, dentre outros âmbitos, por parte do governo.

No Ceará, há alguns registros que enfatizam esse aspecto do período. O historiador Geraldo da Silva Nobre, que era jornalista durante os anos 1940, sobretudo com atuação na Gazeta de Notícias; chamou a atenção em seu livro Introdução à História do Jornalismo Cearense4, que nos decênios de 1930-1939 e de 1940-1949 houve um considerável aumento na tiragem dos jornais, em virtude principalmente da conflagração da Segunda Guerra Mundial até 1945, e entretanto, nas palavras do autor, "a situação nacional, com a vigência do Estado Novo até aquele mesmo ano, impossibilitou a saída de novos órgãos jornalísticos, na capital cearense, no quinto decênio do século XX". (NOBRE, 2006, p. 149).

Essas ponderações, que até ganham contornos de registro memorialístico, pelo fato de o autor ter vivenciado o período como jornalista, são importantes elementos de análise por fornecer aspectos da forma de produção desses editoriais, compondo intenção de fazer dialogar análises textuais - as matérias do jornal - e exames contextuais - mais notadamente a eclosão da Segunda Guerra Mundial e a vigência do Estado Novo.

Em outro livro do mesmo autor, intitulado Democracia à Prova, obra editada, entre outras comemorações, por ocasião do cinquentenário da redemocratização5, Geraldo Nobre concede o título ao primeiro capítulo da obra como "Colapso - O Ceará na Era Vargas - O Desfecho esperado", em que disserta sobre a situação do Estado Novo nos anos finais de sua vigência.

O autor afirma que quem estivesse atentamente acompanhando a situação nacional nos anos findos desse governo autoritário, poderia, de certa forma, até mesmo prever seu final e enfatiza que no decurso de 1944, as manifestações a favor da Democracia tinham aumentado de frequência.

A imprensa cearense, nesse momento, não agiu de maneira homogênea. A Gazeta de Notícias pode ser indício interessante para pensar essa relação entre imprensa e o regime ditatorial estabelecido em 1937 no Brasil ou, de modo mais específico, as relações entre a classe jornalística e a figura do presidente Getúlio Vargas.

Veja-se um trecho do artigo cuja autoria é de Heitor Cavalcanti6, saído na Gazeta em 08 de março de 1945, na página 3, emblematicamente intitulado Getúlio Vargas. Ao comparar e estabelecer semelhanças entre a dita Revolução de 1930 e a Revolução Francesa, argumentando que as duas ocasiões foram movidas pela força popular, Cavalcanti, afirma:

"Mais de uma vez, estivemos a assombrar, assombrados aos abismos cavados pela guerra, ou batendo pelos rochedos da fatalidade histórica; rápidos desvios; constante vigilância e pulso forte, conseguiram livrar-nos de algum êrro funesto. Getúlio Vargas foi um novo Moisés conduzindo seu povo á Canaan da paz interna e da segurança externa; tendo sempre a guia-lo a coluna de fogo da sua fé nos destinos da pátria. (...) A estranha clarividência quasi divinatória, de Getúlio Vargas, livrou-nos da catástrofe que nos aguardava. (...) São assim os homens. É assim a ingratidão humana. (...) Para os observadores e psicólogos o sorriso diz muito. O quadro fisionomico dos sorrisos apresenta uma curiosa variedade. Aquele que repuxa os labios, num isgar de tigre, á guisa de sorriso; é sempre um perverso. O que esboça um sorriso horizonte; de lábios cerrados, é inclinado á falsidade. Os tolos sorriem com um ar aparvalhado. Os maus, profundamente maus, os que têm a alma negra não sorriem nunca. O sorriso de Getúlio Vargas revela alma sadia, em corpo são. Revela harmonia intima, paz interna. É um sorriso largo; franco; espontâneo; sem sombras nem refolhos. É um sorriso que se deixa analizar sem constrangimento. O homem que sorri daquele modo não pode ser um mau; nem um despota; nem um tirano. Quem guarda no coração pensamentos de ódio ou de desejos de vingança não pode sorrir assim. O sorriso trai os sentimentos dalma. E o sorriso de Getúlio Vargas é bom, é simples, é tranquilizador. É o sorriso sem jaça que agrada as crianças." (CAVALCANTI, 1945.)7

Embora esse colaborador do jornal tenha afirmado em frases iniciais do seu artigo que eventos como a Revolução de 1930 e a Revolução Francesa tenham sido movidos, em sua opinião, pela força do povo; o evento da Segunda Guerra Mundial é colocado como uma fatalidade histórica, algo que não pudesse ser evitado pela ação humana, a menos que essa ação partisse de um ser predestinado, missionário, messiânico ou divino. Conceitos esses que são associados ao presidente Vargas, alguém que o autor refere com qualidades que ora variam entre ter "pulso firme" e ser portador de paz interna, até ser dono de um sorriso tranquilizador.

A simbologia do sorriso, que se legitima sob a égide da Psicologia, representa uma tentativa de análise da índole do líder político como sinônimo das suas convicções e ações políticas em âmbito público. A considerada pureza no sorriso de Vargas, apregoada pelo autor, se equipara aos seres tidos como os mais puros: os infantes.

Esse elemento simbólico cuidadosamente utilizado na ideologia varguista, na intenção de fomentar um imaginário paternalista associado à figura do que seria o condutor da Nação, nesse editorial é analisado como espontâneo e sincero, sob o argumento de que nem os mais ardilosos carrascos seriam capazes de manipular. Esse pensamento contrasta com o estudo desse símbolo amplamente problematizado pela historiografia que se dedica ao estudo da Era Vargas.

A feição conflituosa desse momento pode ser capturada, entre outras situações, atentando ao fato de que, na mesma edição do mesmo periódico, ou seja, ainda no dia 08 de março de 1945, variando apenas a página do jornal, estampou-se a matéria, A Culpa é do Presidente!, cuja autoria é de Mariano Martins. Maria Helena Capelato analisou o papel de centralidade das chamadas "manchete-bala" em jornais inseridos no contexto do Varguismo e do Peronismo. Há de se notar que o artigo de Mariano Martins localizou-se mais ao fim da edição do jornal; entretanto, como cada matéria tem a sua manchete, o texto de Martins insere-se nessa lógica, visto a condensação precisa da crítica empreendida pelo autor na denominação referida:

"Quando o sr. Getulio Vargas candidatou-se á presidencia da Republica em 1930, pela Aliança Liberal, da qual faziam parte quase todos os politicos que se encontram em terreno oposto ao do Chefe da Nação, prometia tudo á imprensa. (...) Infelizmente o ilustre gaùcho não manteve o aprêco que vinha demonstrando pela imprensa e, não muito depois daquelas suas afirmativas, passou a exercer pressão lubrificada sôbre o jornalismo, levando ao extremo de sufocá-lo com a censura mais draconiana de toda a nossa vida. Aliás Rui Barbosa afirmou que a fisionomia usual das revoluções é a violência. A indole natural das ditaduras é a opressão. Mas, quando agia daquela maneira, esquecia-se o chefe do gôvêrno provisorio de que subira ao poder com as mãos apoiadas nos ombros dos jornalistas. Não sabemos bem porque, nem qual a razão de ser a amnésia um mal congênito aos homens que se elevam ao poder. Aqueles que colaboram com êles, que dão grande parte da sua vida, notadamente os profissionais da imprensa, que se desdobram em vigílias interminaveis e perigosas, são, dentro de muito pouco tempo, completamente esquecidos. (...)" (MARTINS, 1945.)

Também ocupando o espaço de uma coluna dentre as três seções existentes por página na Gazeta de Notícias, o autor desenvolve uma crítica às ações do presidente Vargas em relação à imprensa evocando sentimentos próximos ao de ressentimento. Ao comparar as promessas e a posição varguista como candidato à presidência em 1930 e depois, a partir de 1937, executando ações de censura e de cerceamento das opiniões impressas; Mariano Martins analisa, referenciando Rui Barbosa, as feições do Estado Novo como ditatoriais, que ignora a importância da imprensa como espaço de co-existência de múltiplas ideias e que também pode ser instrumento capaz de alavancar e irradiar imaginários políticos ou ser componente fundamental de sua derrocada.


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