Marcos Cabral Uso da Língua Tétum no ensino-aprendizagem do Português le na Universidade Nacional Timor Lorosa´e



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Número de Falantes

%(n=741,530)

Regiões principais

Línguas de origem austronésica

Dialectos de Ataúro

5576

0,75

Ilha de Ataúro

Baiqueno

45705

6,16

Oecusse

Becais

3222

0,43

Norte de Balibó e Batugadé

Galoli

10998

1,4

Costa norte, Lacló, Manatuto, Laleia e ilhe de Ataúro

Habun

1586

0,21

A sul de Manatuto e nordeste de Laclubar

Idalaca (Idaté, Isni, Lolein e Lakalei)

14201

1,91

A sudeste de Díli

Kawaimina (Kairui. Waima'a, Midiki,Naueti)

39367

5,27

Região central de Timor; costa sul-este em torno de Uatolari; costa norte

Quémaque

51057

6,88

Parte ocidental junto à fronteira

Macuva

100

0,01

Ponta nordeste de Timor

Mambai

131472

17,72

Montanhas da região central

Tétum

Tétum- Térique

45944

6,1

Região central-sul e respectiva costa

Tétum-Praça ou Tétum-Díli

133102

17,94

Em Díli e arredores

Tétum, variedade não especificada

45362

6,1




Tocodede

31814

4,2

Bazartete, Liquiçá, Maubara

Línguas de origem papuásica

Búnaque

50631

6,8

Centro interior e Timor Ocidental

Fataluco

28893

3,8

Ponta Leste em torno de Lospalos

Macalero

5981

0,8

Costa sul-este

Macassai

90018

12,1

Parte oriental de Timor em torno de Baucau

Quadro 1 – Línguas maternas dos respondentes (Censo 2004).

Adaptado de Taylor-Leech (2009).



      1. 1.2.2. A língua portuguesa na atualidade timorense


Timor-Leste é uma meia ilha de colonização lusitana, situada entre o sudeste asiático e o pacífico sul, a 500 km da Austrália. Foi colónia portuguesa desde o século XVI, esteve ocupada pelo Japão durante três anos, na altura da Segunda Guerra Mundial, foi palco da invasão indonésia, de 1975 a 1999, e explorada pelos australianos.

Regina Helena Brito (2011) aborda a questão da construção da identidade linguística de Timor-Leste a partir dos conceitos de lusofonia e identidade. A lusofonia é vista como um “espaço simbólico, linguístico e cultural”, chamando a autora a atenção para o facto de ser um espaço sem um centro único (Brito, 2011: 80).

Nesse contexto, se no novo país tudo está em reconstrução - das casas à identidade do povo, da organização da Nação ao papel de cidadão – a reintrodução da língua portuguesa reveste-se do sentido fundamental de resgate de valores socioculturais. Como é acentuado por Xanana Gusmão:

A opção política de natureza estratégica que Timor-Leste concretizou com a consagração constitucional do Português como língua oficial a par com a língua nacional, o tétum, reflecte a afirmação da nossa identidade pela diferença que se impôs ao mundo e, em particular, na nossa região onde, deve-se dizer, existem também similares e vínculos de carácter étnico e cultural, com os vizinhos mais próximos. Manter esta identidade é vital para consolidar a soberania nacional.

(Brito, 2009: 92)


Regina Brito (2011) defende que uma conceção válida da lusofonia implica compreender os papéis distintos que a língua portuguesa desempenha nos diferentes locais onde é falada. É importante respeitar as especificidades do português falado em diferentes locais e aceitar as suas diferenças e semelhanças. Segundo a autora, são essas diferenças e semelhanças que permitem construir uma “identidade na lusofonia”.

Regina Brito defende a língua como um dos elementos importantes na construção da identidade nacional, sublinhando que o sentimento de “pertença identitária” depende do “conhecimento” que se tem da língua e do ”reconhecimento” que dela se faz. Ou seja, que uma língua se torna um elemento importante da identidade quando é conhecida formalmente e serve para exprimir ideias, representar conceitos, etc. mas também quando é reconhecida como meio para exprimir emoções, desejos, vontades, etc. (Brito, 2011: 81)

Na verdade, os aspetos de “representação” e de “vontade” estão presentes na noção de “identidade”; temos uma determinada identidade porque nos representamos de determinado modo perante os outros e somos por eles reconhecidos como diferentes; mas também temos uma determinada identidade por um ato de vontade que nos leva a aderir a uma comunidade de outras pessoas que consideramos semelhantes a nós. Nas palavras de Taur Matan Ruak (2001:42),
Queremos, enfim, afirmar que nunca perdemos a vontade de manter a língua portuguesa, tanto oral como ortograficamente, apesar das várias dificuldades e limitações impostas na redução física dos falantes da língua portuguesa. Sempre com espírito de que a mesma será nossa língua oficial, logramos conseguir aquilo que para muitos foi um sonho.
Na perspetiva de Ruak, atual presidente de Timor-Leste, verifica-se a representatividade que a língua portuguesa tem no contexto sócio-histórico timorense. O facto de o português ter permanecido em Timor-Leste, mesmo durante a ocupação indonésia, revela o valor que essa língua tem como elemento de identidade nacional. No seu programa linguístico, apresentado ao Conselho Nacional da Resistência Timorense, Hull (2001) defende a língua portuguesa e, também, a língua tétum como parte integrante da cultura e da identidade timorenses.

Depois destas reflexões teóricas, Regina Brito (2011: 82-83) descreve a história da presença portuguesa em Timor e, em particular, do ensino, lembrando que nunca houve um investimento sério na escolarização durante o período colonial português. No censo de 1970, apenas 6,6% da população estava alfabetizada e a difusão da língua portuguesa era limitada, o que se deve também em parte à complexidade cultural e linguística do território e à distância a que a colónia ficava da metrópole. Na verdade, Timor era a mais longínqua colónia portuguesa.

No entanto, esta diversidade linguística ultrapassa largamente um simples quadro multilingue em que diversos idiomas entram em contacto uns com os outros. Cada uma destas línguas veicula poder, um poder diferente do ponto de vista geopolítico, administrativo, cultural, religioso, etc., construindo um complexo sistema poliglóssico (Thomaz, 2002: 141; Batoréo, 2007 e 2010). No plano interno, o sistema organiza-se em três níveis de integração, isto é, em que várias línguas convivem e cada falante é capaz de se entender em várias delas consoante a situação:

- Nível das línguas locais: línguas étnicas timorenses e línguas das minorias,

- Nível da língua veicular/ língua franca: tétum praça,

- Nível das línguas de administração e de cultura: línguas oficiais (tétum e português) e línguas de trabalho (inglês e malaio indonésio) garantidas pela Constituição da República Democrática de Timor-Leste (2002).


A identidade de Timor-Leste faz-se também pela diferença, o que levou os dirigentes leste-timorenses a consagrar ambas as línguas (tétum e português) como línguas oficiais e também duas línguas de trabalhos (inglês e indonésio) do país na sua Constituição timorense e, ademais, existem cerca de outras quinze línguas nativas. Acredita-se que essa diversidade linguística pode dificultar a difusão do Português, tendo em vista a variedade de línguas existentes em cada região timorense e seus dialetos locais. Já no âmbito profissional, os timorenses utilizam o português e o tétum no seu dia a dia, o inglês e o bahasa indonésio no processo formal ou seja a língua indonésia e o inglês são definidas como línguas de trabalho.

Apesar do papel que a língua portuguesa tem na definição da identidade cultural híbrida de Timor-Leste, Brito (2011: 83-86) reconhece que os primeiros dez anos de reintrodução do português geraram um sentimento de exclusão, especialmente entre as gerações mais novas educadas em bahasa indonésio e que usam o tétum ou uma língua nacional na sua comunicação diária.

Estratégias como a que foi sugerida em 2012 pelo novo Presidente da República, Taur Matan Ruak, de ensino da língua portuguesa como língua estrangeira, revelam uma perceção correta da realidade no terreno e poderão ajudar a ultrapassar as dificuldades atualmente sentidas. Na verdade, se o português não é língua materna da população, deveria ser estudada segundo a metodologia de ensino de uma língua estrangeira. Mais adiante, definiremos o estatuto do português em Timor-Leste.

Regina Brito lembra que a construção de uma comunidade lusófona, tal como a entende, significa “admitir o verdadeiro lugar do português em cada contexto” (2011: 86). E se é verdade, como afirmou o Presidente da República, que “fizemos uma opção política, estratégica e identitária. O português está para ficar”2, caberá aos leste-timorenses decidirem que lugares pretendem para a língua portuguesa no seu país.







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