Marcos Cabral Uso da Língua Tétum no ensino-aprendizagem do Português le na Universidade Nacional Timor Lorosa´e


Capítulo 1 - Enquadramento da Língua Portuguesa em Timor-Leste



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Capítulo 1 - Enquadramento da Língua Portuguesa em Timor-Leste


Neste capítulo, focaremos os seguintes assuntos: a situação linguística de multilinguismo em Timor-Leste; o papel da língua portuguesa em Timor-Leste: aspetos sobre a língua oficial, a língua de escolarização e as suas relações com as línguas nacionais; a distinção entre língua não materna, língua segunda e língua estrangeira; e a importância do bilinguismo/multilinguismo em Timor-Leste.

    1. 1.1. Situação Linguística em Timor-Leste


A situação linguística de Timor-Leste só se compreende tendo em conta as características naturais do país e a sua história complexa. Iremos apresentá-las brevemente.

Timor-Leste é um território com cerca de 15000 km2, ocupando a metade oriental da ilha de Timor. Inclui ainda o enclave de Oecusse, na metade ocidental, a ilha de Ataúro e o ilhéu de Jaco. A ilha apresenta uma cordilheira central com picos elevados, vales profundos, declives muito acentuados e planícies costeiras a norte e a sul. Estas características significam que apenas uma parte dos solos pode ser cultivada ou usada para o pastoreio. Além disso, dificultam a deslocação das populações e os seus contactos, isolando-as. Daí em parte, que se falem tantas e tão distintas línguas.

A posição geográfica da ilha de Timor, no extremo oriental do arquipélago indonésio, fez dela um local de passagem e destino para movimentos migratórios entre o Sudeste Asiático, Austrália e região do Pacífico.

Não existe acordo entre os linguistas sobre o número de línguas faladas na ilha. Uma das estimativas mais rigorosas, que resultou do projecto Linguistic Survey of East Timor, sugere a existência de 19 unidades linguísticas em Timor e nas ilhas adjacentes de Wetar, Ataúro, Semau, Roti e Nidao (Hull 1998: 2-4). Dessas línguas, 16 são faladas em Timor-Leste:



  • Dawan (também conhecida como timorense ou atoni) e que inclui os dialetos manulai, amarasi, kupanguês, molo, amanuban, amanatun, manlea, biboki, insana, mimomafo e vaiqueno/baikenu;

  • Becais/bekais ou welaun, falada em Sanirin, a norte de Balibó e Batugadé, mas em grande medida substituída pelo tetun-Belu;

  • tétum/tetun, que consiste no tétum oriental/tetun-terik, no tétum ocidental/tetun-Belu (com duas variedades influenciadas pelo português e pelo malaio, respetivamente) e tétum-Díli/tetun-Dili (ou tétum-praça/tetun-prasa);

  • Quémaque/kemak (incluindo o dialeto de transição nogo);

  • Tocodede/tokodede (incluindo o dialeto de transição keta);

  • Búnaque/bunak (incluindo o dialeto marae, que se fala de ambos os lados da fronteira entre as partes ocidental e oriental);

  • Mambai/mambae, com diferentes dialetos falados no nordeste, noroeste e sul;

  • Idalaca/idalaka, que consiste nos dialetos idaté, isní, lolein e lakalei;

  • Galoli/galolen, incluindo o dialeto lir-talo falado em Wetar;

  • Rahesuk, resuk e raklungu, subdialetos do wetarês que são falados na ilha de Ataúro;

  • Habun/habun, falado em Cribas, a sul de Manatuto, leste de Laclubar e norte de Barique;

  • Kawaimina, um acrónimo que designa os dialetos kairui, waimaha/waima'a/waimoa, midiki (incluindo os subdialetos osomoko e hoso), e naueti (incluindo o subdialeto naumik);

  • Macassai/makasae;

  • Macalero/makalere;

  • Fataluco/fatalúkunu;

  • Macuva/makuva ou lovaia

Os linguistas consideram que as línguas de Timor se podem agrupar, segundo a sua origem, em austronésias e papuásicas. As línguas dawan, bekais, tetun, kemak, tokodede, mambae, idalaka, galolen, as línguas faladas em Ataúro, habun, kaiwaimina e makuva são predominantemente austronésias. As línguas bunak, makasae, makalere e fatalúkunu são predominantemente papuásicas pertencem, portanto, a diferentes famílias linguísticas. Todas as línguas apresentam elementos lexicais que ainda não foram identificados e que poderão pertencer a línguas aborígenes extintas (Hull 1998: 4). Como afirma Luís Costa, “as línguas de Timor correspondem às necessidades de comunicação quotidiana, descrevem uma visão particular de uma realidade e a forma como a comunidade que fala essa língua conceptualiza o mundo que a rodeia”. (Costa, 2005: 614-615)



O seguinte mapa apresenta uma distribuição das línguas faladas no território timorense:

Mapa 1 - Distribuição territorial das línguas leste-timorenses. 1
À complexidade que resultou de sucessivas migrações e do isolamento das populações, junta-se a complexidade que resultou da sua história agitada.

A ilha de Timor já fazia parte das rotas comerciais do Sudeste Asiático antes da chegada dos Portugueses. Para além das línguas vernáculas de Timor existem, por isso, várias línguas estrangeiras que foram mais ou menos importantes em diferentes períodos da sua história: malaio, português, holandês, chinês e árabe.

O malaio está presente na região como língua franca desde o século XV. O vernáculo de Kupang é uma forma crioulizada do Malaio (Hull 1998: 5). O Malaio-Indonésio ou Bahasa Indonesia é a língua oficial da República da Indonésia e, portanto, da sua província de Nusa Tenggara Timur, que inclui Timor Ocidental.

Durante o período de ocupação indonésia (1975-1999) de Timor-Leste, foi também a língua oficial da sua 27ª província, Timur-Timur. O Português está presente na região desde o século XVII mas só começou a ser usado mais amplamente na parte oriental da ilha de Timor e no enclave de Oecusse a partir do século XIX. O Neerlandês começou a ser conhecido pela população em torno de Kupang a partir de meados do século XVII e foi divulgado no resto de Timor Ocidental (exceto em Oecusse) no século XIX e primeira metade do século XX. Os dialetos Hakka e Cantonês são usados pela minoria sino-timorense, a classe tradicional de mercadores. Finalmente, o árabe também é considerado como fazendo parte da “ecologia” linguística de Timor (Taylor-Leech, 2009: 13) devido à passagem de mercadores árabes pela região ao longo de vários séculos.






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