Marcos Cabral Uso da Língua Tétum no ensino-aprendizagem do Português le na Universidade Nacional Timor Lorosa´e



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Introdução

Este trabalho tem como objetivo inicial descrever e problematizar a situação linguística em Timor-Leste, tendo por referência linguistas que fizeram estudos no terreno. Referiremos as políticas linguísticas aplicadas durante os períodos da colonização portuguesa, ocupação indonésia, e após a restauração da Independência. O objetivo central é, no entanto, propor o uso do tétum como língua de mediação para o ensino do Português, em níveis iniciais.

A relação entre Timor-Leste e o português é muito complexa e merece alguns comentários. O povo de Timor-Leste honrou e valoriza o português como elemento essencial inalienável da sua identidade nacional; os indonésios tentaram impor a sua língua enquanto durou a ocupação de Timor, e falharam. O facto de o português ter sobrevivido à perseguição que lhe foi movida é porque é parte integrante da cultura nacional (ao contrário do holandês que desapareceu completamente da Indonésia depois da Independência). Neste sentido, o português não pode ser considerado uma língua “colonial”, mas sim uma língua livremente adotada. Os linguistas sabem que o tétum e o português coexistiram num relacionamento mutuamente benéfico e que o português é o suporte natural do tétum no seu desenvolvimento continuado (Hull, 2001: 87-88), sobretudo na nível lexical.

Timor-Leste foi uma das Províncias Ultramarinas do estado colonial português (1515-1975) e também foi ocupado pela Indonésia (1975-1999). Timor-Leste é caracterizado por ser uma sociedade multicultural, com grande diversidade linguística:



Entre todas estas línguas, (faladas no país) o tétum funciona como língua veicular, língua de comércio e língua franca. Quando se escolhe uma língua franca, imposta por realidades históricas autónomas, caminha-se para uma unificação, quer dizer, um perfil identitário desenhado entre a diferença linguística e a necessidade de uma unidade para intercomunicação.

(Carvalho, 2003: 67-68)


No tempo da ocupação indonésia, o povo esteve submetido a uma política de limitação do uso do tétum, língua local nacional, à proibição do uso da língua portuguesa e obrigado ao uso da língua bahasa indonésia em todo o território. Após a Independência e a constituição da República Democrática de Timor-Leste (RDTL), em 20 de maio de 2002, adotou-se a língua tétum e o português com línguas oficiais do novo país asiático.

Aquando da independência, os timorenses optaram, em primeiro lugar, por manter o tétum e também por elevar o Português a língua oficial (em lugar do inglês ou bahasa indonésio), escolhendo, simultaneamente, aderir à Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP). Para justificar a opção pela língua de Camões, o povo timorense apelou a valores culturais e históricos, os quais estão profundamente relacionados com a sua própria memória coletiva, como atesta Batoréo (2007: 4),


(…) a escolha da Língua Portuguesa como língua oficial de Timor-Leste (…) é vista pelas próprias autoridades timorenses não apenas em função do grande enraizamento da herança histórico cultural portuguesa, mas também (e sobretudo) por uma decisão política – estratégica de marcar a identidade nacional timorense diante da Austrália e de ressaltar a sua especificidade no contexto regional do Sudeste Asiático e Oceânia.
A situação linguística de Timor antes da invasão indonésia em 1975 caraterizava-se pela presença de muitas línguas locais, de origem austronésia ou papuásia, de uma língua veicular (tétum praça) e de uma língua administrativa (português). A adoção do tétum como língua para a evangelização pela Igreja Católica foi importante para a sua propagação no território. É necessário, portanto, fazermos um pouco a história de Timor, para podermos compreender melhor a situação linguística do país (Brito, 2011: 83-86).

Segundo estudos recentes, “o conhecimento aprofundado da identidade linguística é a chave para o sucesso de uma política e ensino de uma língua, estabelecendo ligação entre as atitudes linguísticas e a compreensão do idioma.” (Geeraerts 2003; Auer 2005; Kristiansen and Dirven 2008; Impre, Speeleman and Geeraerts (2009), apud Batoreó, 2009: 3).

Assim, socorrendo-nos de uma citação de Certeau (2002:16), podemos considerar que “a história é o privilégio que é necessário recordar para não esquecer-se a si próprio”.

Na ocupação indonésia (1975-1999), a aprendizagem do bahasa indonésio tornou-se obrigatória e foi acompanhada da secundarização do tétum e proibição do português. Contudo, a Resistência Timorense e a Igreja Católica entenderam o papel estratégico do português e do tétum como símbolos de resistência e identidade nacional. A Resistência usou o português nas suas comunicações com o exterior e a Igreja Católica continuou a ensinar o português nalgumas escolas e adotou o tétum como língua litúrgica. Deste modo, contribuíram para a sobrevivência de ambas as línguas que seriam declaradas oficiais quando Timor-Leste restaurou a sua independência, em 2002.

A situação linguística em Timor-Leste após a independência é muito complexa e difícil para muitos dos timorenses, tendo em conta que a língua portuguesa não é a língua da maioria da população, sendo nalguns casos a segunda língua (depois do tétum) e noutros a terceira (depois da língua dialeto local e do tétum) ou quarta língua (depois destas e do indonésio) dos falantes timorenses. Portanto, a língua portuguesa tem um valor simbólico que é atribuído à língua portuguesa (e ao catolicismo) como elemento constituinte da unidade nacional, pelas razões históricas já referidas e tem um papel de “língua parceira” do tétum, para o desenvolvimento lexical desta e a criação de uma cultura austro-melanésia com ingredientes latino-luso-cristãos (Brito, 2011: 90).

A identidade de Timor-Leste, consagrada pela diferença, levou os dirigentes leste-timorenses a consagrarem ambas as línguas (tétum e português) como línguas oficiais do país, na sua Constituição.

Como já vimos, a língua portuguesa teve um papel influente na cultura nacional leste-timorense. Para os timorenses, o seu estudo e uso mantêm a sua relação com o seu passado histórico, a sua parceria de séculos com o tétum, sendo instrumento de modernização deste e torna-se um importante meio de comunicação para Timor-Leste comunicar com o mundo, em particular com as nações da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Tal como Regina Brito (2011), defendemos a ideia de que a verdadeira lusofonia é aquela que respeita e valoriza as diferenças nacionais no uso que os diferentes povos fazem da língua portuguesa. E a autora considera que é desse modo que se deve encarar o papel do português em Timor e o desafio que representa a sua reintrodução.

O ensino do português, em Timor-Leste, tem de ser um ensino contextualizado e há necessidade de fazer uma descrição linguística da variedade do português que aí é falado, observando as influências que recebe de outras línguas faladas no país. Por outro lado, também é necessário estudar e sistematizar o tétum.

Portanto este relatório tem como objetivos:

- descrever a situação linguística de Timor-Leste,

- apresentar um enquadramento da língua portuguesa em Timor-Leste e o uso do tétum no contexto de ensino,

- apresentar uma reflexão e análise de situação atual do ensino da língua portuguesa em termos das dificuldades dos aprendentes e dos professores, a partir de dados recolhidos em entrevistas.

- defender a pertinência do uso do tétum como língua de mediação nas aulas de Português, em particular no nível A1.

Relativamente à metodologia, utilizar-se-á a análise de artigos e publicações científicas existentes. Usaremos também os dados dos Censos relativos às línguas de Timor e procuraremos atualizar a informação publicada contactando as autoridades de Timor-Leste, principalmente a informação recolhida durante a realização do estágio pedagógico em Timor-Leste, nomeadamente em aula assistida, prática letiva e inquérito por questionário e/ou entrevistas. Assim, farão parte deste documento também, uma descrição crítica abreviada da nossa Prática Letiva, bem como uma análise de entrevistas feitas a diferentes grupos de professores (ver anexos).





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