Marcos Cabral Uso da Língua Tétum no ensino-aprendizagem do Português le na Universidade Nacional Timor Lorosa´e



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Considerações finais


Em Timor-Leste, a maior parte das pessoas fala a língua tétum, que por ser a que é usada pela maioria dos habitantes do país, é língua nacional e língua franca. Mas no nosso país vivem pessoas nativas que também falam outras línguas diferentes desta. Dada a diversidade de línguas e dialetos presentes no território de Timor, e por razões históricas e culturais, o governo optou pelo Português, como outra língua nacional. Em Timor-Leste, no entanto, a maioria dos timorenses aprendeu a falar a língua tétum como primeira língua na infância. Timor-Leste é um país com várias línguas regionais e duas línguas oficiais: o tétum, que é uma língua nativa mas enriquecida pelo uso do português, e o português, como segunda língua, adotada por razões históricas, culturais, comerciais e meio de comunicação com outros países.

Língua materna é a falada em casa pelo aluno, também conhecida por primeira língua ou L1. Mesmo em casa onde haja duas ou mais línguas o foco pedagógico é na língua que o aluno melhor domina.

Tétum é uma língua nacional e cooficial de Timor-Leste, considerado como a segunda ou L2 da maioria dos timorenses. Sendo a língua mais falada na comunicação entre grupos de todas as línguas e regiões geográficas, tétum constitui uma importante língua franca que é adquirida pela maioria das pessoas através do seu uso regular, a par da L1. Nota-se que, em algumas partes do país, o tétum tem-se tornado realmente L1 para o aluno, devendo portanto ser tratada de acordo com os princípios da L1. Tétum é uma clara representação da identidade nacional como a única língua franca de Timor-Leste, e a expansão do seu uso na educação e noutras áreas oficiais tem sido promovida em virtude dos benefícios práticos e simbólicos que esta L2 oferece. Educacionalmente, o termo L2 é apropriado visto que tétum é largamente falada como L1 fora do ambiente escolar, promovendo ainda apoio à aprendizagem formal da L2 nas escolas.

O português, a outra língua cooficial de Timor-Leste, é considerada como a “terceira língua “ ou L3 dos timorenses, sendo uma língua da identidade histórica e a atual válida porque serve de elo de ligação entre a grande família dos países lusófonos e oferece ao país uma identidade única em todo asiático e o acesso à rica tradição literária e cultural da Europa. O Português tem sido promovido como a principal língua oficial de instrução até à presente data. O facto de esta língua ter sido limitada por razões políticas sobretudo nas áreas rurais, significa também que a maioria dos alunos timorenses, e até os professores, não tenham adquirido a proficiência requerida para ensinar em português. A política de respeitar o papel do Português na sociedade nacional promovendo o ensino da língua, mais sistematicamente, aumentará o domínio do Português através do contínuo desenvolvimento da proficiência/capacitação em L1 e L2.

Apesar do multilinguismo, a comunicação no dia a dia não é um problema, pois existe pelo menos sempre uma língua comum entre dois falantes. Esta situação leva a que seja necessário existir uma língua de mediação presente na sala de aula, a ser usada no processo de ensino - aprendizagem e na interação entre professor e alunos.

O problema principal reside em que há timorenses que entendem e leem o português mas não conseguem falar nem escrever, nestes casos o uso do tétum como língua intermediária é fundamental na sala de aula. Por isso muitos professores relatam a necessidade de eles próprios estudarem tétum para rentabilizar a dinâmica das suas aulas e evitar situações de impasse, quer na compreensão de vocabulário, de textos, e dos aspetos trabalhados na aula sobre construção de frase, regras gramaticais e ortográficas, entre muitos outros.

No entanto há professores que dizem ter cuidado no uso intermediário do tétum defendendo que o importante é focar-se no ensino-aprendizagem do português, que é a finalidade e não o tétum.

Outro problema social da aprendizagem reside no facto de que os meios de comunicação, como a rádio, a televisão e a imprensa, pouco usam a língua portuguesa. Mudar esta situação é imprescindível para a real difusão, assimilação e aprendizagem do português, quer por estudantes quer pela população em geral. Deste modo, também se combaterá a falsa ideia de que o timorense em geral gosta mais de falar indonésio e não gosta de falar português. Face a esta situação, parece-nos conveniente que a nível do Ministério da Educação se faça um estudo de possíveis programas de televisão quer infantis quer de divulgação cultural, em português, com realidade timorense, como houve na telescola (pequenos teatros, contos, canções e filmes).

Em Timor-Leste, a maior parte dos aprendentes de português quase nunca fala português fora da sala de aula, o que dificulta o avanço no domínio da língua. Os aprendentes de português em Timor-Leste têm definido na Constituição RDTL como línguas oficiais o tétum e o português, como línguas auxiliares de comunicação no trabalho o indonésio e o inglês, e, além disso, falam diferentes línguas maternas de entre os dezasseis dialetos existem no país. Em geral, verifica-se que as pessoas falam vários dialetos, e ainda indonésio e tétum, tendo o português e o inglês o estatuto de línguas segundo-estrangeiras. A agravar o perfil do ensino do português encontra-se o facto de que também as práticas pedagógicas são pouco desenvolvidas na formação do professor enquanto ensinante. É raro os professores reunirem e discutirem como lecionar um tema, realizar um plano de aula ou uma atividade pedagógica.

Acresce ainda que, muitas vezes, o número de aprendentes numa aula é elevado (mais de cinquenta alunos), o que não cria espaço para flexibilidade ou adequação à personalidade do aprendente, nem facilidade de comunicação entre professor e aprendentes ou entre aprendentes. Falta ainda formação de liderança nas estruturas educativas.

Os professores que disseram utilizar sempre a língua portuguesa na sala de aula para ensinar e sem recorrer a língua tétum, argumentaram fazê-lo para defender a sua posição, a de ser professor da língua portuguesa e não a de professor de tétum. No entanto, observei recorrentemente que eles preparavam os materiais didáticos em português, utilizavam o português nas explicações mas recorrem sempre ao tétum para facilitar o ultrapassar das maiores dificuldades.

Na sala de aula, as professoras portuguesas de língua portuguesa sabiam que os alunos tinham muitas dificuldades na expressão oral do português, mas também as próprias professoras tinham dificuldades em tétum. No entanto esforçaram-se o mais possível para aprender o tétum de forma a utilizá-lo nas suas aulas. Isto é um bom exemplo para todos os professores de língua estrangeira, tanto nativos como estrangeiros.

Tendo por base a minha experiência, as pesquisas efetuadas e as minhas reflexões, acredito que o ensino de português LE pode beneficiar do uso da L1 na sala de aula, principalmente quando se trata de aprendentes em processo de escolarização ou nível A1. Será sempre o professor que deverá saber quando a utilizar, tendo no pensamento aquilo que melhor pode ajudar os seus alunos e não apenas ideias pré-concebidas de como deverá ser uma aula ideal de língua estrangeira.





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