Marcos Cabral Uso da Língua Tétum no ensino-aprendizagem do Português le na Universidade Nacional Timor Lorosa´e



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Prof: sim no caso da professora que vem dar aulas, conhecer a língua é uma mais-valia

E2: tenho notado isso que agora estou a aprender o tétum e noto muita diferença por acaso”

(cf. Anexo 3)


Outro professor diz considerar a língua tétum como uma “uma língua por assim dizer pobre que precisa do apoio de outras línguas para poder funcionar”7, e outro professor afirma ainda que pode ser um obstáculo dadas as diferenças entre as línguas portuguesa e tétum, apresentando como exemplos a flexão verbal e os pronomes possessivos.

As situações de aprendizagem apontadas como aquelas em que o professor precisa de recorrer à língua tétum foram principalmente a explicação de vocabulário e matéria em português. Vários professores afirmaram fazer um grande esforço em utilizar principalmente o português e só em último recurso utilizar o tétum, um deles disse ainda que às vezes mesmo o tétum pode não funcionar como língua intermédia pois existe um desnível de conhecimentos linguísticos entre os alunos. Nas situações em que tiveram que recorrer ao tétum devido a dificuldades de compreensão por parte dos alunos, os professores dizem terem conseguido comunicar sempre com os alunos, mesmo que algumas vezes estes apresentem dificuldades em expressar-se bem, quer na oralidade quer na escrita. Um professor reafirmou a dificuldade de utilizar o tétum em contextos científicos. E dois disseram que as maiores dificuldades sentem-se nos primeiros anos de aprendizagem do português, dado que não conhecem bem a língua para comunicar.

As motivações indicadas como as que levam os jovens a estudar o português são em geral a necessidade de haver uma língua de trabalho com carácter internacional, o facto de constituir uma das línguas oficiais, o facto de lhes permitir estudar no estrangeiro através de bolsas de estudo e de ter acesso a melhores ofertas de trabalho. Os professores referem que a motivação dos alunos depende das estratégias metodológicas dos professores, cabe-lhes motivar os seus alunos através de atividades que fomentem o uso da língua dentro da sala de aula e fora dela, como, por exemplo, através de leituras, canções, visualizações de filmes, visita a exposições e competições de leitura, declamações e/ou trabalhos escritos. Três professores referiram novamente enfrentar dificuldades devido à escassez de materiais que lhes permitam realizar as atividades planeadas. Observe-se o seguinte testemunho:
Prof: bem eu acho que também depende das estratégias, o professor deve criar estratégias que possam motivar, porque aqui as facilidades também não existem, como por exemplo, eu embora não tenha dado aqui no departamento a disciplina da língua portuguesa, mas criava atividades como fazer leituras também algumas canções para expressar através de… canções também podem expressar na língua portuguesa e para motivá-los, por exemplo algumas telenovelas, eu lhes pedia, então assistiu à telenovela ontem à noite então vão recontar, assim para eles poderem dizer se gostaram ou não, e há certos alunos como têm uma certa idade e espirito crítico demonstram aquilo que gostaram apreciaram e vão expressando. A motivação depende das estratégia do professor, acho que utilizar a mesma, aqui é que é algumas vezes um pouco difícil aplicar utilizar estratégias. Os nossos alunos aqui no departamento gostam de cantar, gostam de ver filmes mas aqui não há facilidades porque a língua não se aprende... nos limitaram as fotocópias e textos , nós não temos facilidades para projetar um filme, existe aqui o projetor mas algumas vezes não funciona, algumas vezes tem que pegar na vassoura para poder funcionar aí , é difícil. Uma vez eu preparei… trouxe o meu portátil mas quando cheguei cá não tive oportunidade para utilizar, os equipamentos também... porque ler e responder a perguntas os alunos cansam-se. Eu pensei fazer por exemplo uma visita de estudo para eles poderem relatar e não sei quê, eu uma vez levei-os aqui ao museu…”

(cf. Anexo 4)


Um professor refere ainda a necessidade de os professores melhorarem a nível profissional e de haver um maior investimento nos cursos de ensino, dizendo que um dos problemas consiste no facto de que os alunos que frequentam o curso de ensino de língua portuguesa em geral não exercerem no futuro a profissão de professores mas antes outras profissões do estado.

Todos os professores consideram que os alunos estão motivados para aprender a língua portuguesa e que também as gerações futuras terão interesse em aprender a língua pelas mesmas razões referidas acima. No entanto, um professor refere que o interesse das novas gerações dependerá das opções políticas do governo de Timor-Leste, ou seja, em incentivar a aprendizagem e o uso da língua portuguesa. Observe-se o comentário realizado por este professor:


Prof: haverá, se assim o governo o entender, refiro-me se não houver sempre alterações, se acha que estabelece que o ensino tem que ser sempre em língua portuguesa tem que cumprir e não só no papel, depois não estar sempre a mudar a lei, ora o ensino tem que ser em português ora o ensino tem que ser em língua materna, então haverá… haverá, mas o futuro dirá melhor e se o governo incentivar, não estabelecer uma coisa num ano, e depois de dois anos altera essa lei”

(cf. Anexo 3)



  1. GRUPO 3

Entrevistas a professores estrangeiros de PLE
Foram realizadas duas entrevistas a professoras estrangeiras a lecionar PLE na UNTL, seguindo o mesmo guião do inquérito. Ambas as professoras são de nacionalidade portuguesa tendo feito a sua formação em Portugal. Como habilitações académicas, uma professora tem licenciatura e mestrado em Ensino do Português Língua Estrangeira estando a frequentar o doutoramento na mesma área, e outra tem licenciatura em português e francês concluída em 1999.

Os níveis de escolaridade que ensinam são o primeiro e segundo ano de português nos vários cursos da UNTL, bem como cursos dos vários níveis de proficiência.

No que diz respeito à preparação de material didático, ambas as professoras afirmam criar o seu próprio material, tal como os professores do grupo 2. As professoras dizem recorrer a material previamente criado por elas adaptando-o ao contexto de cada turma que têm. Uma refere ainda recorrer à sebenta criada no DLL que serve de documento orientador, e outra refere recorrer a gramáticas especializadas, como Português em Timor ou as Gramáticas Ativas, e a conteúdos disponíveis na internet sobre assuntos atuais de Timor-Leste.

As maiores dificuldades que encontram a ensinar português devem-se ao grande número de alunos por turma (entre cinquenta a sessenta alunos), ao desnível de conhecimentos de português dos alunos de uma mesma turma, o fraco conhecimento prévio destes alunos em língua portuguesa relativamente ao nível que estão a frequentar, e a falta de espaços fora de aula que permitam praticar e desenvolver a oralidade em português.

Ambas as professoras afirmam que o tétum desempenha um papel fulcral no processo de ensino-aprendizagem do português, dado considerarem que, sendo uma língua materna e do conhecimento geral dos alunos, pode servir na aula para explicação de vocabulário e para motivá-los a uma maior participação na aula. Nota-se um esforço por parte das professoras estrangeiras em conhecer a língua materna dos alunos, veja-se a seguinte resposta:
Prof: pois exatamente é isso mesmo que eu estava a dizer em relação à última pergunta, considero sim, e aliás neste momento até estou a frequentar aulas de tétum porque me parece ser uma mais-valia quando ensino português, primeiro porque em termos de vocabulário ajuda-me bastante, não é, porque às vezes acontece estarmos a falar de um texto e os alunos bloquearem porque não percebem uma palavra, e mesmo às vezes eu tentando explicar recorrendo a todas as formas possíveis sabendo ou tendo algum conhecimentos básicos de tétum ajuda-me a que a aula flua de outra maneira e mesmo que os alunos tenham outra motivação em aprender português.”

(cf. Anexo 8)


Ambas as professoras referem usar a língua tétum em qualquer situação em que se apresente necessário recorrer à língua materna, desde a explicação de vocabulário até à interação entre professor e aluno. Uma professora refere ainda que apesar de utilizar a língua tétum frequentemente procura não incentivar os alunos ao uso frequente da mesma, o que, na minha opinião, significa procurar potenciar o uso do português como língua de comunicação.

As professoras nunca encontraram um caso em que não fosse possível comunicar em qualquer das línguas que a professora e os alunos em geral dominam, ou seja tétum ou português. Segundo as professoras, os alunos conseguem compreender a aula apesar de considerarem que falam pouco em português, ao que uma acrescenta dever-se a medo de errar.

Como motivações dos alunos para aprender português indicam: o estatuto de língua oficial em Timor-Leste; a crescente oferta de trabalhos para falantes do português; a existência de familiares mais velhos proficientes na língua; e a possibilidade de se tornarem professores de língua portuguesa.

No que diz respeito á questão sobre se haverá interesse das gerações futuras em aprender português, ambas as inquiridas respondem que sim, apontando como razões as mesmas mencionadas acima para os estudantes que estão neste momento a estudar português.






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