Marcos Cabral Uso da Língua Tétum no ensino-aprendizagem do Português le na Universidade Nacional Timor Lorosa´e


O papel de uma língua de mediação na aprendizagem de uma LE



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2.1. O papel de uma língua de mediação na aprendizagem de uma LE


Em Timor, existe uma grande variedade de dialetos e línguas. Apesar do multilinguismo, a comunicação no dia a dia não é um problema, pois existe pelo menos sempre uma língua comum entre dois falantes. Esta situação leva a que seja necessário existir uma língua de mediação presente na sala de aula, a ser usada no processo de ensino-aprendizagem e na interação entre professores e alunos. Tendo sido adotado o tétum como língua oficial, ela tem crescido como língua franca dos habitantes timorenses e língua a ser utlizada na escola. Mas será possível não utilizar nenhuma língua de mediação no ensino de uma língua estrangeira como o português?

Como refere Poppi (2004)5,



De facto, sobretudo no caso dos níveis iniciais, é sem dúvida possível recorrer à L1 quando o docente ache oportuno, usando também code switching, ou seja, a passagem de L1 à L2 e/ou da L2 à L1. Por exemplo, quando um professor tem de ensinar o modo de desenvolver determinada atividade, pode usar primeiro a L1, para depois começar a introduzir a L2 (ou pode fazer o contrário).
Embora referindo-se à aprendizagem do inglês L2 por crianças italianas, esta opinião parece-nos interessante e pode adaptar-se ao nosso caso.

Vários autores referem que sempre houve um grande debate sobre se deve utilizar a L1 no contexto de ensino de uma LE, sendo que alguns condenam o seu uso por considerarem levar a uma interferência negativa da L1 sobre a LE e a processos de fossilização (Mello, 2004: 214), e diminuírem a exposição do aprendente à LE (Rocha, 2008: 872). Segundo Mello (2004), a exclusão da L1 da aula de língua estrangeira está relacionada com uma perspetiva monolingue que considera as duas línguas como sistemas separados, que na opinião da autora revela uma perspetiva estreita do processo de ensino aprendizagem. Tanto Mello (2004) como Rocha (2008) referem inúmeros autores que defendem uma perspetiva bilingue de ensino, nesta perspetiva a LM assume um papel importante para o desenvolvimento da aprendizagem da LE:


(…) não apenas no nível cognitivo e linguístico da aquisição de conhecimentos e da competência em L2 (e.g. transferência de estruturas de conceitos da L1 para a L2, negociação de léxico e estruturas gramaticais na língua-alvo), mas também no nível sociolinguístico e afetivo do desenvolvimento das práticas comunicativas (e.g. negociação de sentidos, valores, papéis, turnos de fala e atitudes por meio de alternância de línguas).

(Mello, 2004: 215)


As abordagens apresentadas pelas autoras baseiam-se em aspetos cognitivos e socioculturais.

Cummins (1981, 1994, 1996 apud Mello, 2004: 217-218) defende que existe um princípio de interdependência entre as línguas, em que a aprendizagem de uma nova língua se dá tendo por base as estruturas cognitivas e linguísticas pré-existentes, ou seja, que existe uma competência comum subjacente que leva a transferências de conhecimentos e conceitos de uma língua para a outra e que a aprendizagem se dá de uma forma integrada.

Do ponto de vista sociocultural, as autoras referem a teoria vyotskyana em que o processo de ensino-aprendizagem é antes de mais um produto da interação social (Mello, 2204: 220; Rocha, 2008: 873). Neste sentido, a L1 pode intervir como forma de promover a interação na sala de aula e a colaboração entre alunos na aprendizagem da LE, bem como evitar o nervosismo e promover a motivação.

Não se trata de fazer prevalecer o uso da L1, nem de incentivar o seu uso frequente, mas antes manter o processo de aprendizagem ativo e eficiente para os alunos, principalmente nos níveis iniciais. Segundo Platero (2002), o professor deve manter, ao máximo, o uso da LE, pois é ela que os alunos estão a aprender. Para a autora, muitas vezes, os alunos realizam tarefas que recaem no uso da L1 porque os alunos ficam com medo de errar, inibidos ou sem nada para dizer:


Para minimizar esses problemas, uma das saídas é o trabalho em grupos, aumentando o tempo de participação de cada aluno e diminuindo a inibição. Facilitar o nível da linguagem utilizada também dá mais segurança aos alunos e a escolha de um tema interessante aumenta a motivação e a participação. Mantenha ao máximo, o uso da língua-alvo; afinal, é ela que os alunos estão aprendendo. Por fim, lembre-se que o professor é, sim, um modelo de oralidade para o aluno.

(Platero, 2002: 3)


Nestes trabalhos em grupo, o uso da L1 pode servir como meio de suporte mediado (Mello, 2004: 223-225), para promover a colaboração entre alunos e a motivação, mas o foco deve-se manter no uso da língua-alvo.

No contexto timorense, o tétum tem um papel importante no ensino de língua estrangeira, principalmente para os aprendentes dos níveis iniciais que não têm quaisquer conhecimentos da língua portuguesa. Neste nível, o tétum poderá ser uma língua mediadora nas salas de aulas a ser usada em diferentes contextos como a interação entre alunos, a explicação de conceitos e tarefas, e o esclarecimento de dúvidas, por exemplo de vocabulário.

Nestes contextos, a L1 (tétum no nosso caso) é usada principalmente para a tradução. Bernabé (2008: 245) refere que:
[...]o uso de L1 para o ensino de LE é um assunto controvertido porque, para muitos professores, a língua materna “distrai a atenção do aluno dos meios pelos quais a língua estrangeira expressa significados” (Widdowson,1991,p.36). Sendo assim, essa distração pode acontecer desde que ela se realize pelo nível da forma (tradução de frase por frase ou palavra por palavra), do contrário, os alunos podem se servir do uso de L1 para a aprendizagem de LE.

(Bernabé, apud Widdowson,1991:36)


Ou seja, o uso de L1 ou da tradução pode operar tanto no nível da forma como no nível de uso (Bernabé, 2008: 246). A primeira é quando a tradução implica relacionar as duas línguas frase por frase ou palavra por palavra e a segunda acontece quando o aprendiz é capaz de reconhecer atos de comunicação como descrição, instrução, identificação e outros mais que na LE são expressos de uma maneira e na sua própria língua de outra. A tradução no nível de uso é considerada por Widdowson (1991, apud Bernabé, 2008: 246-247) como uma estratégia eficiente, pois o aluno aprende a relacionar e comparar as diferentes maneiras de se expressar na língua materna e na LE. O uso da língua tétum, porque equiparada em geral a uma L1, pode ser neste sentido um recurso eficaz no ensino de língua estrangeira principalmente para explicar vocabulário, mostrar as diferenças gramaticais e pragmáticas entre línguas, ou para dar instruções.

A tradução tem ser usada com cuidado pois pode fazer os alunos ficar dependentes da L1 para comunicar e aprender o português. Para Faleiros (2004):


Se usada mais que o necessário, a tradução pode levar os alunos a acreditarem que este é o único meio que têm para aprenderem as sutilezas da língua ou eles ficarão dependentes da tradução para entenderem certos pontos gramaticais ou de vocabulário, os quais eles consideram mais difíceis de assimilar.

(Zeny apud Faleiros, 2004: 54)

A língua tétum pode ser usada na negociação de significado e promoção da aprendizagem de português facilitando a comunicação entre os alunos em atividades na aula, como foi referido acima. A tradução para a L1, em alguns momentos, é produtiva, pois existem na língua portuguesa palavras próprias e únicas do português, sendo assim praticamente impossível representá-las de outra forma ou em outra língua, sem usar o tétum, a L1, para as explicar e tornar acessíveis aos alunos, ou seja, para clarificar conceitos que muitas vezes nem sequer existem na cultura timorense.

Apesar de alguns professores não quererem utilizar a Língua Materna em contexto de aprendizagem de Português como Língua Estrangeira, em Timor é um facto que merece consideração especial. A língua tétum entra naturalmente na sala de aula de língua portuguesa, e não só, principalmente nos níveis iniciais de aprendizagem e nos momentos de maior dúvida dos alunos. Mas até que ponto devemos condenar o uso desta que é a língua oficial em um país como Timor, imerso em grande multilinguismo? A língua tétum, e outras como o bahasa, vêm ao encontro da aprendizagem das línguas estrangeiras e pode ser utilizada como uma ferramenta nas negociações de significado e nas tentativas de aprender.

Esta ideia de utilizar a L1 como meio de suporte tem por base uma perspetiva socio-comunicativa integrada, ou seja, o aluno não só desenvolve as suas competências linguísticas como também outras competências de caráter cognitivo e social. Segundo Terra (2004: 100): “tais procedimentos permitiriam, ainda, o desenvolvimento de mecanismo de socialização que garantiriam, ao aprendiz um desempenho participativo, autónomo e crítico no mundo que ele vive”.

Esta é a perspetiva com que se apresenta o trabalho aqui desenvolvido. Na minha opinião, o tétum deve ser usado como língua mediadora para aprender o Português Língua Estrangeira, mas sempre com o cuidado de não se recair demasiado no uso da L1. Em Timor, os alunos falam pouco português fora das aulas, e têm poucas oportunidades de contacto com a língua, neste contexto cabe ao professor usar o bom senso para saber quando usar a língua materna e quando desincentivar o uso da mesma.







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