Mal-estar: marca da escola na contemporaneidade?



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MAL-ESTAR: MARCA DA ESCOLA NA CONTEMPORANEIDADE?


Edileide M. Antonino da Silva 1

RESUMO:
São muitas as pesquisas que investigam a questão do mal-estar docente e da própria escola, afeto que se percebe com frequência no ambiente educacional. Fala-se do mal-estar, da queda da autoridade do professor, das questões sociais, da subjetividade do docente e de outros tantas mazelas que afetam a escola. O tema também tem sido alvo de discussões nas quais são elencados inúmeros fatores responsáveis pela presentificação deste mal-estar, especialmente no que concerne diretamente ao professor: poucos prazeres e muitos desprazeres neste ofício. Estamos em tempos pós-modernos e é possível se constatar o fenômeno da desautorização presente na escola, desestruturando não só o processo educacional, mas a todos os atores que vivenciam este ambiente. Resta-nos investigar o potencial deste fenômeno para o surgimento do clima de mal-estar que circula e circunda a escola. Antes de enveredar pelos teóricos da psicanálise que debatem essa temática, apresentamos o que se discute sobre o assunto num contexto mais amplo através das pesquisas de Saul Neves de Jesus e José Manoel Esteve. Trazemos, então, como relevantes para a compreensão do mal-estar que ocupa a escola contemporânea os estudos do mestre Sigmund Freud sobre o mal-estar na civilização, Marcelo Ricardo Pereira e sua discussão sobre o lugar do mestre na contemporaneidade, Maria de Lourdes Ornellas e o debate sobre os afetos na escola, Bauman e o mal-estar na pós-modernidade. Não concluímos esta fala, pois fica em aberto o questionamento: o bem-estar na escola está no campo das possibilidades ou é mais um desejo utópico? Será o mal-estar docente uma marca da escola contemporânea? O artigo nos propõe uma reflexão sobre isso.

A arte – sempre um pouco impostora por tentar dar contorno ao incontornável – leva não raro o artista a andar sobre a corda roída: espera tenso pelo seu rompimento, ao mesmo tempo em que se esmera em manter-se de pé”.

Marcelo Ricardo Pereira.
Penso aqui o educador como este artista que se esmera por se manter de pé, que busca manter seu equilíbrio sobre uma corda frágil, que tende a se romper a qualquer instante da apresentação. Um equilibrista que vive o risco dia-a-dia, mas que persiste testando seus limites e possibilidades. É sobre o mal-estar nesta corda frágil em que se encontra o docente e a própria escola que pautaremos esta discussão.

Existem diversos trabalhos que investigam a questão do mal-estar na escola, afeto que se percebe com freqüência no ambiente educacional, resvalando inclusive em seu entorno; fala-se do mal-estar, da queda da autoridade do professor, das questões sociais, da subjetividade do docente e de outros tantas mazelas que afetam a escola. O tema também tem sido alvo de discussões nas quais são elencados inúmeros fatores responsáveis pela presentificação deste mal-estar, especialmente no que concerne diretamente ao professor: poucos prazeres e muitos desprazeres neste ofício, e é disso que muito se fala. Na minha condição de professora, questiono os motivos que levam o docente a dar relevância aos aspectos desprazerosos da sala de aula em detrimento dos afetos prazerosos que por ali também circulam.

Estamos em tempos pós-modernos e é possível se constatar o fenômeno da desautorização do professor como algo presente na escola desde outros tempos. Resta-nos investigar o potencial deste fator para o surgimento do clima de mal-estar que circula e circunda a escola. Antes de enveredar pelos teóricos da psicanálise que debatem essa temática, é preciso trazer o que se discute sobre o tema num contexto mais amplo. E o que é que se fala deste mal-estar? Trata-se de um afeto que realmente atravessa a escola e a invade, sem deixar espaço para o bem-estar?

Esteve (1984,1994,1999) apresenta o mal-estar docente como um conceito que traduz os efeitos negativos que afetam a personalidade do professor como resultado das condições em que ele realiza o seu trabalho, manifestando-se em diversos graus, passando pela insatisfação profissional e chegando até a estados depressivos. O autor explica ainda que costuma usar a expressão mal-estar para descrever os efeitos contínuos de caráter negativo que afetam a personalidade do professor, resultado das condições psicológicas e sociais em que se exerce a docência na contemporaneidade. Os sintomas do mal-estar são, na verdade, sensações de que algo não está bem, mas quase sempre sem uma causa explícita para isso. Esteve ainda diz que mal-estar docente se caracteriza pela insatisfação profissional, pelo alto nível de stress, absenteísmo, falta de empenho em relação à profissão e desejo de abandonar a carreira.

Jesus (1998) apresenta o conceito de mal-estar docente como um fenômeno que sofre influência de fatores sociopolíticos, pessoais e da formação profissional, compreensíveis pelas transformações sociais que ocorreram especificamente na segunda metade do século XX e que tiveram forte influência sobre a educação, de forma que fortaleceu a desvalorização do professor. O autor elenca algumas dessas mudanças, apresentando a era da informação como um desses fatores, justificando que a transmissão do conhecimento, no passado, era função do professor, o que hoje é delegado não só a este, mas também à mídia, à internet de forma especial, dentre outros; o segundo ponto apresentado por Jesus é a democratização do ensino, fator que tornou a escola obrigatória, gerando aumento de alunos e de docentes, mas sem a necessária qualificação deste professorado. O autor cita as novas exigências como o terceiro ponto; são exigências de um novo contexto que se presentifica, delegando ao professor função não só docente, mas de família; some-se a isso a necessidade de constante capacitação em novos métodos e técnicas; a falta de materiais para a realização dos trabalhos planejados para o dia a dia; salas de aula lotadas; recursos escassos ou até ausentes, além da falta de investimento na formação docente. E, por fim, a questão salarial; outros profissionais com menor ou igual nível de formação normalmente tem maiores salários que o professor, o que indubitavelmente reflete no próprio status da profissão.

Também é Jesus que afirma que embora seja um problema da atualidade, a ênfase colocada sobre o fenômeno do mal-estar docente pode levar a acentuar os aspectos mais negativos da profissão. Estudar e discutir esses fatores tem o objetivo de buscar soluções para esta problemática, tentando desfazer a condição que se instala e define que o natural é que o ambiente escolar seja permeado pelo mal-estar que se generaliza e abraça todas as instâncias da escola (2006).

Bem-estar e mal-estar são conceitos complexos que integram qualidade de vida e os afetos, segundo Picado (2009, p. 23). Bem-estar, de acordo com o mesmo autor, é uma dimensão positiva da saúde com uma importância crescente em comunidades educativas, nas quais se espera que as pessoas vivam as suas vidas de modo que se sintam plenas, segundo critérios estabelecidos por elas próprias.

De certa forma está posto que na contemporaneidade o professor encontra dificuldades de diversos tipos para o seu exercício, às vezes até impossibilidades, e isso ocorre por não ser possível a este profissional dar conta de tudo que lhe é demandado, o que torna difícil conviver com os problemas que chegam até a sala de aula. Estas questões circulam nas muitas relações estabelecidas no âmbito escolar, ou seja, não apenas com professor-alunos, mas com a comunidade escolar de um modo geral. Assim, podemos entender que este mal-estar é um sentimento largo que afeta as relações dentro da escola e fora dela, se expandindo para a comunidade local e permanecendo com o docente mesmo quando este se ausenta da escola; é um afeto desprazeroso que tem poder e fragilidades, mas que pode ser transformado com ações inversas, embora seja contagiante e se espalhe facilmente, prejudicando o processo de ensinar e aprender.

Buscar e ressaltar os matizes de bem-estar presentes na escola está no campo das possibilidades ou será mais um desejo utópico? Será o mal-estar docente uma marca da escola na contemporaneidade? Será que esse fenômeno obrigatoriamente atravessa e constitui as relações ali estabelecidas? Façamos uma breve reflexão sobre isso.
BEM-ESTAR, MAL-ESTAR E DESAUTORIZAÇÃO DOCENTE
... é preciso levar em conta a questão do sujeito para compreender o que acontece hoje na escola .”


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