Lygia Fagundes Telles



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Lygia Fagundes Telles


(Brasil, 1923)

WM


A chuva mansa e o céu de aço. Na mesa do Doutor Werebe, o relógio branco marca três horas, três horas em ponto. Cheguei há pouco e a enfermeira pediu que esperasse. Então, como vão as coisas?, ele vai perguntar enquanto acende o cigarro. Como vai minha irmã?, pergunto eu. O silêncio ajuda a abrir o intrincado caminho aqui dentro por onde vou descendo até o fundo, para ajudá-la preciso eu também descer aos infernos. E no terceiro dia ressuscitar dos mortos, rezo muito, mas não aos santos limpos, rezo aos outros, aqueles rasgados por espinhos, por demônios. Rezo principalmente a São Francisco de Assis com seus olhos cosidos e mãos furadas, ele pode ajudar minha irmã, ele e Doutor Werebe que me acompanha nessa descida e me levanta e anima quando tropeço, fiquei demais envolvido. Como vão as coisas?, me pergunta enquanto acende o cigarro. Acendo o meu. E, sem nenhuma pressa, começamos a falar nela.



Vou até a porta envidraçada que dá para o pátio. No vidro embaçado, com o dedo escrevo um W e um M, duas letras recortadas na folhagem brilhante de chuva, o resto é névoa. Minhas iniciais e as iniciais dela, Wanda e Wlado, uma família de nomes começando com dáblio, mamãe se chamava Webe. Wanda, minha irmã. Por esse W ela foi subindo ágil com seu passo elástico, atingiu a ponta aguda da letra e ficou equilibrada lá no alto, bailarina de malha cor-de-rosa se apurando no seu exercício mais raro, as sapatilhas de cetim num prolongamento do ângulo. Desequilibrou-se e rolou pela encosta da letra até ficar comprimida no fundo, nesse segundo vértice que toca o chão. No escuro, presa entre as duas paredes, ela continua até agora. Seu silêncio é suave porque ela é suave. Mas o olhar não vai além da parede em frente. Wanda, minha irmã, não quer mais vestir sua linda malha e tentar subir de novo?

Doutor Werebe não responde. É preciso esperar, ele disse. Espero. Teve uma crise na infância, mamãe me falou nos meses em que foi obrigada a passar na sua cabeceira quando ela era ainda uma menininha. Recuperou-se. Aprendeu bailado. Línguas. Cinco anos mais velha do que eu e tão mais desenvolvida, nesse tempo vivíamos numa casa luxuosa, mamãe era uma artista importante e bonita, com muitos homens em volta. Tantos empregados, mas era Wanda quem cuidava de mim, quem me contava histórias. Quando resolveu me ensinar a ler, comprou um quadro-negro e uma caixa de giz de todas as cores, nos intervalos eu desenhava. Aprendi o EME com facilidade mas resisti ao DÁBLIO, me lembro como ela ria quando minha língua enrolava no blio. Mas o DÁBLIO não passa de um EME de cabeça para baixo, explicou enquanto escrevia um grande W seguido de um M - Não é simples? Dei uma cambalhota e fiquei plantado nas duas mãos, Assim, Wanda? É uma letra assim? Ela me segurou pelos pés, apertou-os contra o peito. E, retomando o giz, foi enchendo o quadro-negro de dáblios e emes, chegou até à moldura, escreveu na moldura, invadiu a parede e contornou a janela, subiu na estante, o giz se esfarelando nas lombadas dos livros, no chão, WMWMWMWMWMWM – Não é fácil? Não é fácil?, ia perguntando sem poder parar. Fiquei na maior excitação, dando gritos até mamãe vir lá de dentro e me sacudir enfurecida, Quer fazer o favor de parar com isso? Foi a Wanda, eu denunciei, mas ela continuou me sacudindo, Vai parar? Mamãe era uma atriz famosa mas agitada como um vento de tempestade. Ou estava estudando algum papel em meio de crises: de angústia (era uma perfeccionista) ou estava dando entrevistas, ou experimentando roupas, ou telefonando, levava o telefone para o quarto, deitava e ficava horas falando com uma amiga ou algum amante. Pílulas para dormir, pílulas para acordar, a cara sempre enlambuzada de creme. Não tomava conhecimento nem de Wanda nem de mim. Atrás de um móvel ou pela fresta da janela eu a via entrar e sair se queixando, se queixava muito das pessoas. Do tempo curto que a obrigava a correr e nessa corrida ia perdendo coisas, Onde está meu lenço, meu perfume, minha chave, minha echarpe?! Leva esse menino daqui!, gritou certa vez que me aproximei mais. Wanda me consolou com um sorvete de chocolate e com a história do Martinho Pescador que pescou um peixe encantado e o peixe lhe suplicou que o soltasse, em troca lhe daria o que pedisse. Quero uma casa, pediu o pescador, que vivia numa tapera. Voltou e encontrou a mulher de vestido novo, radiante no palacete mais bonito do bairro. Só uma 'tarde durou esse contentamento porque de noite a mulher já começou a se queixar, ao invés de uma casa tão banal, bem que o tolo do marido podia ter pedido um palácio, Vai lá e pede um palácio! Ele foi, pediu um palácio e, quando voltou, ela já estava resmungando, de que adiantava tanto mármore e ouro se não tinha o poder? Volta ao peixe, ordenou, quero ser rei! Depois começou a se queixar de novo, era tão limitado o poder do rei que não chegava ao reino dos céus, Agora quero ser papa! Mas um dia se sentou no trono da Igreja, chamou o Martinho Pescador e mandou-o de volta à praia, Diga ao peixe que quero ser Deus! Deus?, perguntou o peixe. E aí tudo revirou. Chegou em casa e encontrou a mulher esfarrapada e chorando na porta da casa. Embora menino, de modo obscuro eu associava mamãe com a mulher de Martinho, que não sossegava. Estreava a peça e vinham as críticas. Os telegramas. As homenagens. Então ficava macia, o sorriso flutuante igual ao da deusa da gravura, uma roliça mulher coroada de anjos numa gôndola puxada por dois cisnes brancos. Vem brincar com a mamãe, chamava por entre as plumas do seu négligé. Eu ia mas nunca ficava muito à vontade, atento ao primeiro sinal de impaciência: tinha sempre um crítico que se omitia e um outro que foi meio ambíguo - mas por que o público do último sábado não aplaudiu de pé? A desconfiança crescia numa conspiração: apontava inimigos, descobria tramas. Irritava-se quando o telefone tocava sem parar ou quando as pessoas a abordavam na rua pedindo autógrafos retratos. Mas quando chegou o tempo em que o telefone ficou calado e as pessoas não se viravam para vê-la, caiu no mais completo desespero. Os vasos vazios de flores. As pessoas distraídas. O tremor de excitação durava até a hora do carteiro, Hoje não veio carta? Nem hoje nem ontem, só convites para exposições ou avisos de banco que eram rasgados com tanto ódio que comecei a rezar para que eles não chegassem mais. Sobrava o jornal que costumava deixar para depois, nunca entendi por que reservava para o fim essa carta. Ia diretamente à página de arte, percorria os textos, Não fui mencionada? E quem sabe alguma referência na página seguinte. Ou na outra, ô!, que insipidez, que vazio. Dobrava o jornal com uma crispação que eu ouvia de longe. Passava os cremes, tomava as pílulas e ia dormir. Para recomeçar tudo, quando acordava, e zonza ainda queria saber, ninguém telefonou? Fingia alívio: ótimo. Mas o maxilar endurecia. Evitava Wanda porque Wanda ficou moça, não suportava sua juventude. E me evitava porque eu era parecido com meu pai, aquele que um dia saiu para comprar fósforos e nunca mais apareceu. Na afobação do sucesso, achou bom mesmo que ele tivesse sumido. Mas assim que começou a envelhecer, o ódio que fora curto voltou revigorado. Na estréia de uma peça que queria demais fazer (perdeu o papel para uma mais jovem ficou em tal estado que tirei dinheiro da sua bolsa, corri à floricultura e lhe mandei um imenso ramo de rosas com um cartão: Para a maior atriz do mundo, de um fervoroso admirador.

Durante uma semana ela se alimentou dessas rosas. Ficou apaziguada. Sonhadora. Quando começou a se crispar de novo, mandei-lhe um disco. E uma caixa de bombons e em seguida outro disco com o dinheiro que eu ia tirando escondido. Fiz uma pausa quando ela se impacientou, Mas por que esse imbecil de admirador não aparece nunca? Vai ver, é um negro! E rasgou o cartão. Wanda cuidava dela, cuidava de mim. E ainda achava tempo para marcar a roupa com nossas letras, tão pessoais as toalhas de banho com um dáblio e um eme bem grande, em vermelho, me enrolava neles para me enxugar. Quando me deitava, podia senti-los quase invisíveis bordados no canto da fronha. Ou no guardanapo. As letras tinham floreios na ponta da caneta de prata, mas eram despojadas por entre os arabescos de ferro do portão: W M. Wanda teve um momento de cólera quando mamãe descobriu que era eu quem estava lhe tirando dinheiro, as flores foram ficando mais caras. Mas no dia seguinte mesmo - era meu aniversário -, deixou no meu quarto um bolo com um W M escrito no creme de chocolate. Sentamos os três em redor do bolo. Flutuante como nos dias antigos, mamãe vestiu um longo decotado e me ofereceu uma pequena tartaruga que batizamos com vinho, Eu te batizo, Wamusa! Muito fina na sua malha de um rosa-envelhecido, Wanda dançou para mim, só para mim, desde que mamãe polidamente continuava a ignorá-la. Depois, prendeu no meu pulso uma corrente com as iniciais gravadas na plaquinha de prata: W M. Beijei as letras, beijei mamãe e guardei a tartaruguinha no bolso. Minha família. Uma estranha família, diferente das outras, mas nessas diferenças não estaria o nosso vínculo? Dormi mal, com um curioso sentimento de que devia ficar em vigília. Madrugada ainda, pulei da cama: em todos os meus livros e cadernos, nas capas e nas folhas internas, os dáblios e os emes se multiplicavam em todos os tamanhos e cores. Tentei apagá-los: o crayon e a aquarela, o carvão e o nanquim eram irremovíveis. Encontrei minha irmã na cozinha, comendo uma fatia do bolo da véspera, o ar ajuizado de uma mocinha disciplinada, esperando a hora da aula de alemão. Negou mas acabou confessando, em prantos, que não pudera resistir a uma espécie de comando que a possuía e a obrigava a marcar tudo que ia encontrando, até a exaustão. Enxuguei suas lágrimas, Não se preocupe, Wanda, não se preocupe. Direi no colégio que perdi os livros, como é esqueça em alemão?



Os dias ocos, muitas vezes já falei sobre esses dias que vieram em seguida, quando a tempestade mudou de rumo. Ficou a brisa por entre os cabelos de minha mãe que parecia menos infeliz enquanto escrevia suas memórias. Atarefada com aulas, Wanda mostrava a carinha de quem se propõe um trabalho sério. O problema dos livros resolvido, assumi a responsabilidade com a ajuda de um psicólogo do colégio. Esse relaxar por dentro e por fora, essa calma curiosidade por uma nuvem, por uma folha que tomba e que se examina com amor e inocência - era isso ser feliz? Achei graça quando no tronco do abacateiro dei com as duas letras entalhadas a canivete, mas recuei estarrecido quando entrei no seu quarto: nas paredes, nos móveis, em superfícies e reentrâncias, no chão e nos espelhos o W M furiosamente desenhados. Ou abertos a canivete. Passei a mão na poltroninha de couro rasgada de alto a baixo, o algodão escapando do dáblio, mais eviscerado do que o eme. No canto do quarto, a tartaruguinha marcada até o cerne lívido da carapaça.

Fui cambaleando até o quarto da mamãe. Ela escrevia suas memórias mas devia estar num pedaço triste, tinha o olhar apagado. A Wanda, onde ela foi?, perguntei. Mamãe apertou minha mão e começou a chorar: Mas meu querido, a Wanda morreu faz tanto tempo! Você fica falando nela, fica falando e faz tanto tempo que ela morreu! Acariciei seus cabelos que já estavam completamente grisalhos, quando deixara de pintá-los? Sim, mamãe, é claro, não falo mais, eu disse. Ela cruzou os braços na mesa e pousou neles a cabeça. Dormiu. Dormia em meio de uma frase, de um gesto, envelhecera tão rapidamente. Saí e andei sem parar. Mamãe e suas pílulas. Wanda e suas letras. O começo daquelas letras foi naquele quadro-negro? Mas o que significava isso, vontade de afirmação? De posse? Lembrei-me da sua longa enfermidade na infância, mamãe não entrou em minúcias mas se referiu ao medo que ela tinha das pessoas, do escuro. Estaria se transferindo para as iniciais? Se buscando nelas? Tanta pergunta me confundiu. Me abrasei na dúvida: e se com essa minha cumplicidade eu estivesse apenas agravando o seu estado? Acabei a noite descendo num inferninho, com uma gentil putinha sentada em meus joelhos. Tinha olhos de amêndoa doce e dentes perfeitos, devia andar pelos dezoito anos. Os ombros estreitos, a franja negra e lisa. Você é chinesa?, perguntei. Só a mamãe, disse examinando a plaquinha da minha pulseira. Riu quando deu com as letras, Mas meu nome também começa assim, quer ver? E, molhando o dedo no copo, escreveu na mesa: Wing. Levei-a para um hotel. Por dois dias esqueci Wanda, mamãe, esqueci aquele eme andando de cabeça para baixo, plantado nas mãos - esqueci tudo em meio ao gozo, eu estava precisado desse gozo feito de pausas amenas, Wing só falava amenidades com sua voz mais leve do que a asa de uma borboleta. Na noite do terceiro dia, comprei para ela um pacote de cerejas - era tempo de cerejas -, deixei-a instalada no pequeno hotel com seu toca-discos e fui para casa. Encontrei Wanda de malha cor-de-rosa, estava ensaiando. Falei sobre o meu pobre amor chinês que achei na zona e ela me abraçou e rodopiou comigo, então eu tinha um amor? Quis conhecê-la imediatamente. Depois, eu prometi, depois eu a trago aqui. Foi buscar uma garrafa de vinho para comemorar: se eu estava amando, ela também amava, porque a única coisa que podia nos salvar (me encarou com gravidade) era o amor. Mamãe tinha ido ao teatro com uma amiga. Ouvimos música, bebemos, acabei dormindo ali mesmo no sofá. No sonho tão real vi Wanda aproximar-se de mim com uma expressão má. Veio devagar, bailarina pisando branda. Inclinou-se. Mas o que trazia escondido? Voltei a cara para a parede na hora em que a ponta da lâmina riscou um W e um M na palma da minha mão. Os talhes seguros, nem rasos nem fundos, na medida exata. A dor fria escorrendo devagar. Quando acordei, o sol já entrava pela janela e queimava minha boca. Não tive forças de olhar a mão que latejava. Amarrei nela um lenço e fui procurar um psiquiatra para Wanda. Indicaram-me seis, um deles era o Doutor Werebe. Wanda resistiu, tinha horror de análises, de sanatórios. Em casa, comigo e com mamãe ao lado, ainda se agüentava, mas no dia em que embarcasse nesse mar jamais voltaria, disse esfregando as mãos num pânico de criança. Tranqüilizei-a, mas quem falou em internamento? Ficaria com a gente, convivendo com a nossa loucura razoável. E pedi-lhe a lâmina, o canivete: tinha que me prometer que não marcaria mais nada. Ela beijou a palma da minha mão ainda inchada e me entregou sua pulseira de iniciais, um presente para a minha Wing.

No fim desse mês mamãe morreu. A amiga atriz foi visitá-la e a encontrou caída no banheiro, segurando o vidro de pílulas. Foi acidente?, perguntei, e o médico do pronto-socorro olhou-a mais demoradamente, estava serena na morte: Quem pode dizer? Comprei um ramo de rosas igual ao que ela costumava receber do admirador anônimo e Wanda então me abraçou em prantos: Quer dizer que era você? Ficamos no velório de mãos dadas, falando em voz baixa sobre mamãe. Sobre nós mesmos. A noite estava gelada, mas era quente o hálito de Wanda me contando como lhe fazia bem a análise. Contei-lhe o quanto me fazia bem o amor. Quando fui buscar a tampa do caixão, vacilei num desfalecimento, outra vez?! Fechei os olhos: sob as pontas dos dedos, apalpei as duas letras apressadamente cavadas na madeira polida. Com as unhas, tentei aplacar as farpas enquanto olhava para minha irmã ali encostada na porta, silhueta espiralada de uma bailarina em descanso. Mas por quê, Wanda?, perguntei-lhe na volta do cemitério. Você tinha prometido, Wanda! Por quê? Ela não se perturbou: marcara o caixão como marcara nossos pertences, mamãe gostava, como eu, das pequenas marcas da posse. Até na morte. Onde o mal?

Ouço vozes na saleta, Doutor Werebe está conversando com a enfermeira. Então, como vão as coisas?, vai me perguntar com sua simpatia profissional, nos primeiros momentos fica profissional. Como vai minha irmã?, pergunto eu. Volto sempre a alguns acontecimentos que me parecem as portas do labirinto: tarde em que encontrei Wing com os olhos inchados de tanto chorar, Por que chorou, Wing? Ela fechou as janelas, desceu persianas e me abraçou com força, demoradamente, Entra em mim, pediu. Wing sabia que eu não gostava de nada escuro entre nós dois, fazia parte do gozo ver seus olhos se estreitando até escorrerem diluídos para dentro dos meus, Wing, a luz! Não obedeceu, ela que era obediente: Deixa ficar assim, pediu. Quando acendi o abajur, tentou esconder depressa os seios, seus lindos, seus pequeninos seios horrivelmente tatuados com um W e um M azul-marinho em cada bico. Cobri-a com o meu corpo, Wing, minha amada, por que você deixou que ela fizesse um horror desses, eu não te avisei? Não respondeu. Seu olhar atônito ficou cravado em mim, mas do que eu estava falando? Que Wanda? Pois então não me lembrava? Fomos os dois ao homem das tatuagens que prometeu ser discreto, apenas duas letrinhas ah, por favor, não queria mais esse assunto. Eu te amo, ficou repetindo, eu te amo. Nem todas as letras do mundo iam interferir nesse amor. Quando cheguei, Wanda estava na sua poltroninha, folheando um velho álbum de retratos. Será este o pai? Será que ainda está vivo?, perguntou. Quando viu que não respondi, fechou o álbum e ficou olhando para dentro de si mesma. Tomei-lhe as mãos singularmente infantis: Wanda, querida, não podemos continuar desse jeito, tenho sido seu cúmplice, fico encobrindo tudo, está errado, está errado! Agora, até Wing dizendo, para te proteger, que não foi com você ao homem das tatuagens. Quero que saiba que amanhã falo com Doutor Werebe, se ele achar que você está precisada de um tratamento mais intenso, se aconselhar o sanatório, promete que não vai resistir? Que não vai desobedecer? Ela ficou me olhando através do espelho e seu rosto secreto era um reflexo do meu. Depois ajoelhou-se aos meus pés e com a ponta do dedo escreveu um dáblio e um eme na poeira dos meus sapatos.

Apago no vidro da janela as duas letras feitas no bafo. Aqui ela não vai ser maltratada, disse o Doutor Werebe. Nem você. Fale só se tiver vontade, está me compreendendo? A chuva fortalecida faz tremer o arvoredo no meio do pátio. Começo também a tremer, por que o Doutor Werebe está demorando? Ele é bom, me dá a mão enquanto descemos juntos até a ressurreição da carne, ele me ajuda quando tropeço com a minha carga nos braços, Doutor Werebe, está pesado demais para mim!, digo e ele me segura. Na realidade, Wanda não pesa mais do que uns trinta quilos, mas fica de ferro quando começamos a descida. E precisamos eu e ela ir até o fundo do fundo, lá onde fica o hotel, corro sabendo o que vou encontrar e ainda assim continuo correndo, subo a escada, abro a porta e a primeira coisa que vejo é o toca-discos ligado, a agulha girando na zona silenciosa girando girando no silêncio e a cadeira tombada não sei quanto tempo tombada e a agulha na zona encontrei Wing na zona ela sentou no meu colo e a franja e os olhos de amêndoa doce meu pobre amor chinês de ombros estreitos entra em mim pedia e o gozo cálido eu te amo eu te amo eu te amo entra em mim disse e a certeza de que agora estava fria na zona de silêncio como a agulha. Onde está você Wing?, gritei quando vi o jornal aberto no chão e a data a data com a gota de sangue respingada era a véspera pisei no respingo estatelado duro e adiante a mão pendendo para fora da cama com sua linda pulseira de prata fui subindo pelo fio sanguinolento do braço passando agachado debaixo da pulseira como o fio que escorreu sem sujá-la não esqueça esse detalhe sem sujá-la fui subindo pelo fio ressequido como fazia Wanda com sua malha subindo na letra até ficar hasteada em cima Wing Wing não abra a porta! Wanda vai pedir vai implorar mas não abra e agora esse rasgão na roupa e esse peito rasgado Wanda morreu faz tanto tempo mamãe disse e não sabia que ela era inaparente porque eu ia atrás apagando os rastros por onde ela passava mas se eu limpar essa crosta no peito de Wing vai aparecer o W M de lábios azuis de tão frios deixando entrever bem no vértice seu pequenino seu amado coração.



In “Seminário dos Ratos”


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