Lívia Krassuski Barboza



Baixar 0.53 Mb.
Página1/4
Encontro05.10.2018
Tamanho0.53 Mb.
  1   2   3   4

Lívia Krassuski


A Estética do Tarô

O texto constitui parte da monografia,

desenvolvida em 2005,

durante o curso de pós-graduação

em História da Arte

da Universidade São Judas Tadeu,

São Paulo.



Contato com Lívia Krassuski, a autora

liviakrassuski@gmail.com

Editoração: www.clubedotaro.com.br


A Ordem Hermética da Aurora Dourada



Os estudos modernos do tarô são um legado do final do séc. XIX, época em que as filosofias orientais, os estudos esotéricos e diversas correntes espiritualistas foram ampla­mente difundidos por todo o mundo ocidental, tendo expoen­tes como Helena P. Blavatsky (Teosofia) e Rudolph Steiner (Antroposofia), dentre outros. Muitos historiadores consideram o surpreendente florescimento do ocultismo desse período uma reação à industrialização e seu conseqüente materialismo, pois havia o temor de que a tecnologia mecani­cista destruísse a individualidade; por outro lado, muitos acreditam que o interesse pelo esoterismo derive do contato com o Oriente, devido à presença britânica na Índia e do surgimento da Teosofia. De qualquer forma, é fato que poucos momentos da história ocidental trouxeram tantas mudanças na filosofia e no modo de vida da sociedade quanto a virada do séc. XIX para o XX; inúmeros ocultistas, eruditos, magos, leigos e oportunistas deixaram-nos teses e tratados não apenas sobre o tarô, como de todo o universo esotérico.

Nesse contexto surgiu a Ordem Hermética da Aurora Dourada (Hermetic Order of The Golden Dawn) (1888-1900). Foi criada na Inglaterra por William Wynn Westcott, S. L. MacGregor Mathers e W. R. Woodman. Esse grupo, herdeiro intelectual dos cabalistas da Renascença e dos rosa-cruzes barrocos, procurou coletar e sintetizar todo o arcabouço da tradição mística ocidental (Cabala, Hermetismo, Astrologia, Neoplatonismo, Magia Enoquiana de John Dee etc.) e utilizava o tarô como magia em rituais iniciáticos. Não se trata de mera coincidência, portanto, que os três baralhos mais importantes da era moderna, o Baralho Rider-Waite, de Arthur E. Waite, o Tarô Thoth, de Aleister Crowley e o Tarô da Aurora Dourada, criado por MacGregor Mathers, tenham sido produzidos por membros dessa confraria. No desenho das cartas desses baralhos há uma simbologia alquímica oculta que relaciona os arcanos à Cabala e à astrologia.





Os arcanos maiores sobre os caminhos da Árvore da Vida. Fonte: KAPLAN, 1989, pág. 58
A Ordem da Aurora Dourada via o tarô como o receptáculo simbólico de seu principal e mais secreto ensinamento, o denominado Livro T, um conjunto de textos sobre tarô publi­cado por uma facção da ordem. “T” é uma referência a Thoth, divindade egípcia à qual se atribui simbolicamente a criação dos hieróglifos. A idéia central do livro é de que existe uma precisa correspondência entre a Cabala Hermética (compre­endendo a Árvore da Vida, que possui 22 caminhos entre suas 10 sephiroth e as 22 letras do alfabeto hebraico) e o tarô, sendo ela uma chave não apenas para o tarô, bem como para todo o esoterismo ocidental. Cabe esclarecer aqui que a Cabala Hermética é uma versão ocidentalizada da Cabala Judaica, surgida na Renascença por iniciativa de filósofos que tentaram incorporar ao pensamento cristão o misticismo judaico1. Este assunto está detalhado no apêndice final deste trabalho.

MacGregor Mathers afirmava que o simbolismo do tarô retratava com precisão as forças ocultas do Universo. O Livro T inicia-se com uma passagem do Apocalipse de S. João, capítulo cinco, em que é mencionado um livro selado com sete selos (o Segredo do Universo). O Livro T sugere que o tarô é a chave para compreensão do Cosmos, na medida em que representa simbolicamente nossa percepção, isto é, nossa capacidade perceptiva de interpretar e compreender esses mistérios. Essa compreensão é o ato simbólico da abertura dos selos2.

Os Tarôs da Aurora Dourada (de Mathers) e Thoth (de Crowley) são esotéricos, desenhados para uso exclusivo dos membros da Ordem. Infelizmente, seus trabalhos com o tarô, fruto de profundas pesquisas, não receberam o reconheci­mento devido, provavelmente por seus comportamentos extravagantes, que os transformaram em alvos das críticas mais ácidas dos historiadores. Nas palavras de Robert WANG (1998, pág. 30):

Os que criticam a Aurora Dourada pela sua teatralidade deveriam compreender que ela surgiu a partir das mesmas forças sociais que estavam produzindo o teatro moderno, para não falar na literatura, na arte e na música modernas. Essa foi a era de Ibsen, de Stravinsky, de Henri Bergson (irmão da sra. Mathers), de William Morris, de Oscar Wilde, de Rimbaud e de Verlaine, de Van Gogh e de Gauguin.

WANG (opus cit, pág. 16) tece ainda um comentário mais específico sobre a estética de Crowley, como sendo expressão da época em que viveu:

Creio que a história verá Crowley como um típico representante de início do século XX, uma época que aderiu à estética da avant garde: o novo e chocante era, por definição, melhor que o antigo. Esta idéia constitui a base de toda a arte, música e literatura modernas, para não falar nos padrões de comportamento da elite artística de Londres, Paris e Nova York durante as décadas de vinte e trinta. O comportamento de Crowley encaixa-se nesse padrão, tal como acontece com o próprio estilo de suas cartas, que são basicamente Cubistas – o mais importante e avant garde de todos os estilos de arte moderna durante a fase de seu apogeu.



Cartas do Tarô Thoth – A JUSTIÇA e Rainha de Ouros (Discos).

Mais bem-sucedido foi Arthur Edward Waite, que criou, em 1910, juntamente com a artista Pamela Colman Smith, o baralho de tarô mais popular da história, conhecido como Rider-Waite por causa de seu fabricante, William Rider & Son.



A grande inovação de Waite foi ter desenhado os arcanos menores de forma explicativa, imprimindo um significado mais específico a cartas que eram até então totalmente cifradas, sem nenhuma referência para interpretação (dois de gládios, três de taças, e assim por diante). Ao contrário de Mathers e Crowley, que enfatizaram o caráter esotérico e hermético do tarô, Waite concebeu seu baralho para uso prático, tornando-o mais acessível ao grande público. Exemplificando: a carta DEZ DE TAÇAS, usualmente, significa grande sucesso no plano pessoal, felicidade, prosperidade. No baralho de Marselha encontramos o desenho de dez taças perfiladas; no baralho de Crowley, as dez taças estão colocadas na posição das dez sephiroth da árvore da vida cabalística, irradiando luz de dentro delas; no baralho de Waite, as dez taças estão num arco-íris sobre um casal abraçado e crianças brincando, ou seja, uma cena do cotidiano que representa metaforicamente o significado oculto da carta.

Dez de Taças – baralhos de Marselha, Thoth e Rider-Waite.


Baixar 0.53 Mb.

Compartilhe com seus amigos:
  1   2   3   4




©psicod.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Universidade federal
Prefeitura municipal
santa catarina
processo seletivo
concurso público
conselho nacional
reunião ordinária
prefeitura municipal
universidade federal
ensino superior
ensino fundamental
ensino médio
Processo seletivo
minas gerais
Conselho nacional
terapia intensiva
Curriculum vitae
oficial prefeitura
Boletim oficial
seletivo simplificado
Concurso público
Universidade estadual
educaçÃo infantil
saúde mental
direitos humanos
Centro universitário
Poder judiciário
educaçÃo física
saúde conselho
assistência social
santa maria
Excelentíssimo senhor
Conselho regional
Atividade estruturada
ciências humanas
políticas públicas
outras providências
catarina prefeitura
ensino aprendizagem
secretaria municipal
Dispõe sobre
Conselho municipal
recursos humanos
Colégio estadual
consentimento livre
ResoluçÃo consepe
psicologia programa
ministério público
língua portuguesa
público federal
Corte interamericana