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«ROBERT CHARROUX não é só o escritor mais lido na Europa e que maior influência exerce sobre a juventude estudantil, como também um repórter fora de série e um historiador de grande classe.» * NELLY LAVAUD

«ROBERT CHARROUX, um dos mestres da literatura esotérica, descreve apaixonadamente, em O LIVRO DO PASSADO MISTERIOSO, algumas investigações por ele conduzidas, satisfazendo assim a grande maioria dos seus muitos leitores.

A competência de Charroux neste domínio, insólito e particular, é-nos de novo demonstrada neste livro, que deve ser lido urgentemente.»

MARC MICHEL

«O autor faz, nesta obra, uma revisão completa de tudo o que há de estranho, de anormal, de misterioso, de raro, de insólito no nosso mundo de homens. Sem provar nada, mas revendo todas as teorias e denunciando grandes segredos, Charroux faz-nos entrar num mundo que é o nosso, mas analisado segundo uma dimensão de profundidade desconhecida: a quarta dimensão.» * RAFAEL DELGADO

LIVRARIA, ALIANÇA PAPELARIA

Rua de Serpa Pinto, 81

O Livro do Passado Misterioso

Tradução de MARIA JOÃO SEIXAS

LIVRARIA BERTRAND

APARTADO 37 —AMADORA

Título original:

LE LIVRE DU PASSE MYSTÉRIEUX

Capa de JOSÉ CÂNDIDO

© 1973, Éditions Robert Laffont, S. A.

Todos os direitos reservados para a publicação desta obra

em Portugal pela

LIVRARIA BERTRAND, S. A. R. L. —Lisboa

Composto e impresso nas Oficinas Gráficas da Livraria Bertrand (Imprensa Portugal-Brasil) Rua João de Deus t Venda Nova-Amadora

Acabou de imprimir-se em Novembro de 1974

O que procura a verdade e a exige com impaciência deve perguntá-la àquele que sabe. Qualquer impostor o enganará.

I

PREFÁCIO


SENDO a história dos homens e das suas civilizações apenas o que aos historiadores apeteceu contar para edificação e muitas vezes sujeição dos povos, pareceu-nos útil e razoável divulgar factos estranhos e acontecimentos heréticos conscientemente passados sob silêncio, ignorados ou deformados por espíritos muito bem-pensantes.

A nossa história paralela não passa de um ensaio anedótico, por vezes aventuroso, mas sempre fundado, apesar de os elementos de que dispomos terem sido contestados, dissipados, ou pertencerem a esse fenómeno oculto que se chama o ((misterioso desconhecido».

O HOMEM QUE FAZ MILAGRES

O Livro do Passado Misterioso, tal como os nossos livros precedentes, propõe-se abrir, (tão latamente quanto possível», a porta dos mistérios, dos factos honestamente heréticos e das sugestões boas para despertar o sentido crítico e a curiosidade daqueles a quem os ucasses, os dogmas e os slogans1 não satisfazem.

1 O doutor Grégoire Jauvais também se insurge contra as teses oficiais, no seu livro Erreurs Scandaleuses en Matière de Santé, «Série Radieuse», Rue Porte Dijeaux, 34, Bordéus.

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Fala-se aqui das civilizações perdidas, da magia de Cristóvão Colombo, dos retratos mágicos que aparecem na pedra da lareira de uma casa espanhola, de Agpaoa, do {(.cirurgião que mergulha as suas mãos no corpo do doente como se as carnes fossem tão fluidas como a água», como se as leis da nossa ciência terrestre não passassem de imaginações impostas pelos feiticeiros da física clássica...



Fala-se ainda de cem coisas que não convém contar num livro conformista e untado do imprimatur da boa e respeitável conveniência: de feitiçaria, das misteriosas aventuras que se passam no céu e dos inacreditáveis poderes legados aos nossos antepassados terrestres por outros antepassados ainda mais longínquos, que tinham vindo do céu.

Abre-se aqui o que devia ser selado, revela-se o que era preciso calar, a começar, para dar o tom, pela frase misteriosa ouvida na Lua pelo cosmonauta Worden.

UMA FRASE MISTERIOSA PRONUNCIADA NA LUA

A 3 de Agosto de 1971, terça-feira, precisamente às oito da manhã, em France-Inter, o locutor Renè D. recebia o jornalista científico Lucien B., que, excepcionalmente, vinha comentar a alunagem da Apolo XV.

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Estávamos a ouvir o programa, e asseguramos que o diálogo que se segue decorreu logo de entrada:



— Bom dia, Lucien B.! Pode, com certeza, traduzir-nos a frase misteriosa que Worden ouviu, quando estava no nosso satélite?

René D. pronunciou distintamente oito ou dez palavras e Lucien B., um pouco embaraçado, respondeu, apesar de tudo:

— Não posso, infelizmente, traduzir-vos essa extraordinária e nobre divisa.

É muito possível que, embora o jornalista cientifico fosse sincero, a expressão empregue não quisesse dizer que se tratava de uma divisa nobre e extraordinária.

O incidente ficou por ali, mas, contudo, aquela frase misteriosa, vinda em linha directa da Lua, deveria apaixonar a opinião pública e picar a curiosidade dos jornalistas.

Toda a imprensa deveria tomar conta dessa informação, que era uma dádiva inesperada!

Pois não! A imprensa, dita de informação, acusou um mutismo que se parecia com uma conspiração do silêncio.

Várias tentativas junto de René D., de Lucien B. e dos outros jornalistas científicos da ORTF chocaram com uma parede de ignorância ou de má vontade.

Ninguém tinha ouvido a frase maldita, Lucien B. já não se lembrava (o que era normal) e René D. escapava como areia.

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UMA EMISSÃO DE ORIGEM DESCONHECIDA



No entanto, um dos nossos colegas também tinha escutado a France-Inter, no dia 3 de Agosto, às oito da manhã: Alain Ayache, editorialista do semanário Le Meilleur, no n." 33 da seu jornal, página 4, publicava um artigo a sete colunas com os seguintes títulos: «Por que razão NINGUÉM falou da mensagem misteriosa captada na Lua — vinte palavras intraduzíveis que espalham verdadeiramente o pânico. Talvez seja a prova de que existem outros homens — o que a N.A.S.A. quis esconder.))

O artigo, ao longo da página inteira, enfeitado com uma fotografia de Worden, contava em pormenor o extraordinário incidente que acontecera na Lua.

Estava tudo a correr pelo melhor, nesse dia, no satélite, até que, às onze e quinze, aconteceu um fenómeno de fading: tinha-se perdido o contacto com Houston!

Worden, encarregado das telecomunicações, foi atraído por um sopro, que se transformou, no seu posto de escuta, num longo assobio.

«O seu receptor estava a captar uma emissão, cuja origem era impossível de definir.))

Houve em seguida uns murmúrios abafados e uma espécie de modulação de palavras pronunciadas numa língua desconhecida, e depois uma frase «constantemente repetida num tom que

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ia do grave ao agudo, com pontos ligeiramente estridentes seguidos de exclamações roucas».



A frase tinha sido, felizmente, registada no magnetofone do Lem e Worden retransmitiu-a à N.A.S.A.

«Depois de alguns segundos de confusão — lê-se no Le Meil-leur—, o diálogo entre Houston e Apolo XV foi desviado para um altifalante que dava para um gabinete secreto.

A recepção e discussão da mensagem misteriosa prosseguiram à porta fechada.))

Em seguida, como dissemos já: black-out, total sobre o assunto, tanto nos Estados Unidos como em todos os países do mundo.

Como ê que o Le Meilleur teve notícia destes detalhes, que desconhecemos se são exactos, mas um facto é verdade: uma conjura proibiu a divulgação da frase «lunar)).

EIS A FRASE PROIBIDA

Foi preciso muito tempo e esforço para, finalmente, podermos parcialmente conhecer as palavras do enigma, e por meios que, como os jornalistas gostam de dizer, relevam do «segredo profissional))!

Quando ouvimos, percebemos ou julgámos perceber duas palavras do texto: lamma, porque esta palavra é uma das últimas

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pronunciadas por Jesus na cruz (Eli, Eli, lamma sabacthani) e rabbi, de fácil identificação, o que nos autoriza a concluir que a frase que nos foi transmitida foneticamente é conforme à original.



Ela aqui está, distribuída aleatoriamente por oito palavras:

Mara2 rabbi allardi dini endavour esa conus alim.

Parece que há palavras de hebreu misturadas com outras, de origem incerta.

Em hebreu, mar pode significar: senhor; ou mara; amarga; rabbi: mestre, rabino; dini: lei, sentença.

Se envadour é inglês: endeavour (pronuncia-se enndeveus), a significação è: esforço.

O mistério total envolve allardi, esa, couns e alim.

Talvez que filólogos astuciosos encontrem a chave do enigma!

Um prefácio é sempre de leitura aborrecida, mas se o nosso não vos desagradou muito podem então começar na nossa companhia a viagem insólita para a qual vos convidamos.

2 É possível que não tivéssemos ouvido bem a primeira palavra da frase, que seria mara e não lamma.

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A PRIMISTÓRIA



CAPÍTULO I 0 INSÓLITO TERRESTRE

Os nossos antepassados acreditaram, desde tempos imemoriais, em países fabulosos, em planetas gémeos da Terra e em seres sobrenaturais do género dos elfos, gigantes, génios ou fadas. Nos nossos dias, os homens cobrem-se de racionalismo esclarecido, já não têm fé nesses mitos mas falam da Atlântida, do planeta transmarciano, de Terras idênticas à nossa gravitando muito longe no cosmo. Acreditam nos profetas, nos astrólogos, no Menino Jesus e no bom Santo António, que faz encontrar os objectos perdidos. Dizem, enfim, ter a percepção de mundos invisíveis, que se interpenetram e a que chamam: universos paralelos.

As crenças mudam de facto de nome, mas nem por isso de natureza; põem-se à moda, vestem um certo ar crítico e científico, mas não são, por isso, mais racionais. Nem menos, temos de acrescentar!

ESCADARIAS MISTERIOSAS

O mundo é apaixonante de percorrer, tão apaixonante que vocações de arqueólogos selvagens são cada vez mais suscitadas pela ausência e carência dos arqueólogos oficiais.

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As pistas ou desenhos gigantes da pampa da Nazca, no Peru, são um exemplo-tipo da arqueologia ignorada por aqueles que, precisamente, são pagos para saber.



Estas pistas, estes caminhos, estas estradas marcadas... porquê e para quem eram construídos?'

Mas não há só a Nazca a apresentar estas espécie de enigmas: em Inglaterra, na Irlanda, em França, na Checoslováquia, no Ceilão, etc..., outros rastos solicitam explicações, que não se encontram nos manuais clássicos.

Quem é que, antes de 1973, se interessou por estas pequenas «escadas» talhadas na rocha das montanhas e que sobem, se entrecruzam, escalam vertentes abruptas, rodam sobre os cabeços de grés?

Os degraus ora param diante de um esquema de porta, ora diante de uma espécie de patamar ou de uma cova cavada na rocha; por vezes não vão dar a parte alguma ou terminam numa fenda.

Na Checoslováquia, ((arqueólogos» oficiais afirmam que se trata de erosão natural, tese que nem sequer merece a sombra de uma discussão.

É evidente que estes degraus foram escavados por mão de homens. As suas dimensões variam conforme os lugares; no Ceilão, onde são mais numerosos, têm uma superfície, ou piso, que anda à volta de vinte por quinze centímetros e a altura de um degrau, ou contramarcha, é só de dez centímetros.

Por vezes estão gravadas no rochedo duas ou três escadarias, paralelamente ou não, sem nenhuma utilidade aparente. Uma escada pára bruscamente, uma outra continua, a terceira junta-se à primeira.

O plano geral é ou parece incoerente, e pode garantir-se que não corresponde a qualquer necessidade ou comodidade humana de utilização.

De resto, o pé humano encontra em cada piso uma base

1 Em 1968 apresentámos teses sobre a Nazca em O Livro do Misterioso Desconhecido, cap. III: «A Ciência Anterior», pp. 41-57, e em O Livro dos Senhores do Mundo, cap. I: «A Central da Contraverdade», pp. 15-33, ambos editados pela Livraria Bertrand, Lisboa.

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Sigirya (Ceilão). Escadarias para elfos, fadas ou, simplesmente, seres misteriosos, escalam os flancos de um grande rochedo



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difícil, e para se servir da escada (mas será realmente uma escada?) é necessário subir os degraus a quatro, de tal forma eles estão próximos.

CAMINHOS PARA O DESCONHECIDO

Como para as pistas da Nazca, só o irracional pode dar .uma explicação ao que não pertence ao nosso universo de razão.

É preciso imaginar construtores dos tempos antigos, animados por pensamentos cujo mecanismo, muito diferente do nosso, misturava estreitamente as contingências do nosso mundo às de um outro mundo sobrenatural.

Na mitologia dos Celtas, vê-se este maravilhoso psíquico e intelectual nos castelos perigosos, nas paredes que se abrem e fecham para deixar entrar o herói num universo regido por dimensões desconhecidas, onde o espaço-tempo não tem qualquer medida comum com o da nossa ciência.

É por esta razão que pensamos que as escadarias de Ceilão devem ter sido talhadas para servir as personagens ou entidades de um mundo do Além, para fantasmas, deuses, ou para os seres estranhos e estrangeiros, que sabem ladear os precipícios, passar através das portas de rocha... que conhecem a rede que faz comunicar os outros universos com o nosso.

Nesta hipótese, as portas desenhadas, esboçadas em paredes de rocha, ((abrem» para um país encantado, proibido aos humanos, salvo se, por graça excepcional, tiverem sido convidados a lá entrar.

Em França, encontramos dessas portas na Dordonha; no Peru, vimos escadas largas e bem trabalhadas parar diante da montanha ou, nalguns casos, no topo de blocos cuja altura não ultrapassava um metro.

Em Petra, na montanha de Hor, na fronteira ocidental da actual Jordânia, abre-se uma autêntica cidade sobre um circo2.

No SUl de Arequipa, no Peru, o rochedo de Ylo tem uma

2 Le Livre des Mondes Oubliés, cap. VII: «Civilisations Mysterieuses», ed. Robert Laffont, Paris.

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Na ilha de Ceilão, uma civilização enigmática escavou estes degraus que levam não se sabe aonde



inscrição que dá uma chave mágica: «A porta da entrada secreta do socoban (túnel), que leva aos mistérios e ao ouro do mundo antigo perdido, está atrás de um dos três cumes e protegida por emanações mortais.»

É incontestável que os homens do nosso século já não possuem a psicologia do maravilhoso, que outrora permitia acreditar num outro universo paralelo, dessa natureza.

É talvez ao segredo perdido dos Antigos, perdido com a palavra, ao elixir de iniciação e à faculdade de entrar no mundo em igualdade de plano que agora damos o nome de sobrenatural, com o sentido de impossível e de mítico.

Em certas rochas do Ceilão, em Sigirya, as «escadas», quando

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sobem por encostas a pique, não passam de ranhuras, como varões de escada, mas talhadas bem fundo.



Os rochedos com escadas estão, por vezes, salpicados de buracos quadrados de quinze por quinze centímetros, dispostos como escadas de um tabuleiro de xadrez.

Também aqui o espírito racional não consegue encontrar uma explicação, mas está fora de dúvida que estes curiosos trabalhos pertencem a uma civilização antiga, cujo rasto desapareceu na bruma dos tempos e da indiferença.

A PORTA COM UMA CRUZ

Num passado longínquo, os Iniciados sabiam ultrapassar as leis físicas que nos querem fixar a uma realidade, que, em termos absolutos, não é verdadeira.

Pitágoras sabia passar pela «falsa porta» e viajava no tempo, não por meios físicos — análogos aos nossos automóveis, aos nossos aviões, aos nossos foguetões — mas através da geometria.

Segundo a tradição, há no Himalaia iogas que, por vezes, ainda recebem um desenho representando uma porta fechada, simbolizada na nossa escritura pela letra A = porta barrada.

Algumas linhas acompanham a mensagem: «Vem juntar-te a nós.»

O ioga sabe abstrair-se, torna-se letra, número, equação; desliga o seu eu superior da sua matéria e dos imperativos terrestres e universais.

É então que passa a ser um Outro. O seu eu imponderável sobe as escadas da montanha do encontro, abre a porta desenhada na rocha e entra no granito compacto, hermético, onde, com uma precisão maravilhosa e matemática, encontra aqueles que o esperam numa brecha do nosso espaço-tempo.

Atrás dos iogas, todas as portas da montanha têm uma barra em cruz.

O Livro dos Mortos dos antigos Egípcios diz que no grande quadrado do conhecimento, de infinitos ângulos, a cruz é o sinal negativo: proibição de entrar.

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(



Por vezes a escada é representada apenas por uns entalhes. É absolutamente impraticável para um ser humano

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É também o sinal do esquecimento: pôr uma cruz sobre alguém ou sobre alguma coisa.



A cruz e o punhal têm um simbolismo idêntico: morte.

É o sinal das conjuras de contraverdade.

O sinal das conjuras de verdade é um círculo, um triângulo ou um rectângulo.

CHAVE PARA ABRIR AS PORTAS PROIBIDAS

É a exploração e a análise do insólito no mundo inteiro que permitem ao observador lógico construir um sistema e adiantar explicações, por mais ousadas que possam parecer.

A este processo de investigação acrescentamos, pelo nosso lado, uma confrontação com os fenómenos da actualidade, porque pensamos que o «misterioso desconhecido» humano comporta uma central de informações, uma espécie de computador onde estão inscritas todas as experiências passadas. Por outras palavras, toda a história do homem, desde a sua criação, está gravada nos cromossomas-memórias, como o código genético está para cada espécie.

Um carvalho continua a sua longa tradição de árvore, com o conhecimento e as aquisições registadas pelos seus antepassados; um gato, uma andorinha, um goivo, têm nos cromossomas, ou nos mensageiros da sua evolução as qualidades, os tabos, as manifestações de vida, de sobrevivência e de defesa que constituem o seu carácter de vivos.

É por este processo que é possível, parece, explicar o fenómeno hippy e Jesus Superstar, confrontando-o com o fenómeno Jesus, de há dois mil anos.

Pensamos que, do mesmo modo, o mistério das pirâmides do Egipto só se pode explicar pelo estudo das pirâmides de França, da Irlanda, do Peru, da China e pela criogenia3.

A criogenização actual dos mortos no azoto líquido a

3 Ler O Livro do Misterioso Desconhecido, ed. Livraria Bertrand, Lisboa, cap. XII: (cO Mistério das Pirâmides». Endereço da Association Cryonics Fran-çaise: 6, Rue de Marseille, 69, Lião 7.°, e Rue de Thibouméry, 10, Paris 15.°.

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cento e sessenta e nove graus negativos, para permitir uma eventual ressurreição no futuro, é a explicação das câmaras de imortalidade que são as pirâmides de Gizeh, onde a múmia devia permanecer intacta, à espera de ressuscitar pela graça de Osíris.



Portanto, só fazendo um recenseamento, tão completo quanto possível, do insólito terrestre é que podemos experimentar abrir as portas proibidas do misterioso desconhecido.

Em França, o enigma da Rocha das Pés está talvez em correlação com o das escadarias para fantasmas de Sigirya, no Ceilão.

A ROCHA DOS PÉS

Esta rocha, perto de Lanslevillard, na Sabóia, é um enorme bloco com as marcas que justificam o seu nome.

Os nossos amigos e colaboradores do Grupo de Estudos dos Amigos do Insólito e Leitores Amigos de Robert Charroux4 foram ao local partindo da garganta da Madeleine, a mil setecentos e cinquenta metros de altitude, e seguiram o caminho GR5.

O tempo do percurso foi de três horas e meia.

A Rocha dos Pés está situada entre os contrafortes do Grand Roc negro e o rochedo de Pisselarand; apresenta-se como um tabuleiro de granito na vertente da montanha, em posição inclinada, embora a sua escalada seja fácil.

De forma oval, tem um diâmetro de aproximadamente cinco metros; o lado mais íngreme tem dois e meio a três metros de altura e domina o vale, para poente.

São perfeitamente visíveis na pedra umas marcas de pés — uns cinquenta — e a maior parte, à excepção de poucos, parecem ter sido traçados por um instrumento, segundo o contorno dos sapatos.

Estas marcas, de três dimensões: dezasseis, vinte e vinte e cinco centímetros (números vinte e seis, trinta e dois c trinta e

4 Groupe d'Études des Amis de 1'Insolite et Amis Lecteurs de Robert Charroux, presidido por Giibert Bovard; 15, Rue des Róis, 1204, Genebra (Suíça). O exame da pedra foi feito por Giibert Bovard, Claude Berney e Yvonne Gugger.

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A Rocha dos Pés, perto de Lanslevillard (Sabóia)



nove), sugerem pés de homens de pequena estatura ou então de mulheres e de crianças; a profundidade do traço é da ordem de dois a três centímetros.

«Com uma única excepção, estão orientadas na mesma direcção», diz Gilbert Bovard, «a do Sol e do vale. As pedras cupulares são numerosas nesta região, entre outras as de Chantelouve; a vinte minutos do refúgio de Vallonbrun, mostraram-nos uma rocha onde está gravado um sol.»

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A Rocha dos Pés. As marcas, salvo duas, dirigem-se todas para poente



SINAIS DE PERTENÇA

Resta encontrar uma explicação deste enigma.

Deve pensar-se que homens de pequena estatura, de raça ' desconhecida, subiram para a rocha e, em posição de espera, traçaram o contorno dos pés.

Em seguida, gravaram mais ou menos grosseiramente os limites marcados na pedra.

A maioria desses seres usavam sapatos, embora alguns estivessem descalços, como testemunham as marcas.

Levando em conta os lugares e aquilo que se supõe serem ritos das religiões antigas, a Rocha dos Pés, pela sua situação

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insólita, deve ter motivado uma superstição ou uma fé. Uma tribo, ligada a um culto solar, teve a ideia de fazer dela um posto de observação do sol-poente, de algum modo um altar ou um templo.



Os homens ficavam de pé, em atitude de respeito, voltados para o deus.

Mas o lugar não é de todo habitável; o culto neste alto lugar devia ser celebrado por ocasião de peregrinações, difíceis em todas as estações, impossíveis no Inverno.

Daí a ideia de substituir a presença real por uma presença fictícia e mágica.

Nas cavernas dos tempos pré-históricos, em Glozel e em numerosos locais do mundo, os homens imprimiram a marca das suas mãos para atestar a sua presença e a sua identidade de proprietários ou de testemunhas; a maior parte das vezes, para sublinhar a sua soberania sobre uma região e dar ao mesmo tempo uma ideia de quantidade e de força.

No Grand Roc, a tribo teria portanto traçado e gravado a marca dos pés de cada membro, de cada fiel, o que explicaria as diferentes medidas e formas de pés.

Deste modo, cada proprietário das marcas era suposto ficar sempre em adoração ou em guarda, sempre presente e representado pela sua marca, o que é habitual nos ritos antigos de magia, e mesmo na vida moderna5.

As cúpulas, junto das marcas, têm uma relação com o mito da água sagrada, sem dúvida de propriedades maravilhosas.

Duas marcas, as do chefe, estão situadas na ponta do rochedo; outras duas, transversais, implicam ou uma intenção de sacrilégio—talvez por obra de um inimigo—ou a dessacralização do lugar.

Bem entendido, são apenas hipóteses: o local da Rocha dos Pés é um caso bastante raro na arqueologia conhecida6.

5 A bandeira nos navios, a insígnia, a cor, o bivaque, o número marcado sobre o animal, etc, eram e são ainda hoje marcas de propriedade.

6 A revista Phénomènes Inconnus, n.° 3, Estrada de Béthune, 62, Lestrem, menciona a existência de marcas deste género em Cetateni e em Slon (Roménia), na Jugoslávia, em Espanha e na Escandinávia, mas em nenhum outro lado as marcas são tantas e tão nítidas como no Grand Roc.

CAPÍTULO II ILHAS E PAÍSES DE UM OUTRO MUNDO

ESTAS civilizações primárias que desapareceram deixando apenas traços enigmáticos da sua passagem ligam-se indirectamente aos continentes, às ilhas e às regiões submersas pelos oceanos, com cidades e templos de que os homens do século xx, por racionalismo exaltado, negam a autenticidade de existência.

No entanto, a descoberta de construções ciclópicas e de enva-samentos submarinos ao largo da ilha de Bimini (oitenta quilómetros a leste de Miami, Florida) acaba de trazer um sério apoio aos partidários da Atlântida'.

1 O professor Manson Valentim descobriu em 1971: os envasamentos (supostos) de um templo, mesas esculpidas, colunas. Ter-se-ia também descoberto uma pirâmide e uma fonte de água doce de cinco metros de profundidade! Foi justamente Bimini que Juan Ponce de Léon, capitão espanhol (1460-1521), governador de Porto Rico, visitou no século xvi, à procura de uma fonte, cuja água, no dizer dos indígenas, tinha a propriedade de rejuvenescer os velhos que nela se banhassem. São curiosas as coincidências entre Bimini e a sua fonte de água doce, a Atlântida com as suas fontes sagradas, e a fonte de Juventude, todas procuradas nestas paragens.

Lembramos que segundo a enciclopédia La Mer, n.° 16, Abril 72, o geólogo soviético N. Zirov teria retirado do monte submarino chamado Atlantis uma tonelada de discos calcários de quinze centímetros de diâmetro por quatro de espessura, lisos de um lado e rugosos do outro. Um exame mostra que esses discos se encontravam há doze mil anos no exterior.

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Para muitos, está decidido o problema: Bimini é um vestígio da grande ilha descrita por Platão. Para outros — especialmente para o professor Doru Todericiu—, tratava-se apenas de um sítio da colónia atlântida.



Seja como for, a autenticidade da Atlântida deixa poucas dúvidas e estamos convencidos de que descobertas próximas confirmarão, definitivamente, as teses que os tradicionalistas defendem.

Os documentos que vamos expor, sem qualquer ordem, merecem figurar no processo, porque parecem fornecer a prova de que a última ilha da Atlântida só desapareceu no século XV.

A MIRAGEM DE SÃO BRANDÃO

A «miragem» das Ilhas Afortunadas, que apaixonou os espíritos aventureiros na Idade Média, era de facto uma realidade!

Houve, decerto, equívocos, erros e aproximações, mas hoje em dia pode-se dizer que a célebre ilha de São Brandão era, provavelmente, a Madeira ou uma das Canárias.

«Na carta veneziana dos irmãos Pizzigani de 1367, na de um anconitano, cujo nome está apagado, conservado na biblioteca de Weimar e com a data de 1424, na do genovês Beccaria de 1435, o grupo da Madeira aparece intitulado — Ilhas Afortunadas de São Brandão2.»

É verdade que os geógrafos da Idade Média também situaram São Brandão a oeste da Irlanda e até no mar das índias!

No entanto, muitos navegadores acostaram à ilha: três portugueses de Setúbal e, entre eles, o piloto Pêro Velho, que tinha feito várias viagens ao Brasil.

Foram milhares os que viram São Brandão e alguns conseguiram desenhá-la a olho.

E era tudo verdade, com a particularidade de se tratar ou da Madeira, ou de uma miragem: o reflexo da ilha de Palma pelas nuvens especulares (transparentes) aglomeradas a noroeste!

2 Extracto do livro Les lies Fantasliques de VOcéan Occidental, do erudito M. d'Avezac, Paris, 1845, BN. G 31431.

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O MISTÉRIO DA ILHA ANTÍLIA



Quanto a Antília, parece que o caso é completamente diferente, e há boas razões para pensar que, no início do século xv, Antília, último vestígio da Atlântida3, existia ainda no meio «do mar ocidental» no paralelo 28.

Rezam as tradições que, expulsos pela invasão dos Árabes no século viu, cristãos espanhóis procuraram um refúgio no meio do oceano, ((num lugar que não foi revelado ao mundo antes de 1500».

O célebre globo do cosmógrafo Martin Behaim, construído e desenhado em 1492 para a cidade de Nuremberga, comporta a seguinte anotação (em alemão antigo):

((No ano 734 depois de Cristo, quando toda a Espanha foi invadida pelos infiéis de África, foi também quando a ilha Antília, chamada Septe Cidade (as Sete Cidades), aqui desenhada, foi povoada por um arcebispo do Porto4, seis bispos e uns cristãos, homens e mulheres, fugidos de Espanha em barcos, trazendo os seus animais e fortuna.

Foi por acaso que, no ano de 1414, um navio espanhol dela se aproximou muito.»

O professor florentino Paolo Toscanelli tinha mencionado Antília no meio do oceano Atlântico, entre Cipango, a leste, e São Brandão, a oeste, abaixo da ilha. mítica Mano Satanaxia. Dava mesmo uma estimativa das distâncias: devia contar-se «vinte e seis espaços de Lisboa até Quinsay (China) e dez espaços de Antília até Cipango (Japão)».

Um espaço era um intervalo de meridianos, ou seja, duzentas e cinquenta milhas marítimas ou, então, cinco graus.

3 A Madeira, os Açores e as Canárias são verdadeiros resíduos do continente de Atlântida, mas o solo, transformado pelas erupções vulcânicas, está absolutamente virgem de vestígios atlântidos. Já o mesmo não se pode pensar de Antília, porque a ilha se prestou maravilhosamente à colonização, sem dúvida por conservar esquemas de cultura e ruínas de aldeias.

4 O Porto nessa altura era na Lusitânia. O reino de Portugal só nasceu com Afonso I (1114-1185), filho de Henrique, o Jovem, príncipe de origem capetiana.

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O globo de Martin Behaim, inspirado sem dúvida na carta de Toscanelli, situava Antília a trezentos e trinta graus e Lisboa a quinze graus.



M. d'Avezac conta que Antília era conhecida, marcada e visitada no século xv; Toscanelli, segundo ele, tinha escrito à corte de Portugal: «Esta ilha de que tendes conhecimento e que vós chamais das Sete Cidades»...

O filho de Cristóvão Colombo, Fernando, na Vida de Meu Pai5, precisa, por seu lado:

«Alguns portugueses inscreviam-na nas suas cartas com o nome de Antília, embora não coincidisse com a posição dada por Aristóteles; nenhum a situava a mais de duzentas léguas, aproximadamente, a ocidente das Canárias e dos Açores.

Têm por certo que é a ilha das Sete Cidades, povoada por portugueses no tempo em que a Espanha foi conquistada, ao rei Rodrigo, pelos Mouros, isto é, no ano 714 depois de Cristo...

Sete bispos fundaram aí sete cidades e, a fim de que os seus não pensassem mais em regressar a Espanha, queimaram os navios, bem como todas as cordas e outros objectos próprios da navegação...»

Fernando Colombo assegura que, ainda em vida do infante D. Henrique, um navio atracou em Antília; os marinheiros foram à igreja e verificaram que aí se praticava o culto romano.

DEIXOU DE SER VISTA

Tudo leva a crer, portanto, que a ilha tenha realmente existido ao largo da Madeira, como testemunha, no século xvi, Pierre de Médine, autor bem conhecido de um Traité de VArt de Na-viguer.

«Não longe da ilha da Madeira», escreve, ((havia uma outra ilha que se chamava Antília e que já não se vê mais, hoje em

5 O título exacto é F. Colombo, História dei Almirante Chr. Colombo su padre, etc.

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dia... Num Ptolomeu6, que tinha sido dirigido ao papa Urbano (Urbano VI), encontrei esta ilha, indicada com a seguinte legenda: Esta ilha Antilia foi outrora descoberta pelos Portugueses, mas hoje já não se avista quando é procurada. Aí foram encontradas pessoas de língua espanhola, que consta terem-se refugiado nesta ilha fugindo dos Bárbaros que invadiram a Espanha, no reinado do rei Rodrigo, o último a governar a Espanha no tempo dos Godos. Há um arcebispo com seis outros bispos, e cada um deles tem a sua cidade própria, o que leva muitas pessoas a chamarem-lhe a ilha das Sete Cidades; o povo vive muito cristãmente, cumulado de todas as riquezas deste mundo.»



No Ptolomeu, a Antilia tem oitenta e sete léguas no seu maior comprimento, que é norte-sul, e vinte e oito de largura. A ilha está situada no paralelo de Gibraltar, a trinta e seis graus e meio de latitude.

Era portanto conhecida desde o século 11 e é provável que tenha existido realmente, mas que, com os tremores de terra registados em Portugal durante o século xv, se tenha submergido.

Tais cataclismos não são raros no Atlântico, onde já várias vezes se viram aparecer ilhas vulcânicas, tendo a mais recente surgido em 1956 na extremidade da ilha do Faial, à qual sempre estivera ligada.

Se os bispos espanhóis puderam mandar construir tão rapidamente sete cidades numa ilha deserta, foi sem dúvida porque encontraram no local materiais já preparados: os últimos vestígios de cidades e de aldeias da poderosa Poséidonis (ou Atlantis ou Atlanta).

Sempre no plano das conjecturas lógicas, a decisão que os espanhóis tomaram de queimar os barcos para não terem a tentação de regressar à Europa podia indicar que acreditavam ter encontrado o paraíso terrestre, o eliseu ocidental ou país dos Primeiros Pais.

4 Pierre de Médine chama Ptolomeu a uma geografia do célebre astrónomo grego Cláudio Ptolomeu (século 11 da era cristã). Esta citação figura no livro de M. d'Avézac.

7 Muito estranho: é no sítio onde estava Antilia, último vestígio da Atlântida, que acontecem fenómenos misteriosos, desde o desaparecimento de barcos à irrupção de ilhas reais ou fantasmagóricas.

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Estes indícios, por mais fracos que possam parecer aos «racionalistas» exigentes, incitam-nos a acreditar que Antília era uma parcela da Atlântida, milagrosamente escapada ao cataclismo universal — há doze mil anos — e que desapareceu, na verdade, por volta do ano 1550.



ANTÍLIA—ATLANT A

A onomástica das Ilhas Afortunadas é rica em surpresas e presta-se a fenómenos que interferem com o «misterioso desconhecido».

Muito antes de Cristóvão Colombo e de Cabral, falava-se numa ilha Brasil, que se situava ou a noroeste de São Brandão, ou entre Antília e a ilha dos Carneiros.

O continente descoberto por Vicente Pinzão e Cabral foi chamado Terra de Santa Cruz, e depois finalmente Brasil por corrupção da palavra brasa, que se referia à cor viva dada pela madeira de brasilete, abundante nesta parte do mundo.

Mas Brasil significa também vermelho, e efectivamente este país é a pátria de origem dos homens de raça vermelha!

A etimologia de Antília é ainda mais curiosa.

É ante-ilia: ilha antes (do continente ainda desconhecido) ou ilha anterior, a mais antiga, isto é, a Atlântidal

É a etimologia mais verosímil, tanto mais que, numa carta geográfica de 1445, lê-se a seguinte inscrição:

«Esta ilha tem o nome de ilha de Antiliis. Platão, que foi um grande e sábio filósofo, afirma que era quase tão vasta como a África...»

As cartas marítimas da Idade Média situavam a Antília num grupo chamado Insulae de Novo Reportae ou Ilhas Novamente Descobertas, ou seja: Antília, Royllo, Man Satanaxia e Tanmar.

Este arquipélago nada tinha em comum com os Açores, a Madeira e as Canárias, que eram muito conhecidas; portanto, deve pensar-se que a sua existência era mítica ou então que as ilhas, em conjunto, se afundaram no oceano.

A onomástica e o «misterioso desconhecido» brincam também com a ilha Man Satanaxia, ou ilha da Mão de Satanás.

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O geógrafo veneziano Domenico Mauro Negro chama-lhe ilha de Mana, Beccaria, Satanagio e Bianco, Satanaxio, o que sugere ao mesmo tempo o poder mágico do mana, a palavra man, que significa homem, e a ideia de uma mão diabólica que sai do mar.



Ilha mágica? Talvez, mas antes ilha de sortilégios, onde os homens podem exercer um poder extraordinário, ilha do Homem primitivo, umbigo do mundo, como o é para os Celtas a ilha de Man, no mar da Irlanda.

E eis-nos ainda na Atlântida, no país dos Primeiros Pais Sábios.

A menos que Man Síanaxia evoque a imagem de uma terra que surge, desaparece, ressurge do oceano à maneira das ilhas fantasmas, fenómeno vulcânico característico da zona atlântica, que cobre o imenso império dos Atlantes...

CRIANÇAS DE COR VERDE

Na Idade Média acreditava-se muito no maravilhoso, acessível a essa época: o da religião e do ocultismo. De facto, esses dois mitos reuniam-se muitas vezes, o céu dos anjos lembrando o reino das fadas e as profundezas do inferno suscitando a ideia dos povos e dos mundos subterrâneos.

Nesta perspectiva, Antília erá ao mesmo tempo o paraíso terrestre e a cidade proibida do fundo dos mares ou das entranhas terrestres, onde, como se compreende, viviam seres fundamentalmente diferentes de nós.

Mesmo actualmente, alguns factos insólitos deixariam supor que essas antigas crenças não eram totalmente destituídas de fundamento.

A 29 de Agosto de 1911, à meia-noite, os empregados do matadouro de uma pequena cidade da Califórnia (E. U.A.) descobriram, meio morto de esgotamento, um homem nu, cuja linguagem não pertencia a nenhum dos dialectos indígenas anotados.

De onde vinha? Nunca se soube, ainda que os antropólogos

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afirmassem que era um dos últimos índios selvagens do continente americano.



Ainda mais extraordinário foi a aparição em Espanha, no século passado, de duas crianças de raça desconhecida.

A história foi contada, em La Vie Claire* de Fevereiro de 1972, pelo. simpático George Langelaan, mas podemos duvidar da sua autenticidade porque as nossas investigações, juntas às do jornalista Sérgio Berrocal, não permitiram encontrar a aldeia de Banjos, perto de Gerona, na Catalunha, onde se passou o acontecimento.

Estava-se numa bela tarde de Agosto, em 1887. Camponeses faziam a sesta à sombra das oliveiras, quando ouviram duas crianças a chorar em altos berros.

Com espanto e quase horrorizados, os catalães viram que as crianças, um rapaz e uma rapariga, estavam quase nus e tinham a pele uniformemente verde, de uma cor próxima da dos frutos das suas oliveiras.

Os pequenos seres estranhos fugiram aos gritos, mas foram rapidamente apanhados e conduzidos à residência do Senor Ricardo da Calno, presidente da Câmara de Banjos, que começou por interrogá-los.

Foi necessário primeiro acalmá-los, fazer-lhes festas, tentar que compreendessem que não se lhes queria fazer mal, e só depois é que pronunciaram umas palavras numa língua desconhecida.

Então, a Sénora Da Calno lavou o corpo dos dois miúdos, porque aquela cor verde, diabólica, que quase se parecia com uma decomposição das carnes, não lhe sugeria nada de bom!

Mas as crianças verdes não perderam uma sombra da sua cor, de tal modo que o presidente do Município, cada vez mais perplexo, resolveu apelar para um médico e para as autoridades de Gerona, que logo estabeleceram processos verbais, dos quais devia haver vestígios em Banjos, segundo George Langelaan.

• La Vie Claire, dir. H. G. Geffroy, 43, Rue de Romainville, 93100, Mon-treuil.

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UM PAÍS DEBAIXO DA MONTANHA



Tornou-se depressa evidente que as duas criaturas verdes não pertenciam à nossa raça, tanto pela pigmentação, como pelo comportamento. Tinham um tipo um pouco negróide, de olhos rasgados, e, se aceitavam beber água, recusavam com uma obstinação selvagem qualquer alimento habitual: pão, carne, batatas, cenouras, azeitonas, figos, uvas, etc.

Ao fim de cinco dias de jejum e quando já desesperavam de as fazer comer qualquer coisa, as crianças verdes viram feijões descascados e comeram-nos crus, gulosamente.

O rapaz, que era o mais novo, e também o mais frágil, só conseguiu suportar durante um mês a vida dos homens de pele branca. Morreu lentamente e foi enterrado no cemitério da aldeia.

A rapariga, que parecia ter treze ou catorze anos, habituou-se pouco a pouco ao novo género de vida e aprendeu o suficiente de espanhol para poder contar uma história, que desafiava qualquer crença na sua possibilidade!

— O meu irmão e eu — disse aproximadamente—saímos da colina por uma gruta que dá acesso ao nosso mundo9. Vivíamos com a nossa família e o nosso povo num país onde reinava uma noite quase sempre total. No entanto, por vezes víamos uma luz imensa, longe no horizonte, para lá de um grande lago.

((Estava eu um dia com o meu irmão, e houve um barulho ensurdecedor à nossa volta... como se fosse uma explosão da montanha, e, sem saber como se tinham passado as coisas, encontrámo-nos, de repente, na gruta ao pé da aldeia.

O presidente da Câmara de Banjos e alguns arqueólogos amadores voltaram à gruta, exploraram-na a fundo, sondaram as rochas, mas nem descobriram galerias, nem fendas, nem qualquer solução de continuidade para as entranhas da Terra.

Nem uma serpente conseguiria esconder-se ali!

' Pode ligar-se esta história ao mistério das escadas traçadas na montanha. As crianças parecem ter saído da rocha, como se tivessem sido expulsas de um universo paralelo.

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A rapariga verde, que vinha do país de além, viveu cinco anos na família Da Calno, na qual se integrara completamente.



Morreu serenamente, como o seu irmão, e foi enterrada ao pé dele, levando consigo o segredo da sua vida, da sua cor, da sua raça, do seu universo, talvez.

SERES VERDES EXTRATERRESTRES

Desde 1897, o conhecimento dos homens — num certo sentido— fez notáveis progressos e alguns dos acontecimentos insólitos permitem tentar uma explicação plausível do mistério das crianças verdes.

Èm primeiro lugar, e mesmo sendo exacta a narração de George Langelaan, parece que se pode suspeitar da história da miúda.

Os adeptos da emigração dos extraterrestres não deixarão de sublinhar que a cor verde está precisamente ligada, tradicionalmente, ao planeta Vénus, e que, no fim de contas, seria mais aceitável que as crianças tivessem sido depositadas por um aparelho intergaláctico do que expulsas de um reino subterrâneo.

Nesta hipótese arrojada, pode pensar-se num ensaio de aclimatação na Terra de autóctones extraplanetários.

Mais interessante é a tese do doutor Dominic Recoldin, da Universidade de Londres, que se interessa pelas modificações fisiológicas e morfológicas resultantes da fotossíntese feita pelo ser humano.

Este processo é realizado pelas plantas, que transformam a energia luminosa fornecida pelo Sol em energia química, tal como açúcar e proteínas.

No século xix, os médicos de Gerona não orientaram talvez os seus exames no sentido útil, mas teria sido interessante saber se as crianças de Banjos possuiriam um organismo apto a realizar, pela função clorofílica, uma fotossíntese que explicasse o fenómeno.

Um indivíduo dotado de tal organismo nunca teria, como nós, a pele branca, amarela ou preta: seria de cor verde.

CAPÍTULO III

OS ANTEPASSADOS SUPERIORES

Os historiadores da Pré-História não são pessoas muito sérias, porque menosprezam nas suas teses um acontecimento que apesar de tudo, há doze mil anos, teve uma importância que se pode dizer capital: o Grande Dilúvio! Quer pela água, quer pelo fogo, quer em razão de uma epidemia universal, a quase totalidade da espécie humana pereceu e a sua ressurreição foi obra de um punhado de indivíduos, que esqueceram o essencial da história antediluviana.

Tivemos antepassados antes do Dilúvio? Não restam dúvidas. Seriam Antepassados Superiores, isto é, teriam desenvolvido uma civilização tão ou mais avançada que a nossa? Aí é que as opiniões divergem.

UMA ILHA PARA OS INICIADORES

Segundo o nosso ponto de vista, os homens antediluvianos da Atlântida, e talvez também da Terra de Mu e de Thulé, tinham grandes conhecimentos científicos, cujo nível é difícil avaliar em relação aos do nosso tempo.

Mas não é impossível que a história mais recuada seja um dia revelada por um desses milagres, de que o nosso complexo biológico tem, sem dúvida, o segredo.

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O nosso legado genético mais importante, aquele que remonta talvez ao nascimento do homem princeps, se não mesmo à aurora da criação pelos sucessivos" elos que nos ligam, esse legado genético, portanto, está provavelmente inscrito nas zonas não solicitadas do nosso cérebro.



À medida que o nosso conhecimento aumenta, são desbloqueados não só circuitos neuróticos virgens, como também zonas impressionadas desde há uma infinidade de milénios.

O fenómeno pode continuar até que o homem tenha reconquistado a plenitude dos seus conhecimentos passados'.

Todas as zonas neuróticas estarão então em estado de vigilia e de funcionamento e o homem lúcido poderá lembrar-se da sua história anterior.

O processo das aquisições do conhecimento não corresponde ao fenómeno de evolução física humana. É mais rápido, o que, indo ao fundo do problema, implicaria não uma progressão evolutiva, mas uma redescoberta de recordações já armazenadas no passado.

Segundo esta tese, o homem teria assim tido Antepassados Superiores.

É claro que não se encontram «locomotivas e bicicletas» construídas por esse grandes antepassados, como observa o nosso colega Jacques Bergier, mas também é difícil ver-se o aço de uma locomotiva perdurar através das dezenas, das centenas ou dos milhares de milhões de anos!

De resto — Jacques Bergier não pensara nisso—é difícil conseguir a prova de que haja num outro planeta locomotivas ou bicicletas!

Porque os Antepassados Superiores não eram necessariamente terrestres e, sendo-o, talvez o fossem de fresca data.

Os deuses e as deusas vinham sempre de uma ilha, na mitologia do Carnaval.

1 O homem é um ser dotado de imortalidade. Reproduz-se por cissipari-dade, mas é sempre o homem original, Adão, que persiste através de um imenso processo de reencarnações.

Os dois mil e quinhentos milhões de indivíduos do nosso planeta nâo passam de reflexos, mais ou menos deteriorados por espelhos deformantes, de um único individuo primordial.

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Reminiscência sem dúvida dos Thuleianos e dos Cabírias, ou de outros Iniciadores, que, umas vezes disfarçados, outras parecendo-o devido à sua origem extraterrestre, gostavam primeiro de difundir o seu ensino numa ilha: Delos, Samotrácia, Man, Aval-lon, Thulé, do Sol (Titicaca), Deus2, dos Santos (na mitologia chinesa), de Oraisão (para os japoneses), etc.



Pode também supor-se, se estes Iniciadores vinham do cosmo — sobretudo de Vénus—, que procurariam um lugar idêntico àquele onde, no seu planeta, se administra o ensino das ciências.

Além disso, uma ilha oferecia a vantagem de evitar uma eventual contaminação para organismos mal aclimatados.

Nesta hipótese, os Antepassados Superiores originais, ou Primeiros Pais, ou Santos, seriam extraterrestres, como, de resto, o dizem ou deixam supor as mitologias de todos os povos.

HOMENS UNICAMENTE NA TERRA

Os técnicos de objectos voadores não identificados, os astrofísicos e nós próprios falamos superficialmente quando decretamos que «matematicamente» devia haver vidas e civilizações noutros planetas.

A tese da ((pluralidade dos mundos habitados)) (uma expres-

1 O verdadeiro nome da ilha de Yeu, em Vendée, é Deus, que figura de resto com esta ortografia em todos os velhos manuais. A etimologia seria ogia (insula ogia e não insula ova), que lembra Ogham ou Ogmius, deus do Conhecimento. Ogmius, para os Gauleses, era o inventor da escrita e ensinava aos homens todas as coisas boas de saber, como fazia Oannès na Caldeia, Apolo em Delos, os Cabirias na Samotrácia, etc. Todos os Iniciadores, e particularmente Oannès, os Cabírias, Orejona e Quetzalcoatl, estavam estranhamente vestidos para as pessoas que os viam. Talvez também não fossem fisicamente constituídos como os terrestres e foi, sem dúvida, essa constituição física diferente, ou então o seu disfarce, que esteve na origem das máscaras do Carnaval.

Trata-se, bem entendido, de uma tese para fazer pensar. O homem pode pertencer ao ciclo normal da evolução do Vivol Pode ser também um acidente feliz que, por motivos misteriosos, também se produziu noutros planetas.

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são bem bonita!) repousa no princípio da evolução das espécies, tal como Darwin a exprimiu: o vírus, as amibas, o verme, a serpente, o crocodilo, a vaca, o macaco, o homem.



Ora, não se encontram elos de ligação entre o macaco e o homem, entre os novecentos e trinta centímetros cúbicos de volume de caixa craniana e os mil quinhentos e cinquenta centímetros cúbicos.

Há uma fossa, um abismo de milhões de anos entre um gibão do Jardim Zoológico e um cientista do centro atómico de Saclay.

Numa palavra, isso não pega! É tão pouco que, para muitos pensadores, o homem é um caso especial, um animal privilegiado (o que está certo), o resultado sem dúvida de uma mutação rápida e milagrosa.

Talvez se pudesse dizer o mesmo do delfim (e do otário), cuja inteligência, cérebro, atracção misteriosa para os humanos são caracteres absolutamente únicos nos animais ditos inferiores.

O delfim, como o homem, dá a profunda impressão de pertencer a uma divisão muito particular da gente animal.

E para nos determos só no homem, considera-se cada vez mais como uma manifestação espontânea e fantasticamente feliz, o que significaria ter sido criado fora de série.

Nestas condições, não há qualquer hipótese de que outros planetas do universo, mesmo sendo perfeitamente idênticos à Terra, possam ter beneficiado do mesmo milagre.

Deram ou darão nascimento a vírus, vermes, serpentes, crocodilos, etc, até aos gibões. Estes evoluirão possivelmente até aos gibões superiores, e depois, pelo jogo dos elos sucessivos, até a um animal mais inteligente e aperfeiçoado do que nós, mas não até indivíduos da nossa espécie.

O cálculo de probabilidades opõe-se formalmente a que as mutações felizes, excepcionais, resultantes de um acaso, se possam repetir exactamente em dois planetas, mesmo se forem idênticos.

Só os processos racionais, físicos e químicos se podem reproduzir.

Para todos aqueles que pensam — e nós somos desses—que o homem é um ser pertencente à cadeia evolutiva das espécies, mas tendo beneficiado de uma mutação ou de uma graça

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excepcional, é difícil acreditar que outros homens, algures no universo, se lhe pareçam4.



No caso contrário—se existe em vários lugares—o homem, espécimen único, foi para aí exportado.

TENTATIVA DE ACLIMATAÇÃO

Na hipótese da pluralidade dos planetas habitados e da exportação da espécie humana, em que planeta é que o primeiro homem teria nascido?

É um mistério que nunca será, sem dúvida, elucidado.

Talvez na Terra, mas é pouco provável, e inclinamo-nos a pensar que teria sido transportado para o nosso globo, germinado de uma certa maneira, e a aclimatação teria sido mais ou menos bem sucedida5.

Pensamos mesmo em várias importações, as primeiras efectuadas há milhões de anos. Sendo as condições desfavoráveis, os indivíduos importados não chegaram a aclimatar-se e não fizeram surgir nenhuma civilização.

Podemos imaginar, apesar de não o conseguirmos comprovar, que foram feitas várias tentativas, sem dúvida com indivíduos

4 A espécie humana parece bem fixada, não parece tender para uma zona original, querer regressar a um tipo primitivo (o macaco, por exemplo). Os primitivos mais recuados parecem mais seres atrasados, com tendência para o retrocesso, do que homens em evolução normal.

Não temos nenhum elo de ligação ao estádio inferior e não parece que o homem possa descer de novo a uma espécie original.

5 Esta tese não tem rigor cientifico no sentido em que se explora estas palavras. Supõe a existência e a intercessão de entidades conscientes análogas a Deus ou a deuses. É sob este ângulo que escapa a um certo racionalismo, mas, de facto, o rigor científico é um logro, porque só o conhecimento total pode ser rigoroso, o que não é o caso da nossa ciência humana.

Deus ou os deuses, que pensamos ser visões do espírito, simples postulados, têm talvez, numa realidade não conhecida, uma consistência ou uma natureza de que não fazemos qualquer ideia.

É por esta razão que damos o nome de «jogos» às nossas teses, hipóteses e especulações variadas.

No presente estudo, é preciso imaginar o homem terrestre trazido ou germinado no nosso globo por homens de um outro planeta.

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cada vez mais elaborados. É evidente que estes não eram homens muito evoluídos, antes pelo contrário, dos mais rudes, isto é, aqueles que tinham mais possibilidades de se acomodar a condições de meio ambiente difíceis e precárias.



Nos nossos dias, os terrestres enviam homens ao espaço, sem dúvida com fins científicos, mas também por curiosidade, e talvez porque no inconsciente são solicitados pelos seus cromossomas--memórias.

De facto, a conquista do espaço seria fundamentalmente um regresso às origens, uma peregrinação ao país dos Primeiros Pais.

Se a nossa civilização existir ainda dentro de cem anos, está fora de dúvida que os cosmonautas terão ido aos planetas vizinhos e que as suas explorações os arrastarão para horizontes longínquos, onde terão talvez a possibilidade de desencantar um pequeno planeta idêntico à Terra.

Se assim fosse, deveriam encontrar uma fauna e uma flora quase idêntica às que conhecemos, mas talvez não as nossas espécies de excepção: os homens e os delfins.

Os biologistas terrenos, porque está na natureza humana propagar a civilização, tentariam então implantar aí homens, escolhendo os mais primitivos, os mais aptos para sobreviver: o equivalente dos Balubas e dos Papuas da nossa época.

Os Primeiros Pais, na sua aventura de colonização terrestre, tiveram de se conformar com este imperativo, mesmo tendo colonizado indivíduos, modificando o seu sangue e o seu sistema respiratório; talvez experimentando hibridações com os animais ou com as plantas que, nesse longínquo planeta, se parecessem mais connosco.

UMA CENTRAL INICIÁTICA CÓSMICA

Tradições dignas de fé permitem-nos acreditar que a aclimatação ou hibridação surtiu efeito há quinze ou vinte mil anos, porque sabemos que tivemos antepassados tão evoluídos como nós o somos, pelo menos no tempo da Atlântida. Esses homens de importação ou de condicionamento puderam fazer eclodir na Terra uma alta civilização com a ajuda dos demiur-

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gos, a que hoje chamamos os Primeiros Pais, de que pelo menos um comando veio instalar-se no nosso globo.



Esta tese, tão racional como a evolução darwinista do macaco ao homem, supõe a existência, algures no cosmo, de uma central iniciática, donde teriam sido exportados os nossos Antepassados Superiores, os que foram os Atlantes, os Hiperbóreos e os supostos povos de Mu.

Teríamos assim uma explicação lógica:

1 — Da falta de elos de ligação entre o macaco e o homem;

2 — Dos monstros ou seres fabulosos, meio homens, meio animais, que, segundo as tradições, disputaram ao homem a supremacia na Terra;

3 — Das criaturas primárias da Pré-História (os sujeitos

inaptos para evoluir ou, então, lamentavelmente híbridos); 4—Dos Antepassados Superiores que, à margem dessa humanidade falhada, conseguiram colonizar o nosso planeta.

Igualmente se explicaria, assim, a misteriosa conivência, comovedora, que continua a estabelecer-se entre os exportados humanos, que foram bem sucedidos na aventura sobre o continente, e os exportados delfins, cuja experiência marítima fracassou.

INICIADOS SEM FRIO

O Dilúvio universal pôs fim a essa fantástica operação, como um cataclismo análogo porá um dia fim à nossa civilização; no entanto, os mitos falam de uma etnia de iniciados, que se teria estabelecido na região polar antes da grande catástrofe: os Hiperbóreos.

São frequentemente chamados os Grandes Antepassados Brancos, os Primeiros Pais, guias e chefes supremos dos Atlantes.

Hiperbórea, a sua capital, situada algures entre a Islândia

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e a Gronelândia, estava encravada nas montanhas de gelo, mas gozava de uma temperatura tão generosa que o campo era verde, cheio de árvores lindas, e onde até se cultivava o trigo6.



A capital desse pequeno reino era, diz-se, Thulé, embora outras tradições mencionem Thulé como ilha do Atlântico Norte (talvez a Islândia). Seja como for, Hiperbórea, com ou sem Thulé, aparece como o centro iniciático dos Atlantes, o grande quartel-general de onde partiam as ordens.

Desde Hesíodo e Homero muito se escreveu sobre os Hiper-bóreos, mas nunca nenhum autor se admirou com o facto de Iniciadores, directores de ciência e de consciência de um imenso povo civilizado, terem precisamente escolhido para se instalar uma região polar, mesmo se por um milagre da natureza ou da indústria conseguissem torná-la relativamente temperada.

OS GRANDES ANTEPASSADOS BRANCOS

Sabe-se que o Grande Norte era, em certa época, mais quente, pelo facto de a Terra, antes do Dilúvio, rodar sobre um eixo perpendicular ao plano da eclíptica, o que abolia as estações.

É certo que a Suécia e a Noruega conheceram vegetações tropicais, que explicam a formação de âmbar amarelo fóssil, de origem resinosa, que se encontra nas margens do mar* Báltico; no entanto, é provável que a escolha da situação geográfica de Hiperbórea fosse motivada por causas muito mais racionais que o acaso ou a fantasia.

Os Hiperbóreos passam por ter sido muito grandes, muito brancos de pele, e dá-se-lhes, além disso, olhos azuis muito claros

' História de Heródoto — Melpomeno, LIV, 13-33-35, ed. Garnier Frères, Paris, 1909.

O nosso globo arrefece cada vez mais ou passa por ciclos alternados de grandes frios e grandes calores. Os geólogos pensam que dentro de dois séculos a temperatura média do globo terá descido dez graus. Poderá seguir-se uma nova glaciação, substituída alguns milénios mais tarde por um período de canícula.

Outrora, durante um ciclo tropical, as civilizações avançadas tiveram de subir até ao Norte, onde novas espécies animais se implantaram. Inversamente, durante um ciclo invernal das civilizações, espécies animais e vegetais desapareceram do setentrião.

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e cabelos louros, o que representa exactamente nos nossos dias o tipo nórdico ideal, por oposição aos tipos morenos ou pretos das regiões mais tropicais.



É portanto lógico acreditar que estes Hiperbóreos de pele branca escolheram intencionalmente a região menos quente da Terra, porque, pelo seu clima, correspondia melhor ao planeta de que eram originários.

Numa palavra, se os Primeiros Pais eram extraterrestres, devemos pensar que o seu planeta estava mais descentrado que o nosso globo em relação ao Sol, ou ao seu sol.

Se pertenciam ao nosso sistema solar, podiam vir de uma zona vizinha da órbita de Marte ou dos asteróides, onde a temperatura é nitidamente mais baixa que na Terra.

Estes Hiperbóreos extraterrestres foram, segundo as transmissões orais iniciáticas, os antepassados da raça branca7.

' Supomos também que o sangue destes Primeiros Pais não era vermelho como o nosso, mas talvez azulado devido à percentagem de gás carbónico do seu planeta original. (Ver História Desconhecida dos Homens desde Há Cem Mil Anos, cap. Ill: «Os Homens Azuis», ed. Livraria Bertrand, Lisboa.) Desta particularidade, resultaria a expressão «ter sangue azul nas veias»: ser nobre, des-xender de uma raça superior.

CAPÍTULO IV

1. CIVILIZAÇÕES PERDIDAS

QUASE todos os anos descobertas devidas a maior parte das vezes ao acaso, e por vezes a escavações arqueológicas, recuam os limites da aparição do homem na Terra. , Surgem, como corolário, ruínas e vestígios de civilizações, de que ninguém supunha a existência, de forma que os historiadores da Pré-Histórial, em total confusão, já não sabem o que fazer!

O Zinjanthrope (homem da África Oriental) acaba de ser destronado por um espécimen mais antigo, que responde pelo nome bárbaro de Paraustralopitécus aethiopicus, originário da da Etiópia.

Também as antigas superstições dos nossos ((mestres» clássicos sofrem violentos assaltos.

Incrivelmente, paradoxalmente, ensina-se ainda que os homens pré-históricos habitavam em cavernas2 e que os seus utensílios de bronze, feitos antes dos de ferro (!!), foram inventados só há quatro mil anos, ou seja, seis mil anos depois de terem fabricado Falamos dos historiadores da Pré-História franceses, e mais precisamente dos

2 Consequentemente, deve pensar-se que os homens pré-históricos de Saint--Acheul (Somme), de Chelles e do Grand-Pressigny, onde não havia cavernas, tinham de ir dormir todas as noites às Ezyes!

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catorze variedades de bronze em Medzamor (Arménia soviética)3.



A descoberta oficial da fábrica pré-histórica de Medzamor foi um mau golpe para a Conjura!

Mau golpe também, a biblioteca em pedra de Lussac-les--Châteaux, que o Museu do Homem enfim consente (desde 1937) deixar sair das suas caves de sequestro! Sobre as pedras gravadas de Lussac vê-se uma mulher de chapéu, sapatos, casaco e calças!

O que acontece então às sacrossantas teorias dos especialistas da Pré-História, que asseguram que o homem, dito das cavernas, só se vestia com peles de animais?

E eis que perto de Vladimir (U.R. S. S.) arqueólogos soviéticos desenterraram uma sepultura, velha de trinta e cinco mil anos, na mais importante necrópole da Idade da Pedra.

Foi aí possível descobrir a primeira prova da confecção pelo homem de vestuário, de que um modelo era uma espécie de calças bárbaras, com costuras guarnecidas de ossos cinzelados4.

Também em todos os outros planos da Pré-História, os ucasses da Conjura foram postos em causa: em Bimini, onde a Atlântida ressurgiu; no lugar da Terra de Mu, onde se descobriram estranhos jazigos metálicos; na Gronelândia e na Sibéria, onde se encontraram vestígios de civilizações desconhecidas5; no Sara, onde segundo o doutor Fairbridge, geólogo da Universidade de Colúmbia, se situava o pólo sul há quatrocentos e cinquenta milhões de anos; no Irão, onde se descobriu uma cidade industrial, velha de seis mil anos, Shar-I-Soktch, que teria abrigado cem mil habitantes, capazes de trabalhar as pedras preciosas e os metais em atelier e em fábrica!

3 Le Livre des Mondes Oubliés, cap. IV: «Nos Ancêtres n'Etaient pas des Signes», ed. Robert Laffont, Paris.

4 Comunicado pelo Club Marylen, J. O., 25 de Setembro de 1957, BP 53 93360, Neuilly-Plaisante.

5 Em 1923, uma expedição russa descobriu na Lapónia, na península de Kola, os vestígios de uma civilização extremamente recuada, que o professor Bartjenko estima ser anterior à dos Egípcios. Tumbas formadas por enormes montes de pedras, semelhantes às pirâmides do Egipto (ou tumulfí), foram recenseadas.

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Nestas condições, como é que espíritos lúcidos poderiam recusar admitir a existência de Antepassados Superiores e de civilizações ignoradas, algumas talvez mais evoluídas que a nossa?



OS ARQUEÓLOGOS «SELVAGENS»

Os arqueólogos ((selvagens» não pretendem reformar as ciências clássicas, e enganam-se muitas vezes por falta de meios financeiros ou de competência técnica, mas apesar das suas falhas — a maior parte das vezes bem desculpáveis — fornecem elementos preciosos e são um estímulo para a investigação oficial.

As tradições também nem sempre estão isentas de erros, de exageros e até de imaginação pura e simples.

As informações provenientes dos meios mais autorizados não escapam a estas críticas, como acontece, parece, com o caso do dom da senhora Kouleshova, essa russa que «via com os dedos».

Foram necessários sete anos de pesquisa aos cientistas russos, para descobrir o que sem dúvida não passaria de uma fraude.

A revista Literaturnayan Gazetta, dando essa informação, assegura que, quando das experiências oficiais em 1963, o espec-troscópio emitia um som especial, de cada vez que a cor dos raios mudava.

A senhora Kouleshova teria fundamentado as suas visões coloridas nestas alterações de sonoridade quase imperceptíveis ao ouvido normal.

O problema não está portanto completamente resolvido, já que os biólogos afirmam que todas as células do corpo têm aptidões para todas as funções de percepções sensoriais.

O PILAR DE ASHOKA

Numerosos empíricos escreveram que o célebre Pilar de Ashoka, de ferro que não enferruja, tinha uma antiguidade de quatro mil anos.

Trata-se de um exagero, como pudemos verificar ao examinar minuciosamente o monumento.

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O Pilar de Ashoka, em Nova Deli, índia

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Ergue-se no pátio de um templo de Nova Deli (Índia), diante de uma porta monumental em estilo árabe.



Mede à volta de sete metros de altura, o diâmetro varia entre quarenta e dois centímetros, na base, e trinta e dois, no topo, e o peso é de seis toneladas6.

À primeira vista, este pilar não pode ter a idade anunciada, porque a ornamentação no seu topo é de um estilo indiano facilmente identificável.

Chama-se geralmente «Pilar de Ashoka», nome de um soberano, neto de Bindusâra, que, de 260 a 227 antes de Cristo, fez erguer, nas extremidades do seu império, colunas, sobre as quais os seus edictos eram por vezes gravados.

Como o prova o seu estilo arquitectural, o pilar não pode ter sido levantado por Ashoka, mas pelo imperador Candra-gupta II, cognominado Vikramâditya, que reinou de 380 a 413 da nossa era, e foi o inspirador da Idade do Ouro da civilização indiana.

Louis Renou, orientalista de renome, membro do Instituto7, é formal neste ponto da datação.

O pilar tem portanto à volta de mil quinhentos e cinquenta anos de idade, e não quatro mil.

Continua mesmo assim a ser uma curiosidade e um enigma, porque é certo que, apesar da humidade na índia e das monções, o ferro de que é composto nunca sofreu a menor oxidação (ferrugem).

FEITO DE FERRO IMPURO

Num estudo muito bem apresentado pela Inforespace, Jacques Scornaux escreve que «uma pureza excepcional, inacessível à nossa mais avançada tecnologia, foi atribuída ao ferro do pilar para explicar a sua inalterabilidade)).

6 Medidas fornecidas pela revista Inforespace, 26, Boulevard Aristide Briand, 1070, Bruxelas.

' Louis Renou, La Civilisation de Vinde Ancienne, ed. Flammarion, Paris, 1950.

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—Se admitirmos — acrescenta Jacques Scornaux — que este feito pode ser realizado nos nossos dias, é preciso salientar que só há pouco tempo e para quantidades mínimas, sendo o preço exorbitante.



O pilar de Ashoka, ou antes de Vikramâditya, seria pois de um ferro desconhecido, oriundo, acrescentam alguns, de uma ciência extraterrestre ou de um segredo perdido de fabricação!

Hipótese arrojada, mas que, na ausência de uma explicação mais plausível, se pode formular.

Especialistas da corrosão asseguram que o pilar é constituído por várias placas de ferro, soldadas a martelo enquanto ainda em fusão.

Análises feitas com amostras revelaram, no entanto, uma grande heterogeneidade, ou seja, parcelas de impurezas de carbono (0,1 a 0,2%), de fósforo (0,11 a 0,18%), de silício, de cobre e de níquel, com uma camada externa formada por oitenta por cento de óxidos de ferro (Fe 0 e Fe2 03).

Este ferro, escreve Jacques Scornaux, é portanto impuro e o enigma da sua inalterabilidade permanece inteiro... a menos que seja devido ao facto de, durante séculos, os indianos crentes o terem ritualmente untado com matérias gordas, vegetais e animais, que acabaram, penetrando no metal, por lhe assegurar a protecção.

É de notar que o metal dos ajtares e dos objectos venerados gozam, do mesmo modo, de uma semelhante e milagrosa imunidade, tanto na índia como no Nepal.

O VALE DAS MARAVILHAS

Numa região deserta e de acessos difíceis dos Alpes provençais, o Vale das Maravilhas oferece aos arqueólogos que as dificuldades não assustam um sítio incomparável onde abundam as gravuras rupestres.

Quem as desenhou? Que civilização se fixou outrora nestes desfiladeiros e nestes vales de alta montanha? Sabe-se muito pouco a este respeito.

O itinerário recomendado para se chegar ao vasto local, que

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Vale das Maravilhas. Um sítio selvagem e magnífico. Na rocha chata, em primeiro plano, vê-se um desenho gravado



Vale das Maravilhas. Feiticeiro ou chefe de tribo, punhais; o desenho em quadriculado representa uma «cerca» ou limite de propriedade

Vale das Maravilhas. Planta do local, pelo arqueólogo Samivel

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se estende por dezenas de quilómetros, parte de Tende em direcção a Saint-Dalmas, donde se pode subir até Mesces.



Daí tem de se apanhar o vale da Minière para chegar, depois de seis quilómetros de dura marcha, aos arredores do Vale das Maravilhas.

A região é dominada a nordeste pelo monte Bego, que, dos seus dois mil oitocentos e setenta e três metros, reina sobre um caos de rochas, cujo aspecto, em contraluz, lembra representações zoomórficas, próprias para atiçar a imaginação.

Há várias etimologias propostas para o nome Bego, que viria quer do provençal begon (feiticeiro), quer de beg (senhor), mas que parece ter uma associação de ideias com o beugh, ou mugido do touro e do boi.

De resto, perto de dezasseis mil desenhos referem-se a esses animais, entre os quarenta e cinco mil que foram mais ou menos identificados.

A altitude média do sítio varia entre dois mil e cem e dois mil e seiscentos metros, e dois montes vizinhos têm os nomes de Corno do Touro e de Pico do Corno de Bode, o que, a uma primeira análise, leva a pensar que o Vale das Maravilhas foi outrora um lugar consagrado à agricultura, à criação e, ainda mais verosimilmente, ao culto do touro.

É preciso procurar nos labirintos de rochedos para descobrir os desenhos, gravados na pedra com um instrumento afiado, ou traçados linearmente, talvez em épocas mais recentes.

Nalguns sítios, existem sobre lajes lisas de grés avermelhado, de xisto folheado ou petro-silicosas, algumas de cor verde, violeta ou alaranjada.

As figuras mais representadas são touros (ou bois), forquilhas com dois dentes, rectângulos quadriculados, facas, armas, silhuetas humanas e arpões que têm uma grande analogia com certas letras do alfabeto fenício, cariano, itálico, cretense, aramaico, sabeu, e ainda mais com os desenhos da ilha de Páscoa.

As gravuras quadriculadas ou cercados representam talvez esquemas de casas ou compartimentos agrícolas; encontram-se um pouco por todo o mundo, sobretudo no Peru (planalto de Marcahuassi) e na região de Snake River, nos Estados Unidos.

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Outros desenhos são estilizações de feiticeiros, de bailarinos, de touros e de homens a conduzir uma junta de bois.



Como já era de esperar, encontram-se junto dos petróglifos, os rabiscos, os nomes e os prenomes de visitantes-sabotadores ávidos de fixar a sua identidade numa obra imperecível.

((Sobre a "Grande Mesa"», escreve André Verdet, «sinais--tótemes aproximam-se do alfabeto8.»

Por todo o lado o cenário é grandioso, titânico, desolador, vazio e ao mesmo tempo povoado por habitantes invisíveis...

OS HOMENS DO BEGO

Esta natureza carcomida, lavrada pelos ventos, pelo gelo, pela chuva, esta cidade natural, com fortalezas, com ruas e circos imaginários, parece ter sido povoada pelos homens do Bego, por fantasmas e por uma fauna, gravados nas superfícies rochosas, mas que na sua fé, por um poder mágico, deviam tomar consistência e vida real, em certas datas sagradas fixadas pelo Grande Feiticeiro.

Segundo cálculos aproximativos, estes desenhos datariam do século v antes da nossa era, mas o arqueólogo Cario Conti faz recuar a sua antiguidade para quatro mil ou talvez cinco mil anos.

Igualmente para definir o que se chama já a civilização do Bego, ou civilização do Vale das Maravilhas, há a mesma hesitação: seria obra de uma etnia expulsa das costas ou do nordeste por uma invasão, e que se teria instalado à volta do monte Bego para cultivar um solo que se sabe ter sido fértil no fim da época neolítica.

No entanto, baseando-se no carácter mágico de muitos desenhos, alguns historiadores pensam que os homens do Bego formaram uma civilização itinerante, cujo rasto pode ser encontrado

Ler o notável estudo ilustrado de André Verdet: La Vallée des Merveilles, Editions du Temps, Rue du Montparnasse, 58, Paris 14.°, e C. Bieknell: Guide des Gravures Rupestres Préhistoriques dans les Alpes Maritimes, a consultar no Museu de Arqueologia de Cimiez, em Nice.

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na região de Hesse, na Alemanha, à volta do lago de Iseo, a norte de Brescia e no vale Camonica (Itália).



Estes homens do Bego eram de certeza celto-lígures.

A LENDA DO VAL DE LA MASQUE

André Verdet, autor do livro La Valée des Merveilles, conta duas lendas que dão uma explicação popular para o mistério do monte Bego.

«As pessoas de Entraque», escreve, ((quiseram apoderar-se das virgens que outrora viviam no vale. Elas fugiram, lançando uma maldição sobre toda a região, do lago de Agnel, no norte, até ao lago de Enfer, ao sul.»

A segunda lenda oferece uma melhor ligação com os desenhos dos rochedos que representam feiticeiros, punhais e cenas que se pensa serem de magia.

Na Idade Média, o conde de Tende tinha debaixo da sua forte autoridade toda a região, então fértil, dos vales que rodeavam o monte Bego até mais de três léguas.

Um dia, partiu para as Cruzadas e a sua ausência durou vários anos, que foram caracterizados por diversas calamidades e pelo declínio da prosperidade em todo o condado.

— Foi a feiticeira que nos lançou uma maldição! —disseram os habitantes.

E a pobre mulher, que vivia numa cabana à saída da aldeia, foi desonrada por todos, insultada, e as crianças atiraram-lhe pedras...

Depois de sete anos de ausência, o conde regressou, magro, envelhecido, amargurado, escoltado apenas por um punhado de homens que conseguira trazer vivos da Terra Santa.

A população suplicou ao conde que desse remédio à mortandade, às intempéries, aos acidentes de toda a espécie que cada vez mais os castigavam.

— Nada posso fazer, meu bom povo, contra os poderes infernais que nos fazem sofrer mil suplícios — disse o nobre. — Foi em vão que rezei aos santos e que fiz penitência na Palestina, o Demónio cerca-nos e cerca-nos bem!

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Decidiram então deitar as culpas para cima da feiticeira e, para conjurar a sua magia, deram-lhe ordem de desaparecer na companhia das suas cabras, depois do que queimariam a casa.



Por sua vez, o conde, o meirinho e o abade lançaram-lhe a sua maldição:

— Foge para o lago de Enfer, para o Cime du Diable, para o Vai de la Masque, lá onde o teu mestre, Satanás, celebra entre os rochedos de formas diabólicas. E nunca mais voltes a aparecer em Tende!

A feiticeira partiu com o seu rebanho, os amuletos, os livros e as poções abjectas.

Tudo aquilo em que tocara com as suas mãos impuras, a casa, os móveis, e a madeira da sua cerca, foi queimado, aspergido com água benta e regado com sal derretido.

Então, diz a lenda, o repouso das almas e dos corpos voltou à região de Tende e a esterilidade atacou o Vale das Maravilha*, como se tivesse havido transferência de malefícios.

Depois disso, afirma André Verdet, os habitantes de Tende, de Saint-Dalmas e de Brigue nunca mais se arriscaram a ir ao Vai de la Masque e ao lago de Enfer...

OS CAVALOS BRANCOS DOS DOWNS

O homem, antes de saber escrever, desenhou as suas impressões, necessidades, a sua admiração e o seu medo.

É provável que o homem de Lascaux tenha conhecido a escrita, mas apenas deixou o testemunho das suas qualidades de desenhador e de pintor.

Em Inglaterra, nas encostas das colinas do sul — os downs — sobretudo no Dorset, vêem-se gigantescas figuras, desenhadas ou esculpidas, representando, na maior parte das vezes, cavalos.

É a mensagem de um povo antigo, talvez de uma época pré--histórica, mas que foi continuada mais recentemente, porque algumas representações têm pouco mais de mil anos.

O Cavalo Branco de Uffington dataria, segundo uma tradição, de Alfredo, o Grande, rei anglo-saxão que foi coroado em 871, depois de ter expulso os Dinamarqueses de Inglaterra.

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O Cavalo Branco de Westbury, numa colina de Wiltshire, Inglaterra



No Norte de Inglaterra, no Yorkshire, o Cavalo Branco da Abadia de Byland, na colina de Hambledon, é tão grande que se torna difícil fotografá-lo sem deformar as linhas. A figura, em terra de greda, parece remontar às primeiras

idades históricas

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O Cavalo Branco de Uffington, no Berkshire, Inglaterra, é de uma feitura extraordinária, lembrando os desenhos dos cavalos célticos e gauleses

O gigante de Cerne Abbas, Dorset, Inglaterra


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A obra, talhada no cré da colina, a fim de comemorar as suas vitórias, devia representá-lo, mas só foi acabada a montada, o que levanta dúvidas quanto à autenticidade desta versão.

Os arqueólogos pensam que o cavalo, muito estilizado e a dormir no campo do Berkshire, é na realidade trabalho dos homens da Pré-História.

No condado de Wiltshire, podem contar-se seis cavalos brancos, traçados da mesma maneira; o de Westbury é o mais representativo desta arte gigantesca.

Há outras representações em Cherhill (Wilt), no flanco de um monte, em Alton Barnes (Wilt), em Kilbura (Yorks) e em Osmington (Dorset), mas esta última data apenas do século xvm e celebra o rei Jorge III.

Muito mais recente é o Leão do Bedfordshire, executado para indicar a proximidade do Jardim Zoológico de Whispsnade.

Pertencem à mesma veia artística as representações humanas de Trendle Hill, no Dorset (o Gigante da Clava), e de East-bourne, no Sussex (o Gigante de Wilmington).

O primeiro mede cinquenta e cinco metros de comprimento, o segundo oitenta. Estão desenhados em prados, em covas compridas que se assemelham um pouco às pistas da Nazca.

Afirma a lenda que o Gigante da Clava era um ogre que foi morto pelos camponeses do vale de Blackmore, a quem roubara uns carneiros, com os quais se empanturrara ao ponto de rebolar por terra.

CIDADES ESQUECIDAS NA SELVA

A nossa amiga e correspondente do Rio de Janeiro senhora J. Renout da Cunha informou-nos das descobertas arqueológicas brasileiras.

((Foi descoberta em Ingá uma cidade desconhecida.»

Em 1733, uma outra cidade fora explorada e aí se viram monumentos e esculturas. Nunca mais foi encontrada.

Em Pirarucura, no estado de Piauí, os arqueólogos não sabem se viram uma verdadeira cidade ou um efeito de erosão. O local chama-se ((Sete Cidades»; distinguem-se, sobre as rochas,

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inscrições numa escrita desconhecida, desenhada a vermelho. Parece que há também esfinges gravadas na pedra.



A incerteza é igualmente grande em relação a uma série de pilares e alinhamentos de muros paralelos de um quilómetro de comprimento, junto do que parece ser as ruínas de uma civilização extinta, em Monte Alto.

Em 1743, um português de nome Francisco Raposo, acompanhado de alguns aventureiros, errou durante vários anos pela selva de Mato Grosso, à procura das «minas de ouro de Muri-beca», de que se perdera, há um século, a situação geográfica.

Raposo enviou ao vice-rei do Brasil Dom Luís Peregrino de Carvalho Meneses de Ataíde uma relação pormenorizada da sua expedição, que o tenente-coronel Percy Fawcett, ex-oficial do exército das índias, desenterrou dos arquivos do Rio em 1923.

Fawcett, com razão ou sem ela, e depois de muitos pesquisadores célebres9, escreveu que se falava aí de ((cidades perdidas» cujos nomes rescendiam a aventura: Grande Paititi, Manoa, Americanas, Ciudad de los Césares, etc.

Àquela que procurava, baptizou-a com o nome de ((Cidade Z» e, depois de múltiplos cortes, situou-a algures nos arredores do rio Xingu, grande afluente do Amazonas, entre a serra Formosa e a serra do Cachimbo, no paralelo dez, meridiano de Greenwich.

Em Maio de 1925, o coronel, o seu filho Jack, o amigo Raleigh Rimei e uma escolta de guias" indígenas embrenharam-se na floresta amazónica.

O escritor Henri Vernes informou-se sobre este acto de temeridade que acabou tragicamente, pois nenhum dos exploradores voltou a dar sinal de vida.

Vernes revela, no seu livro Sur la Viste de Fawcett10, uma carta de 20 de Abril, onde Fawcett, referindo-se aos dizeres de de um índio, falava de uma cidade perdida na selva, onde as casas, com enormes portas, eram iluminadas do interior pela luz

9 Misteriosas cidades escondidas na selva foram em vão procuradas, em 1902, pelos Krupp von Essen e, em 1913, pelo presidente Theodore Roosevelt, que estava acompanhado pelo general Cândido Mariano da Silva Rondon.

10 Edição Marabout Júnior, n.° 21.

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que era irradiada por um grande cristal colocado no alto de um pilar.



A 29 de Maio, teria ainda enviado uma mensagem — cuja existência é duvidosa — mencionando a sua posição a nordeste da serra Formosa, a cinquenta quilómetros da confluência do rio Ronuro e do rio Xingu.

É evidente que chegaram ao Rio várias notícias, umas afirmando que Fawcett se tornara «rei numa tribo de homens brancos», outras assegurando que encontrara a morte na selva.

Uma relação, igualmente fantasista, diz que a expedição encontrara a mencionada cidade secreta do relatório de 1743: um arco ciclópico assinalava a entrada. Numa praça, uma estátua de braço erguido parecia indicar a direcção do norte. Era a capital do grande Muribeca, filho de um explorador português, que casara com uma índia e explorara umas fabulosas minas de ouro.

Várias expedições lançadas à procura de Fawcett e da ((Cidade Z» regressaram sem ter trazido qualquer solução para o enigma.

2. REINOS IMAGINÁRIOS

As tradições mais fantásticas, como as aventuras romanescas, suscitam sempre prolongamentos que, bem entendido, pertencem muitas vezes à imaginação, embora por vezes aconteça encontrar-se, na origem, a substância de uma revelação verídica.

Não acreditamos que o satélite de Marte, Phobos, seja um planeta falso ou um disco voador interplanetário, mas talvez seja vazio; temos dúvidas quanto à existência da Ágarta^ esse misterioso império sub-himalaico, mas inclinamo-nos para a autenticidade de Antília, vestígio da Atlântida.

Quanto aos prodigiosos reinos que os conquistadores do século xvi procuraram nas três Américas, queremos bem

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pensá-los como imaginários, mas, apesar de tudo, com umas certas reticências.



Por detrás dos contos miríficos inventados pelos índios e pelos cronistas espanhóis, devia esconder-se uma parcela de verdade.

O que quer que se tenha passado, a miragem americana, de Pizarro a Fawcett, foi uma fantástica, maravilhosa, terrível e mortal aventura, digna da lenda dos séculos do Novo Mundo e que volta a abrir, à nossa época, o dossier das «cidades perdidas».

A CIDADE SUBTERRÂNEA DOS LEMURES

Segundo o «professor» Henrique José de Sousa, presidente da Sociedade Teosófica de São Lourenço (Brasil) u, Fawcett e o filho teriam ficado prisioneiros de um povo subterrâneo de Mato Grosso.

X)s exploradores, depois de seguirem um longo corredor que avançava pelas entranhas da Terra, teriam entrado na cidade de uma civilização resplandecente, sob a crusta terrestre da América do Sul.

((Os habitantes desse reino pertenceriam à raça antedilu-viana que povoava a Lemúria e a Atlântida, continentes submersos outrora pelos oceanos!» n

José de Sousa faz-se assim porta voz do escritor tradicionalista Ferdinand Ossendowsky13, que certificava a autenticidade de tais populações:

((Ouvi», escreve Ossendowsky, «um mestre lama chinês dizer

11 Citado pelo escritor americano Raymond Bernard no seu livro La Terre Creuse, ed. Albin Michel, Paris.

12 Segundo Haeckel, o grande naturalista alemão, a raça humana começou num continente actualmente imerso no oceano Pacífico: a Lemúria, chamada Shamali nos Pouranas. Esse continente teria sido o berço da terceira raça humana, a primeira a ser inteiramente desenvolvida. A sua destruição pelo fogo e pela água «foi acompanhada pela aparição de um outro continente, a Atlântida, de nome Kusha, onde se desenvolveu a poderosa e magnífica civilização da quarta raiz» (na tradição dos teósofos.)

n Ferdinand Ossendowsky, Betes, Hommes et Dieux, Plon, 1924, pp. 250-252.

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ao Bogdo-Khan que todas as cavernas subterrâneas da América estão habitadas pelo antigo povo que desapareceu debaixo da terra.



Esses povos e esses espaços subterrâneos são governados por chefes que reconhecem a soberania do Rei do Mundo.»

Trata-se de novo aqui dos habitantes da ilha de Mu e dos atlantes, salvos do Dilúvio, que habitariam cavernas providas de uma luz particular, apta para fazer crescer os vegetais.

Bem entendido, estes povos vivem quase eternamente e sem contrair doenças!

A acreditar em Ossendowsky, a maior parte das civilizações antigas, antes de desaparecerem, teriam de qualquer modo delegado um grupo de iniciados junto do Rei do Mundo, cujo povo subterrâneo, que «atingiu o mais alto saber», habita o reino sub-himalaico da Ágarta.

Há mais de seis mil anos, um santo homem e a sua tribo ((desapareceram no interior do solo».

É o que teria também acontecido às duas tribos ditas «perdidas» de Israel.

A entrada da Ágarta seria ou no Afeganistão, ou no Tibete, entre Chigatzé e Shamballah.

HOMENS DE DUAS LÍNGUAS!

O príncipe Choultoum Beyli teria ele próprio feito a descrição do reino da Ágarta a Ossendowsky, que a relatou sem mostrar o menor espanto.

No entanto algumas descrições suscitam — pelo menos — uma legítima suspeita.

Façam o vosso juízo!

Um velho brâmane do Nepal encontrou no Sião, assegura o príncipe, um pescador que o levou para uma viagem no mar.



<(Ao terceiro dia chegaram a uma ilha, onde vivia uma raça de homens com duas línguas, que podiam falar separadamente idiomas diferentes.

Mostraram-lhes animais curiosos, enormes serpentes de carne

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saborosa, pássaros com dentes que apanhavam peixe para os seus donos, no mar. Essa gente disse-lhes que tinham vindo do reino subterrâneo e descreveram-lhes algumas das suas regiões...!»



MANOA

Somos muito cautelosos com estas narrações, que a maior parte das vezes se revelam pura fantasia, embora seja inquietante notar que elas se ligam estranhamente com as tradições que mencionam a existência de misteriosos soccabons (subterrâneos), que abundariam na América do Sul e sobretudo, diz-se, no Brasil14.

Segundo o escritor americano Raymond Bernard, um deles, a Calçada dos Incas, com centenas de quilómetros de comprimento, teria uma entrada a sul de Lima, passaria por Cuzco e Tiahuanaco e desembocaria no deserto de Atacambo.

Foi por esse túnel que os Incas teriam evacuado o seu ouro, quando os conquistadores invadiram o Peru.

O coronel Fawcett e o filho Jack teriam desaparecido num soccabon da serra de Roncador, a nordeste de Mato Grosso.

Estas lendas, que aumentam exageradamente com o correr dos anos e dos séculos, têm quase todas origem nos sonhos fantásticos que inflamavam os conquistadores, no tempo em que Pizarro desembarcou no Império dos Incas.

Um lugar mágico, que mais provavelmente era um homem, atraía então todos os aventureiros: o fabuloso El Dorado.

Os Espanhóis situavam-no na actual Colômbia ou nos Estados Unidos, Voltaire estabeleceu-o no Paraguai; um viajante anónimo afirma que o El Dorado era nas margens do rio Paraná, tendo como capital uma cidade magnífica: Manoa.

Pensa-se que a lenda teve como propagadores uns índios maldosos ou incas desejosos de levar os conquistadores para pistas longínquas e falsas.

14 Robert Charroux, Le Livre des Mondes Oubliés, cap. VII: «Civilisations Mystérieuses».

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Uns e outros falavam sem pausa da Manoa, com tectos de prata, e com habitantes que se vestiam com tecidos de ouro.



Walter Raleigh procurou as cúpulas brilhantes do El Do-rado que «resplandeciam numa vasta planície».

Ferdinand Denis15 supõe que a fabulosa cidade talvez fosse Palenque, no México, «essa irmã da Tebas egípcia, grande cidade vazia, abandonada no meio da floresta com os seus pórticos, os seus templos ornamentados com baixos-relevos de hieróglifos misteriosos».

Para os conquistadores, El Dorado era mais precisamente o chefe do reino maravilhoso.

«Pontífice e rei, era a ele que a cidade de Manoa obedecia e a quem as homenagens de um imenso povo eram continuamente prestadas. Philippe de Utre viu o seu fantástico palácio, criado na savana, por um fugitivo raio de sol.»

AMERICANAS

No Brasil, falava-se da Mãe das Aguas, sereia que guarda os tesouros de um grande lago, e sobretudo do país de Americanas, região imaginária que situavam, quer em Minas (Uruguai), quer em Mato Grosso.

Em Americanas, o ouro abundava entre os topázios e cons-truíram-se palácios com as pedrarias que o Sol fazia resplandecer.

«No século xvni, o velho Bartolomeu Buenno percorre florestas desconhecidas, atravessa desertos sem nome e volta carregado de ouro e de pedrarias, que podiam enriquecer os soberanos mais afortunados.

Procura-se em vão a sua rota; perdeu-se como outrora aquela que levava aos tesouros de Cebora ou do Paititi16.»

15 Ferdinand Denis, Le Monde Enchente, Paris, 1843.

" Algumas tradições contavam que Paititi elevava-se sobre os cumes das montanhas que, à volta do golfo de Danien, vão desde a baía de Maracaibo até ao istmo de Panamá. Nesse lugar, viam-se ainda no século passado as ruínas gigantescas das cidades dos Cares, bem como os escombros das forjas onde os ciclopes da América Central forjavam as armaduras de ouro dos reis e dos príncipes dessas regiões (segundo Roger Dévigne).

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O que, apesar de tudo, se murmura nas tabernas de Lima e do Rio é que o deserto de Americanas está pejado de ouro, de esmeraldas, de crisólitos, de águas-marinhas de uma grandeza insolente e que tudo isso brilha no meio dos vulgares calhaus.



Mas é necessário escapar aos terríveis animais e aos cataclismos naturais: só à luz dos relâmpagos e no ribombar dos trovões é que se pode arrancar as riquezas da areia ou da montanha!

LA CIUDAD DE LOS CÉSARES

O livro de Pedro de Angelis, intitulado Derroteros y Viajes de la Ciudad Encantada o'de los Casares, publicado em Buenos Aires em 1836, revela uma rival de Americanas e de Manoa.

Segundo o autor, haveria aí, fundadas em 1599 pelos Espanhóis que fugiram de Osorno e dos outros pueblos (aldeias), três cidades que os Araucanos destruíram no fim do século XVII.

Uma delas, a mais rica, seria a Ciudad de los Césares. Ergue-se no meio da lagoa de Payégué, e os seus templos são cobertos de prata maciça. Todos os utensílios domésticos, até às marmitas, são desse metal, com que também se fazem as relhas dos arados.

Para reforçar enfim esta descrição sedutora, é bom que se saiba que os assentos dos habitantes são todos de ouro maciço, bem como os campanários dos templos, que se vêem brilhar a mais de dez léguas17.

17 Pode compreender-se o equívoco dos exploradores, diz a Grande Enciclopédia P. Larousse: o pico Calitamini, na Guiana, quando é batido obliquamente pelos raios do sol-poente, brilha como se fosse incrustado de ouro ou coberto de diamantes.

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O EL DORADO ORIGINAL



O El Dorado foi «inventado» por volta do ano de 1536 pelo tenente-general Sebastian de Belalcaçar e pelos seus soldados, em guarnição em Quito.

A informação provinha de um índio, que contou que no vale de Santa Fé ou de Bogotá «um senhor entrava num lago, no meio de algumas balsas, completamente nu e, depois de ter sido untado com goma, espalhavam-se-lhe por todo o-corpo parcelas de pó de ouro, o que o tornava muito brilhante».

Belalcaçar deu a essa região o nome de província do El Dorado; julga-se saber que o lago em questão era o lago Guatavita, vinte e oito quilómetros a norte de Bogotá, mas também se situou este país de cocanha entre o Amazonas e o Orenoco.

Alguns cronistas asseguram que o El Dorado foi imaginado por um tenente de Pizarro, chamado Orellana.

Um certo Martinez afirmou que tinha vivido sete meses na cidade do El Dorado e, em apoio da sua asserção, desenhou uma carta da província, facilmente reconhecível por três montanhas que a limitavam. A primeira era de ouro, a segunda de prata, a terceira de sal1S.

A capital desse reino imaginário era Manoa e o seu soberano chamava-se indiferentemente Grande Paititi, Grande Moxo, Grande Paru Enim, ou melhor: o Rei Dourado (o El Dorado).

Esta capital era também chamada cidade dos Omeguas ou

18 Martinez ia muito longe nas suas descrições. O palácio do imperador era suportado por magníficas colunas de pórfiro e alabastro e rodeado de galerias em madeira de ébano e de cedro incrustado de pedrarias. Situado no centro de uma ilha verdejante, reflectia-se num lago de águas de uma transparência indiscritível. Duas torres guardavam a entrada do palácio, cada uma delas apoiada contra uma coluna de vinte e cinco pés de altura, cujos capitéis suportavam imensas luas de prata. Dois leões vivos estavam amarrados aos fustes por correntes de ouro maciço.

A água das fontes saltava para bacias de prata por tubos de ouro. No coração do palácio, um vasto altar de prata segurava um imenso sol de ouro diante do qual quatro lâmpadas estavam perpetuamente acesas.

O dono de todas estas riquezas era o El Dorado.

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O LIVRO DO PASSADO MISTERIOSO



Omaguas, mas era o El Dorado ou Manoa, ainda não conhecida por aqueles nomes.

Mais tarde a opinião pública deu uma explicação para a fábula: o jovem irmão de Atahualpa, o Inca reinante de Cuzco, refugiara-se, com tesouros prodigiosos, no interior das terras onde fundara um império novo.

Hoje em dia pode pensar-se que estas tradições, que se continuam ou se contradizem, repousam nalgum fundamento: o último dos soberanos do Peru, o inca Manco, teve de se retirar para a cidade secreta de Machu-Pichu, que só foi descoberta em 1911.

É possível que estejam escondidos imensos tesouros nessa cidade perdida sobre o Altiplano.

SONHOS, DELÍRIOS E MORTE

O mito do El Dorado passou pouco a pouco para misteriosas regiões do Brasil.

O cronista Magalhães Gandavo refere esta espantosa informação:

«índios do país de Santa Cruz19, encontrando-se pouco à vontade no seu país, penetraram em vastas solidões do interior.

A fadiga e a miséria fizeram perecer um grande número e os que sobreviveram chegaram a" um país onde havia grandes aldeias, uma população numerosa e tantas riquezas, que afirmaram ter visto ruas compridas habitadas por pessoas cuja única ocupação era trabalhar o ouro e as pedrarias...

Os habitantes, vendo-lhes os instrumentos de ferro, e ouvindo falar portugueses brancos e barbudos ou espanhóis do Peru, deram-lhes de presente escudos guarnecidos a ouro, suplicando-lhes que os levassem para o seu país e que anunciassem que eles estavam prontos a trocar coisas daquele género por instrumentos de ferro...»

Em seguida o El Dorado subiu para o Norte até aos Estados Unidos: foi situado em Quivira, na Califórnia.

Santa Cruz da Bolívia, sem dúvida.

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Mitos, sonhos, imaginações, «erros mortais»... tudo o que a febre do ouro, a cupidez e a sede de aventuras pode inspirar ao homem, o Novo Mundo viveu-o durante mais de três séculos... até aos nossos dias, deveria dizer-se!



Vasquez de Cornado encontrou o Padre Jehan em Cibola, à volta de quatrocentas léguas a norte do México, e Alexandre Humboldt escreveu que se descobriram nessas paragens os restos dos navios do Catai!

PAITITI


Nuno de Guzman, governador da Nova Espanha, reuniu um exército de quatrocentos espanhóis e de vinte mil índios para descobrir Cibola ou Cipora (actual Califórnia), capital do país das Sete Cidades, «onde o ouro era tão abundante como as pedras».

Encontrou sete pobres aldeias

Mas as paixões e a credulidade na religião do vitelo de ouro eram tão fortes que se imaginou uma outra Cibola, desta vez verdadeira!

«Situava-se na província de Tiguer. Um soberano fazia a sesta debaixo de uma grande árvore, na qual tinham posto gui-zinhos de ouro, que o vento, ao agitá-los, fazia tinir docemente. Uma grande águia de ouro ornamentava a proa do navio real...))

Uma nova decepção lançou os conquistadores na pista do «mais belo império», o de Waipite ou Paititi, que, a princípio, se substituiu a Cibola, com a mesma lenda relativa a Manco Capac II, mas que foi situado no Peru, na região banhada pelo Apurimac e pelo Ucayale.

«Era um reino poderoso», escreve Juan de Velasco, «que os Incas tinham fundado, mas esses monarcas depostos sabiam bem esconder-se dos espanhóis, graças a encantamentos fortíssimos. Todas as cabeças de Lima estavam assim preparadas, quando D. Benito de Ribera, religioso de São Francisco, que estivera nas missões de Guanuco, contou que havia ido ao Paititi, de que fazia uma entusiástica descrição. Esse reino possuía milhões de habitantes e lá nada era mais comum do que o ouro.»

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Vários nobres de Lima constituíram um exército à sua conta e puseram-se a caminho, em 1670, sob as ordens do franciscano, à procura do Pai ti ti.



Foi um fiasco, mas a ilusão nem por isso foi destruída!

Em 1681, o padre Juan Lucero afirmou que havia ido a um país, o dos Piros, e que tivera nas mãos ((pratos, crescentes, brincos de argolas e outras jóias de ouro, fabricados pelos índios».

Nestes relatos lendários, incríveis pelos pormenores exagerados e pelas descrições de tesouros fantásticos, encontra-se no entanto um certo fundo de verdade que leva a reflectir.

Este pais dos Piros, de que fala o padre Juan Lucero, muito provavelmente existiu, mas parece que se lhe perdeu a pista.

«O licenciado Montesinos, que recolheu em 1652 as tradições conservadas pelos Amautas, colégio dos padres e dos astrónomos peruanos, conta que a civilização inca, relativamente recente, teria sucedido a um período de barbárie, sendo este precedido pela antiga civilização dos Pyr-Huas (os Piros do padre Lucero), organizada depois do cataclismo dilúvico, e que possuía hieróglifos misteriosos, como todos os povos que tiveram laços com a Atlântida submersa20.»

O país dos Piros era talvez Tiahuanaco (Bolívia), Machu--Pichu, ou uma das cidades encontradas no Altiplano ou para os lados do Amazonas peruano, mas nós pensamos antes nas ruínas de Caballo Muerto (Peru), onde o professor americano Michael Moseley, da Universidade de Hàrvard, descobriu as ruínas de um templo e uma cabeça colossal com mais de três mil anos.

Tais eram, no século xvi e xvii, as cidades perdidas e os mitos que lançaram os aventureiros nas selvas, nos desertos e nas serras onde, a maior parte das vezes, encontraram a morte e não a fortuna.

» Extracto de Um Continente Disparu, VAtlantide, de Roger Dévigne, ed. G. Frè» et Cie, Paris, 1923.

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A FONTE DE JUVENTUDE



Uma outra crença e uma outra terra desconhecida acalentaram os sonhos dos descobridores do Novo Mundo: a fonte de juventude e a ilha de Bimini.

Quando chegaram às Antilhas, os espanhóis ouviram os índios de Cuba e de Haiti contar que ao norte dessas ilhas se encontrava uma fonte, cujas águas possuíam o poder de rejuvenescer quem nela se banhava.

Em 1514, o teólogo protestante Pierre Martyr contava este boato ao Papa Leão X, e acrescentava: «Que Vossa Santidade não pense que são brincadeiras ou palavras no ar.»

O explorador da Florida Lucas Vasquez d'Ayllon conta que o pai do seu criado, já curvado pela velhice, mas desejoso de prolongar a vida, foi à fonte de juventude. Passou vários dias lá, a tomar banhos, a beber a água e os remédios prescritos para a cura.

Regressou a casa e, tendo recuperado as forças, voltou a casar e engendrou filhos.

A fonte foi localizada na Florida, mas sobretudo em Bimini, «poderosa ilha habitada por diversos povos que tinham a pele mais branca do que os de Cuba)).

As mulheres, em particular, ((eram tão belas que os homens da Terra Firme e da Florida iam viver com elas».

Juan Ponce de Léon, ex-governador da ilha de Boriquen, ((armou duas caravelas e partiu à procura da ilha de Boyuca (Bimini?), onde os índios situavam a fonte que transformava os velhos em adolescentes. Entrou em Bimini e descobriu a Florida, em 1512, mas não encontrou a fonte de juventude.

Apesar de tudo, tem interesse notar que a ilha de Bimini, de grande actualidade desde 1970, esconde nos seus fundos marinhos vestígios de uma civilização desaparecida, talvez atlântida, e que os mergulhadores que os descobriram contam que uma fonte de água doce nasce perto dessas ruínas.

A fonte de juventude foi também localizada no Egipto e na índia, onde Alexandre, o Grande, a procurou.

_ Gilgamesh, o herói da mitologia assíria, empreendeu a sua

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viagem ((ao país dos Grandes Antepassados, no extremo do Ocidente», para aí procurar a planta que rejuvenesce os velhos.



O sábio Um-Napishtí (o Noé assírio) revelou-lhe que ela crescia no fundo da água. Gilgamesh, coberto de pedras, mergulhou qual pescador de pérolas e colheu no fundo de uma fonte uma planta, o hishkanú ou sihlú, que seria... o nosso agrião21.

Mas o mais espantoso desta lenda, que, de facto, foi uma aventura vivida, é que Gilgamesh foi procurar esse agrião numa fonte de juventude que, segundo os bons mitologistas, se situava na América e provavelmente na Florida ou em Biminil

É difícil não ser tocado por esta estranha coincidência, tão estranha que, a não duvidar, repousa numa verdade histórica.

Há milhares de anos, a fonte de juventude existia algures em Bimini, e os nossos Antepassados Superiores transmitiram a sua história, que há cinco mil anos era ainda viva e bem pormenorizada.

21 Segundo S. Langdon, The Mythology of ali Races, e G. Contenau, La Magie, ed. Payot, Paris.

CAPÍTULO V

CIVILIZAÇÕES MISTERIOSAS: NA ESCÓCIA, EM FRANÇA, NA SARDENHA, EM MALTA

NÃO sabemos muita coisa acerca dos dólmenes, dos menires, de todos os megálitos que, no entanto e em profusão, encheram e enchem ainda o solo de França.

O nosso conhecimento é extremamente reduzido em relação a tudo quanto diz respeito aos druidas e aos «antepassados dos Franceses, os Gauleses», e continuamos a ignorar quem foi o primeiro rei desse país.

E que sabemos nós da misteriosa civilização que edificou em França, na Escócia e também noutros sítios da Europa os numerosos fortes vitrificados que aí se podem ver?

Claro que não se fala deles nos nossos livros de ((história», e intencionalmente (preferimos não precisar porquê), mas esses castelos vitrificados existem e erguem-se como pontos de interrogação para o homem curioso, para aquele que ousa interessar-se pelo passado da França.

A VINGANÇA DO DEUS AZURIA

Estes fortes são na realidade umas muralhas, geralmente em forma de elipse; foram construídos sobre colinas ou, então, cercam promontórios naturalmente abruptos.

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As paredes, na parte inferior, quer de um lado, quer dos dois, são feitas de pedras graníticas vitrificadas, que apresentam aos arqueólogos um enigma quase insolúvel.



Se as muralhas são protegidas por parapeitos, estes têm também marcas de vitrificação.

Podia, numa primeira análise, pensar-se que tinham sido acesas fogueiras ardentes ao pé das muralhas para fundir o granito de maneira a assegurar uma melhor coesão dos elementos.

A explicação torna-se pouco convincente quando se refere ao interior, que só foi vitrificado quando as faces externas, por vezes com um e dois metros de espessura, são construídas de pedra perfeitamente natural.

Finalmente, verifica-se que são explicações satisfatórias, se pensarmos nos mil e trezentos graus necessários para começar a fusão dos materiais.

O arqueólogo inglês James Anderson, num livro editado em 1777, foi o primeiro, segundo se julga, a ter identificado, na Escócia, uns fortes vitrificados onde — escreve — se pode encontrar uma terra ferruginosa que serviu para untar as pedras; o fogo, sobre essa capa, assegurou a vitrificação!

Charles Hoy Fort, em Le Livre des Damnés, propõe uma tese ainda mais absurda: o deus Azuria, porque os Britânicos não queriam pintar a pele de azul, ((descarregou a sua electricidade sobre todos os fortes, cujas pedras, vitrificadas e fundidas, existem ainda».

Os principais fortes vitrificados da Escócia, são: o Craig Phoedrick, o Ord Hill of Kissock, o Barry Hill e o Castle-Spynie, no Invernesshire, o Top-o-Noth, no condado de Aberdeen, e os montes vitrificados das órcades (ilha Sanday)'.

O CRAIG PHOEDRICK

As duas construções mais típicas são o Craig Phoedrick e o Ord Hill of Kissock, «que se erguem como dois imensos pilares sobre colinas distantes entre si três milhas, e situadas na extre-

1 Existem outros fortes desta natureza na Boémia.

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Planta de um forte vitrificado, com sistema de defesa em arestas



Museu de Guéret. Monte de pedras vitrificadas, provenientes do Forte de Ribandelle

midade do golfo de Moray, perto da cidade de Inverness, de que parecem defender o acesso do lado do mar»2.

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O arqueólogo Jules Marion descreve estas fortificações como uma acrópole regularmente desenhada, cuja parte superior, rebaixada em terraço de forma oval, está no centro cavada em bacia de dois a três metros de profundidade; é parecida com uma cratera de vulcão.



Na base da acrópole, prossegue J. Marion, o contorno inteiro do cabeço está coberto de blocos de granito vitrificado, de dimensões gigantescas e que devem ter feito, de certeza, parte das construções.

Estas dominam a pino o vale de Ness, do lado este, onde a encosta é mais íngreme.

As pedras do forte, de cor escura, são enormes e ligadas por uma argamassa de espessura inigualável, formando o conjunto um aglomerado compacto, muito duro e impossível de separar.

Alguns blocos, que foram sem dúvida submetidos a um fogo particularmente intenso, estão queimados como lavas de vulcão e apresentam, use os partirmos, umas gotas grossas vitrificadas, bastante semelhantes em cor e consistência ao vidro de garrafa» ou a essa espécie de obsidiana, a que se chamava tectites lunares, antes de os cosmonautas terem demonstrado que esta matéria não existia na superfície da Lua!

Não é certo que o Craig Phoedrick e o Ord Hill o/ Kissock tenham sido fortes, e chegou-se a>. pensar que talvez fossem faróis ou postos de observação, datando da época dos Vikings.

Na realidade, não se conhece absolutamente nada do seu destino e da sua origem.

OS FORTES VITRIFICADOS DA CREUSE

Também nada mais se sabe sobre a antiguidade dos fortes vitrificados que se encontram em França, onde já se contaram uma boa dúzia deles.

2 Les Premiers Hommes et les Temps Préhistoríques, ed. C. Masson, Paris, 1831.

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O Forte de Dun Aengus, em Irishmore, ilhas Aran, Irlanda



Objectos enterrados ou retirados das ruínas foram datados do século v, mas pensamos que a construção é várias vezes milenária, como são disso testemunho os manuscritos irlandeses que falam da torre incendiada de Tory.

De resto, as crónicas históricas não deixariam de mencionar estes fortes, se tivessem sido construídos apenas há mil e quinhentos anos.

No entanto, pode verse, no Museu de Guéret, um bloco de granito fundido, cobrindo uma telha de origem romana, o que complica singularmente o mistério.

Os principais fortes vitrificados da França são, na Creuse: em Châteauvieux, na margem oposta da Creuse, em Ribandelle (em frente de Châteauvieux), em Thauron, em Saint-Georges-de--Nigremont; na Bretanha: em Peran, na Vienne, talvez em Thorus, perto de Château-Larcher, onde o que foi um promontório fortificado domina o vale da Clouère (não tendo as ruínas e as muralhas sido ainda escavadas nem recuperadas, é difícil saber se encerram blocos vitrificados, mas a analogia entre

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Thorus e Châteauvieux deixam-no crer); perto de Agentan (Orne); em Sainte-Suzanne (Mayenne).



A muralha de Châteauvieux é de forma oval e tem cento e vinte e oito metros de comprimento axial; o parapeito é um aterro espesso de sete metros na base e três no cimo.

Sobre estas subestruturas foi edificado um muro, com paredes de granito.

((O espaço entre as duas paredes», escreve M. de Nadaillac, «está cheio de uma camada de granito fundido, largura de quatro metros, espessura de sessenta centímetros, repousando sobre um leito de tufo. Não se encontra nenhum traço do emprego de qualquer argamassa, como na Escócia.»

A parte inferior do muro está portanto completamente vitrificada, enquanto as paredes exteriores não o estão.

A antiga fortaleza da Ribandelle-du-Puy-de-Gaudy, que foi ocupada pelos Celtas, e depois sucessivamente pelos Romanos e pelos Visigodos, é de análoga natureza.

Tem um perímetro de mil e quinhentos metros e uma superfície de treze hectares.

O interior dos muros, de granito vitrificado, está separado das paredes por camadas de terra de esteva. A vitrificação é apenas superficial e tem uma espessura de aproximadamente dois centímetros.

Diferentes indícios mostram que a construção estava terminada quando o granito em fusão foi colocado nos muros; ou então a fogueira que os fundiu encontrava-se no interior das paredes.

Outra verificação: a massa vitrificada está dividida em parcelas de mais ou menos três metros de comprimento, como se as operações tivessem sido sucessivas e não realizadas ao mesmo tempo.

Em Thauron, perto de Bourganeuf, as pedras do forte estão por vezes de tal modo cozidas que se tornaram uma espécie de lava. Restos de abóbadas ainda subsistem.

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AS PEDRAS QUEIMADAS



Prosper Merimée escreveu que as muralhas de Péran pareciam ter sido cimentadas com vidro fundido.

O campo de Péran, comuna de Plédran (Côtes-du-Nord), tem cento e trinta e quatro metros de comprimento por cento e dez de largura; chamam-íhe na região As Pedras Queimadas.

Estas pedras não estão ligadas nem por argamassa nem por cimento, mas pela própria fusão, o que é fantástico.

A anterioridade do «campo de Péran» à conquista romana é provada pelas descobertas que se fizeram, as quais demonstraram que a construção dos fortes vitrificados data, pelo menos, de há três mil anos.

Que civilização desconhecida edificou estas fortalezas na França, na Escócia e na Boémia?

Provavelmente a dos Celtas, o que denuncia a traição de certos historiadores e pré-historiadores que, para agradar à Conjura, deliberadamente afastaram, abafaram um povo que sabia, na época-fantasma do bronze, pôr em fusão, a mil e trezentos ou mil e quinhentos graus, uma rocha tão dura como o granito.

O processo da operação é desconhecido, mas pensa-se saber que estes químicos pré-históricos utilizavam soda e potassa para fazer uma espécie de fogo-de-artifício.

É também verdade, mas ainda não se conhece o processo, que os homens de Leinster, da tradição céltica irlandesa, sabiam «construir um muro vermelho». Seria um muro de fogo, ou vitrificado?

Em todo o caso, constituía um tabo intransponível3.

A mesma tradição fala de um fogo druidico de uma extrema potência.

M. de Cessac, que estudou os antigos fortes da Creuse, conseguiu fazer fundir um muro construído com granito e madeira misturados, mas a sua experiência não foi concludente para as grandes superfícies.

3 Jean Markale, VÉpopée Celtique d'Irlande, ed. Payot, Paris.

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A HIPÓTESE DO DRUIDA E. COARER-KALONDAN



No seu apaixonante trabalho Les Celtes et les Extra-T erres-tres4 o druida cego E. Coarer-Kalondan e o ovate Gwezenn Dana dão talvez (2.* parte, cap. VII) a explicação para o mistério dos fortes vitrificados:

Os lança-chamas que incendiaram Tara

Em Dieux et Héros des Celtes, de L. Sjoestedt, fala-se de outra arma científica utilizada nessa época. Todos os anos, na data da solenidade de Saman (1.° de Novembro), aparecia um guerreiro, sozinho, a desafiar a cidade de Tara, na Irlanda. Esse guerreiro, de nome Aillen Mac Neidhna, aproximava-se da cidade aterrorizada e, cuspindo fogo, incendiava um a um todos os bairros.

Finn, o próprio pai de Ossian, pôs fim a este terrorismo com um golpe de lança mortal no incendiário.

Os lança-chamas utilizados no decorrer das duas últimas guerras mundiais dão uma explicação racional do modo como Aillen Mac Neidhna pegava fogo às muralhas e às casas de Tara.

Este episódio tende a demonstrar que os Celtas, pelo seu conhecimento da química, sabiam utilizar líquidos ou gases incendiários.»

Toriniz, a torre vitrificada

A torre da ilha de Toriniz (no extremo norte da Irlanda, no Denegai), hoje ilha Tory, existia ainda no século passado, e os arqueólogos verificaram com surpresa que os-vestígios estavam vitrificados. É possível propor três soluções para o problema:

1. A torre, que pertencia aos Formoré, foi atomizada pelos Tuatha5, no fim da segunda batalha de Mag Tured. O enorme

4 Les Celtes et les Extra-Terrestres, ed. Le Marabout (col. Univers Secrets), 65, Rue de Limbourg, B 4800, Verviers, Bélgica.

5 Os Tuatha Danann eram um povo misterioso, perito em magia, que tinha invadido a Manda. Vinham do Pais dos Tertres, situado «para além do mar das Tormentas». Foram os Iniciadores dos Celtas, há cerca de quatro mil anos.

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calor libertado pelas suas armas científicas (lança-chamas, ou nuvens atómicas) vitrificou o granito da fortaleza.



2. A torre tinha sido revestida por uma matéria isolante vítrea, que a protegia contra as radiações de armas ofensivas...

3. Só a base da construção está construída em duro. Por cima de um rodapé de granito ergue-se o corpo da torre, composto inteiramente de matéria vitrificada. Um grande incêndio, uma atomização ou o emprego da energia solar pode fornecer uma explicação do fenómeno.

Tal é o mistério dos fortes vitrificados da França, da Escócia e da civilização—provavelmente céltica—que os edificou, talvez para intrigar os arqueólogos do século xx, caso eles se possam interessar pelo nosso património ancestral.

OS BROCHS

Os brochs da Escócia, nas ilhas Shetland e nas Órcadés, são construções de pedra seca, com a forma de dedais gigantes, nos quais se entra por um corredor comprido e estreito.

Pensou-se que estas habitações, de difícil acesso, haviam servido aos ilhéus para se defenderem das incursões dos Vikings, no século xi.

É mais plausível a tese que os remonta às primeiras migrações dos Celtas no Ocidente, a dos Pictos (e dos Píctões de Poitou), mas não temos qualquer certeza a esse respeito.

Os Pictos ocupavam a Escócia há quatro mil anos, pelo menos, e talvez se lhes deva referir a civilização das ilhas de Shetland e das Órcades.

Os brochs têm geralmente uma muralha idêntica à dos fortes vitrificados de Dun Aengus.

DUN AENGUS

Construído sobre uma falésia a pique, dominando o oceano do alto de sessenta metros, Dun Aengus, nas ilhas Aran, a oeste

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da Irlanda6, é um dos mais belos e dos mais enigmáticos fortes da Europa Ocidental.



Há três muralhas de defesa, de forma semicircular, sendo a mais pequena no interior e tendo um caminho de ronda e salas de habitação.

Fora do forte, o solo está salpicado por um caos de pedras grandes levantadas — cavalos de friso — destinadas a tornar o acesso difícil e perigoso a um eventual invasor.

O arqueólogo Peter Harbinson7, que é um especialista, calcula que Dun Aengus data de alguns séculos antes da nossa era, mas que foi utilizado como bastião até ao século xvn.

Uma tradição atribui aos Firbolgs8, povo pré-céltico da epopeia irlandesa, a construção desta estranha «Babilónia», que talvez não fosse há três mil anos como nós hoje a vimos.

Pensa-se, efectivamente, que a erosão do oceano ou um desabamento da falésia tenham conseguido levar metade das fortificações.

Outras teses, mais arrojadas, indicam que Dun Aengus poderia ter sido uma escala fenícia na rota do estanho — mas sendo assim, porquê uma fortaleza? —ou então um sistema de defesa dos antigos povos da Irlanda contra os seus poderosos vizinhos... os Atlantes!

É sem dúvida ir muito longe em conjecturas, mas, referin-do-nos à mitologia céltica, pode pensar-se que o forte inclinado sobre «o mar ocidental», o Oceano Tenebroso dos Antigos, constituía um posto de vigia e de defesa contra os Tuatha Danann, que invadiram a Irlanda para aí levar a sua civilização e quebrar a hegemonia dos gigantes Fomorés.

4 Dun Aengus fica em Innishmore, uma das três ilhas de Aran, em frente de Galway (Irlanda).

7 Peter Harbinson, Guide lo the National Monuments of Ireland, ed. Gill e Macmillan, Dublin.

• Os Firbolgs, ou Homens Bolgs, segundo o Livres des Invasions, invadiram a Irlanda por volta de 2400 a. C. Não se sabe donde vinham.

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A VÉNUS DE QUINIPILY



O antigo Castelo de Quinipily erguia-se na comuna de Baud (Morbihan), não longe do rio Evel, e a quatro quilómetros da margem esquerda do Blavet.

Era a residência senhorial dos senhores de Langouéouez, uma estranha família de que seria interessante conhecer a história, pois parece estar na origem conhecida das atribulações da Vénus de Quinipily.

Esta Vénus está agora no pátio do castelo, mas não se parece nada já com o que outrora era, pois foi retalhada, profanada, cristianizada por mãos sacrílegas.

A propriedade passou, no século xv, para a casa de Lannion, e depois para os Rochefoucauld-Liancourt.

Curioso castelo este de Quinipily, talvez antes museu da estatuária arcaica, talvez ainda templo secreto da religião gaulesa durante as perseguições do cristianismo...

Duas cariátides provenientes de uma chaminé foram noutros tempos transportadas para a aldeia vizinha de Botcoet; representavam, diz-se, uns Hércules gauleses, ou o deus iniciador Ogmios9.

Mas ainda mais extraordinário era a estátua «cuja origem excitou a atenção do mundo conhecedor».

Estava grosseiramente esculpida em pedra e, segundo alguns arqueólogos, representava uma deusa gaulesa; para outros, era uma figura romana ou uma ísis10.

Até ao século xvn, manteve-se no cimo da «montanha» do Castennec, situada a norte de Baud.

' Estas cariátides ornam agora a entrada do castelo de Plessis (Ille-et--Vilaine).

10 Para alguns esta estátua tem um vago perfil egípcio. Conta uma lenda «que os soldados mouros (?) da ocupação romana a colocaram no monte Castennec». Trata-se, sem qualquer dúvida, de uma deusa gaulesa; Baud, cuja etimologia lembra o deus céltico Belin, Balin, Bélinus, era certamente, há dois mil anos, um importante local sagrado.

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A FEITICEIRA DA GUARDA



A estátua tinha então um nome gaulês: Groach en Gouard (a Feiticeira da Guarda); era objecto da veneração geral e representava o papel atribuído por Francis Mazière u aos gigantes da ilha de Páscoa: irradiar o mana (saúde, poder, felicidade) sobre a região e arredores.

Em reconhecimento dos seus bons serviços, que eram reais, os camponeses levavam-lhes oferendas de trigo e flores, em ex voto.

Aos pés da Groach en Gouard havia uma grande piscina talhada na massa de um bloco de granito e que, milagrosamente, estava sempre cheia de água.

As mulheres, depois dos partos, vinham aí tomar banho, o que lhes assegurava um bom restabelecimento e um tónus maravilhoso. Finalmente, reportando-se sem dúvida a uma tradição muito antiga, jovens namorados da região vinham celebrar aos pés da estátua um ritual erótico bem preciso.

Tinham então a certeza de se casar durante todo esse ano!

Em 1661, uns missionários de passagem por Baud «vieram pedir a Claude de Lannion, castelão de Quinipily, para usar a sua autoridade e fazer cessar aqueles escândalos imorais e ridículos» !

A religião era então todo-poderosa e era altamente louvável destruir os manuscritos e os monumentos legados pelos antepassados celto-gauleses, para que não aparecesse a filiação à Palestina que a Conjura impunha.

A Feiticeira da Guarda foi lançada ao Blavet na presença das autoridades civis e religiosas; o cura pronunciou uma oração e assegurou aos fiéis, que vieram em massa assistir ao sacrilégio, que «Jesus, nosso Senhor, e sua veneranda Mãe, a Virgem Maria» estavam tão contentes com aquele ((acto piedoso» que para o futuro toda a região gozaria de uma bênção particular: ((As crianças nasceriam sãs e fortes, as colheitas seriam abundantes e o tempo favorável a qualquer empreendimento.»

11 Francis Mazière, Fantástica Ilha de Páscoa, ed. Livraria Bertrand, Lisboa.

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A Vénus de Quinipily, em Baud, Morbihan, nio era uma fsú gaulesa, mas sim uma Mater céltica



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O estranho monumento erigido por Pierre de Lannion em honra

da Mater de Quinipily. Em baixo vê-se a grande piscina onde as

parturientes vinham banhar-se

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A MATER GAULESA CONTRA A VIRGEM SANTA



Os camponeses voltaram para casa, vagamente atormentados no seu subconsciente, como se tivessem queimado uma santa, ou mais exactamente «afogado o seu anjo da guarda».

Missionários e padres fizeram uma grande festa, entoaram hinos à glória do Todo-Poderoso e blasfemaram contra a ((abominável feiticeira, tanto luxuriosa como causadora de más sortes».

Foi mesmo decidido que uma estátua da Santíssima Virgem substituiria, em curto prazo, a da Groach!

Pois bem, as coisas não se passaram de todo como o cura tinha dito e como o Menino Jesus e a veneranda mãe haviam prometido!

A estátua de pedra estava sem dúvida carregada de mana, talvez representasse mesmo a autêntica Rainha do céu, protectora dos homens, porque alguns dias depois da sua queda no Blavet começou a chover, a chover torrencialmente, a chover como nunca mais se vira depois do Dilúvio, e todas as colheitas boas desapareceram num caudal de água e lamal

Os camponeses, furiosos e compreendendo enfim a partida que o cura, Jesus e Maria lhes tinham pregado, foram rapidamente tirar a estátua das águas e recolocaram-na na ((montanha» do Castennec12.

O bom tempo voltou imediatamente e umas almas más murmuraram por todo o lado que ((a boa Groach gaulesa havia ultrapassado a Sagrada Família»!

Tendo a religião sido assim posta em causa, o assunto deu que falar, suscitou uma emoção considerável e a polícia real procurou os criminosos blasfemos e mentirosos que ousavam manter a glória da deusa bretã e vituperar contra a gloriosa Virgem e seu Filho-Deus!

12 Segundo Cahiers du Pays de Baud, dir. Henri Maho, La Madeleine, 56150 Baud, tel. 25-14-54, a estátua foi simplesmente içada para a margem. Embora mutilada, continuava a atrair os fiéis da região. Manteve-se aí de 1560 a 1664 e as colheitas dos camponeses foram particularmente más durante esses quatro anos.

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Foram presos alguns, espancados e deixados como mortos no chão; o cura voltou de novo a entoar hinos à glória do Misericordioso, e em seguida Claude de Lannion mandou novamente atirar a estátua para o fundo do rio e a ordem — à falta da justiça — reinou no bom país de Baud13.



UMA GROACH INDECENTE

Em 1696, Pierre de Lannion, tendo herdado os bens de seu pai mas não o seu carácter sectário, retirou a Groach do Belevet e mandou-a para o Castelo de Quinipily, «como sendo uma peça curiosa e antiga».

De novo, a Igreja encarou mal o assunto.

«O que aconteceria à fé nos nossos campos e à confiança em Nosso Senhor se uma estátua pagã troçasse impunemente do seu poder e do seu justo direito?», disse o cura ao castelão.

E desta vez, o crime foi inteiramente consumado: Pierre de Lannion — sem dúvida contrariado — mandou retalhar a estátua «e retirar tudo o que ela tinha de indecente na sua forma».

Desapareceu do domínio público e, pouco a pouco, o culto do ídolo entrou no esquecimento.

Hoje em dia, levantam-se questões sobre a identidade da Vénus de Quinipily e sobre «o que ela possuía de indecente na sua forma».

Talvez, como as Mater da época pré-históricaw, tivesse o púbis inchado, visível, mas pensamos que devia ser monstruosamente grávida, tendo ainda outro pormenor que motivava a virtuosa indignação dos bons missionários.

O que quer que fosse, representava com certeza a Mater, mãe da humanidade, ou, menos provavelmente, uma ísis céltica.

Actualmente, a estátua está no alto de um monumento de cinco metros, de fachada romana, onde sai uma goteira que

13 Em 1670, na sequência de uma nova intervenção episcopal, a estátua, voltou a ser lançada ao Blavet (Cahiers du Pays de Baud).

" As Vénus pré-históricas, as de Lespugne, de Kostienki (U. R. S. S.), de Laussel, de Willendorf (Áustria), etc, tinham todas seios, ventre e nádegas enormes e Um púbis desenvolvido.

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outrora servia de conduta de água de uma fonte. Esta água ia então dar a uma grande taça de pedra talhada, com um metro e meio de altura, dois e meio de comprimento e dois (aproximadamente) de largura, que era a piscina, hoje vazia, onde vinham banhar-se as mulheres depois do parto.



A Vénus mede dois metros e vinte de altura e tem os braços cruzados por baixo dos seios. O todo é de uma execução bastante grosseira.

A ((restauração» por que a fez passar Pierre de Lannion não deixa adivinhar nada da sua forma original. Uma espécie de lenço parte do pescoço e desce até à altura das ancas, tapando o ventre e o sexo.

Na tira que cinge a fronte do ídolo, três letras enigmáticas desafiam a perspicácia dos investigadores: L. I. T.

Sugere-se sem certeza: Lux Initiatrix Terrae (Luz da Iniciação aos Mundos Desconhecidos).

Estas iniciais foram possivelmente gravadas quando a retalharam.

Inscrições em latim, meio apagadas e difíceis de traduzir, estão gravadas à volta do pedestal.

A Vénus céltica ou gaulesa de Quinipily guarda o seu segredo, mágica, impenetrável, junto da fonte estragada que já não murmura, mas diz-se que, actualmente, continuam a acontecer milagres por sua intercessão.

A CIVILIZAÇÃO DOS NURAJES

Ainda que a nossa tese seja consideravelmente diferente da dos arqueólogos clássicos, pensamos que um povo pré-céltico emigrou outrora das altas montanhas do Irão em direcção ao continente ocidental e ao oceano Atlântico.

Chamamos a este povo ariano, mas pode acontecer que tivesse outro nome que não nos chegou.

Estes arianos, que formaram o ramo principal dos Celtas, foram procurar a mãe-pátria desaparecida, a Atlântida, desde a Irlanda até ao Senegal, espalhando pelo seu caminho megálitos e construções cada vez mais elaboradas, à medida que avança-

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vam no tempo e nas regiões onde juntavam os seus conhecimentos aos de outros povos escapados ao Dilúvio.



Poderia ser assim, em resumo, a proto-história dos nossos antepassados.

Com efeito, encontra-se uma nítida filiação dos megálitos grosseiros de Stonehenge aos de Carnac, e depois à civilização já mais requintada de Filitosa (Córsega).

Da Córsega, os Arianos-Celtas feitos navegadores — os Pélagos—-passaram à Itália, Sardenha, Grécia, Malta, Fenícia, onde a sua civilização iria cristalizar-se e estender-se a toda a bacia do Mediterrâneo.

Na Sardenha, fixaram etnias e desenvolveram uma arte ainda primária, de que há importantes vestígios, sobretudo em Barumini.

Os construtores de Barumini chamam-se terreiros, em razão da forma circular que deram às suas habitações e fortalezas, e diz-se da sua civilização que é dos nurajes.

Neste passado, parcialmente mítico, a Península Itálica estava ainda no estado, bárbaro, como parece que de resto todo o mundo ocidental.

A civilização dos nurajes, bastante mal conhecida, teria começado há três mil e quinhentos anos, e continuado sob os domínios púnico e romano, mas pensamos que é muito mais antiga.

As construções de Barumini comportam um imponente sistema de defesa com fortalezas de quatro torres, ligadas por fortes muralhas. Este sistema está rodeado por uma segunda muralha cheia de torres, formando o todo um labirinto de múltiplos obstáculos.

As paredes são feitas de enormes blocos não cimentados, bastante parecidos com os de SacSahuaman, no Peru, e de Dun Aengus, na Escócia.

UM TEMPLO EM FORMA DE MÃO

Os maiores locais pré-históricos da Europa não são nem em Carnac nem em Stonehenge, como geralmente se pensa, mas na

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ilha de Malta—e na vizinha ilha de Gozo—, onde se podem admirar conjuntos megalíticos sem rivais no mundo15.



Estas cidades são, é claro, conhecidas dos especialistas da Pré-História, mas o seu mistério não foi por isso divulgado ou alterado.

Nada se sabe, oficialmente, dos povos que construíram estas cidades megalíticas que têm nomes de consonância árabe: Hagar--Qim, Mnajdra, Ghar Dalam, Ggantija, ou que foram baptizados pelos Greco-Latinos: Tarxiano Hypogeum, etc.

Vemos, no entanto, aí uma sequência natural e mais estilizada das construções célticas do Norte e das nurajes da Sardenha 16.

Um dos templos mais importantes: Hagar-Qim, a dez quilómetros de La Valetta, é uma espécie de Stonehenge de pedra calcária que, da mesma maneira que em Burumini, está construído em labirinto, com salas interiores ovais em vez de redondas.

Hagar-Qim (ou Hadjar-Qim) significa Pedras do Culto ou Pedras Erigidas; algumas chegam a ter cinco metros de altura (o bloco maior está em Ggantija: 5 x 8 x 4m).

«É um templo de céu aberto para receber os raios do Sol, da Lua e dos astros», escreve Émile Isambert17, «e a oração devia erguer-se até às divindades sem a interposição de uma abóbada.»

Os arqueólogos, contudo, pensam que os templos malteses eram cobertos por pedra, um pouco como as bories da Provença.

Em inclinação, o plano de Hagar-Qim representa uma espécie

15 No tempo dos Fenícios, Malta chamava-se Ogygie. Com os Gregos passou a ser Melitê, e a ilha de Gozo Gaulos. É a ilha de Calipso, descrita na Odisseia; Calipso era rainha de Ogygie.

16 Na Irlanda, na Inglaterra, na Bretanha, em Filitosa, na Sardenha e em Malta (e também na Fenícia), encontram-se muitos denominadores comuns que parecem querer atestar uma comunidade de origem: lajes gravadas de cúpulas e espirais, megálitos, construções em forma de torres na Sardenha e em Malta, túmulos, culto da Mater, etc. Além disso, é certo que os povos do megalítico eram navegadores, qualidade que foi transmitida em alto grau aos seus descendentes ou primos: os Celtas. O escritor Paul Almasy, nosso amigo, escreveu no Courrier de 1'Unesco que as faianças mais antigas de Malta apresentam uma grande semelhança com as de Stentinello, junto de Siracusa.

17 Emile Isambert, Orient, Malte, Egypte, ed. Hachette, Paris, 1881.

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de trevo ou de mão, mas a primeira impressão, vendo-se os trílitos e as pedras erguidas, é que se está diante de um Stone-henge um pouco mais perfeito que o de Inglaterra.



No curso das escavações, encontraram-se sete estátuas de seres obesos que certos arqueólogos pensaram poder identificar aos Sete Cabírias ou Sete Poderosos.

No interior do templo, pode ver-se, ao acaso dos labirintos, «buracos de oráculos)) de que mais adiante falaremos, e uma laje sagrada incrustada, com muitas cúpulas e duas espirais gravadas em relevo, no meio das quais se reconhece um omphalos (ovo sagrado).

O degrau da laje é um «local sagrado» onde o sacerdote e a sacerdotisa celebravam.

Hagar-Qim estava primeiramente num tumulus, com as absides cobertas de abóbadas com galerias e os corredores protegidos por compridas lajes horizontais. Este estilo filiaria pois os monumentos de Malta nos dos países tipicamente célticos.

O HIPOGEU DE HAL-SAFLIENI

Em 1902, quando construíam um prédio, os operários descobriram em Paola, a três quilómetros de La Valetta, o hipogeu de Hal-Saflieni, vasta série subterrânea de grutas, de alamedas e de câmaras, reproduzindo em três andares as principais características dos templos aéreos.

O plano deste hipogeu é curioso: se o de Hagar-Qim tem a forma de uma mão, este de Paola ((representa a construção ideal do homem, tal como os esoteristas a concebem, ou seja, com um eixo de sete centros: sexual, motor, instintivo, emocional normal, emocional superior, intelectual normal, intelectual superior»18.

A. Hubert-Bonnal, que estudou o simbolismo de Malta, vê na orientação geral deste hipogeu «o processo evolutivo humano, do tipo terreno ao do equilíbrio perfeito».

Não hesita, em conclusão, em descobrir aí o seio de uma

Segundo um estudo de A. Hubert-Bonnal.

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O hipogeu de Malta é



um vasto labirinto subterrâneo preparado por um povo misterioso para albergar as pitonisas

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civilização espiritual, com uma elevada concepção das leis do cosmo.



Com efeito, o plano de Hal Saflieni tem uma forma humana, com uma cabeça, um busto, um corpo, duas pernas e um sexo masculino nitidamente desenhado.

A sala maior, no nível superior, devia representar o nãos (santo dos santos) com mesa para os sacrifícios (de animais).

No nível mais baixo, a doze metros de profundidade, o último degrau da escada deste labirinto mede dois metros de altura. Talvez servisse para defender o tesouro, ou então dava para uma reserva de água, o que é mais provável.

A antiguidade deste hipogeu, segundo Maurice Deribére19, remontaria a alguns seis mil anos.

Encontraram-se aproximadamente sete mil corpos que foram incinerados, mas esta função do hipogeu seria muito tardia.

UMA CENTRAL DE ESTEREOFONIA COM SEIS MIL ANOS

Ainda mais misteriosa, mais cheia de esoterismo que as civilizações de Stonehenge, de Barumini, de Machu-Pichu e de Chichen Itza, a de Malta, ilha sagrada, parece ter tido o culto de uma estranha Mater, mais obesa ainda que as Mater das épocas da Pré-História.

As escavações permitiram exumar estátuas, todas sem cabeças, representando, pensa-se, mulheres na sua maioria sem seios.

Estes mastodontes de carne, quase tão largas como altas, têm os braços cruzados debaixo do peito, como a Vénus de Qui-nipily, ou têm só um braço assim e o outro descaído sobre a anca.

Christia Sylfx chama-lhes «as Enormes» e admira-se de que

" Revista Découvertes, n.° 16, 14, Rue Pasquier, Paris, 8.°. 20 Christia Sylf, Kobor Tigant (1969) e Le Régne de Ta, crónica dos gigantes (1971), ed. Robert Laffont, Paris.

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não ostentem os sumptuosos e amamentadores peitos que são a marca lógica e o apanágio «das antigas mulheres».



<(Será que se tratava», escreve Sylf, «de uma casta de grandes sensitivos, especialmente tratados, de eunucos, de castrados, não reprodutores, evidentemente, mas com as características lunares dos médiuns, cuja feminilidade forçada, exagerada, permitia a obtenção de faculdades captadoras paranormais?»

Não se deve, pois, pensar que se trata de Mater, mas sim de criaturas quase assexuadas, condicionadas no seu psiquismo e no seu físico para um objectivo religioso particular.

Ora este objectivo toma-se evidente quando se estuda a arquitectura do labirinto do hipogeu.

Tudo aí foi arranjado para responder a leis de acústica admiravelmente compreendidas.

As vozes, os sons emitidos numa sala, são dirigidos por reflexos cientificamente estudados até uma câmara de eco, amplificando-se nas cavidades rectangulares, cujo tecto e paredes foram cuidadosamente aplainados, mas passando também por aberturas ovais ou quadrangulares análogas às câmaras de ressonância.

Numa parede, a um nível ligeiramente mais elevado, uma outra janela oval tem uns lados côncavos, onde figuram três discos pintados a ocre vermelho.

Se Um homem, de voz grave, falar por essa abertura, as palavras que pronuncia são repercutidas de um modo particularmente impressionante21.

Pensa-se que outrora as Mater sem seios, invisíveis, escondidas na sala emissora, escutavam as perguntas feitas pelos padres e respondiam de maneira tão cavernosa, tão forte e aparentemente tão desumana que os fiéis acreditavam estar a ouvir a voz dos próprios deuses.

Numa parede desta sala emissora, perto do tecto, desco-briu-se uma pequena conduta talhada na pedra e cujo papel era transportar por um segundo canal as palavras divinas, o que produzia um efeito de estereofonia.

21 A voz feminina normal ou, de um modo geral, as vozes agudas, não são repercutidas pelo jogo acústico.

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O buraco do oráculo estereofónico de Hal Saflieni, Malta



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Para concluir, as salas, as antecâmaras, os corredores do hipo-geu foram concebidos por um arquitecto competente, para servirem de estúdio de emissão, de reflexão e de escuta.



«AS ENORMES»

Estas verificações, fazendo compreender o papel do templo permitem também imaginar a natureza de «as Enormes».

Eram provavelmente pitonisas encarregadas de dar oráculos. Viviam nas câmaras subterrâneas, não vendo nunca a luz do dia e ficando, pela inacção em que viviam, obesas ao ponto de não conseguirem andar.

As estátuas representam-nas sem seios porque eram sem dúvida castradas, como pensa Sylf, e condicionadas psiquicamente para cultivar os dons inatos da vidência e de percepções paranormais que tinham levado os padres a escolhê-las.

Então, «as Enormes» engordavam, desenvolviam o seu terceiro olho, adquiriam pelo efeito da castração a voz máscula indispensável para entrar no jogo da ilusão, mas com certeza sem que se soubesse.

Oficiavam em Hagar-Qim, em Mnajdra, onde o «buraco do oráculo» ainda é visível, bem recortado através de uma espessa pedra, em todos os templos de Gozo e de Malta, mas é certo que o oráculo de Hal Saflieni tinha uma fama especial devido à magistral trapaça que aí se fazia!

A multidão dos fiéis acreditava que os deuses, ali, falavam realmente e ouvia-se o som vibrante e enorme da sua voz!

A MÁQUINA DE RESSUSCITAR OS MORTOS

Em todas as religiões, quanto maior é o logro, melhor os fiéis o engolem.

Mais curioso é o fenómeno de massas que funciona desenvolvendo efeitos positivos.

Claro que nunca se produziu milagre algum em Lourdes, nunca um dedo cortado cresceu, um centímetro sequer, mas,

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Uma «Enorme», sem cabeça, do hipogeu de Paola, Malta



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nessa imensa capital da devoção, a fé suscitou curas quase inesperadas, que, desonestamente interpretadas, foram classificadas como «milagrosas».

Era o que se passava em Malta, sobretudo em Hal Saflieni; era o que se passava em Delfos, em Delos, em Dodona, onde a floresta de carvalhos rugia através de chocalhos de bronze... e da fraude dos padres.

Era o que se passava nos templos do Egipto, cujas portas se fechavam ao som da voz, onde as estátuas subiam no ar como por magia, onde o fogo se acendia «sozinho» na cratera divina...

O Oráculo dos Mortos do Aqueiron, ou nekyomantéion, -de que Homero e Hesíodo falaram e que foi um dos mais célebres da Antiguidade, acaba de fornecer a chave do seu enigma, a prova material da impostura das religiões antigas.

Localizou-se o sítio no antigo Epiro dos Gregos (defronte de Corfu), junto das aldeias geminadas de Kastri-Mesopotamos e do antigo rio Aqueiron, o qual, na verdade, é uma ribeira de águas turvas mas calmas.

Os filósofos, os tiranos, os príncipes, os reis iam ao nekyomantéion consultar os fantasmas de mortos familiares, que julgavam ver e de quem ouviam as vozes.

O escritor e arqueólogo Henry N. Ignatieff, que estudou o fenómeno e assistiu às escavações feitas desde 1961 pelo professor Dadakis, revelou os assustadores truques levados a cabo para enganar o crente supersticioso.

Este era submetido a uns ritos e a um condicionamento que o punham ofegante, falho de forças e de sentido crítico, e assim ia até à sala das aparições.

Depois de se ter fustigado, depois de ter errado por labirintos intermináveis, à luz trémula de tochas, depois de ter bebido drogas alucinogéneas (o nepenthés), o paciente estava preparado para ver os fantasmas e ouvir-lhes as palavras!

Ora não se tratava de alucinações, ou, pelo menos, não o eram completamente: saíam mesmo fantasmas das trevas do Inferno e ouviam-se vozes sepulcrais, mas discerníveis para as orelhas do suplicante!

Essas vozes eram dos padres, escondidos numa cripta debaixo da sala de encantamento; quanto aos fantasmas, eram o resultado

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No nekyomantéion do Aqueiron, em Epiro, o arqueólogo Dadakis descobriu a máquina de ressuscitar os mortos dos antigos sacerdotes gregos de um engenhoso sistema de projecção cinematográfica que o professor Dadakis descobriu numa sala secreta, contígua à das aparições.



O aparelho consistia numa espécie de torniquete com pás de bronze de múltiplas engrenagens, tendo um eixo que atravessava a parede e uma manivela accionada à mão.

Henry N. Ignatieff pensa que este aparelho projectava num écran fumo, sombras — e talvez imagens grosseiras — por um complexo jogo de lâmpadas de luzes coloridas.

O mecanismo encontrado estava evidentemente desconjuntado e fora de uso, mas as peças de bronze, ainda intactas, permitem reconstituir o conjunto.

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Esta máquina de magia tinha iludido e feito tremer as multidões durante perto de dois mil anos! No entanto, não é de se pensar que todos os sacerdotes são trapaceiros, que todas as pítias, que todas as sibilas divagam ao som de uma bolsa cheia de moedas de ouro!

O transe, a vidência, a inspiração natural, sobrenatural ou com a ajuda de drogas alucinogéneas, têm muito certamente o poder de fazer penetrar um médium sensível num espaço-tempo que não pertence ao nosso universo.

A MATER DE CABEÇA SUBSTITUÍVEL

Eis pois o mistério do hipogeu de Malta, que estaria esclarecido se não se tivesse encontrado, além de «as Enormes», uma Mater tão obesa como as outras, mas que se diferenciava nitidamente delas pelos seios proeminentes e pela sua pose deitada.

Neste caso, trata-se bem de uma Mater e há lugar para pensar que, paralelamente ao condicionamento das virgens-orá-culos, os sacerdotes educavam, nas células subterrâneas de Hal Saflieni, mulheres destinadas a dar à luz, talvez os futuros encarregados do culto...

((As Enormes» não têm cabeça, mas sabe-se que se lhes podia adaptar uma de madeira, fixada por um tubo de ferro. De resto, no colo das estátuas, há um orifício previsto para esse uso.

As virgens-oráculos eram sem dúvida deificadas, faziam-se--lhes estátuas, mas mantinha-se sempre o corpo de pedra, enquanto as cabeças eram substituíveis.

A NAZCA DE MALTA

No Sudoeste de Malta, nas regiões das falésias de Dingli, descobriu-se um estranho sítio que, por alguns lados, lembra as

22 Acontecia mais ou menos a mesma coisa com os oráculos: em Delfos, a pítia era magnetizada pelos padres ou paga pelos notáveis; em Mileto a ((fonte sagrada» tinha um murmurar inteligentemente interpretado; em Claros, as vozes que saíam do poço nada tinham de divino; a sibila de Cumes actuava exactamente como os sacerdotes do nekyomantéion.

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pistas da Nazca. Na rocha, que constitui o substrato da ilha, vêem-se profundos sulcos paralelos, com uma distância aproximada de um metro e quarenta, que se dirigem para o mar, onde parecem querer perder-se.



«Tratar-se-á de traços feitos por carroças ou antigos caminhos para transporte?», pergunta Maurice Dériberé.

Estas pistas formam uma verdadeira rede de vias que se cruzam e se dividem por meio de inúmeras agulhas e que vão dar a outras direcções.

Os lugares de concentração são: junto de San Pawl Tat--Targa, em Bengemna, em Bahrija, em Buskett, em Dingli.

Estas vias misteriosas sugeriram a existência, numa alta Antiguidade, de uma junção, quer terrestre, quer submarina, com a Sicília ou, melhor ainda, com a Tunísia e a Líbia.

A tese é na verdade arrojada, mas essas estradas pareciam-se talvez com um percurso aéreo, há quatro ou cinco milénios, antes do desmoronamento, no Mediterrâneo, do império do rei Minos.

Como se pode ver, estas civilizações misteriosas de Malta nada têm a invejar as da Atlântida e as do sertão brasileiro.

O MISTERIOSO DESCONHECIDO

CAPÍTULO VI A MAGIA E CRISTÓVÃO COLOMBO

A História, com maiúscula, de que os livros clássicos, os jornais e a televisão dão uma imagem intencionalmente deformada, pode contudo ser parcialmente apreendida através dos escritores ditos heréticos e dos livros ditos apócrifos.

É o caso da vinda dos «anjos» da Génese, que se encontra exposta em nove linhas na Bíblia... e em cento e cinco capítulos no Livro de Enoch I

É o caso da maior parte dos grandes acontecimentos de característica política: o medo do ano mil, as Cruzadas, a Revolução de 1789, a guerra de 1940-1945; é o caso da prodigiosa aventura que teve Cristóvão Colombo por herói.

E quantos livros se escreveram sobre Colombo! Era de crer que tudo o que tivesse a ver com a sua pessoa física e moral, as suas ambições, os seus desígnios e os seus sucessos houvesse já sido dito e redito!

E de repente eis que, à semelhança de Galileu em 1633, um verdadeiro historiador, Salvador de Madariaga, lançava um fósforo ao mar da palha e fazia imprimir, primeiro em Inglaterra, e depois em França, a verdadeira história de Cristóvão Colombo.

Uma história de cortar o fôlego aos sicários da Conjura, que não deixaram de organizar uma espécie de black-out sobre o livro herético.

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A aventura de Galileu recomeçava em 1968.



Salvador de Madariaga merecia largamente a sorte que lhe desejaram — a fogueira — pela simples razão de ter tido a audácia de expor uma tese contrária à dos historiadores conceituados'.

O PARAÍSO TERRESTRE

Segundo Madariaga, Colombo, ou Cólon, teria dito a Frei Juan Pérez que já tinha ido às índias Ocidentais, cuja rota marítima lhe havia sido revelada por um piloto desconhecido.

No século xv, os aventureiros e os poetas sonhavam com ilhas fabulosas: Antília ou as Sete Cidades, São Brandão, a Mano Satanaxia, etc, que situavam no mar Tenebroso, muito para lá das colunas de Hércules2.

Chamavam-lhes ilhas Afortunadas e muitos ocidentais, entre os quais Cristóvão Colombo, pensavam que eram o paraíso terrestre da Bíblia e também... o receptáculo de prodigiosas gemas e de pepitas de ouro não menos sedutoras.

Estava se na época do Livre des Merveilles, de Jean de Man-deville, que inflamava as imaginações contando que existiam por esse mundo homens sem cabeça, diabos escondidos em montanhas, que vomitavam o fogo pelas goelas, monstros com asas

1 É claro que os ((críticos» honestos desinteressados da ORTF e da grande Imprensa «esqueceram-se» de talar do livro de Madariaga!

2 Em 743, um arcebispo do Porto, seis bispos e alguns fiéis, com os seus bens, fugiram de Espanha, invadida pelos Mouros, e aportaram à ilha das Sete Cidades, também chamada Anlilia ou Sete Ribade. Diz a crónica: Vévêque qui estoit gran der sçavanl 1'art de nigromansce, encanta les dites isles et que jamais ne s'' apparoistroient à personne tant que tuittes les Espaigncs ne seroient réunises à nostre bonne foy catholique (Fouché-Delbose). O geógrafo árabe El Edrisi, no século xi, tinha escrito na sua Description de VAfrique et de VEspagne: ((De Lisboa partiu a expedição dos aventureiros, que tinham por missão descobrir os segredos e os limites do oceano... Depois de onze dias de navegação, chegaram a um mar, cujas espessas águas exalavam um cheiro fétido... Em seguida navegaram para o sul durante doze dias e chegaram à ilha dos Carneiros, de carne amarga e incomível. Continuando para sul durante mais doze dias, aportaram a uma grande cidade onde viram homens nus, de alta estatura, com a pele vermelha, o corpo coberto de pêlos e com cabelos lisos e compridos. As mulheres eram extremamente belas.»

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suficientemente fortes para erguerem um elefante nas suas garras, mares tropicais tão quentes que coziam vivos os peixes.



Acreditaria Colombo nestes sonhos e nestas histórias?

Ninguém seria capaz de dizer até que ponto ele era vítima da grande ilusão das ilhas atlânticas, mas, incontestavelmente, esperava encontrar nas índias do Ocidente aquilo que para ele mais importava: o ouro, as pedras preciosas e a glória.

Talvez acreditasse também na existência desse paraíso terrestre ocidental, que as mitologias do Egipto, da Irlanda e do país de Sind davam por certo.

Escreveu que a Terra não era redonda, mas sim em forma de pêra, e que tinha, num dos lados, um alto com a forma de um seio de mulher.

A ponta desse seio, situada na zona equatorial, era a parte mais próxima do céu, e Colombo pensava que aí deveria ser o Paraíso descrito na Génese.

«Não é possível a ninguém atingir esse Paraíso terrestre, salvo por vontade divina.»

Ora, o Senor Glorioso*, como então era chamado, não se tomava pelo primeiro a chegar!

Este converso, mais ou menos dedicado ao cristianismo, tinha as qualidades e os defeitos da sua raça. Era inteligente, doido e julgava-se superior ao resto da humanidade.

Assim escrevia, dirigindo-se aos seus soberanos:

«Tendo expulso os Judeus, enviaste-me para a índia e fizeste-me almirante. Tendo rebaixado a minha raça, promoves-tesme 4.»

De facto, Colombo era ao mesmo tempo tão judeu como mau cristão, e, apesar do seu mérito como descobridor5, custa-nos descobrir nele um herói cúpido, sem coração e por vezes desonesto.

3 Senor Glorioso ou Fabuloso: alusão aos dizeres de Colombo, que se tomam por puro delírio verbal, imaginação e invenções.

4 Salvador de Madariaça, Christophe Colombo, ed. Calmann-Lévy, Paris, p. 268.

5 É evidente que Cristóvão Colombo não foi o descobridor da América, onde os Celtas, os Vikings, os Irlandeses, os Bascos, etc, tinham ido bem antes dele.

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A CARTA DE TOSCANELLI



Pensa-se efectivamente que Colombo iniciou a sua viagem depois de ter roubado a carta do físico florentino Paolo dei Pezzo Toscanelli6.

A 25 de Junho de 1474, Toscanelli mandou ao cónego português Fernão Martins (ou de Roriz) uma carta geográfica onde tinha traçado a rota «que vai para a índia pelo oceano ocidental», com indicação dos lugares, dos pólos, da linha equatorial e das distâncias.

((Podeis fazer a viagem para oeste», escrevia o florentino, «e atingir essas regiões, as mais férteis em todas as variedades de especiarias, de jóias e de pedras preciosas... Porque todos aqueles que navegarem para oeste no hemisfério mais baixo encontrarão os ditos caminhos para oeste, e todos os que navegarem para este por via terrestre no hemisfério mais alto encontrarão sempre a mesma terra a este.»

O rei Afonso VI era o destinatário último da carta e respectivos comentários, e temos boas razões para pensar que o soberano, à sombra das teses de Toscanelli, enviou várias vezes ao «Brasil» pilotos que lhe trouxeram ouro e pedras preciosas7.

Estes marinheiros transatlânticos deviam obrigatoriamente passar à reforma na ilha mais longínqua do império, a Madeira, onde, como por acaso, Colombo, em 1474, casou com a menina

6 Eis o texto da primeira carta expedida por Toscanelli a Cristóvão Colombo. Ela queria provar que o florentino dera uma carta e indicações precisas a Colombo para ir às Índias Ocidentais. Os historiadores não acreditam na autenticidade desta carta, que teria sido escrita pelo próprio Colombo, para se desculpar da acusação de roubo. Primeira carta:

«A Cristóvão Colombo, Paolo, físico, salve.

Conheço o nobre e grande desejo que tens de querer ir lá, aonde nascem as especiarias. Eis a razão por que, em resposta a uma das tuas cartas, te envio a cópia de uma outra que há alguns dias escrevi a um meu amigo, criado do serenissimo rei de Portugal, antes das guerras de Castela, em resposta a uma outra que, por comissão de Sua Alteza, este amigo me dirigira sobre o mesmo assunto. E mando-te uma carta de navegação parecida com aquela que lhe enviei e que satisfará os teus pedidos. Eis a cópia da carta de que falo.»

' Victor Forbin, L'Or dam le Monde, ed. Payot, Paris, 1941.

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Perestrelo ou Palestrello, filha de um destes pilotos e herdeira das suas cartas e documentos8.

Foi também graças à carta de Toscanelli que, em Novembro de 1475, Fernão Teles foi creditado com o governo do reino das Sete Cidades, que se pensava dever existir algures para os lados de São Brandão e Antílial

É provável, senão certo, que Colombo, desenraizado e furão como era, e possuído pelo demónio da viagem oceânica, tenha lido essa carta famosa e nela se inspirado.

Salvador de Madariaga admira-se de que Colombo tenha fugido de Portugal (em 1488, cremos).

((Um homem que roubou um documento importante deve fugir», escreve Madariaga. ((Colombo fabricou a correspondência com Toscanelli (que estava morto e, consequentemente, não poderia negá-la), a fim de fornecer explicações plausíveis para evitar que se fale nisso aos Portugueses.» Subentendido: no roubo da carta geográfica!

Em apoio desta afirmação, Madariaga reproduz uma carta do rei D. João II, onde este chama a Cristóvão Colombo «seu amigo particular», e lhe assegura que se, no fim da sua viagem, regressar a Portugal não será «de forma alguma preso, retido, acusado, expulso ou intimado a responder a qualquer questão, civil ou criminal».

Qual a explicação para esta estranha protecção? " «Colombo era um ladrão», continua Madariaga. ((Não temos nós a prova material de que roubara a carta de Toscanelli?... Roubou o meio de ir até ao Novo Mundo.»

* Pouco depois de ter na sua posse as cartas do defunto, Colombo abandonou a mulher, Filipa Perestrelo, e fugiu de Porto Santo com o seu filho Diego. Segundo Pedro Vasquez de la Frontera, um navio português teria ido às ilhas desconhecidas do poente. O piloto, o único a regressar vivo, foi morrer a casa da viúva de Bartolomeu Perestrelo, onde contou a sua viagem e deixou os seus documentos.

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A MIRAGEM DAS ILHAS AFORTUNADAS



O caso é extremamente confuso.

A célebre e duvidosa carta (mapa) de Piri Reis9 seria uma cópia, quer das cartas desenhadas por Colombo, quer de todas as que, por volta de 1550, abundavam na Europa.

Parece-nos extremamente provável que Cristóvão Colombo tenha tido conhecimento dos documentos que, no século xv, circulavam entre os marinheiros e aventureiros que enlouqueciam com o mistério do mar Tenebroso.

Era uma verdadeira psicose.

Jean de Mandeville tinha escrito: «Um corajoso homem do nosso país partiu outrora em descoberta do mundo. Chegou e ultrapassou as índias mais de cinco" mil léguas, e deu por várias estações a volta ao mundo.»

Em 1473, dizem os cronistas, um representante da coroa de Portugal, João Corte-Real, teria participado numa expedição ao Novo Mundo. No regresso seria nomeado governador dos Açores «em recompensa da sua descoberta do País dos Bacalhaus», que era a Terra Nova ou o Labrador, isto é a Terra Firme, o continente americano10.

Colombo estava ao corrente destas descobertas e destas relações. Tinha lido as teorias sobre "as índias Ocidentais de Duarte Pacheco Pereira, expressas no Esmeraldo de situ Orbio, a Cosmologia de Ptolomeu, o Livre des Merveilles de Jean Mandeville, os escritos de Philippe de Beauvais mencionando a existência, para além do oceano, de um novo mundo ainda desconhecido,

' Robert Charroux, História Desconhecida dos Homens desde Há Cem Mil Anos, ed. Livraria Bertrand, Lisboa.

10 Trata-se, na verdade, de Gaspar Corte-Real, a quem o rei de Portugal, D. Manuel, o Venturoso, teria dado, em 1500, o comando de uma expedição encarregada de explorar as costas setentrionais da América do Norte. Corte-Real trouxe do Canadá cinquenta e sete índios, que, no seu regresso, vendeu como escravos. Foi ele quem deu o nome de Labrador (Trabalhador) ao Canadá, nome que foi ligado mais tarde à península situada mais a norte. A descoberta do Canadá quer por Cabot, quer por Corte-Real, quer por Jacques Cartier é tão contestada como a da América por Cristóvão Colombo.

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O Livro de Marco Polo, as relações de viagens de Henrique, o Navegador, etc.u.

Fazemos-lhe confiança neste ponto: estudou tudo o que se referia ao seu projecto, viu e copiou de inúmeras cartas marítimas: o mapa-múndi de Henricus Martelus Germanus, o Globo de Laon, e talvez também os esboços de Martin Behaim, dando a posição das ilhas do Poente: Cipango, Cândia, Java Maior, Java Menor, Anguana, Ceilão, Anti lia, Brasil...

A FINLÂNDIA E O MÉXICO ANTES DE COLOMBO

Os portulanos e as cartas que tinham autoridade no século xv, para além do globo de Martin Behaim (1492), encontravam-se na biblioteca do grão-ducado de Weimar e nas de Parma, Génova, Roma, Veneza e Lisboa.

Consultavam-se especialmente as cartas venezianas dos irmãos Pizzigani (1367), o atlas de André Bianco, as cartas dos genoveses Beccaria (1435) e Bartholomeo de Pareto (1455), e a de Andrea Benincasa, de Ancona.

Os eruditos da época sabiam que existia, para lá do mar Tenebroso, um continente que não era o do Grande Khan, mas a Vinlândia ou País do Vinho.

«Por volta do ano 1000», diz a Enciclopédia (Pierre Larousse, 1872), «existia uma colónia nesse país, que era chamado Vinlândia, e que, segundo as aparências, devia pertencer à América Setentrional... Conta-se que uns pescadores tinham sido lançados pela tempestade na ilha de Estotilândia (?), onde encontraram um povo civilizado, com uma escrita particular.

Encarregaram-nos aí, porque conheciam a bússola, de uma expedição pela costa de Drocco, mais ao sul; foram feitos prisioneiros por selvagens antropófagos.

11 O infante D. Pedro, irmão do infante D. Henrique, tinha trazido de uma viagem ao Oriente uma carta «muito preciosa» e o livro As Viagens do Veneziano Marco Polo.

Num livro notável, A Conquista das Rotas Oceânicas, Carlos Pereira escreve: «O plano de Colombo tinha por bases mais de cinquenta cartas e portulanos...»

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Um deles percorreu como escravo todo o país, e soube que, mais longe, se estendia um país rico, fértil e civilizado.



Os antropófagos de Drocco podiam ser os selvagens da Nova Escócia e do Canadá, e o país civilizado, o México. Seja como for, é provável que estas informações, conhecidas por Cristóvão Colombo (escreve Pierre Larousse), só lhe tenham vindo confirmar a sua fé em terras ocidentais...

Não foi ele o primeiro a descobrir a América.

Na Antiguidade, Aristóteles tinha adivinhado a existência daquilo a que Colombo deveria chamar as índias Ocidentais e, sem ir tão longe, basta lembrar as viagens dos Escandinavos para a Gronelândia e ilha da Terra Nova, viagens que, provavelmente, eram conhecidas em Itália no século xv.»

MARTIN ALONZO E VINCENTE PINZON

Quaisquer que sejam os méritos de Colombo — e existem — o historiador não deve calar as manchas com que o ((ilustre genovês» sujou o seu brasão.

Em primeiro lugar é preciso sublinhar que os irmãos Martin Alonzo e Vincente Pinzon armaram, em proveito de Colombo, as três naves da expedição: a Pinta, a Nina e a Santa Maria, do navegador Juan de la Cosa.

Nunca Colombo poderia embarcar para o ocidente sem os Pinzon e sem Juan de la CosaI2.

Nunca as naves teriam atravessado o Atlântico se os Pinzon não houvessem tomado o comando das equipagens.

Foi longa a travessia; os marinheiros, depois de terem feito as setecentas léguas previstas pelo ((almirante» Cristóvão Colombo, aperceberam-se de que ele era um fraco navegador,

12 Martin Pinzon chegava de Roma quando encontrou Colombo. É quase certo que acabava de consultar, na biblioteca pontifical, umas cartas geográficas e umas relações de viagem ao país da Vinlândia (actualmente E. U. A.), feitas por mensageiros cristãos gronelandeses, que, em 1110, vieram a Roma. Eiri 1327, a Gronelândia votava ainda o seu dízimo às Cruzadas. É impossível pensar que os missionários do Árctico não tenham contado ao papa as viagens, expedições e conquistas no «País das Vinhas», do outro lado do oceano.

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incapaz de marcar as coordenadas, guiando-se por cartas repletas de erros, incapaz sobretudo de dar uma ordem com que se pudesse decentemente concordar.



Muitas vezes refilaram e falaram mesmo em atirar pela borda fora aquele almirante de comédia.

Colombo, quando rebentou o motim, estava com certeza pronto a morrer heroicamente, talvez até mesmo disposto a fazer meia volta, mas Martin Pinzon mais uma vez salvou a situação.

— Queira Deus — exclamou—, que a frota de tão grande rainha não recue, não só esta noite, como durante todo um ano

Segundo Pierre Margry, autor de Les Navigateurs Français et la Révolution Mantime, du XIV au XVI Siècle, «Vincente Yanez Pinzon teria sido o imediato do navio de Jean Cousin, que em 1488 — quatro anos antes da viagem de Colombo—descobria o Brasil e dobrava o cabo da Boa Esperança».

OS PRECURSORES DE COLOMBO

Jean Cousin, originário de Dieppe, beneficiando das instruções do sábio hidrógrafo Descaliers, seu compatriota, descobriu a embocadura de um grande rio a que chamou Maranhão e que mais tarde foi chamado rio Amazonas.

Baptizou, em primeira mão, de «Ponta das Agulhas» — dez anos antes de Vasco da Gama — o que depois se tornou o cabo da Boa Esperança.

Eis, segundo as tradições e as relações antigas, a ordem cronológica dos ((descobridores» conhecidos das Américas, desde o Dilúvio até Colombo:

— Há nove para dez mil anos, povos emigrados da Europa passaram o oceano, conta o Popol-Vuh, livro sagrado dos Mayas--Quichés, e por etapas sucessivas deslocaram-se das terras do Norte (Canadá) até ao México, passando pelos Estados Unidos.

Os mesmos povos migratórios foram até ao Iucatão-Guate-mala, depois até à Colômbia, em seguida Peru e Bolívia. Daí, com certeza, passaram para a Oceânia e, principalmente, para a ilha de Páscoa.

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— No tempo do rei Minos, navegadores cretenses teriam chegado ao México.



— 850 a. C, Badezir, rei da Fenícia, teria ido ao Brasil, se se acreditar na seguinte inscrição (na realidade indecifrável) da Pedra da Gávea, no Rio de Janeiro:

Tradução sugerida: «Badezir grande sacerdote de Baal, rei de Tyr na Fenícia.»

999: o islandês Bjorn Asbrandson".

1003: o norueguês Leif Ericson (segundo uma saga).

1029: o islandês Gudleif Gudlangson.

Século xi: expedição, dita dos ((Aventureiros», pelo geógrafo árabe El Edrisi.

1121: Erik Gnupson, bispo da Gronelândia, viaja até à Vinlândia.

1362: oito suecos e vinte e dois noruegueses, segundo a inscrição rúnica da pedra de Kensington M.

1473: os portugueses, dinamarqueses e noruegueses da expedição— duvidosa—chefiada pelos comandantes alemães Pining e Pothorst.

13 Uma lenda escandinava conta que em 985 o islandês Bjorn, indo para a Gronelândia, foi arrastado para muito longe por uma tempestade, em direcção de sudoeste, até uma ilha fértil e arborizada.

14 Esta pedra foi descoberta em 1898 pelo lavrador americano Olaf Ohman, de Salem, Douglas County (Minnesota). Foi deposta no banco de Kensington, donde lhe veio o nome que lhe deram.

Eis o texto da inscrição rúnica, segundo o arqueólogo Hjalmar R. Holand:

«Somos oito de Golland e vinte e dois da Noruega, em expedição pelo país de Vinlândia. O nosso campo está junto de dois rochedos a alguns dias de caminho para norte desta pedra.

Viemos aqui para pescar. Quando voltámos ao acampamento, dez dos nossos companheiros estavam cobertos de sangue. Tinham sido assassinados. A. V. M. salva-nos do perigo.»

Três linhas suplementares traçadas no canto da pedra dizem: «Dez dos nossos companheiros estão de vigia à beira-mar, nos nossos barcos, a catorze dias de distância desta ilha. Ano 1362.»

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1488: Jean Cousin, de Dieppe, teria ido ao Brasil e reconhecido as embocaduras do Amazonas.

1497: Jean Cabot teria posto pé na Terra Firme antes de Colombo.

CABOT CHEGA A TERRA ANTES DE COLOMBO

Jean Cabot, navegador e cosmógrafo veneziano, naturalizado inglês, aportou ao continente americano (chamava-se então Terra Firme), antes de Colombo, que, quando da sua primeira viagem, só chegara a uma ilha das Antilhas (São Salvador).

Esta é a relação, escrita pelo filho de Cabot, Sébastien, do feito15.

((No ano da graça 1497, Jean Cabot, veneziano, e seu filho Sébastien partiram de Bristol com uma frota inglesa, e descobriram esta terra que nunca ninguém ainda descobrira; foi a 24 de Junho, pelas cinco horas da manhã.

Chamaram-lhe Prima Vista (primeira a ser vista), porque foi ■ a primeira que viram por cima do mar.

Deram à ilha situada diante do continente o nome de ilha de São João, porque chegaram lá, segundo o que parece, no dia de São João Baptista.

Os habitantes dessa ilha estavam cobertos de peles de animais, com as quais pensavam estar muito bem arranjados... Serviam-se, na guerra, de arcos, balestras, lanças, dardos, mocas de madeira e fundas.

Viram que aquele terreno era, em vários sítios, estéril, e dava poucos frutos; que estava cheio de ursos brancos e de veados, muito maiores que os da Europa, que havia muito peixe, e dos da maior espécie, como os salmões.

Encontraram lá linguados de três pés de comprimento e muitos daqueles peixes a que os selvagens chamam baccalaos.

1! Ler era Purchas: His pilgrimage, or relations of the world and the reli-gions observed in ali ages and places discovered, from the creation into this present. Londres, 1613, in foi.

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Repararam que também havia perdizes, falcões e águias, mas o curioso é que eram todos tão pretos como corvosló.»



Esta primeira terra, descoberta por Jean Cabot em 1497, era o Labrador.

Seguiu a costa até à Florida, voltou em seguida a Bristol, trazendo três ((selvagens» vivos e um carregamento rico.

Cristóvão Colombo só em 1498 pisou terra firme das Américas, ou seja, um ano após Cabot e dez anos depois de Jean Cousin, que tinha reconhecido o Maranhão ou embocadura do Amazonas.

O VERDADEIRO OBJECTIVO: RECONSTRUIR O TEMPLO DE JERUSALÉM

De tanto se querer provar, nada, afinal, se provai

Seria Colombo um ladrão?17

Não passa de uma hipótese.

É certo que não foi ele o verdadeiro descobridor das Américas, mas não há dúvida de que trouxe à Espanha um imenso império e à História um dos seus mais belos ramalhetes.

A aventura americana é de uma tal complexidade que é quase impossível desembaraçar-lhe a teia.

Seria o genovês um judeu manhoso ou um cristão retorcido? Ninguém é capaz de o dizer.

É certo que, antes de qualquer outra coisa, era atraído pelo brilho do ouro; no entanto, Salvador de Madariaga, no seu espantoso livro, revela aquilo que foi, sem dúvida, o objectivo secreto da conquista das Américas: juntar fortunas para reconstruir o Templo de Salomão em Jerusalém.

Em Baza, teria assegurado ao rei e à rainha que todos os lucros que retirasse da sua façanha seriam consagrados à libertação da casa de Sião e à reconstrução do Templo.

" Esta narração não é muito convincente!

17 Salvador de Madariaga, Cristophe Colomb, p. 238.

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FIM DO MUNDO EM 1656



Colombo pensava sinceramente que tinha sido incumbido por Deus de realizar grandes feitos, e essa ideia amparou-o fortemente no seu empreendimento18.

Apoia-se em Esdras para calcular a largura do mar—-seis partes da Terra são secas e há uma debaixo de água — e nas profecias dos Hebreus para prever o fim do mundo, que fixa para o ano de 1656.

É por essa razão que apressa o rei e a rainha de Espanha «a lançarem-se na façanha da conquista das índias». Mada-riaga escreve, a propósito da missão de que Colombo se considerava encarregado19: ((Era o agente do Senhor, escolhido não só para conquistar um mundo novo, existindo até essa altura apenas na sua imaginação, mas também para fazer face a esse rei e a essa rainha que oprimiam a metade do seu povo e se preparavam para enviar a outra para um exílio desumano.))

Invoca Abraão, Moisés, Isaac, Sara, Isaías; depois do sucesso do seu feito, compara-se a David.

Com a cabeça branca, anseia por imitar os profetas bíblicos: geme, cobre a cabeça de cinzas e escreve finalmente um Livro de Profecias, que, infelizmente, não chegou até nós, mas que tratava provavelmente do problema da restauração de Israel, quer na Palestina, quer nas índias Ocidentais.

COLOMBO, GRÃO-MESTRE DO TEMPLO

Um dos grandes mistérios ligados a Cristóvão Colombo, para além do seu nascimento e da paternidade da descoberta da América, é o da sua assinatura, de que se vê aqui a reprodução:

18 Ob. cit., p. 261.

" Alguns historiadores escreveram que os Judeus queriam fazer da Espanha uma nova terra de Sião, que haviam monopolizado os cargos, os títulos e que visavam mesmo o trono. Esta tese é verosímil, mas não se pode acusar Colombo de pertencer à Conjura, já que para ir à América tinha primeiro oferecido os seus serviços aos reis de Inglaterra, de Portugal e também, diz-se, de França.

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Para Maurice Privat e Joseph Hariz20, Colombo era mágico, e a sua assinatura prova que pertencia à Ordem do Templo, de que teria sido o grão-mestre.

Essa assinatura contém dois triângulos (vemos quatro!).

«A última linha, xpo ferens, que significa Cristoferens, exprimia a divisa de Colombo, o portador de Cristo, e que passou a ser o seu nome.

A terceira linha faz alusão ao facto de que combatia os Mouros, sob os muros de Granada, com o hábito dos franciscanos21. Foi assim que desembarcou das suas segunda e quarta viagens...

X, M, Y, exprime Cristo, Maria ou Méryen, José ou You-souf, palavras de reconhecimento dos terciários.

20 Le Grand Nostradamus, n.° 1, Maio, 1934. Esta revista deixou de publicar-se em 1936.

21 É uma alegação de que não encontramos o traço em parte alguma.

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Só faltava encontrar a chave do triângulo assim formado. Eliminado o A central (Maurice Privat tem bem razão quanto às dificuldades!), obtemos o triplo triângulo.

Reconhecemos nele a configuração das pirâmides do Egipto. Colombo testemunha assim, indiscutivelmente, a sua iniciação...»

UMA MISSÃO TEMPLÃRIA

Pela Cabala, M. Privat especula que o S repetido três vezes é igual a quinze vezes três (quarenta e cinco), ou quatro mais cinco igual a nove, número divino abstracto.

Em aritmosofia, quarenta e cinco exprime a herança, o legado.

«A missão do templário foi-lhe pois assegurada por herança. Por outro lado, quinze dividido por três dá cinco, que é atribuído ao grande hieroíante que está entre as colunas de Hermes e de Salomão, ou seja, ao iniciado.

Por conseguinte, Colombo expõe os seus títulos sem rodeios com a letra A: «Eu sou o primeiro da minha Ordem.»

É assim o grão-mestre dessa irmandade que, depois de ter aspirado à conquista do mundo para o organizar foi decapitada em 1307 por Filipe, o Belo, mas cujo poder se perpetuou.

Esta é a opinião de Maurice Privat, bem extravagante, tendo contudo umas luzes, que aguçam a nossa curiosidade.

Não é, com efeito, impossível que os Templários tenham estado ligados a esta história, assim como os Judeus, porque é impossível não reparar que Colombo, um converso, ((descobriu» a América, cujo estado mais poderoso, os E. U. A., deveria tornar-se pouco a pouco a nova Terra de Sião.

Segundo Louis Charpentier, os Templários tinham sido postos ao corrente das informações dos padres gronelandeses e sabiam, desde o século xn, que havia um caminho marítimo para chegar a um mundo ocidental.

Maurice Privat vai ainda mais longe afirmando que «os Templários tinham organizado um imenso império no México, nos finais do século xm».

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Colombo, por conseguinte, devia as cartas e os planos, que lhe permitiram ir ao Novo Mundo, aos Templários, de quem era o herdeiro majestoso22.



Aqueles a quem esta tese tentasse, perguntar-se-iam porque «roubou» então Colombo a carta de Toscanelli e deu tantos passos para encontrar documentos!

COLOMBO CABALISTA

O exame da assinatura de Colombo não nos arrasta para a explicação de Maurice Privat. Ficamos contudo a saber que o ((genovês» era de origem judia e que, provavelmente, praticava a magia.

«Quando da sua quarta viagem», escreve o doutor J. Hariz23, «Colombo pratica esconjuros.»

Debaixo de uma grande tempestade, na costa da Venezuela, torturado pelo escorbuto, levanta-se, veste o casaco, pega na espada, acende nos fachos as velas benditas, empunha o Evangelho segundo São João, o Evangelho do espírito, e corta o ar nos quatro cantos.

Terá sido devido a essa cerimónia que uma gigantesca tromba de água passou entre as caravelas sem as levar?24

Salta aos olhos uma evidência desde o primeiro exame: Colombo acredita na força das letras, dos números, dos símbolos e a sua assinatura pode ter, inconstestavelmente, um carácter mágico e talismânico.

Trata-se efectivamente de um símbolo judeu e cabalístico!

Colombo é realmente de origem judia, o que de resto se nota no seu temperamento, na sua docilidade, na sua inteligência.

Como todos os Judeus, mesmo quando convertidos (os

21 Maurice Privat evita, e intencionalmente, falar-nos desse pseudo-império templário do Méxicol

23 Le Grand Nostradamus, n.° 1, pág. 58.

u Não se encontra esta cerimónia no Jornal de Bordo de Cristóvão Colombo, quando das tempestades de 3 e 14 de Fevereiro de 1493. Pelo contrário, o almirante e a sua equipagem acendem velas e formulam preces muito cristãs.

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conversos), dá um grande crédito às forças misteriosas, que devem ajudá-lo a cumprir a sua ((missão».

«Ainda hoje», escreve Jean Marquès-Rivière25, «alguns judeus utilizam o chamado Shadai, que todas as crianças israelitas usam no momento da cerimónia dita Bar-Mitzwah. É uma medalha redonda, na qual está inscrito o nome divino Shadai, cujo uso é de tradição imemorial.

Este nome divino encontra-se de resto em muitos textos mágicos e simbólicos.

UM TALISMÃ DE SENHOR DO MUNDO

Essa assinatura decompõe-se em duas partes distintas: em baixo, a assinatura, christoferens; em cima um símbolo que protege o nome, com sete letras mágicas e seis pontos, lembrando as seis pontas do selo de Salomão.

Este, segundo as tradições cabalistas e as superstições hebraicas, o sentido do símbolo26.

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Esta magia tinha assim por finalidade, no espírito do almirante (lendo da direita para a esquerda, como se faz em hebreu),

25 Jean Marquès-Rivière, Amulettes, Talismans et Pantacles, ed. Payot, Paris.

26 As atribuições dadas ao demónio e aos génios estão de acordo com o» textos de Jean Marquès-Rivière e o seu livro citado na nota anterior.

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colocá-lo sob a protecção do Samael-Satan, esconjurar as tempestades e descobrir uma terra para os lados onde o Sol se põe.



Que Yahvé, o Senhor, faça Senhor do mundo o abaixo assinado: Cristóvão Colombo27.

Samael, Shamshiel, Arets e Sikiel são, na magia dos Judeus, frequentemente invocados.

Colombo rebenta de vaidade, de ambição, de orgulho desmedido; não se toma ele por um profeta quando escreve as profecias e anuncia o fim do mundo para 1656?

Não exigiu ele antes de partir pelo oceano que o fizessem cavaleiro, dom, almirante e vice-rei?!

Depois da sua vitória, por volta de 1498, escreve aos monarcas espanhóis uma carta delirante, em que se apresenta como um príncipe do mundo, o verdadeiro Metraton: «Deus, que fez ele de mais a Moisés ou a David?»28

E falando de si, acrescenta:

«Desde que nasceste sempre Ele se preocupou contigo... Deu ao teu nome um maravilhoso eco sobre a Terra29.»

De facto, o talismã, escrito e fechado num saquinho que Colombo devia usar junto à pele, parece ter tido um papel eficaz.

Embora não tenha descoberto as Américas, e nem sequer imaginado o caminho marítimo para o poente, Colombo tornou-se uma espécie de Metraton: o homem mais conhecido do mundo.

Samael, Sikiel, Arets, Shamshiel — Y -Aí e X (X igual ao vosso nome, sobretudo se começa por um C), um forte e maravilhoso talismã, que deu provas!

«O mayorazgo30, de 1498, embora apócrifo», escreve Mada-riaga, «deve apoiar-se no documento desaparecido de 1502.»

27 Se o X se referisse ao Cristo, a frase seria: que Yahvé faça Jesus Senhor do mundo. Não pensamos que este X tenha relação com o do crisma. Ainda na Idade Média, o chi dos Gregos tinha a forma de um X maiúsculo.

a Salvador de Madariaga, Christophe Colomb, pág. 554.

29 Idem, pág. 261.

* Aíayoraigo: morgadio ou bem inalienável. Trata-se aqui do documento oficial que estabelecia esse morgadio.

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Há aí uma cláusula singular com respeito à assinatura: «Dom Diego, meu filho, ou aquele, seja quem for, que herdar este vínculo, depois de o ter herdado e de lhe haver obtido a propriedade, assinará com a assinatura que agora utilizo, que consiste num X, com um S por cima, e um M com um A romano por cima, e, ainda por cima, um S e depois um Y com um S por cima, com os traços e as vírgulas que agora faço e co. o se verá pelas minhas assinaturas e por esta que aqui está. E não assinará nada mais que Almirante, mesmo que o rei lhe dê, ou que mereça, outros títulos.»

UM PACTO COM SATANÁS

Se nos quisermos prender a estes pormenores, a assinatura passará então a significar:

((Cristóvão Colombo—luz ou sol — Senhor—da Terra — sob a presidência de Samael— Senhor-—da Tempestade.»

Os seis pontos unidos entre si dão dois triângulos juntos. Se os ligarmos em todos os sentidos possíveis, obtemos duas pirâmides em geometria no espaço, ou seja, cada uma com quatro faces31.

Por translação dos dois triângulos obtém-se o selo de Salomão, o que ainda nos leva até aos símbolos mágicos dos Hebreus.

Parece pois surgir das precisões trazidas pelo almirante a ideia de que tinha assinado um pacto com Satanás-Samael, que também obrigava a sua descendência directa.

É claro que não acreditamos na força de um tal pacto, assim como em Satanás, mas é curioso notar que a aventura de Colombo se desenrola exactamente como se o Diabo estivesse envolvido: com o seu cortejo de demónios, de talismãs, de encantações, de acasos estranhos, de insólitas boas fortunas32, de ajudas providenciais e nem sequer merecidas. E também com um contexto

31 Madariaga nota que o primeiro S do pseudomonograma deve ter um único ponto, à sua esquerda.

32 O protector converso São Ângelo ajudou Colombo no seu feito, graças a um tesouro milagrosamente descoberto, no bom momentol Tudo isto cheira um pouco a enxofrei

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de ouro e de horror, de regateios, de duplicidade, de sangue e de crueldades parecidas com holocaustos, de que os «selvagens» da índia Ocidental fizeram a despesa.



Salvador de Madariaga salienta igualmente a forma triangular da assinatura e pensa na Cabala. Acrescenta que o arranjo dos S pontiagudos faz parecer o escudo de David, o que é relativamente exacto.

Um israelita cabalista, M. Maurice David, revelou a Madariaga M que, «(filho e neto de rabinos, logo que vira o monograma que se encontra no canto superior esquerdo de todas as cartas dirigidas por Colombo a seu filho Diego, salvo uma, reconhece aquele que seu pai e seu avô inscreviam sempre no mesmo sítio, em todas as cartas. Era uma velha saudação hebraica, uma bênção...».

«Os grafólogos hebraicos não são desta opinião», acrescenta Madariaga.

Segundo J. R. Marcus, professor de História Judaica na Hobrew Union College de Cincinatti (Ohio), a transcrição do talismã em caracteres latinos daria34:

Shadai

Shadai — Adonai—Shadai



Yhwh —macho —Chesed

Nose —Ovon —pesha—chata'n ah

o que representa um talismã mágico de carácter religioso e judeu.

Outra interpretação do escritor Dom Armando Alvarez Pedroso:

S =Senhor S.A.S. = Sua Alta Senhoria X. M.Y. = Excelente, Magnífico, Ilustre

Pela parte que nos toca, preferimos a nossa primeira explicação.

u Salvador de Madariaga, Christophe Colomb, pág. 615. 34 Idem, notas, pág. 612. M. David retoma este argumento no seu livro Who Was Colombus?, pág. 66, 1933.

CAPÍTULO VII

O FORMULÁRIO DO GRANDE ALBERTO

O sábio é um homem simples e primário. O físico, o químico e o matemático são investigadores e o oposto dos sábios: os seus conhecimentos ultrapassam, é claro, os do vulgo, mas são arbitrários, incertos e transitórios.

Aquilo a que nós chamamos ((misterioso desconhecido» é o conjunto de fenómenos ou de factos que ninguém pode explicar, talvez por pertencerem à ciência do futuro, talvez porque os caminhos do nosso pensamento e os sistemas das nossas investigações são impotentes para os apreender.

QUANDO SE TEM A BARAKA!

Os matemáticos bem se esforçaram por explicar a sorte, mas as suas boas razões perdem-se no infinito do cálculo e do tempo. L. de Moissac, Tarn-et-Garonne, é um fanático por corridas. Quando preenchia o seu cartão, num domingo de Novembro de 1971, escreveu o número dezasseis, pensando jogar o dezoito, e foi o cavalo número dezasseis que chegou em primeiro lugar.

No dia seguinte, segunda-feira, voltou a jogar num número qualquer e ganhou o terceiro prémio

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Apesar de tudo há uma verificação preocupante: um erro que faz ganhar e uma redacção correcta que consegue o mesmo resultado



Terá o acaso opções privilegiadas ou uma entidade misteriosa entretém-se a troçar das leis do racional?

Foi também uma falta o que salvou a vida do nosso correspondente e amigo E. Becouse... Uma pequena desatenção, um nada que dá para reflectir.

«Era o 1.° de Outubro de 1918», escreve Becouse, «em plena ofensiva da Champagne. Comandava então a 18." Bateria do 102.° de Artilharia Pesada. Na companhia do tenente Levejac, preparava uns tiros eventuais.

Estávamos sentados um de cada lado de uma mesa dobradiça, na barraca que nos servia de posto de comando. Cai-me o lápis. Baixo-me para o apanhar, no momento preciso em que um grande estilhaço de obus fura a lona à altura onde a minha cabeça estaria, se não me tivesse debruçado. Devo uma vela especial a essa coincidência, porque o obus que acabava de rebentar matou um artilheiro-condutor, feriu um sargento e estripou três cavalos.»

Nessa terrível guerra de 14-18, onde o número premiado era o de salvar a pele, cada incidente ganhava uma dimensão desconhecida, e o acaso, a sorte, tinham uma significação muito especial.

Becouse pôde notar quatro factos extraordinários, quatro ((coincidências», como ele escreve, que o levaram a acreditar num ((misterioso desconhecido» consciente.

FACTOS ESTRANHOS

Um bebé australiano, Lorrell Wilhelm, de Perth, confirmou uma tradição de família que vem já de há quatro gerações. Como a mãe, a avó e a bisavó, nasceu no dia 8 de Abril!

Uma comunicação de A. F. P., de 17-3-72, conta a seguinte história:

«Um aluno de dez anos de uma escola primária de Atenas

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salvou os seus camaradas e o professor por contar um sonho que tivera na noite anterior.



— Vi o tecto da nossa escola desabar—disse, com um tom de convicção que impressionou os que o ouviam!

O professor, sem dúvida particularmente impressionado, juntou os alunos numa parte da classe onde o tecto parecia mais sólido que no resto.

Uns minutos mais tarde, o tecto desabava no sítio que acabava de ser evacuado.»

Um habitante de Romans (Drôme) possuía, em Junho de 1971, uma galinha que, depois do último eclipse parcial da Lua, em Fevereiro, punha uns ovos que tinham uma parte achatada onde estava gravado um sol de treze raios, feito de um círculo.

Um dos nossos leitores comunicou-nos o seguinte facto insólito, que ouvira de sua mãe, «Benoite Vernay, em solteira, e de várias pessoas da sua idade».

Em 1868, o regedor da aldeia de Iguerande, em Saône-et-

Loire, deixava entrar as galinhas na cozinha da sua pequena

quinta. Ora, uma delas tinha o hábito de se acocorar diante do

relógio, e um dia pôs um ovo que reproduzia, em relevo e de

maneira perfeita, o mostrador desse relógio.

Seguiram-se outros ovos, mas com uma diminuição da imagem.

A notícia correu pela aldeia, e o regedor, astucioso, cobrou dois soldos às pessoas que quisessem assistir a uma postura e ver o primeiro ovo fenomenal.

Teve em seguida a ideia de encobrir o mostrador com o retrato de Napoleão III, na esperança de que a galinha reproduzisse a imagem, o que lhe traria uma nova fonte de lucros!

Ficou decepcionado, pois o animal pôs um ovo que reproduzia uma vaga silhueta.

A história passa por ser verdadeira. Um biologista podia sem dúvida explicá-la pelo fenómeno da impregnação psíquica, mas o que diria ele sobre os quinhentos martinetes que, em Junho de 1969, se reuniram na chaminé da senhora Girard (oitenta anos, Place Saint-Sévère de Viena, 5, Isère), para aí morrer?

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A conduta foi desentupida por três vezes, mas os pássaros continuavam a voltar em bandos para aí morrerem asfixiados.

Porque escolheriam a chaminé da senhora Girard para esse estranho suicídio? Mistério!

Que estranho impulso leva os realizadores de cinema americanos, nos seus estúpidos filmes de western, a dar significações convencionais à direita e à esquerda?

Uma revista especializada escreve a este respeito1:

«Os Americanos estabeleceram de maneira formal que o sentido dos movimentos, entradas e saídas de campo, e o das perseguições tinha uma importância considerável nos filmes.

Também na maior parte dos westerns, se o bom persegue o mau, o sentido da cavalgada faz-se da direita para a esquerda. Se é o mau que vai atrás do bom, a perseguição é da esquerda para a direita.»

Não se sabe porquê, mas tradicionalmente a esquerda (lado do coração, portanto!) é maléfica e a direita, benéfica.

O SINAL DO ALÉM

Ulrich Rohde, um rapazinho de seis anos, da escola comunal de Naila, na Baviera, desenhara,, segundo o tema de um concurso a favor da ajuda mútua, uma criança atropelada por um automóvel, deitada por terra junto da sua bicicleta.

O desenho representava ainda uma outra criança, que telefonava de uma cabina pública, para alertar a polícia.

O seu trabalho foi premiado pelas autoridades escolares, mas Ulrich não o chegou a saber, porque, entretanto, morreu nas mesmas circunstâncias que tinha imaginado, atropelado por um carro, quando andava de bicicleta.

Straton le Nimois, que escreve no Dauphiné Libéré, conta a aventura extraordinária que aconteceu ao escritor Ibrahim Fahri.

«A 12 de Junho de 1942, o carro de Fahri teve uma avaria,

1 Revista Photo, n.° 31, pág. 79, texto de C. Sautet.

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à entrada de uma curva, numa estrada deserta entre o Cairo e Alexandria.



Ao lado da estrada, havia um dístico com uma indicação em francês: ((Atenção, Miragem.»

Surpreendido, Fahri, ao olhar melhor, reparou que se tinha aglomerado areia seca para formar duas linhas paralelas, de cada um dos lados do V de ((viragem», o que dava uma outra palavra: Miragem.

Foi nesse momento que passou um carro velho a chiar e o escritor egípcio pôde ler na carroçaria, também em francês, esta inscrição: «Cemitério de Amria e Além.))

Obcecado por estas coincidências, alguns dias mais tarde dirigiu-se ao cemitério de Amria, de que ignorava a existência,

Descobriu, como por acaso, uma antiga estela, partida, onde leu um nome parcialmente apagado: Ibrahim Fahri!

Straton le Nímois conta também a aventura, igualmente espantosa (se verídica), que recentemente aconteceu a Luigi Bianchi, um jovem operário fabril, que voltava para casa de moto.

Encontrou uma rapariga que lhe fez o sinal convencional dos que pedem boleia. Mandou-a subir para o banco de trás, e como começasse a cair uma chuva miudinha emprestou-lhe o casaco para se resguardar.

A rapariga deu-lhe a morada da sua casa, onde Luigi a levou, mas, como o encontro o tivesse maravilhado, esqueceu-se de pedir o casaco.

Para o recuperar, apresentou-se no dia seguinte em casa da sua passageira e foi recebido por uns pais que manifestaram o maior espanto.

— De que casaco e de que rapariga se trata?

Luigi contou o encontro da véspera e o pai pôs um ar consternado para lhe responder:

— Meu caro senhor, há mais de dois anos que a nossa filha morreu!

Estupefacto, incrédulo, Luigi Bianchi foi ao cemitério e encontrou a campa da rapariga.

Na grade que a cercava estava pendurado o seu casaco...

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OS SEGREDOS DO GRANDE ALBERTO



No século xvni, teve grande êxito junto do público um livro de ocultismo, de segredos oriundos da mais infantil superstição, embora contendo, por vezes, observações sensatas: o Grand Albert.

A seguir a este romance, apareceu o Petit Albert, transcrição das obras de um certo Albertus Parvus Lucius, que, provavelmente, nunca existiu.

Desde o século xvi, e sem dúvida também antes, que circulavam, à socapa, brochuras clandestinas do Grand Albert, que alimentavam os antros de feiticeiros, de alquimistas e de necromantes: os célebres «livros de magia» da Idade Média, mas a verdadeira primeira edição data só de 1703.

Claro que o «misterioso desconhecido)), tratado nestes livros, não passava' de divagações de empíricos, e Alberto, o Grande (século xm), esse bom e sábio monge iniciado dominicano, não era para aí chamado.

Charles Daremberg escreveu a este respeito: ((Que estranho destino! Um autêntico sábio tornou-se o emulo dos necromantes da Idade Média e da Renascença.»

E Quérard aprova: ((Compilação estúpida que, sem razão, se atribui ao célebre dominicano2.» -

O livro do Grand Albert está pejado de receitas, cada uma mais mirabolante que a outra: para fazer o terrível fogo-de-artifício, para se tornar invisível por meio de um anel, para reparar a virgindade perdida, para atar as agulhas, para fazer dançar uma rapariga em camisa...

De quando em quando, uma pitada de bom senso vem juntar-se às misturas de gorduras de bode, de olhos de lobo e de plantas colhidas ao luar.

Esta será talvez a receita «contra a bebedeira do vinho»: beber antes de ir para a mesa duas colheres de água de betómia

2 Extractos de Le Grand et le Petit Albert, os segredos da magia natural e cabalística, prefácio de Bernard Husson, ed. Pierre Belfond.


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e uma colher de bom azeite, e podeis beber vinho com toda a segurança.

Para fazer cessar a bebedeira de um homem «envolver-lhe os genitais com um pano embebido em vinagre forte», e para uma mulher ((pôr um pano semelhante nos mamilos)).

Não garantimos um bom resultado!

PARA SE CORRESPONDER MAGICAMENTE A GRANDE DISTÂNCIA

O Grand Albert também revela uns segredos de um ((misterioso desconhecido» paracientífico, mas, infelizmente, sem fundamento!

O título é comprido mas aliciante:

SEGREDO MARAVILHOSO PARA FAZER

O MOSTRADOR OU BtíSSOLA SIMPÁTICA,

ATRAVÉS DO QUAL SE PODERÁ ESCREVER

A UM AMIGO AUSENTE E DAR-LHE A CONHECER

A NOSSA INTENÇÃO, SIMULTANEAMENTE

OU LOGO A SEGUIR

A SE TER ESCRITO.

Trata-se, em suma, de se corresponder por um meio radio-eléctrico que, no século xv, devia parecer terrivelmente inteligente: a agulha cortada em duas de uma bússola (no sentido do comprimento)!

«Mandai fazer duas caixas de aço fino (parecidas com as caixas normais das bússolas do mar) que sejam do mesmo peso, tamanho e forma, com um rebordo suficientemente largo para lá caberem, a toda a volta, as letras do alfabeto. Que haja um eixo no fundo, para aí pousar uma agulha, como em qualquer quadrante. Procurar em seguida entre várias pedras de amianto, fino e bom, uma que tenha, do lado que ficar para sul, uns veios brancos, e a que encontrardes mais comprida e mais lisa •' A betónia, da família das labiadas, é uma planta comum no Sul da França.

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mandai-a cortar em duas partes, o mais direito possível, para assim terdes duas agulhas para as vossas duas caixas. É preciso que sejam da mesma espessura e do mesmo peso, com um pequeno buraco para assentar no eixo, em equilíbrio. Estando isto preparado, dai uma destas caixas ao vosso amigo, com quem vos quereis corresponder, e marcar-se-á uma hora em certo dia da semana, ou mesmo uma hora todos os dias, se o desejardes.



É necessário estar já em casa um quarto de hora, meia hora, ou mesmo uma hora antes .da que foi combinada, e pousar logo a agulha no eixo da caixa e olhar para ela todo o tempo. Tem de haver uma cruz, ou qualquer outra marca no começo do alfabeto, a fim de ver, quando a agulha estiver sobre essa marca, que tendes os dois intenção de falar, pois é preciso que ela se desvie por si, depois de o amigo que estiver longe a ter colocado de novo, antes de começar, sobre essa marca.

Assim o amigo, para dar a conhecer a sua intenção ao outro, rodará a agulha sobre uma letra e, ao mesmo tempo, a agulha do outro rodará até à mesma letra, devido à relação que ambas têm. Quando estiverdes a responder, é preciso fazer a mesma coisa e, logo que tenham acabado, deverá ser posta a agulha sobre a mesma marca. Depois de ter falado, é preciso prestar muita atenção e fechar a caixa e a agulha, separadamente, em algodão, numa caixa de madeira e protegê-las sobretudo da ferrugem.»

PARA TRANSFORMAR O CHUMBO EM OURO FINO

Acontece muitas vezes os jornais darem informações que parecem relevar do supranormal, ou publicarem comunicações provenientes do Além, que é uma agência de notícias extremamente suspeitai

É o caso do bilhete premiado da lotaria nacional, cujo número foi dado a uma senhora, durante um sonho, pelo seu defunto marido ou por um ser particularmente querido.

Como se se pudesse, tranquilamente, comprar por exemplo o n.° 28 753 da próxima extracção, o que supunha o milagroso conhecimento da cidade ou da aldeia onde o bilhete foi pararl

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A alquimia pertence a esse ((misterioso desconhecido» que nos intriga porque não sabemos se, no correr dos tempos, um investigador particularmente dotado conseguiu fabricar ouro e essa pedra filosofal fornecedora de todos os bens, da saúde, da felicidade e do conhecimento.



O livro do Granel Albert dá com precisão o meio de transformar o chumbo em ouro, segundo «o sábio químico Fallopius», aprovado pelos alquimistas de renome que foram Basile Valen-tin e Odomar4.

Segundo o Grand Albert, é este o segredo:

«Imergir uma libra de capa-rosa de Chipre5 numa libra de água de forja, bem clarificada por filtração. A infusão deve ser de vinte e quatro horas, de tal modo que a capa-rosa fique inteiramente liquefeita e incorporada na água. Em seguida, destila-se lentamente por filtração com bocados de filtro bem limpo, leva-se, depois, ao alambique, e conserva-se esta destilação num frasco de vidro forte, bem tapado. Meta-se em seguida uma onça6 de bom azougue purificado no crisol, que se deve cobrir para evitar a evaporação. E quando se pensar que começou a ferver, junta--se-lhe uma onça de folhas finas de bom ouro e retira-se logo em seguida o crisol do fogo. Feito isto, pegue-se numa libra de chumbo fino e muito purificado, da maneira que a seguir explicaremos, e, estando fundido, incorpore-se-lhe a composição de ouro e de azougue já preparada; quando tudo estiver bem misturado acrescente-se-lhe uma onça da vossa água de capa-rosa e deixe-se digerir ao fogo, durante um curto espaço de tempo, e quando a composição tiver arrefecido verão que o resultado é ouro e do bom.»

Terá sido o segredo de Fallopius quem valeu, nos nossos

4 Basile Valentin é um dos mais famosos alquimistas da Idade Média, mas, na verdade, não estamos certos da sua existência! É possível que hermetistas tenham utilizado o nome de Basile Valentin (em grego: rei poderoso), para garantir o anonimato. De qualquer modo, verdadeiro ou suposto, Basile Valentin vez evoluir consideravelmente os conhecimentos da química do seu tempo. Odomar, monge francês do século xiv, foi quase na mesma época um alquimista e um químico de grandes conhecimentos científicos.

5 A capa-rosa de Chipre é cinza de cobre, ou sulfato, ou uma oxidação do cobre.

6 Uma onça: 50,59 g.

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dias, uma súbita fama a um elegante antiquário da Place des Vosges em Paris?

Uma revista consagrada às «ciências secretas» e com o nome do alquimista dominicano de quem já falámos afiançou-o no seu número 4.

O herói da aventura, que pretendia ser o verdadeiro conde de Saint-Germain7, fez a sua aparição no nosso século a 28 de Janeiro de 1972, às vinte e uma e trinta, no segundo canal da ORTF, na emissão «O Terceiro Olho».

O CONDE DE SAINT-GERMAIN

Depois de ter feito a pergunta: «o novo» conde de Saint--Germain é ou não o verdadeiro Saint-Germain ou um impostor?, a revista assegurava que era, de certeza absoluta, um iniciado, que se exprimia fluentemente em sete línguas, entre as quais o sânscrito e o chinês, e que escrevia indiferentemente com as duas mãos!

Finalmente, o redactor-chefe dava o seu testemunho honesto, pertinente e desinteressado sobre p ponto principal: o «novo» Saint-Germain fazia transmutações?

— Sim — afirmava o ((jornalista» em questão. — Realizou por cinco vezes, e a última diante de uma equipa de técnicos da ORTF, a transmutação do chumbo em ouro.

((Esta transmutação, filmada ao retardador, não permitiu descobrir nenhum truque, nenhuma manipulação.

É certo que o autor deste espantoso testemunho terminava dando provas de uma prudente reticência e declarava-se a ((igual distância» entre a fé e a dúvida!

A emissão teve um sucesso enorme, porque estava notavelmente apresentada, a representação era de mestre e, do começo ao fim, apaixonante.

' O conde de Saint-Germain: aventureiro, talvez judeu de origem portuguesa, morreu em Eckenfoerde (Slesvig) em 1784. Surpreendeu a corte de Luís XV pelos seus modos pomposos e pela segurança com que contava que vivera no século xvi. Foi expulso de França. Cagliostro gabava-se de ser seu

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O «conde de Saint-Germain», novo, bonito, simpático, sempre rodeado de belas raparigas, provou diante de dez milhões de franceses que possuía o pó de projecção.

É, pelo menos, o que a experiência teria provado se não houvesse sido trucada.

As filmagens tiveram lugar nos escritórios da revista organizadora, numa quarta-feira, dia 5 de Janeiro de 1972, às vinte e uma e trinta, dia e hora escolhidos pelo próprio alquimista, que, segundo as convenções, «não devia tocar em nada».

O material compunha-se de um fogão a gás de campismo e de chumbo, fornecido pela ORTF e controlado pelas «testemunhas».

Para unir as barras do fogão, que estavam muito afastadas, Saint-Germain meteu as mãos no fogo sem se importar nada e efectuou a pequena reparação8.

O recipiente tinha sido trazido pelo alquimista; o apresentador da emissão (e jornalistas, o que não inspira qualquer confiança) colocou' nele três centímetros de chumbo fundido, que, previamente, pôs era contacto com o pó de projecção, que o mago tinha num medalhão pendurado ao pescoço.

O crisol foi fechado e posto sobre o fogão.

Cinco minutos depois retirou-se do fogo e mergulhou-se em água fria.

Finalmente abriu-se: continha um pequeno resíduo escuro (o chumbo?) e um pequeno bocado de ouro.

NÃO HA MILAGRES NA TELEVISÃO

A simpática directora do segundo canal, Jacqueline Baudier, fez-nos chegar o seu ponto de vista sobre este mistério (a nosso pedido):

s Para expor as mãos ao fogo sem se queimar, o Grand Albert dá a receita de um unguento feito de suco de malvaísco, de clara de ovo fresco, de semente de heliotrópio, de cal em pó e de suco de rábano silvestre.

Uma camada de sabão preto seria igualmente muito eficiente.

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«Ref. 383 /JL/MB —Caro Senhor,

Não me parece que este jovem que declara ser o conde de Saint-Germain levante problemas.

Pretende transmutar o chumbo em ouro sobre um fogão de campismo e, efectivamente, o seu golpe de prestidigitação é perfeitamente conseguido.

Poderia, com efeito, abalar algumas convicções se não afirmasse igualmente que tem dezassete mil anos, que vai frequentemente ao planeta Marte, que criou um besouro de dezassete quilos e uma data de coisas mais...

É demasiado...»

Na verdade o conde de Saint-Germain atribui-se uma imensidade de privilégios espantosos.

Conheceu Luís XV, Frederico, o Grande, vive actualmente com Ninon de Lenclos e faz parte dos doze verdadeiros rosa-cruz que dirigem ocultamente o mundo.

É claro que os rosa-cruz9 não acreditam nesta afirmação.

O verdadeiro nome do conde de Saint-Germain é Richard Chanfray, e se realmente não tem o poder de transmutar o chumbo em ouro pode pensar-se que possui, pelo menos, profundos conhecimentos de esoterismo.

A experiência que realizou com sucesso diante das câmaras da ORTF, em pleno século xx, é rica de ensinamentos sobre o que se deve acreditar das transmutações alquímicas realizadas na Idade Média!

Para o professor Rameau de Saint-Sauveur, o taumaturgo «não é o verdadeiro Garoczy-Saint-Germain, mas, dados os seus conhecimentos, é sem dúvida um extraterrestre» 10.

«Mas», acrescenta o professor, «se se trata de um temporal (viajante do tempo) seria desejável que, publicamente, se tornasse luminoso, sem sais luminescentes nem trucagens,

' Os rosa-cruz, herdeiros da tradição de Chrétien Rosenkreuz e dos grandes iniciados, têm a sua escola na seguinte morada: Domaine de la Rose-Croix, 54 e 56, Rue Gambetta, 94190, Ville Neuve-Saint-Georges. A nova morada, a partir de Julho de 1973.será: Ordre rosicrucien AMORC, Château d'Omonville, Le Tremblay, 27110, Le Neubourg.

10 Bulletin du Club Marylen, 25 de Março de 1972, BP 33, 93, Neuilly-Plai-

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unicamente pela ionização dos seus fatos, em função do seu índice temporal.»



Eis pois o enigma do conde de Saint-Germain lançado sobre uma nova pista, que fará as delícias dos amadores do insólito!

O HOMEM VERMELHO DAS TULHERIAS

Nos primeiros anos do século xix, uma personagem estranha, à maneira de Saint-Germain, foi notícia, sob o nome de (Pequeno Homem Vermelho das Tulherias.

A história foi contada em 1863 pelo escritor Christian Pitoisn.

No dia 24 de Dezembro de 1800, depois de ter escapado milagrosamente ao atentado da Rue Saint-Nicaise, Bonaparte foi agradecer ao velho beneditino Guyon, que o prevenira do perigo.

Recebeu do velhote um sobrescrito lacrado que continha o seu horóscopo com a sua prodigiosa ascensão, mas também com o vaticínio da sua queda, facto que de tal modo o indispôs que nunca mais foi ver o amigo astrólogo.

Na noite de 20 de Março de 1804, uma sentinela de serviço no jardim das Tulherias viu uma forma humana, iluminada a vermelho, que parecia voar pelas áleas.

O soldado, depois de três intimações, abriu fogo; a luz que iluminava o fantasma apagou-se e a guarda, alertada, descobriu apenas, quando se dirigiu ao local, uma lanterna há pouco apagada e uma grande capa vermelha.

Soube-se pouco depois a solução do enigma: Guyon, despeitado por já não ser visitado pelo primeiro-cônsul e um pouco desequilibrado, ganhara o hábito de se passear à noite nas Tulherias, envolvido num grande manto vermelho, que, no seu espírito, lhe dava o ar de um hierofanta.

" Christian Pitois, VHomme Rouge des Tuileries, Paris 1863, in —18, V 34817 (BN).

Reza uma tradição que o Homem Vermelho das Tulherias teria avisado Henrique IV de que ia ser assassinado.

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O tiro assustara o desgraçado, que se pôs em fuga deixando atrás a lanterna e a capa. Morreu do abalo, mal chegou à sua mansarda.

— Pobre diabo — teria dito Napoleão ao ter a notícia desse trágico fim. — Não previra isto nos seus livros!

E deu ordens para que Guyon fosse enterrado secretamente, proibindo que se desse a conhecer publicamente o incidente.

Esta seria a história do Pequeno Honrem Vermelho das Tulherias, que teria sido o astrólogo de Bonaparte e de quem os soldados do Egipto fizeram depois uma espécie de génio das Pirâmides, invulnerável às balas e imponderável como um fantasma.

CAPÍTULO VIII

OS RETRATOS MÁGICOS DE BELMEZ DE LA MORALEDA

QUANDO, por acaso ou por uma razão que nos escapa, o «misterioso desconhecido» se manifesta no nosso universo visível, os cientistas sentem-se impotentes para explicar . o fenómeno e preferem ignorá-lo, ou então concluir que não passa de uma fraude. Um caso excepcional, no entanto, parece ter abalado a convicção de muitos racionalistas, o caso de Belmez de la Moraleda, pequeno burgo que se expõe ao sol andaluz, nas encostas da serra Magina.

Situação geográfica: quarenta quilómetros em linha recta (sessenta e dois por estrada) a leste de Jaen.

É aí que Juan Pereira cultiva alguns hectares de cevada e de oliveiras e possui um rebanho de cabras, como a maior parte dos camponeses da região.

É casado em segundas núpcias com Dona Maria Pilar Gomez Camará, que lhe deu dois filhos, Diego e Miguel.

O mais velho é aspirante na guarda civil. Juan e Maria não sabem ler nem escrever, mas são muito estimados na região porque são trabalhadores, sérios e honestos.

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A CASA ENCANTADA

Num dia de Agosto de 1971, Maria Pereira preparava a refeição quando, ao limpar as cinzas do fogão, viu sobre a pedra da lareira uma espécie de desenho que a intrigou.

Varreu melhor o sítio e viu então aparecer como que uma cara, e, de susto, desmaiou.

Voltando a si, supersticiosa como todas as crentes espanholas, imaginou uma manobra do Diabo e, armada de uma serapilheira, começou a apagar a imagem suspeita. Em vão!

Quanto mais Maria lavava e esfregava a pedra, mais nítida e colorida se esboçava uma cara, feminina, com olhos amendoados, sobrancelhas direitas e bem desenhadas, nariz com narinas estreitas e fechadas, boca entreaberta e quase sem lábios.

Os cabelos pareciam apanhados e adivinhava-se a seguir ao pescoço a gola de uma blusa escura.

Pormenor insólito: partindo das narinas, dois traços carregados — dois fios de sangue, talvez — sublinhavam as faces e saíam mesmo do oval perfeito do rosto.

A imagem tinha aproximadamente o tamanho natural, de um cinzento-sépia, com algumas zonas avermelhadas.

Maria, atemorizada, chamou o marido, e depois os vizinhos, e todos, debruçados sobre a lareira, examinaram a aparição fantasmal.

— Quem poderia ter feito este desenho? — perguntou Juan Pereira.

Contudo a pergunta não tinha qualquer sentido, porque era evidente que nem ele, nem a mulher, nem os filhos podiam ser os autores do fresco1.

Uns e outros afirmaram de resto com veemência que eram

1 George Langelaan, no seu livro Les Faits Maudits, conta uma história que tem uma certa relação com a da senhora Pereira. A senhora Euna Lowe, de Nassau (Baamas), viu, antes de terem surgido numa parede da igreja do Tabernáculo da Boa Nova, as imagens de Cristo, de Buda e de uma terceira personagem não identificada.

Nessa mesma noite, a visão ganhava consistência e os rostos revelavam-se em frescos, podendo ser vistos por toda a gente.

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Belmez de la Moraleda. Esta cabeça foi a primeira a aparecer na pedra do fogão

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A laje do fogão da casa encantada, tirada por um pedreiro, foi colocada na cozinha, onde os Pereira põem flores como num túmulo

estranhos à história, tão estranha e incompreensível que em breve começariam a chegar curiosos de Espanha, de Portugal, da Alemanha, de Itália e de França...

UM TÚMULO DEBAIXO DA LAREIRA

Um mês mais tarde, cansado de ser importunado por uma multidão cada vez mais densa e já sem cerimónia, Juan Pereira chamou um pedreiro para cobrir a pedra da lareira com uma camada de cimento de três bons centímetros de espessura.

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As visitas pararam durante algum tempo, mas à medida que o cimento secava, a cabeça do fantasma voltou a surgir do calcário e, por fim, reapareceu tão nítida e colorida como dantes.



Em seguida uma cabeça de velho, magnificamente desenhada, apareceu nas cinzas.

Era de mais para os nervos dos Pereira, que decidiram acabar com aquilo de uma vez para sempre: a laje foi partida em Outubro e o pedreiro, quando cavava debaixo do fogão, descobriu um túmulo bem fundo (dois metros e sessenta), donde retirou, misturados com terra, alguns ossos humanos.

Lembraram-se então de que a casa tinha sido construída no século passado sobre a área de um antigo cemitério do tempo de Filipe IV (1650), o que explicava os restos humanos, mas não fazia avançar o problema.

O buraco foi tapado de novo e o fogão inteiramente reconstruído com cimento fresco.

Parecia agora que a aparição, vencida, renunciava a vir atormentar os homens, e durante um mês nada aconteceu.

Maria tinha mandado pôr, a um canto da cozinha, a laje partida, e, piamente, punha-lhe todos os dias flores, como é costume fazer às pedras dos túmulos.

AS SOMBRAS FALAM

A 15 de Novembro, um novo rosto, maior que o precedente, apareceu no cimento novo. Era menos nítido, mas reconheciam--se-lhe incontestavelmente os mesmos traços.

Levou oito dias a desenhar-se completamente, enquanto, ao mesmo tempo, pareciam nascer nos cabelos uns rostos-miniaturas, com uma guirlanda ou, segundo alguns, acom a disposição de um sistema planetário, cuja figura central era o sol2.»

Todas estas representações são muito expressivas; dir-se-ia que as bocas querem falar, revelar um segredo. Há dor e horror

2 O rosto central parece surgir de uma espiral com movimento centrípeto, enquanto as figuras de querubins lembram um movimento centrífugo, como se estivessem separados da imagem principal.

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1

Belmez de la Moraleda. Cabeça de velho

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nos olhos e nos traços. O efeito é muito desagradável. Todas as caras têm dois sulcos debaixo do nariz.



Chegados a esta fase, os milagres da casa encantada não podiam deixar de suscitar uma intensa curiosidade e trazer a Belmez de la Moraleda, para além dos amadores do pitoresco, os jornalistas e os especialistas das ciências ocultas.

O cura da aldeola, padre António Molina, não quis acreditar no carácter sobrenatural das aparições, mas em contrapartida um futurólogo e radiestesista, Raphael Lafuente, de Málaga, declarou estar absolutamente convencido de que se tratava de uma manifestação do Além, que havia tomado forma material por intercessão de um médium. Mas que médium? Não quis dizer o nome, mas era claro para toda a gente que a morena e tímida Maria não devia — inconscientemente — ser estranha ao assunto.

0 jornal Pueblo fez-se porta-voz da reportagem e enviou para o local, além dos seus repórteres, um arqueólogo, um químico e um especialista de parapsicologia, German de Argumosa, que levava um magnetofone apto a registar ruídos não perceptíveis pelo ouvido humano, o que não deixa de parecer um bocado inquietante!

Como era de esperar o aparelho-milagre de D. German captou à meia-noite, em casa dos Pereira, umas informações interessantes, se pudermos dar-lhes crédito3.

Seria isto o que ficou gravado:

— Lamentos — os transes do amor—uma respiração ofegante.

— Um grito estridente, que parecia ser de mulher.

— Estas palavras: «No habe... mujeres... no quiero... po-

1 As testemunhas que assistiam à gravação — Juan e Maria Pereira e o alcaide de Belmez — não ouviram qualquer ruído ou palavra. Teria, pois, de se admitir que a fita magnética era mais sensível do que o ouvido humano, o que não é geralmente o que se passa, ou então que as ((entidades do Além» gravaram directamente sobre a fita.

Por outro lado,_ salvo uma coincidência fantástica (e porque não?), no caso de as entidades não estarem sempre a falar, German teve uma enorme sorte em captar uma emissão logo à primeira.

Algumas testemunhas, depois de reflectirem, pensam ter ouvido «uma prece à glória do Todo-Poderoso!»

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bre quin co» (não ter... mulher... de... não quero... pobre quinco).

-—Borracho! Aqui no accepto borrachos! (Bêbado! Aqui não se aceitam bêbados!)

— Os gemidos de uma criança moribunda.

— Va con todos los hombres. (Ela anda com todos os homens.)

— Entra, mujer, entra... (Entra, mulher, entra).

Tudo isto, tendo por fundo, escreve o Pueblo, de Jaen, ((ruídos e sons que lembravam o acto sexual, as brutalidades, as bebedeiras, as cenas de lupanar e, sobretudo, horríveis vagidos de bebés. Talvez os massacrassem!»

A CASA É ASSOMBRADA

Estes acontecimentos e estas pseudomensagens enviadas pelas Sombras não deixaram de suscitar comentários e lendas.

«Soube-se que a casa ao lado da dos Pereira, com o número 3, tinha sido palco de fenómenos parapsicológicos.

Um tal Lopez Sanches, primo dos Pereira, vendeu-a porque enquanto lá viveu foi continuamente incomodado por barulhos estranhos, visões fantasmagóricas e deslocações de objectos. Acontecia, por exemplo, os lençóis da cama serem violentamente arrancados.

A casa mudou muitas vezes de proprietários, que se calavam sempre sobre os estranhos incidentes para não prejudicar a venda. Só quando os retratos apareceram na pedra é que divulgaram os factos...

Também se diz que houve um combate mortal entre dois homens no quarto onde se deram as aparições4.»

Naquele pequeno burgo (dois mil e quinhentos habitantes), em breve se disse que os retratos falavam!

* Referido pelo Pueblo e por Lumières dans la Nuit — Mystérieux Objects Celestes, JLes Pins, 43400, Le Chambon-sur-Lignon.

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APARECE UM OUTRO ROSTO



Os nossos amigos Jean e Denise Larroque, de Málaga, foram por sua vez a Belmez de la Moraleda investigar o caso.

((O primeiro rosto a aparecer», escreve Denise Larroque5, «foi recortado da pedra do fogão, sendo essa espécie de fresco colocada junto à parede, sob uma placa de vidro de protecção.

Uma outra placa foi retirada do fundo da chaminé, mas a imagem que aí está desenhada adivinha-se mais do que se vê e parece desaparecer com o correr dos dias.

Representa um velho com umas grandes barbas, notavelmente desenhado, como se pela mão de um Leonardo da Vinci.

Interroguei Maria Pereira.

Esta mulher de cinquenta e três anos parece sincera e repete que as explicações pseudocientí ficas dos jornalistas do Pueblo são destituídas de fundamento.»

— Eu estava a estrelar ovos na frigideira — disse—quando diante do lume, ao nível do chão, apareceu a primeira figura.

Tive muito medo e chamei pelos meus filhos e vizinhos. Tentámos limpar o cimento, mas a imagem permanecia e resistia a todos os detergentes.

Toda a aldeia acredita nestas aparições e tomou partido contra os jornalistas, que, várias vezes, tiveram de abandonar o local sob a assuada dos habitantes.

As gravações de German de Argumosa não são tomadas a sério nem peíos Pereira nem pelos vizinhos, que afirmam que não se ouve qualquer ruído anormal na casa.

Maria Pereira é uma mulher estranha, e parece muito impressionada com o fenómeno.

Os polícias e os habitantes de Belmez, assim como as autoridades locais, julgam-na incapaz de se entregar a uma tal farsa.

Belmez de la Moraleda, bonita aldeia situada numa zona agradável, tem um excelente hotel com um parque, o que incis Denise Larroque é autora de uma obra intitulada La Padène, Village Gàscun, à venda em casa de Mme. Arquilé, 19 Rue A. Daudet, Serillac, 31000, Toulouse.

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tou os cépticos a dizer que o caso podia ser explorado sob vários aspectos para criar uma nova Fátima ou Lourdes!

No entanto, o pároco, padre António Molina, declara a quem o quiser ouvir que o fenómeno é absolutamente estranho à religião.

RAIOS ULTRAVIOLETAS

Como explicar estas estranhas aparições picturais?

Se, bem entendido, pusermos de parte a ideia de trapaça, só podemos, de facto, formular hipóteses, quase todas relativas às comunicações entre o mundo dos vivos e o dos mortos.

Claro que eliminaremos como erróneas ou fraudulentas as gravações em fita magnética, mas é difícil duvidar da autenticidade dos frescos, dado que nenhum dos membros da família Pereira desenha suficientemente bem para ser o autor.

Para o jornal Pueblo, a. explicação seria de ordem científica.

O químico do jornal, Angel Vinas, pensa que as aparições seriam o resultado de uma combinação química de cloreto de prata—Ag Cl — e de nitrato de prata—Ag NO3.

A reacção 2 Ag Cl + 2 Ag + Cl produzir-se-ia sob a acção da luz ultravioleta.

A prata natural pode escurecer em combinação com o hidrogénio sulfúrico — H2S-—que se encontra no ar.

Mas a que milagre se deve que a disposição dos corpos químicos tenha conseguido desenhar rostos humanos?

E como é que os Pereira, simples e iletrados, teriam realizado a operação? Vinas omite a explicação deste mistério!

SUPRANORMAL

A hipótese de uma manifestação supranormal, sem ser absolutamente convincente, é melhor, mesmo para um espírito lógico.

Haveria um médium na família Pereira; Maria, sem dúvida.

Inconscientemente, ((por focalização dos seus pensamentos

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sobre seres desaparecidos», teria conseguido fazer aparecer as imagens.



É a opinião de Joaquim Grau, parapsicólogo, conhecido em Espanha pelo nome de Uttama Sitkari.

No campo da especulação ainda podemos ir mais longe...

Outrora, correntes de ondas de pensamento, emitidas em circunstâncias particularmente dramáticas, puderam encerrar-se numa espécie de nó do tempo (universo singular6) sob a influência de uma fonte exterior de energia, em vez de se propagar no espaço-tempo.

Actualmente, em circunstâncias favoráveis, com elementos químicos disponíveis e a potência catalisadora de um médium, seria possível desenhar uma composição sobre as limalhas de ferro ordenadas na extremidade do íman.

Pode também pensar-se numa composição figurativa de elementos eléctricos movidos pela interpretação e vontade inconsciente de um médium, servindo de detector ou de relais.

A casa dos Pereira (outra hipótese) é um lugar propício para as materializações e para a influência particular das correntes eléctricas, que podiam agir com inteligência e vontade criadora para ressuscitar situações e cenas do passado.

A solução mais espontânea do problema é, com efeito, imaginar a acção de uma força inteligente natural ou sobrenatural (o que é a mesma coisa) para revelar um segredo ou libertar uma consciência, para determinar a relação de um diálogo entre o Além e o Aquém.

CORRENTES TELÚRICAS E MATERIALIZAÇÃO

Debaixo deste ângulo, teria outrora havido gravações magnéticas e fotográficas, através da matéria dita inerte7, de cenas

6 O nosso universo seria (no mesmo sentido) um grande pensamento encerrado num círculo, donde não poderia escapar. Intensas fontes de energia, à sua Volta, assegurariam o fecho do círculo.

' Note-se que o solo da região de Jaen contém mineral de prata e de chumbo: o sulfureto natural de chumbo — Pb S—, que é a galena, cujos cristais são utilizados como detectores em TSF.

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ou de acontecimentos de grande intensidade que se teriam passado nos locais.

Bastou talvez uma excepcional coincidência electromagnética e química para que a gravação se tenha reproduzido (interferência nos comprimentos de onda do tempo?).

A natureza tem uma inteligência e possui uma vontade de se exprimir e de participar na vida e nas inquietações dos homens.

O objecto fabricado, mesmo o cimento, pode manifestar a sua inteligência e o seu pensamento, quando em sintomatização com o meio que o rodeia. É assim que em certos lugares, certos sítios, a comunicação é tão perfeita e harmoniosa, que tudo floresce, se cura e tem sucesso8.

Então, a matéria dita inerte vibra, entra em contacto íntimo com um detector (galena, médium) e, por ele, com o homem, cuja natureza é, de facto, fundamentalmente idêntica à sua.

Os destinos quase paralelos e complementares nessa altura unem-se, e principia um diálogo.

Na crença dos ocultistas, é próprio das correntes telúricas favorecer um tal fenómeno, mas, se estas correntes estiverem ausentes dos locais da materialização, outras forças saberão substituí-las.

UMA CRIAÇÃO DO MUNDO

Pode conceber-se um pensamento encerrado numa espécie de «ferrites orgânicas», as quais, à medida que se forem decompondo e transmutando, assim vão libertando esse pensamento, criador de fenómenos supranormais9.

* O inverso é igualmente verdadeiro.

Quando as correntes telúricas não mudam de lugar, há «predestinação dos lugares»; é assim que o vício se cristaliza à volta de Subure, Montmartre ou em Las Vegas; que o dinheiro quer, em Paris, juntar-se para os lados da Praça da Bolsa; que o comércio é bom no Sentier e que a especulação intelectual tem o seu palco de eleição na margem esquerda.

* É aceite pelos cientistas, e sobretudo pelo físico Jean Charon, que a onda

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Ou então o pensamento, preso num círculo fechado, acaba por ganhar uma energia enorme e criadora (até tornar-se uma espécie de divindade) que engendra a eclosão de elementos materiais inteligentes dotados de uma memória cromossómica ligan-do-os a uma vida anterior.



É como uma verdadeira criação do mundo, e é talvez assim que o universo se cria.

A energia criadora ou pensamento, assim liberta, esboça então uns esquemas (desenhos) relacionados com o pensamento de um universo destruído.

Um processo análogo (acção fisiológico-patológica, histeria) entra na criação natural dos estigmas. Em Thérèse Neuman e nas pessoas neuróticas ou muito crentes, por exemplo.

Thérèse Neuman pensava nas chagas de Cristo, e a inteligência do seu organismo celular (exterior à sua inteligência consciente) reproduzia a imagem nos sítios certos.

Do mesmo modo uma mulher histérica, apaixonada por uma vedeta de cinema, se sonhasse ou aspirasse a uma identificação (o que não é geralmente o caso), poderia fazer aparecer a imagem adorada numa parte do seu corpo.

Poderia ela fazer aparecer essa imagem noutro sitio... sobre uma laje de cimento, por exemplo? Talvez não seja impossível, mas os biofísicos quase não estudaram o caso.

Tratar-se-ia então de um transferi e quase de uma mutação19.

O mistério de Belmez de la Moraleda poderia relacionar-se e depender de um tal fenómeno de transmutação do pensamento e de projecção do desejo.

do pensamento ou da inteligência se pode curvar até se fechar em círculo e se aprisionar a si própria na proximidade de campos de força.

Quando, por acaso ou por necessidade, o círculo se abre, a inteligência ou o pensamento, então, libertam-se. Ler a exposição desta tese no capítulo XIV.

10 Em 1938, a excelente bailarina de estilo hindu Nyota Inyoka conseguiu, apesar de ser de origem vendeana, modelar o seu corpo e a cara, até mesmo o espírito, à imagem de uma verdadeira indiana de Bombaim ou de Tiruchi-rapalli.

CAPÍTULO IX

AGPAOA, O ATRAVESSA-PAREDES

A partir de 1971, circula, nas salas de projecção privadas, um filme a cores que tem intrigado ao mesmo tempo homens de ciência e especialistas do supranormal.

Se a película gravou imagens autênticas, o documentário é seguramente o mais extraordinário que alguma vez foi feito, desde a invenção do cinema. Se se trata de uma aldrabice, custou bem caro, sem fins lucrativos- perceptíveis e, ainda por cima, prova uma ciência do «misterioso desconhecido» que ultrapassa em muito as magias do conde de Saint-Germain.

AS SUAS MÃOS ENTRAM NA CARNE COMO SE FORA ÁGUA

Tony Agpaoa, um filipino de Baguio, vila situada a norte de Manila, efectuou recentemente uma tournée de propaganda mística pela Europa e pelo México.

É, de certo modo, o enviado extraordinário de uma seita do seu país, cujos membros, muito crentes e habituados às disciplinas ascéticas, são todos «salvadores espirituais» ou logurges.

Para eles, Deus, que está em toda a parte, espalha-se em campos de força, para interceder por aqueles para quem o impossível adquire um sentido irrisório. É mergulhando nesse

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Congresso Internacional de Parapsicologia, em Campione, Itália. Da esquerda

para a direita: o engenheiro Ettore Mengoli, o Dr. Giuseppe Crosa, o Prof.

Mareei Martiny, o presidente da Câmara de Campione e o Dr. Hans Naegeli,

de Zurique. Todos confirmam a autenticidade dos milagres

ciai divino que recebem poderes supranormais, entre os quais o de curar a maior parte das doenças.

— Na nossa seita — diz Agpaoa—, devemos ter uma fé inquebrantável e saber que tudo é possível com a ajuda das forças espirituais.

Com estes princípios irracionais e absolutamente contrários às leis de nosso universo, o filipino pratica incríveis intervenções cirúrgicas, que foram filmadas em Manila pelo cineasta Juan Blanche, diante do doutor Naegeli, de Zurique, e de várias testemunhas.

Ora, essas testemunhas, que assistiram às filmagens e viram como decorriam as operações, duvidam agora da objectividade dos seus sentidos e da autenticidade das imagens registadas, de tal modo são fantásticas, autênticos milagres!

Elas mostram um logurge metendo as mãos nuas no interior do corpo do doente e, sem qualquer incisão, extirpando os tumo-
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O logurge (salvador) filipino Tony Agpaoa

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Tumores ou as zonas afectadas. Quando ele retira as mãos a carne fecha-se misteriosamente e não subsiste o menor traço da intervenção praticada.

O doente está curado e, mais espantoso ainda, o autor da maravilhosa proeza nem sequer se dá conta de que a fez.

— São as forças desconhecidas que agem — diz ele — e que comandam os meus dedos.

Compreende-se agora que, mesmo com o filme como prova, as testemunhas perguntem a si próprias se foram vítimas de uma alucinação.

UM ÚNICO PASSO: AS FERIDAS ABREM-SE E FECHAM-SE

As informações que descrevem uma operação a um tumor, filmada em 1971 \ são as seguintes:

«Numa espécie de anfiteatro ao ar livre, quatro escadas no sentido dos pontos cardeais descem até uma pequena tenda (ou altar) muito simples, com quatro grandes entradas, o que dá um campo de visão quase perfeito, com excepção dos cantos dos ângulos.

O logurge desce pela escada norte, o doente pela sul; os pais, ajudantes cirúrgicos, os cineastas e os observadores, pelas outras.

Os cineastas recuam para poder filmar à vontade, utilizando os spots que iluminam a cena. Nada pode assim escapar à objectiva das máquinas e os observadores têm toda a facilidade para controlar a operação.

O curandeiro usa habitualmente uma camisa branca de mangas curtas, fechada à frente com botões. Não tem máscara e, muitas vezes, traz anéis nas mãos nuas2.

1 Na realidade tratava-se de várias operações: duas ao abdómen e à cabeça, e uma ao pâncreas de uma doente diabética.

2 As fotografias que reproduzimos mostram tanto Agpaoa, como o logurge Marcello.

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Antes de efectuar a operação3 recolhe-se e bate, ora na cabeça, ora no plexo solar.



O doente, perfeitamente consciente, deitado no altar arranjado na tenda, puxa roupa por altura do peito; os ajudantes estendem um pano branco e toalhas à volta do campo operatório.

O logurge não parece procurar o ponto onde se encontra o mal, mas as suas mãos começam a mexer nas carnes como um massagista faria, ou então uma cozinheira a preparar massa para bolos.

De repente, enfia os dedos na barriga e, de olhos fechados, entrega-se a um misterioso trabalho.

Retira uma massa sanguinolenta, que se vê distintamente na ponta dos seus dedos sujos até à altura da primeira falange, e passa-a a um assistente.

Um segundo assistente dá-lhe um tampão de algodão, com o qual se limpa cuidadosamente.

Toda a gente pode ver ou pensa ver a abertura feita na carne, onde escorre um bocado de sangue, que se limpa com um segundo algodão.

Em seguida o logurge, no fim da sua intervenção, põe-se a vibrar todo, e tremem-lhe particularmente as mãos, que a pouco e pouco emergem da chaga aberta, de onde sai um fiozinho de sangue róseo muito fluido, seguido^de um líquido transparente. Os dedos afastam-se um pouco mais, a mão passa rente sobre a incisão, em seguida eleva-se e não resta qualquer traço da operação.»

— É espantoso—diz um observador, o doutor E. Mathey.

3 O doutor Edouard Mathey, de Berna, julga (no caso de as operações não terem aldrabice à mistura) que o fenómeno se poderia explicar por uma espécie de enteléquia (de entelekheia = acabamento ou perfeição), onde actuaria a «força vital» dos filósofos aristotélicos ou vitalistas.

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Em cima: operação ao abdómen

Em baixo: operação à cabeça. Agpaoa mergulha o indicador no olho do

paciente

TRÊS OPERAÇÕES SEM LUVAS

Segundo um jornal de Génova4, este é o apanhado de várias intervenções cirúrgicas que se passaram em Itália:

«Vimos», escreve o redactor António Pitasi, «Agpaoa extrair do ventre de um doente um tampão de algodão infectado, esquecido durante uma precedente operação por um cirurgião "científico", sem deixar cicatriz.

Um dos participantes da nossa reportagem foi curado, pelo curandeiro, de dois módulos hemorroidais, de cinco centímetros cada um, por simples penetração no ânus.

Em seguida apalpou-lhe o abdómen e extirpou pelo mesmo processo de penetração directa no ventre, sem luvas, uma aderência que provocava uma oclusão intestinal.

Procedeu a três intervenções sucessivas, sem lavar as mãos, e não houve qualquer infecção.))

AS EMANAÇÕES KIRLIAN

Quando, a 27 de Março de 1971, o doutor Hans Naegeli--Osjord, conhecido médico de Zurique, apresentou o seu filme sobre os ((curandeiros espirituais» no III Congresso Internacional de Parapsicologia de Campione, em Itália, a assistência ficou transida de espanto.

Nunca nenhum especialista do desconhecido, do supranor-mal e do insólito tinha assistido a uma manifestação daquela ordem, que enfileirava com as mais delirantes antecipações de Edgar Poe e de Hyeronimus Bosch.

— As imagens que acabaram de ver foram obtidas sem qualquer irregularidade — disse o doutor Naegeli—, responsabilizo-me pela sua autenticidade.

O filme foi depois projectado várias vezes em Lausana e em Zurique.

4 Rivista Italiana di Metapsichica, Corso Firenze 8, 16136, Génova, Itália, n.o 11, Outubro de 1971.

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Grande plano de uma operação sem luvas

O testemunho do doutor Naegeli-Osjord, psiquiatra, presidente da Schweitzer Parapsychologische Gesellschaft e médico de fama internacional5, é de todo insuspeito quanto à boa fé. Deveríamos aceitá-lo sem reticências e acreditar na palavra do médico, se o racionalismo — quer o queiramos ou não—que condiciona cada um de nós não se insurgisse contra um fenómeno inaceitável para a razão pura.

É verdade que esta razão, por princípio hostil ao milagre,

5 O Dr. Naegeli prepara um estudo sobre o problema dos curandeiros filipinos, que sairá no seu livro Imago Mundi, vol. IV, em fase de publicação.

Ver também um trabalho sobre parapsicologia do Dr. Hubert Larcher, do Institut Métapsychique de Paris, e Wonderhealers of the Philippines, do Dr. Sherman, Londres, Psychic Press, 1967.

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não teme induzir-nos em erro, quando as sacrossantas instituições da ciência são impotentes para dar uma explicação.

É também verdade que, se opomos reticências a crer nos milagres feitos pelos logurges, somos de uma credulidade beata no que diz respeito à ciência: acreditamos nos protões, nos electrões, nos mesões, sem nunca os termos visto

O doutor Naegeli relata assim aquilo de que foi testemunha e que verificou, e o modo como interpreta as intervenções cirúrgicas.

«O curandeiro espiritual», para abrir a carne à distância, emprega o seu dedo, ou o dedo de uma outra pessoa (no caso de lhe dar o poder, que é uma espécie de mana)6.

Prestei-me muitas vezes à experiência, que controlei na presença de duas pessoas que me acompanhavam.

Não se trata de truque.

O fenómeno é idêntico ao das injecções espirituais, no qual o simulacro simbólico de uma injecção com uma seringa provoca um buraco na pele, com ou sem perda de sangue.

Agpaoa e outros trinta curandeiros das Filipinas enfiam verdadeiramente as mãos no corpo dos doentes.

Acredito na autenticidade do fenómeno, que não pode ainda ser totalmente explicado pelas ciências naturais.

Aquilo a que se chama as emanações Kirlian tem provavelmente uma interferência, mas não explica tudo.

As emanações Kirlian teriam ondas de alta frequência, irradiadas pelo psiquismo humano. Não são conhecidas nos meios científicos ocidentais, mas os Russos interessam-se bastante pelo assunto, para ver se conseguem chegar à ablação dos órgãos, ao modo dos curandeiros filipinos.

A CIRURGIA ESPIRITUAL (PSYCHIC SURGERY)

Os logurges filipinos, que praticam a psychic surgery (cirurgia espiritual), são conhecidos no seu país há uns trinta anos.

8 O mana é um poder misterioso atribuído às estátuas da ilha de Páscoa. Corresponde à kundalini dos hindus e ao fluido de certos taumaturgos.

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Os seus métodos foram estudados a partir de 1960 pelo doutor Hiroshi Motoyama, de Tóquio, pelo inglês Sherman, por médicos russos e pelo doutor Naegeli.



Todos estes especialistas afirmam categoricamente a autenticidade do milagre.

O único ponto escuro da questão era o comportamento de Agpaoa, que comercializaria o seu poder.

Segundo informações vindas do México, o curandeiro não estipulava honorários, mas aceitava ofertas que iam de cinquenta a quinhentos dólares por operação. Além disso, organizara um importante serviço de charters para os seus clientes, com destino a Manila.

No Brasil, um curandeiro ((espiritual» chamado Zé Arigo opera de maneira quase análoga, mas em estado de transe, e ser-vindo-se de uma faca muito afiada como bisturi.

Zé Arigo pretende ser telecomandado pelo espírito de um médico alemão morto no Rio de Janeiro em 1944, o «doutor Fritz», nome que parece não ser estranho, antes banal e pouco sério!

As operações praticadas pelo brasileiro foram no entanto controladas pelo professor americano A. Puharich, mas há, na realidade, poucas informações sobre este caso.

O doutor Naegeli, pelo seu lado, acredita no milagre dos curandeiros filipinos, e afirma que as operações fazem-se sem assepsia, sem anestesia, em doentes acordados, sem a ajuda de um bisturi, unicamente através da mão que procede às ablações e à terapêutica de cura instantânea.

É verdade, disse, que a mão mergulha directamente no corpo como se fosse um fluido, e extirpa os tecidos doentes e os tumores; quando sai, a carne volta a ficar intacta, sem cicatriz nem hemorragia.

UMA HERANÇA DOS EXTRATERRESTRES?

Esta ciência, totalmente fora das normas dos conhecimentos clássicos, sendo embora inexplicável pelas nossas palavras e inaceitável pela nossa consciência, infere talvez de uma ciência

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extraterrestre, legada há uns milhares de anos por Iniciadores vindos do céu.



Efectivamente, os curandeiros filipinos actuam em virtude de segredos transmitidos por tradição aos feiticeiros igorots das ilhas do Norte, que, há quinze mil luas, foram visitados pelos deuses Kabunians, vindos do céu em bolas voadoras.

Foi depois dessa época que passaram a andar impunemente sobre o fogo e a praticar a sua cirurgia milagrosa, pelo único poder das forças biomagnéticas das suas mãos.

Segundo o doutor Naegeli, não entram em transe — salvo excepções—, mas preparam-se (como para andar sobre o fogo), entoando cânticos durante uma noite inteira e rezando durante um dia.

As intervenções nunca excedem dois ou três minutos.

«Por vezes», diz o médico suíço, «extraem do corpo enfeitiçados pêlos, fios, objectos de plástico e, até, dentes de alho!

Eu próprio vi um curandeiro tirar da nádega de um doente três dentes de alho. Guardei um, como recordação.

É possível que algumas operações tenham truques, mas quanto a mim só muito raramente é que isso acontece, e nunca na capela das invocações espirituais; onde as intervenções são todas incontestavelmente honestas e verídicas.

De resto é sempre possível verificar, examinar: os curandeiros não se opõem, antes pelo contrário, a esse género de controle. »

LEVANTA-SE UMA PONTA DO VÉU

O doutor Naegeli levanta talvez uma ponta do véu ao apresentar as intervenções sob uma luz especial que, de facto, deve reflectir a verdade, pelo menos no campo da cura.

Em resumo, tratar-se-ia de operações puramente psíquicas que fariam intervir uma ciência paranormal e umas dimensões — se não um universo — que os físicos não conhecem, mas que, por vezes, os matemáticos e os biologistas abordam.

«Há várias espécies de intervenções», precisa o doutor Naegeli. «Alguns curandeiros não cortam a carne, nem pelo

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milagre das emanações Kirlian nem com um bisturi. Tudo se passa como num universo paralelo.»

Os cirurgiões espirituais desmaterializam o mal7, um tumor, por exemplo, que, transmutado em ondas ou em partículas suba-tómicas extremamente penetrantes, do género dos neutrinos8, atravessa a carne e a pele para se rematerializar exteriormente, no nosso universo conhecido, sob a forma de suor.

Essa purulência fixa-se então numa cavidade que aparece espontaneamente, geralmente na parede do abdómen.

O conjunto destes fenómenos, admitidos unicamente em metapsíquica, comportaria assim uma desmaterialização, uma transmutação, uma telepsinesia e uma rematerialização.

O mesmo processo entra também nas experiências metapsí-quicas com os médiuns, e o médium é quem cura.

O doutor Naegeli sugere, para explicar esta espécie de milagre, a intervenção de uma corrente bioeléctrica que emana do «operador», particularmente dos seus dedos. Essa corrente, pouco estudada nos meios científicos, seria o elemento complementar e indispensável para que um efeito supranormal se produza.

Os Indianos chamam a esse poder misterioso a kundalini, que está desenvolvido nas chacras, ou centros espirituais, situados na espinal medula.

«Seria de desejar, no próprio interesse da ciência contemporânea», diz o doutor Naegeli, «que esta cirurgia espiritual, exercida por seres sem intelectualidade desenvolvida, fosse estudada e verificada pelos biologistas, o que alargaria sem qualquer dúvida os limites ainda estreitos dos nossos conhecimentos racionais.»

7 As testemunhas das experiências viram só duas ou três vezes os curandeiros tirarem tecidos correspondentes a lipomas ou outros tecidos da medicina clássica.

Os neutrinos são partículas subatómicas de massa praticamente nula que atravessam todos os corpos opacos.

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ILUSIONISMO E MAGIA



Nas tribos da Amazónia e, sem dúvida, nas de África e da Oceânia os feiticeiros extraem, aparentemente da mesma maneira, o mal que existe num doente.

Mostram com ostentação um bocado de carne sanguinolenta, que se supõe terem tirado do corpo do paciente, e os espectadores destas cenas mágicas, geralmente crédulos e pouco evoluídos, estão prestes a jurar pelo bom resultado da operação 9.

Testemunhas mais circunspectas divulgaram o logro, que se reduz a um simples truque de prestidigitação.

Em França, houve outrora curandeiros que imitavam Agpaoa e talvez pratiquem ainda a sua arte, que sem dúvida alguma é feita sem truques.

A senhora R., de Isle-Jourdain (Vienne), contou-nos que, quando o marido era novo, tivera no pescoço, quase junto à veia jugular externa, uma grande inflamação que parecia uma bola.

Foi ver um curandeiro—já morto—da aldeia dos Ages, que, dizendo poder curá-lo depressa do mal, tirou da algibeira uma faca visivelmente afiada com cuidado.

Como o jovem tivesse medo, pensando numa incisão, o homem disse-lhe:

— Nada temas, porque nem te vou cortar, nem picar. Se quiseres podes até pôr a tua mão sobre a inflamação.

O curandeiro, a uma dezena de centímetros da carne, mimou uma incisão ou então fez um gesto mágico. E disse depois:

— Podes voltar. Quando chegares a tua casa, sairá o mal que tens e ficarás curado.

Apenas uma hora depois, o senhor R., quando entrava em

' O professor italiano Granoni, neurocirurgião, mandou analisar o «sangue» que os logurges fizeram sair através da incisão «espiritual»: não era sanguel

No entanto, no Japão, certas análises foram positivas; noutras tratava-se de sangue de porcol

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casa, sentiu uma coisa quente a escorrer no pescoço. Levou a mão lá e tirou-a cheia de sangue.

O abcesso, ou melhor, a inflamação, supurava, rebentava e o pescoço, em pouco tempo, ganhou o aspecto normal.

OS RACIONALISTAS CONTESTAM

Julgamos ter exposto com honestidade os factos e as explicações dadas por aqueles que assistiram às intervenções cirúrgicas dos curandeiros filipinos.

Essas operações milagrosas, fornecidas pelas imagens de vários filmes feitos, quer por Juan Blanche, quer pelo cineasta M. Fuchs, suscitaram reacções contraditórias.

É claro que os racionalistas—e talvez não se enganem — só falam em fraude e não aceitam que as leis rígidas da ciência sejam assim um fracasso.

No estado actual das nossas experiências e dos nossos conhecimentos científicos, dizem, é impossível que uma mão possa penetrar num corpo como se este fosse um fluido ou uma massa mole.

Isso seria acreditar no atravessa-paredes e na permeabilidade de qualquer substância, o que é inaceitável para um físico.

Podem os logurges passar o braço através de uma parede, ou de um tanque blindado? Se podem, que o façam: é claro que não o fazem!

No entanto viu-se, num filme de Fuchs, Tony Agpaoa, quer com o dedo espetado, quer com a ponta da língua, mas sem tocar no objecto, cortar uma tira adesiva com sete centímetros de largura, e feita de quatro camadas sobrepostas.

Se esta relação é exacta, como conciliar as explicações dadas: as emanações Kirlian, eléctricas, ondulatórias, supostas de alta frequência, e o fenómeno, parecendo totalmente diferente, da desmaterialização e da rematerialização?

Assim raciocinam aqueles que contestam o facto e, porque não, o milagre!

Sendo assim, se quisermos acreditar, somos forçados a pensar num ((misterioso desconhecido», num poder que seria dado aos

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«cirurgiões espirituais» com possibilidade de o transmitir, como aconteceu com o doutor Naegeli.

Quem conferiria esse poder? Deus ou os Kabunians da Antiguidade?

E por que razão é que esse deus, ou as entidades desconhecidas, que seriam emanações suas, não o deu ao papa? Porque não o deu a Jesus ou aos santos das várias religiões?

O probíema é um verdadeiro quebra-cabeças chinês, sem explicação satisfatória: os racionalistas negam os factos, mesmo quando deles foram testemunhas, os crentes fiam-se na autenticidade do seu testemunho visual e nas experiências de que foram alvo, mas nenhum, quer num extremo, quer no outro, tem a certeza da sua opinião!

NÃO PASSA DE UM SIMULACRO...

Voltamos a repetir que não duvidamos da sinceridade do doutor Naegeli, que é incontestavelmente um cientista, mas no entanto alguns pormenores fazem-nos reflectir, no sentido da dúvida.

Não há unidade nas explicações: ora se corta a carne, ora a operação se reduz a um simulacrp com processos de intervenções supranormais.

Não há nunca ablação de um órgão, como o corte do intestino, por exemplo10.

É ilógico que as células e as fibras doentes se condensem numa bolsa purulenta por milagre. Devia sair tudo no estado imaterial e conservar esse estado para melhor desaparecer!

Encontrar pêlos, fios, cabelos e objectos de plástico no corpo de um doente deve ter dado que pensar ao médico de Zurique; mas extrair três dentes de alho, caídos não se sabe como no

10 Teria, nalguns casos, havido ablação. Alguns jornais alemães chegaram a dizer que Agpaoa operava sobre simulacros de carne em plástico, dispostos sobre o corpo dos doentes, com o seu consentimento ou sem o saberem. As fotografias não parecem comprovar esta tese.

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músculo chamado grande glútio, isto é que revela, sem qualquer dúvida, prestidigitação e charlatanice clássica e sem jeito.

Apesar de tudo, estes ((cirurgiões espirituais» de Manila são desconcertantes I

A testemunha destas fontes de querela foi, neste caso pelo menos, iludida, e esta verificação traz uma mancha indelével sobre o conjunto dos fenómenos.

É certo que o doutor Naegeli deixa por vezes transparecer a sua incerteza, por exemplo, quando diz que ((algumas raras operações são feitas com truques», e chega a reclamar o controle dos biólogos.

E, finalmente, há o comportamento estranho de Agpaoa; ele, que tanto reclama o seu espiritualismo, que é de algum modo o mensageiro da sua seita—e sem dúvida que o angariador—, não receia comprometer-se em negócios do mais impuro materialismo!

Além disso—teria de se verificar, bem entendido—, a acreditarmos nas informações vindas do México, muitos ((clientes» do salvador afirmam ((que ele é um charlatão, que finge que opera e ilude, manipulando com habilidade entranhas de animais» ".

Estamos portanto diante de uma alternativa: ou acreditamos no doutor Naegeli e nos médicos que, como ele, com a mesma honestidade, controlaram as operações milagrosas, ou pomo-nos do lado das personalidades científicas que, em bloco, negam a autenticidade do filme e das intervenções cirúrgicas.

É certo que um hábil ilusionista, como o célebre Kassagi, em França, poderia facilmente substituir Agpaoa, excepto conseguir as curas, no caso de existirem.

É não menos certo que o ((misterioso desconhecido» dos poderes humanos e da ciência intrínseca, muito diferente da ciência condicionada das disciplinas oficiais, escapa à nossa percepção e encontra na nossa civilização uma hostilidade absurda.

11 Informação fornecida por La Tribune de Genève, de 18-9-1972. Em contrapartida, em Zurique, quatro pessoas operadas em Manila testemunharam a favor da eficácia das intervenções, qualquer que fosse a sua natureza.

A senhora Sangemann, assistente médica alemã, que conduz grupos de doentes às Filipinas, assistiu a mais de três mil operações, sendo setenta e dois por cento com sucesso.

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E como deixar de desejar a vitória de Agpaoa, do milagre enfim demonstrado, e a chegada dos tempos em que o homem, de regresso ao que talvez tenha sido a sua via originária, saberá passar como um neutrino através das paredes e ver com os seus olhos os mistérios dos universos escondidos!

A MÚMIA DA CRIPTA HERMÉTICA

À margem desta história de penetrabilidade da matéria, tem interesse lembrar uma outra que diz respeito à pequena múmia americana de Pedro Mountain.

O grande enigma, num romance policial, é o ((mistério da câmara fechada»: um quarto fechado à chave pelo lado de dentro e a vítima por terra, apunhalada no coração por um golpe certeiro!

Por onde passou o assassino? Como pôde cometer o crime?

Pois bem, o ((misterioso desconhecido» na natureza oferece--nos, sem ser o caso das Filipinas, enigmas do estilo para descobrir.

Em Outubro de 1938, uns operários que trabalhavam numa pedreira de Pedro Mountain12, nos Estados Unidos da América, rebentaram uma mina numa falésia monolítica de granito que não apresentava nem falha nem fenda, pois tiveram de fazer um buraco com a perfuradora, para introduzir a carga de dinamite.

Caíram uns blocos no fundo da pedreira e descobriram na parede a pique uma gruta de cinco metros de comprimento.

Desceram dois homens e, para sua total surpresa, encontraram, sentada no chão, uma pequena múmia com vinte e dois centímetros de altura, com uma pele bronzeada, a testa pequena e o nariz chato.

O conservador do Museu de Boston, a quem foi levada para ser examinada, declarou que era âo tipo das que se encontram no Egipto, com a particularidade de não estar envolvida em faixas.

12 Pedro Mountain fica a cem quilómetros de Kasper, no estado de Wyo-

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O professor Henry Fairfield deu a esta múmia o nome de hesperopithecus13 e classificou-a entre os hominídeos que viveram no Pliosceno, período terminal da Era Terciária, que vai de menos dez a um milhão de anos.

A sua tese não foi aceite pelos especialistas da Pré-História e a pequena criatura ficou esquecida na montra de um museu dos Estados Unidos14.

É certo que se pode contestar os milhões de anos de idade que se dá à múmia, mas como se explica que haja podido ser depositada—ou que tenha vivido — numa caverna situada no meio de um maciço de granito compacto?

Como foi possível entrar naquela cavidade hermeticamente fechada}

Voltamos então ao milagre de Agpaoa, a um ((misterioso desconhecido» que troça do nosso racionalismo: a incrível possibilidade que alguns seres teriam de passar através da matéria densa, de ser atravessa-paredes.

13 Hesperopithccus: macaco do poente, ou melhor, macaco das Hespéridas.

14 O Sr. Enrico Luigi Boni, de Verona, possuiria uma fotografia da múmia e a morada do museu onde se encontra.

CAPÍTULO X

0 MISTERIOSO DESCONHECIDO DO FOGO

SE meter a mão através do corpo de um paciente, como parece fazer Agpaoa, é um inacreditável milagre, que pensar então dos seres extraordinários que têm o poder de dormir sobre o fogo sem se queimar!

Testemunhas dignas de fé confirmam esta outra forma do impossível, mas antes de abordá-lo parece-nos indispensável lembrar uma antiga tradição e umas combustões misteriosas que têm uma certa relação com o assunto.

INCÊNDIOS ESTRANHOS

Há 2550 anos, o grande rei Nabucodonosor II mandou —conta a lenda—erigir uma estátua de ouro, diante da qual toda a gente na Caldeia se devia prostrar.

Ananias, Mizael e Azarias, três jovens hebreus cativos na Babilónia, recusaram vergar-se a esse costume e foram lançados a uma fogueira ardente, que devorou os soldados idólatras encarregados de manter a fogueira acesa.

Quando se extinguiram as chamas, os três hebreus saíram vivos da fogueira, ilesos e a cantar acções de graças a Jeová: o Senhor tinha-os protegido!

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Nabucodonosor, impressionado com aquele prodígio, cumulou os milagrosos de presentes e proclamou o poder do verdadeiro Deus!

Infelizmente o milagre não se reproduziu para os infelizes mandados para os fornos crematórios de Auschwitz ou calcinados pelo napalm no deserto do Sinai.

O grande incêndio de Chicago, na noite de 8 para 9 de Outubro de 1871, também não poupou vidas humanas e continua a ser um mistério por esclarecer.

Vários fogos surgiram um pouco por toda a parte da cidade, como se tivessem sido acesos por malfeitores ou por... anjos exterminadores!

Seguiu-se uma verdadeira ((tempestade de fogo», que projectava umas luzes assustadoras vermelhas e verdes, absolutamente sobrenaturais.

((Nunca se encontrou a causa ou a sombra de uma explicação», escrevem J. W. Sheahan e G. P. Upson'; ((qualquer coisa, no ar, alimentava este fogo, que não era como os outros.»

A 2 de Julho de 1951, a senhora Reeser — setenta e oito anos—, de São Petersburgo, na Florida (E. U.A.), morreu queimada no seu apartamento, em condições extremamente intrigantes.

Junto da janela aberta, foi encontrada a sua grande poltrona, ou antes, o que dela restava: as molas ainda estavam quentes; uma tomada e umas velas, colocadas em cima da lareira, derre-teram-se, o vidro de um espelho tinha-se estilhaçado e as paredes a partir de um metro de altura estavam cobertas de fuligem ou de marcas de um violento calor.

Da senhora Reeser restavam apenas cinco ou seis quilos de cinzas, o pé esquerdo, algumas vértebras e o crânio encarquilhado.

Outro facto estranho: à parte uma pequena marca de queimadura, o tapete onde repousavam estes restos, ainda fumegantes, estava intactol

O médico-legista local, professor Wilton Forgman, declarou

1 J. W. Sheahan e G. P. Upson, History of the Great Conflagration. Arderam dezassete mil e quinhentas casas no incêndio de Chicago.

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que nunca na sua vida havia encontrado um caso tão incompreensível.



Seria necessário uma temperatura de mil e quinhentos graus centígrados para obter um tal resultado. Mas que dizer do tapete e dos objectos não queimados que se encontravam na parte baixa do quarto, ou seja, ao nível do soalho e até um metro de altura?

FOGOS MISTERIOSOS

Segundo a Agence Française de Presse, foram observados e controlados vários casos de combustão espontânea de corpos humanos.

Em 1930, um investigador americano, Peter Vesey, que estudava este fenómeno, foi descoberto pela mulher inteiramente queimado, mas nada no seu escritório tinha sido atacado pelo fogo.

O mesmo aconteceu a bordo do navio inglês Ulrich, ao largo das costas da Irlanda: o corpo do piloto, John Greenley, estava completamente queimado, mas não os sapatos, e os instrumentos de navegação, ao alcance da sua mão, não haviam sofrido a acção do calor.

No mesmo dia — coincidência ou sinal — um camionista morreu carbonizado no seu camião, que caíra por uma ribanceira, mas na cabina onde o cadáver foi encontrado não se viu nenhuma marca de incêndio!

Muitos outros incêndios parecidos, igualmente misteriosos e com efeitos incompreensíveis, poderiam ser citados, sem por isso trazerem a menor luz ao mistério.

Charles Dickens, no seu livro Bleak House (1852), afirma que estudou trinta casos de combustões deste género.

Para um corpo humano arder é necessário submetê-lo durante várias horas a uma temperatura de mil graus pelo menos.

Na Índia, no Nepal e no Ceilão utilizam-se grandes fogueiras, frequentemente regadas com líquidos inflamáveis, para incinerar os corpos dos defuntos, e, mesmo assim, a maior parte dos ossos não arde.

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JUÍZOS DE DEUS OU DO DIABO?



A inofensiva salamandra era tida antigamente como incombustível e deu-se o seu nome ao amianto, silicato de cálcio e de magnésio, que tem verdadeiramente essa propriedade.

Ora além das «marchas sobre o fogo», que são autênticas nos Búlgaros e nos povos das Filipinas, da Oceânia e da África, parece que mesmo no nosso Ocidente há uns seres humanos que podem impunemente viver durante muito tempo nas chamas, sem ser aparentemente incomodados.

Este ((misterioso desconhecido» é tão inacreditável como o de que Agpaoa é o herói, e no entanto, como para o feiticeiro-opera-dor, é difícil duvidar dos controles oficiais que foram feitos do fenómeno.

Já na Idade Média se assistia aos Juízos de Deus, ou ordá-lios, que teriam demonstrado o estranho poder, quer da divindade, quer dos condenados às provas.

A maior parte das vezes, tratava-se de segurar com a mão uma barra de ferro benta, de aproximadamente três libras, que, segundo a importância da falta (e da posição social do acusado), se aquecia, por vezes até estar em brasa.

Passava-se normalmente na igreja, onde aquele que se submetia à prova jejuava durante três dias, ouvia a missa e comungava.

Depois de ter solenemente jurado que estava inocente, devia pegar na barra ardente, o tempo de dar alguns passos.

Se, ao fim de três dias, não tivesse marcas de queimaduras, era declarado inocente.

Por vezes, era necessário atravessar o fogo.

Citava-se o exemplo de Pedro ígneo ou Pedro do Fogo, religioso de Valombreuse (Itália), que em 1603, vestido com os hábitos sacerdotais, passou são e salvo por um braseiro ardente, no meio de duas piras acesas, e voltou de novo para buscar o manipulo (tira de tecido que os padres usam no braço esquerdo), que deixara cair.

Estrabão (Livro XII) fala das sacerdotisas de Diana que

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andavam sobre brasas, sem se queimarem, para provar que eram puras.

Santo Epifânio conta que uns padres do Egipto esfregavam a cara com certas drogas, e em seguida mergulhavam-na em caldeiras de água a ferver, sem parecer sentir a menor dor.

Diz a lenda que um «charlatão», chamado Gaspard Toura-vant, corria as províncias, no século xvm, lavando as mãos com chumbo fundido, como se fosse água.

Já é ironial

Charlatão, o homem que lava as mãos com chumbo fundido (trezentos e vinte e sete graus)?

Apesar de tudo, como diz o bom senso popular, é preciso fazê-lo!

O médium inglês Home, diante dos convidados de Miss Douglas, transportou assente num lenço, o qual não ficou queimado, uma brasa que atiçava soprando-lhe em cima.

Ilusionismo? Talvez, mas mesmo assim era preciso prová-lo!

O DIÁCONO PARIS

Já não estamos no século da fé.

Um crente, mesmo sendo o papa, não teria com certeza a coragem edificante de caminhar sobre o fogo! O que se passa em Lourdes é ridículo, irrisório, e o único milagre é conseguir lá chegar sem acidentes de estrada ou de caminho de ferro, mas no século xvm ainda havia homens e mulheres com uma fé invencível: os jansenistas.

Claro que foram perseguidos pela Igreja, o papa lançou-se contra eles e publicou a bula Unigenitus2, que devia impor a verdade nua, romana, apostólica e obrigatória.

Houve então disputas apaixonadas, perseguições religiosas e, como sempre nestes casos, não tardaram a produzir-se milagres.

1 A bula Unigenitus, promulgada pelo papa Clemente XI, impunha a regra papal a propósito de uma querela fútil que opunha os jesuítas aos jansenistas.

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«Quando se está à espera de prodígios», escreve M. H. Martin, «eles acabam sempre por aparecer I»



E apareceram pela intercessão do diácono Paris, devoto ascético e de êxtases, muito oposto à bula do papa, já que era jansenista.

Na verdade, o bom diácono era a caridade em pessoa; desfa-zia-se de tudo em favor dos pobres e dava muitas vezes o seu bocado de pão quotidiano a quem ainda tivesse mais fome do que ele.

O seu objectivo era interesseiro, de acordo: ganhar o paraíso, mas ainda aqui... «é preciso fazê-lo»!

Em conclusão, quando Paris morreu — a 1 de Maio de 1727 — no seu quarto do Faubourg Saint-Marceau, enquanto a perseguição atingia o paroxismo, o fanatismo dos jansenistas «exaltou-se, passou a delírio, loucura e mais tarde loucura depravada» 3.

Foi a época dos famosos convulsionários.

Os doentes vinham estender-se sobre a campa do diácono, deitavam-se sobre a terra ((sagrada», comiam-na e atribuíam-lhe virtudes curativas extraordinárias e divinas.

OS MILAGRES DA HISTERIA

Houve curas ditas milagrosas, o que provocou um afluxo fantástico de crentes, de leprosos, de cegos, de paralíticos.

((Vibrações eléctricas corriam por aquelas multidões animadas pela mesma paixão»: os egrégores, bem conhecidos dos ocultistas.

Punham-se então de pé umas mulheres com a cara transfigurada, outras desatavam a soluçar ou davam gritos estridentes... Em seguida chegava, nessa multidão super-sensível, a hora das crises de nervos, dos espasmos convulsivos, das exaltações seguidas de êxtases.

Finalmente, no auge do tónus histérico, os doentes, os para-

3 Michelet, Histoire de Trance.

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líticos, os inválidos, levantavam-se e andavam, os cegos viam, os mudos recuperavam a fala!



Diz-se mesmo que doenças estranhas ao sistema nervoso, tais como cancros e úlceras, desapareceram subitamente.

Estes factos, estes milagres, estão relatados nos escritos do cardeal de Noailles, arcebispo de Paris, ((homem de caridade, de fé e de compaixão».

As exibições feitas pelos convulsionários tornaram-se para o fim indecentes e cruéis.

((As mulheres», escreve H. Martin, ((tiveram o principal papel nestas cenas em que se combinavam as excitações histéricas e os fenómenos de insensibilidade, que, habitualmente, se relacionam.»

Nos nossos dias, na peça Hair e nos surboums de Saint-Ger-main-des-Près, dão-se as mesmas histerias e os mesmos casos de insensibilidade, quase de invulnerabilidade, poderia dizer-se.

No cemitério de Saint-Médard, as mulheres ladravam, miavam ou saltavam, «deixavam que lhes pisassem o corpo, e as espancassem, submetiam-se à prova do fogo e a mil outras torturas e pretendiam encontrar nisso divinas consolações)).

MULHERES NUAS CRUCIFICADAS

Pessoas armadas com adagas e com barras de ferro trespassavam os próprios membros, sem ter qualquer precaução de assepsia, é claro, e nunca dai resultaram mortes nem mesmo infecções.

Outras rebolavam-se nuas no fogo dos braseiros, donde saíam a espumar, com os olhos exorbitados, em delírio, mas sem queimaduras.

«Viu-se quatro ou cinco homens de pé, com todo o peso sobre o corpo de uma rapariga estendida por terra, a quem em seguida bateram com achas sem que ela tivesse sentido a menor dor.»

Várias mulheres bonitas, e ainda mais belas na sua transfi-

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guração, quiseram absolutamente ser crucificadas nuas, à imagem de ((Nosso Senhor».

Deixaram que lhes espetassem umas tachas nas palmas das mãos e que lhes pregassem os pés amarrados um ao outro, sem parecer sofrer, enquanto o Messias, talvez menos crente do que elas, «sofreu um martírio pavoroso»4.

Umas tantas crentes exaltadas pediram várias vezes a seguir que as crucificassem, foram várias vezes pregadas à cruz «para resgatar pela sua penitência a conduta depravada de Luís XV e da sua corte de nobres debochados, sem escrúpulos e sem consciência, mas adeptos da bula Unigenitus.»

Voltaire escreveu um juízo sumário sobre estas cenas, cujo carácter, histérico e ao mesmo tempo esotérico, desafiava a sua sagacidade.

((Sabeis», escreve Voltaire, «o que é um convulsionário? É um desses energúmenos da ralé popular, que, para provar que uma certa bula do papa está errada, vai fazer milagres de terra em terra queimando umas rapariguinhas sem lhes fazer mal, batendo-lhes com achas e chicotes por amor de Deus, e clamando contra o papa.»

DEUS PROIBIDO DE FAZER MILAGRES

Os convulsionados eram uns histéricos, uns possessos, uns mártires, uns inspirados?

Talvez fossem, mas, apesar de tudo, restava tentar explicar os seus milagres!

Porque havia milagres, verdadeiros milagres, estúpidos, inúteis, inacreditáveisl

Estes histéricos em convulsões tinham necessidade de remé-

4 É curioso notar que todos os anos, tradicionalmente, e em mil ocasiões diferentes, há homens que se divertem ou se condenam a ser crucificados como Jesus teria sido. Não parecem sofrer com essa experiência, inútil e estúpida, na realidade.

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dios, de «medicinas», de socorros, como se dizia para estes casos particulares, e davam-se-lhes de duas espécies: os grandes e os pequenos!

Os grandes socorros consistiam em golpes de acha, de martelo, de espada, sobre o corpo e em diversas partes.

Os pequenos socorros, menos eficazes, análogos, poderia dizer-se, à homeopatia dos nossos tempos (tudo é relativo!), limi-tavam-se à aplicação de umas pauladas, pontapés, socos, pisadelas, bofetadas e outras pancadas.

Por necessidade de consolação, uma mulher fazia-se dar cem golpes de acha na cabeça, na barriga ou nos rins.

((A outras, com o seio tapado, torciam-lhes os mamilos com pinças, ao ponto de cortar as ramificações.»

Neste pesadelo de actos de loucura e de histeria, parecia que verdadeiros milagres se tinham dado, pois que isso foi discutido em pleno Parlamento. Os teólogos e os doutores da Sor-bona, por sua vez, examinaram os caracteres, as causas e os resultados, e não querendo atribuir a Deus a paternidade dos fenómenos afirmaram «que o Demónio tinha uma certa força sobre a natureza, e, até um certo ponto, o poder de fazer prodígios».

Os jesuítas acabaram por proibir as cenas alucinantes do cemitério de Saint-Médard, o que permitiu aos brilhantes espíritos jansenistas, apesar de tudo, a" última palavra, com um célebre epigrama:

QUE DEUS NAO FAÇA, ORDENA O REI, MILAGRES SOBRE ESTA GREI

MARIE SONNET DORME SOBRE O FOGO

Se o caso de Agpaoa fascinou os Suíços e os Italianos e provocou uma legítima suspeita, o de Marie Sonnet, «a Salamandra», foi ainda mais extraordinário e devemos perguntar se, desta vez, o milagre não era real.

A história foi contada pelo conselheiro Carré de Montge-

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ron5, que viveu no tempo dos convulsionários, e mais recentemente por Olivier Leroy6.

Assim, por volta de 17S0, uma rapariga do povo chamada Marie Sonnet, aderente à heresia jansenista, ultrapassou em proezas as já bem fantásticas que se passavam no cemitério de Saint--Médard.

Tendo sobre o corpo apenas um pano branco, deitava-se sobre grandes fogueiras e adormecia aí sem dificuldade, durante o «tempo necessário para assar uma peça de carneiro ou de vitela».

Paris inteiro pôde assistir a este milagre, e foi feita, por testemunhas que se podem crer dignas de fé, uma relação em boa e devida forma.

É o seguinte o texto do processo verbal, datado de 12 de Maio de 1731:

«Nós, os abaixo assinados, François Desvernays, padre, doutor em Teologia da casa e sociedade de Sorbona; Pierre Jour-dan, licenciado da Sorbona, cónego de Boyeux; milorde Edouard de Rumond Perth; Louis-Basile Carré de Montgeron, conselheiro no Parlamento; Armand Arouet, tesoureiro da Câmara de Contas; Alexandre-Robert Boindin, escudeiro; Sieur de Boibessin; Pierre Pigeon, burguês de Paris; Denis Villat, burguês de Paris; J. B. Cornet, burguês de Paris; Louis-Antoine Archambault e Amable François-Pierre Archambault, seu irmão, escudeiros; certificamos que vimos neste dia, entre as oito e as dez da noite, a chamada Marie Sonnet em convulsões, com a cabeça sobre um banco e os pés sobre outro, estando os ditos bancos inteiramente sobre os dois lados de uma grande lareira e debaixo do seu manto, de maneira que o seu corpo estava no ar em cima do fogo, que era de uma violência extrema, ficando durante trinta e seis minutos nesta posição, por quatro vezes diferentes, sem que o manto em que estava envolvida, sem vestido, tenha ardido, embora a chama lhe passasse algumas vezes por cima, o que nos

5 Carré de Montgeron, La Vérité des Miracles, 1737-1748, três volumes in-quano.

6 Olivier Leroy: Les Hommes Salamandres, Desclée de Brouwer et Cie, editores.

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pareceu totalmente sobrenatural. Em testemunho do qual assinamos, hoje, 12 de Maio de 1731.



Assinado: (seguem-se os nomes precedentes). Mais certificamos que, enquanto assinávamos o presente certificado, a dita Sonnet voltou a pôr-se sobre o fogo na forma acima enunciada e aí ficou durante nove minutos, parecendo dormir em cima do braseiro, que estava fortíssimo, tendo quinze achas e um feixe de lenha a arder durante as ditas duas horas e um quarto.»

NA CONFLUÊNCIA DO FÍSICO E DO PSIQUISMO

Olivier Leroy, que estudou em profundidade o fenómeno da incombustibilidade do corpo humano, faz um paralelo entre Bernadette Soubirou e Marie Sonnet.

Quando Bernadette entrava em êxtase, podia pôr a mão sobre a chama de uma vela durante um quarto de hora, como o verificou, de relógio em punho, o doutor Dozous, sem que os dedos apresentassem qualquer traço de queimadura.

No estado normal, Bernadette declarava que a chama a queimaria se, por dois segundos apenas, aproximasse a vela.

«É certo», diz Olivier Leroy, «que as relações do homem com o fogo têm qualquer coisa de absolutamente excepcional... E porque é que o mundo das leis físicas não poderia ter os seus ornitorrincos e os seus peixes voadores? Sobretudo porque não admitir, já que a experiência o sugere, que estas estranhezas sejam normais na confluência do físico e do psíquico?»

Para M. E. Mengoli, director de Metapsichica, «com os métodos da ciência tridimensional não é possível verificar a veracidade dos fenómenos que se passam num mundo quadridimen-sional».

É nesse sentido que pensa que a penetrabilidade da matéria opaca pelas mãos de Agpaoa e que a incombustibilidade de Marie Sonnet podem pertencer a uma ultrafísica, de que a recente descoberta do fogo sem calor nos dá a percepção.

Há apesar de tudo que distinguir entre Agpaoa, autêntico curandeiro ilusionista, que enganava as suas testemunhas quanto aos pormenores da intervenção cirúrgica, mas que curava o

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doente, como se a operação tivesse sido verdadeira, e Marie Sonnet, que, parece que autenticamente, se deitava sobre um lume ardente.

Por uma razão que nos escapa, ou este fogo não tinha radiação calórica, ou então o corpo de Marie Sonnet ficava momentaneamente incombustível, talvez por um efeito de exaltação ou de fé, que anulava as leis físicas mais bem estabelecidas.

O IGNORANTE TROÇA DAS LEIS FÍSICAS

Será que há certas espécies de homens que são protegidos pelo Senhor (ou pelo Diabo!) e os pagãos não o são?

É bem certo que as religiões sempre tentaram provar que estavam consagradas ao verdadeiro Deus provocando milagres, sobretudo o da incombustibilidade do corpo humano, instituindo os ordálios, ou juízos de Deus, mas é não menos evidente que nos nossos dias, e para os nossos controles científicos, os mistérios do fogo e da invulnerabilidade são exclusivamente apanágio dos «selvagens», ou seja, dos pagãos!

Na Bulgária e na Grécia há, na verdade, alguns «anastena-rias» (os que caminham sobre o fogo) que se recomendam a Santa Helena e a São Constantino, mas sabe-se que as crenças desses fanáticos nada têm de cristãos, até pelo contrário, visto que se trata de celebrar o antigo culto de Dioniso, que vem de há três mil anos, muito anterior a Jesus, portanto.

Acontece assim que, no século xx, os seres evoluídos e cultos — um biólogo, um matemático, um bispo, um chefe religioso hindu ou um grande teólogo do Islão, tudo pessoas que conhecem perfeitamente as regras da física, que até de algum modo as inventaram — são incapazes de andar sobre brasas, de se deitar sobre uma fogueira ou de passar através de uma parede.

Em contrapartida, o ignorante, aquele que não é um crente da religião da ciência, ou seja, aquele que ignora as leis, os teoremas, os postulados da química e da física, esse mesmo pode pois troçar dessas leis, pelo menos até um certo ponto.

O homem «natural» pode ter conceitos e poderes que nos parecem supranormais, porque os seus pensamentos não foram

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reduzidos a uma forma sistemática e formados (ou deformados) nas leis, nos quadros e nos imperativos das nossas invenções e convenções científicas.

Consequentemente, a sua natureza fisiológica e psicológica é diferente da nossa e este homem ((natural» pode evoluir no seu universo, como também nos deles evoluem o pássaro, a raposa ou a abelha com as suas leis físicas próprias, diferentes, e com faculdades que nos parecem muitas vezes milagrosas, como o sentido misterioso da orientação e da adivinhação.

Por outras palavras: os milagres, quando são autênticos, pertencem a um ((misterioso desconhecido», que é um universo paralelo.

CAPÍTULO XI

OS LIVROS SIBILINOS E JOANA D'ARC

A Natureza fala uma linguagem sibilina que os homens interpretam a seu modo, a maior parte das vezes errado. Em 1971, os jardineiros do Lot-et-Garonne notaram que, nas suas vagens, as favas estavam ligadas ao contrário, ou seja, «de cabeça para baixo»', o que nas suas crenças era um sinal de calamidade.

E, no entanto, o ano passou sem desgraças particulares: a interpretação, felizmente, não era boa!

OS LIVROS SIBILINOS E O FIM DE ROMA

Deverá acreditar-se nas previsões? O grão-mestre dos Rosa--Cruz franceses, Raymond Bernard, no seu livro Messages du Sanctum Célest2, pensa que nenhuma previsão é fatal.

«Cada rosa-cruz sabe», disse, «que a lei do triângulo é fundamental e que se aplica a todos os campos, do mais subtil ao mais grosseiro, no universo visível e invisível da criação.

1 Revelado por Lumières dans la Nuit, dir. R. Veillith, «Les Pins», 43400, Le Chambon-sur-Lignon, n.° 115.

2 Edições da Rosa-Cruz, Domaine de la Rose-Croix, 54 e 56, Rue Gam-betta, 94190, Villaneuve, Saint Georges.

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Diz consequentemente respeito ao problema das profecias e das previsões, tanto como podia explicar qualquer outro problema difícil para o pensamento humano.»



Numa palavra, para que a previsão se realize é necessário que se acorde numas condições estabelecidas, o que nem sempre acontece.

Na Antiguidade, as sibilas gozavam de um grande prestígio e consta que uma delas, Ateneia, confirmou a origem divina de Alexandre, o que se presta a suspeitasl

Essas profetisas eram, realmente, os dóceis instrumentos dos governantes e muitas vezes as suas previsões eram publicadas depois do acontecimento que tinham por objectivo anunciar. Aconteceu, de resto, o mesmo com Nostradamusl

As previsões das sibilas faziam-se oralmente, ou por cartas seladas, ou em papéis que voavam.

Os Livros Sibilinos ou oráculos, a favor dos Gregos, primeiro, e depois dos Romanos e dos neoplatónicos, consistiam em três compilações, de que só uma nos chegou, e mesmo assim notavelmente falsificada.

Conta a tradição como o livro de uma profetisa desconhecida se tornou propriedade de Tarquínio, o Velho (também se diz Tarquínio, o Soberbo), quinto rei de Roma, em 615 a. C.

Abordou o rei e apresentou-lhe nove livros, que, segundo dizia, continham o destino dos Rpmanos e as indicações que lhe era indispensável seguir para que esse destino se cumprisse. Como preço, a profetisa pedia trezentos filipes de ouro, o que para a época era uma imensa quantia3.

Como o rei recusasse a resposta, a sibila queimou três dos livros e pediu o mesmo preço pelos restantes seis volumes.

Continuando Tarquínio a recusar, a velha queimou outra vez três compêndios e manteve o mesmo preço pelos três volumes escapados ao auto-de-fé.

O rei, impressionado, deu os trezentos filipes de ouro, não voltando a duvidar do imenso interesse que devia representar a sua aquisição.

3 Os filipes de ouro só foram postos a circular dois séculos depois de Tarquínio, o Velhol O autor ajustou sem dúvida a moeda à sua época!

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No ano 671 de Roma, sob a ditadura de Sila, os preciosos manuscritos não puderam ser salvos do incêndio que destruiu o Capitólio.

No ano 76 a. C, o Senado encarregou três deputados de reconstituir o conteúdo dos antigos livros de oráculos, que mais tarde o imperador Augusto refez, antes de mandar queimar uns dois mil.

Conservou apenas os livros ditos Sibilinos, que, recopiados e arranjados de forma conveniente, foram colocados na base da estátua de Apolo Palatino.

Pensa-se que foram destruídos pelo general Flavius Stilicon, de origem vândala, «com a intenção de causar a ruína do Império, roubando-lhe a prova da sua eterna duração».

Nos nossos dias, fundamentando-se nas profecias perdidas da sibila de Cuma e nas de Nostradamus, há ocultistas que afirmam que, no ano 2088, Roma será destruída por um pavoroso incêndio, e que da Cidade Eterna só ficará um magma fumegante.

FIM DO MUNDO, DESTRUIÇÃO DE NOVA IORQUE E DE SÃO FRANCISCO

Num livro notavelmente documentado, Josane Charpen-tier * compila as profecias do mundo inteiro, desde os tempos mais antigos.

A propósito do fim do mundo, o autor lembra um texto de Bérose, segundo os anais conservados nos templos de Baal:

«Esses abalos naturais chegarão segundo o curso dos astros, e pode prever-se em que época se dará a conflagração e o dilúvio que dela resultar, porque a terra inteira arderá quando todos os astros se reunirem no signo do Câncer.»

No respeitante à Alemanha, o seu destino foi anunciado pela profecia de Hroswitha, abadessa no século x do Convento de Gandersheim, na Saxónia.

4 Josane Charpentier, Le Livre des Prophéties, Robert Morei editor, Les Hautes-Plaines-de-Mane, 04, Alta Provença.

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Depois de ter descrito as guerras de 1914-18 e 1940-45, Hroswitha disse:

«Não voltará a haver o Santo Império, e sobre as suas ruínas nascerão o império do Cristo e o do Anticristo.

A guerra reinará entre as duas partes da Alemanha e os inimigos unir-se-ão.

Isto durará até ao tempo da Guerra Vermelha, prevista no Livro da Cólera, e do Grande Império do Oriente, que conhecerá o último imperador da Terra.»

O Anticristo fora antes anunciado pela profecia da sibila Tíburtina!

«Um príncipe de iniquidade sairá então da tribo de Dan, e chamar-lhe-ão o Anticristo.

Filho da perdição, cheio de um orgulho e de uma malícia sem limites, fará sobre a Terra uma quantidade de prodígios para apoiar o erro que ensinará; pelos seus sacrifícios mágicos surpreenderá a boa fé de muitos, que verão, mal o diga, descer o fogo do céu.

Então, assistir-se-á a uma grande perseguição, como nunca houve nem voltará a haver.»

Alguns quiseram ver em Jesus esse Anticristo, mas não vinha da tribo de Dan e seria injusto conferir-lhe os prodígios e as más intenções inventados pela sibila.

Mais apropriada aos nossos tempos é a inscrição do século xv, gravada numa estela do cemitério de Kirby:

When pictures look alive with movements free, When ships, like fishes, swim beneath the sea, When men, outstripping birds shall scan the sky, Then, half the world ãeep drenched in blood shall lie.

Que podemos traduzir assim:

Quando as imagens parecerem vivas, com movimentos livres, Quando os barcos, como os peixes, nadarem debaixo do mar. Quando os homens, indo mais além do que os pássaros,

[escalarem os céus, Nessa altura, metade do mundo desmoronar-se-á em sangue.

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O célebre vidente americano Edgar Cayce, que morreu em 1945, previa a destruição de Nova Iorque para 1970 (aproximadamente)5, mesmo antes do fim de Los Angeles e de São Francisco.



Não se deu qualquer catástrofe natural ou acidental, mas no entanto, em 1969 e em 1971, a terra tremeu em Los Angeles com uma particular intensidade6.

Os sismólogos sabem que a brecha de Santo André, responsável pelo horrível tremor de terra que destruiu São Francisco em 1906, é composta por duas massas rochosas que se movem em sentido contrário (sudeste e noroeste) debaixo da Califórnia, à razão de alguns centímetros por ano.

O sismólogo Dom Anderson anuncia que o choque dos dois magmas rochosos poderia dar-se quando de uma conjunção Sol--Lua-Terra.

PEDRAS ORACULARES. FIM DE MARSELHA!

Perto de Rennes-le-Château (Aude), existe um amontoado caótico de rochedos. Reza a lenda que caíram do céu, lançados à Terra por um gigante que fez a seguinte profecia:

«Quando estes rochedos se juntarem, terá chegado o fim do mundo.»

Contava um velho da região que, na sua infância, os garotos da aldeia vizinha jogavam às escondidas por entre as pedras. Hoje, crianças da mesma estatura, teriam dificuldade em passar entre elas.

O que faz mexer os rochedos? A profecia do gigante ou um deslizar da Terra? Estará o fim do mundo para breve?

Em todo o caso, as pessoas da aldeia acreditam nisso, pois puseram barras de ferro entre os blocos para os impedir de se juntarem!

No desfiladeiro de Naurouze, a treze quilómetros de Castel-

5 Disse em 1944 que Nova Iorque desapareceria por altura da próxima geração, o que dava: 1944 + 25 = 1969. Cayce enganou-se.

' Houve sessenta mortos em Los Angeles, no sismo de 1969.

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naudary e a duzentos e quinze metros de altitude, ergueu-se um obelisco à memória do engenheiro Riquet, em cima de três blocos de rochedo chamados Pedras de Naurouze. São umas pedras nuas, com brechas, que, segundo a tradição popular, devem anunciar uma libertinagem geral dos costumes, seguida do fim do mundo, logo que as fendas se fecharem.



De Novage, vidente do início do século, escreveu em 1905 que Marselha seria devorada por uma onda enorme, imediatamente antes de se darem grandes acontecimentos que mudarão a face da Terra.

O SINAL DO FIM DO MUNDO

Em 1971 e 1972, uns cinquenta sinais que representavam um M com o último traço um bocado mais comprido do que os outros e com uma barra atravessada foram misteriosamente desenhados em cartazes e em superfícies planas ao longo das estradas que vão de Sisteron até Puget-Théniers.

O sinal do fim do mundo que foi traçado nas estradas da Provença, em 1972

As investigações feitas pela Polícia não chegaram a nenhuma conclusão, não parecendo que este sinal pertença nem ao esoterismo nem aos alfabetos antigos existentes.

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Tem no entanto um certo parentesco com o ru tailandês, o go javanês, o na japonês e uma letra que se encontra na estela dos semitas-moabitas de Mesa.

Os crentes dos Ovnis afirmam que se tratava de um sinal traçado pelos extraterrestres, e de facto este M, com a última perna atravessada por um traço perpendicular, figura no pretenso alfabeto venusiano e no alfabeto dito «varkulets».

Neste sentido, as conjecturas não podem ir muito mais longe.

O signo está pintado com muita regularidade, preto sobre fundo branco, feito sem dúvida com a ajuda de um marginador.

O enigma teria continuado insolúvel se não tivéssemos encontrado o mesmo desenho num livro intitulado Geheime Wissenschaften (ciências secretas), Magische Werke (obras mágicas), de Honorius von Theben, contado por Petrus von Apono.

Este sinal pertencia antigamente à escritura secreta, conhecida exclusivamente pelos padres iniciados e destinada aos santuários e aos deuses.

Ora, por uma inquietante coincidência, o M de perna atravessada refere-se ao planeta Vénus, e significa: fim do mundo ou grande catástrofe terrestre.

A sua origem provém sem dúvida do tempo da erupção do cometa — há cinco mil anos—que arrasou a superfície da Terra.

Ter-se-ia a tentação de ver nisso um mau presságio para a Provença, mas, graças a Deus, as previsões têm a particularidade de nunca se realizarem!

A TELEPATIA DE BLACK

Se a visão do futuro está sujeita a caução, somos em contrapartida surpreendidos pelos sentidos misteriosos de certos animais e por um outro misterioso fenómeno que se chama telepatia.

Valembois, condutor de máquinas de uma empresa do Pas--de-Calais, deixou Béthume em princípios de 1971, para ir trabalhar para outras instalações.

Tinha deixado a uns primos o seu fiel Black, um pastor-

-das-flandres, não sem pena, porque se adoravam mutuamente, mas Black realmente não podia acompanhar o dono nas suas deslocações incessantes.

A 17 de Junho, seis meses depois da separação, Valembois, que então se encontrava em Châteaurenard, Bouches-du-Rhône, sabe que um cão preto com ar desamparado errava nas ruas da aldeia.

Era Black, que ficou doido de alegria quando encontrou o donol

O cão havia atravessado a França e percorrido sem dúvida mais de mil quilómetros para encontrar aquele que não conseguia esquecer 1

Pormenor ainda mais extraordinário: Black havia andado até um sítio, Châteaurenard, onde nunca tinha ido.

Não se trata pois de sentido de orientação, mas de uma misteriosa teledirecção, uma telepatia de cérebro a cérebro, porque é evidente que Valembois pensava muitas vezes no seu querido companheiro.

Os seus pensamentos guiaram provavelmente Black através da França, como a torre de controle orienta o avião que vai aterrar.

AS ONDAS DO PENSAMENTO

Se Jesus fez realmente milagres nunca o saberemos, mas em contrapartida sabe-se de fonte segura que o messias dos Chineses, o presidente Mao Tsé-Tung, deu a vista a cegos e fez andar paralíticos.

É claro que devemos desconfiar da propaganda política, mas, no entanto, é verdade que uma equipa de médicos chineses, utilizando o fenómeno do ((pensamento invisível de Mao» juntamente com a acupunctura, curou em dois anos mais de um milhar de cegos, de mudos, de surdos e de paralíticos.

Os miraculados, disse a agência Nova China, dançaram (em 1969) no palco de um teatro de Pequim, onde exprimiram de todo o coração a sua admiração pelo ((nosso grande pre-

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Depois dos Russos, os Americanos começam a confiar na telepatia e encaram a hipótese de entrar em contacto com os astronautas, no caso de as comunicações electrónicas falharem.



Em conclusão, tratar-se-ia de substituir um sistema eléctrico experimentado por um outro sistema da mesma natureza, mas ainda desconhecido. O professor russo Kogan sustentava que o pensamento pode ser transmitido por meio de campos electromagnéticos, em ondas cujos comprimentos, extremamente variáveis, vão de vinte e cinco a novecentos e sessenta e cinco quilómetros.

Experiências bem sucedidas foram feitas entre a Inglaterra e a Universidade de Los Angeles, numa distância de oito mil quilómetros.

Por outro lado, a N.A. S. A. confirmou que o médium Olof Johnson tinha ((adivinhado» as quatro cartas de jogar que o astronauta Edgar Mitchell havia tirado de um baralho de vinte e cinco cartas, quando estava numa cabina da Apolo, a cento e cinquenta mil quilómetros da Terra. Mitchell, que consentira participar na experiência, concentrara-se longamente sobre as cartas tiradas ao acaso.

Em Itália, o senhor Inardi, psicólogo, lançou a confusão nos espíritos respondendo a todas as perguntas que lhe fizeram durante um concurso da televisão, intitulado ((Arrisque Tudo».

Ganhou assim trinta e cinco milhões de liras e os telespectadores acusaram-no de ler as respostas, por telepatia, no pensamento do orientador do concurso, que, evidentemente, as conhecia.

Modificaram-se os regulamentos do concurso, ficando as respostas fechadas em sobrescritos selados, que só eram abertos depois de os candidatos falarem.

A partir desse momento o senhor Inardi deixou de ser imbatível!

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O TERCEIRO OLHO DE JOANA

Foi por vidência, premonição ou acaso que Júlio Verne fez partir o seu «obus» para a Lua a cem quilómetros de Cabo Kennedy?7

No Canadá, um vidente que se intitulava O Grande Henrique surpreende o público com previsões muitas vezes confirmadas.

Anunciou em 1972 que o primeiro-ministro Trudeau não acabaria o seu mandato e que se retiraria da luta política.

O «misterioso desconhecido», reprovado, negado pelos racionalistas sectários, teve no entanto um papel primordial na política de todas as nações e, particularmente, na história da França.

A Joana d'Arc francesa não era dotada de um terceiro olho?

Por que artes mágicas reconheceu em Chinon o rei, que se misturara ao grupo dos seus favoritos?

Não foi uma experiência totalmente convincente, mas a história da espada de Santa Catarina de Fierbois, em contrapartida, pertence, para os cronistas, ao campo do «misterioso desconhecido».

A história, em que a lenda ao princípio vai ao lado dos factos históricos, foi escrita pelo cónego Bas e pelo abade Charles Pichon, antigo cura da paróquia8. -

Uma tradição muito antiga diz que Carlos Martel, depois da Batalha de Poitiers, depôs no santuário de Santa Catarina, em Fierbois, a espada com que derrotara os sarracenos.

Sete séculos depois deste feito, a França estava de novo em perigo, agora pela invasão das tropas inglesas de Henrique VI, e Carlos VII, o verdadeiro rei de França, encontrava-se numa péssima situação.

E em seguida veio a mágica Joana d'Are, a Donzela, que

7 Júlio Verne, Da Terra à Lua, ed. Livraria Bertrand, Lisboa. ' Sainte-Catherine de Fierbois, son Histoire, ses Monuments et VÉpée Libé-ratnce, L. Frebinet, impressor, Rue de Rochechouart 75, Paris, 9.°, Junho

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devia tornar a dar aos Franceses uma alma nacional e libertar o território.

Tudo parecia desesperado para a França, nessa tarde de 5 de Março de 1429, quando os habitantes de Fierbois viram chegar pela estrada de Loches um pequeno grupo de cavaleiros.

Dirigiram-se para a capela, onde a jovem vestida com roupas de homem que comandava o grupo se demorou em oração diante do altar dedicado a Santa Catarina.

Um dos seus companheiros, Jean de Metz, contou então que Joana d'Arc, filha de agricultores de Domremy en Barrois, acabava de ser nomeada cabo de guerra pelo rei Carlos VII, que, em consequência, tinha posto «uma companhia sob o seu comando, para a realização das suas promessas».

Os armeiros de Tours haviam-lhe forjado uma armadura, os bordadores fizeram-lhe o estandarte, o seu cavalo de batalha era oferta do duque de Alençon, mas a donzela recusara que lhe dessem uma espada.

— Essa espada — dizia — foi para mim preparada pela minha amiga celeste, Santa Catarina, e encontra-se na capela de Fierbois!

A ESPADA MAGICA

Eis uma novidade que pedia provas!

Havia na capela muitos ex-votos, uma estátua, jarras para as flores e genuflexórios para os fiéis, mas quanto à espada, nada!

— Sim! Há uma—afirmava Joana.—-Justamente aquela que porá os ingleses fora da França!

Sabemos pelas minutas do seu processo como se passaram as coisas e parece que a donzela nunca foi a Fierbois, como escreveram os bons dos padres!

O depoimento registado em Ruão, diz:

«—Enquanto estive em Tours e em Chinon, mandei procurar uma espada à Igreja de Santa Catarina de Fierbois, atrás do altar: foi logo achada, completamente enferrujada.»

— Como sabíeis que a espada se encontrava lá?

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—A espada estava na terra, enferrujada; tinha em cima cinco cruzes; sabia pelas minhas vozes onde é que fora enterrada. Nunca tinha visto o homem que a foi procurar. Escrevi aos padres do local que me ajudassem a ter a espada; enviaram-ma. Não estava muito fundo na terra, por trás do altar, segundo me parece; no entanto, não tenho bem a certeza se estaria à frente ou atrás do altar; penso ter escrito na altura que estava atrás. Logo que foi encontrada, as pessoas da igreja esfregaram-na e a ferrugem caiu sem esforço. Foi um armeiro de Tours que a foi procurar. Os padres de Fierbois ofereceram-me um fato; os de Tours deram-me outro; um era de veludo vermelho e o outro de tecido dourado. Mandei fazer um terceiro, de couro bem forte. Quando fui presa, não trazia essa espada. Desde que a tive andei sempre com ela até à minha partida de Saint-Denis, depois do assalto de Paris.



— E que bênção fizestes ou mandastes fazer à espada de que falais?

— Não fiz nem mandei fazer qualquer espécie de bênção e não saberia fazê-la. Gostava muito dessa espada, porque foi encontrada na Igreja de Santa Catarina, de quem muito gosto.»

Joana tinha assim indicado que a arma mágica estava marcada com cinco cruzes no escudete e, a seus olhos, possuía uma importância capital: precisava daquela arma e não de outra!

O cónego Bas e o abade Pichon escrevem que a sua origem é das mais incertas.

As lendas contam-na como sendo a arma, quer de Carlos Martel, quer de Guilherme de Pressigny, que a recebera de São Luís já moribundo, quer de Godefroy de Bonilhon ou mesmo do rei René de Anjoul

Pierre de Sermoise, autor de um apaixonante estudo sobre Joana d'Are9, afirma que a arma pertencera a Du Guesclin.

Não se sabe o que aconteceu à espada mágica; Joana não a trazia consigo quando foi «presa» em Compiègne.

Quando se julgou perdida, tê-la-ia depositado em Saint--Denis ou escondido em Compiègne.

' Pierre de Sermoise, Les Missions Secrètes de Jehanne la Pucelle, ed. Robert Laffont, Place Saint-Sulpice 6, Paris.

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«Não possuímos nenhuma relíquia de Joana», dizem o cónego Bas e o abade Pichon, «os Ingleses queimaram-lhe o corpo e atiraram as cinzas ao Sena, santificado desde o Ruão até à embocadura.

Desapareceram as suas armas. Este ser angélico subiu aos céus, sem deixar outras marcas que não fossem as suas boas obras.»

MISTERIOSA JOANA D'ARC

Apesar de nos ser penoso levantar dúvidas quanto à mais maravilhosa das tradições da história de França, devemos à verdade dizer que o romance da donzela pode ser considerado como suspeito em muitos pontos. Para nós não há dúvida de que Joana foi uma heroína, é verdade que contribuiu fortemente para libertar a França e acreditamos que foi queimada em Ruão, mas a partir daí que nos seja permitido apresentar os argumentos da parte contrária.

As suas vozes, como ela diz, enganaram-na, no caso de ter sido queimada em Ruão, e a maior parte das suas previsões não se realizaram, a não ser quando anunciou ao rei, estando em Chinon, que seria ferida ((acima do seio», o que aconteceu durante o cerco de Orleães.

A própria Joana contou o facto no decorrer do seu interrogatório, e a esse respeito há um testemunho irrefutável.

Foi ferida no dia 7 de Maio de 1429.

Aproximadamente um mês antes, a 12 de Abril, um embaixador flamengo que estava na corte de Carlos VII escreveu ao seu Governo uma carta onde se encontra esta frase:

«A donzela deverá ser ferida por um só golpe diante de Orleães, mas não morrerá.»

A passagem dessa carta ficou marcada nos registos da Câmara das Contas de Bruxelas.

Por outro lado, quando Joana anuncia que: «Antes de passarem sete anos os Ingleses sofrerão uma prova maior do que a que tiveram diante de Orleães e perderão toda a França», a sua previsão só muito imperfeitamente será justificada.

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Efectivamente, só em 1438 é que Paris foi libertada!

Mas estas considerações têm pouca importância ao pé da contestação mais estranha: todo o assunto Joana d'Arc não passaria de uma mistificação, um vasto conluio montado por uma poderosa conjuração política!

Esta é a tese sustentada por Pierre de Sermoise e muito bem documentada, segundo a qual Joana seria a filha natural da rainha Isabel e do duque Luís de Orléans10.

«Subjugada e ao mesmo tempo protegida pelo talento ma-quiavélico de monsenhor Cauchon, escapou à fogueira. Finalmente, depois de um casamento, que não foi consumado, com Robert des Armoises, continuou a sua missão.»

As opiniões dos historiadores dividem-se, mas todos reconhecem que o assunto está longe de ser claro!

FILHA DE RAINHA?

Les Comptes de 1'Hôtel Saint-Pol (Arquivo Nacional de França) mencionam que, a 12 de Junho de 1407 (cinco anos antes da data suposta do nascimento da donzela), uma aldeã chamada Joana d'Arc veio oferecer umas coroas de flores a Carlos VI.

A rainha Isabel teria tido gémeos; o rapaz, Filipe, morrera, a rapariga, Joana, teria ido para Domremy ser criada pela família D'Arc.

Joana logrou reconhecer o rei em Chinon, porque era seu irmão; teria podido receber todas as directivas para o identificar durante os dois dias que passou nos apartamentos da rainha, antes de se juntar a Carlos VII.

Teriam sido os senhores de Poulengy e de Novelompont a fazer dela uma brilhante amazona (uma camponesa não teria aprendido a montar a cavalo).

Christine de Pisan, que viveu durante muito tempo na corte, escreveu um Ditié de la Pucelle, onde não contesta a história clássica de Joana. O seu testemunho é de grande importância, porque Christine de Pisan conhecia muito m a rainha Isabel e era a protegida do duque de Orleães.

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Era donzela porque, fisicamente, seria ginandróide (hermafrodita).

A sua armadura, que custou cem libras de Tours, foi-lhe oferecida pela sogra do rei; era uma armadura ((real».

A espada pertencera a Du Guesclin, que a havia legado a Luís de Orléans, suposto pai de Joana. Tinha realmente sido posta na Igreja de Santa Catarina de Fierbois.

Jeanne teria desse modo recuperado a espada de seu pai.

QUEM ARDEU NA FOGUEIRA?

Unia Crónica do Deão de Saint-Thibaud-de-Metz, transcrita por Pierre de Sermoise, afirma que Joana «na cidade de Ruão, na Normandia, foi queimada numa fogueira, como se dizia, mas depois foi provado o contrário».

A donzela foi conduzida à fogueira velada, a cara da executada esteve ((tapada» (coberta com um capuz) até ao fim.

O seu nome não figura na lista das feiticeiras queimadas em Ruão, de 1430 a 1432, mas há três outras Toanas: Jeanne-la--Turquenne, Jeanne Vannerit e Jeanne-la-Guíílorée.

Um manuscrito guardado no British Museum diz textualmente: ((Finalmente, queimaram-na publicamente, ou a qualquer outra mulher que se fez passar por ela, facto sobre o qual muitas pessoas foram e são ainda de diversas opiniões.))

Sabe-se, para terminar, que em 1436, em Orleães, uma ((senhora Des Armoises», afirmando que era a donzela, foi reconhecida pelo seu irmão Pierre de Lis, pela sua própria mãe e pelo tesoureiro Jean Bouchet, que, anteriormente, a recebera em sua casa!

A causa do rei de França tinha de tal forma necessidade de uma heroína à altura de Joana que os conselheiros de Carlos VI propuseram-lhe um visionário, pastor do Gévaudan, que, também ele, fez milagres.

Um trabalho histórico espanhol, A Crónica de Don Álvaro de Luna, tem um capítulo, o XLVI, que é intitulado: ((Como a Donzela de Orleães, chegando às muralhas de La Rochelle, falou com o rei, e do que o condestável conseguiu por seu intermédio.»

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Álvaro de Luna era contemporâneo de Joana; viveu de 1400 até 1453.



Estes factos estranhos, estes testemunhos e estes documentos muitas vezes contraditórios não deixam de ser inquietantes e dão para pensar que a missão de Joana d'Arc não foi espontânea e límpida como quiseram fazer crer.

TRATAVA-SE DE UM CASO DE MAGIA

Assim como a Pré-História, a arqueologia e por vezes a ciência, também a história pode, em certas ocasiões, encontrar um esclarecimento evidente pela lógica dos factos, mesmo no caso de estes estarem carregados de esoterismo.

O romance de Joana d'Arc, sem sombra de dúvida, está completamente envolvido pela magia. Passou-se numa época votada à feitiçaria, à magia, aos sabás e ao Demónio.

Como nos tempos dos Césares, é o astrólogo, o cartomante, que oficia na sombra e comanda as decisões.

A história oculta de Joana desenrolou-se tendo como principais actores: Joana d'Arc, Agnès Sorel, amante de Carlos VII, Isabel, mãe do rei, Carlos VII, o duque de Orleães, Gilles de Retz e o bispo Cauchon.

Ora todos eles morreram tragicamente, poderia mesmo dizer-se: de maneira diabólica, apanhados em cadeia:

—Joana: queimada na fogueira como feiticeira.

— Agnès Sorel: envenenada (sem dúvida pelo delfim Luís XI).

— Isabel: abandonada, miserável e desprezada.

— Carlos VII: deixou-se morrer de fome.

— O duque de Orleães: assassinado pelos espadachins a soldo de João Sem-Medo.

;—Gilles de Retz: justamente acusado de bruxaria e de alquimia satânica, com missas negras e sacrifícios de sangue com crianças, foi estrangulado e queimado.

, —Pierre Cauchon: o indigno bispo de Beauvais, «atingido de morte súbita, pela mão de Deus» (escreve Eliphas Lévi), foi

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excomungado, depois de morto, pelo papa Calisto IV. Os seus ossos, arrancados à terra santa, foram atirados à vala pelo povo.

Mesmo um espírito céptico tem de pensar que a convergência dos elementos ocultos, senão diabólicos, não permite referi-los ao mero acaso.

Tanto mais que cem outros indícios apoiam estas coincidências exageradas: as oferendas de Joana ao carvalho de Bour-lemont (levava-lhe leite), as vozes mágicas que ouvia, as defesas contra o Diabo, a espada misteriosa, o Bellator que servia de eficácia virtuosa11, etc.

As visões de Jeanne e as suas profecias pertencem a um ((misterioso desconhecido» de que talvez seja melhor não aprofundar a essência, se quisermos conservar da doce heroína nacional a imagem maravilhosa aprovada pela história.

11 O Bellator, o maior pedaço da ((verdadeira Cruz» existente no mundo, segundo a lenda, estava guardado na Abadia de Charroux (Vienne).

Carlos VII mandou-o buscar para o dar a Joana, que desse modo libertou a França dos Ingleses, com um talismã de madeira e uma espada mágica.

FANTÁSTICO

CAPÍTULO XII A MATER, LILITH E 0 HOMEM SUPERIOR

DEUS criou então o homem à sua imagem, e criou-o à imagem de Deus, e criou-o macho e fêmea.» (Génese I, vers. 27.)

Lendo bem a Bíblia, somos levados a pensar que o ser humano princeps foi criado hermafrodita: macho e fêmea ao mesmo tempo, embora no segundo capítulo da Génese (vers. 7) esteja indicado que o homem foi feito do lodo de terra e a mulher (vers. 22) «da costela tirada de Adão»i.

Foi sem dúvida por copiarem mal os mitos mais antigos, célticos, egípcios, fenícios, indianos, etc, que os autores da Bíblia dos cristãos disparataram deste modo.

A MATER HERMAFRODITA

Muito antes dos Hebreus, os povos de grande antiguidade veneravam a Mater, em que viam a mãe da humanidade, e repro-duziram-na muitas vezes bissexuada, ou seja, hermafrodita.

' Trata-se de um erro de tradução; deve ler-se: a mulher foi feita de um aos lados do primeiro ser humano. A palavra célà significa, em todas as passagens bíblicas, lado e não costela. (Dr. T. Halley des Fontaines, La Notion d'Andro-gynie, Paris, 1938.)

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A deusa Mout era simultaneamente Pai e Mãe supremos dos Egípcios: Neit, a Velha, era Pai dos Pais e Mãe das Mães e repre-sentavam-na pelo escaravelho macho e pelo abutre fêmea.



A Ishtar dos Assírios Babilónios, deusa das manhãs e das noites (Vénus Lúcifer e Vénus Vésper), era representada com uma barba, em Nínive, e a Astarté dos Fenícios também tinha uma, em Cartago2.

No mais antigo livro do mundo, a História Fenícia, de San-choniathon, está escrito que «os Zophasemin ou Observadores do céu, feitos da substância primordial, eram andróginos no começo.

Os seus sexos diferençaram-se quando a luz e as trevas se separaram» (Preparação Evangélica, de Eusébio, cap. I, vers. 10).

O Adão da nossa Bíblia falsificada e mal traduzida é, na realidade, o apelativo da espécie humana novamente criada.

Em Midrasch Schemot Rabba, cap. XX — Parascha XIV, cap. XII3—, está escrito:

«Quando Deus criou Adão, este era homem-mulher.»

Segundo Jeromia ben Eleaser, Deus criou o homem andrógino (macho e fêmea). Moisés Maimónida4 disse: «Adão e Eva foram criados juntos, unidos de costas; quando este ser duplo foi separado, Deus agarrou na metade que foi Eva e entregou-a à outra metade.»

Manasseh ben Israel escreveu que a forma de Adão era dupla, (cmacho à frente e fêmea atrás».

Cibele, a mãe dos deuses, era andrógina, como a Afrodite dos Gregos, que tinha «os atributos do macho para cima das ancas, e os da mulher, para baixo.»

Em Chipre e em Berlim encontram-se estátuas de Afrodite com barba.

Está assim esclarecido que os povos antigos pensaram muitas vezes que o ser humano primordial era um andrógino e que a Mater que adoravam acima de todos os deuses tinha simultaneamente um falo e uma vulva.

2 A maior parte dos deuses antigos são zyzygies (pares divinos inseparáveis).

3 Citado em La Notion d'Androgynie, ob. cit.

4 Maimónida, Le Cuide des Égarés, trad. Munk, Paris, 1861.

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A MATER E A PARTENOGÉNESE



Esta tese foi adoptada por muitos biólogos, embora também possa ser admitida a da Mater reproduzindo por partenogénese'.

O homem possui dois seios e sabe-se que as duas metades simétricas do corpo humano desenvolvem-se «de uma maneira, até certo ponto, independente6, o que explicaria que os órgãos sexuais situados num lado^possam não ser semelhantes aos do outro lado. Isso não explica, contudo, como é que no mesmo lado há muitas vezes órgãos sexuais que pertencem a sexos diferentes.

Esta dualidade fundamental, principalmente no homem, e a persistência ou a obliteração dos vasos destinados a alimentar e a desenvolver os órgãos de reprodução tendem a fazer pensar que a aparição da mulher seria muito mais antiga que a do homem.

O CANAL DE MULLER

Em 1917, o professor B., da Universidade de Poitiers, ensinava assim a história do feto humano:

((Ainda antes de os dois sexos se diferenciarem, apareceram na região do peritoneu dois canais duplos e simétricos de origem um pouco diferente: o canal de Muller e o canal de Wolf.

Na sequência da evolução do tipo feminino, o canal de Muller forma as trompas, o útero e a vagina.

No tipo masculino, o canal atrofia-se e os vestígios dão origem à formação do corpo de Morgani no utrículo prostático.

O canal de Wolf é a origem dos canais urinários na mulher e do canal deferente no homem.

A mulher conserva assim dois canais separados, enquanto

s A partenogénese só foi até agora observada nos organismos inferiores unicelulares e nos ouriços-do-mar. Nunca foi nem vista nem reproduzida experimentalmente nos vertebrados.

6 Segundo o biologista E. R. A. Serres, cirurgião, membro da Academia das Ciências (1821).

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o homem ficou com um único, devido a uma mutação ou de uma adaptação mais tardia7.»



Haveria portanto uma especificidade mais pronunciada no homem, uma complexificação que, segundo as leis acreditadas em biologia, demonstraria a anterioridade da mulher sobre o homem *.

Esta conclusão do professor de Poitiers foi várias vezes retomada por biologistas, sobretudo na Sorbona.

Um outro indício da anterioridade da mulher poderia ser o facto de todos os seus cromossomas serem x-x, enquanto os do homem são x, mas a que é preciso associar um y, o que representa uma diferenciação onde é lógico que se veja uma mutação9.

Pensa-se, nos nossos dias, que os tipos puros não existem, tanto na espécie humana como nas espécies animais e vegetais, o que parece opor-se à ideia de evolução de dois tipos humanos completamente diferenciados: a mulher e o homem, cada um com caracteres dominantes e caracteres associados e antagonistas.

A MULHER VIVE MAIS TEMPO

Outras observações parecem apoiar a tese da anterioridade de Eva sobre Adão: o sexo feminino revela-se no feto antes do sexo masculino10; as raparigas são menos frágeis que os rapazes

' Em 1973, sugere-se que esta particularidade fisiológica do homem não provém de uma evolução do organismo por lenta metamorfose, mas sim de uma diferenciação natural que não supõe qualquer evolução no tempo.

' Na evolução da matéria e dos diferentes organismos, dão-se incessantes complexificações; quanto mais um organismo é complexificado, tanto mais próximo dos nossos tempos está. Quanto mais rudimentar ou simples, tanto mais próximo da origem da sua espécie. Por outras palavras, a telefonia a pilhas está mais próxima de nós que a galena.

9 Vinte e dois pares de cromossomas, mais dois cromossomas sexuais: xx na mulher, xy no homem.

10 O embrião feminino desenvolve-se mais rapidamente do que o macho. Ser-se-ia mesmo levado a pensar que os cérebros dos homens e das mulheres têm diferenças consideráveis. A hormona testosterona operaria uma espécie de masculinização do cérebro, ou, pelo menos, dar-lhe-ia uma certa natureza.

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durante a infância, estão mais aptas para Suportar a dor e para sobreviver às vicissitudes da existência.



Só os homens são tocados por um certo número de doenças hereditárias: hemofilia, miopatia e mais umas tantas outras; a sua média de vida é mais curta que a da mulher (sete anos aproximadamente).

Segundo a Organização Mundial de Saúde11, eis um gráfico com as médias de vida de alguns povos (sendo o primeiro número o dos homens e o segundo o das mulheres):

Noruegueses 72 77

Suecos 72 76

Holandeses 71,5 76,8

Suíços 70,5 75,8

Franceses 68,2 75,7

Ingleses 68,5 74,8

Italianos 68,7 74,2

Belgas 67,8 74

Luxemburgueses 67,1 73,4

Alemães 67,5 73,3

Americanos (E. U. A.) 66,3 74,4

Japoneses 63,5 66,8

LILITH

Algumas tradições, pouco consistentes, de resto, como o romance da Bíblia, afirmam que Eva não foi a primeira mulher da criação.



O símbolo degenerado da serpçnte, apesar de tudo identificável ao seu papel de tentadora, acompanha a história da queda de Adão e Eva no paraíso terrestre.

Essa serpente era o demónio que, de facto, trouxe o conhecimento à humanidade logo que apresentou a maçã a Eva, a não

11 Estes números foram fornecidos por Madeleine Franck e Laurent Mossu, France-Soir de 10 de Agosto de 1972.

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ser que tivesse sido a uma concubina, porque não se sabe muito bem quem foi a primeira mulher do primeiro homem.

Uma velha lenda talmúdica, bastante não ortodoxa, segundo a Enciclopédia, dá duas mulheres a Adão: Eva e Lilith.

Quando Adão foi expulso do paraíso terrestre, abandonou a mulher que ouvira as propostas da Serpente e o incitara a morder a maçã12.

Essa mulher era Eva, que, depois de ter pecado com o demónio, deu à luz Abel e Caim.

No Talmud, lê-se que o principal daimon-tèmea era Lilith, representada com uma longa cabeleira: muito bela, excitava não só os homens como também as mulheres para jogos de amor e de volúpia.

É a ela que o iniciado em magia cerimonial se dirige na Conjuração dos Sete: «Não nos atormentes, Lilith, afasta-te, Néheimah!»

Segundo o Sepher-A-Zohar13, Lilith teria sido a verdadeira sedutora de Adão, enquanto Eva foi conquistada pelo belo arcanjo negro Samael.

Dos amores mágicos de Lilith e de Adão teriam nascido os egrégores ou veladores de que falam os manuscritos do mar Morto, identificando-os, pensamos, com os «anjos» ou Iniciadores vindos de um outro planeta.

A AVÓ DEMÓNIA!

De qualquer modo, segundo estes comentadores, teríamos na origem da nossa árvore genealógica um antepassado que era o Diabo ou uma avó que era diabal

12 No Dicionário de Bayle diz-se que Eva, mal foi criada, perdeu logo a virgindade e a Serpente aproveitou-se disso para a tentar, num momento em que Adão adormecera para repousar das fadigas conjugais. Outros exegetas são de opinião que Adão, depois do pecado, foi excomungado durante cento e cinquenta anos, que passou com uma mulher feita como ele de lodo. Chama-va-se Lilia ou Lilith.

15 Referido por J. Desmoulins e R. Abelain em Lilith, le Second Satellite de la Terre, ed. Niclaus, 54, Rue Saint-Jacques, Paris.

204

Bem nos parecia!



Uma outra tradição faz de Lilith a criatura humana original anterior a Adão, a quem teria posto no mundo ou vira nascer e de quem fora a. primeira mulher, o que sugere um mito de Mater gerando por partenogénese.

Teriam ambos sido modelados em argila vermelha recém--criada, com um especial esmero, por Lilith14.

No entanto, Adão abandonou-a, preferindo Eva, que havia sido feita da sua carne e do seu sangue. «Preferiu-se» a si mesmo, em suma!

Esta última tradição foi posta em poema pelo marquês de Belloy em 1855, com algumas variantes, pois faz nascer Lilith e Eva de uma costela de Adão.

Platão, no Banquete, conta uma outra tradição também muito antiga, a do homem criado andrógino.

O senhor de Belloy descreve Lilith como um critério de pureza, de ideal, de castidade e de beleza inacessível à tentação.

O Demónio, representado pela Serpente, nada pode contra ela.

Josefa afirma que, no tempo da criação, a Serpente tinha o dom da palavra. Segundo Paracelso, conserva ainda actualmente, por especial privilégio de Deus, o conhecimento dos maiores mistérios.

Eva ou Héva, no poema do senhor de Belloy, é a feiticeira que encanta mal surge. Por essa razão é que Adão abandonou o amor de Lilith e se dedicou a Héva, a Sensual.

O enigma da primeira mulher da criação e de um Adão hermafrodita, que se «prefere» a si próprio ao escolher uma Eva feita da sua carne e do seu sangue, sugere uma interessante tese sobre a anterioridade da criação humana;

Trata-se, de facto, do verdadeiro problema da Mater.

14 Os cabalistas deram o nome de Lilith a um pequeno astro escuro que foi muitas vezes observado pelos astrónomos Riccioli, Cassini, Alischer, etc. Este astro seria o segundo satélite do nosso planeta e teria também o nome de Lilith, a Lua Negra.

Uma tradição que se atribui aos pitagóricos faz de Lilith uma Antiterra que gira à volta do Sol, exactamente no sentido oposto da elipse, embora não seja possível vê-la. Trata-se, é evidente, de uma lendal

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O HOMEM SERIA MAIS INTELIGENTE

Estas tradições, lendas e superstições, referindo-se a Lilith como a primeira criatura terrestre, rival de Eva, demónia, lua negra ou astro sombrio, provam que, desde a mais alta antiguidade, os nossos antepassados pensaram que o ser humano princeps podia ser uma mulher, a Mater.

Esta hipótese, que se junta à dos biologistas do princípio do século, daria portanto uma anterioridade de existência à mulher.

Como consequência desta teoria, singular e no entanto acreditada pelas observações na matéria de evolução fisiológica, o homem seria teoricamente mais inteligente do que a mulher, visto o seu organismo ser mais complexificado!

É o que tenderia a fazer pensar, em favor do homem, a atrofia do canal de Muller, que tinha um papel essencial num tipo humano mais antigo.

Neste sentido, este primeiro tipo humano possuidor, quer do canal de Muller, quer do de Wolf (trompas, útero, vagina, canal urinário), era uma mulher.

Seja como for, essa criatura humana número um era a Mater, mãe e pai dos nossos mais longínquos antepassados, «Mãe das Mães», como diziam os Egípcios, o que explicaria o culto universal que lhe foi consagrado.

O que, do mesmo modo, daria um sentido profundo às crenças antigas, às divindades andróginas da Grécia e da Assiro--Babilónia, e a essa Lilith maravilhosa e perversa que nos legou a sua inteligência, a sua astúcia e a sua curiosidade demoníaca.

Há duas grandes raças humanas: a dos bons e a dos maus, a dos pobres e a dos ricos, a dos ignorantes e a dos cultos. O domínio do mundo pertence sempre aos que são maus, inteligentes e ricos.

CAPÍTULO XIII A ESCRITA CROMOSSÓMICA E 0 PECADO

Os símbolos: água, Mater, serpente, gruta, etc, foram desenhados por homens antes de se conhecer a sua natureza profunda e provavelmente transmitidos antes da escrita. A tomada de consciência sobre o mundo exterior precedeu do mesmo modo a tomada de consciência psicológica, não passando ambas do balbuciar de uma abertura sobre a realidade, que para ser válida deve ter uma projecção universal.

Tudo no universo, das estrelas ao grão de areia, participa em intenção e em interacção com a vida dos homens: a Terra soube emergir e distribuir-se em proporções justas, o mar soube talhar os continentes e a montanha soube repartir-se sobre as terras.

Mesmo o objecto fabricado, quando está em confiança com o homem que sabe perceber a sua verdadeira identidade, manifesta a sua boa vontade.

Não há nem precedência nem noção de humildade ou de sacrifício na natureza, mas uma colaboração e uma comunhão, porque tudo tem uma essência idêntica e igualmente inteligente para a realização de destinos paralelos mas complementares.

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A PSICOESFERA



«A terra», explica Jean-André Richard, «nasceu de um plasma original donde partiu a lenta elaboração de estruturas polimorfas que, por sucessivas complexificações, engendraram os reinos, do mineral ao animal superior.»

Este plasma era um campo de forças eléctricas, de que uma diferenciação, a força psíquica, constituía a psicoesfera terrestre.

É na psicoesfera, eternamente presente, que o Vivo (tudo o que vive e, sobretudo, a matéria orgânica) bebe a sua energia espiritual e mental: o vidente, a sua visão; o sábio, a meditação; o mau, o seu instinto do mal; o iniciado, o seu conhecimento; o acaso, as suas leis de séries.

A água é o catalisador e o dissolvente desta força psíquica, que é particularmente conduzida pelas correntes hidrotelúricas, alimentando as fontes, os poços, os charcos e as ribeiras.

Os radiestesistas e muitos observadores repararam numa constante relação que existe, por um lado, entre estas correntes e, por outro, entre os pára-raios, as casas, os lugares amaldiçoados e também, segundo dizem, os ((lugares fatídicos» das estradas.

Alguns deles classificam numa categoria vizinha, mas diferente, as correntes electrotelúricas, que, de facto, se identificam com as primeiras.

AS CORRENTES TELÚRICAS

G. Thieux, da Compagnie Générale de Géophysique1, diz que as correntes telúricas são deslocações de iões, ou seja, de partículas eléctricas formadas de um átomo (ou de um grupo de átomos) que ganhou ou perdeu um certo número de electrões.

As correntes de água, segundo esta tese, seriam banhos elec-trolíticos de reacções secundárias transportando os iões (catiões e aniões) de um eléctrodo para outro, com a missão de depositar certos elementos e cargas eléctricas.

' Citado por Lumières dans la Nuit, n.° 117, Abril-Maio de 1972.

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A troca e a recarga produzem-se entre um eléctrodo natural, como o menir, a árvore, a rocha, o terreno, etc, e um segundo eléctrodo de potencial diferente, que constitui o próprio homem.



Dotados de propriedades bem especiais, sobretudo a de perderem a sua carga, os iões podem, segundo os factores de equilíbrio e de potencial, enriquecer ou empobrecer o organismo físico e psíquico do homem.

Os lugares ((malditos» são aqueles onde os iões criam um desequilíbrio celular (e de qualquer forma eléctrico) ou uma perda de potencialidade.

Os lugares ((benéficos» são aqueles onde a carga transportada compensa uma falta de potencial, recarrega os fracassos humanos ou restabelece por sintonização (acordo, harmonia, ressonância) um equilíbrio eléctrico rompido.

O jogo consiste pois em reconhecer o eléctrodo que deve ser complementar do nosso e que lhe enviará, não já influxos maléficos, mas sim regeneradores.

Este eléctrodo é muitas vezes uma árvore, uma pedra levantada ou uma composição particular do terreno.

Antigamente os druidas utilizavam este método por empirismo e, entre todas as árvores, escolhiam o carvalho para pai criador, e o menir para servir de médico.

Segundo G. Thieux, as correntes telúricas formam-se debaixo da influência solar, têm uma periodicidade de vinte e sete dias, e há uma interacção entre elas, o campo magnético terrestre e a gravitação.

Um computador, se lhe fornecessem cartões perfurados bem programados, indicaria para cada indivíduo os sítios onde as correntes telúricas lhe seriam favoráveis.

Negócio para alguns milhões de francos todos os vinte e sete dias!

Felizmente que o homem tem em si um computador natural que melhor que qualquer outro é capaz de detectar os pontos brancos benéficos e os pontos negros perniciosos, sendo a sua utilização gratuita!

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O GRANDE MEDO ANCESTRAL



As razões que motivavam as migrações humanas eram outrora engendradas por forças obscuras, de que agora conhecemos a natureza.

Os sítios arqueológicos e os lugares turísticos estão muitas vezes geograficamente situados sobre nós magnéticos especiais.

Quando os homens da Pré-História se aventuraram a reconquistar uma civilização, tiveram de aguçar todos os seus sentidos de percepção para escapar aos perigos, imaginários ou reais, que corriam o risco de completar o trabalho destruidor do Dilúvio.

Um único erro, e a humanidade desapareceria do teatro terrestre I

No seu inconsciente pessoal e colectivo, os homens sentiam profundamente a intensidade do drama e a gravidade de cada um dos seus actos.

A Terra-Mãe tinha-os engolido, fizera rebentar os oceanos, explodir as montanhas: a sua cólera havia sido terrível e a boa política consistia agora em estabelecer com ela uma paz durável.

Mas ainda havia, aqui e ali, zonas em estado insurreccional: pântanos pestilentos, vales inundados, montes periodicamente sacudidos por abalos telúricos, montanhas donde o fogo saía vivo da terra.

OS ASILOS DE PAZ

Nestas condições, os homens dos tempos antigos caminhavam guiados talvez por uma mulher ou por aquele de entre eles que era o mais sensível: o chefe, o que viria a ser o padre.

E o chefe dizia:

— Não paro, porque tenho medo. Não posso parar, não devo parar.

E depois, um belo dia, espetava na terra o seu bastão de comando.

—Aqui podemos construir uma casa.

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Para agradecer à Terra-Mãe o ter-lhes oferecido um asilo seguro, os homens empilhavam as pedras em montículos ou construíam um altar.

Por toda a parte onde o caminhante plantava o seu bastão, os nossos antepassados edificavam um monumento, deixavam um sinal de reconhecimento no qual os outros homens sabiam poder confiar.

Nesse local estabelecia-se um modus vivendi, um equilíbrio simultaneamente biológico, social e industrial.

O homem, aí, estava em segurança e dormia um sono reparador, e aí encontrava a água, a pedra, a madeira, os frutos, a caça, a argila para os seus barros e o ferro para as ferramentas.

Se a mina secasse, se a caça e a colheita diminuíssem, os homens antigos consideravam então que a aliança tinha sido rompida por um tempo e partiam para mais longe, em busca de um novo sítio.

Mas o altar ficava, testemunhando a gratidão.

É provável que o magnetismo das terras ferruginosas influencie o complexo biológico e o magnetismo dos homens.

Julga-se que as muralhas gaulesas, de pedra seca, que sulcam os nossos bosques e os nossos matos, resultam de uma recordação atávica, de uma zona de tabo e de segurança, que na Pré--História estava cercada por um círculo de pedra ou um fosso.

Dentro do círculo, praticava-sg o tabo: proibição de atirar, de roubar, de violar. Era já o círculo mágico de protecção, o corpo da igreja inviolável. Desgraçado do que infringisse o tabo; só a morte podia punir um tal sacrilégio2.

As cidades antigas foram provavelmente construídas à volta

1 Foi ainda por transmissão hereditária que as igrejas e as necrópoles foram edificadas no círculo mágico do tabo e que as cidades foram construídas no círculo de segurança que era a muralha.

O tabo das igrejas e dos cemitérios, para uma área de trinta passos, foi instituído em Charroux (Vienne) em 988 por um concílio misto. Seguiram-se depois os concílios de Narbonne em 990, de Limoges em 994, de Poitiers no ano 1000. Foi a Paz de Deus, transformada depois em Trevas de Deus, proibindo a guerra durante duzentos e trinta a duzentos e cinquenta dias por ano.)

Quando o círculo mágico era conspurcado, perdia os seus privilégios e virtudes. Era necessário fazer uma cerimónia ritual para ele recobrar a sua eficácia virtuosa.

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do bastão de um chefe inspirado; aquelas que não o foram: Nova Iorque, Tóquio, Bombaim, etc, e que só devem a sua situação a razões de ordem mercantil, nunca gozarão dos privilégios concedidos pelas correntes telúricas.

Os Maias, povo de origem pré-céltica, fixaram-se durante muito tempo no Canadá, e depois nos Estados Unidos.

Um dia, os seus chefes tiveram a premonição de que deviam deixar imediatamente aquelas regiões, que eram no entanto hospitaleiras, para irem fixar-se mais a sul3.

Todos os maias partiram à procura da Terra Prometida, conduzidos por sacerdotes. Deviam reconhecer o local onde a sua cidade seria fundada numa árvore onde uma águia a devorar uma serpente estaria empoleirada.

Foi assim que se fixaram no México.

Mais materialistas, os Hebreus escolheram a Terra de Canaã porque era rica; Moisés nunca espetou aí o seu bastão, de modo que a Palestina nunca foi marcada pelo tabo.

A SERPENTE E O ESPERMATOZÓIDE

Este privilégio de iniciação dado pelas correntes telúricas é simbolizado pela serpente a nadar nas águas.

É o mais alto símbolo iniciático, porque também representa a vida, o espermatozóide penetrante, o brilho do raio, a energia.

Em todos os países, em todas as tradições, a serpente é a guardiã do tesouro, aquela que sabe os segredos.

Com asas, metamorfoseia-se em homem ou mulher (Quetzal-coatl, Mélusine) e indica a ligação do Iniciador a um outro planeta, quase sempre Vénus.

Também por toda a parte no mundo antigo representava o veículo voador e o veiculado, o engenho interplanetário e o cosmonauta, e essa é a razão por que a descreviam com uma cabeça

3 É também possível que as terras do Norte tenham sido atomizadas. Os Maias nessa altura fugiram, «como se fossem cegos errando pelo nevoeiro». Houve vários meses de noite completa e quase todos os homens pereceram. É o que o Popol Vuh relata.

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de carneiro a conduzir o rebanho, como guia, genitor, ou com uma cabeça de touro ou de dragão.

É neste sentido que é preciso compreender a «barca» dos Egípcios, dita falsamente solar, que, no seu mais velho templo, em Abidos, está representada na forma de serpente com cabeça de carneiro.

A própria Natureza parece ter querido introduzir a forma da serpente nos elementos primordiais da vida: os espermatozóides e os cromossomas.

A ESCRITA BIOLÓGICA

Pode pensar-se que os cromossomas, esses sinuosos bastonetes que veiculam as qualidades hereditárias, constituem a escrita biológica e servem para compor o texto do nosso programa, o romance futuro da nossa vida.

Por via do conhecimento inconsciente, a escrita original teve necessariamente de derivar desta escrita biológica, da qual se encontram os sinais (e de uma forma espantosa) na estela de Mesa (Palestina), nos alfabetos da Oceânia, da China, do Japão, etc.

Distinguem-se particularmente no sânscrito: letras a, p, m, 1; no pali, no fenício: y, x, c, u, v,-1; e na escrita de Glozel: y, u, x, c, i, 1.

Nos filamentos do núcleo da célula há quarenta e seis cromossomas.

Quando o espermatozóide e o óvulo se encontram, engendram vinte e três agrupamentos a partir dos quais se formam as quarenta e seis divisões da célula do futuro ser.

Se aceitarmos esses vinte e três grupos como base para um alfabeto de vinte e três letras, pode considerar-se que o verdadeiro nome próprio de cada indivíduo está já programado, inscrito, escrito em caracteres alfabéticos no processo da evolução orgânica.

É o nome cromossómico do homem, o seu nome desconhecido, incognoscível, impronunciável como o de Deus. É portanto um nome divino. O outro nome, Jean Gauthier ou Claude

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Girard, não passa do nome humano de estado civil, que pode ser modificado ou mudado por decisão administrativa.

O nome cromossómico é o nome hereditário, que corresponde à transmissão das qualidades do pai, mas não às da mãe, geralmente mais importantes.

Na realidade a criança devia usar hereditariamente o nome da mãe e, ainda com mais lógica, devia ter um apelido próprio, individual, que a caracterizasse e distinguisse dos membros da família.

Concedeu-se esse papel ao nome propriamente dito, que de facto é muito mais individual que o apelido.

INVENÇÃO DO NOME

Os nomes dos indivíduos, na origem, eram com certeza nomes comuns: Charpentier, Dulac, Duchêne, etc. (os nossos Carvalho, Rocha, Pereira), e, nesse sentido, são significativos de uma profissão, um objecto, um lugar, etc.

A Lei de Manou, na índia, recomendava que se desse às mulheres um nome doce à pronúncia e aos homens um nome

A Escrita Original. Parece que estes diferentes tipos de escrita derivam da forma

dos cromossomas:

1 — Cretense linear

2 — Espermatozóides

3 — Mexicana

4 — Egípcia e chinesa

5 — Hebraica

6 — Egípcia

7 — Tábua de Grove Kreek

8 — Ilha de Páscoa

9 — Mohenjo-Daro

10 — Atlântida segundo Mavrothalas-

sitis


11 — Tcho Gha Mich (Irão)

12 — Códice Telleriano-Remensis

13 — Letras Keddah e Talaing

14 — Disco de Hephaistos

15 — Cromossomas

16 — Espermatozóides

17 — Alfabeto celeste hebreu

18 — Cromossomas

19 — Rochebertier (escrita pré-histó-

rica)


20 — Madeleine (escrita pré-histórica) 21—Madeleine (escrita pré-histórica)

22 — Madeleine (escrita pré-histórica)

23 — Trupt (escrita pré-histórica)

24 — Escrita hebraica quadrada (in-

vertida)

25 — Escrita de Glozel

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de significado positivo, ou seja, com uma significação física e moral. Muitos indianos escolheram associar a este nome o de uma divindade por quem tinham particular admiração.



Nos antigos Hebreus, os nomes dos patriarcas possuíam uma significação mística, em relação habitualmente com Deus e com os sentimentos que lhe votavam4. Em seguida, os nomes refe-riram-se a elementos da Natureza: Thamar (palmeira), Sara (princesa). Raquel (ovelha). Deborah (abelha); depois a nomes de profecia; depois, por fim, degenerando a raça e as suas qualidades morais, os nomes tornaram-se tipicamente materialistas: pedra de ouro, pedra de prata, montanha de ouro, montanha de prata (Goldstein, Silverstein, Goldberg, Silverberg, etc).

O decreto de 20 de Julho de 1803 sobre os judeus estrangeiros residentes em França obrigou-os a adoptar um nome próprio que os distinguisse uns dos outros e aconselhou-se-lhes os nomes de cidades francesas e estrangeiras.

Datam desta altura os Lisboa, os Ratisbona, os Carcassona, os Cremona, os Friburgo, etc.

Os nomes patronímicos são de criação recente entre os muçulmanos; em muitos estados o nome continua a extinguir-se com a morte do indivíduo.

Os povos do Norte e os Bárbaros davam muita importância ao facto de se ter um nome distintivo, essencialmente pessoal e não transmissível, a não ser pela fórmula: filho de.

A ALCUNHA OU NOME CROMOSSÓMICO

Os antigos Gregos tinham um único nome e não o transmitiam; os Romanos usavam habitualmente um nome e um sobrenome.

Os Celtas — Gauleses, Dácios, etc. — tinham um nome ou um sobrenome individual significativo, como os Indianos e os Índios da América.

A alcunha, tão velha como o mundo, é efectivamente o

4 Elias, Joel: dois nomes de Deus; Nataniel, Elviatan, Jónatas e Natania: dom de Deus; Josué, Jesus; nomes misteriosos e proféticos.

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nome pessoal mais significativo de uma qualidade ou de uma deformação física, mas é evidente que o verdadeiro nome do homem do futuro será codificado por um computador, em função de equivalências letras-genes ou letras-cromossomas, que exprimirão a sua verdadeira e inalterável identidade.



O homem estará então à imagem do seu nome, até ao dia em que o biólogo tenha o monstruoso poder de negociar os genes, ou seja, de modificar a identidade de um indivíduo, de mudar o seu «eu» sagrado.

Será então o pecado que conduzirá infalivelmente à perda do paraíso terrestre que habitamos.

E mais uma vez será por causa de uma espécie de serpente!

O PROTESTO CONTRA A MULHER!

Sabemos que o pecado original foi, segundo a Bíblia, feito por Eva e Adão, que roubaram o fruto da árvore do conhecimento e que, ao verem-se nus, se deixaram arrastar pelo prazer da carne.

Excluindo os puritanos, já ninguém se espanta com a gula e com a ((torpeza» dos nossos antepassados; bem pelo contrário, visto que a instrução e realização do casamento se tornaram em todas as latitudes do globo virtudes louvadas e encorajadas pelas religiões e pelos governos.

O famoso pecado devia portanto ser, na origem, qualquer crime cuja natureza se perdeu na noite dos séculos.

O terceiro dos cinco livros canónicos chineses, o Chi-King5, anterior à Bíblia, atribui à mulher a responsabilidade da primeira falta.

Lê-se aí: ((Tínhamos campos felizes, a mulher roubou-nos.

Tudo estava sob a nossa sujeição, a mulher lançou-nos na escravatura. O que ela odeia é a inocência, e o que ela ama é o crime. O marido sensato ergue a muralha, mas a mulher, que tudo quer saber, deita-a abaixo.

s O Chi-King, traduzido em latim pelo padre Lacharme, foi publicado em Estugarda, em 1830.

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Oh, como é esclarecida! É um pássaro de piar funesto e teve a língua muito solta. É a escada por onde todos os nossos males desceram...

Foi ela quem perdeu o género humano; primeiro foi um erro, a seguir um crime.»

Não se deve, diz um provérbio, escutar os discursos da mulher, porque foi ela a origem e a raiz do mal.

O desejo imoderado da ciência, diz o filósofo Hoi-Nan-Isé, perdeu o género humano; mas não precisa de quem foi a responsabilidade.

O Zend-Avesta dos antigos Iranianos, ao falar do primeiro par humano, conta assim o pecado: «Mesquia e Mesquiane a princípio eram puros e agradavam a Ormudz6; Ahriman, com ciúmes da sua felicidade, apareceu-lhes sob a forma de cobra, ofereceu-lhes uns frutos e persuadiu-os de que era ele o verdadeiro criador do universo.

Mesquia e Mesquiane acreditaram e tornaram-se seus escravos; desde então, a sua natureza foi corrompida e essa corrupção afectou a sua descendência.»

Os Citas chamavam à sua mãe comum a Mulher da Serpente, que também é a Cihua-Cohualt dos Mexicanos.

A ESTRANHA SEITA DOS CAINISTAS

Para o Zend-Avesta e para a Bíblia, o pecado original foi portanto a desobediência às ordens de Deus, mas os teólogos nunca conseguiram explicar com clareza o que era a lei divina.

Por volta do ano 159 da nossa era, os cainistas propagaram uma estranha filosofia relativa ao problema do bem e do mal.

Estes membros de uma seita de gnósticos, que pretendiam ter um conhecimento transcendental e completo da Natureza e dos atributos de Deus, veneravam Caim, o assassino de Abel, e os

4 Ormuzd ou Ormazd é o deus supremo da mitologia masdiana, criador do universo bom e luminoso; Ahriman é o deus e o princípio do mal, oposto a Ormazd. A Bíblia recebeu do Zend-Avesta o símbolo do paraíso terrestre e da queda do homem.

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sodomistas de costumes duvidosos, e prestavam culto a Esaú, a Core, a Judas Escariote.



Em contrapartida, odiavam todos os profetas do Antigo Testamento: Abel, Noé, Abraão, Isaac, etc.

Na sua filosofia, diz a Enciclopédia, a inteligência benfeitora e a inteligência malfeitora, que presidiam à criação, tinham feito Adão e Eva; em seguida, os espíritos aprisionados nas inteligências, revestindo-se de um corpo, tiveram relações com Eva.

Dessa união nasceram umas crianças que possuíam o carácter da potência a quem deviam a vida.

Abel, submetido ao criador da Terra, era considerado como filho de um Deus a quem chamavam Histère.

Caim, pelo contrário, havia sido engendrado pela sabedoria e princípio superior; devia portanto ser venerado como o primeiro dos sábios.

Segundo os cainistas, Judas era o único, entre os Apóstolos, que conhecia o mistério da criação e por essa razão é que tinha entregue Cristo aos seus inimigos, esse mesmo Cristo que queria reconciliar os homens com Deus.

Ainda segundo eles, Jesus seria o Messias se tivesse pregado a discórdia, como havia anunciado, e não o amor, que é fundamentalmente detestável7.

A perfeição, afirmavam os gnósticos, consiste em cometer o maior número possível de infâmias!

O seu evangelho era o de Judas e um outro livro, estranho, intitulado a Ascensão de São Paulo.

Estas doutrinas singulares tiveram sucesso e há quem talvez veja um ressurgimento dos cainistas nos hippies dos nossos dias.

' Jesus tinha efectivamente dito (Mateus, cap. X, vers. 34 e 35): «Nio penseis que vim trazer a paz à Terra; não vim trazer a paz, mas a espada. Porque vim para separar o homem do seu pai, a filha da sua mãe, etc.»

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DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS

Esta noção do bem, do mal e do pecado, vendo bem, não é muito diferente da que tiveram certas pessoas da Igreja na Idade Média e mesmo muito mais perto do nosso século.

Os teólogos e os papas muitas vezes abusaram da interpretação do pecado mortal.

Na Idade Média, era concedida a remissão de todos os pecados aos cristãos que combatiam os inimigos da Igreja: os muçulmanos, os heréticos e mesmo outros cristãos súbditos de reis que tinham tido a infelicidade de cair na desgraça da Santa Sé.

Assim, o Papa Júlio II (1503-1513) concedia o perdão de todos os seus pecados a quem quer que tivesse morto um dos membros da família excomungada dos Bentivoglio!

Clemente V (1305-1314), depois de ter excomungado a cidade de Veneza, declarava absolvido e dispensado de penitência para os seus pecados quem quer que matasse um veneziano.

Em 1797, Pio VI prometeu a mesma graça a qualquer pessoa que matasse um republicano francês!

«Todos aqueles que matarem um francês», diz, «farão um agradável sacrifício a Deus e os seus nomes ficarão inscritos entre os dos eleitos do Senhor.»

Deus nessa época não era republicano!

Como compensação desta atitude benevolente, a Igreja mos-trava-se intolerável em relação a crimes odiosos que constituíam verdadeiramente os pecados mortais.

Como era possível tomar um caldo de carne às sextas-feiras!

Inocente XI excomungava as mulheres «que não cobriam o peito, do seio até ao pescoço».

Esta lei foi renovada por Pio VII e por Leão XII, que, além disso, estenderam a sua severidade às costureiras, modistas, alfaiates que confeccionassem fatos indecentes.

Benedito XIII decretou a excomunhão ((dos jogadores de lotarias das diversas nações e daqueles que estavam empregados nas administrações desse jogo».

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Clemente XII (1730-1741) associou-se a este virtuoso edicto, mas, como tinha estabelecido uma lotaria nos seus estados, limi-tou-se a lançar o anátema exclusivamente aos que perdiam o dinheiro por outros sítios!



LOUVOR AO RACISMO

Estas digressões anedóticas não são inúteis para quem quer ter uma noção relativamente clara do pecado, tal como era compreendido nos tempos de obscurantismo e tal como se pode, à luz dos nossos conhecimentos actuais, estudar-lhe a natureza profunda.

Há de facto uma virtude primordial: o racismo; e um pecado mortal: infringir a lei do racismo8.

A finalidade da vida, na sua interpretação mais lata, é assegurar ao homem a evolução, sem alteração, da espécie, e trabalhar o máximo possível para o seu aperfeiçoamento físico, intelectual e psíquico.

Aquele que se inclina para a exaltação das suas características leva uma vida boa; pelo contrário, aquele que destrói a sua natureza profunda e original, pelas drogas, o álcool, os vícios, os maus pensamentos e as acções criminosas, opõe-se às leis universais.

Houve um tempo em que os homens tiveram relações íntimas abomináveis com outras raças diferentes da sua. As mitologias e a maior parte dos textos sagrados dão conta desse desvio do bom sentido humano, e seguiram-se procriações monstruosas que deterioraram a herança genética e puseram a humanidade em perigo.

8 É possível que a palavra racismo não corresponda exactamente àquilo que entendemos. Na ausência de qualquer outro termo mais apropriado, chamamos racismo à preocupação de preservar, de não deteriorar o património hereditário e genético de toda a espécie humana, sem distinção de indivíduos, de povos ou de etnias. Sublinhamos esta definição aleatória, para dissipar um possível mal-entendido ou uma interpretação malévola.

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Já tratámos deste assunto' lembrando as recomendações do Senhor ao seu povo, na Bíblia (Levitas, cap. XVIII):

22. Não cometereis essa coisa abominável que è servir-se de um homem como se fosse uma mulher.

23. Não vos aproximareis de nenhum animal, e não vos conspurcareis com ele. A mulher também nunca se prostituirá desse modo com um animal, porque é um crime abominável.

24. Não vos conspurcareis nunca com todas essas infâmias com que se conspurcaram todos os povos que, diante de vós, condenarei.

Uma coisa é nítida: houve outrora relações entre a raça humana e a raça dos animais inferiores.

O resultado disso foi uma degenerescência da humanidade, que esteve talvez prestes a cair na animalidade monstruosa.

Não teria sido o fim do mundo, mas o fim do homem, o aniquilamento de uma laboriosa e maravilhosa ascensão de que os nossos milénios históricos dão testemunho.

Eis a razão que nos leva a pensar que o pecado mortal por excelência é o que é perpetrado contra a raça humana.

TODA A NATUREZA É RACISTA

A autenticidade do pecado contra a lei do racismo (ou da espécie) é de ordem universal. Parece que os animais não têm a inteligência tão desenvolvida como a nossa, mas nenhum se aventura a procriar com uma raça diferente da sua.

O cuco põe os ovos num ninho de toutinegra ou de pintar-roxo, mas não há relações sexuais entre estes pássaros.

As plantas são ainda mais racistas.

* Robert Charroux, Le Livre des Secrets Trahis, cap. X: «Le Dieu Jaloux du Peuple Élu», pp. 183-187, ed. Robert Laffont, Paris.

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O vento leva o pólen e espalha-o pelo pistilo de mil flores diferentes, a abelha transporta o pólen de um lírio para uns goiveiros, umas acácias, buxos, etc, mas nunca se segue uma fecundação.

Mesmo de orquídea para orquídea, se a espécie não é rigorosamente idêntica, imediatamente se precipitam anticorpos para neutralizar o pólen estrangeiro.

E a lei continua a vencer e a dominar.

Em todos os departamentos da sua vasta organização, a Natureza vela pelo respeito da protecção das espécies e tudo está previsto para que não se possam dar hibridações perigosas, sobretudo no escalão superior, ou seja, nas espécies mais evoluídas.

Em contrapartida, um norueguês pode ter filhos de uma mulher baluba ou de uma papua, um chinês de uma mexicana: pertencem todos à raça humana.

No entanto, seria sem dúvida um erro para um homem intelectual, culto, erudito, casar com uma mulher de nível intelectual e psíquico anormalmente baixo.

O homem deve tender para elevar o seu nível de consciência e de acção e não para o baixar10.

Os antigos Hebreus editaram leis contra esse crime fora do bom senso.

O Talmud recomenda à mulher que se case, no caso de poder, com um membro do sentiédrin, ou com um mestre--escola, ou então com um homem inteligente e conhecedor dos escritos sagrados.

O homem ignorante ou idiota «envergonhava a Deus» e devia-se lapidá-lo ou mesmo suprimi-lo (eutanásia).

A lei de Moisés condena à pena de morte aqueles que contraírem matrimónio com parentes próximos.

Levando demasiado longe a noção de pecado e de racismo, recomendava-se aos Israelitas que escolhessem, tanto quanto pos-

" «O cancro é o desespero da matéria viva superiormente organizada. Deus disse aos cancerosos: "Que fizestes da energia que vos dei... que desordem não puseste no meu plano".» Extracto de Hygiène et Medicine Naturelle, n.° 849, 26, Rue d'Enghien, Paris, 10.°.

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sível, as mulheres na sua própria tribo, a fim de tornar menos complicados os problemas da hereditariedade.

Os casamentos entre os Judeus e os Cananeus eram formalmente proibidos. (Êxodo XXXIV, 16, Deutér, VII, 3, etc.)

O PECADO MORTAL

Se plantarmos uma bolota, nasce-nos um sobreiro e não uma acácia ou uma faia.

Os sobreiros conhecem o seu ofício de árvores, que é o de assegurar a continuidade da sua espécie. Se um deles, por não sei que milagre ou aberração, desse um choupo, seria então o fim do mundo num caos inimaginável, fantástico e de pesadelo.

O camponês semearia trigo e colheria grama, a cadela pariria ratos, o peixe, pássaros e, ficando todo o plano universal alterado, falsificado, seria uma vida monstruosa a tomar o lugar da vida organizada.

A grande segurança que torna a vida, não só suportável, como admirável, é a confiança que temos na ordem universal.

Tudo no universo obedece a um ritmo, a uma lei preconcebida por uma inteligência infinitamente mais subtil que a do homem.

Tudo na evolução criadora está submetido a um plano infalível, onde tudo está previsto, até mesmo o acaso, e os cartões perfurados do computador cósmico não suportam qualquer erro.

Nenhum computador humano será alguma vez capaz de assegurar um processo matemático, físico e espiritualizado tão complexo e subtilmente inteligente como o processo de reacções, de ligações, de mensagens e de complexificações que, depois e antes do ADN, se desenvolve e consegue rigorosamente a criação de uma rosa, de uma andorinha ou de um homem, de uma nuvem ou de uma galáxia.

O homem, num certo sentido, é um resultado de tal forma milagroso que seria um sacrilégio danificá-lo.

Seria tão estúpido como querer destruir a obra-prima de um escultor, desfazê-la em bocados e com eles construir um caminho.

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Ninguém tem o direito de cometer tais sacrilégios, e o pior de todos, no que nos toca, é danificar o nosso código genético.



A lei do racismo é universal, intangível. Quem lhe desobedecer, peca.

Pode imaginar-se um tirano capaz de destruir três milhões de homens e de só deixar subsistir mil ou cem indivíduos.

Seria um grande crime, mas não o pecado, porque o mundo podia recomeçar e nada está perdido antes que tudo o esteja.

Em contrapartida, e não se está já muito longe11, quando o biólogo começar a misturar os genes e os cromossomas, então cometer-se-á o pecado imperdoável e a raça humana será precipitada no zero.

Não haverá nada para a salvar, o paraíso terrestre estará perdido, será a queda do homem.

É assim que entendemos a fábula do pecado original.

É assim que parece surgir a verdade profunda e terrível do símbolo do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, ou seja, da ciência.

É uma terrível eventualidade que pesa sobre o destino da humanidade.

11 Os biólogos começaram já a misturar os genes e as células. Estudam o meio de modificar à vontade certos caracteres hereditários. Ao nível da célula, na Universidade de Oxford, já se realizaram casamentos entre planta e animal.

CAPÍTULO XIV A CRIAÇÃO DO MUNDO

PARA abordar o mistério da criação do universo, os físicos tentam previamente explicar o que é a Vida. Alguns pensam que a matéria é inerte e que o núcleo que a separa do que vive está ligado a um conceito revolucionário de espaço-tempo, o que estabelece uma diferença fundamental entre a matéria e o que vive, ou, dito de outra maneira: a morte e a vida.

Esta opinião, dificilmente sustentável, não é partilhada pelos verdadeiros sábios, que, pelo contrário, tendem cada vez mais a imaginar um universo-entidade vivo, ou, segundo a expressão de Robert Linssen: como um ((grande pensamento» 1.

EM TUÚO HÁ VIDA

.. «Os trabalhos do cientista inglês D. Lawden», escreve Linssen, «do matemático e filósofo Stefane Lupasco, do matemático e químico Tournaire, do físico P. A. M. Dirac, do doutor Roger Godel, de Robert Oppenheimer, de Jean Charon, de Teillard de Chardin, de Chauchard, etc, põem em relevo certas capaci-

' Robert Linssen, Spiritualité de la Matíère, edições Planète, Paris.

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dades de memória e de inteligência não só da matéria organizada, como também da matéria não organizada.»

Numa palavra, a vida existe em toda a parte com as suas qualidades físicas e psíquicas, do mineral ao ser humano, porque ambos têm uma essência idêntica.

Torna-se então provável que a matéria e a energia tenham também uma mesma identidade, examinada sob diferentes aspectos.

A TESE DO MESTRE DESCONHECIDO

A tese de um Mestre Desconhecido refere a situação da argila, no centro da escala de electronegatividade, a igual distância do flúor e do césio.

A argila está a meio caminho entre:

— o flúor: acidez, frio, mini-densidade, ou negatividade, ou espaço, ou espirito.

— o césio: basicidade, calor, maxidensidade, positividade ou massa, ou psiquismo.

Fluor (-223°) Al —Si Césio ( + 28°)

O alumínio é um metal (macho), o silício é um metalóide (fêmea): a combinação dos dois, "por intermédio da água, dá a argila (silicato de alumina hidratado).

O interesse desta exposição reside nas qualificações: função ácida de espaço-espírito e função básica de massa-psiquismo, que têm uma ligação natural com o problema da criação e da origem do homem na base da tabela de Mendeleiev, dos cento e quarenta e três elementos.

Tradicionalmente aceitam-se quatro princípios simples: o fogo, a água, o ar e a terra, mas o Mestre Desconhecido restringe o número dos elementos-matéria a dois: o tempo e o espaço2.

2 Uma tese mais aceite reduz o número dos elementos-matéria a um único: o continuum espaço-tempo.

O espaço-tempo na relatividade de Einstein é um continuum (o contrário

227-


PROTEU, O VIAJANTE DO TEMPO

A função básica liga curiosamente a massa ao psiquismo, o que corresponde ao axioma einsteiniano: matéria = energia.

E, de resto, evoca também a tradição do filho de Neptuno e de Fenícia: o deus marinho Proteu, que tinha, como o ADN e os cromossomas, o dom de conter o futuro, ou seja, viajar no tempo e também conhecer todas as coisas.

Proteu, nome que tem por raiz grega prôtod (primeiro), só revelava o seu saber à força (o iniciado só revela a quem merece; é necessário matar o dragão para atingir o tesouro; é necessário esperar a morte do Mestre para herdar a sua sabedoria).

Outra ligação iniciática: Proteu tinha o poder de se metamorfosear em rochedo (matéria), em árvore (reino vegetal), em animal, o que leva a crer que a função protónica, primeira e positiva, tem o privilégio de decidir sobre a escolha da espécie e das direcções evolutivas.

Se continuarmos o jogo das aproximações entre a iniciação e a ciência, observamos que com Proteu, a água-mãe do oceano primitivo está intimamente ligada à acção, assim como a água--mãe na tese dos biologistas está obrigatoriamente associada à eclosão dos ácidos aminados, genitores da vida dita biológica.

Finalmente, os poderes de metamorfoses e de presságios do deus, para se exercerem, implicam a existência de um universo diferente do nosso, análogo àquele em que Jean Charon situa as ondas electromagnéticas de ligação entre a matéria e o vivo, ondas a que ele chama «mnemónicas», sem dúvida por serem parentes próximas dos cromossomas-memórias e dos «arquivos acásicos do universo!»

de descontínuo), ou seja, segundo André Guéret e Pierre Oudinot: «Uma certa curva sem solução de continuidade (sem interrupção), desenvolvendo-se no espaço. Só se poderia ir de um ponto a outro, passando por todos os pontos intermédios.»

Por outras palavras, o tempo e o espaço não são dissociáveis e existem simultaneamente, um pelo outro e inversamente: o continuum espaço-tempo é uma curva, e identifica-se assim ao Universo, que também o é.

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Estas reminiscências e estas teses sugerem imperiosamente um universo de quatro ou cinco dimensões, o que facilita singularmente as especulações sobre o mistério da criação.

O MAIS, O MENOS E O TEMPO ZERO

Quando a tradição e a física clássica estão de acordo temos quase sempre a certeza de ir na boa direcção.

A tese dos Iniciados sobre o nascimento do Universo apro-xima-se da de Jean Charon sobre o nascimento da vida: a programação da célula podia muito bem estar encerrada num círculo vergado por uma energia e contendo as ondas electromagnéticas das suas informações, sob a forma da espiral de cadeia molecular do ADN.

O limiar entre a matéria e o vivo estaria ligado a uma questão de continuum espaço-tempo*.

Estas aproximações feitas em torno do mistério da criação apagam o dilema ultrapassado dos antigos cosmólogos: o mundo teve um princípio ou é eterno?

Seria humilhante fixarmo-nos na explicação bíblica dos cristãos e dos Judeus, para quem o mundo foi criado pelo Deus de Abraão!

Curiosamente, foi a lenda, a mitologia, a tradição, até mesmo o conto, que chegaram mais ao âmago do problema.

Os Maias do Popol Vuh tinham uma concepção da história e do tempo que se aparentava ao milagre puro e simples, sem se submeter às leis de duração e de espaço do nosso universo tridimensional.

A metamorfose, o «proteísmo», a ubiquidade, a viagem no tempo, foram desde sempre os elementos-base da bruxaria, da religião, da magia e das aventuras fabulosas dos cavaleiros da Távola Redonda.

3 Toda a massa e toda a energia deformam o espaço-tempo e curvam qualquer deslocação de móvel. O universo parece assim apresentar-se à nossa imaginação quer como uma máquina fantástica feita de círculos concêntricos «ou orbitando» num plano de eclíptica, quer como uma espiral que evolui numa única direcção a partir de um centro hipotético.

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Para escândalo dos pensadores, a verdade era nesses casos abordada!

Porque a verdade tem a ver com o milagroso, com o inacreditável, e por essa razão é que Teilhard de Chardin dizia que só o fantástico tinha hipóteses de ser verdadeiro.

Os ocultistas já o imaginavam e introduziam nas suas especulações, e muitas vezes nas suas divagações, um princípio extra-científico relativo à Natureza, ao tempo, ao espaço e aos poderes de metamorfoses da matéria, que os racionalistas nunca aceitaram. *

Ora, é com este princípio herético que em certos círculos de iniciação se ensina a cosmogénese.

Segundo esta hipótese, o nada existiu, e existe ainda, juntamente com a criação, se se reduzir o espaço-tempo à sua expressão mais simples: zero.

Para Frédéric Joliot-Curie e Chadwick, a matéria inicial não possuía carga eléctrica. Devia ser pensada como um neutrão.

O neutrão seria assim a protomatéria.

Esse universo primordial, onde o mais e o menos estariam ausentes, identifica-se ao zero, ou seja ao nada, mas a um nada repleto de mais e de menos em potência no futuro, assim como o zero supõe a série dos números um, dois, três, etc.

Somos assim levados a conceber um começo que não foi um, um «vazio-cheio» neutro, contendo o positivo e o negativo.

O símbolo do universo é graficamente representado por um traço horizontal pegado a um círculo donde parte um traço horizontal cortado por outro vertical: menos, zero, mais ( — 0 +).

IMAGINEMOS O UNIVERSO

Quando o homem tenta imaginar o universo, encontra dois obstáculos:

— É limitado ou infinitamente grande?

— Tem um começo ou é eterno?

É claro que o sábio sabe dar uma boa resposta: sou ignorante, nada sei sobre esses dois mistérios.

Mas apesar de tudo o homem, sábio ou não, é curioso e

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quer arquitectar hipóteses, e responde, no que diz respeito às dimensões: o universo é infinitamente grande4!



Quanto à criação, ele opta quer pela eternidade, quer por diferentes soluções: começo a partir de energia, de uma vontade de poder, ou de uma entidade baptizada para a circunstância: Deus ou Inteligência Universal.

Na relatividade geral de Einstein, a matéria e a energia são de idêntica essência, o que permite supor, na hipótese de uma criação, que o princípio tivesse sido da energia-matéria.

Estes ensaios de soluções e estas explicações são perfeitamente fantasistas, erróneas, e os físicos, por seu lado, sabem-no.

Os ignorantes, bem entendido, têm uma certeza, ou seja, uma fé, uma crença. O que acontece é que o homem estaca perante obstáculo tanto mais inultrapassável quanto todo o raciocínio humano geralmente se apoia sobre bases de lógica, de que a realidade e as leis físicas são os pilares inquebráveis e necessários.

Ora estas realidades e estas leis só têm sentido no universo imperfeito de que temos a percepção.

O PARADOXO DE ZENÃO

Zenão de Eleia (490 a. C), filósofo dialéctico, negava o movimento, o tempo, o espaço e concluía pela imobilidade absoluta.

Negava, de facto, que esses fenómenos pudessem ser demonstrados logicamente, por princípios absolutos.

Segundo o seu pensamento, como atributos dos corpos só havia a unidade e a pluralidade relativa.

Estabelecia a impossibilidade do movimento pelo paradoxo da flecha, que nunca poderá atingir o seu objectivo se seguir uma linha de pontos em número infinito.

A ciência clássica, com o átomo, o universo curvo, a relati-

4 No infinitamente grande, a linha direita não parece dever existir, o que implicaria um universo curvo, não infinito mas indefinido «como uma nuvem de fumo»; seria indefinido no espaço-tempo, mas podia ser finito no espaço e ter tido um começo, o que é difícil de admitir!

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vidade e as matemáticas modernas, dá permanentemente ao paradoxo e à dialéctica o meio e a razão de se exprimirem em hipóteses válidas.

No sistema de Zenão, todo o espaço está dividido numa infinidade de pontos, embora entre zero e um e entre um e dois, entre o metro um e o metro dois, para melhor nos entendermos, haja não só um metro, mas também dez, cem, biliões de pontos.

Este sistema proíbe assim a um comboio que saia de Paris, quilómetro zero, de chegar a Bordéus, quilómetro quinhentos e oitenta e cinco, mesmo se a sua velocidade for de cem quilómetros por hora, ou mesmo cem mil, ou até cem milhões.

É uma conhecida curiosidade matemática, mas não se tem conseguido dar a sua significação profunda.

Se o comboio deve percorrer a infinidade de pontos que liga Paris a Bordéus, terá sempre uma distância infinita a cobrir, .qualquer que seja a sua velocidade. Não chegará nunca ao seu destino.

Facto aparentemente real: o comboio das doze e quinze em Paris-Austerlitz chega todos os dias às dezassete e quarenta e cinco a Bordéus!

A realidade parece superar a fantasia do cálculo!

Mas não é certo! Em absoluta realidade, o comboio não chega a Bordéus, somente atinge zonas da cidade, mas é incontestável que não vai à Praça dos Quinconces, nem ao Palácio Gallien, nem à Catedral Saint-André, nem, nem...

Ora Bordéus não se limita a ser a Estação Saint-Jean, e é toda a cidade, desde a sua maior área possível de ser delimitada em superfície até ao mais pequeno dos seus recônditos, até ao seu infinitamente pequeno, que nunca será atingido, qualquer que seja o meio empregue!

Esta especulação só tem por finalidade preparar o nosso espírito para uma outra forma de pensar.

O HOMEM DO NEUTRÃO

Continuemos a investigação no insensato do nosso real. Para um ser que vivesse no neutrão de um átomo, o infini-

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tamente grande situar-se-ia para além do protão, nas zonas inacessíveis onde circulam os electrões, aos biliões, uns brilhantes como as nossas estrelas, e os outros de tal modo afastados que a sua luz se deve perder em insondáveis profundezas5.



Para lá desta incomensurável coroa electrónica, mais constelada que os nossos céus à noite, cintilante, rasgada por estrelas cadentes, por cometas e por O.V.N.I. (Objectos Voadores não Identificados) devidos a alterações de órbita, um ser vivo sobre um neutrão não conseguiria imaginar outros espaços.

Do mesmo modo, um ser que pense, e que habite no vírus dos orelhões, teria talvez uma certa percepção do cérebro ou da orelha, mas o resto da cabeça escaparia ao seu poder de investigação e nem lhe passaria pela ideia que pudesse depender de um sistema orgânico muito mais importante.

E o homem, no seu planeta, imaginando o «seu» universo profundo de x biliões de anos-luz, segundo os seus radiotelescó-pios, também é como o protão de um átomo e o habitante de um vírus dos orelhões.

A ideia de grandeza e a ideia de pequenez são assim destituídas de qualquer consciência, dado que o infinitamente longe não está mais afastado que o infinitamente próximo e vice-versa.

Coincidem ambos com este centro teórico que é o nosso eu físico, como o futuro coincide com o passado e com este centro teórico que é o nosso eu presente. A nossa realidade captada é, neste sentido, inimaginável, fora "de alcance, ilusória.

Eis-nos, finalmente, perto de uma concepção relativamente positiva do nosso universo, do seu espaço e do seu tempo, porque, se chegarmos a admitir e a imaginar que o espaço e o tempo não existem na realidade, teremos então uma certa percepção do mistério da criação e da vida.

5 No átomo, entre a coroa de electrões e o núcleo, há, proporcionalmente, uma distância tão grande como entre o Sol e a Terra. Um tiro de artilharia de partículas destinadas a expulsar um neutrão do núcleo obriga a enviar milhões de obuses para ter uma possibilidade de atingir o objectivo.

De notar que a estrutura hipotética do átomo foi posta em questão desde que os físicos Danos e Gillet estabeleceram que o núcleo estava organizado em quartetos.

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UM MORTO E UM VIVO



Um jogo análogo permite situar fora do tempo um certo sistema de aparição do existente ou elemento primordial, donde tudo proviria por uma complexificação verdadeiramente inexplicável.

Com efeito, uma complexificação6 supõe um acrescento, a adição de qualquer coisa.

É neste ponto que se joga com o continuum espaço-tempo e com a ideia de que a unidade-matéria é também espírito ou energia existindo num continuum passado-futuro que pode, com imaginação, explicar que um contém mais um e menos um.

Este um é assim ao mesmo tempo finito e infinito, criatura e criador, uma espécie de entidade, recinto do universo.

Um, isolado, é incriado, morto, porque não contém qualquer prolongamento, ou seja, nem duração nem distância.

Será vivo se contiver uma complexificação em potência, isto é, espaço-tempo, energia-matéria e inteligência. Se contiver esta trindade, tudo será possível.

Para o crente preguiçoso, esta trindade é Deus e as suas hipóteses. É um conceito esotérico bastante válido.

Para o homem «disponível», é a possibilidade necessária.

O sistema, em ambos os casos, consiste em acrescentar ao um morto alguma coisa que não está viva, que não existe, mas que vai fazer vida: espaço e tempo.

Então um torna-se dinâmico, vivo e gerador do possível, nem que apenas de ubiquidade.

As experiências de Bernard d'Espagnat, professor no Colégio de França, puseram em evidência este fenómeno de ubiquidade próprio de certas ondas. A ficção une-se à ciência.

• Esta palavra é agora correntemente empregue pelos físicos.

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O PAI, O FILHO, O ESPIRITO SANTO



Chega-se deste modo a conceber um fenómeno de criação uno e múltiplo, sem começo no tempo, já que feito com o nada, com o passado e com o futuro, e este jogo leva-nos ainda a inventar fantasmas necessários: o infinito-finito, a energia-matéria inteligente, Deus inexistente e todo-poderoso, ((criador do céu e da terra, consubstancial ao Espírito Santo e ao filho, que é carne e vida manifestada».

É evidente que tudo isto é energia ilusória, mas que alimenta a curiosidade ávida dos homens.

Esse grande iniciado que era Buda analisara este conceito há dois mil e seiscentos anos e definira-o por esta palavra magistral: a mâyâ.

Outros conhecedores, os teólogos, meio milénio mais tarde, também compreenderam que convinha dar um Filho a Deus para que a Santíssima Trindade pudesse representar esoteri-camente o símbolo da criação.

Esses conhecedores eram Iniciados.

ILUSÃO DO TEMPO: UNIVERSO INSTANTÂNEO

Estaremos nós agora suficientemente libertos da ilusão do real para tentar uma hipótese nova?

O passado, o presente, o futuro coincidem.

O mensurável, o infinitamente grande e o infinitamente pequeno coincidem.

Estes termos não correspondem a nenhuma realidade absoluta, são apenas a expressão do nosso universo convencional, são existentes e inexistentes, consistentes e imateriais, iguais e superiores a zero, neste sentido que é o de não podermos avaliar nada com os nossos sentidos imperfeitos e o de tudo ser ilusão.

É a opinião dos verdadeiros sábios: ((Só o que é insensato tem possibilidades de ser verdadeiro», disse Niels Bohr; também o padre Teilhard de Chardin pensava o mesmo.

Com estes dados podemos então tentar uma explicação da

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criação do universo: não é nem eterno, nem tem um começo ou um fim: está em incessantes criações e desaparições.



O universo foi criado a uma infinidade de biliões de anos--luz; será criado numa infinidade de biliões de anos; começa a sua criação neste preciso instante, tudo isto simultaneamente, com uma absoluta coincidência do tempo e do espaço, do vazio e do pleno, do mais, do menos e do neutro.

Este conceito fantástico, já suspeitado pelos físicos progressistas, tem todas as possibilidades de ser menos ilusório do que a afirmação do catecismo: Deus criou todas as coisas; ou do que a cosmogénese da escola laica e primária: o universo existiu desde sempre7.

O RIG VEDA DISSERA-O...

A introdução do espaço-tempo não é um elemento novo na tentativa de cosmogénese.

Os Iniciados, desde há milénios, tinham precedido os físicos com esta tese: no inexistente e no nada do vazio inicial ultrapassado foi tudo procriado com o existente do universo ultrafuturo.

Exactamente isto tinham já os esoteristas lido no Rig Veda:

((Não existia ser, nem não ser, nem éter, nem esta cúpula do céu, nada de envolvente, nem de envolvido... mas Aquele, Ele, respirava só, só com Ela, cuja vida Ele guarda no seu seio.

Para além de Ele, nada, de que depois tenha existido, existia.

O desejo formado pela inteligência de Aquele tornou-se semente original (desejo = energia); a semente tornou-se progressivamente providência, ou almas sensíveis e matéria ou elementos.

7 Se a ideia de Deus, pai de Jesus Cristo, juiz do bem e do mal, do Paraíso e do Inferno, informador de Moisés no Sinai, conselheiro militar de Josué, espião dos nossos pecados nò observatório astronómico do céu, é grosseiramente insensata, a da Inteligência Superior é-o muito menos. Quanto ao conceito de universo eterno, embora não seja fundamentalmente falso, não tem explicação e não pode ser apreendido.

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Ela, que por Ele é em seu seio mantida, foi a parte inferior; e Ele, que observa, foi a parte superior.



Quem conhece com exactidão e quem poderá afirmar8, neste mundo, onde e como teve lugar esta criação?

Os deuses são posteriores a esta produção do mundo.»

DEUS FOI INVENTADO PELA INTELLIGENTSIA

A ideia de «criação» é completamente estranha aos teólogos da Índia. Para eles Deus não criou o universo: vomitou-o9.

Chamam criação ao «nascimento dos elementos, das moléculas elementares, dos sentidos e da inteligência, nascimento produzido por Brama, por meio da mistura desigual das qualidades; as emissões secundárias vêm de Purusha (princípio construtivo)». \

Na realidade, nada se passa assim porque tudo é mâyâ (ilusão).

Os diferentes conceitos de cosmogénese e da natureza de Deus, se são levados a sério pelo homem do vulgo, não passam de brincadeiras para a intelligentsia.

No Bhagavat Purâna, Bhagavat (Deus) é o primeiro dos seres que, sob a forma de Purusha, é ao mesmo tempo agente, continente, causa e efeito; incriado, cria-se em cada kalpa (ciclo), já que subsiste e se destrói alternadamente.

Deus é o conjunto dos seres por ele emitidos.

Aquele que sozinho é todas as coisas, é Deus.

Eis-nos bem longe dos dogmas e dos deuses ilusórios dos cristãos, dos judeus e dos muçulmanos, tão inexistentes e inventados como os dogmas e os deuses do Egipto, do Peru e do México.

Mais iniciático que o Bhagavat Purâna, o Geeta ou Evangelho, ou Boa Nova, do qual Mateus, Lucas e Marco decalcaram os

* Qualquer que seja a hipótese adoptada, caímos sempre no não compreensível, no paradoxo. Mesmo no Rig Veda, «não existe nada, a não ser qualquer coisa»!

' Criar significa: fazer nascer a partir de uma matéria exterior a si. Vomitar implica uma criação que participa do criador, que é parte de si mesmo.

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seus evangelhos cristãos, faz-nos interessantes revelações sobre Deus e sobre as altas esferas da iniciação.



O orientalista Ed. Duméril escreveu, segundo os enciclope-distas10:

«Os brâmanes, invejados por levarem uma existência contemplativa, numa atmosfera agitada que fazia de todo o trabalho um suplício, quiseram legitimar pelo raciocínio a superioridade da sua casta: inventaram para as necessidades da causa um ser supremo.

Introduzindo um deus num sistema filosófico que não tinha qualquer espaço para a divindade, sem lhe negar positivamente a existência, a classe inteligente da índia cometeu uma verdadeira violência.

Por uma hábil encenação», acrescenta Ed. Duméril, «o autor (do Bhagavat Geeta) não deixa de dar aos seus ensinamentos a santidade de verdades, cuja origem se perde na noite dos tempos, e a autoridade de um revelador superior à humanidade.»

Esse ((revelador» a quem os fundadores de religiões chamam Deus ou Ser Supremo, para impressionar os crentes ignorantes, é, de facto, para os seus espíritos uma mâyâ, uma inteligência desconhecida e impenetrável.

Daqui resulta que os Grande Iniciados da índia, e sem dúvida os do mundo inteiro, inventaram um demiurgo à medida do povo, que até forjou o culto de deuses secundários, os quais não passavam de heróis, de legisladores, ou de humanos supe riores.

MANOU S ABI AO...

O Código de Manou, é bom que se lembrem, afirmava que o Veda ê o principio e o verdadeiro sentido do universo existindo por si mesmo, impensável pela razão humana que não lhe pode apreciar o alcance.

Manou, primeiro homem, primeiro iniciador e primeiro

10 G. D. L., Bhagavat Geeta, p. 568. Ê, em resumo, a opinião de Ed. Duméril.

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herdeiro do conhecimento transcendental no nosso ciclo (ou manwatara), deu uma representação simbólica do nascimento do mundo, rica de ensinamentos para quem a souber ler:



((Brahmâ neutro, o que não se pode conhecer, aquele que o espírito não pode perceber, fez emanar da sua substância as diversas criaturas.

Produziu primeiro as águas, onde depositou um germe que se tornou num ovo brilhante no qual nasceu o próprio Ser Supremo (ainda uma interpenetração e a utilização de um estranho espaço-tempo) sob a forma de Brahmâ masculino, o antepassado de todos os seres. Brahmâ permaneceu nesse ovo durante um ano (3110 400 milhões de anos humanos), e só pelo pensamento separou-o em duas partes: o Céu e a Terra.»

Conclui-se daqui que a primeira criação não foi a argila, nem mesmo os gases (H e C), mas a água (H2 O), donde tudo teria saído.

Esta tese não tem o acordo dos físicos, que dizem ser a criação aquosa posterior à dos gases elementares: hidrogénio, oxigénio, azoto^ carbono (gás carbónico) também eles originários da energia-matéria.

No entanto a tradição é formal: o primeiro movimento foi nas águas, e Nara, o espírito divino, foi chamado Nârâyana, o que caminha sobre as águas (imitado pelo Evangelho), porque tudo participa da água e do espírito divino.

A mitologia védica aproxima-se assim da mitologia grega para associar a água à criação; Nârâyana é um parente chegado de Proteu e ambos simbolizam a preparação alquímica da verdadeira Grande Obra: a criação.

Nos mistérios da mitologia há não só conhecimentos iniciáticos, como também segredos científicos que os físicos e os biólogos fazem mal em desprezar.

A COSMOGÉNESE DOS INICIADOS

A cosmogénese que se ensina no nãos dos Iniciados pode ser expressa do seguinte modo: no inexistente e no nada do grande

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vazio inicial passado, tudo foi procriado com o existente e o criador do universo futuro.

Na manifestação do Vivo, a conjectura da evolução (futuro) é mais provável do que a existência do passado11.

A criação pertence a todos os tempos e é necessário concebê-la tanto no futuro não acontecido como no passado terminado ou no presente inapreensível.

O universo tem portanto um começo e um não começo (inexistência).

Começa com o futuro, na condição de o radicar no passado, que é nada e não começo. Neste sentido, pode quase dizer-se que o futuro preexiste ao passado e é-lhe anterior, enquanto lhe é contemporâneo.

Tudo teria sido criado, não com hidrogénio ou carbono, como os químicos pensam, nem com o fogo, a água, o ar e a terra dos espiritualistas, mas com a matéria original una e indivisível: o espaço-tempo.

O primeiro segundo da criação era simultaneamente filho e pai do segundo: o futuro impregnava o passado e confundia-se com ele.

No nosso universo conhecido, o conceito que exprimimos —depois de todos os Iniciados antigos—concretiza-se num tempo presente que não existe.

A carne que comemos contém ao mesmo tempo a matéria e os produtos de digestão, e é só em aparência (a ilusão, a mâyâ de Buda) que os três tempos estão dissociados num espaço triplo que satisfaz o nosso espírito preguiçoso.

É de facto impossível que a acção de comer carne se limite a esta simples expressão: eu como.

Não poderia existir passado, sem existência simultânea com o futuro: tudo é eterno e simultâneo.

A primeira respiração da criança tem um princípio que existia na semente do pai, na do avô, etc. É o passado aparente.

Mas esta primeira respiração implica também e contém as

" Um grão de trigo dá origem a uma espiga, é uma quase certeza facilmente verificável, mas não podemos certificar em absoluto que esse grão provenha de outro grão.

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crianças que nascerão da criança, ou a restituição pura e simples dos elementos constitutivos do corpo físico, e de qualquer modo encerra em si um universo de encadeados passados e futuros até ao princípio e ao fim do mundo, até à eternidade, indefinidamente, sem paragem possível, sem objectivo, começo ou fim.



E o fenómeno é o mesmo quando um grão de areia cai de um rochedo: todo o universo é posto em questão.

É (também) o que Hermes Trismegisto queria dizer com o seu axioma: «Tudo está em tudo12, o que está em baixo é igual ao que está em cima.»

O crente, neste grau de conhecimento, começa a dar-se conta de que as contradições nada têm de irracional!

Não é possível imaginar o ((primeiro» tempo presente com um passado; em contrapartida, deve admitir-se que este primeiro tempo tinha um futuro: possuía-o mesmo hereditariamente, em código genético, e é assim possível concebê-lo como passado inexistente do tempo presente.

A quase certeza do futuro é uma das chaves da nossa cosmo-génese.

O passado pertence ao universo de três dimensões, e não comporta nenhum problema insolúvel para a nossa percepção física e para o intelecto.

O futuro pertence a um universo de quatro dimensões: comporta as do nosso mundo habitual e ainda a do mundo provável, mas desconhecido, para o qual nos dirigimos.

A crença — religião ou não—também se inscreve num universo de quatro dimensões, já que implica uma conjectura quase desconhecida.

A criação do mundo, impossível de imaginar no nosso universos de três dimensões, pode ser apreendida, senão mesmo compreendida, e podemos imaginá-la num universo de quatro ou cinco dimensões (a topologia cilíndrica de Jean Charon).

12 Tudo está em tudo porque o passado e o futuro estão contidos num eterno presente, «no centro do Invariável Meio, que está a igual distância de todos os tempos».

Energia = matéria

(Diógenes de Apolónia, 500 a. C.)

CAPÍTULO XV A VIDA E A INTELIGÊNCIA

A. vida é uma fantástica vontade de engendrar, de devir espaço-tempo. A finalidade da vida desconhece-se; talvez seja simplesmente demonstrar a existência, mas é provável que procurar uma finalidade ou querer demonstrar uma existência seja uma preocupação humana sem qualquer sentido no absoluto.

A vida humana deve harmonizar-se com as leis do universo. Nos tempos antigos, o papel das religiões era realizar essa harmonia, ou seja, estabelecer uma ligação estreita entre o destino do homem e o do cosmo.

A Vida é por excelência o princípio superior, é o universo criado, a Essência, Deus, a Inteligência Suprema e o Grande Arquitecto dos franco-mações'.

O princípio-vida preexiste e existe em tudo.

1 Mas dizer que a Vida, que o Grande Arquitecto, tem um filho único, cunhados, tios e avós é uma tolicel

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VIDA PRIMITIVA NO COSMO



Segundo os astrónomos e os físicos, a matéria orgânica viva forma-se a partir dos ácidos aminados que povoam os espaços interestelares, porque a partir de agora tem-se a certeza de que compostos orgânicos muito complexos nascem e se desenvolvem no quase vazio e no frio dito absoluto do cosmo2.

Segundo Sydney Fox, os compostos orgânicos dos espaços interestelares seriam microesferas, células pré-biológicas ou, melhor, esquemas de células biológicas.

DEUS É O CONTINUUM ESPAÇO-TEMPO

O maior físico de todos os tempos, que também era um Grande Iniciado — talvez o Iniciado número um—, Hermes Trismegisto3, afirmava que a vida não tinha começo nem fim, nascimento nem morte, que era eterna e existia em todas as coisas, tanto num grão de areia como no cérebro de um padre.

Resumiu esta doutrina no célebre postulado atrás citado (pág. 241).

Hermes disse ainda:



<(0 espírito (energia) existia antes da natureza húmida (o oceano), que nascera das trevas; tudo era confuso e obscuro antes de o Verbo (organização, estruturação da matéria, comple-xificação) tudo vir animar.»

É exactamente o que a maior parte dos físicos pensam: se

2 Contrariamente ao que se ensina, diz o Mestre Desconhecido, o frio que reina no gradiente físico terrestre (zero graus Kelvin ou duzentos e setenta e três graus centígrados negativos) não é de todo absoluto! O frio nos espaços interga-lácticos progride na razão directa das densidades vizinhas.

3 Hermes Trismegisto era Thot, o iniciador dos Egípcios. Segundo Mane-thon, teria escrito 36 525 livros de ensino sagrado (mais exactamente, 365,25, livros, representando os 365 dias 1/4 do ano terrestre): o Iniciado fala quando é preciso e acelera a evolução dos homens e das civilizações. Há actualmente uns vinte fragmentos da ciência antiga egípcia, atribuídos a Hermes Trismegisto. A sua obra continuou e recolheu as mais antigas tradições do Egipto, o seu monoteísmo, a sua filosofia, e inspirou Pitágoras e Platão.

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tentarmos imaginar o universo, é preciso concebê-lo como uma condensação de energia que se transmuta em hidrogénio e em água.



Poderia, em suma, dizer-se: no princípio houve o oceano mãe, a água mãe.

Esta concepção é certamente falsa no absoluto e no infinito do espaço-tempo, mas é muitas vezes utilizada por motivos de comodidade na restrição do nosso universo conhecido.

Segundo esta hipótese, quem é Deus? O que é a Inteligência Suprema?

Hermes Trismegisto volta a estar, sobre este ponto, de acordo com todos os grandes espíritos dos nossos tempos:

«O Mestre da criação é o todo e a unidade, o universo inteiro e a mais pequena parcela imaginável, parcela que representa, contém e engendra a totalidade.

O Mestre Único é preexistente e pós-existente: ele é o eterno viajante dos séculos»... Ou seja, o continuum espaço--tempo.

Fica-se cheio de admiração ao meditar nestas sábias palavras a que os físicos e os astrónomos do século xx deveriam dar glória, quatro mil anos depois do Grande Iniciado egípcio.

A tradição e a ciência são portanto afirmativas: há tantas possibilidades de inteligência num grão de areia como numa molécula de carne animal.

ATO UM, O DEUS-ÂTOMO

Dá-se à palavra átomo uma origem grega: a, privativo, e temnô, eu corto.

«Na realidade», escrevem Guéret e Oudinot4, «a sua verdadeira etimologia perde-se na noite dos tempos, milhares de anos antes de Demócrito; no entanto, Pitágoras, seu mestre, tomara conhecimento do termo durante uma estada no Egipto.»

O colégio esotérico de Heliópolis, o mais antigo do Egipto

* A. Guéret e P. Oudinot, UHomme et les Impondérables, ed. Henri Dangles, 38, Rue de Moscou, Paris, 8.».

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segundo Guéret5, adorava o criador do mundo sob o vocábulo Atoum, o Deus nobre de que os outros deuses não conhecem o nome.

«É o Deus primordial, que criou, da sua própria substância, os deuses e os homens, e tudo o que é, o que atrai e o que repele, o positivo e o negativo6.

Ele é o que não se conhece, fora do nosso tempo e do nosso espaço habituais.»

Em suma, Atoum é a substância primordial, a protomatéria (o neutrão), e digamo-lo já, Atoum é o Átomo original feito de espaço, de tempo e de desejo.

Esta ligação etimológica seria pouco consistente, se um rei iniciado do século xiv antes da nossa era não tivesse quase baptizado com o nome do átomo o único Deus em quem os Egípcios deviam acreditar, e esse nome era Aton (pronuncia-se atone).

OS DEUSES ATÓMICOS

Aton era, de facto, uma ressurreição de Atoum, deus primeiro e uno, que, com a inelutável deterioração devida aos milénios, tinha sido substituído por Rá, Rê, Amon e mesmo por Horus e Osíris.

A identificação de Atoum ao átomo, matéria primeira dos físicos e, de facto, genitor de toda a criação, resulta da própria etimologia do deus, que vem de uma raiz: a, que significa unão ser»; e tou: «ser completamente»7.

5 Embora seja difícil dar uma precedência, parece que o mais antigo templo do Egipto é o de Abidos (6000 anos a. C), que remonta à Proto-História egípcia.

Foi em Abidos, já construído, que os reis tinitas da primeira dinastia, há 5200 anos segundo a cronologia clássica, estabeleceram o seu cemitério.

6 Deus deve sempre sacrificar-se para criar. É o mistério da transmutação. A qualidade mais nobre para o Iniciado ou para o Santo não é a de se subli-mizar, mas sim a de se oferecer em sacrifício.

7 Ler La Mythologie Générale, de Félix Guirand, mitologia egípcia da autoria de J. Viau, diplomado pela École du Louvre. Ed. Larousse, 13, Rue Montparnasse, Paris 6.°.

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Os padres iniciados de Heliópolis ensinavam que «no Noun (caos, o oceano primordial onde jaziam a criação e os germes de todas as coisas e de todos os seres, mas em estado não vivo, não manifesto) vivia um espírito indefinido que tinha em si a suma de todas as existências)}.



Chamava-se Atoum e tinha tirado da sua própria substância os deuses, os homens e todos os seres (J. Viau).

Deste Atoum neutro, idêntico ao Brama neutro primordial dos Vedas, saíram, sem qualquer auxílio exterior, o mais e o menos, o homem e a mulher.

Atoum era portanto o próprio princípio da vida, donde proveio o universo.

Cada vez mais os físicos e os biólogos encaram a hipótese de que o princípio-vida é a protomatéria, que não tem carga eléctrica e que identificam a um isótopo do neutrão, o qual é de facto o átomo primitivo neutro8.

A Grande Alma dos brâmanes era deus único sob o nome de Atma; o vocábulo sagrado dos Tibetanos era o Aum; Adonai era o Mestre supremo dos Hebreus e o Adónis dos Gregos.

Âtis, marido de Cibele, a Magna Mater, era o Papas (pai) dos Fenícios e talvez fosse possível encontrar a etimologia de Atoum em Atena, que saiu viva do cérebro de Zeus, e em Athor ou Hathor ou Nout, deusa do Céu para os Egípcios.

A propósito destas curiosas coincidências etimológicas, Gué-ret e Oudinot escrevem:

((Não acreditamos que tudo isto seja um produto do acaso... Os Antigos chamavam Atoum, Aton, Atma, Aum, etc, àquilo a que chamamos átomo, mas davam — aos termos e à ideia—um sentido lato, completo, filosófico e religioso.»

Esta hipótese é ainda reforçada pela mitologia da antiga Pérsia, uma das mais velhas do mundo, onde Atar, o Fogo dos Arianos, era o filho do supremo deus Ahura Masda.

■ É extraordinário notar — e é justamente o que prova a existência de autênticos Antepassados Superiores — que na cosmogénese hindu o princípio--vida é Brama neutro; na dos Egípcios, este princípio é Atoum, positivo e negativo ao mesmo tempo, o que dá o neutro, e Aton, cuja etimologia significa: neutroX

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«Mas a crítica», escrevem Masson-Oursel e Louise Marin", ((adivinha que o filho deve ser mais antigo que o pai.» É o prin-cípio-vida e a este título reputa como crime inexplicável o facto de queimar ou de cozer carne morta.



O TEMPO PRISIONEIRO

Para o físico Jean Charon, todos os fenómenos do universo têm uma origem comum, mas ninguém conseguiu descobrir as estruturas íntimas e as razões profundas da vida.

Do caos (mas o que era o caos?), o Existente misterioso trans-formou-se em corpúsculos elementares, sob a influência de campos magnéticos que se supõe preexistentes, e depois, por uma série de complexificações, tomou uma estrutura atómica.

Tinha sido dado o primeiro passo e feito o arranque; o átomo passou em seguida ao estado de molécula, e depois ao dos elementos químicos simples, a seguir compostos, etc.

Estava formada a vida manifesta, controlável; Jean Charon chama-lhe: o Vivo.

Em seguida conjectura que as estruturas e as ligações foram determinadas por razões de «recordação» fundamentalmente unidas ao Vivo pelo «campo mnemónico» ou memória do passado específico.

Em relatividade geral, o espaço-tempo está dobrado perto de uma zona de grande densidade de energia.

Jean Charon pensa que o espaço, no interior de uma estrutura de ADN, se obedecer a esta lei, pode curvar-se de modo a formar um círculo que prenderia em si as ondas electromagnéticas das suas informações10.

Este fenómeno dar-se-ia tanto com as células vegetais como com as dos animais, que são idênticas.

O limiar entre a Matéria e o Vivo estaria então ligado a uma questão de continuum espaço-tempo.

' P. Masson-Oursel, director de estudos da Êcole des Hautes Études, encarregado do curso de línguas e literaturas da índia na Sorbona.

10 Estas ondas ligam-se sempre à forma do espaço onde se propagam.

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Para Jean Charon, as ligações por campos físicos entre diferentes estados fazem-se por topologia plana no espaço-matéria, por topologia cilíndrica no Vivo; com necessidade de energia, mas em fraca quantidade u.



Através da topologia cilíndrica, ligações, impossíveis na matéria, poderiam realizar-se bruscamente nesse espaço novo onde as ondas electromagnéticas têm o poder de ficar fechadas.

COMO NASCE A INTELIGÊNCIA

Os nossos físicos, com as suas experiências e especulações, descobriram Hermes Trismegisto e aderiram às suas tesesn.

Pensam que a energia eterna, infinita, psíquica e inteligente, preexiste a todos os universos13.

Espontaneamente, passa a matéria (condensação, transmutação de joules em corpúsculos), ou seja, corpúsculos elementares que por complexificações sucessivas vêm a estruturar-se em átomos de hidrogénio, de oxigénio, de carbono, etc.

Assim nasceria a matéria visível, do grão de argila à galáxia gigante. Um processo cada vez mais complexo, cada vez mais subtil, poria era evidência a inteligência e uma certa consciência desta matéria, por uma manifestação no poder de opção, de memória e de iniciativa.

Se a inteligência, como se julga, é caracterizada pela capacidade de enfrentar situações novas, então a matéria, falsamente dita inanimada, é infinitamente mais inteligente que a matéria organizadal

" Ler Planète, n.° 10, Edições Retz, Rue de Berri, Paris 8.°

A topologia é a geometria de figuras de um suporte elástico deformado, sem que por isso mudem as proposições geométricas clássicas.

11 Já no século v a. C, o filósofo herético Diógenes de Apolónia tinha identificado a matéria à energia, ao escrever: Ex nihilo nihil fit (nada pode provir do nada)... Existindo a inteligência de modo evidente, Diógenes de Apolónia concluía que o ar (éter ou átomo), que toda a criação, era habitada por um pensamento.

13 A vida e o seu corolário, a inteligência, existem em estado potencial no universo, disse o bioquímico russo V. A. Firsoff (Vie Intelligence et Galaxie, ed. Dunod, Paris, 1970).

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((A cada instante», diz o físico alemão Jordan14, «há sempre, a nível atómico, qualquer coisa de novo e de imprevisto que se apresenta.»

É também a opinião de Robert Linssen15 quando escreve ccque a cada instante da bilionésima parte de um bilionésimo de segundo os constituintes intranucleares respondem adequadamente (completamente) à exigência de processos de trocas fulgurantes, cuja complexidade e velocidade ultrapassam todas as possibilidades das nossas representações mentais».

Os pensadores Lothar Bickel, Constantin Brunner, Rogei Godel, Stéphane Lupasco também acreditam que as formas mais autênticas da inteligência habitam as zonas últimas da materialidade, e têm não só esta qualidade, como também uma certa capacidade de amor, diferente, bem entendido, do amor humano, pessoal e egoísta16.

O que os físicos filósofos conferem à matéria e à energia seria, observa Robert Linssen, um estado de ser, liberto das sujeições da afeição e da dor.

Essa capacidade de amor, como a de inteligência, existiria na energia-matéria na sua forma mais sublimada, e corresponderia, em suma, à energia amorizante evocada por Teilhard de Chardin, que foi um dos primeiros nos nossos tempos a conseguir pôr a tónica na espiritualidade da matéria.

Jean Charon acrescenta que o agente catalisador ou motor da inteligência, ou a sua natureza, é talvez a memória «cro-mossómica» do universo, ou campo mnemónico, que residiria em todas as coisas.

14 Jordan, Physique du XX e Siècle,

15 Robert Linssen, Spiritualité de la Matière, ob. cit.

14 Na mitologia fenícia, o desejo é o agente motor da criação. Sanchonia-

ton, retomado por Filon, escrevia na História Fenícia: «O sopro apaixonou-se

pelos seus próprios princípios e houve uma mistura. Essa união chamou-se

desejo.» Uma outra cosmogénese tem como elementos primordiais o Tempo, o Desejo e a Obscuridade (segundo Eudemo).

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OS CROMOSSOMAS-MEMÓRIAS DA NATUREZA



Segundo esta hipótese, pode imaginar-se que a matéria, pertencendo ao reino do criado, que é o que mais se aproxima dos tempos originais, é ainda habitada por toda a energia imaginável, submetida a leis onde o continuum espaço-tempo é vizinho de zero (vizinho da eternidade, da imobilidade, da essência primeira).

Esta matéria teria o privilégio de possuir uma memória dos tempos futuros, que seria o seu cartão perfurado, o seu programa.

A máquina electrónica, o computador, tem a sua inteligência, que lhe vem do homem; o calcário também tem a sua inteligência, que lhe vem de si próprio, ou seja, da inteligência universal, eterna, dos seus cromossomas, e do tempo em que existirá, sob uma forma mais elaborada, planta, animal, homem.

Esta memória de todos os tempos deve pôr-se em paralelo com a memória acásica do universo, misteriosamente conhecida dos espiritualistas iniciados.

Para os físicos, o fenómeno estaria ligado ao do espaço--tempo, que, como já dissemos, está vergado pelos poderosos campos de energia ", assim como o fotão se curva no seu percurso quando passa na proximidade de um sol.

Se a energia é muito grande, a curva chega a tomar a forma de um círculo, donde o fotão e o espaço não podem voltar a sair18.

Deste modo, as ondas da memória do futuro poderiam fe-char-se a si próprias, com as suas possibilidades, os seus biliões de planos, a sua inteligência, nos labirintos do pensamento-matéria da natureza original.

" Temos o direito de supor que a essência mesma da vida, que residiria em tudo e principalmente no ADN e em misteriosas regiões da célula, é uma fonte intensa de energia, embora de dimensões infinitamente pequenas.

18 Em Iniciação, o espaço-tempo, no Invariável Meio (o centro dos centros), curva-se e forma uma serpente que morde a cauda ou uma esfera infinitamente pequena, que coincide em suma com o ponto e se torna igual a zero.

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O CIRCULO MÁGICO SEM ESPAÇO-TEMPO

O registo cromossómico de todas as informações que enchem o princípio-vida é provavelmente de ordem e de ondas electromagnéticas, ou, mais exactamente, de eixos magnéticos, todos concêntricos, de que o original, fechado sobre si próprio, desenvolve trinta biliões de anos-luz, segundo Einstein.

Acreditamos que estas ondas da memória transportam a recordação de tudo o que se passa, de tudo o que se passou e de tudo o que se vai passar.

Estas ondas prisioneiras no círculo mágico19 (bandas magnéticas) dos nossos cromossomas-memórias, que pertencem a um universo mais complexo e mais completo que o nosso, contêm pois a recordação dos tempos passados, presentes e futuros.

Segundo uns Iniciados, os cromossomas-memórias20 encerrariam a alma do mundo (ou de Deus, se se preferir este termo rebatido) e constituiriam a parte essencial do corpo humano e do cérebro, o seu centro energético.

Em resumo, é possível, senão provável, que os biólogos venham a descobrir amanhã que a natureza secreta da vida e que o fenómeno cromossómico são regidos por leis superiores, onde o continuum espaço-tempo é diferente do que conhecemos.

Ou seja, onde o futuro e o passado são absorvidos por um outro tempo.

A inteligência ou psiquismo21, parte inerente da vida, habita assim toda a matéria e nós pensamos que condições particulares de necessidade ou de degradação de energia podem fazer sair essa inteligência da sua prisão.

" No círculo dos mágicos produzem-se fenómenos singulares, que mostram, de facto, que esse círculo constitui uma zona estrangeira, exterior à Terra e insensível às suas leis, uma verdadeira ilhota no universo.

20 A teoria dos cromossomas-memórias só passa a ser conhecida dos físicos por volta de 1950. Os Iniciados já há muitos séculos falavam nela e davam mesmo ao universo o poder de registar todos os acontecimentos passados, futuros e presentes. Chamavam a esta faculdade as memórias acásicas do universo.

21 Devíamos estabelecer uma distinção entre a inteligência e o psiquismo, mas isso seria entrar por exposições sem fim. Certos filósofos chegam mesmo a opor o psiquismo à inteligência.

CAPÍTULO XVI A NATUREZA PENSA

1. A INTELIGÊNCIA DAS PLANTAS

A inteligência, na sua definição mais elaborada a nível do homem, é a faculdade de escolher e de compreender, de sintetizar, de analisar, de ordenar, de situar no tempo e no espaço, de recordar, de passar do particular ao geral1, de comparar, de criticar, de estabelecer ligações e encadeamentos de ideias, de imaginar, de fazer deduções, de subordinar o comportamento à reflexão e de fazer face a situações imprevistas.

É claro que a inteligência não consiste em possuir, em agru-

1 O ser humano é sempre provido de inteligência, mas a um grau mais ou menos elevado.

O homem inteligente manifesta a sua qualidade passando sempre do particular ao geral, abolindo tanto quanto possível o seu eu naquilo que tem de inferior: emprego do eu nas frases, conversas insípidas, banalidades, assuntos repisados: a família, as crianças, a saúde, ou então no que se refere ao que a existência tem de exagerado, de deteriorado ou de estúpido: as refeições, a alimentação, o vestuário, o automóvel.

O homem de inteligência medíocre, pelo contrário, gosta de investir o seu eu em todas as ocasiões e instala-se nos assuntos sem interesse, sem elevação.

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par, todas estas faculdades e pode mesmo dizer-se que uma só entre elas basta para provar a existência de uma inteligência, pouco evoluída, mas efectiva.



A INTELIGÊNCIA E A ALMA

Se se admite inteligência da alma, estabelece-se uma ligação entre ela e a inteligência. Nesta hipótese, a alma (sentimento e pensamento) seria o princípio espiritual do homem, ou seja, a cadeia de ouro que o ligava a todo o universo.

Os objectos e os fenómenos exteriores produzem nos nossos sentidos impressões que são transmitidas ao cérebro, onde passam a sensações, imagens, ideias.

Entre a percepção física e o efeito intelectual há uma zona onde reina um mecanismo que é, precisamente, a inteligência.

Segundo os enciclopedistas, a alma, que existe habitualmente em estado virtual, seria a própria inteligência quando passa ao estado de actividade2.

Georges Cabanis (discípulo de Locke e de Condillac) escreveu:

«É notório que em certas disposições dos órgãos internos, e sobretudo das vísceras do baixo-ventre, somos mais ou menos capazes de sentir e de pensar. As doenças que aí se formam, alteram, perturbam e muitas vezes invertem completamente a ordem habitual dos sentimentos e das ideias...»3

Esta associação da alma e daquilo que o nosso organismo tem de mais vulgar (aparentemente), o intestino grosso, prova que a inteligência e a matéria têm uma interferência próxima da coincidência pura e simples.

2 Definição clássica: a inteligência é a faculdade de viver em harmonia com as leis do universo.

3 Robert Charroux, História Desconhecida dos Homens desde Há Cem Mil Anos, cap. XVI: «As Psicologias», ed. Livraria Bertrand, Lisboa.

Os homens de acção têm um intestino grosso curto: menos de um metro. Os místicos são obstipados e o intestino grosso pode medir até dois metros.

As toxinas reabsorvidas pelo intestino grosso condicionam os nossos estados de alma!

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Ora, a matéria humana não oferece a priori nenhuma superioridade evidente sobre a das outras espécies.



Os animais e as plantas recebem impressões sensoriais, observam, comparam, julgam, o que é a prova da sua inteligência.

Quando as impressões captadas pelos seus sentidos superiores põem o homem em dificuldades, então ele fala de instinto para os animais e de inteligência exterior para as plantas, mas trata-se apenas de uma maneira de não enfrentar a questão.

INTELIGÊNCIA DAS FLORES

É possível desenvolver os reflexos condicionados da mimosa.

As plantas são capazes de aprender, exactamente como os animais, diz o doutor Armus, da Universidade de Toledo (Ohio, E. U. A.); de resto, os insectos e os vegetais têm um estreito parentesco bioquímico, posto em evidência pelos esteróis e tèrpines (álcoois de secreção) que condicionam a sua fisiologia e o seu comportamento.

«As plantas», escreve Maurice Maeterlinck, ((recorreram a ardis, a combinações, a uma maquinaria, a armadilhas que, com a relação da mecânica, da balística, da aviação, da observação dos insectos, por exemplo, precederam muitas vezes as invenções e os conhecimentos do homem.»

E ele conta o acto de inteligência de uma raiz observada por Brandis (Uber Leben und Polaritat), que, encontrando o obstáculo de uma sola de bota, subdividiu-se em tantas raízes pequeninas quantos os buracos da sola, e depois, ultrapassado o obstáculo, reuniu e ressoldou todas as raízes para a partir daí formar uma raiz única e homogénea.

O autor de L'Intelligence des Fleurs*, depois de ter hibri-dado e aperfeiçoado umas salvas, reparou que a salva atrasada adoptava com vontade os aperfeiçoamentos de salva evoluída, enquanto a opção diversa era geralmente repudiada.

Esta experiência prova que a planta é capaz de escolher as soluções mais vantajosas para a sua evolução.

4 Maurice Maeterlinch, L'Intelligence des Fleurs, ed. Fasquelle.

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Pode até, para proteger a sua espécie e preservar o seu código genético, segregar toxinas que destruam ou esterilizem os pólenes estranhos5.



Trata-se de puro racismo no sentido benéfico do termo e uma luta contra o verdadeiro pecado: a deterioração da espécie.

A GENIAL ORQUÍDEA

A orquídea-de-folhas-grandes, que cresce nos prados húmidos em Abril e Maio, tem uma flor que se parece com uma fantástica goela aberta de um dragão chinês.

No fundo dessa goela, podem ver-se dois estigmas colados, cora um terceiro por cima, que tem na extremidade uma meia taça cheia de um líquido viscoso.

Nessa estranha piscina, estão dois óvulos, cada um deles com um pequeno saco de grãos de pólen.

Sempre que um insecto pousa na borda inferior, que se apresenta como um poleiro, é irresistivelmente convidado pelo odor do néctar a penetrar no fundo da urna.

É aí que a orquídea demonstra os seus magistrais conhecimentos de arquitectura, sem postular por isso a Legião de Honra ou agitar o fantasma do número de ouro: estreita, intencionalmente, ao máximo, a conduta que leva ao néctar, de forma que a cabeça do insecto, obrigatoriamente, toque na meia taça.

Sob o efeito de um sinal eléctrico, abre-se então, mostrando os dois óvulos, que se encontram assim em contacto imediato com a cabeça do visitante e, por meio do líquido viscoso que os endurece, colam-se a ele.

O insecto bebe o néctar e retira-se às arrecuas, não já como

5 No dia 19 de Agoslo de 1972, o Governo americano anunciava que uns biólogos tinham acabado de criar por hibridação, a partir das células genéticas de duas espécies diferentes, uma nova planta, consumível da raiz às tolhas e aos frutos (como a alface, em suma). Essa planta ainda não tem nome. Se o seu paladar agradar aos apreciadores, será cultivada em grande quantidade. Já não é a primeira vez que os geneticistas pecam indo contra as leis universais, até ao dia em que, quem sabe, criarem um monstro, titânico ou minúsculo, que destruirá a humanidade (F-S, 21-8-72).

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tinha vindo, mas enfeitado com uma espécie de chifres formados pelos óvulos, mais as duas taças que mantêm os sacos de pólen.



Em seguida vai rebuscar uma flor vizinha, entra nela do mesmo modo, chifres para a frente, e pode pensar-se que o pólen da primeira planta vai fecundar a segundai

Nada disso: pólen contra pólen nunca daria lugar a uma procriação!

UMA PLANTA QUE CALCULA

«É aqui», escreve Maeterlinck, «que o génio, a experiência e a premonição da orquídea se excedem. Minuciosamente, a planta calculou o tempo que era necessário ao insecto para sugar o néctar e dirigir-se para a flor mais próxima, e reparou que era em média trinta segundos.

Sabemos que os sacos de pólen são transportados em duas pequenas taças que estão metidas nas bolinhas viscosas; ora debaixo de cada taça, nos pontos de inserção, há um pequeno disco membranoso cuja única função é, ao fim de trinta segundos, contrair e dobrar cada uma dessas taças, de forma que se inclinem descrevendo um arco de vinte graus.

É o resultado de um novo cálculo, desta vez não no tempo, mas no espaço.»

Os chifres de pólen que enfeitam o insecto, ficam horizontais e apontados para a frente, de tal modo que na visita seguinte a uma corola irão, com uma exactidão rigorosa, fecundar os estigmas que a taça verga.

Nada mal pensado para uma simples flor desprovida de inteligência!6

Mas não é tudo: ((O estigma que recebe o choque do saco de pólen está coberto de uma substância viscosa. Se esta substância fosse tão energicamente adesiva como a da pequena taça,

* Os religiosos e os dogmáticos pretendem que a inteligência do fenómeno é exterior. É, no entanto, necessário que essa inteligência penetre, se projecte na planta para lhe dar a ideia de cálculo, de escolha, de medidal

Não restam dúvidas de que se identificava ao vegetal, e é interior a todas as coisas, desde o grão de areia até à galáxia.

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uma vez rompida a haste das massas polínicas estas ficariam coladas e aí continuariam fixas e inteiras, tendo acabado a sua missão.

É necessário que isto não aconteça; importa não esgotar numa única aventura as probabilidades do pólen, mas antes multiplicá-las tanto quanto for possível.

A flor, que conta os segundos e mede as linhas, é além disso química e destila duas espécies de goma: uma extremamente colante e que endurece imediatamente em contacto com o ar, para colar as hastes com pólen que estão na cabeça do insecto, a outra, muito diluída, para o trabalho do estigma.»

Para concluir, essa goma tem a adesividade ideal para colar alguns grãos mas não toda a massa polínica, de modo a permith ao insecto ir fecundar várias flores.

Que cérebro interior ou exterior ao animal conseguiu realizar esta maravilhosa mecânica, para além de ainda tomar a iniciativa de novas precauções: quando a membrana da taça se rasga para soltar os óvulos viscosos, imediatamente levanta o lábio inferior de modo a conservar preciosamente o resto de pólen deixado pelo insecto! Não se pode desperdiçar!

Todas as plantas têm esta inteligência difusa, das suas raízes, que prospectam, evitam, atravessam, seleccionam, até às flores, que sabem evitar os truques dos insectos e segregar perfumes afrodisíacos próprios para os atrair e enganar. A sua inteligência é formal, evidente, e por vezes tão pronunciada como as dos animais, com um grau de complexificação muito mais avançado.

*

Y

2. A INTELIGÊNCIA DOS ANIMAIS



As térmites, pela sua organização e sobretudo calculando os limites mínimos e máximos dos efectivos dos seus bandos, parecem dar provas de uma inteligência notável.

9

257



Não, não é a razão que rege tais fenómenos, dizem os racionalistas ((exagerados», é o instinto.

«A natureza criou um mecanismo regulador», escreveu Vitus B. Droscher7, «que se pode com justiça chamar de racional.)}

Mas como se poderá diferenciar o racional do instintivo, e como nos atreveríamos a afirmar que a inteligência é independente do instinto?

O RADAR DA ICNÊUMON

A vespa-icnêumon, ou mosca-vibrante, das belas tardes de Verão é um insecto de talentos absolutamente fantásticos.

A fêmea põe os ovos dentro de ou sobre outros animais, tais como as lagartas, as aranhas e as formigas reais, que em seguida servem de pastos vivos às larvas recém-nascidas.

É evidente que as lagartas, as aranhas e as formigas morrem com esta experiência, o que torna a mosca-vibrante eminentemente útil, mas esse não é o lado fantástico de que falávamos.

Reside sim no facto de a fêmea da icnêumon depositar os seus ovos em larvas profundamente escondidas num tronco de árvore.

((Muito excitada», escreve V. B. Droscher, «percorre em todos os sentidos o tronco de árvore. De repente, estaca, recua um pouco, melhora a sua posição e enfia rapidamente o seu oviduto abdominal, que tem sete centímetros e meio de comprimento. Na maior parte dos casos, cai exactamente em cima da larva escondida.))

Que uma pequena vespa tenha um oviduto tão potente já é extraordinário; que ela o possa enfiar na madeira até sete centímetros e meio — o comprimento de um dedo — é inquietante, mas que além disso a icnêumon ainda descubra uma larva escondida a essa profundidade, é qualquer coisa que ultrapassa a feitiçaria e o milagre!

7 Vitus B. Droscher, Le Merveilleux dans le Règne Animal, ed. Marabout Université, Paris.

258


Tratar-se-ia, diz-se, de instinto: as antenas do insecto fazem o papel da varinha do radiestesista, tendo como variante essencial que este se engana quase sempre e que a icnêumon quase nunca falha8.

A lógica impõe uma certeza: essa faculdade de escolher, de situar no espaço, de diferenciar a espécie de larva, talvez seja instinto, mas é com certeza também inteligência.

A abelha, é sabido, tem uma inteligência prospectiva, o delfim tem capacidades intelectuais (memória, comunicações tónicas, compreensão, acções reflectidas, etc.) quase tão agudas como as do homem, o rato é manhoso, cheio de astúcia, e conhecemos a inteligência dos corvos, dos castores e dos nossos amigos cães, gatos e cavalos.

INSTINTO E INTELIGÊNCIA

Esta faculdade de perscrutar o desconhecido, de inventar uma técnica de utilizar ou fabricar um instrumento9, demonstrará inteligência ou instinto?

Os entomologistas e os naturalistas inclinam-se para a segunda hipótese, porque por exemplo a icnêumon não dá, segundo dizem, nenhuma prova de ser habitada por um pensamento ou uma especulação progressistas.

Ora, pensamento e projectividade10 são por excelência os critérios da inteligência, que implica ainda o espírito de análise e de síntese, de escolha, de ordem e de consciência do «eu».

«O instinto está nos antípodas da razão», escreve com um certo arrojo V. B. Droscher!

Segundo o nosso ponto de vista, o instinto é o conhecimento inconsciente de fenómenos não apreendidos, não conhecidos, mas adivinhados espontaneamente, por exemplo, pelo animal do

* Mais fantástico ainda: a icnêumon megarhyssa escolhe a espécie de larva escondida na madeira, porque a sua prole só pode vir ao mundo numa larva de sírex.

Certos animais: pássaros, castores, ratos, fabricam instrumentos para comer, coser, cortar.

10 Projectividade: faculdade de fazer um projectol

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deserto, que quase sempre se dirije para o ponto onde existe água11. Mas trata-se de inteligência, no verdadeiro sentido do termo, mesmo se a sua duração for apenas a de um relâmpago.



A mesma razão desconhecida que faz com que o animal ou o homem vão a tal sítio onde não haja perigo, permitiu a Joana d'Arc adivinhar em Chinon quem era o rei.

É difícil acreditar que é sem qualquer razão, consciente ou não, unicamente por acaso, por automatismo ou adivinhação, que a icnêumon detecta cem vezes em cem a larva e o sexo da larva, através de sete centímetros de madeiral

É impossível acreditar, como os entomologistas, que o himenóptero constrói a sua chocadeira artificial às cegas, sem objectivo consciente, sem previsão de fins, sem inteligência, enfim, ou seja, sem conhecer, calcular, reflectir e compreender.

Ainda mais difícil é admitir que as térmites, cuja civilização é a mais elevada do reino dos insectos, constroem a sua cidade-fortaleza sem qualquer sentido, produzem, armazenam e utilizam os seus alimentos sem calcular os efectivos militares que têm por missão defender a comunidade I

No animal, o conhecimento da fabricação do ninho, da toca, do abrigo, do comportamento a ter em caso de perigo, de ataque ou de repouso, não é instintivo mas conhecido pelo subconsciente, e, para ser mais exacto, pelos cromossomas-memórias.

É um legado hereditário que pertence ao código genético; nada prova que a razão esteja ausente deste fenómeno, e, bem pelo contrário, vemos nisso a afirmação de uma inteligência superior, difusa, diferente da inteligência consciente no seu modo de expressão, mas não na sua essência.

"O entomologista J. H. Fabre escreveu no princípio deste século que o instinto conduz o animal a operações absurdas e a actos inúteis. O insecto possui no entanto algum discernimento, que lhe permite adaptar-se a uma leve alteração de meio, o que implica uma certa consciência. As variações devidas a este poder de discernimento são individuais e não transmissíveis. Fabre admite que o insecto é consciente e perfectível pela experiência, mas recusa-se a ver nisso uma inteligência rudimentar. Foram feitos estudos aprofundados, depois de 1950, que contradisseram as suas observações. A, tese da inteligência nos animais é actualmente admitida em todo o lado.

Ler, de L. V. Bujeau, La Philosophie Entomologique de ]. H. Fabre, ed. Presses Universitaires de France, Paris, 1943.

260

Paralelamente, não se pode dizer que o desenvolvimento da célula segundo o programa de uma espécie, que a evolução universal, que o surgir de uma modificação, sejam fenómenos automáticos, mecânicos, donde está ausente a inteligência.



A natureza, e entendemos por tal o universo, é iram grande pensamento», um organismo inteligente na sua totalidade como na sua mais ínfima manifestação, e estamos mesmo convencidos de que é a inteligência integral e absoluta.

O animal, como a argila, o rochedo, a montanha, o rio, o prado e as margaridas, é um ser pensante I

3. A VIDA NA MATÉRIA

Nem sempre se distingue, ou nem se chega mesmo a distinguir, o pensamento na pedra e no carvalho, porque não é aparente, mas é lógico pensar que uma inteligência superior, transcendente, uma razão, habita o calcário como habita uma árvore ou o cérebro de um cientista.

A inteligência misteriosa de um grão de areia é provavelmente mais subtil do que a que se discerne no físico. Einstein seria ineapaz de calcular e regular o comportamento de uma célula de cão, de abelha ou de pinheiro.

É certo que no cão, na abelha e no pinheiro, há uma inteligência escondida que sente, calcula e reage com a precisão de um computador electrónico.

A razão que preside a este fenómeno é de essência desconhecida pelos homens, que sabem apenas que ela se manifesta particularmente pelo ARN.

O químico russo V. A. Firsoff pensa que a matéria é viva, inteligente, e diz mesmo que as partículas elementares são dotadas de uma interacção mental, chegando mesmo a identificar-se uma dessas partículas, o mentino, àquilo que se poderia chamar a onda da inteligência.

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«Os mentinos», escreve Charles Noel Martin, ((constituiriam uma inteligência desencarnada, o que evidentemente tornaria a sua detecção extremamente complicada.»12



OS NOSSOS ANTEPASSADOS DE PEDRA

O homem, à semelhança do deus-universo criador da humanidade, tende a povoar a Terra de estátuas de pedra.

A necessidade de criar é o sinal da vida e manifesta-se em todos os reinos.

Durante muito tempo os nossos antepassados pensaram que era sacrilégio imitar a divindade na sua criação mais elaborada, o homem; essa foi sem dúvida a razão que levou os Celtas a deixar tão poucas imagens humanas e a absterem-se, no período mais antigo, de talhar o granito dos menires e dos dólmenes.

Os Hebreus e os Árabes herdaram esta superstição e nunca mais se libertaram dela depois de Moisés e de Maomé, talvez porque, mais do que os outros povos, se inclinaram para a prática de magia.

As tradições — mas talvez se trate de simbolismo—afirmam que houve um tempo em que as estátuas se animaram e entraram em luta com os homens que as tinham criado.

É sem dúvida uma lenda, mas a verdade é tão fantástica que permitiu deixar correr a imaginação, por uma ficção prospectiva, onde a Natureza, sacudida pela nossa civilização, desencadearia e pôr-se-ia a substituir os homens, depois da sua destruição, por criaturas de matéria dita inerte ou pelo reino vegetal.

O Popol Vuh dos Maias conta que nos tempos antigos a humanidade da II Idade era feita «como bonecas de madeira com a aparência de homens que falam».

No plano da estrita observação dos factos, pode acreditar-se que com a intenção de se tornar mais vivo e de se sublimar, o mineral tenta e consegue algumas vezes tomar uma forma animal.

12 V. A. Firsoff, Vie, Intelligence et Galaxie, ed. Dunod, Col. Science--Poche, Paris, 1970.

262

Quando a Terra está em brasa, todos os milagres são possíveis.



Esses períodos de calor—o Desejo dos Arianos e dos Fenícios na mitologia — seriam talvez os ciclos da história e coincidiriam com o engendrar de uma nova humanidade.

Várias tradições mencionam com insistência que os homens foram criados a partir de rochedos, de pedras ou de calhaus.

Terá a Terra uma inconsciente necessidade de gerar? Obedecerá aos seus «cromossomas-memórias» ou a uma consciência que em certas zonas irradiantes, particularmente inteligentes, por conseguinte, tende a modelar formas animais? Somos levados a crer que sim.

OS PONTOS DE AMOR

É também essa a opinião do nosso correspondente Willy Endress, que a este respeito escreve:

((Reparei que havia regiões mais ou menos delimitadas, onde as rochas e as pedras, a vegetação e os elementos, a configuração do solo e mesmo os gestos—conscientes ou não—do homem produziam ou haviam produzido linhas, superfícies e volumes à imagem do mundo humano ou animal, tal como nós o conhecemos ou imaginamos.

Tudo se passa, em suma, como se nessas zonas os fenómenos electromagnéticos cósmicos e terrestres fizessem por estabelecer em certas matérias electivas uma espécie de centelha ou alma inicial que, em seguida, conferiria à estrutura molecular uma direcção e um desenvolvimento que desembocaria em formas mais ou menos vivas, mais ou menos próximas de nós, qualquer que seja a sua posição na escala das medidas.

Talvez houvesse períodos em que a conjunção de todos estes fenómenos físicos, químicos, biológicos e outros tenha conseguido dar-se e produzir seres e animais viáveis, mutações e metamorfoses duráveis, em espaços-tempos diferentes.»

O pensamento de Endress encontra-se com o dos Antigos, que acreditavam nos pontos de emergência das correntes telúricas e que construíam templos sobre uns pedestais (no México)

263


a uma altitude que pensavam ser um gradiente da Terra e do Céu eminentemente favorável ao acto de gerar, à eclosão e à reconciliação.

Não é certo, mas é possível, que este ponto de junção beneficie de privilégios de natureza eléctrica, não só no sentido em que conhecemos a electricidade, geradora de atracção, de repulsão, de faíscas e de abalos, como também num outro sentido mais subtil e essencial.

Seja como for, parece haver no globo uns pontos de amor, que são lugares de eleição de fenómenos estranhos, num gradiente privilegiado em que se conjugam, se casam e se geram correntes de inteligência do Céu e da Terra.

Tudo é possível, até o improvável e o milagre, nestes sítios onde o espírito e o amor pairam, onde a matéria se cristaliza sob o impulso da energia, num imenso desejo de criação.

Como no raiar dos mundos e da vida.

Foi lá que o homem reverente, para sossegar a Terra, lhe ergueu um altar, um megálito, um oratório, uma capela ou uma igreja. Lá ainda, foram traçados os primeiros tabos, edificados os primeiros refúgios, as primeiras cidades.

É nestes pontos de amor que a Terra, nos seus períodos de calor, gera rochedos zoomórficos, ou então é o acaso e a erosão que esculpem figuras aproximativas.

OS PONTOS DE AGRESSIVIDADE

A dualidade é mais provável e perceptível do que a trindade.

Ao mais opõe-se o menos, ao bem o mal, ao pequeno o grande, à luz a obscuridade: o globo terrestre está salpicado de pontos de agressividade, que talvez equilibrem as zonas benéficas.

Há certos lugares onde o homem sofre más influências, o animal apanha doenças, a árovore morre sem razão perceptível.

Esta tese, por sumária e imperfeita que seja, explicaria no entanto a persistência dos lugares malditos, com fantasmas, alucinações, crimes e doenças, sem que qualquer conjura consiga aniquilar os malefícios.

264

Desgraça para Israel, para os desertos de Gobi e do Colorado, onde a Terra foi outrora atomizada e voltará a sê-lo de novo. Desgraça para Roma, para Veneza, Nápoles, Tóquio, Berna, Zurique, Las Vegas e Nova Iorque. Desgraça para os homens que, por falta de sensibilidade ou pela força de um destino trágico, deixam os pontos de amor—ou deles são expulsos— para se irem estabelecer em zonas de fractura e de cataclismo.



Assim como o corpo humano, o de Gaea, que o engendrou, tem as suas chagas, os seus pontos de acupunctura, que são os pontos de emergência das correntes telúricas que percorrem as veias do Dragão.

O sábio, por empirismo ou por percepção superior, tenta reconhecer as zonas onde o espírito reina e procura fixar-se nelas.

Por oposição, sabe evitar os pontos de agressividade, os locais malditos, onde nunca se poderá estabelecer um equilíbrio benéfico.

A TERRA VINGA-SE

A Terra suportou durante muito, muito tempo, a brutalidade animal, furiosa, e a injustiça dos homens, que, não contentes de a torturar, votaram-na ao desprezo, abandonaram o seu culto e puseram-se a adorar falsos deuses.

Quaisquer que possam ser as aparências, é lógico pensar que a mentira, a manha e o desejo são sentimentos universais que devem manifestar-se no universo desconhecido da matéria.

O rio tem a sua alma própria, o seu intelecto, o seu pensamento, a montanha sonha, o prado vê, fala e ouve.

A Terra inteira é um imenso e complexo organismo provido de centros onde se deve acumular uma imensa inteligência--energia que, até agora, só os empiristas conseguiram desvendar.

Como qualquer organismo, tem uma matriz — o mar —, um ventre—o solo—, um sistema nervoso—o circuito das correntes telúricas—, e possivelmente tem também zonas para a sua

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O LIVRO DO PASSADO MISTERIOSO

cabeça e coração—justamente onde as civilizações desabrocham e os melhores instintos humanos se expandem.

A Terra esconde as cidades antigas, a história passada, as civilizações desaparecidas, talvez mesmo com uma lenta e enorme malícia.

Nos nossos dias, ela dá a volta ao seu sistema nervoso, começa a deixar explodir o seu humor vulcânico e cospe o seu veneno verde, cheio de peso, de ameaça e de possibilidades diabólicas: a pechblenda, donde o cientista-feiticeiro arranca a potência infernal da bomba atómica, o urânio 235.

CAPÍTULO XVII

OS MUSEUS PRÉ-HISTÓRICOS DO PETRIMUNDO

A Natureza fala ao homem que a ama e que se sente em comunhão fraternal com ela. As montanhas, os prados e os bosques são habitados, têm a sua inteligência, a sua linguagem, a sua memória, e entram de boa vontade em comunicação com os humanos.

Os objectos têm os seus caprichos e preferências, os seus momentos de sono e os seus instantes de lucidez, no decorrer dos quais exprimem-se e participam na evolução universal e até nas actividades dos homens.

Há no globo sítios onde a natureza do solo fala, pensa e cura, e há outros onde a mesma natureza é hostil e muda, esconde os seus segredos e é avara da sua irradiação benéfica.

Aquele que não acredita na inteligência da Natureza e das coisas, aquele que não acredita na linguagem das pedras, da madeira e da água, é um ser-matéria limitado nas suas percepções e em toda a sua sensibilidade superior; está irremediavelmente condenado a ser um estranho.

267

?MancL)d%ufrmanaiumeameantPeIantada>>' T* ^^ Pe"° de C^™^ ), que torma, juntamente com os do.s menires de Saint-Pierre-Eglise



o «Casamento das Três Princesas» '

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A Torre Hermética de Bbéon (Charente--Maritime) é um monumento enigmático, talvez o túmulo de um herói antigo a quem a erosão se entreteve a reproduzir o retrato: queixo, nariz, olhos, testa e até mesmo o barrete, de estilo veneziano

Cabi


dasecp de camponesa, no lado coberto «Pedras Pouquelées», em Beaumont--Hague, Mancha

Perfil do Cristo, em Celorio, LIanes, Espanha 270

O Ganso de granito, no maciço de Sidobre, Tarn

A GRAVIDEZ NERVOSA DA NATUREZA

Há vinte e cinco milhões de anos — talvez mais, talvez menos — a Natureza aborreceu-se do seu cenário de planícies, montanhas e oceanos.

Tudo era selvagem, grandioso, sublime, mas triste e silencioso. De vez em quando lá rebentava um trovão, chegava mesmo a haver tempestades terríveis que faziam uma espécie de filme em cinemascópio, a três dimensões e a cores, mas de som monótono e com personagens invisíveis.

271

A Natureza pôs-se a pensar e, como era mulher, pôs-se a sonhar, e com que pode uma mulher sonhar senão com amor?



E à força de sonhar, viu-se mãe, gerando coisas cintilantes, coloridas, ruidosas, e também criaturas ainda mais espantosas, que corriam sobre a sua pele terrestre ou voavam no seu suor perfumado ou no seu hálito.

Tinha então um formidável e mágico poder de criação. O seu fantástico inconsciente sugeria-lhe umas vagas imagens . que o seu consciente elaborava, e limpava da aura de imprecisão.

Essa semente macho insinuava-se-lhe no coração, na carne, nas cicatrizes matriciais ainda abertas, e pouco a pouco o sonho ganhava força, corpo e densidade, materializava-se através de pequenos abortos de fetos que se pareciam com líquenes ou protozoários.

Mas ela sonhara com aparições mais grandiosas, com realizações infinitamente mais subtis mas talvez demasiado indecisas para constituírem um esquema válido.

Parecia, em suma, que a essa criação embrionária faltava qualidade e vida, porque a sua maceração psíquica e intelectual havia sido impedida.

A Natureza reuniu toda a inteligência dispersa na sua infinita estrutura e concentrou-a num ponto mais sensível, mais cerebral do que as outras zonas.

Então, com temperaturas fantásticas e com a irradiação do caos ainda próxima, os tempos interpenetraram-se e o futuro jorrou na luz do presente.

A infinita inteligência concentrada viu surgir do incriado formas de elefantes, de otárias, de ursos, de crocodilos, de corujas, de cães, de macacos, de homens...

E para abrigar essa figuração quase viva, em permanente busca de equilíbrio, ela imaginou escrínios, écrans, cenários de fixação, que se transformaram em paredes, casas, torres, castelos, ruelas, avenidas, móveis e objectos.

Em breve ficou a Mater-Natureza grávida do fruto da sua obra imaginativa, da materialização do seu desejo.

Num grande espasmo do seu corpo desmaiado, expulsou, «eruptou», os palácios e as figuras de Montpellier-le-Vieux,

272


o «zoo» prodigioso da floresta de Fontainebleau, os ídolos do planalto de Vence.

No princípio tudo isto possuía talvez vida, inteligência e desejo, mas os milénios, aos milhares, petrificaram essa criação, que nos chegou hirta e aparentemente insensível.

No entanto, a carne, o sangue e a inteligência habitam ainda essa matéria de grés, de calcário ou de granito, mas estão dobradas, concentradas, ferozmente selvagens, e é preciso também ser de grés, calcário ou granito para lhes apreender a existência.

É assim que o poeta e o cientista explicam o milagre dos rochedos zoomórficos e antropomórficos da França, do Peru, do Brasil e da Roménia.

Por estranho que possa parecer, os biologistas, os geólogos e os físicos não andam longe de aderir à mesma tese...

O MUSEU FANTÁSTICO DE FONTAINEBLEAU

Mais do que qualquer dos outros sítios, Fontainebleau é um parque zoológico que abriga uma variedade incrível de animais.

Aí se encontram, em plena liberdade, mas de certo modo mineralizados, macacos, rinocerontes, serpentes voadoras, pássaros, dinossauros, sapos, felinos, cordeiros, ursos, hipopótamos, tartarugas, cachalotes, otárias, mochos, elefantes, etc, e também uma esfinge e cabeças humanas maravilhosamente talhadas.

Estas representações zoomórficas podem quase todas ser vistas no vale de Apremont, na direcção das Rochas de Fran-chard (ponto culminante da floresta), no maciço dos Trois-Pig-nons, no Brás Breau, etc.

Edith Gérin, que há vários anos estuda e fotografa o sítio, escreveu: ((Será efeito do acaso estes rochedos insólitos estarem agrupados como se tivessem pertencido a antigos centros rituais, nas gargantas e no caos de Apremont?»

Podem tentar-se duas hipóteses para explicar o petrimundo'

1 Inventámos este neologismo: petrimundo, ou mundo criado em pedra, ou pré-criação do mundo vivo, porque é necessário introduzi-lo no vocabulário das ciências e das pesquisas da nossa civilização. Parece que a pré-c>-iação (pri-

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Floresta de Fontainebleau. Em cima e da esquerda para a direita: 1. Cabeças Humanas no planalto de Franchard.—2. O Elefante de Barbizon.—3 O Jovem Veado

Em baixo: Monstros Marinhos. À direita: Cabepa de Felino nas rochas de Franchard, na floresta de Fontainebleau

de Fontainebleau: capricho da natureza e trabalho dos homens da Pré-História.

A segunda hipótese deve ser, sem dúvida, eliminada, porque o rochedo, de grés muito duro, tem ainda a sua crosta natural, do tempo em que se solidificou ao ar livre, há trinta milhões de anos aproximadamente.

A primeira proposição, a priori, não é satisfatória, porque o cálculo das probabilidades que explicaria as representações zoo-mórficas mais simples — otários, serpentes, tartarugas — não autoriza um capricho que gerasse três elefantes, com tromba, olhos, cauda, corpo e patas.

É forçoso, portanto, voltar à tese dos pontos de amor e da vontade consciente que a Natureza tem de procriar, ou seja, de se experimentar no esboço das formas futuras da sua mais elaborada criação.

É a explicação mais racional, qualquer que seja a sua aparência inacreditável e milagrosa.

O petrimundo de Fontainebleau é, segundo nós, a manifestação da inteligência da matéria.

MONTPELLIER-LE-VIEUX, A CIDADE DO DIABO

A França, segundo se diz, é o mais belo país do mundo, e os desfiladeiros do Tarn oferecem os mais maravilhosos sítios que os Franceses podem imaginar.

Com Montignac-Lascaux, o Monte Saint-Michel, Carcas-sona, a Sainte-Chapelle, Chartres, etc, com Fontainebleau e Montpellier-le-Vieux, em Aveyron, este país é um importante marco onde se manifestam o génio criador da Natureza, a beleza intrínseca e a inteligência da matéria.

É o sítio numero um do fantástico e do sonho do nosso pla-

meira criação sob a forma de esboços, antes da aparição da célula dita organizada) era de natureza rochosa ou argilosa, o que dá no mesmo e aproxima-se das teses da mitologia, mas convém também aceitar a possibilidade de pré-criações em metal ou noutras matérias.

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A medida que a bruma se dissipava, os pastores viam surgir as muralhas de um castelo dominado por uma enorme e ameaçadora torre

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neta, um país do outro mundo, onde nada do que existe se deve a ferramentas ou a trabalho dos homens.

No Causse Noir, por cima dos desfiladeiros do Tarn, Montpellier-le-Vieux é um prodigioso amontoado de agulhas rochosas, de picos, de falésias e rochedos naturais2.

Os pastores das Landes diziam que os gigantes de outrora haviam construído aquele reino, levantado torres com ameias, cidades fortificadas, muralhas, castelos, ruínas de cidades tão vastas como uma capital, habitados por dragões, cães, ursos, camelos, pastores liliputianos, pastores grandes como montanhas, mas também belas damas de antanho com sumptuosas crinoli-nas, reis mouros, princesas evanescentes e rainhas com diademas.

Uma cidade com ruelas, ruas, praças, avenidas, arcos de triunfo, portas monumentais, casas misteriosas, hotéis sumptuosos, dom-joões arrogantes, faróis, portos, que abriam para mares celestes de cores «exóticas».

E nessa imensa cidade, nesse reino sonhado por Gustave Doré, impera o silêncio, o grande silêncio da eternidade das coisas antigas, de cores passadas, azuladas e esfumadas, de perfumes indefiníveis e leves. Mesmo quando um grito de grilo ou de melro ou um salto de coelho quebram a insólita serenidade.

E, no entanto, no meio deste silêncio, ouve-se o barulho de uma multidão invisível, impalpável, fantasmagórica, o estremecer de uma vida que corre, que flui, que vagueia, que por vezes se atola, desaparece, ressurge e foge com o irromper de um raio de Sol ou de um visitante mais brusco.

Não existe nenhuma construção feita pelo homem. Tudo é de rocha natural com erosão, devorada, esculpida pelo tempo, pela chuva, o vento, o gelo e o sol. Tudo: os castelos fantásticos, as torres isoladas, os animais, as personagens, os objectos.

Um verdadeiro conto de fadas em pedra e em pedrinhas, um milagre inacreditável, uma maravilha, um filme da Idade Média e da epopeia arturiana, a cores, com encantamentos, desapari-

2 Pode ir-se a Montpellier-le-Vieux por Millau, Mende ou La Malène. A aldeia de La Malène, situada no sítio mais pitoresco das gargantas do Tarn, é o poiso ideal para visitar a região, pois tem hotéis muito acolhedores.

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Eram as ruínas de um castelo feudal. Em cada ala, uma torre com resguardos lembrava rudes e sangrentas batalhas, assaltos e canhonadas que tinham finalmente conseguido derrubar as espessas muralhas de pedra

A Cidade dos Gigantes, que também se chamava a Cidade do Diabo, parecia-se

com um desenho de Gustave Doré, com as suas enormes muralhas, as suas torres

largas e altas, unidas como uma floresta de picos

ções, substituições e transformações mágicas, ao nível das iluminações, das horas e da inclinação do espírito.

Por essa razão é que os pastores dos Causses viam ali uma cidade construída por gigantes mágicos, e como a cidade era vasta, real e quase desconhecida pensaram que era uma capital antiga.

Sendo Montpellier a maior cidade da região, deram àquele sítio o nome de Montpellier-le-Vieux, antepassada da outra Montepellier, a de Hérault.

O escritor Monteils foi o primeiro, parece que em 1802, a escrever sobre o Causse Noir «e os seus revestimentos de rochedos enormes com figuras cúbicas ou piramidais, oferecendo de longe ao espectador assustado o espectáculo lúgubre de torres e castelos antigos em ruínas3».

A natureza do rochedo é dolomite, carbonato natural de cal ou de magnésia, de cor cinzenta, ora azulada, ora ocre.

Uns barrancos (valats) medonhos moldam a paisagem de combas ou circos de rocha: a Millière, as Rouquettes, os Amats e o Lac.

«São», diz o dicionário de Joanne, «estes quatro grandes circos que formam os principais quarteirões da cidade de rocha. Podem ver-se num excelente plano de conjunto, se se subir ao pico culminante, o Douminal, à altitude de oitocentos e trinta metros, verdadeira acrópole pré-histórica.»

Daí domina-se circularmente a cidade propriamente dita (a Millière), um anfiteatro (as Rouquettes), um campo de Marte ou praça de armas (os Amats) e um coliseu (o Lac).

Assim é a planta, bem simples, da Cidade do Diabo; pode acrescentar-se-lhe um caminho de ronda, exterior: o estreito e longo circo da Citeme, paralelo ao dos Amats.

3 P. Joanne, Dictionnaire Géographique e Administratif de France.

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A

O «Castelo Périlleux» não passava de um monte de ruinas dominadas por uma ainda temível torre, guardada (à esquerda) por uma espécie de cão de pedra



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PAIOLIVE


Paiolive é um sítio análogo, mas muito menos rico em rochedos pitorescos. Situa-se no planalto calcário que se chama o Gras de Van, em Andèche.

«Neste maravilhoso quadro de rochedos brancos esculpidos pelas águas, a Natureza entreteve-se a dar todas as riquezas da flora meridional: a cereja brava, o evónimo, o terebinto, a figueira, o ácer, a madressilva e a coronilha enchem as brechas rochosas...

As maravilhas de Paiolive são: a Chapelle Saint-Eugène, plataforma rochosa em forma de cabo saliente, o desfiladeiro de Endieu, a gruta da Gleizasse, a Rotonde, verdadeiro salão de baile atapetado de fina relva e rodeado por um oval de rochedos, o castelo dos Trois Seigneurs, onde as ruínas informes se confundem com a pedra, o bosque de Gagniet, imenso dédalo de rochedos cobertos de vegetação e de silvas, aonde mesmo os pastores raramente vão. Na extremidade deste caos, damos de repente connosco a dominar um abismo do fundo do qual emergem uns obeliscos, mesas unidas por pontes...

Evitando cautelosamente as fendas, passa-se um portal que dá para uma estreita ruela que vai ao Salon.

Aí, no meio de relvados rodeados de magníficas árvores, erguem-se grandes rochas monolíticas, a Filie de Loth, a Reli-gieuse, etc, e a pouca distância um pequeno caudal de água fresca jorra dum rochedo, única fonte deste deserto de pedras.»

Esta ditirâmbica descrição do dicionário de Joanne era sem dúvida verídica em 1900, mas hoje em dia o local mudou um pouco de configuração, e devemos confessar que não encontrámos em Paiolive as maravilhas descritas.

O bosque, no entanto, é sempre agradável de percorrer e há com toda a certeza curiosas rochas para descobrir.

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Este castelo em ruínas, nos desfiladeiros do Tarn, foi construído há duzentos

mUhõesdeanTs. A inteligência do vento, da chuva, do gelo, «nzelou-o, gastou-o

e demoliu-o. Não passa de um maciço rochoso natural

H<

O castelo dos gigantes antigos erguia-se, ainda formidável, à entrada das gargantas do Tarn



A ALDEIA DOS ÍDOLOS

Os deuses bombardearam noutros tempos o planalto de Vence — os deuses ou talvez extraterrestres, em guerra aberta com os Terrenos ou com um comando de visitantes do espaço. Ou ainda, quem sabe, uma chuva de aerólitos tenha desabado sobre a região, escavando umas fendas gigantes que ainda são fáceis de reconhecer.

São estas as ideias que vêm ao espírito quando se descobrem as brechas de Saint-Barnabé, a oeste da montanha de Chiers.

A Aldeia dos ídolos é uma pequena Montpellier-le-Vieux, situada no desfiladeiro de Vence a uns trinta quilómetros de Nice. O acesso faz-se pela Estrada Nacional 7 até Cagnes, subin-do-se depois para norte pelas estradas vicinais 16 e 2. Um quilómetro depois do desfiladeiro de Vence, um caminho de pedras leva-nos até à aldeia de Saint-Barnabé.

A sul e a oeste estende-se um planalto salpicado de rochas com curiosas formas: é a Aldeia dos ídolos.

A paisagem, titânica e fascinante, está cheia de uma espécie de crateras pouco fundas, perfeitamente redondas, onde, na estação das chuvas, se acumula água. Pontos de impacte de aerólitos? Poços escavados pelas águas de infiltração? A segunda hipótese é a mais possível.

No decorrer de um passeio, bastante agradável, por atalhos de erva seca, contornamos fraldas rochosas que parecem cidadelas desmanteladas ou casas em ruínas, e de onde em onde, no meio de praças naturais, se ergue para o céu a estátua gigante de um deus bárbaro ou de uma divindade pré-histórica.

Foi o nosso amigo Guy Tarade quem nos levou a descobrir este sítio mágico onde gosta de beber a sua inspiração de poeta do fantástico4.

Um dia escreverá sem dúvida os prodigiosos contos que os ídolos do planalto de Vence lhe terão contado.

4 Guy Tarade, Les Archives du Savoir Perdu, ed. Robert Laffont, Paris, 1972.

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Cabeça do Inca, no planalto de Marcahuasi, no Peru



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O PLANALTO DE MARCAHUASI

O planalto de Marcahuasi, a quatro mil metros de altitude, está a noventa quilómetros a norte de Lima (Peru).

Em 1935, o arqueólogo Daniel Ruzo, durante uma excursão, achou-se de repente num local estranho, povoado por uma multidão de animais de pedra que pareciam vigiar umas personagens gigantes talhadas nos rochedos dos Andes.

Um animal fabuloso, de estilo inca, de boca aberta, guardava o caminho milenário que ia dar a esse reino.

Daniel Ruzo fez logo uma comunicação à Academia das Ciências e escreveu:

«Estou convencido de que o mundo erudito será em breve forçado a admitir que, por toda a superfície da Terra, homens pré-históricos, posteriores aos pintores das cavernas, esculpiram em rocha natural, para exprimir as suas mais elevadas concepções.»

Deu a essa civilização o nome de «cultura masma».

A tese do arqueólogo peruano afasta o capricho da criação ortográfica e parece, efectivamente, que a fauna de Marcahuasi, mesmo se de origem natural, foi depois remodelada pela mão do homem.

Pode ver-se, em Marcahuasi, leões, um cavalo, um grupo de elefantes, um camelo, otárias, etc, bem como também uma cabeça de inca, um perfil assírio, muitas figuras humanas e desenhos quadriculados, de que a factura humana não é de pôr em dúvida.

Mas estas representações antropomórficas e zoomórficas não têm, de longe, a precisão das figuras de Fontainebleau.

MAQUINAS DO FUTURO NOS ROCHEDOS

A Terra-Mãe, em Fontainebleau, em Montpellier-le-Vieux, no colo de Vence, em Cieux (Haute-Vienne), e em mil outros pontos do globo, teria assim engendrado as civilizações do futuro invadindo o não criado e o espaço-tempo do futuro.

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Deste modo, teria colocado num mundo petrificado5 gigantes e cidades, animais e objectos conhecidos (quilhas, potes, arcas, rocas, etc.) e também, necessariamente, se a nossa hipótese tem fundamento, automóveis, aviões, cápsulas espaciais e até as máquinas antigravitacionais que, por volta do ano 2000, sucederão às pesadas e estúpidas cápsulas Atlas e Apolo.

E muitas outras máquinas de que não fazemos sequer ideia!

Fontainebleau tem as suas otárias, o seu elefante, a sua Mater, as suas tartarugas, os seus mochos, os seus ursos; Mont-pellier-le-Vieux é pródiga em ruelas medievais, torreões, campanários, castelos e cidades titânicas...

. Um pouco por toda a parte recolhem-se potes, sinos, vasos, pirâmides, quilhas, pés, sapatos, queijos, chapéus, livros, binóculos... e mesmo foguetões. Mas onde é que se encontram automóveis, máquinas IBM, locomotivas?

É provável que os mais ricos, que os mais impressionantes «caprichos da Natureza», criados há milhões de anos, tenham desaparecido totalmente, engolidos por sismos, sob a erosão dos ventos, das chuvas, dos gelos, dinamitados pelos homens, nivelados pelos trabalhos agrícolas.

O PETRIMUNDO E OS MUSEUS PRÉ-HISTÓRICOS

No entanto a Terra continua iritessantemente a gerar — e continuará—, mas a investigação do insólito e da criação petrificada, nas montanhas e nas planícies, é ainda muito recente e mal organizada para que se possa contar com descobertas rápidas referentes ao mundo da indústria e da electrónica.

Como é que se descobrirá a forma e adivinhará a criação de máquinas, de objectos, talvez miniaturizados, de que o nosso mundo ainda não tem necessidade, e de que nem sequer podemos suspeitar qual seja a utilidade 1

5 Este mundo petrificado não seria um mundo paralelo susceptível de entrar em contacto com o nosso? As lendas de gigantes, de korrigans, de fadas, de duendes, da caverna de Ali Babá, fundamentar-se-iam em verdades improváveis, mas possíveis?

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É necessário que o observador inteligente, sensível, atento ao petrimundo, saiba calcular as possibilidades funcionais, as geometrias insólitas, muitas vezes pouco conciliáveis com os aspectos naturais do mineral e com as formas registadas pelas nossas civilizações, desde os bisontes de argila das cavernas até ao taque-taque6 de Saint-Tropez e de Royan, desde os bólides de Mans até ao Concorde e à Apolo XVII1.

Estamos convencidos de que num futuro próximo, antes de a erosão ter feito a sua obra destruidora (mas, por vezes, criadora), um governo iluminado instituirá uma secção de Primistória no Ministério da Educação Nacional ou de Belas-Artes, a fim de classificar e de preservar como monumentos primistóricos os rochedos zoomórficos e antropomórficos desses locais e dos outros, inúmeros, que depressa serão descobertos, uma vez o público informado e com consciência do fenómeno8.

4 Dava-se o nome de tiquetaque, em 1971-1972, a duas bolinhas de plástico ligadas por um cordão: o jogo consistia em fazer chocar as duas bolas; taqueta-que é uma onomatopeia.

7 Tem interesse sublinhar que, talvez pelo poder quase milagroso dos nossos cromossomas-memórias, imaginamos ou recriamos a civilização dos Atlantes com uma arquitectura em forma de pirâmide. Parece que aconteceu o mesmo com a Natureza, a quem os cromossomas-memórias teriam sugerido a criação futura, desde o primeiro homem até às últimas cidades destruídas pelos fortíssimos cataclismos do fim do mundo.

8 Ficamos reconhecidos aos nossos leitores-amigos que tenham a bondade de nos indicar rochedos, pedras, objectos ou sítios curiosos que conheçam.

Escrever para: Robert Charroux, c/o Editions Robert Laffont, 6, Place Saint-Sulpice, 75006/Paris.

CAPÍTULO XVIII A MÁQUINA DE FILMAR O PASSADO

QUE tenham existido Antepassados Superiores não levanta quaisquer dúvidas para os que não temem as formas nuas da verdade vinda do fundo do poço. Por vezes ao inspeccionar telhados, ao abrir um túmulo, ao folhear um livro herético, encontram-se os traços de uma invenção de que pensávamos ter a autoria e que, no entanto, havia sido conhecida pelos povos da Antiguidade1.

ENGENHOS DO FUTURO

Há quatro ou cinco milénios, os Egípcios sabiam como ter frangos, por fecundação artificial, sem fazer as galinhas chocar os ovos.

Em Maio de 1972, um arqueólogo do Cairo, mexendo num cofre abandonado nas caves do museu, descobriu uma espécie de

1 Robert Charroux, História Desconhecida dos Homens desde Há Cem Mil Anos, ed. Livraria Bertrand, Lisboa.

Neste nosso livro estabelecemos uma lista do insólito terrestre: o condensador eléctrico de Moisés, o vidro inquebrável de Tibério, os pára-raios de Salomão, a máquina de reacção de Heronte, a lâmpada eléctrica de Saint-Louis, a bomba atómica de Luís XV, etc.

10

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pássaro de madeira de sicômoro, de dezoito centímetros de tamanho, com uma quilha em vez de cauda.

O objecto parecia-se de tal modo com o avião comercial americano Hercule que os egiptólogos pensam que se trata de uma maqueta de planador com dois mil e quatrocentos anos.

O escritor dinamarquês Frede Melhedegard, especialista das civilizações antigas, acaba de publicar um estudo sobre os hieróglifos e os frescos do Egipto que o levou a concluir que os templos do Nilo haviam sido construídos com a ajuda de máquinas perfeitíssimas. Pensa também que os Fenícios conheciam muito bem certas aplicações da electrónica, da electricidade e, em particular, da galvanoplastia2.

Segundo F. Melhedegard, muitos hieróglifos seriam reproduções estilizadas de máquinas eléctricas, e apoia a sua tese con-frontando-os com projectos de motores ou de circuitos, o que dá um surpreendente resultado.

Levando mais longe as suas investigações, estabeleceu o mesmo paralelo com os desenhos e os frescos do México, do Peru e da índia.

As plantas de templos de que ele fez o levantamento pare-cem-se com efeito tão assombrosamente com composições mecânicas que somos tentados a ver aí os esboços de algum motor misterioso.

Sem abandonar esta via, é no entanto possível imaginar que os arquitectos e os desenhadores da Antiguidade, debaixo do efeito de drogas alucinogéneas, tenham sido solicitados e guiados por recordações cromossómicas ou por premonições, do mesmo modo que Júlio Verne consultou o século xx para as invenções geniais descritas nos seus livros.

2 Frede Melhedegard, Tut-Ankh-Amon er Vagnet, ed. Nihil Press, Vester-brogade, 139.1, Copenhaga.

O arqueólogo dinamarquês Frede Melhedegard afirma que os Antepassados Superiores escondiam os seus segredos científicos nas plantas arquitecturais. Este esquema de motor de automóvel... é a plaina do templo rupestre de

Ellora, na Índia

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O ELIXIR DA JUVENTUDE



Os acontecimentos, as descobertas, as realizações mecânicas do passado e do futuro estão provavelmente inscritos nos nossos cromossomas-memórias, mas o Iniciado que sabe consultar esta espécie de biblioteca prodigiosa é geralmente incapaz de situá-la no tempo.

Há cinco mil anos, segundo o doutor Edwin Yale, da Universidade Emory, nos Estados Unidos, as mulheres aborígenes da Austrália que queriam evitar a maternidade seguiam um regime dietético à base de batatas-doces locais, que eram os yams.

Ora os trabalhos de um outro investigador americano, o doutor Russell Maker, mostraram que, partindo dessa batata, podia dar-se a síntese da progesterona que serve de base para a fabricação das pílulas contraceptivas.

Foi ao estudar a farmacopeia dos Incas que o doutor Froí-movich, de Santiago do Chile, teria ultimado um medicamento milagroso, o «FGF 660», que dá saúde, vigor e lucidez às pessoas de idade.

Este elixir da juventude é composto por sessenta ingredientes e custou trinta anos de pesquisas.

O doutor Froimovich não é um empírico. É membro de vinte e quatro institutos científicos internacionais e fazia parte da lista dos candidatos ao Prémio Nobel de Medicina de 1963.

O seu elixir, experimentado na América Latina e até na Europa, deu resultados positivos e espectaculares em homens cuja idade ia dos setenta aos cem anos.

Alguns deles, antes da cura, andavam em cadeiras de rodas; uns meses depois, o doutor Froimovich fazia-os jogar um pequeno desafio de futebol, de que a imprensa deu notícia e publicou fotografias3.

Tinham todos rejuvenescido uns vinte anos, no melhor sentido, recuperado a memória e, alguns deles, curados de uma

3 O Montreal-Matin publicou o texto e uma fotografia na sua edição de 14 de Maio de 1972.

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natural impotência senil, provaram que eram capazes de voltar a procriar!



Há outras formas de viver a velhice: o campo magnético terrestre e o magnetismo em geral teriam neste assunto um papel importante, pela influência que exercem nos fenómenos fundamentais da vida4.

Ratos expostos a um campo magnético de quatro mil graus vivem vinte por cento mais que a média da sua existência normal.

A acção do magnetismo exerce-se a nível dos enzimas, ou seja, logo no início da formação da célula.

Adolf Unmussig, de Freiburgo, Breisgau, conta-nos que na Alemanha uma mulher grávida foi submetida, na região ventral, a uma descompressão atmosférica, através de uma caixa de ar rarefeito que a envolvia.

As experiências fizeram-se à razão de mais ou menos uma hora por dia, o que teve por resultado provocar uma irrigação excepcional dos tecidos do feto. A criança que nasceu, e que a imprensa da altura não largou mais, era um verdadeiro génio. Com três anos tinha uma memória prodigiosa, conhecia a geografia da Terra como se lesse por um livro, reconhecia todas as marcas de automóveis, etc.

Julga-se que o sistema de descompressão, aplicado aos tecidos orgânicos de pessoas idosas, poderia ter uma óptima influência e provocar uma certa regenerescência das células, acabando com a sua astenia natural. Seguir-se-ia logicamente uma muito maior longevidade.

CAPSULA DE DOIS ANDARES NO SÉCULO XVI

A seriíssima revista francesa Archéologia5 publicou, no número 42, uma informação proveniente da Rússia, que demons-

4 Estamos a dois passos da astrologia (para a contrariar) e das correntes telúricas (para as apoiar).

5 Archéologia, 8, Villa de Eylau, Paris, 16.°.

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trava, se fosse necessário, que os nossos antepassados, ditos bárbaros, eram-no muito menos do que se imagina.



Uma descoberta arqueológica permitiu verificar que, na região central da República Socialista do Cazaquistão, um cirurgião de há dois mil e trezentos anos tinha amputado o pé esquerdo a uma mulher jovem, substituindo-o por uma prótese.

Era o que demonstrava sem qualquer espécie de dúvida um esqueleto encontrado numa sepultura.

A operação havia sido coroada de êxito, porque a paciente vivera vários anos com o seu pé artificial, cujos ossos tubulares foram antecipadamente retirados de um carneiro.

É claro que aparecem sempre uns «racionalistas» para contestar tais informações, como negaram as operações de coração aberto feitas há cem mil anos no Turquestão, comprovadas pelos relatórios da expedição Mermadjaidjan e pelas conclusões da Academia das Ciências de Moscovo6, mas de ano para ano enfraquecem as oposições, que caem perante a realidade dos factos.

Foi também preciso que a Conjura se inclinasse, quando lembrámos que, setenta e.quatro anos antes dos irmãos Montgol-fier, o jesuíta Gusmão tinha posto a voar uma nave mais pesada que o ar perante a corte de Portugal e ao publicarmos os planos da cápsula com três andares que, no ano de 1529, voou em Sibiu, na Roménia!

Os homens têm a memória curta e esqueceram as extraordinárias invenções do arquitecto italiano Francesco di Giorgio, que, no século xvi, adiantava-se em relação às armas mais modernas do nosso tempo.

Georgio desenhara, principalmente, um canhão-cápsula que lançava um projéctil, à partida assente sobre rodas, mas que em seguida se erguia pela própria velocidade de lançamento.

Ainda mais elaborada era a cápsula de dois andares, em que o primeiro lançava o segundo por meio de cargas de pólvora.

6 Demos a relação desta descoberta em Le Livre des Mondes Oubliés, cap. IV, pp. 71-75. A descrição do avião de Gusmão figura na História Desconhecida dos Homens desde Há Cem Mil Anos, cap. VIII; os planos da cápsula de Sibiu foram publicados em O Livro do Misterioso Desconhecido, cap. I, ed. Livraria Bertrand, Lisboa.

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Como Giorgio não tivesse tido a ideia das rampas de lançamento, o ((duplo» engenho estava colocado sobre um chariot, que provavelmente deslizava sobre uma pista inclinada, segundo um ângulo estudado, antes de se libertar do peso.

As invenções de Francesco di Giorgio. Em cima: canhão-míssil sobre rodas;

em baixo, à direita: míssil, com rodas que servem de rampa de lançamento;

à esquerda: torpedo marítimo flutuante

Uma terceira invenção anunciava os nossos torpedos marítimos e, se não foi utilizada, pois não temos qualquer informação a esse respeito, possuía no entanto todos os requisitos necessários para um bom funcionamento7.

7 Os desenhos destas invenções foram publicados no trabalho La Renais-sance, col. Time-Life, Cedex VIII-7, Paris-Brune, France.

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Consistia num sistema de flutuação que tinha três tambores rotativos para diminuir a resistência à marcha. Na parte da frente, duas pontas de ferro aguçadas deviam fixar-se no casco do navio inimigo.



O torpedo, colocado na parte de trás do sistema, fazia a princípio o trabalho de propulsor de reacção, e depois, quando o fogo se pegava à carga, de explosivo.

A forquilha tinha por missão manter o explosivo contra o casco do navio.

Se os nossos investigadores modernos tivessem tido a ideia de explorar os arquivos dos nossos antepassados, talvez descobrissem o foguetão quatro séculos antes de Von Braun!

O que não contribuiria, no entanto, para o avanço da nossa civilização!

Graças a Deus não tiveram essa curiosidade!

O PASSADO NUNCA MORRE

Se se conhecessem os principais acontecimentos da história humana e se se conseguisse fazer daí um cartão perfurado para um computador, o aparelho daria com certeza um programa profético relativamente exacto.

Se se conseguisse registar e gravar numa espécie de ferrites, ou em aparelhos de televisão, as imagens do passado8, o mesmo computador seria talvez capaz de, a partir desse esboço de filme, imaginar a sequência do argumento e de elaborar as imagens seguintes.

Teoricamente, pela relação de causa e efeito, uma máquina electrónica que tivesse como única base um facto histórico capital, idealmente pormenorizado, poderia reconstituir toda a história da humanidade no sentido do passado e no sentido do futuro.

Encontrar e converter as ondas do passado em imagens e em sons parecia, até aos nossos dias, pertencer à ciência-ficção, mas um erudito monge beneditino italiano, o padre Pellegrino Ernetti, realizou cientificamente esse milagre.

É o que se faz cora o magnetoscópio para as imagens do passado recente.

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O padre não é um iluminado ou um feiticeiro da Idade Média que trabalha por meio de invocações, magia ou subterfúgios; é tido por um verdadeiro sábio.

Com quarenta e sete anos, é doutorado em «pré-polifonia», ou seja, em música, tal como foi conhecida desde a Alta Antiguidade até ao ano mil; dá aulas no Conservatório Benedetto Marcello de Veneza, na Fundação Cini e dirige também o Secretariado do Ensino Religioso Masculino em Itália.

Fez as suas pesquisas juntamente com doze físicos de que se recusa a revelar o nome e num laboratório secreto que há em Veneza ou Roma.

Sabe-se no entanto que em 1956 começou a estudar a possibilidade de ressuscitar o passado, como se fosse através de um filme de televisão.

Em 1957 conheceu o professor português Matos, que devia, com os seus trabalhos, trazer uma orientação nova às suas pesquisas.

O professor Matos também se interessava pela televisão do passado, e elaborava teses sobre textos de Aristóteles relativos à desintegração dos sons, textos tirados talvez de uma ideia pita-górica ainda mais antiga.

A ideia genial do padre Ernetti foi — segundo as suas declarações— tomar como base o princípio científico clássico segundo o qual as ondas luminosas e sonoras, depois da sua emissão, não são destruídas, mas transformam-se, permanecendo eternamente presentes.

Sendo assim, torna-se teoricamente possível reconstituí-las, reintegrando-as no seu sistema energético original.

Na verdade, este princípio não é admitido pelos físicos, pelo menos debaixo desta forma sumária, tanto mais que o padre Ernetti pretende que as ondas em questão «inscrevem-se na esfera astral», o que em física convencional não é aceite.

Ainda segundo este padre, uma onda sonora — por exemplo— subdivide-se em sons harmónicos, em ultra-sons, hiper--sons, etc, e submete-se, no seu processo de transformações, às leis habituais de desagregação da matéria, até ao estádio atómico, e mesmo além, até às texturas mais ínfimas do infra-átomo.

Graças a «aparelhos apropriados», entre os quais estaria um

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oscilógrafo catódico para utilizar os desvios de um fluxo de electrões, chega-se, por uma marcha inversa do processo, a reconstituir a emissão sonora inicial.

Parece que este fenómeno é possível, porque cada um dos constituintes da onda tem a sua individualidade própria, uma carta de identidade psíquica que permite o imparável regresso à origem.

— A minha invenção—diz o padre Ernetti—nada tem a ver com os processos da parapsicologia ou da metapsíquica. Trata-se de ciência no seu estado puro!

Para a ressurreição das ondas luminosas o processo é idêntico; é mesmo o primeiro princípio, já que a base de tudo o que foi criado é a luz, como se afirma na Bíblia!

UMA FOTOGRAFIA DAS TÁBUAS DA LEI

«Cada ser humano», afirma o padre, ((desde o nascimento até à morte, traça um sulco duplo; luminoso e sonoro, que constitui a "marca", o número matrícula do indivíduo.

Dá-se o mesmo com um acontecimento, uma música, um movimento.

As antenas do nosso laboratório permitem sintonizar as duas características de cada fenómeno: imagem e som.»

Os físicos não se deixarão talvez convencer por estes argumentos, mas há um facto que é inegável: o padre Ernetti pode mostrar ((fotografias» do passado longínquo e fazer ouvir vozes que se calaram há milénios.

É evidente que os resultados são tanto mais contestados quanto o inventor do método não revela o seu processo. Não deixa ninguém entrar no laboratório, porque, segundo ele, a divulgação do segredo teria por consequência uma série de desgraças incríveis e desastrosas para a nossa civilização actual.

Toda esta história fantástica fundamenta-se assim na boa fé do padre e nos testemunhos quase inacreditáveis que apresenta.

Conseguiu localizar e recompor, em latim arcaico, como devia ser, o Thyestes, uma tragédia de Quinto Énio que foi apresentada em Roma no ano de 169 da nossa era.

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O padre Pellegrino Ernetti

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Teria encontrado a exacta pronúncia das línguas antigas e o texto original das Tábuas da Lei editadas por Deus no monte Sinai, e também gravou imagens menos longínquas mas não menos convincentes: as do Papa Pio XII e de Benito Mussolini...

O padre Ernetti não revela nem a décima parte dos resultados obtidos, mas sabe-se que filmou e captou o som «da suposta explosão atómica de Sodoma e Gomorra».

EIS O RETRATO DE CRISTO

É incontestável que o resultado mais sensacional da máquina de filmar o passado é o retrato de Jesus Cristo, com planos em directo, sobre a cruz e durante a agonia.

Podemos imaginar o bom padre, vendo no seu écran mágico, as cenas alucinantes da Paixão, desde o carregar da cruz até ao grito da hora nona: Eli, Eli, lamma sabacthani» (segundo São Mateus), ou Eloi, Eldi, lamma sabacthani (segundo São Marcos), ou ainda (julga-se que em aramaico): Meu Pai, deposito a minha alma nas vossas mãos (segundo São Lucas).

Quais foram exactamente as últimas palavras de Cristo?

Este enigma foi durante muito tempo estudado pelos teólogos, que não conseguiram chegar a um acordo, nem sobre as palavras, nem sobre o sentido exacto que se lhes devia dar.

Ora o padre Ernetti, se diz a verdade, ouviu a última invocação do Crucificado!

Interrogado sobre este assunto, recusou-se a prestar qualquer declaração, alegando que não lhe competia fazer revelações desta ordem.

À imagem que obteve falta mais nitidez do que carácter:

Íésus parece ter umas barbas pretas, os cabelos são compridos e isos, o bigode é em forma de quarto crescente com as pontas viradas para baixo e a boca, entreaberta, parece proferir uma lamentação surda.

• Tradução segundo São Jerónimo: «Meu Deusl Meu Deusl, porque me abandonaste?» O pseudo João, que diz ter testemunhado os últimos instantes de Jesus, cala-se sobre este importante pontol

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Segundo o padre Ernetti, esta fotografia teria sido tirada estando Jesus ainda vivo, enquanto agonizava na cruz



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Os olhos, muito grandes e de uma enorme beleza, dolorosos e marcados pelo sofrimento, estão elevados para o céu, não ao jeito insípido do Santo Sulpício, mas com uma comovedora sinceridade.

A personagem é apaixonante e provoca grande emoção.

Sim, mas... será ela o Cristo?

A CHAVE DO ENIGMA...

Em 1950, o engenheiro inglês George Delawar tinha feito investigações paralelas às do padre Ernetti, com a colaboração de físicos de Oxford.

Pretendia fotografar as remanescêncías do passado e, para apoio do que anunciava, fabricara uma fotografia bem pouco convincente do seu próprio casamento, que se realizara vinte e três anos antes em Nottingham.

Em seguida, a sua invenção caiu no esquecimento.

Em colaboração com o engenheiro-astrónomo Emile Drouet, nós próprios estudámos o princípio, muito aleatório, da viagem no tempo e da nossa integração nas ondas do passado, não as perseguindo no cosmo, mas através de um teórico acordo com a sua extensão de propagação10.

Parece que o monge italiano se serviu parcialmente desta tese que, pela nossa parte, apresentaríamos como uma recriação intelectual.

O padre Ernetti defende o seu segredo com argumentos que teriam peso se se tivesse a certeza da autenticidade da descoberta.

— Se desse a conhecer o meu aparelho—diz o padre—, seria possível utilizá-lo para ler no cérebro das pessoas, visto que o pensamento é uma onda, o que representaria um atentado contra a liberdade da consciência, uma agressão criminosa contra o eu humano.

No entanto, disse que em breve se lançaria ao mistério do

10 Robert Charroux, História Desconhecida dos Homens desde Há Cem Mil Anos, ed. Livraria Bertrand, Lisboa.

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O LIVRO DO PASSADO MISTERIOSO



«Máscara de Ferro», a entrevistar São João sobre a data do fim do mundo, a adivinhar o local do tesouro dos Incas, a filmar a morte de Joana d'Are e a reconstituir uma parte dos preciosos manuscritos da biblioteca de Alexandrial

Mas o seu primeiro passo será consultar os filósofos antigos, Sólon, Tales, Anaximandro, Leucipo, Ferécide, Pitágoras, Anaxágoras, Sócrates — um verdadeiro programa do Senhor do Mundo...

Felizmente que o inventor da máquina de filmar o passado não tem qualquer ambição pessoal. Nem sequer a de ser papa, o que lhe caberia de direito!

— Quando é que pode levantar os muros de silêncio que rodeiam a sua invenção—perguntou-lhe um jornalista do Dome-nica dei Corriere}

— Quando o homem tiver aprendido a agir na direcção do bem! — respondeu o padre Ernetti.—Só na direcção do bem!

Nestas condições, e como diz o bom senso popular, ((Amanhã não será ainda a véspera de tal dia!»

ENSAIO DE MITOLOGIA FRANCESA

CAPÍTULO XIX QUANDO OS DEUSES ERAM HOMENS

A mitologia é a história deformada pelo tempo e pela má transmissão dos factos que se passaram no alvor das civi lizações.

De um modo geral, uma mitologia narra a criação do mundo por uma deusa-mãe ou por um deus supremo, seguida do nascimento de deuses menores, que trazem o conhecimento da escrita, da agricultura, das artes e das ciências.

Continuando a tentar definir uma linha geral, a mitologia evidencia deuses especiais que apareceram há cinco mil anos e que tinham uma identificação ou uma certa ligação com o planeta Vénus, a água fecundante e lendas de heróis ou de animais voadores.

A estes temas juntam-se, naturalmente, narrações de dilúvios, de monstros híbridos, de guerras entre homens e monstros, tudo inscrito num contexto onde se encontram os arquétipos clássicos: o iniciado, homem ou mulher, vindo de outro mundo a bordo de um engenho voador, tal como: serpente, carneiro, dragão, toiro, barca ou vimana, e ainda a Mater, a gruta, a fonte, a espiral, o tesoiro.

Todas as civilizações utilizam estes mitos, este arsenal, com pequenas variações.

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O CASO DOS PAÍSES CRISTIANÍSSIMOS

Acontece que as principais nações ocidentais — a França, no que nos interessa — foram despojadas desta história lendária pela invasão de uma religião estrangeira, o cristianismo, de um deus estrangeiro, Jesus, e de dogmas sectários, abusivos e sacrílegos.

Os países mais cristãos, a França, a Espanha e a Itália, que deveriam ter as mitologias mais ricas e mais pitorescas, não as têm de todo, e ligam-se ao passado longínquo dos seus antepassados por lendas ou por tradições gregas, escandinavas ou irlandesas.

Nos liceus, ensina-se a mitologia grega e nas escolas cristãs a dos hebreus.

Revoltarmo-nos, pretender que somos celtas, que os nossos antigos deuses se chamavam Teutates, Esus, Lug, Cernunus, etc, é uma heresia abominável, que dantes levava directamente à fogueira.

São Paulo fez queimar em Éfeso uma biblioteca inteira de livros científicos, onde, ao contrário da palavra de Deus, se dizia que a Terra era redonda e girava à volta do Sol.

No século VII, monges irlandeses ignorantes queimaram, por «demoníacos», dez mil manuscritos rúnicos, inestimáveis, relativos à civilização céltica.

Os cristãos, em 490, incendiaram a biblioteca de Alexandria, e, em 789, Carlos Magno proibiu o culto pagão e determinou a destruição de qualquer objecto ou documento a ele relativo.

Quase toda a história da humanidade desapareceu nestas aventuras, mais mortíferas que as invasões dos bárbaros e que as guerras de conquista.

Eis porque os povos cristianizados, franceses, espanhóis, italianos, foram separados dos seus avós e não têm mitologia nacional.

Mas o passado quer ressuscitar e chegou a altura em que a verdade deve sair nua do seu poço, nem que seja só para obrigar os tartufos e os falsos devotos a soltar gritos de horror.

Apesar de ter escapado à atenção dos historiadores, a lenda

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de Melusina faz hoje valer os seus títulos e proclama o direito de entrar na mitologia céltica.



Mais ainda, define-se com a essência da nossa mitologia celto-gaulesa, ou, para ser mais preciso, do povo que, há cinco mil anos, habitava o nosso país.

O TEMPO DO SONHO

Os tempos mitológicos, os dos Grandes Antepassados e dos Iniciadores que trouxeram os segredos científicos, não são considerados de todo pelos pré-historiadores.

Mais fiéis, mais leais, mais inteligentes, os povos primitivos dão ao mito uma importância sagrada, que se encontra também nos Ingleses, nos Alemães e nos Gregos.

Ignorar ou esquecer a própria tradição ancestral, é romper com a Natureza, com a seiva vital do passado, é cortar o cordão umbilical que nos liga à vida primordial.

Então, isolado num universo estranho, o homem perde a sua qualidade, o seu carácter e o seu senso de viver.

Sonhar os mitos é um traço comum às civilizações dos índios da América, dos indígenas da Austrália e da Polinésia, que pensam, e com razão, parece, que ao sonhar aprendem o mais correctamente possível as verdades tradicionais'.

Para esses povos, o período original da sua civilização, da sua história desconhecida, chama-se o tempo do sonho.

Não pode haver dúvidas de que esta certeza e este método, por mais empíricos que sejam, apresentam critérios de credibilidade muito mais admissíveis e racionais do que as especulações aberrantes da maioria dos pré-historiadores.

Sem o saber, os Primitivos valorizam uma observação de ordem científica, admitida por certos biólogos, relativa ao tempo

1 Lucien Levy-Bruhl, La Mythologie Primitive, Librairie Félix Alcan, Paris. O autor é membro do Instituto. ((Conhecer, é recordar», disse Platão. «Pensar», escrevia Maeterlinck, «não é somente observar como fazia Fabre, deduzir como Descartes, é também escutar no fundo de si próprio as mágoas, as esperanças, os sonhos.» «Sonhar», acrescentamos nós, «é, por vezes, voltar ao pensamento do ser-matéria que fomos.

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de sonho na criança, que, no ventre da mãe, pode sonhar com factos e acontecimentos ou com fenómenos muito anteriores à sua procriação, mas inscritos nos seus cromossomas-memórias.

O GÉNIO, O INICIADOR E A «ESTRELA»

Os Samaritanos (tribos de Judá e de Benjamim) admitiam que o homem tinha sido criado, não à imagem de Deus, mas dos anjos, porque o Sephir bereschit usa o termo eloim: os deuses.

Podemos então ver nisso anjos vindos do céu, quer dizer, de um outro planeta, para criar a vida humana na Terra.

Os anjos foram a origem de um politeísmo, esses «estranhos à Terra» tornaram-se os Iniciadores, os heróis antigos, enfim, os deuses.

Foi esta a tese que apresentámos, em 1962, no nosso primeiro livro, muitos anos antes que um plagiário mais rico de indelicadeza que de talento se apropriasse da ideia, escrevendo sem vergonha «05 meus extraterrestres»!

Deve, no entanto, sublinhar-se que dois mil e quatrocentos anos antes de nós e da nossa pobre prosa, um iniciado, o filósofo grego Evémero (século iv a. C), disse e escreveu que os deuses da mitologia tinham sido muito simplesmente seres humanos, deificados pelos povos admirativos.

Tal foi o caso, em Atenas e em Roma, em relação a Safo, Platão, Petrónio, aos imperadores e aos homens ilustres.

Mesmo nos nossos dias, o mesmo fenómeno exaustivo funciona para as personagens transformadas em vedetas ou verdadeiramente eminentes.

A actriz Greta Garbo, depois de várias outras estrelas, foi chamada «a Divina»; celebrou-se um culto em memória do actor Rudolfo Valentino, que teve a sua hora de glória por 1927. A bela dançarina nua Colette Andris, em 1939, era adorada pelos seus fiéis.

Em alguns templos do Daomé, em 1950, prestavam-se honras divinas às fotografias da francesa Lydie Bastien, heroína do Paris secreto do pós-guerra.

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A partir da sua morte, em 1970, o general De Gaulle foi divinizado no mesmo país.

O ciclista Fausto Coppi teve, ainda em vida, fiéis, crentes fanáticos.

Na verdade, como sucede no nosso tempo com as ordens honoríficas, ((a Ordem da Divinização» era, sobretudo, monopolizada pelos tiranos, os potentados, os mercadores da matéria e do pensamento.

No princípio do século m da nossa era, o geómetra, astrónomo e médico Sexto Empírico2, que não se deixava arrastar pelos fabulistas, assegurava que Evémero tinha em seu poder relações de factos autênticos e muito antigos, pois, escrevia ele, ((vinham de uma época em que aqueles que ultrapassavam os outros em força e habilidade os obrigavam a submeter-se às suas vontades, e depois, olhando para mais alto, pretendiam-se dotados de poderes sobrenaturais, de tal modo que muitos homens os escolhiam para objecto do seu culto.»

EVÉMERO, O ATEU

O pagão convertido Arnobe dizia que ((Evémero queria demonstrar que os deuses antigos eram homens; daí o cuidado ciumento com que indicava o lugar dos seus nascimentos e das suas mortes, contando cuidadosamente os seus túmulos, e consi-derando-os como homens que tinham sido úteis ao género humano.»

Sabemos também por Sexto Empírico que Evémero era chamado «o Ateu» por aqueles que, no seu tempo, acreditavam que Vénus, Júpiter e Mercúrio eram os verdadeiros deuses criadores do Universo3.

1 Sexto Empirico, sábio grego, teria nascido no princípio do século in, em Mitilene. Expôs as teorias dos cépticos em três obras, cuja principal tinha por título Hypotyposes Pyrrhoniennes. Montaigne, La Mothe, Bayle, inspira-ram-se nela.

3 Ainda nos nossos dias, o verdadeiro deísta, aquele que sabe que Jesus não era um deus, é qualificado de ateu. Os tempos da superstição não estão abolidos.

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Este «ateu» pensava, de facto, que o criador se identificava a uma Inteligência Superior, cósmica e de matéria indefinível.

Da mesma forma, os Hebreus acreditam num Yahwé, que era o nome de uma montanha, de uma região ou de um herói da antiga Arábia, e os cristãos têm fé num deus, um terço do qual foi uma espécie de herói chamado Jesus, que teria vivido no primeiro século.

Evémero expôs a sua doutrina num livro: Inscrições Sagradas, onde compilou numerosas epígrafes de templos, de túmulos e de monumentos visitados no decorrer das suas viagens.

AS ILHAS FLUTUANTES

Diodoro da Sicília conta que Evémero, enviado em missão à índia e ao Próximo Oriente por Sassandro, rei da Macedónia, descobriu, ao sul da Arábia, três ilhas chamadas Panchaea, cujo templo principal estava coberto de hieróglifos egípcios.

Uma dessas ilhas produzia incenso bastante para abastecer todos os altares do mundo.

Panchaea era o país onde nascia e renascia a fénix (o país de Cousch, ou Etiópia, ou Arábia Meridional, segundo Aristóteles).

Nenhum geógrafo conseguiu identificar estas três ilhas, e pensa-se que Evémero não fez mais que transcrever essa história do «livro dos padres egípcios, que tinham falsificado a Tri-Cuta* mítica dos Hindus, ligando-a à realidade».

((Da mesma forma que Hecataeus localizou os Hiperbóreos na Bretanha, em frente da Gália, os Egípcios parece terem fixado as ilhas flutuantes do Oriente, e acrescentado ao dogma geral de

4 A Tri-Cuta è uma cidade tripla que pertence à lenda hindu. Cutha ou Cuta, ou Rute, era uma cidade misteriosa da Ásia, cujos habitantes, narra a Bíblia, adoravam o deus Nergal, que representava o planeta Marte. A Panchaea de Evémero deve ser aproximada, senão identificada, com a massa continental original, que juntava, dizem alguns geólogos, todos os continentes emersos, há cem milhões de anos. Esse continente primitivo único chama-se Pangea (pan: tudo; gaea: a terra).

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um triplo eliseu hieróglifos e outras particularidades derivadas da sua opinião e dos seus costumes.»



Actualmente, está-se muito menos seguro da inexistência destas Ilhas Flutuantes do oceano Índico, rivais das ilhas Afortunadas do Atlântico, pois acredita-se na existência de convulsões geológicas submarinas capazes de engolir terras emergentes, tanto no Oriente como no Ocidente.

HESIODO DESVENDA A LENDA

Nas teses de Evémero, o deus Urano, o mais antigo de todos, era um viajante e um Iniciado, que se fez rei de Creta. Para afirmar o seu prestígio junto dos seus súbditos, teria, certamente, declarado que a sua mulher e ele próprio eram filhos do Céu e da Terra.

Os reis do Egipto, do Peru e do México usavam o mesmo processo para se atribuírem a divindade: diziam que descendiam de soberanos divinos vindos do céu através dos ares, e, por vezes, de outro planeta, como foi o caso dos venusianos Viracocha e Queltzalcoatl5.

Saturno e Júpiter, como Urano, teriam sido antigos reis ou heróis.

Estas ideias não eram novas na Grécia, onde, bastante antes de Evémero, no século vi a. C, o historiador e geógrafo Hécato de Mileto dizia que o Géryon de Eritia, dos doze trabalhos de Hércules, era realmente um rei do Épiro, possuidor de ricos rebanhos, e que Cérbero, o cão do Hades, deus dos Infernos, era uma serpente que habitava uma caverna em Tenaro, na Lacónia, onde os antigos situavam a entrada do império infernal.

Ainda mais remotamente, Hesíodo, no século vm a. C, escrevera que Geryon era simplesmente um homem de uma força extraordinária, ou talvez um poderoso rei.

O historiador grego Éforo, em 440 a. C, fazia do gigante

5 No Peru, Manco Capac, o primeiro Inca, dizia-se filho do Sol e da Lua.

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Titio6 um ladrão, e da serpente Píton uma personagem odiosa chamada Píton ou Drácon, que matou o herói Apolo.

Ora acontece que o legislador ateniense Drácon (cerca de 624 a. C.) era um reformador íntegro e genial, mas de uma rectidão inflexível.

Punia com a morte todos os que desobedecessem às leis (as leis draconianas).

Segundo Estrabão, este Titio era o tirano de Panópia ou da Fócida.

Heródoto conta, conforme revelações dos padres egípcios, a estranha história que está na origem dos oráculos da Líbia e de Dodona.

O de Dodona, no Epiro, era o mais antigo da Grécia e o úníco a ter conhecido os Pelasgos, antepassados dos Gregos.

A tradição assegurava que duas pombas pretas, vindas do Egipto, tinham parado, uma em Dodona, outra na Líbia, onde haviam determinado o estabelecimento de um culto a Júpiter.

Heródoto, como Evémero, desvendou esta lenda, e após investigações concluiu que se tratava de duas sacerdotisas de Tebas (Egipto), que, vendidas como escravas no Epiro e na Líbia, reconstituíram um culto e cerimónias análogas que se praticavam no seu país de origem.

Homero afirma que essas pitonisas eram seres humanos; Estrabão e, mais tarde, Scaliger, no século xvi, têm a mesma opinião.

Porém, é provável que a sacerdotisa de Dodona fosse uma druida vinda da Gália, o que explicaria o nome de pomba, retido pela tradição: as antigas pitonisas dos deuses chamavam-se peleiades, que significa também pombas.

6 Titio ou Titios, filho de Gaea, tendo querido violar Latona, foi morto por flechas atiradas por Apolo e Diana, e precipitado nos Infernos, onde dois abutres lhe devoram eternamente o fígado.

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OS CARVALHOS DE DO DONA

O templo do deus era em plena floresta, o que fez dizer a Homero que os carvalhos de Dodona davam oráculos.

Quando o vento agitava os seus ramos, é possível que as sacerdotisas da decadência tenham tentado fazer crer que o barulho das folhas era a voz de Júpiter, mas Estrabão desmistificou esta superstição.

É verdade que no templo tinham sido erigidas duas colunas muito perto uma da outra.

Sobre a primeira fora colocado um caldeirão de estanho; sobre a segunda, uma estatueta representava uma criança tendo na mão um chicote com correias de bronze, mas muito flexíveis.

Quando o vento soprava, as correias batiam no estanho, que retinia de uma forma estranha, capaz de chocar a imaginação das pessoas crédulas.

Além disso, o templo não era cercado de muros, mas de caldeirões de bronze, dispostos sobre tripés e astuciosamente colocados uns contra os outros, de maneira a tocarem-se.

Se se tocasse no primeiro caldeirão, as vibrações comunica-vam-se até ao último, e os sons propagavam-se como uma trovoada misteriosa, que pretendia representar a voz grave do deus!

Aqueles que vinham consultar o célebre oráculo, ficavam então penetrados de um terror religioso que os punha ao dispor das sacerdotisas.

O mesmo fenómeno, com a vibração dos sinos, as cores dos vitrais, o perfume do incenso, a encenação junto do altar iluminado por seis círios com um padre revestido de vestes sumptuosas, condiciona, nas nossas igrejas e nas nossas catedrais, os cristãos, que imaginam que Deus está particularmente presente no meio deles, naquela casa que lhe é consagrada.

OS FALSOS DEUSES

Para um ser supersticioso ou crédulo, aquilo que o choca grosseiramente parece-lhe mais maravilhoso e divino do que a

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eclosão de uma rosa, o nascer de uma criança ou a germinação de um grão de milho.



Todas as religiões têm astuciosamente utilizado as forças misteriosas que impressionam os sentidos, o subconsciente e a imaginação das massas, para as persuadir da autenticidade dos falsos deuses.

O eveemerismo, explicação e desmistificação dos mitos, sempre combateu as psicoses abusivas e as crenças supersticiosas.

Os templos fantásticos e maravilhosos do México, da índia e do Egipto, de onde, antigamente, irradiavam as religiões para a quase totalidade do globo, não foram nunca, para o Iniciado e para o homem de bom senso, senão a representação subalterna de uma verdade deteriorada, de uma imaginação de padres ignorantes, inventores de falsos deuses.

Da mesma forma, temos de crer que os nossos milhares de igrejas, que os nossos milhares de padres, de cardeais com barretes, de bispos com tiaras, que os nossos papas com mitras e tronos doirados, só representam uma religião circunstancial, um pouco mais bem elaborada do que antigamente, mas igualmente submetida ao erro e à impostura.

A LENDA DE MONTMARTE

Um dos exemplos menos conhecidos, mas das mais típicas deteriorações das palavras, dos factos e da cristianização da nossa terra ancestral, é a lenda de Montmarte, a colina sagrada de Paris, célebre no mundo inteiro sob a falsa denominação de Montmartre.

Os etimologistas confessam não conhecer a origem da palavra, e propõem: mons Mercurii (monte de Mercúrio), mons Martis (monte de Marte), monte dos mártires, em memória do bem-aventurado São Dinis.

Evidentemente, esta última etimologia não resiste a exame, visto o monte Marte ser muito anterior a São Dinis (272), mas prevalece geralmente sobre as outras.

Também se pensou ter o monte parisiense uma relação com a marta, carnívoro muito raro em França e que vive nas matas

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e nas florestas de pinheiros, ricas em aves e em pequenos mamíferos 7.

A verdadeira etimologia é muito mais bela, mais fascinante e mais fantástica do que aquelas impostas pela Conjura.

As martes, na mitologia pré-celtica, eram uma espécie de amazonas ou bacantes — talvez sacerdotisas ou demónios — que assombravam os campos.

Eram grandes e belas, com opulentas cabeleiras castanhas, e passeavam-se sempre nuas, os seios apontados orgulhosamente, como «escudos de amor».

Mais tarde, tornaram-nas feias, atribuindo-lhes mamas longas e flácidas.

«As martes», escreve S. de Beaufort, «inspiravam o maior dos terrores aos agricultores, que elas perseguiam gritando: "Mama, trabalhador!" e atirando os seios para detrás dos ombros.

O retrato destas mulheres, igual em toda a parte, e o facto de habitarem ao pé de dólmenes que igualmente tinham o seu nome, tende a fazer pensar que as martes eram sacerdotisas»8 que faziam sacrifícios erótico-sangrentos, dos quais, provavelmente, o pacífico agricultor era frequentemente vítima.

Em Poitou-Charentes, onde as tradições ainda mantêm um carácter vivo, as martes, contava Augustin Bobe9, eram, ao mesmo tempo, bacantes, dríades e feiticeiras capazes de sarar as feridas e de curar as doenças.

De facto, parece que elas eram sacerdotisas, oficiando quer nos bosques, quer sobre os dólmenes ou junto dos menires geralmente erigidos no cimo das colinas. Procuravam também, em datas sagradas, as ervas medicinais, cujas propriedades conheciam, e votavam às forças telúricas, às da Natureza e aos menires

7 É provável que haja uma relação entre a marta cruel, com instintos sanguinários, e as martes da mitologia pré-céltica.

* Os Études Limousines, Tradition et Progrés, n.° 34, Outubro de 1969, boletim da Sociedade de Etnografia do Limousin, 44, Cours Gay-Lussac, Limoges, citam três dólmenes do Limousin chamados «Pierre à la Marte»: dólmenes de Redondes, em Cromac, de Bouéry e de la Vaudelles, em Maillac.

' Augustin Bobe (1878-1969), autor da Histoire de Civray (1935), era um historiador apreciado dos costumes e das lendas do Poitou e das Charentes.

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fálicos um culto impudico análogo ao prestado a Anaitis pelos Arménios e Lídios.



Peritas na arte do amor, as martes foram, diz-se, a origem dos poderes atribuídos às pedras que dão fecundidade, aos meni-res furados, aos marcos de fertilidade.

À noite, quando das crises ou transes em que as mergulhavam as beberagens alucinogéneas e, sem dúvida, afrodisíacas que elas sabiam preparar10, batiam os campos, à procura de um macho apto a acalmar os seus transportes.

É provável que a sua companhia, nesses momentos, não fosse isenta de perigo, pois deixaram reputação de bacantes insaciáveis e cruéis.

A lenda, acrescentando-se à realidade pouco conhecida, diz que elas sabiam transformar-se em animais terríveis ou tomar formas pavorosas.

Talvez elas fizessem tomar as suas beberagens aos homens que capturavam.

Albert Goursaud vê-as sob o aspecto «de demónios-fêmeas de ordem inferior, que a mitologia germânica designa sob o nome de mahr e cujo tipo mais conhecido é o pesadelo (em francês, cauchemar, em alemão nachtmahr)».

A. Goursaud faz então uma aproximação com os caucho--vieilho do Limousin, cujo nome composto explica os actos das criaturas que penetravam de noite no quarto de quem dormia, «estendiam-se sobre a pessoa até a cobrir completamente e a abafar ao ponto de não possuir já nem o espírito nem a força para se desembaraçar do carrasco».

É possível que estas martes lendárias tenham engendrado na crença popular as fanettes ou fadettes, que, segundo J. de Sazilly e o doutor Clancier-Gravelat, tinham busto de mulher e pernas de cabra.

10 L. Talbot, Le Souffle du Norrois, ed. Centre des Livres, LT-12. Oswaldo--Cruz, Paris, diz que «a erva de Paris era ura filtro para amar, como se pode ler em Lacurne». Ler também Sainte-Palaye de la Cume, Dictionaire des Anti-quités Françaises, Glossaire de VAncienne Langue Française, e Olivier de Serre, Thèâtre de 1'Agriculture et Message des Champs (ed. 1804-5). É possível que a erva de Paris fosse a luzerna.

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PREDESTINAÇÃO DOS LUGARES

Tal seria a razão que fez do monte situado ao norte de Luté-cia, o monte das Martes, depois o Montmarte.

Estranha e portanto lógica impregnação dos lugares, o Mont-martre de Paris foi desde sempre o centro dos prazeres e das tra-ficâncias duvidosas.

É em Montmartre que se compraz a vida galante, que proliferam as ruas suspeitas por onde deambulam as prostitutas, que pululam os night-clubs de strip-tease, que se encontram os traficantes de droga, de livros e gravuras eróticas.

Esta predestinação geológica11 e irreversível dura desde as martes pré-célticas, e impõe-se com tanto rigor como aquela que implantou o comércio no Marais e a vida intelectual no Quarter Latin.

Igualmente, em Roma, o bairro de Suburo, situado na encosta do monte Esquilino, está predestinado, desde a mais alta Antiguidade, a atrair os barbeiros, os mimos, os atletas, os gladiadores e as cortesãs.

As religiosas da Ordem de S. Bento, que residiram em Montmartre na abadia fundada no século xn, adquiriram de início, diz o Dictionnaire Universel du XIX" Siècle, «uma grande reputação de santidade, mas a riqueza trouxe o relaxamento dos costumes, e as repressões dos arcebispos de Paris não conseguiram dominar as suas desordens...».

Henrique IV, quando do cerco de Paris, instalou-se nos aposentos da abadessa e, segundo os cronistas do tempo, «aí levou uma vida divertida, na companhia das religiosas».

Durante a Revolução, Montmartre, em honra do sanguinário <(amigo do povo», usou durante algum tempo o nome de Montmarat.

Exactamente como Montmartre, Suburo era na Roma antiga

11 Outro exemplo de predestinação e de coincidências exageradas: o monte céltico Puygalle (puy: monte; galle: gaulês), primeiro contraforte do monte das Martes, chama-se actualmente Pigalle, do nome de um escultor.

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a sede do espírito popular, do dialecto eloquente, pitoresco e apaixonado.

O sarcasmo de Suburo era temido pelos bairros elegantes, como em Paris o calão de Montmartre.

Era em Suburo, como em Montmartre, que estavam a libertinagem, os lupanares, o mercado dos objectos roubados, e onde os gangsters da época sabiam poder encontrar asilo.

A imperatriz Messalina tinha por costume ir a Suburo satisfazer os seus ardores amorosos com os gladiadores e os rufias. Nos nossos tempos, da mesma maneira, a gentry de Paris e as pequeno-burguesas gostam de ir a Montmartre acanalhar-se e tomar bebidas tão alucinogéneas e afrodisíacas como as que confeccionavam as martes.

Os americanos chamam a Pigalle Pig Alley (rua dos porcos) e, embora admirem as suas bonitas mulheres, têm frequentemente a impressão de que antigamente estavam ligadas às insaciáveis martes do Limousin e de Poitou-Charentes.

O FALCÃO DIVINO E O OURAIOS

O falcão dos Egípcios — e houve vários — era o símbolo voador do céu, dos astros e o deus real por excelência.

Pertence ao panteão mais antigo, pois vem da primeira dina-tia tinita de Menes, há seis mil anos-12, e a sua importância é tal que figura em cada frontão de templo, imediatamente a seguir ao símbolo principal: o uraeus sagrado.

É útil notar que este uraeus ou ouraios é a representação da deusa Mertséger, que era uma serpente, ou, se preferirem, uma mulher-serpente como Melusina!

Os egiptólogos, ou os que como tal se julgam, são extremamente reservados e mesmo mudos sobre o significado do falcão e da serpente alada: ((Protegem o rei», dizem eles, o que é pobre e pouco convincente I

É evidente que o falcão (um milhafre, na realidade) e a serpente alada não podem de forma alguma ajudar ninguémI

u Cinco mil e duzentos anos, segundo a cronologia clássica.

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Mesmo se esta serpente sagrada fosse o primogénito dos animais da Terra: a serpente de ferro saída do lótus primordial!



Dado que os primeiros reis egípcios eram ((divinos», deve pensar-se que os símbolos voadores ligados à sua qualidade de Iniciadores tinham uma interferência, ao mesmo tempo, com o espaço aéreo e com o conhecimento.

A nossa cultura e os acontecimentos que dominam o século xx dão-nos então a chave provável deste mistério alegórico, desta fábula mitológica: uns Iniciadores, chegados num engenho voador, fizeram brotar a civilização do Nilo na época arcaica que se seguiu ao Dilúvio, há mais ou menos dez mil anos.

Viriam estes estrangeiros de outro planeta? Há razão para o supor, pensando talvez na devoção particular dos Egípcios pela estrela Sothis (Sirius)a e pelo uraeus sagrado.

AS MITOLOGIAS E AS CONVERGÊNCIAS

Marthe de Chambrun Ruspoli escreveu um livro notável sobre o desvendar do mito egípcio, tanto pelas teses que nele apresenta como pelos extractos de manuscritos pouco conhecidos do grande público14.

A introdução impressiona vivamente, pois o autor, sem falar

" Sothis regula o curso do Nilo, a cultura do arroz e do milho. Ao evocar o uraeus não sonhamos sequer com o planeta Vénus, que apareceu no nosso céu numa época-que situamos em cinco mil anos antes de nós; o uraeus é muito mais antigo do que o signo venusiano do Touro e parece corresponder à chegada dos primeiros Iniciadores, há dez mil anos.

A deusa venusiana do Egipto é Athor, também chamada ísis — Estrela do Mar, a senhora de Biblo dos Fenícios e a esposa simbólica do touro Mnevis (o deus El ou Baal). O seu emblema — os cornos — é o do planeta Vénus e espa-Ihou-se por todo o mundo há cinco mil anos, o que indica que houve uma nova era de influência que atribuímos à vinda de um segundo grupo de Iniciadores estranhos à Terra.

Athor é a deusa do Amor e da Beleza, portanto uma orejona, de grandes orelhas e face triangular, como a Orejona dos Incas. O linguista Iablouski deriva Athor do copto edjorh ou adjorh, que significa noite, e conclui que ela era a Vénus Tenebrosa ou a Afrodite Scotia dos Antigos.

14 Marthe de Chambrun Ruspoli, VEpervier Divin, ed. Mont-Blanc, 72 Rue de Lausanne, Genebra.

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da Atlântida, o que é curioso, resume a história secreta do Ocidente com a narração de um drama que se teria passado, «numa grande ilha envolta em canaviais, no centro do vasto Mar Verde».



A vítima, ou, se se preferir, o herói da história, é Asar, chamado Osíris15 pelos Gregos, que foi crucificado e despedaçado por seu irmão Set (ou Typhon)16.

Claro que os espíritos timoratos ou enfeudados às superstições religiosas nunca aceitarão ultrapassar o sentido literal das fábulas mitológicas e assim UÉpervier Divin de Marthe de Rus-poli é, no sentido real da palavra, um livro iniciático.

Fala-se nele muito do Amenti (o Ocidente, o país dos antepassados mortos), que não é, como para os egiptólogos ultrapassados, o Oeste do antigo Egipto, ou seja, a Líbia, mas uma região muito mais ocidental e longínqua: o país de Asar e dos novos arianos da antiga Ásia, ou seja, a Europa Central.

É claro que a aventura nos leva até Thulis, Thule, Tuia ou Tulan-Zuiva, onde os Maias quichuas iam procurar os seus deuses, porque a mitologia egípcia está directa e fundamentalmente ligada à dos Celtas e dos Maias.

Qualquer mitologia é impenetrável para quem não conheça os princípios directores e os arquétipos de todas as outras mitologias.

O conhecimento é um fenómeno, uma faculdade de síntese, tendo como base a cultura, a experiência, o bom senso, a honestidade, a pesquisa e a inspiração.

No que diz respeito ao Egipto e aos seus mitos maravilhosos, pode conseguir-se essa síntese lendo Marthe de Chambrun Ruspoli e Marcelle Weissen-Szumlanska, iniciada e erudita, e sobretudo Eugéne Beauvois, que, mais e melhor do que qualquer

15 O nome de Osíris seria uma corrupção do nome do deus Asari ou As-ar, que era um deus ariano, um Asa.

16 Lembramos que houve uma lamentável interversão de nomenclatura que falseou a história do Ocidente. Dantes a Ásia era o coração da Europa: a Caucásia, a Transcaucásia, o mar de Azov, Astracã etc. (país que tinha as mais belas mulheres brancas!). Por um destino aberrante, o continente dos Brancos tornou-se o dos Amarelosl (Ler O Livro dos Senhores do Mundo, cap. I, pp. 21-22, ed. Livraria Bertrand, Lisboa.) Ásia deriva do fenício asir, que vem do escandinavo ase: deus.

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outro historiador, soube ressuscitar o nosso passado ocidental em livros que, infelizmente, são hoje quase impossíveis de encontrar 17.

Citamos estes autores porque achamos que só eles souberam encontrar-se no labirinto das mitologias e da história.

OSÍRIS, DEUS RECENTE

Marthe de Chambrun Ruspoli evoca, no entanto, uma mitologia que consideramos tardia. Com efeito o aparecimento de Osíris e de ísis tem só quatro mil anos, o que quer dizer que é uma época em que as verdades primeiras já se perdiam de vista.

Os tempos originais da civilização egípcia remontam, pelo menos, a oito mil anos, e convém, a quem queira desvendar o mistério, varrer ísis e Osíris da memória, tal como o rei Faruk ou o presidente Nasser.

O mito, pelo contrário, é rico de ensinamentos sobre o plano do evemerismo e da transmissão, iniciática ou esotérica, das tradições que constituem a ossatura e a essência da história.

Não há qualquer referência a Osíris e ísis na pré-história egípcia, nem na época dos reis semidivinos, nem na de Menés, nem na antiga Abidos.

«Osíris aparece em Abidos tarde», escreve Jean Yovotte, ((identificado ao deus local Khentamentiou, sob a quinta dinastia, ou seja, cerca de 2300 a. C. A sua popularidade cresce lentamente mas com segurança, tanto que, a partir do segundo milénio, a sua personalidade apaga definitivamente a do seu obscuro antecessor.»

17 Suzanne Weissen Szumlanska esboçou a verdadeira primistória do Egipto (e do Ocidente) era: Les Hommes Rouges (Adyar, 1952); Les Origines de VEgypte, d'après les Temples et les Tombeaux (1925); De VEmpire Toltèque à la Vallèe du NU (1932). Na Bibliothèque National, ler, de Eugène Beauvois, Le Paradis de VAtlantique; VElysée Transatlantique; Les Premiers Chrétiens des lies Nord-Âtlantiques, etc. Ler também: O Livro dos Senhores do Mundo e O Livro do Misterioso Desconhecido, ed. Livraria Bertrand, Lisboa; e Le Livre des Mondes Oubliés, ed. Robert Laffont, Paris. . •

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JESUS ERA UM DEUS EGÍPCIO

UEpervier Divin põe em foco os empréstimos que a Bíblia e os Evangelhos foram buscar a este deus recente; à narrativa do Dilúvio encontrada nos textos das Pirâmides de Saccara (terceira dinastia); ao Jardim de Éden; à Terra Escolhida de Amente; à árvore da vida do rei Pepi (sexta dinastia, 2280 a. C).

O Papyrus de Ani e o Papyrus Hunefer chamam a Osíris «(Senhor de Justiça (Maat), Senhor Santo», falam da serpente humana Satã, dos filhos das trevas, da paixão de Osíris depois de uma ceia no decurso da qual «o rei distribuiu o pão e as carnes consagradas em seu nome, como o Senhor do Alimento Divino.

Este Senhor Santo passou em seguida a sua taça a cada um», («La Trahison», p. 65, segundo o Papyrus de Ani, cap. XVII, e a Pyramide de Teta, p. 214, ed. Maspéro).

«Osíris sabe que chegou a sua hora e que viveu o seu tempo de vida... Osíris tem medo. Osíris tem horror a andar nas trevas... Aqueles que se querem desfazer de mim e fazer-me mal são os filhos das trevas, diz...» (Pyramide d'Unas, linha 419, ed. Maspéro, e Papyrus de Hunefer, cap. XVII).

«Pai de Osíris! Aton nas trevas! Leva Osíris para o teu lado» (Pyramides, pp. 1265-1266, ed. Mercer).

Depois, quando «o inimigo» vem para capturar o Messias egípcio, Osíris diz:

«Eu sou o Vosso Senhor. Vinde e tomai os vossos lugares nas minhas fileiras. Eu sou o filho do Vosso Senhor, e vós perten-ceis-me pelo meu Divino Pai que vos criou... Eu sou o Senhor da Vida» {Papyrus de Nu, cap. XL).

É exactamente o que devia dizer Jesus, filho de Deus Pai, dois mil e trezentos anos mais tarde!

Ao mesmo fundo comum pertence o tema do Bhâgavata Geeta, Evangelho, boa nova anunciada ao mundo há mais de dois mil anos por um deus que se fez homem: Krishna18

((Krishna veio à Terra para apagar os pecados da idade de

" Citado por Ed. Dumeril.

321
Kali (Idade do Ferro), para tomar como fardo os pecados que esmagam a humanidade. A sua.missão cumprida, voltou ao céu, mostrando assim o caminho àqueles que lhe são devotados19.»

A CRUCIFICAÇÃO DE OSÍRIS

A senhora de Ruspoli teve o mérito de ter sabido extrair dos manuscritos e papiros egípcios os traços essenciais que dois mil anos mais tarde deveriam servir de arquétipos para a Operação Jesus20.

Papyrus de Hunefer, cap. LVII: ((Possam a minha carne e os meus membros não ser retalhados por facadas! Que eu possa não ser fustigado!» (Jesus foi fustigado.)

Papyrus de Nu, cap. Lb e XLII: ((Oh, fortificai-me contra os assassinos do meu Divino Pai! Ninguém me arrastará pelos braços! Ninguém me agarrará violentamente as mãos!)) (Jesus implorará a seu Pai e será tratado da mesma maneira.)

Papyrus de Any, pág. 32: «As mãos de Osíris (Ani) são as mãos de Ba-neb-Tatu» (o carneiro, Senhor do Sacrifício: Jesus é o cordeiro pascal).

E tal como Jesus, Osíris é crucificado numa cruz formada por um tronco de sicômoro sobre o qual um madeiro é disposto horizontalmente. A cruz de Osíris chamava-se tat.

Papyrus de Paris, cap. CLXXX: «Oh!, não me amarreis à vossa cruz de morte! Não me arrasteis até ao lugar onde os meus inimigos imolam.»

Papyrus de Kerasher, cap. IV-9: «Possa eu não ter os braços garrotados! Possam as minhas mãos não ser agarradas!»

Man. Pyramide de Pépi II: «Saúdo-te ó Sicômoro, grande cruz, companheiro de deus. O teu peito toca o ombro de Osíris.»

As mãos e os pés de Osíris estão presos à árvore.

" Bhâgavata Purána, 11, XXXI, 5,6, e 10, XXXVIII, 10.

-° A documentação citada em CEpervier Divin pertence às colecções egípcias do Livre des Morts de Hunefer, reinado de Seti I (British Museum); do Papyrus Funeraire de Ani ou Any, 19.» dinastia (British Museum); do Papyrus de Nu (Nu era o oceano cósmico primitivo); dos Papyrus de Paris, de Kerasher, de Amenhotep, etc; das inscrições das Pirâmides de Saccara, que são as mais antigas do Egipto.

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Man. des Pyramides: <(Eu sou aquele que ligou os seus pés, ligou as suas mãos e causou a sua morte.»

Papyrus de Any, cap. CXLVII-3: «Cheguei e tirei aquela coisa ofensiva (a coroa de ureret) que estava sobre Osíris. Coloquei a coroa Atef (coroa do seu Pai?) no lugar da coroa talhada de ureret. Aliviei a dor de Osíris. Sustive o suporte dos seus pés.»

Texte des Pyramides, linha 964, ed. Mercer: «Pépi vem para ti, Osíris!, possa ele limpar a tua cara!» (repetido quatro vezes). E, perto da morte, o deus murmura:

Papyrus de Amenhotep, cap. CXXX: «Meu coração! Minha mãe! Meu coração! Minha mãe!»

É difícil não estabelecer uma aproximação entre a crucificação de Osíris e a de Jesus. É de crer que a primeira fábula tenha servido de modelo à segunda.

OS MITOS E JESUS

Jurgis Baltrusaitis, no seu ensaio sobre a lenda de um mito La Quête d'ísis2i, sublinha que os Celtas e os Egípcios confundiam os mistérios de Osíris e de Jesus.

((Os termos ísis e Jesus foram essencialmente os nomes de uma mesma coisa na origem, e exprimiam, um e outro, os pequenos deuses concebidos na barca, quer dizer, os filhos naturais dos deuses do Egipto.»

E o autor salienta as aproximações fonéticas existentes entre Is-is, Es-es, Esos, Hesus e Jesus.

Assim, em todos os planos, pode estabelecer-se uma filiação evidente entre as diversas mitologias, o que sempre foi sabido pelos Iniciados.

Osíris (Papyrus de Any, pág. 32) era simbolizado pelo carneiro prometido ao sacrifício, como Jesus o era pelo cordeiro!

Osíris não andou sobre as águas, estando morto, navegou somente no seu barco-caixão, mas os cristãos atribuem esse milagre a Jesus, inspirando-se na cosmogonia dos Hindus, na qual

21 Olivier Perrin, editor, Paris.

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Nara, o Espírito divino, foi apelidado Narayana: aquele que se move sobre as águas.

Encontra-se, assim, no mito de Jesus, a trama fundamental das tradições mais antigas, o que nos incita a redizer que nenhum desses mitos pode ser validamente estudado sem um conhecimento profundo de todos.

Visnu, Civa, Zoroastro, Marduc, Viracocha, Quezalcoatl, Jesus, etc, eram deuses para os povos antigos e teria sido inútil — e considerado como sacrilégio — querer, então, negar essa divindade, ou aproximá-la a símbolos ou mitos.

O IMPERADOR JULIANO

Era esta, também, a tese de um grande filósofo desconhecido, que foi o imperador romano entre 361 d. C. e 363: Juliano.

Nunca a história tinha registado a subida ao trono de um soberano tão sábio, tão íntegro e tão humilde.

Educado na religião cristã, foi seduzido pelo culto de Mitra e, «para apagar a feitiçaria do baptismo22, renunciou às absurdas quimeras da Bíblia, o que lhe valeu o cognome de Apóstata'».

Imperador sem medo e sem mácula, levando uma vida de asceta e de sábio, tentou, durante o seu curto reinado, restabelecer um culto pagão baseado na filosofia derivada de Pitágoras e Platão.

O seu deus era o universo, representado por um triplo sol místico.

O primeiro é o princípio, a causa ulterior e preexistente a todas as outras; o segundo, engendrado pelo primeiro, é a razão, o verbo, o mundo inteligente; o terceiro é o sol visível, que partilha a inteligência do segundo e dela recebe as benesses.

«Os Gregos, admito-o», escrevia ele, «inventaram a respeito

22 Oeuvres Completes de VEmpereur Julien, trad. Eugène Talbot, doutor em letras, professor de Retórica no Colégio Rollin, pág. IX, ed. Henri Plon

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dos deuses fábulas incríveis e monstruosas. Diziam que Saturno havia engolido os seus filhos e que depois os vomitara.



Depois, vêm os casamentos incestuosos. Júpiter dormiu com a própria mãe, e dela teve filhos; casou-se com a sua filha e, depois de ter dormido com ela, deu-a a outro... Eis os contos que nos contam os Gregos.

Na doutrina judaica a serpente dialoga com Eval De que língua se teria servido? Da do homem? Em que diferem todas estas fábulas das ficções dos Gregos?

O Senhor dos Hebreus disse: "Construamos uma cidade e uma torre cujo cimo chegará ao céu" (a Torre.de Babel).

Vós quereis acreditar nisso, mas não acreditais em Homero, quando diz que os Aloades, para escalar o céu, queriam pôr três montanhas, uma sobre a outra.

Eu acho esta história tão fabulosa como a outra.» M

Juliano explica então que a mitologia não deve ser tomada em sentido literal.

((Há, no entanto, casos em que a forma alegórica pode ser aceitável, em função de um fim utilitário, a fim de que os homens não tenham necessidade de apelar para uma explicação estranha, mas sim, instruídos pela própria fábula, penetrem o sentido misterioso e desejem, guiados pelos deuses, continuar mais vivamente as suas conquistas.»24

° Juliano, Contra os Cristãos, extractos dos livros II e IV de São Cirilo. 24 Contra o Cínico Heráclio.

CAPÍTULO XX QUANDO OS HOMENS SONHAM COM VÉNUS

ji ^^ CITOLOGIA francesa» é uma impropriedade que não rec-'* I v I tificarrios a f™ de ter mais impacte no espírito do -^- * -^* leitor, mas é incontestável que o nosso ensaio é mais exactamente de mitologia gaulesa ou celta.

Não existem documentos escritos para nos ajudar nesta tarefa, os Celtas não possuíam escrita propriamente dita e os Gauleses só nos deixaram tradições e monumentos enigmáticosi.

De qualquer modo, originadas na sua civilização quase desconhecida, chegaram-nos lendas que é necessário decifrar, levando em conta as deturpações ocasionadas pelos séculos, a natureza dos sonhos e as imagens-desejos que as inspiraram.

REGRESSO A FONTE DE SÉE

O professor André Bourguenec nota que a etimologia da palavra rêve (em português, sonho) é quase ignorada, e fantástica, num certo sentido. No francês antigo, resver designava, não

1 Existe uma escrita gaulesa. Segundo Camile Julian, as Tablettes de exécration de Rom (Deux-Sèvres) seriam redigidas em língua gaulesa. César diz que os Gauleses têm uma escrita.

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um fenómeno filosófico de ideias e imagens, mas um facto físico e material.

Chamava-se resveur de nuit aquele que, vagabundo ou libertino, percorria durante a noite a cidade ou os campos. Daí, pas-sou-se figurativamente ao espiritual, no sentido de alienação mental que encontramos hoje ainda, embora menos forte, na expressão: «Você está a sonhar» (você está a divagar!).

Etimologias possíveis: do antigo termo desver (do latim deviare): sair do caminho; ou do latim repuerare: tornar-se criança; ou do grego rembein: virar, errar, partir à aventura; ou do gálico rabhde: disparatar.

A. Bourguenec propõe uma explicação, válida somente para a língua francesa, mas que se integra curiosamente no mistério desconhecido do fenómeno.

«.Rever é um palindroma — pode ser lido da esquerda como da direita —, implicando que se os sonhos não têm sentido é porque eles conjugam os tempos passado, presente e futuro.

A palavra comporta um centro eve: R-EVE-R, simbolizando o regresso à Eva original, à fonte, à fonte de sée (do saber).

Fazer sonhar, a palavra somme, sugere-nos menos a memória, a relembrança.

Os sonhadores, os poetas, os investigadores de ideias, seriam então as sumidades (em francês sommités) do conhecimento, fazedores de sommes em todos os planos, visto que relembrar ou memorar significa: depor os membros, reconstituir.

É, de resto, o sentido que os primitivos da Austrália* dão ao sonho: a faculdade de reconstituir, de encontrar a verdade antiga.»

«A grande força dos Celtas», escreve Jean Markale2, ((foi e continua a ser o mito, que não é obrigatoriamente falso ou verdadeiro, real ou irreal. Mas quando existe o mito, existe forçosamente uma realidade cultural complexa.»

«As mitologias são a expressão tardia das visões do mundo que os primeiros homens contemplaram», dizia Rudolf Stei-

2 Markale, Os Celtas, ed. Payot, Paris.

Na pág. 426 do seu livro, Markale escreveu que «o sonho é mais real que a vida».

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ner. As lendas de França, sem pretenderem ressuscitar a Génese, trazem umas luzes precisas sobre os processos mentais dos nossos avós, que ccsonhavam» ao mesmo tempo o seu passado prestigioso e as suas imagens-desejos.

Elas vão buscar a um cenário grandioso, aos feitos de personagens fabulosas, as grandes acções, onde o sonho, a magia, o impossível, a viagem no tempo e no Além, interpenetram a realidade, com a preocupação subjacente de exprimir o que é o fundo da alma céltica, a abnegação, o sentido do gratuito e do cavalheiresco.

E aí se grava, quase sempre em trama de fundo, a nostalgia de um país maravilhoso, estrangeiro ao nosso mundo, onde todos os milagres são realizáveis.3

Sob este ângulo, se os nossos antepassados franceses ((sonharam» a lenda de Melusina, é porque estava inscrita nos seus cro-mossomas-memórias e marcada pelo selo de urria realidade fantástica.

UMA HISTÓRIA DE EXTRATERRESTRES

A velha lenda do Poitou mergulha as suas raízes no tempo dos Celtas e dos nossos deuses nacionais.

3 Temos frequentemente estudado esse Além dos Celtas, principalmente em Le Livre des Secrets Trahis, ed. R. Laffont, 1965, cap. XIII: «Le Autre-Monde du Graal», e no Livro do Misterioso Desconhecido, ed. Livraria Bertrand, cap. VI: «A Civilização dos Celtas». Trata-se do país do Tertres ou dos Tumultus, situado na América (E. U. A. e México), donde vieram os Thuatha Danann.

Este Eliseu americano, onde se podia ir atravessando os nevoeiros espessos que cercavam as Ilhas Afortunadas, era o Amenti dos Egípcios, a Tir nan Og (terra da juventude) dos Irlandeses, o Sukhâvati ou paraíso de Amitâbha dos Hindus, o paraíso de Outanapishtim procurado pelo assírio-babilónic© Gilga-mesh, o paraíso ocidental do Amourrou dos Fenícios, o país dos Bem-Aventu-rados, enfim!

A cidade de Ys, imersa na baía de Douarnenez, e a ilha de Avalon, assoreada no Somerset inglês, são talvez ressurgências do Além dos Celtas, que, da nossa parte, identificamos formalmente com a antiga Atlântida, ou país dos grandes Antepassados Superiores, mortos no Dilúvio universal.

É do Dilúvio atlante que deriva o mito das cidades e continentes submersos.

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Lug, «a criança prodigiosa», herói dos Tuatha Danann4, presidiu ao nascimento de diversas cidades francesas e europeias, que usam o seu nome: Lugsignem (Lusignan), Loudun, Lyon, Lugano, Lund, etc.



Era filho da Deusa-Mãe dos Celtas: Danu, Donu ou Dôn (que deu o nome aos rios Don e Danúbio), e deve sem dúvida ser identificado com os deuses civilizadores Gwydion, Ogmios e Odin, cuja origem misteriosa deixa supor que teriam vindo de um país estranho ao planeta Terra.

Embora não fossem os deuses da criação, comportaram-se como biologistas que teriam brincado a criar seres humanos a partir dos vegetais. De qualquer maneira, uma experiência científica!

Lug, o Apolo dos Gauleses e dos Irlandeses, é filho de Arian-rod, a única filha da Deusa-Mãe, e é curioso notar que Arianrod significa roda de prata, ou, segundo outros, roda ariana.

Uma roda que evoca a de Ezequiel e os engenhos voadores em forma de disco ou de roda que, na mitologia hindu, transportaram os nossos primeiros antepassados do Céu para a Terra pelo ((caminho de Aryaman».

Sem acreditar no mito actual dos discos voadores, deve no entanto reconhecer-se que engenhos voadores, da mesma forma e aparência, tiveram na Antiguidade, em todos os povos, um papel eminente, podemos mesmo dizer, primordial, dado que estes engenhos estranhos estiveram sempre ligados a uma vinda de Iniciadores e à eclosão de uma civilização muito mais avançada.

4 Tuatha Danann: tribo celta que, vinda do «pais dos Tertres, situado para além das brumas e do grande rio oceano», se fixou na Irlanda há cerca de 5000 anos. Lug, etimologicamente, poderia significar luz (lux) ou derivar do grego logos: palavra, discurso.

Era o Iniciador, que trouxe a luz através da sua palavra, o alquimista que operava a verdadeira transmutação, a dos elementos bárbaros em conhecimento doirado, pela magia da sua palavra.

A palavra do Iniciado é de oiro.

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A NUVEM DO SENHOR VOADOR



O «Senhor», que recebeu Moisés no monte Sinai para decretar que os Hebreus seriam o primeiro povo do mundo, disse-lhe (Êxodo, XIX-9): «Eu virei até vós numa nuvem sombria e escura.»

Começaram a ouvir-se trovões e a ver brilhar raios, uma nuvem muito espessa cobriu a montanha, a trombeta soou com grande ruído e o povo, que estava no acampamento, foi tomado de grande terror.

Êxodo, XXXIII-11: «Ora, o Senhor falava a Moisés face a face, como um homem acostumado a falar com o seu amigo.»

Quando Moisés desceu do Sinai (Êxodo, XXXIV-29) «fica-ram-lhe na cara raios de luz», de tal forma que, vendo este ser irradiante, os Hebreus tiveram medo de se aproximar dele.

Então Moisés pôs um véu sobre a cara, quer para se proteger, quer para proteger aqueles que se aproximavam dele.

Na opinião dos exegetas do nosso tempo, este relato, pouco claro por enquanto, cheira, senão a enxofre, pelo menos a irradiação, e a nuvem do senhor parece assobiar como um motor a reacção!

Porque no século xx não se crê num Deus vindo do Céu para a Terra envolto numa grande nuvem espessa e conversando cara a cara com um humano.

Os nossos espíritos evoluídos reagem a esta imagem de Epinal, quer negando a autenticidade do fenómeno, quer substituindo Deus-Pai por um cosmonauta e a nuvem tonitruante por um foguetão espacial.

Ora, as mitologias, gaulesas e irlandesas, afirmam: «O que sabemos de Lug é que a irradiação da sua cara é tal que nenhum mortal pode suportar olhar para ela.»5

Esta coincidência entre o Senhor Iawhé-Jeová, iniciador dos Hebreus, e Lug, iniciador dos Celtas, é acentuada pelo facto de um trazer uma lei gravada em tábuas de pedra, e o outro o conhecimento da escrita ogham.

5 Roth e F. Guiraud, Mythologie Céltique, ed. Larousse, Paris.

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Um e outro têm a sua aventura misteriosa ligada a um fenómeno celeste, seja que a sua origem haja sido extraterrestre, seja que tenham recebido instruções de uma missão de mestres estrangeiros ao nosso planeta.

A VERDADE COM CHEIRO A ENXOFRE

A história oficial nunca ousou abordar o problema, nunca explicou o porquê de os Incas, Mexicanos, Fenícios e Assírio--Babilónios terem deuses que representavam o planeta Vénus ou que eram venusianos6.

Incontestavelmente, o problema ultrapassa os historiadores ou assusta-os, pois arriscar-se-ia a esclarecer o passado com uma luz sulfurosa de mais para o seu gosto de bem-pensantes.

Posto claramente, a história oficial é sempre alterada a favor das religiões, porque importa antes de tudo deixar ignorar que os verdadeiros deuses, os verdadeiros Iniciadores, eram, não um certo Iawhé, um Moisés, um Jesus, mas uns homens superiores, em relação aos quais temos boas razões para crer que vieram de outro planeta.

E esse planeta, Vénus, é particularmente detestado pelos Hebreus e pelos cristãos.

É proibido falar em Deus... sobretudo se se tratar do verdadeiro!

AS MUITO BRILHANTES E VÉNUS

Erros flagrantes têm falsificado a história das civilizações, e condicionados, obnubilados, fascinados pela mentira, os historiadores, às vezes de boa fé, embarcaram em barcos perdidos.

Tais foram para muitos a miragem do El Dorado e a crença em Júpiter, Osíris ou Jesus, deuses verdadeiros, todo-poderosos, criadores do Céu e da Terra.

* Os historiadores, além disso, não dão qualquer explicação do uraeus e do falcão divino dos Egípcios.

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A data do calendário, o mito dos símbolos republicanos: liberdade, igualdade, fraternidade (!), da ressurreição dos corpos, da Caixa Nacional da Poupança, etc, pertencem ao mesmo fenómeno de aberração colectiva7.

Um dos mais magistrais — se assim se pode dizer!—foi chamar Ásia a um continente que não tinha nada de asiático e dar o nome de Europa a um continente que era a Ásial

Mas depois do vinho tirado, há que bebê-lo!

Do mesmo modo, quiseram fazer de Apolo o deus do Sol, apesar de ele representar a estrela brilhante: Vénus. Não se conhece a etimologia de Apolo e os «historiadores» perdem-se em conjecturas sobre a sua origem, mas a sua figuração solar é tardia e sem base válida.

Na tradição grega — a mais rica, a mais embrulhada, a mais falsa—o herói-deus seria filho de Latona, deusa da noite, do céu nocturno, e, portanto, representa uma ideia de claridade. Não o Sol, como se pretende, mas qualquer coisa de brilhante.

A tradição diz que Apolo, ((todos os anos, no fim do Outono, ia para lá dos montes Rifeus, onde reina o impetuoso Bóreas, para o país misterioso dos Hiperbóreos. Aí, sob um céu perpetuamente luminoso, vivia em felicidade contínua um povo de homens virtuosos, dedicados ao culto de Apolo •.

A sua mãe, Latona ou Leto, era também originária do vale de Tempe, na Hiperbórea.

Estas tradições não representam uma versão mais ou menos acreditada, mas a própria expressão de todos os povos do mundo conhecido, que habitualmente chamavam a Apolo o Hiperbárico, quer dizer o Nórdico.

Então por que aberração se pode identificar este deus ao

7 É bem evidente que a Caixa da Poupança é uma instituição escandalosa, imoral. Por um lado tende a congelar os fundos que, circulando, fariam a riqueza de todos e, sobretudo, prova a incapacidade dos governantes de assegurar a segurança social e a reforma dos velhos cidadãos. Traduzindo: o Governo mandar-vos-á à guerra, obrigar-vos-á a pagar impostos, usará todas as vossas forças vitais, far-vos-á trabalhar em beneficio dos ricos, mas em troca não assegurará a tranquilidade dos vossos dias de velhice. Há, pois, que fazer economias!

* F. Giraud, Mythologie Grecque, ed. Larousse, Paris.

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Sol (Helios), quando seria mais o símbolo oposto, retirando-se na estação fria, não para o sul, mas para o norte, onde não brilha no Inverno9}

Além disso, «Sol Hiperbórico» não abunda de bom senso, há que reconhecer!

Então, quem é Apolo?

O seu nome, já o dissemos, evoca uma ideia de claridade «daí os seus sobrenomes de Phoibos, o Brilhante; de Xanthos, o Loiro; de Chrysocomès, com cabeleira de oiro.

Em resumo, parece-se bastante, para não dizer de todo, com Belisama (igual à chama) e com Vénus «com crina de fogo»!

Não seria ele a Estrela, tão detestada pelos Hebreus?

No Danúbio, chamavam-lhe Belenus, o Esplêndido, e na Grã-Bretanha, Balan, Balin, Belinus. Era também o Belin dos Gauleses, o Granus, muito provavelmente, e também o Bala (Bala-Rama) dos Hindus, e o Osíris dos Egípcios.

Henri Dontenville anota10: «A identidade de Apolo é estabelecida em Aquileia, na Venécia, onde cinco vezes, segundo o Corpus de Mommsen, inscrições lhe chamam Apolino Beleno...»

Devemos considerar este ponto como assente: Apolo era Belenos, o esposo, irmão ou companheiro de Belisama, a Iniciadora venusiana «semelhante à chama».

E esse brilhante, esse cabelo doirado, é o Baal dos Fenícios, o Bêl dos Assírio-Babilónios e a «Grande Estrela» ou «Estrela Brilhante» dos povos americanos.

Resumindo e para concretizar o nosso pensamento, Apolo era a representação do planeta Vénus, o que se enquadra perfeitamente com o tema das outras mitologias.

Com Apolo-Sol, a mitologia ocidental não é senão erros e contra-sensos. Com Apolo-Vénus, tudo se esclarece, se enquadra, se torna lógico e luminoso.

' Trata-se dos movimentos aparentes ào Sol, que, na realidade, está mais ou menos no centro do nosso sistema. Em consequência da obliquidade da Terra, o Pólo Norte mergulha durante o Inverno numa escuridão que dura seis meses. Ao inverso, durante esse período, o Pólo Sul beneficia de seis meses de dia (o sol da meia-noite).

10 A referência é Corpus inscriptionum latinarum, tomo V, 732 a 755.

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BELO COMO UM DEUS



Através de um estudo profundo, percebe-se que embora os deuses pareçam tão numerosos como as estrelas no céu, na realidade uma multidão de nomes esconde muitas vezes a identidade de um só.

«Tratando em 1868 de Gargântua», escreve Henri Don-tenville, «Gaidoz tinha o mérito de tirar das crónicas gaulesas uma informação essencial: o Gurgunt da barba assustadora de Geoffroi de Monmouth é filho de Belen, Belinas, quer dizer, o mesmo nome dos Belenos dos Celtas, equivalente ao Apolo dos Gregos.

Depois disto, sucedeu a Belinus, Gurgian (Gigante) seu filho», escrevem Geoffroy e Giraud de Barry, «aliás o Câmbrio ou o Gaulês: Gurguntius, filius nobilis illius Beleni.»

O mesmo autor acrescenta que Belisama — aquela que é parecida com Belen — «é adorada sem equívoco (como padroeira), por um lado, em Saint-Lizier (Ariège), onde é assimilada a Minerva, por outro, na terra dos antigos Voconces, em Vaisons, e por Plotomeu, a propósito da Grã-Bretanha».

Arbois de Jubainville também interpretava Belen, Belinus, como brilhante, resplendoroso, e sobre este assunto notámos que Belen e Belin significam em velho francês e na linguagem familiar ((pequeno belo, gentilmente belo ou bela», como bellote bellote querem dizer: belo, mignon.

Não se conhece a etimologia de «belo», que os Ingleses nos tomaram de empréstimo, usando beau, beauteous, beautiful, beauty, etc. u, mas pode pensar-se que, por associação de ideias, como se diz de uma pessoa gentil: é chou (em português, couve), é um «coração», esta palavra devia representar um ser, uma coisa, ou um deus cuja contemplação fosse particularmente agradável. E pensamos no belo Apolo, em Bel, em Belin.

A conjectura é tanto mais aceitável quanto em francês antigo

" Sugerem-se etimologias incertas para belo: do latim bellus (mesmo sen. tido) ou do sânscrito bhãshkara (brilhante).

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a primeira forma de beau era bel masculino: bel sire reis (belo sire rei); beis fut li vespres (que bela tarde).



Encontramos outro apoio para a nossa hipótese na fúria que tiveram Hebreus e cristãos em desacreditar a ((Estrela» (Vénus) e os seus representantes, de face radiosa: Bel, Baal, Belus até ao pseudodemónio Belaam, «que segredava às mulheres desejos desonestos», que elas escutavam de bom grado porque Belaam era irresistivelmente belo.

Os Venusianos, na tradição, têm sempre o privilégio da beleza e não é por acaso que Vénus é o arquétipo nesse género.

Lúcifer, encarnação da estrela do pastor, tinha também essa beleza super-humana, e os pastores romanos, na data ritual de Maio, homenageavam-no nas Palilias chamando-lhe Pales ou Bal.

Permitimo-nos, por isso, retomar a afirmação de H. Donten-ville, continuando-a no senso estético: «Os deuses foram sempre representados maiores e mais bonitos do que os homens.»

E ousamos acrescentar: porque eram venusianos ou representavam o planeta Vénus.

Dentro desta óptica, Gargântua, filho de Belen, era um belo e bom gigante de ascendência divina e venusiana, cujo túmulo, no monte Tombe, chamava ainda numerosos peregrinos no tempo de Carlos Magno12.

FADAS DA AGUA E SERPENTES

Belisama, Astart, Astarte, Ishtar eram deusas que representavam o planeta Vénus, sempre com uma extensão de ideia para a água, a chuva, a gruta onde nascia uma fonte. Melusina, parceira de Lug, fada de beleza sobre-humana, sempre associada também aos mitos da água, da gruta, da juventude eterna, é incon-

12 A terminação tua da palavra Gargan faz pensar nesses misteriosos Iniciadores que chegaram à Irlanda em 1 de Maio e que se chamavam Tuatha Danann. Gargan, herói céltico, seria um Tuatha? Nessa hipótese deveria ser Garganthua.

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testavelmente parente próxima de Vénus, deusa da beleza, nascida da espuma do mar.

A fada MorganaI3, a muito brilhante, gostava de deambular pelas ribeiras e rios, a bordo de um esquife puxado por animais marinhos; a sua casa era um palácio no fundo das águas, pois era também ondina.

D'Arbois de jubanville dizia-a «nascida do mar»; ela atraía os pescadores bretões à sua gruta imersa.

((A fada Morgana do estreito de Messina», escreve H. Don-tenville, ((dá, no meio do Verão, imagens invertidas de objectos invisíveis; é, decerto, marinha, e exerce o seu prestígio um pouco antes do nascer do Sol.

Ou seja, quando brilha ainda a última estrela do céu nocturno: Vénus Lúcifer.

O mesmo autor conta, conforme Leo Desaine, uma lenda onde se encontram ao mesmo tempo os mitos de Melusina, da água e de Vénus.

Um senhor tinha trazido de um país longínquo uma criatura de uma beleza maravilhosa, com quem casou.

Todos a louvam pela sua bela cara, pela sua figura flexível, as suas boas maneiras, a sua elegância, mas achavam estranho, de qualquer maneira, que ela usasse sempre um vestido comprido, de elevado preço, mas que não deixava ver as pernas e os pés.

Como o Remondin do romance de Melusina, o seu marido havia feito uma jura solene, a de nunca tentar ver os seus pés, e, como com Remondin, a curiosidade um dia venceu.

O senhor espalhou à volta da cama uma camada de cinzas, esperando assim obter uma pegada que lhe pudesse dar uma indicação.

A sua bela esposa despiu-se e, somente com uma longa camisa de noite, dirigiu-se para a cama.

De repente deu um grande grito de dor e desespero, porque tinha pisado um carvão ainda ardente e havia-se queimado cruelmente.

13 O senhor de La Villemarqué dá esta etimologia para Morgana: do baixo bretão mor: fortíssimo; e de gan em vez de can: brilhante. Sugere-se também o árabe margian: coral, sempre com a ideia subjacente de água.

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Fugiu de imediato, tomando o aspecto de uma fada e lançando uma maldição, e o seu marido descobriu o desenho muito nítido, marcado na cinza, de uma pata de ganso.

Depois disso, o castelo mergulhou nas águas e transfor-mou-se num grande pântano.

A lenda de Melusina baseia-se talvez neste conto, mas mais ainda na existência das bibliotecas de Mehun-sur-Yevres e do Louvre.

Em Gervais de Tilbury, lê-se esta história: ((Nas margens do Are, acima de Aix-en-Provence, o cavaleiro de Rousset encontrou por aventura, numa tarde, uma fada, que consentiu em tor-nar-se sua mulher, e desde então a sua prosperidade não cessou de crescer.

Mas um dia, contrariando os seus compromissos, olhou a sua dama no banho: tinha cauda de serpente.

Ela deixou para sempre esse homem desleal, e a sua prosperidade começou desde esse momento a declinar.»14

Estas Morganas, estas fadas, estas ondinas, estas víboras, estas serpentes, têm denominadores comuns; a beleza, a gruta, e uma deformação física relacionada com a água: a pata de ganso ou a cauda de serpente.

Segundo autores antigos, Elinas, o pai de Melusina, teria tido o nome de Belinas, quer dizer: Belin, o Venusiano.

Voltamos sempre aos Iniciadores vindos do planeta Vénus, a taras físicas que presumimos derivar de ensaios infelizes de hibridação entre casais de raças diferentes, e também a mistérios que parecem ter correspondência com os de Elêusis, cujo nome actual de Levsina não deixa de lembrar Melusina. E estes mistérios, não estamos longe de crer, poderiam bem cobrir um segredo que transpira por todos os poros das tradições, das lendas e dos escritos sagrados: a origem extraterrestre da nossa civilização.

14 Henri Dontenville, La Mythologie Française, ed. Payot, Paris.

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O MITO DA SERPENTE VOADORA



Convém, na lenda de Melusina, discriminar as relações incríveis daquelas que o não são.

Quando se examinam analiticamente, parece sobressair que o herói, Remondin, só participa eventualmente nos acontecimentos e que podia ser substituído por Percifal, Rolando ou Huon de Bordéus.

A história, assim despojada, pode então ser resumida do seguinte modo: uma mulher de beleza excepcional espera uma aventura ao pé de uma fonte, em plena noite, num bosque do Poitou.

Esta heroína tem um segredo, misturado com uma história de água, de tesouros e de uma gruta.

Engendrará filhos monstruosos, e desaparecerá um dia sob a forma de uma serpente alada.

Eis o essencial, e tudo é possível, excepto o fim: vemos mal como uma mulher bonita, por muitos encantos que tenha, se pode transformar em serpente que voai

Também não acreditamos nas outras serpentes voadoras que pululam nas mitologias: Quetzalcoatl, o deus-serpente emplumado dos Maias, Mertséger, deusa e serpente-abutre dos Egípcios, a barca, dita solar, de Carnac, cujo casco é uma serpente e que voa de um horizonte ao outro, o uraeus sagrado inscrito nos frontões dos templos, representado por duas serpentes aladas, Mardu-que, dragão voador com cabeça de serpente, dos Assírio-Babilónios, a serpente com hélice dos Fenícios, descrita por Sanchonia-thon, as Najas, serpentes fabulosas da mitologia da índia, e as inumeráveis víboras, sereias e dragões voadores que ensombram a maior parte das mitologias15.

Essas serpentes representam sempre o engenho aéreo que

15 As víboras, as sereias, os dragões voadores estão geralmente ligados a uma ideia de água: fontes, rios ou pântanos. Os dragões, desde os tempos mais antigos, evocavam as inundações, os afogamentos, e tinham o seu antro nos pântanos ou na foz das ribeiras.

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serviu de veículo aos Iniciadores para virem do Céu para a Terra, e que se identificam geralmente com o próprio iniciador.

O mesmo se pode dizer dos «anjos» alados da Bíblia.

Somos tentados a acreditar que a serpente voadora do Lusig-nan pertence também a essa raça extraterrestre que, num passado longínquo, teria vindo para nos hibridar e nos prodigalizar um ensino.

Se adoptarmos esta tese, então Melusina toma uma outra dimensão, e todos os mistérios que a envolvem ficam instantaneamente esclarecidos.

Que fazia ela perto da fonte de Coulombiers, onde Remon-din a viu pela primeira vez? Dado que a água vai ter um papel vital no seu segredo, como o tem em todas as deusas-serpentes16, pensamos logicamente que Melusina estava dentro de água, ou pelo menos com os pés dentro desse elemento, que podia bem ser um elixir indispensável para manter, mesmo depois de ter tido oito filhos, a eterna beleza que era seu privilégio.

No mesmo sentido, a fonte de Sée deitava uma água de juventude, e era aí que Melusina recarregava o seu potencial vital, como Orejona no lago Titicaca, como todas as sereias fascinadamente belas, no mar.

E estas hipóteses onde a fada-serpente é uma Iniciadora vinda de outro planeta17 integram-se notavelmente no ciclo das mitologias já afirmadas.

Neste conceito a aventura Lug-Melusina situar-se-ia há cinco mil anos, quando floresciam, simultaneamente, as civilizações assírio-babilónica, fenícia, inca e maia, sob o signo das serpentes, dos carneiros ou dos toiros alados e do planeta Vénus.

" O mito da mulher transformada em serpente, ou vice-versa, pertence a todos os povos. No folclore dos Marind-Anim da Nova Guiné o herói Teimbre casou com uma serpente que se transforma numa bela rapariga. Entre os papuas da ilha Kiwai, uma rapariga-serpente, que vivia na água, casou-se com um pescador, que teve de guardar segredo sobre essa união extraordinária. O casal teve filhos «puramente humanos». Entre os narizes-pintados dos E. U. A. encon-tram-se frequentemente lendas de raparigas que se transformam em serpentes. Ler Levy-Bruhl, La Mythologie Primitive, Liv. Félix Alcan, Paris.

17 Como nas outras mitologias, esse planeta seria Vénus, cuja natureza é talvez oceânica, e cuja chegada ao nosso sistema solar provocou chuvas e inundações (o dilúvio de Decalião), segundo testemunho de diferentes povos.

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Não asseguramos que a iniciação dos povos da Terra foi feita por viajantes extraterrestres, mas tudo se passou como se tivesse sido assim.



Nos nossos tempos, em que Americanos e Russos desembarcaram na Lua e se lançam ao assalto de Marte e de Vénus, tal eventualidade não pode estar ausente de um estudo lógico e racional.

A MITOLOGIA CÉLTICO-GAULESA

Lug, o mais popular dos deuses celtas, entrelaça estranhamente as letras do seu nome com as de Lusignan (Lusignem) e de Melusina, a heroína de Jehan d'Arras.

Seria insensato expor uma lenda centrada em Melusina esquecendo o parentesco entre Lug e Lusignan.

Em 1387 era difícil estabelecer esta ligação, dado que Jehan d'Arras, originário do Norte da França — cujo génio não pode ser posto em causa—, não podia assimilar a seiva das nossas tradições do Poitou e fazer sobressair um feixe de coincidências, que só um historiador pode perceber.

Quando o Lug ibérico morreu, a sua mãe adoptiva Tailtiu construiu-lhe, diz-se, um túmulo soberbo e instituiu em sua honra as festas chamadas Lugnusades, que eram celebradas no mês de Agosto.

Lusignan, por uma curiosa coincidência (mais uma!), conservou esta tradição com as suas feiras do 1.° de Agosto, onde se vão contratar os criados e outro pessoal doméstico.

((Ora», escreve Mareei Moreau, ((as Lugnusades, antigamente consagradas a Lug e a sua mãe Tailtiu, símbolo da Terra--Mãe, evocam a serpente sagrada ligada ao culto da virgo pari-turae, a serpente com cabeça de carneiro, sinónimo de iniciação.»

Melusina, quer seja mãe da luz, quer serpente traçando ondas concêntricas na superfície da água18 da fonte de Sée, ou

" As ondas concêntricas, ou melhor, a serpente que nada produzindo ondas circulares, é, no ensino drufdico, o símbolo da primeira vibração do universo em expansão.

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serpente guardiã do tesoiro, é o próprio arquétipo da iniciação no seu nível mais alto: a cosmogénese.



Dentro desta tese, que defendemos com toda a nossa fé, encontramos, enfim, a grande mitologia francesa que faltava à história geral dos Celtas, porque tinha sido abafada, desfigurada e cristianizada.

Junto de Orejona19, de Quetzalcoatl, de Astarte, de Ishtar, etc, Melusina, a muito bela, «licorne maravilhoso» de Remondin, é bem a Iniciadora vinda de outro planeta (Vénus) e identifica-se com ele.

Esta identificação não chocará nenhum historiador familiarizado com as mitologias.

Desde o século xvm que inovadores, pioneiros da autêntica história da humanidade, aqueles a quem chamavam irrisoria-mente os «celtomaníacos», tinham tentado esclarecer os seus contemporâneos sobre a provável existência de uma mitologia nacional que, até então, se confundia com a dos Irlandeses e dos Gauleses.

Rendemos homenagem a esses precursores: Paul Pezron, Simon Pelloutier, Jean-Baptiste Bullet, Caradeuc de la Chalo-tais, Court de Gébelin, La Tour d'Auvergne e Le Brigant, aos quais devem juntar-se, no nosso tempo, Michel Honnorat, autor da La Tour de Babel et la Langue Primitive de la Terre, e, sobretudo, Dontenville, presidente fundador da Sociedade de

" Orejona: a Eva dos povos do altiplano peruano, mãe dos homens. Segundo as tradições andinas e o padre Blas Varela, no alvor da humanidade, numa astronave brilhante como o oiro» veio pousar perto da ilha do Sol, no lago Titicaca (Bolívia-Peru). Dessa astronave desceu uma mulher muito bela, mas que tinha o crânio em forma de pão de açúcar, os pés e as mãos com quatro dedos espalmados, e orelhas muito grandes, como têm os deuses asiáticos. Daí o seu nome: Orejona (as orelhas grandes). Vinha do planeta Vénus e engendrou os primeiros homens, tendo como pai um tapir. Um dia Orejona partiu na sua astronave, e nunca mais ninguém a voltou a ver.

Quetzalcoatl: deus iniciador dos antigos mexicanos, identificado ao planeta Vénus.

Astarte: deusa fenícia, antiga Afrodite, nascida da espuma do mar. Representava o planeta Vénus.

Ishtar: deusa assírio-babilónica, representava o planeta Vénus.

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Mitologia Francesa, do qual é indispensável ler La Mythologie Française, Dits et Récits (ed. Payot) e Trance Mythologique (ed. Tchou)M.

LUSIGNAN, CAPITAL DA CÉLTICA

Com esta chave prodigiosa, a relação de Jehan d'Arras toma uma dimensão inesperada sob o signo da lógica, e é nesse estado de espírito que nós a estudámos, reproduzida e prolongada com uma documentação e as variantes locais que o autor, no século xiv, não podia nem coligir nem analisar.

A lenda de Melusina torna-se então a base primistórica21 da civilização francesa, ou melhor, ocidental e céltica, e um mito paralelo aos da América e do Próximo Oriente.

É de notar que esta base essencial soube fixar-se num lugar próximo de Poitiers, onde, há milénios, se estabeleceu a mais antiga tribo de celtas migratórios, ou Pictos.

Relembramos as coincidências que nos levaram a inscrever a lenda no ciclo da nossa mitologia nacional:

Lusignan, cidade de Lug; o Poitou, domínio dos mais antigos celtas ocidentais; Lug, iniciador de face radiosa, descendente

20 Paul Pezron, religioso da Ordem de Citaux (1639-1706), Antiquité de la Nation et de la Langue des Celtes (1703); Simon Pelloutier (1694-1757), His-toire Celtes, reimpressa sob o nome de Histoire des Celtes et particulièrement des Gaulois et des Germains, depuis les Temps Fabuleux jusqu'à à la Prise de Rome par les Gaulois (Paris, 1771, 2 vols.); Jean-Baptiste Bullet (1699-1775); Louis René de Caradeuc de la Chalotais (1701-1784), Essai d'Education National; Court de Gébelin (1728-1784), Le Monde Primitif Analysé et Compare avec le Monde Moderne (1784). Histoire Naturelle de la Parole; Théophile Maio Corret de la Tour d'Auvergne (1743-1800), o maior herói da nossa história, nascido em Carhaix, autor de numerosos livros sobre o celtismo; Jacques Le Brigant (1720--1804), La Langue Primitive Conservée.

21 Primistória: neologismo com o significado de Pré-História, baseada em teses diferentes das dos pré-historiadores ditos clássicos. Na Primistória o homem não descende do macaco, só habitou cavernas por acidente e teve Antepassados Superiores. In Robert Charroux, Le Livre des Secrets Trahis e Le Livre des Mondes Oubliès, ed. Robert Laffont, Paris, e O Livro do Misterioso Desconhecido e O Livro dos Senhores do Mundo, ed. Livraria Bertrand, Lisboa.

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de uma misteriosa tribo originária do País dos Tertres, confundido na tradição do Graal com o Pais do Outro Mundo; Melu-sina, a muito bela, parecida com as venusianas Orejona, Astarte e Ishtar, serpente alada como os Iniciadores voadores do Próximo Oriente, do Egipto, do Peru e do México, sabendo tudo de todas as ciências e escolhendo para aparecer a fonte de Sée (do Saber).

Como os «anjos» bíblicos, como Orejona, Melusina move-se pela via aérea e tenta na Terra um ensaio de procriação desastroso. Enfim, a sua aventura está directamente ligada àqueles arquétipos universais que são a fonte, a gruta, a serpente e o tesouro.

É impossível que um historiador não repare, um dia, como todos estes dados se interligam ao ponto de sugerirem uma história prodigiosa, fantástica e infinitamente provável.

Uma Academia Celto-Gaulesa está em formação.

Fins: pesquisa da identidade gaulesa, dar uma mitologia à França, procurar os vestígios do nosso património nacional, estabelecer o seu inventário, ressuscitar a essência e o espírito galo--francês.

Para mais informações, escrever a M. Philippe Vidal, 13, Rua Fernet, 94700, Mainsons-Alfort.

Procuram-se correspondentes em todos os departamentos, nos países de língua francesa, e também nos países célticos: Inglaterra, Irlanda, Espanha, Portugal, Itália, etc.

MELUSINA


CAPÍTULO XXI MELUSINA, A SERPENTE ALADA

Segundo o manuscrito de Jehan d'Arras, que se encontra na biblioteca do Arsenal, com algumas variantes dos manuscritos da Biblioteca Nacional e das traduções ou interpretações de Louis Stouff, André Lebey, Jean Marrhand e Louis Maneix.

Também segundo as tradições conservadas em Poitou, Lusignan e Poitiers, Civray e Charroux modificam o fim da história tal como Jehan d'Arras a tinha contado «neste pobre tratado, segundo as crónicas recolhidas junto do duque de Berry, conde de Poitou e de Auver-gne, senhor da Marche, e do conde de Salbery, em Inglaterra, e segundo vários livros que foram encontrados».'

1 Jehan d'Arras teria consultado o tema desta história em Le Mélusine ou Livre des Lusignan, que estava na biblioteca da Tour Maubergeon em Poitiers. Tem por precursores: Gervais de Tilbury (1153-1221) e Jean Bersuire (1285--1362).

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PRELIMINAR



Afim de dissipar qualquer mal-entendido, insistimos em declarar que o nosso ensaio de reconstituição de uma mitologia francesa, a partir de lenda de Melusina, repousa principalmente num estudo lógico dos factos, das situações e das suas relações com as tradições idênticas que constituem o fundo das mitologias do Peru, do México e do Próximo Oriente.

Pensámos, de resto, que o romance de Jehan d'Arras, elaborado a partir de notas recolhidas na corte do duque de Berry ou inspiradas em manuscritos hoje desaparecidos, deveria ser completado por tradições locais inéditas e pelos prolongamentos sugeridos pelo conhecimento do esoterismo e das crenças do nosso tempo.

Este romance terá sido completamente inventado, ou repousará numa base histórica digna de fé?

É certo que muitas lendas são meras invenções de poetas, moralistas ou simplesmente de narradores imaginativos, mas a de Melusina aparenta um tal fundo de história, de esoterismo, de biologia e de fantástico, comporta uma tão espantosa interferência com as mitologias estrangeiras, que é difícil pensar que essa essência erudita e que essas afinidades exageradas (no sentido de serem muitas) são fruto de um "feliz acaso.

A interpretação que damos, respeitando o mais possível, por motivos de necessidade de clareza, o estilo, a forma e os termos arcaicos, as repetições de palavras (maravilhoso, falso, alto, grande, senhor, etc.) e mesmo as diferentes ortografias para o mesmo nome (Melusina, Melusigna), afasta-se muitas vezes do tema de Jehan d'Arras, mas, pelo contrário, aproxima-se da trama original, ignorada pelos autores do século xiv.

LOUVAR A DEUS SOBRE TODAS AS COISAS

Em tudo o que começa deve apelar-se para o Criador, que é senhor de todas as coisas, feitas e por fazer, que devem umas

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O Castelo de Lusignan no século xin

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tender para a perfeição do bem, e outras realizarem-se segundo os vícios das criaturas.

Escutai pois a história nem verdadeira nem falsa, mas a mais bela e maravilhosa que jamais foi contada publicamente e às claras na nossa França.

Trata-se da lenda de Melusina de Poitou, da fonte de Sée, dos sortilégios do amor e dos tesouros fabulosos que dormem sob as colinas de Lusignan.

Aquele que descobrir os tesouros deixados pela Fada-Ser-pente tornar-se-á mais célebre e mais rico do que um rei, mas queira o Céu protegê-lo da sorte que vem agarrada ao seu achado.

Assim, a tradição anuncia-nos: as jóias mágicas, os rubis, os diamantes, as esmeraldas e os colares de ouro de Melusina estão escondidos numa sala subterrânea, no flanco do outeiro que dá para o Vonne, mas será bem corajoso o que tentar descobri-los.

O Poitou é por excelência a região dos tesouros, das lendas e do fantástico. É uma província extraordinária, com as suas colinas com cavernas, os seus rios, o pântano tão pouco conhecido — a Veneza Verde —, as suas imensas praias bordadas de pinheiros, os castelos famosos onde a lenda gravou nomes espantosos: Melusina, Barba Azul de Tiffauges, o Licórnio...

Região também das catedrais romanas, do Belator — o maior pedaço da Verdadeira Cruz—, das mimosas que crescem em plena floresta de Oléron, do sol resplandecente que, melhor e mais do que em qualquer outra parte, ilumina a ilha privilegiada de Yeu, último vestígio atlante perdido no oceano.

Região do sol-poente, das feiticeiras e das plantas que põem ou tiram a má sorte...

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A GRANDE CAÇADA DO CONDE AIMERY



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escudeiros, barões e outros senhores da corte partiram em busca do animal.

Os mais ousados, o conde e o seu sobrinho Remondin, esbelto, leal, gracioso, hábil na ciência das armas, conduziram a caçada, cavalgando velozmente por montes e vales.

A besta dez vezes foi cercada, e dez vezes ferida; despedaçara quatro cães, oito mastins e dois danois, descobrira todas as armadilhas, indo de um lado para o outro «com uma espécie de ligeireza, pesada e forte, como se habitada pelo vigor das primeiras idades»3.

Ao anoitecer, já ninguém conseguia resistir à perseguição infernal: os cavalos estavam exaustos, os cães deitavam-se para lamber as feridas e os barões, exaustos, preferiram abandonar a presa.

Só o conde Aimery e o seu sobrinho insistiram, mas o javali corria cada vez mais e o velho senhor perdia terreno. Por fim, exclamou com despeito:

— Querido sobrinho, este filho de porca dá cabo de nós, deixemos aqui esta maldita caçada! E maldito seja o que nos lançou nesta aventura!

Tanto tinham galopado e caçado que a noite aproximara-se, de tal forma que, encontrando uma clareira propícia, ambos se apearam.

— Querido sobrinho — suspirou o conde, abalado pela fadiga —, ficaremos debaixo desta grande árvore enquanto a Lua brilhar. Amanhã decidiremos o que há para fazer. .

— Como desejardes, senhor—respondeu Remondin, apean-do-se. Foi em seguida buscar lenha seca, disparou o fuzil e acendeu o fogo.

Lá longe, muito longe, para além dos montes, ouviram-se os cem sinos e sinetas das trinta e cinco igrejas de Poitiers tocar o angelus.

3 André Lebey, Le Roman de Mélusine, ed. Albin Micliel, Paris.

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ESCRITO NOS ASTROS

«Surgiu então a Lua, estranha de tão próxima, com o crescente recortado como um fino arco na imensidão nocturna, que fazia azul à volta da sua pálida luz.

As estrelas responderam-lhe depressa, precisas como sempre lá tivessem estado, nítidas, algumas delas com tamanha vivacidade nos ângulos que apresentavam um indefinível aspecto maléfico.

Que logo aumentou com o pio da coruja, pertíssimo, como se a ave de voo mole, feita de terra de cemitério com plumas, estivesse a ver aqueles a quem queria advertir...4

Nem Remondin nem o conde se decidiam a falar.

Depois de um último grito, o voo pesado e planante da coruja abateu-se sobre o cavalo de Aimery e desapareceu.

Ouviram-se três assobios ritmados, ao longe. Nessa altura os dois homens e os cavalos respiraram fundo, e os primeiros, que haviam baixado a cabeça sob aquele maldito barulho, ergue-ram-na para o céu.»

Aimery, deitado de costas, com a cabeça reclinada sobre um monte de erva, estudava a posição dos astros, descobrindo as relações e deduzindo as influências, porque era entendido em gramática, lógica, física, mas mais do que isso era grande e sábio astrónomo e sabia ler nas estrelas tão bem como num pergaminho, pela ciência do magno Arbatel, astrólogo da sua corte.

Ora o que ele lia era dramático e fazia-o suspirar tristemente.

— Meu Deus, que maravilhoso é tudo o que existe aqui em baixo nesta humilde (servil) Natureza e que diverso no seu destino quando lhe concedes a tua divina graça.

«E que maravilhosa é esta aventura que vejo no curso das estrelas que tens lá em cima assentes no começo do céu por alta ciência de astronomia de que me deste conhecimento, pelo que te dou infinitas graças.

«Mas como poderia ser razoável, senão pelo teu invisível jul-

4 André Lebey, ibid.

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gamento, que um homem adquira boa e alta honra por mal fazer? E, no entanto, vejo por elevada ciência e arte de astronomia, e pela tua santa graça a mim concedida, que é justamente assim.

E começou, então, a suspirar ainda mais profundamente.

Remondin, que estava a atiçar o fogo e a ouvir estas reflexões, disse com deferência:

— Senhor, o fogo pegou, vinde aquecer-vos.

Como o tio suspirasse ainda mais do que antes, acrescentou:

— Ah, senhor, por Deus, afastai esses sonhos. Não cabe a tão alto príncipe atormentar-se com tais coisas, porque Deus seja louvado por vos ter concedido tão grandes e nobres senhorios e posses de boa terra.

«Só a vós cabe esquecer esses sonhos incertos, que não podem nem ajudar, nem prejudicar.

O conde fez um sorriso distante, imperceptível mas grande, superior à fortuna5.

— Ah, louco — disse. — Se conhecesses a grande, rica e maravilhosa aventura que leio para ti no céu, ficarias surpreendido!

Remondin, sem pensar em nada de mal, respondeu:

— Meu nobre senhor, contai-me pois o segredo, se é coisa que deva saber.

— Por Deus, sabê-lo-ás! Fica certo de que gostaria que nem Deus nem os homens te pedissem contas, mas que possa a aventura acontecer-te através de mim, que já estou velho. Tenho bastantes herdeiros para tomarem conta dos meus senhorios.

«E gosto tanto de ti que quereria que tão elevada honra te fosse destinada. Sabe pois o que li nas estrelas: se, no momento presente, um vassalo matasse o seu senhor, tornar-se-ia o mais rico, o mais poderoso, o mais honrado que jamais houve na sua linhagem, e haveria dele uma tão nobre descendência que até ao fim do mundo se falaria e haveria de tal memória. E sabe que falo verdade!

—-Então — respondeu Remondin—, não posso crer que tal profecia se realize, porque seria contra a razão que um homem tenha tantas honras por fazer mortal traição. Para além disso, só

5 André Lebey, ibid.

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nós dois estamos aqui, neste instante e neste sítio; sois vós meu suserano e tio que amo e venero mais ainda que a meu pai, como é que através de mim vos poderia acontecer uma infelicidade? — Está escrito no céu!

REALIZA-SE O PRESSAGIO

O conde e o sobrinho estavam entregues aos seus pensamentos quando ouviram, ao longo do bosque, um grande barulho de ramos e silvas esmagadas.

Remondin pegou na sua lança e o conde puxou da espada.

Depois de uma curta espera, viram enfim aparecer um «porco-javali grande e maravilhoso, que vinha, espumando e rangendo os dentes, na direcção deles e muito horrivelmente».

— Senhor—disse Remondin—, subi àquela árvore de forma que o javali não vos atinja e deixai-me com ele.

— Por Deus, não serei bom cristão se te entregar a esta aventura.

E vendo o porco vir direito a ele, Aimery meteu a espada na bainha e esperou o ataque, com a lança baixa, segura contra o pé, para empalar a besta.

Mas foi deitado por terra, e logo em posição tão desesperada que Remondin teve de dar um golpe furioso que, infelizmente, resvalou no pêlo do animal e atravessou o seu tio.

Um outro golpe mais certeiro matou a besta e jazem sem vida agora dois corpos, sobre a erva da clareira.

— Infeliz, infeliz — gemeu Remondin! — Ah, traidora e perversa fortuna que me fez matar aquele que tanto me amava e tanto bem me fez! Doce Pai poderoso, que país ousaria acolher-me depois de semelhante crime?

«Todos os que ouvirem falar disto me condenarão e terão direito a fazer-me morrer de morte vergonhosa e por tortura, porque nunca nenhum pecador cometeu tão falsa e vil traição.

«Terra, porque não te abres? Antes me engolisses e me pusesses junto do mais obscuro e odioso dos anjos que fora antes o mais belo de todos, porque bem o mereço.

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E dirigindo-se ao conde, que jazia morto, disse-lhe com amargura:

— Dizíeis que uma tal aventura me aconteceria e que eu seria o mais honrado da minha linhagem. Mas só vejo o contrário, porque serei o mais infeliz, o mais desonrado, e justamente.

Então, baixou-se para o seu senhor, beijou-o piedosamente e a chorar pegou no corpo e pô-lo a seus pés, montando depois o cavalo e partindo para a floresta, onde errou até à meia-noite, miseravelmente, triste e desconfortado.

AS TRÊS JOVENS DA FONTE

E, desse modo, chegou junto de uma fonte chamada fonte de Sée6, a que alguns chamavam a Fonte-Fada em virtude das várias aventuras e maravilhas que aí tinham ocorrido no passado.

A Lua, brilhante, iluminava-a com uma luz branco-azulada, reflectindo-se nos enormes rochedos que a cercavam.

Três jovens brincavam na água, e uma delas era tão bela que nunca planeta algum ou estrela do vasto céu conheceram uma assim tão maravilhosamente irreal.

Entregue à sua dor, Remondin passou sem as ver, embora a dama dissesse para as suas companheiras:

—Aquele que por aqui passa a cavalo se é nobre não prova sê-lo, porque é grande descortesia" passar diante de damas ou raparigas sem as saudar como é de dever.

Então, pegando nas rédeas do cavalo, disse firmemente:

—Vassalo, tens assim um tão grande orgulho e ingenuidade para não saudares as nobres damas?

E como Remondin parecesse continuar nos seus sonhos,, acrescentou:

' Traduz-se geralmente esta passagem por «fonte de Sede», o que não tem grande significado. Dada a lógica e sobretudo o carácter simbólico e iniciático do romance de Melusina, do alto posto de Lusignan, cidade de Lug, o Iniciador dos Celtas, trata-se muito provavelmente da fonte do Saber, da Ciência, de Sée, em dialecto do Poitou. Melusina é de resto a fada do Saber, a Iniciada-Serpente guardiã do tesouro na gruta. A gruta é sempre, esotericamente, o antro da Iniciação, a serpente é a iniciada e o tesouro é o conhecimento.

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— Eh, pateta, sereis pois tão desdenhoso que nem respondeis? Penso bem que este homem dorme em cima do cavalo, ou então é surdo-mudo. Vassalo, eh, dormis?

Remondin assustou-se, deu um pulo, voltou a si e viu então que aquela que lhe falava era de uma beleza tão pura e maravilhosa que nunca vira outra comparável.

— Senhora — disse—, perdoai-me esta injúria e vilania bem involuntária, mas sabei que pensava num triste assunto, de que peço a Deus me ajude a sair.

— Falaste bem! Deve-se em tudo apelar para Deus, mas depois do Senhor sou eu quem melhor te pode ajudar a avançar neste mundo mortal e em todas as adversidades e transformar o malefício em boa fortuna.

«Sei, Remondin, que mataste o teu senhor, mas foi um acidente e não cometeste um pecado.

Quando o cavaleiro a ouve chamá-lo, fica tão espantado que nem sabe o que pensar. No entanto, acaba por responder:

— Querida dama, dizeis-me a pura verdade, mas espanto-me como o sabeis e quem vo-lo anunciou tão depressa! Sereis uma feiticeira para ler assim no meu coração? Sois criatura de Satanás?

— Sei bem que te preocupas se sou fantasma ou obra diabólica, pelo meu gesto e pelas minhas palavras, mas asseguro-te que sou crente em Deus e creio em tudo o que um verdadeiro católico deve crer.

«Se me quiseres ouvir, livrar-te-ei desse problema e far-te-ei tais serviços que te tornarás rico, poderoso e honrado, e de ti sairá descendência tão nobre que dela haverá memória até ao fim do mundo!

Remondin, muito emocionado, reconhece a profecia de seu tio, e subjugado já pela belíssima criatura pergunta-lhe o que deve fazer.

— Em primeiro lugar, é preciso que ames! — disse ela.— Agrado-te ou não, belo mancebo?

Fazendo um esforço e, ao mesmo tempo, com um grande prazer, Remondin olhou-a e ficou cheio de admiração.

Tinha um vestido com as cores do junquilho e da violeta, dispostas harmoniosamente; os cabelos eram de ouro, os olhos de esmeralda, a carne de mel e leite. Reparou sobretudo nos pés,

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que estavam nus e eram talhados com mais arte do que uma jóia moura, encantando pela sua forma perfeita e mais delicada do que pétalas de rosa.

— Senhora — murmurou maravilhado —, nunca me foi dado sonhar com uma criatura tão bela como vós. Como poderia não vos amar?

— Pois bem; terás de te casar comigo!

— Será para mim uma grande honra.

— E terás ainda, belo mancebo, de te comprometeres a não duvidar nunca de que me porto honesta e cristãmente, para além de qualquer sortilégio.

— Senhora, cumprirei lealmente tudo o que puder fazer. Tomar-vos-ei por mulher diante de Deus numa capela, quando o decidirdes, mas dizei-me, peço-vos, o vosso nome.

TODAS AS NOITES DE SÁBADO PARA DOMINGO

Fez-se então um silêncio na floresta e a fonte parou de correr; em seguida, depois de alguns segundos que não pertencem ao tempo do calendário, os pássaros começaram a cantar com mais doçura e beleza, as flores exalaram o mais subtil dos perfumes, a água da fonte recomeçou a canção sobre as pedrinhas e os musgos, e neste cenário paradisíaco ouviu-se a música de uma voz de amor e de magia.

— Chamo-me Melusina—disse a criatura maravilhosa!

E logo os ventos, os sonhos, os sons e os perfumes repetiam esse nome na fantasia de Remondin.

— Estou à vossa mercê — conseguiu ainda dizer, mas já o seu espírito volteava como se tivesse bebido muito vinho à sombra de uma tília.

— Ouve o meu último pedido — disse Melusina.

«Vais jurar-me por todos os sacramentos de um bom cristão que nas noites de sábado para domingo, desde o pôr do Sol até à alvorada de domingo, não tentarás ver-me nem procurar saber onde estarei.

Encantado, subjugado pela feiticeira, Remondin jurou, «pelo perigo, que nunca nas noites de sábado para domingo

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faria o que quer que fosse que a prejudicasse e não queria conhecer nada sobre a sua ausência, que sabia ser por bem e maior honra».



Os dados estão lançados.

Tudo se vai passar daqui para o futuro segundo uma intriga incombatível e mágica com as personagens, que são: Remondin, impulsivo e recto, um herói da Idade Média; Melusina, meiga, libertina e sincera, mais bela do que a noite, mais bela do que o dia, mais bela do que o reflexo das estrelas no oceano dos mares tenebrosos, especialista em bruxedos maravilhosos e positivos, porque é a fada de um outro mundo; o conde de Forest, irmão de Remondin, ser retorcido convocado pelo destino para aguçar o curso das aventuras no sentido diabólico.

O SEGREDO DE MELUSINA

Melusina é fada e quer tornar-se mortal para conhecer o amor e a boa morte tranquila, sagrada, que remata a vida dos mortais na Terra.

Mas cometeu um pecado com as suas duas irmãs: prendeu o pai «na montanha de Northumberland, a que chamam Brum-beloys, na Albânia»7, e a mãe, a fada Presina, condenou-a a sofrer um encantamento todas as noites de sábado para domingo. Poderá no entanto viver uma vida humana se encontrar um homem capaz de a amar e de nunca tentar descobrir o segredo que, uma vez por semana, a manterá sempre ligada à sua condição de ninfa e de fada.

Se o segredo viesse a ser conhecido, Melusina tornar-se-ia para sempre fada.

Talvez ela tenha, mais profundo e inacessível, um outro segredo a esconder aos homens do nosso planeta, porque a sua origem, de facto, é desconhecida, e num século condicionado

7 A Albânia é a Escócia ou, de um modo genérico, a Inglaterra, ou seja Âlbion (do latim albus: branco). O pai de Melusina, o rei Elinas, casara com a fada Presina com a condição de nunca tentar vê-la no banho, e não cumprira a promessa.

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pelas superstições seria imprudente reivindicar uma filiação extraterrestre8.



No entanto, tal como a Orejona venusiana dos Incas, que, a bordo de uma barca celeste, aterrou outrora nas margens do lago Titicaca, nos Andes, Melusina apresenta-se em plena Idade Média como uma Iniciadora vinda de- um outro mundo para ensinar os Terrenos e, quem sabe, para tentar talvez com eles uma experiência de integração da sua raça.

Ao contrário dos ((anjos» da Génese9, vai unir-se a um bravo terrestre com o desígnio de gerar, não gigantes, mas uma nova humanidade de mutantes.

Na Bíblia, esta tentativa teve, no plano físico e psíquico, resultados que acabaram no Dilúvio e no fim do mundo.

Na história tradicional e esotérica referida por cronistas, Melusina é aparentemente uma fada, e é-o de tal modo que dá a Remondin duas varinhas de ouro, uma para o salvar da morte por acidente de armas, a outra para lhe garantir vitória em qualquer negócio ou combate. E ainda o aconselha sobre a conduta a ter, a fim de que tudo se passe no melhor dos seus inte-reses, agora comuns.

Remondin volta a montar a cavalo e regressa a Poitiers, «a bela cidade, sólida, fina e bonita, com as suas grandes muralhas quadradas, dominadas pelo castelo-forte, de sobrepostas arquitecturas, com ameias e resguardos em cima uns dos outros entre as catapultas»...

ENCANTAMENTOS NA FLORESTA

A morte do conde foi atribuída à investida do javali e Ber-trand, o filho que lhe sucedeu, recompensou os seus mais mere-

8 Melusina apareceu numa época em que, justamente, as pessoas pensavam ver ou viam barcos vogar no céu e batalhões saírem das nuvens para lutar pelas "mas de Cristo.

Génese, cap. VI, 2: «Os filhos de Deus (os «anjos» vindos do espaço) *'ram que as filhas dos homens eram belas e tomaram para mulheres as que mais «es tinham agradado. Porque depois de os filhos de Deus casarem com as filhas dos homens nasceram crianças que foram homens poderosos e famosos no século.»

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cedores e devotados servidores, entre os quais se encontrava o seu primo, o nobre Remondin.

— Sire—disse este último—, nada mais vos peço além de que me façais dono do terreno por cima da fonte de Sée, nos rochedos e altos bosques, suficiente para se poder estender10 uma pele de gamo.

— Preze a Deus — disse o conde Bertrand — deixar que o meu querido primo goze o dom que lhe concedo!

Aconteceu que um desconhecido misterioso vendeu a Remondin uma pele de veado partida numa tira tão fina que cerca a montanha junto da fonte pelo espaço de mais de duas léguas!

Magicamente, começa a correr um riacho naquele domínio, e em menos de uma hora aparecem nas colinas vários moinhos de pás ruidosas.

Quando estes prodígios foram contados na corte, fizeram grande sensação e a condessa viúva resumiu a opinião de todos dizendo para Bertrand, seu filho:

— Deixai de acreditar em mim se Remondin não encon trou uma aventura na floresta de Coloumbiers, tão mágica e cheia de encantamentos.

— Penso que falais verdade — apoiou o conde de Forestu — e ouvi dizer que na fonte de Sée várias vezes aconteceram!

Para espanto do nobre, os prodígios avolumam-se e reno-vam-se: primeiro é um castelo que surge no local, com uma enorme sala esplêndida, «maior que a do castelo de Poitiers, e uma corte de vários senhores e damas bem vestidas, com belas cabeleiras debaixo de bonitos toucados, e acompanhadas por escudeiros».

Numa outra sala «ainda mais vasta» estava servida a ceia, faustosa, com numerosa criadagem, impecável; uma orquestra de mandorras, de rabecas, violoncelos, violas e alaúdes tocava música erudita.

— De onde vem toda esta gente, meu amor? — perguntou Remondin.

10 Poder cobrir.

11 Irmão mais velho de Remondin.

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— Estes cavaleiros e estas damas estão ao vosso serviço __respondeu Melusina com um sorriso de magial

— Não me direis nunca como realizais todos estes prodígios? Ela olha-o então com um sorriso grave, imperceptivelmente

protector e amargo, e diz simplesmente:

— Se queres saber, vai um dia, embora por minha fé em Deus não to aconselhe, beber três vezes a água da fonte de Sée, que abre os olhos e os limites dos espíritos.

«É uma água milagrosa, feita para os fortes que querem desafiar o Destino, mas peço-te, pelo nosso amor, que resistas à tua curiosidade de macho.

O CASAMENTO DE MELUSINA

Chegou enfim o dia da boda e nunca homem, senhor, rei ou imperador viu outra assim faustosa.

Um cavaleiro, que parecia muito idoso na sua indumentária rica, simples mas esplêndida de corte, presa à cintura por um cinto de pedras preciosas e pérolas, recebe o conde de Poitiers como se fosse o senhor daqueles lugares.

— Sire, poderoso e nobre, Melusina de Albânia apresenta--vos as suas homenagens e agradece-vos pela alta honra que lhe concedestes e ao vosso primo Remondin, por virdes assistir às suas núpcias.

Todos os convidados têm à disposição câmaras, com bobos vestidos de escarlate para os divertir e damas gentis para o prazer dos olhos.

O pavilhão da condessa-mãe é forrado a ouro bordado de pérolas, esmeraldas e ametistas, e a velha senhora está tão maravilhada que declara que no mundo inteiro não se encontrará rainha, rei ou imperador que pudessem ostentar tamanha riqueza e possuir metade das jóias que Melusina tem sobre ela.

Para quem se surpreende com este fausto, estas prodigali-dades, estas súbitas maravilhas acumuladas, o idoso cavaleiro responde:

— Melusina poderia ainda fazer melhor, porque basta-lhe desejar para ter!

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A cerimónia foi celebrada numa capela de alta cúpula afilada, adornada como uma renda, aparecida magicamente no cume de rocha da fonte de Sée, «fazendo corpo com ela e.como que nascida da mesma pedra, a fim de a prolongar e de a lançar no Céu».

As refeições, as festas e os espectáculos ultrapassam em magnificência tudo o que até aí fora visto.

Durante o torneio, o conde de Poitiers, o de Forez e os cavaleiros do Poitou são excelentes, mas os mais brilhantes são os cavaleiros de Melusina e acima deles Remondin, todo vestido de branco e montado num cavalo malhado, de uma impetuosidade admirável.

À noite, depois de ter sido despida pela condessa e por sua filha, Melusina desliza para os lençóis do leito nupcial; sem. tardar, Remondin acompanha-a.

Nessa noite foi gerado o primeiro filho, o corajoso Urian, rei de Chipre.

A FADA CONSTRUTORA

Alguns meses depois destes acontecimentos, viu-se chegar à fonte de Sée «uma grande quantidade de operários, carregadores e lenhadores, e Melusina mandou-os desbravar as grandes árvores e pôr a rocha a limpo».

Fez depois vir uma multidão de pedreiros e talhadores de pedra para construir as fundações, ((tais e tão fortes que eram uma maravilha de ver. E os ditos operários faziam tal trabalho e tão rapidamente que todos aqueles que por lá passavam ficavam espantados. E Melusina pagava-lhes todos os sábados, de tal forma que nunca lhes devia dinheiro... E ninguém sabia donde vinham aqueles operários, nem onde estavam. E em pouco tempo ficou construída a fortaleza, tendo não uma, mas duas praças fortificadas antes de se chegar à torre das ameias.

E sabei que as três são cercadas por sólidas torres resguardadas, e as abóbadas das torres têm ogivas, e as paredes são altas e bem guarnecidas de ameias.

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Há três pares de bragas altas e fortes e várias torres nas ditas bragas. Assim como há poternas maravilhosas».

Acabada a fortaleza, os operários partiram como haviam chegado, a pé, a cavalo «ou em carros compridos como naves, de forma estranha, desconhecida na região».

«Não existiu nunca fortaleza mais forte nem mais bela, mesmo mais tarde a de Coucy, como a de Lusignan.»12

Passam os dias, felizes e cheios das maiores venturas para Remondin e a sua maravilhosa esposa, que vê cada vez mais bela e mais amorosa.

Foi por esta altura que Melusina edificou as igrejas de Poitou: Saint-Pierre-de-Melle, Limalonges, Chamdeniers, Saint--Pompain, Fronteny-1'Abattu, Clussay, Saint-Jouin-des-Marnes, Civray, Genouillé e a prodigiosa Abadia de Charroux, onde, numa única noite, a floresta foi abatida e a praça cercada de muralhas, de torres, de campanários e de sinos.

Na mesma época, construiu as duas perfeitíssimas torres ameadas da fortaleza de Niort e os castelos de Latour em Mothe--de-Meré, Fontaine-Epinette, Crémault, Barbezière, Saint-Ma-xire, Saint-Pezenne, Souché, Prahecq, Saint-Hilaire-la-Palaud, Charrière, Benet, Moutiers-sur-le-Coy, Brulain, Aiffres, Echiré, Chef-Boutonne e tantos outros...

A DORNE DE MELUSINA •

Um camponês revela o segredo a Remondin, que se surpreende com a aparição súbita de tantos monumentos:

— É obra de Melusina, sire. Chegou uma noite a cavalo, deitou ela mesma mãos à obra e trabalhava tão depressa que a igreja parecia crescer sozinha.

«Ah, se tivésseis visto! Trazia na sua dornett as pedras da construção e as terras para fazer os taludes. E tudo surgia como um milagre.

12 André Lebey, ibid. Historicamente, a construção do Castelo de Lusignan foi obra de Hugo II, o Bem-Amado, nos finais do século x.

u Avental preso à mão quando se quer fazer dele um porta-carga.

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Em Saint-Pierre de Parthenay-le-Vieux disse-lhe um monge que a fachada, as abóbadas e o campanário tinham sido feitos em três noites, sempre por Melusina.



. ((Trabalhava unicamente à luz dos astros, sem pausa.»

Surpreendida pelo dia, quando ia acabar o seu trabalho, fugiu, deixando sobre a última pedra a marca, que ainda se pode ver, das ferraduras do seu cavalo.

O sítio onde essa pedra ia ficar nunca mais conseguiu ser tapado, e todas as cunhas que aí se metem acabam sempre por cair.

Remondin tem de ir em seguida à Armórica para reivindicar a herança de seu pai, Henry de Léon, senhor'da velha Bretanha gaulesa e antigo senescal do rei.

O nobre dá aí provas da sua força, coragem e lealdade, mas logo regressa ao encontro da sua bela mulher, de quem não pode estar muito tempo separado.

Deu-lhe ela uma numerosa progenitura: Urian, o primeiro, um belo varão de rosto curto, com um olho vermelho e outro verde; Odon, o segundo, bem feito mas com duas orelhas diferentes; Guyon, com um olho por cima do outro; Antoine, que tem na face a marca de uma unha de leão; Regnault, que tem só um olho, mas excelente; Geoffroy, com uns dentes enormes; Flori-mond, com malha de toupeira.

O oitavo rapaz, Oruble, o mais estranho, com três olhos colocados em triângulo, é cruel e mata duas amas em três anos. Os dois últimos, Raimonnet e Thierry, parecem completamente normais.

05 TRÊS SINAIS DO DESTINO

À medida que a família crescia, Melusina aplicava-se em aumentar as suas terras e domínios. Foi assim que se tornou proprietária de castelos e de burgos em Parthenay, em La Ro-chelle, em Saintes, em Pons, em Tallemont e ainda muito mais longe, para os lados da Bretanha, Gasconha e Guiana.

A felicidade do casal teria sido total se o conde de Forest,

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desleal e má pessoa, não tivesse tido o maldoso gosto de picar a curiosidade do irmão sobre as ausências da esposa.



À força de insinuações, subentendidos, observações venenosas, consegue finalmente introduzir dúvidas no seu espírito.

Um sábado em que estavam em Lusignan, ou, segundo Jehan d'Arras, em Mervent14, disse-lhe:

— Querido irmão, chamai Melusina porque me faria grande gosto vê-la e abraçá-la.

— Vê-la-eis amanhã, está ausente neste momento, retirada, e ninguém a poderá fazer sair.

Forest responde dando ênfase às palavras:

— Só vós ignorais o que todos sabem! Sois meu irmão e não devo calar esta desonra...

Remondin nesse instante não aguenta mais, e um impulso irresistível, fatal, empurra-o até à pequenina porta baixa da torre que conduz aos misteriosos aposentos de Melusina.

Quer saber, e lembrando-se do conselho da sua mulher-fada precipita-se para a fonte de Sée e bebe por três vezes a água milagrosa que desvenda os olhos e dá conhecimento.

Mas é tal o seu desvairamento que nenhum sentimento de quietude vem temperar a sua perturbação.

O sangue ferve-lhe nas veias e arrasta-o para a acção desesperada, correndo mesmo perigo de vida.

Melusina preparou, no entanto, três obstáculos mágicos que lhe poderiam dar sorte e desviá-lõ do seu funesto projecto.

Em primeiro lugar, por mais que avance para a torre que procura, volta sempre ao sítio por onde começou, como se se tivesse perdido por ter caminhado por sobre aquela erva dos feiticeiros, que, como se diz no Poitou, faz voltar ao ponto donde se partiu.

O segundo sinal ainda é mais maravilhoso e apto a fazer com que volte a recuperar o seu juízo.

14 A relação de Jehan d'Arras situa este importante acontecimento no Castelo de Mervent (Vendeia), mas a tradição do Poitou afirma que a cena se passou em Lusignan, onde ainda se mostra a marca que o pé da fada, antes de se transformar em serpente, teria deixado sobre uma pedra. Optamos por Lusignan, onde Melusina tinha os seus aposentos, o seu tesouro e onde vem, em certas ocasiões, sob a forma de serpente alada.

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A serpente alada tinha duas asas de morcego, uma cauda de serpente, uma estrela na fronte e a beleza das filhas de Vénus



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Enquanto vai galgando a escada da torre, vê, à medida que vai avançando, crescer os degraus, até ao último, que tinha bem uns seis a sete pés de altura15.

Não será essa com certeza a escada ideal para levar até aos aposentos vergonhosos de um adultério ou de uma má intenção, mas Remondin estava louco de ciúmes.

Consegue subir e vê-se diante de uma porta «de madeira, coberta de enormes ferragens a toda a largura» e sem fechadura.

Remondin força este terceiro obstáculo mágico: consegue com o seu punhal afastar as tábuas e, accionando por inadvertência um misterioso mecanismo, é projectado para o interior de uma vasta sala.

O SEGREDO DA TORRE

O chão está coberto de areia dourada, as paredes forradas a madrepérolas, corais, conchinhas e milhares de pedras preciosas, que irradiam uma doce luz azulada.

Aqui e ali, na areia, vêem-se dessas estranhas pedras que caem do céu, pretas e redondas, a que o astrólogo Arabel chama aerólitos.

«Um grande abadir '6, debaixo do raio directo da Lua, parecendo reflectir uma vida interior, brilha docemente, polido como um fruto do outro munda misterioso, e, de repente, desaparece como se não tivesse passado de um sonho17.»

Um barulho de água corrente guia o seu olhar para um pátio

15 Esta relação dada no Roman de Mélusine, de André Lebey, não figura no manuscrito de Jehan d'Arras, mas pegámos nela por a julgarmos conforme ao carácter fundamental da história. De resto, o grande poeta que foi André Lebey tinha umas percepções e visões do passado que reflectiam a verdade transcendente com mais segurança que as transmissões orais do povo. É assim que ele muitas vezes sublinha o sobrenatural e extravagante da aventura: «os carros compridos como naves, de forma estranha, desconhecida na região», a possibilidade de um edílio extraconjugal entre Melusina e um amante «vindo do fundo dos ares».

" O abadir seria aquilo a que hoje se chama uma tectite ou «pedra da lua». i uma espécie de vidro ou de obsidiana de cor negra.

" André Lebey, ibid.

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KC?*

r?f


Nesta

torre é que. segundo reza a lenda, se encontrava o refúgio da fada--serpente de Lusignan 6

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de paredes de vidro, e ele aproxima-se até surpreender aquilo que os seus olhos nunca deveriam ter visto.



Desgostoso, triste, que dor a sua, que remorso lhe morde o coração e a alma de nobre í Sabe tudo agora, e a verdade é simultaneamente consoladora e terrível...

Numa grande banheira cheia de flores, lírios pretos e violetas18, Melusina, nua, bela e ainda mais bela do que quando se encontraram pela primeira vez, entregava-se a uma inocente ocupação: penteia os seus longos cabelos de ouro, vendo-se num espelho de cristal, o busto arqueado, perfeita e encantadora.

Mas sob esse busto que ele tanto acarinhou e festejou, Re-mondin vê a razão secreta da reclusão voluntária da mulher amada: uma longa cauda de serpente, com escamas verdes, que prolonga o ventre e os rins numa forma ondulosa.

O LICÓRNIO MARAVILHOSO

Espantado, foge, evitando dar sinal da sua presença e, de regresso ao castelo, pouco faltou para matar o conde de Forest, cujas calúnias tinham tão vilmente despedaçado a sua felicidade.

Remondin grita-lhe:

— Fugi daqui, vil traidor, com a vossa falsa e traidora informação fizeste com que abjurasse contra a melhor e a mais leal dama, a seguir à Mãe do Criador. Trouxeste-me toda a dor e assim me arrancaste toda a alegria... Que dor, minha tão doce amiga, sou a falsa e cruel cobra e vós sois o licórnio precioso, porque vos traí com o meu falso veneno...

" E vê Melusina, que estava numa grande bacia de mármore, com degraus até ao fundo. E o tamanho da bacia era bem de quinze pés de diâmetro em esquadria e uns cinco pés de largura. E era aí que Melusina tomava banho, e até ao umbigo tinha figura de mulher e penteava os cabelos, e do umbigo para baixo era em forma de cauda de serpente, da grossura de um atum ou de um arenque, e muito comprida, e chapinhava com a ponta tanta água que a fazia saltar até ao tecto. E quando Remondin a viu, ficou morto de pesar. «Ai», disse, «meu amor, assim vos traí pela falsa informação do meu irmão, e em relação a vós me perjurei» (foi. 128, v.°, 1.» col.), tradução de Louis Stouff.

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Por vezes, no meio da sua louca dor, começava a maldizer aquela que lhe tinha dado tamanha felicidade e, ao mesmo tempo, tanto sofrimento e decepção.



— Pela fé que a Deus devo, creio que não passou do fantasma desta mulher que eu tive e os frutos que deu não vinham perfeitos; todos os filhos que gerou possuíam sempre um qualquer estranho sinal.

Vede Oruble, que ainda não tem sete anos completos e já matou dois escudeiros, e antes dos três anos matara duas amas à força de lhes morder os mamilos.

E não vi eu a mãe, no sábado em que o meu irmão Forest me trouxe as más notícias, com forma de serpente do umbigo para baixo?

((Assim foi, por Deus. Ou é uma bruxa ou fantasma e ilusão que de mim abusaram; a primeira vez que a vi, não me soube ela contar todo o meu infortúnio?19

((Ah, falsa serpente, por Deus, tu e os teus feitos não passam de fantasmas e nunca deste herdeiro com boa intenção.

Em seguida, voltando aos seus melhores sentimentos, o nobre reconhece que faltou à sua honra e faz o mea culpa.

— Querida amiga, meu licórnio maravilhoso, minha espe-

19 Eis-nos de regresso à tese do romance esotérico com a imiscuição do mito extraterrestre. Remondin culpa a sua estranha esposa por lhe dar filhos tarados, anormais (não há certeza quanto aos dois últimos). Em resumo, a hibridação entre a raça dos homens e aquela a que Melusina pertence não dá resultados satisfatórios, exactamente como aconteceu nos casamentos entre os «anjos» vindos do céu da Bíblia e as belas terrenas.

No texto de Jehan d'Arras, Melusina, antes de partir, ordena que matem o filho Oruble; na Génese, Deus mata com o Dilúvio todos os homens provenientes da união dos «anjos» com as terrenas.

A título de hipótese apenas, encontramos bastantes indícios para ligar a aventura da Fada-Serpente à dos «anjos», a «da Orejona do Peru» à de Quetzal-coatl dos Maias e à de Astarte do Próximo Oriente. Neste sentido Melusina seria uma estrangeira como Mertseger (ou Marit Sakro), a deusa-serpente da mitologia egípcia cujo nome, por uma curiosa coincidência e associação com Remondin, significa «a amada do que faz silêncio». Estas coincidências, acrescentadas ao mito da serpente voadora que em todas as mitologias representa o engenho voador extraterrestre, incitam-nos a procurar na lenda de Melusina a representação, deteriorada pelo decorrer dos séculos, de uma antiquíssima aventura relativa a Iniciadores vindos de um outro planeta.

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rança, suplico-vos, .em honra do glorioso sofrimento de Jesus Cristo e do santo glorioso perdão que o verdadeiro filho de Deus concedeu a Maria Madalena, que vos digneis perdoar-me esta má acção e continuar a meu lado.



E quando veio a alvorada, Melusina entrou no quarto onde Remondin estava a chorar a sua mágoa.

Quando a ouviu chegar, o cavaleiro fingiu que dormia, e Melusina despiu-se e deitou-se, nua, a seu lado.

Retomara o seu aspecto habitual, a sua grande beleza de mulher terrestre, mas estava muda e como que transida.

Sabe tudo, porque é fada, e talvez até o tenha visto pelo seu espelho de serpente.

O tempo passa, eterniza-se numa manhã dramática e silenciosa, ambos penetrados pela gravidade dos últimos instantes de pobre felicidade que ainda têm para viver, e empenhados no entanto em saborear a amarga e irrisória taça.

Porque sabem que o seu amor está irrevogavelmente quebrado.

Aqui começa, para Melusina, a penitência que durará até ao fim do mundo.

Ah, regressar ao curso do tempo... voltar ao paraíso dos dias que fogem!

Remondim, por vezes, começa a duvidar da realidade dos acontecimentos.

Não terá sido ele o joguete de" uma miragem, das que a sua querida serpente gostava de fazer para o maravilhar?

E, sendo a visão autêntica, não lhe seria a ela possível, pela sua magia, apagar a odiosa falta, conjurar a maldição de uma fada mais poderosa do que ela?

É tarde, muito tarde, e já há muito que os sinos da capela da fonte de Sée tocaram para a missa dominical.

Melusina é quem primeiro se liberta do terrível torpor.

— Senhor, iremos atrasados; é hora de vos vestirdes para a missa.

— Melusina, meu doce licórnio bem-amado, prometei nunca me abandonares quer neste mundo, quer no outro?

— Em relação a este mundo, não vos posso prometer, belo

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amigo, mas, quanto ao outro, juro-vos pela minha fé que estareis sempre ligado ao meu coração e ao meu amor.



— Ah, vejo bem que o destino está.contra mim e que não deveria ter esquecido o meu solene juramento, mas palavras vis enfraqueceram a minha certeza e o nascimento dos nossos filhos, todos marcados por um estranho sinal, fizeram-me pensar num sortilégio.

Melusina deu um grande suspiro e respondeu com voz doce e dolente:

'—Ah, querido cavaleiro, não foi por malefício do Diabo que os nossos filhos sofreram estas marcas, mas sim por natural razão de sangue, porque venho de um outro mundo onde a vida é diferente desta daqui, e a Natureza não quer que as gestações contrariem a lei primordial.

E ambos dali em diante mergulharam no abismo de amargos pensamentos, sabendo ela o que falar queria dizer, e ele suspeitando de uma injusta maldição.

Melusina insistiu que não faltassem ao ofício e, finalmente, levantaram-se.

O VOO DA SERPENTE

Vão agora pelos grandes corredores do palácio, de mãos dadas, pressurosos de se manterem bem ao pé um do outro, de coração e em pensamento.

— Meu bem-amado — murmura ela—, gostaria tanto de morrer agora!

Ele aperta a pequena mão que treme na sua e lamenta-se com uma voz frágil:

— Pobre serpente adoradaI Doce sereia infeliz... nunca como nesta hora me fostes tão querida. Ficai, Melusina, suplico--vos! Se não o consentirdes, nunca mais voltarei a sentir alegria no coração.

Põe-se ela a chorar convulsivamente e diz, em seguida, umas palavras de desespero que lhe ferem o coração.

— Meu doce amante, o Destino assim o quer e eu nada posso fazer. Bela e querida terra, também tenho de te aban-

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donar, e de ora em diante os que me virem terão medo de mim como animal venenoso!



Neste momento, ouvem, vinda da capela já perto, a campainha da elevação que os convida a receber o Espírito Santo.

—Já não há tempo. Ajoelhemo-nos aqui mesmo, e supliquemos ao Senhor que nos absolva na hora do Juízo Final.

Ajoelham-se os dois, baixam a cabeça e os sininhos tocam as últimas notas cristalinas.

Quando Remondin ergue a cabeça, Melusina está de pé no vão da janela grande do corredor que dá sobre o vale, lindo e cheio de sol, e clama o seu desespero:

— Adeus! Adeus a todos e todas! Adeus, meu marido, meu amor, meu amante, pedi devotamente a Deus Nosso Senhor que alivie os meus sofrimentos!

((Então, como que se arrancando a si própria, vergada e agitada pela pavorosa violência que se impôs, lança-se incontinente para fora da janela sob a forma súbita de uma serpente alada, com quinze pés de comprimento aproximadamente.

E nada mais ficou dela, a não ser a forma do seu pé, que se moldara, pequena, sobre o apoio da pedra donde havia partido no seu voo, rápido e decepcionante20.»

Dá Deus aos mortos a sua glória, E aos vivos força e -vitória! Que eles a possam conquistar! Aqui quero a história acabar Deo gratias

Passaram muitos séculos, mas continua viva no Poitou a crença de que Melusina, sempre que um membro da família de Lusignan é ameaçada pela morte, volta sob a forma de um fantasma alado e lança o seu grito de alarme sobre este mundo.

«Então», diz-se, ((dá três voltas ao castelo no seu voo, lamen-ta-se tristemente e vem abater-se súbita e horrivelmente na torre poterna, levantando uma tal tempestade e pânico que parece

" André Lebey, ibid.

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que todo o castelo vai ruir num abismo e que todas as pedras se chocam entre si.»

No século xvi, um oficial inglês chamado Sersuelle comandava a guarnição instalada no Castelo de Lusignan, que servia de base às tropas que lutavam com o duque de Berry, irmão de Carlos V.

Uma noite, o oficial viu na lareira a silhueta da serpente alada que dançava no meio das chamas.

— É o sinal de Melusina—disseram-lhe no dia seguinte—, podeis preparar-vos para partir!

E foi o que aconteceul

Melusina aparece sempre, de tempos a tempos, aos habitantes de Lusignan, mas com intervalos cada vez maiores.

Afirma-se que voltará para indicar o esconderijo do seu tesouro, metido num subterrâneo que liga o castelo à Igreja Saint-Hilaire de Poitiers.

Se quem descobrir o tesouro o doar a uma obra de caridade, romperá nesse instante o encantamento, e Melusina poderá voltar a ser uma mulher verdadeira.

Senão, ligar-se-á a essa pessoa um sortilégio e o fantasma de Lusignan continuará a visitar as noites escuras do antigo burgo do Poitou.

COMENTÁRIOS

Um exemplar do manuscrito em francês arcaico encontra-se na Biblioteca do Arsenal, outros estão na Biblioteca Nacional.

O texto origina], embora muito excepcional para a época em que foi escrito—1387—, não pode nem ser publicado na íntegra, nem mesmo condensado capítulo por capítulo, porque comporta uma abundância, uma luxúria de pormenores, que, muitas vezes, abafam e fazem perder o fio condutor.

Deste modo é que o autor abandona por vezes Lusignan e a sua fada para nos transportar até ao Próximo Oriente, à Bretanha ou à Inglaterra e nos fazer assistir a heróicas e longas aventuras que pouca ou nenhuma relação têm com a trama principal.

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Este processo era corrente nos troveiros, trovadores e escritores profissionais da Idade Média, que declamavam as suas obras ao serão, fazendo uns intermináveis parênteses.

Com efeito, era de bom tom, para agradar ao senhor do castelo e a algum convidado nobre, evocar os seus altos feitos, não os misturando directamente à acção, mas através de uma digressão muitas vezes insípida e aborrecida.

Além disso, os narradores de gestas e de lendas gostavam, muitas vezes instigados pelo grande público, de adornar os seus próprios dizeres com epopeias maravilhosas atribuídas a heróis célebres.

Assim, durante as festas do casamento em Lusignan, o autor não consegue resistir ao prazer de citar uma estrofe de Pierre de Corbie, uns versos de Rutebeuf a (grische de Yver), a fantástica partida de xadrez do chamado Garin de Montglave, citações de Huon de Bordeaux, de André, o Capelão, e um largo texto do bardo de Panhõel, onde relata aventuras de Remondin na Bretanha, o que prova que a história de Melusina é bem anterior a Jehan d'Arras.

Estes acrescentos, que enchem o original, foram suprimidos nas adaptações e o livro assim encurtado torna-se, segundo a nossa opinião, uma das obras mestras da literatura francesa e o mais apaixonante dos romances de cavalaria.

Certos autores pensaram que „ um fundo histórico teria servido de argumento para o romance de Jehan d'Arras e muitas são as hipóteses sobre a verdadeira personalidade de Melusina.

Ela teria sido Melusina, viúva de um rei de Jerusalém, ou a dama de Mervent, mulher de Goeffroy de Lusignan, ou ainda a Mater Lucina, que as mulheres romanas invocam durante os partos.

Também há quem chame a atenção para o facto de Melusina ser (mais ou menos) o anagrama do antigo nome de Lusignan ou Lusignem.

Segundo André Lebey, a fada, senhora da Albânia, seria uma alegoria da Inglaterra como Remondin seria a de França. Não se estava em plena Guerra dos Cem Anos no tempo de Jehan d'Arras?

Terá o autor escrito apenas para agradar a seu senhor, o

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duque de Berry, de quem era secretário? É possível, porque o duque era um apaixonado pelas artes e letras.



O conde Aimery, segundo Jehan d'Arras, era o avô do rei São Guilherme, «que era conde e abandonou todos os prazeres mundanos para servir o Criador, e foi para a ordem e religião dos Brancos Hábitos».

São Guilherme, dito o Grande duque da Aquitânia, viveu no século viu e princípios do ix. Morreu em 812. Era filho do conde Thierry, que a tradição aparenta a Carlos Magno.

Em 806, com o acordo da rainha, Guilherme renunciou ao mundo e retirou-se para o vale de Gellene, junto de Lodève, onde construiu o Mosteiro de Saint-Guilhelm-du-Désert.

Os seus feitos serviram de pretexto para uma canção de gesta, intitulada Roman de Guillaume au Court-Nez, escrita no começo do século x, onde se encontra a lenda de Aimery de Narbonne.

Este Guilherme da gesta foi defender Paris, tomada pelos infiéis, e matou o gigante Isoré, no sítio depois chamado o Túmulo Issoire.

Vários outros Guilhermes, condes ou duques da Aquitânia, são conhecidos na história:

— Guilherme III, Cabeça de Estopa, nascido em Poitiers por volta de 900, morto em 965, foi despojado do seu imenso ducado pelo rei de França.

— Guilherme IV, Braço Valente, filho do precedente, perdeu Loudun a favor do conde de Anjou, mas defendeu vitoriosamente Poitiers contra Hugo Capeto em 988. Retirou-se para um mosteiro.

— Guilherme V, o Grande (960-1030), foi um protector das artes, fundou várias abadias e reconstruiu a Catedral de Poitiers.

O primeiro dos condes de Lusignan foi Hugo I, dito o Monteador, que viveu no reinado de Luís do Ultramar, filho de Carlos, o Simples, ou seja, entre 921 e 954.

Estas cronologias não oferecem qualquer rigor histórico.

O certo é que a lenda da Fada-Serpente é muito anterior ao século xiv e estamos convencidos de que todas as explicações propostas não têm qualquer fundamento válido.

Está fora de dúvida para aqueles que têm algumas noções

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de esoterismo e de história céltica que Melusina é a representação, levemente adoçada, de um grande mito ocidental.

Encontram-se lá todos os elementos essenciais do simbolismo iniciático: Lusignan, alto local outrora consagrado ao deus Lug, a Fada, detentora do Saber, a gruta ou retiro, que é o seu antro de eleição, a serpente, símbolo da iniciação, como a fonte (de Sée ou de Saber) o é do conhecimento, o tesouro, enfim, que de modo esotérico se representa por rubis, diamantes e ouro, mas que é sempre, esotericamente, a própria iniciação.

A vouivre, o dragão, a naja dos Egípcios, a serpente de Atena, a nwywre ou serpente voadora dos druidas, pertencem ao mesmo fundo mítico.

Estes elementos parecem-nos próprios para esclarecer com uma autêntica luz a psicologia profunda de Melusina e do seu romance, através das efabulações e do culto do maravilhoso de Jehan d'Arras e dos escritores da Idade Média.

Textos de consulta:

JEHAN D'ARRAS, Mélusine — Arsenal et Bibliothèque Nationale, Genebra, 1387.

ANDRÉ LEBEY, Le Roman de Mélusine, ed. Albin Michel, Paris, 1925.

LOUIS NANEIX, Mélusine, ed. Robert Morei,.1961, Boulevard Berthier 174, Paris 17.°.

LOUIS STOUFF, Mélusine ou la Fée de Lusignan, Paris, 1925.

DU MESNIL DU BUISSON, Les Origines de la Fée Mélusine, ed. Send. Paris.

JEAN GOURVEST, Mélusine, Legende Poitevine, La Rochelle, 1948.

GERMAINE MA1LLET, Journal Intime de Mélusine, Châlons-sur--Marne, 1950.

AUGUSTE COYNAULT, Mélusine, Niort, 1928.

MAURICE MAGRE, Mélusine ou le Secret de la Solitude.

JEAN PUISSANT, Mélusine, Conte et Legende de Basse Bourgogne.

CHARLES BRUNET, Le Roman de Mélusine, 1854.

M. JANNET, colecção elzeviriana, 1854.

JEAN MARCHAND, La Legende de Mélusine, Paris, 1927.

P- MARTIN-CIVAT, Le Três Simple Secret de Mélusine, Imp. P. Oudin, Poitiers, 1969.

YVES BOURDONNEAU, Si Poitiers vous Était Contée, Presse Edition P. Begnard, 29, Boulevard du Grand-Cerf, Poitiers.

A FEITIÇARIA

CAPÍTULO XXII DEMÓNIOS E MARAVILHAS

A feitiçaria foi a primeira crença dos homens: policiada e desprovida do seu lado selvagem, deu a vez à magia; regulamentada, espiritualizada e explorada mais habilmente, passou a chamar-se religião; submetida ao controle à experiência e ao estudo racional, transformou-se em ciência.

Através destas transformações foi sempre conservando uma marca de identificação — a do Diabo, talvez — e uns denominadores comuns: o holocausto, o sacrifício de sangue, a tortura física e moral e o espírito de domínio.

Do feiticeiro pré-histórico aos construtores de bombas atómicas manteve-se um estado de espírito fundamentalmente idêntico, caracterizado simultaneamente por vontade de poder e pelo desejo de trabalhar num sentido benéfico.

O Grão-Mestre dos rosa-cruz, no seu livro Message du Sanctum Celeste, afirma que a feitiçaria não resulta para quem não acredite nos seus resultados.

É um facto, e podemos referir esta declaração à magia, à religião e à ciência.

Mas se concedermos crédito a essas crenças avassaladoras, então tudo se altera e o resultado passa a ser tangível: feiticeiros que caminham sobre o fogo, magos que lêem no pensamento, santos que realizam milagres e cientistas que inventam máquinas para ir até às estrelas.

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AS «CHAVES DE SALOMÃO»



Há três livros célebres que são autoridade para os empíricos da feitiçaria e da magia: o Grand Albert, Les Claviçules de Salo-mon e o Enchyridion.

O primeiro é uma banal recolha de receitas impossíveis de utilizar e que revelam a baixa feitiçaria da Idade Média.

O segundo, mais hermético, dirige-se aos mágicos com o propósito de lhes fornecer as chaves (clavículas = pequenas chaves) de uma ciência que permite comandar os ((espíritos».

Há trinta e seis chaves ou talismãs que são pantáculos (siglas) ou hieróglifos hebraicos e cujas virtudes, podemos assegurá-lo, são absolutamente inexistentes. Mesmo se quisermos acreditar muito neles! O cientista e simpático Eliphas Lévi, mestre em magia, não deixou, apesar disso de testemunhar a sua eficácia.

O ENCHYRIDION

O Enchyridion é o livro mágico por excelência de que muito se fala nos círculos ocultistas, sem nunca ter sido visto, pois é raríssimo1.

É uma compilação de oraçõçs e preces místicas, atribuído sem provas ao Papa Leão III e publicado no século xvu com o título: Papoe Leonis Enchyridion, sereníssimo imperatori Carolo Magno in manus pretosium datum.

O sereníssimo Carlos, o Grande, a quem o papa se dirige, é Carlos Magno, que deveria toda a prosperidade do seu reino aos segredos todo-poderosos que lhe foram revelados no livro!

Lê-se com efeito na página 2 da obra:

((O imperador Carlos Magno, a quem esta obra é consagrada como uma garantia e como um precioso tesouro, foi o primeiro a conhecer por experiência os seus efeitos surpreendentes e maravilhosos; recitava com a mais profunda veneração as ora-

1 Conhecemos um único exemplar (de 1633), que pertence a Jacques Tacher, 17. Avenue Julien, 63000, Clermont-Ferrand.

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ções, com a cara voltada para nascente, e fizera a promessa de as ter com ele, escritas a ouro.

Todas as figuras que ornamentam este precioso livro são tiradas dos mais raros manuscritos que a Antiguidade nos legou, e estão sempre junto das orações a que se referem; actuam se trazidas continuamente com a pessoa. Sobre este assunto pode consultar-se o Calendário Mágico e a filosofia oculta do célebre sábio Agrippa.»

Segundo o editor, Carlos Magno teria enviado ao papa uma carta de agradecimento que se conservaria no Vaticano!

O texto desta carta figura, de resto, na edição de 1963.

Os empíricos falam com um imenso respeito do Enchyridion e conferem-lhe propriedades maravilhosas com uma ingenuidade (e uma má-fé) desarmante.

Vamos fazer deste livro «mágico e todo-poderoso» uma breve análise que permitirá ao leitor formar uma opinião justa.

PARA SER INVENCÍVEL...

E JARRETE1RA PARA A MARCHA!

Página 19: ((Oração contra todas as espécies de encantos, encantamentos, sortilégios, caracteres, visões, ilusões, possessões, obsessões, impedimentos, malefícios de casamento e tudo quanto nos pode acontecer por malefícios dos feiticeiros ou por incursão dos Diabos; e também é muito útil contra todas as formas de doenças que podem dar nos cavalos, jumentos, bois, ovelhas e outras espécies de animais...»

Juntamente com as invocações à cruz, ao Senhor, ao Pai, ao Santo Nome e a todos os santos, e outras menções deste estilo, a esconjura prossegue do mesmo modo decepcionante: pelo grande Deus vivo, pelo verdadeiro Deus, pelo Deus Santo, pelo Deus Pai, pelo Deus Filho e pelo Espírito Santo, Deus também, mas principalmente por Aquele que foi imolado em Isaac, etc.

Fica-se boquiaberto com tantas vulgaridades e inépcias.

Mesmo no século ix, era necessária uma fé muito forte e uma ingenuidade sem limites para acreditar na seriedade do Enchyridionl

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Página 83: «Carlos Magno dele se serviu na guerra, e por isso foi invencível; desde esse tempo tinha-se tanta fé nas orações da Santa Igreja, que se evitavam os tiros de canhão dizendo-se a seguinte oração... etc.»



No índice das matérias ainda se encontram mais: «Para o amor; para curar a cólica; jarreteira para a marcha (oração escrita num papel dobrado para evitar o cansaço... e foi batido o record mundial da maratona!) para levantar todos os sortilégios e encantamentos; contra os lobos, etc.»

Uma oração reproduz as palavras pronunciadas por Adão quando entrou no Inferno e a sua prece para a sua mulher se lhe manter fiel!

QUANDO O FOGO QUEIMA A VOSSA CASA

Um «segredo místico», que é bom e até necessário conhecer, figura na página 146:

Para evitar o fogo que queima uma casa.

«Dizei: que pare, que pare. Esperei por Vós, Senhor, que confundis a vossa glória na eternidade.»

Aqui está, com toda a garantia, a receita que é mais eficaz do que um extintor ou de que uma chamada para os bombeiros!

Ou então, a magia do Enchyridion é uma burla!

No entanto, o fim dos fins, o grande ramalhete, parece estar na página 71, relacionado com um desenho estranho (vide página seguinte): «A presente figura, aumentada quarenta vezes em comprimento, dá a altura de Jesus Cristo (é o título).

Foi encontrada em Constantinopla numa cruz de ouro; quem a trouxer consigo não pode ter melhor protecção; não poderá morrer de morte súbita, nem por fogo, nem por água, nem por flecha, nem por tempestade, nem por veneno, nem com ódios, nem por falso juízo, nem por falsos testemunhos...»

E, como por acaso, esta oração inesperada precede «um exemplar da carta de Abagare, escrita e enviada a Jesus Cristo em Jerusalém pelo correio Ananás»!

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DENISE DE LA CAILLE, A POSSESSA

Em 1972 (depois de Cristo), o ((seriíssimo bispo de Exeter, Robert Mortimer, à cabeça de uma comissão de eclesiásticos ingleses, pediu à Igreja que intensificasse a luta contra a magia negra.

((A presença e o poder dos espíritos malignos», disse Robert Mortimer, ((aumentou e, consequentemente, é necessário criar escolas especiais encarregadas de formar padres capazes de exorcizar os possuídos pelo demónio.»

Em suma, passado o tempo das armaduras, dos palafréns e dos magos, a superstição mantém-se viva no Ocidente cristão. Quase tanto como em 1612, quando os demónios habitavam o corpo de Denise de la Caille, a possessa de Beauvais!

A história aparece num livro da época com o título: ((História verdadeira sucedida no nosso tempo na cidade de Beauvais, referente às esconjuras e exorcismos feitos a Denise de la Caille,

f>ossessa do Diabo, com os actos e processos verbais feitos nos ocais por ordem de monsenhor o bispo, história tão proveitosa como religiosa, cheia de admiráveis e estranhos efeitos dos Demónios.»

O caso de Denise de la Caille é a verdadeira história de uma

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possessa, com a feliz particularidade de que a pobre mulher não foi queimada como feiticeira, mas tratada, com meios empíricos, é certo, mas que provinham da caridade generosa e simples.

Segundo o processo verbal, a possessa era agitada por tormentos horríveis, «principalmente quando ia à igreja fazer a suas preces».

Ficava então sem poder andar, cega, ((algumas vezes aos gritos e berros».

O cura da paróquia levou-a ao seu bispo, René Potier, que aconselhou uma visita «de médicos e pessoas conhecedoras do assunto».

Jean Chéron, teólogo, reconhece então que o mal não é só corporal, o que o médico especialista consultado aprova: ((Agitações exorbitantes, que a arrastam não naturalmente; reconhecendo assim que tais esforços não podem ser feitos por humana criatura, e por também ter julgado, com o parecer de várias outras pessoas, que havia algumas agitações de espíritos malignos...»

Médicos e padres põem-se assim de acordo para julgar Denise de la Caille, possuída por um demónio, ou por vários, e tomam a decisão de a confiar a um exorcista da ordem dominicana, chamado Laurent le Pot2.

BERRA E VOA

No primeiro dia de Agosto, na igrejinha de Saint-Gilles, o padre começa, em público, a série de exorcismos: intima o espírito do mal, causa das agitações e das convulsões, a comparecer diante de si.

Interroga-o em latim, pergunta-lhe o nome e se actua só ou com outros demónios.

Em resposta, o padre Le Pot recebe uns salamaleques e depois um nome: «Belzebu».

No dia 9 de Agosto, durante a missa do Santo Sacramento,

s Relatado pelo Dr. V. Leblond em Denise de la Caille, la Possédée de Beauvais, Paris, 1908, in 8.°.

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«perguntaram-lhe se havia algum feiticeiro ou sortilégio que o impedisse de sair, e não quis dar outra resposta além de uns berros, elevando-se com uma força incrível nos ares, sem que aqueles que o seguravam o pudessem sequer impedir.»3



Dois dias depois, o padre exorcista «pegou em fogo e em enxofre bento e queimou logo em seguida o nome desse Demónio: interrogado depois sobre a razão da sua entrada disse, gritando e aos berros, por nove vezes: Nolo».

Em cada sessão o Demónio é interrogado; perguntam-lhe o nome, que é Lisis, mas quer saber-se o nome dos outros demónios que possuem o corpo da infeliz. As respostas são completamente insensatas:

«Brissilolo, Brissilulu, Brulu, Campala. Esta pedra muito atormentará Denise; meter-lhe-ei os dentes na terra; tenho-a; atormentá-la-ei pela frente, pelas costas, por dentro e por fora.»

E depois, olhando para os dois padres, disse: «Barbas porcas, sois um pelo outro, ao passo que eu não tenho ninguém do meu lado. Fiz tremer o mundo, porque mandei partir as tábuas de Moisés, fazendo as pessoas dançar à volta de uma estátua. Também mandei Daniel para a fossa dos leões...»

Quando está em transe, Denise aproveita para, conscientemente ou não, se vingar da religião católica, que a oprime, e dos vizinhos de quem não gosta: grita na igreja, atira a vela, insulta os padres, recusa a água benta, diz que o seu vizinho Griphon «era um bom estupor e um devasso patife e que não é digno de lhe beijar o rabo».

Tenta comprometer várias outras raparigas de Beauvais dizendo que têm comércio com Belzebu, mas o padre Le Pot é um padre inteligente e não se deixa enganarl

SATANÁS AMEAÇADO DE EXCOMUNHÃO

Sentença proferida contra os demónios pelo padre exorcista: «A 12 de Dezembro apareceu o Demónio, no início do

3 É preciso ler sabendo-se que o autor identifica, agora, a doente ao Demónio. De uma certa maneira, quem berra é o Demónio e não Denise.

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esconjuro, e, vendo-o, o padre ordenou-lhe que ouvisse a sentença e o seu julgamento:

Nós, grandes vigários de monsenhor o bispo e conde de Beauvais, prescrevemos, queremos, mandamos e ordenamos ao demónio Lisis que desça aos Infernos, saia do corpo da dita Denise de la Caille e nunca mais lá entre.

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Três assinaturas do Diabo

Prescrevemos, queremos, mandamos e ordenamos que Belzebu, Satanás, Matelu e Briffault, os quatro chefes e as quatro legiões que estão a seu cargo e sob os seus poderes, bem como todos os outros, tanto os que estão no ar, como na água, no ferro, na terra e em outros sítios, que ainda tenham qualquer poder sobre o corpo e no corpo da dita Denise de la Caille, que compareçam agora e sem demora sob pena de excomunhão, e de penas infernais, e se não comparecerem agora neste corpo ponho-os e atiro-os para o reino dos Infernos, para serem crucificados e atormentados mais do que o habitual, e se agora não me obedecerem depois de três vezes os ter chamado. Prescrevemos,

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queremos, mandados e ordenamos que cada um deles receba as mesmas penas acima impostas três mil anos depois do julgamento. Também proibimos Lisis e todos aqueles que tiverem possuído o corpo da dita Denise de voltarem a entrar noutro corpo, quer de criaturas racionais, quer de outras, sob pena de serem crucificados, na altura da sua posse, por uma pena acidental.»



Compreende-se que, ameaçados de serem excomungados ou lançados aos Infernos, Belzebu e Satanás, assustados, tenham preferido declarar-se vencidos!

BELZEBU, SATANÁS, LISIS, MATELU E BRIFFAULT ASSINAM A CAPITULAÇÃO!

Sequência do processo verbal: ((Seguidamente, o dito Lisis, espírito maligno, prestes a sair, assinou estes papéis; aparecendo Belzebu, Lisis retirou-se pelo braço direito e Belzebu assinou também; depois de este se retirar, veio Satanás e assinou por toda a sua legião, saindo pelo braço esquerdo; veio a seguir Ma-telu, que assinou por toda a sua e retirou-se pela orelha direita, tendo depois aparecido o incontinente Briffault, que assinou pela sua, e saíram os cinco, deixando a criatura como morta durante seis horas ou mais4.

Assinado: Lisis; assinado: Belzebut; assinado: Satanás; assinado: Matelu; assinado: Briffault.))

Como todos sabem, os demónios respeitam as suas assinaturas e o processo verbal atesta que Denise de la Caille, depois desta capitulação, nunca mais foi possuída por eles!

O documento é, além disso, autenticado por uma legião de prelados e de testemunhas que assinaram ((as presentes, no dia vinte e sete de Abril de mil seiscentos e treze».

Estamos reconhecidos ao bispo de Beauvais e ao corajoso padre Le Pot por terem agido com humanidade em relação a Denise de la Caille, mas já no século xvi, e muito antes, porque

* É evidente que ainda aqui se identifica a doente com os demónios, mas perguntamo-nos até que ponto os inquisidores acreditavam naquela comédial

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se pode ir até à Antiguidade grega, havia espíritos esclarecidos que não ignoravam que o Diabo era tão inexistente como o seu bando de demónios!



Hoje em dia sabe-se que o estar possesso, a maior parte dos transes, dos êxtases e das convulsões são histerias, a que antiga mente se chamavam «os furores uterinos».

A MALDIÇÃO QUE MATOU PAPUS

Pierre Mariel, num notável trabalho sobre as lendas e as anedotas dos cemitérios de Paris5, cita uma relação do doutor Philippe Encausse, filho do escritor ocultista Gérard Papus.

«Quinze dias antes de morrer», escreve P. Encausse, «o meu pai foi vítima de uma feitiçaria que ele mesmo dizia ser trabalho do bom.

Numa noite, espetaram agulhas na porta de entrada do nosso apartamento. Dispostas habilmente, formavam uma cruz e um caixão...»

((Devem voltar mais duas vezes», teria dito Papus, «mas já terei partido com certeza. Não me é permitido defender-me.» No entanto, traçou um triângulo de protecção.

Na semana seguinte, foi feito na porta o mesmo desenho. Alguns dias mais tarde, ao subir as escadas, Papus cambaleou, cuspiu sangue e caiu, aterrorizado pela maldição... que não passava de uma tuberculose pulmonar, com toda certeza.

A MORTE DE FABRE D'OLIVET

Fabre d'01ivet, apreciado autor do livro Les Grands Initiés, era um escritor de talento, um pouco mágico, cujo espiritualismo exagerado lhe transtornou o cérebro.

Em 1800, segundo escreve Pierre Mariel, casou-se com uma

5 Pierre Mariel, Guide Piltoresque et Occulte des Cimetières Parisiens, ed. La Table Ronde, Paris.

primeira mulher que se manteve em contacto espiritual com ele depois de morrer, até lhe fazer crer que era um hierofante com a missão de «revelar os mistérios mais profundos do homem, do universo e de Deus».

Em 1805, casou-se pela segunda vez com uma mulher sensata, que se divorciou para não se envolver demasiado na diabólica via para onde o seu hierofante marido a levava.

Fabre d'01ivet encontrou no entanto uma outra mulher--médium que lhe consentiu que se entregasse a especulações me-tapsíquicas tão loucas como sangrentas.

Morreu «fulminado aos pés do altar secreto que erguera na sua residência parisiense, na Rua des Vieilles-Tuileries, 35 (actualmente, Rua du Cherche-Midi)».

Segundo algumas crónicas, foi tomado de apoplexia quando celebrava a sua missa; Saint-Yves d'Alveydre pensa que se suicidou.

De facto, o mago foi encontrado com um fato de linho, comprido, e um punhal enfiado no peito, vítima dos seus êxtases ou das forças desconhecidas que imprudentemente invocara.

SACRILÉGIO EM RAIVAVAÉ

No princípio do século xix, os missionários cristãos da Polinésia conseguiram converter à sua religião Variatoa, ou Po-maré II, rei do Taiti.

Isso foi o começo de uma campanha de vandalismo e de destruição dos ídolos de pedra que os indígenas desde há séculos veneravam.

Em 1820, das centenas de estátuas que enchiam a ilha de Raivavaé, só três restavam; duas foram transportadas mais tarde para Papeete e a terceira ficou na ilha.

Esse ídolo ou tiki representa o deus Tetuaranui e mede apenas oitenta centímetros de altura, o que é incompreensível quando se sabe que os antigos polinésios afirmavam descendei de uma raça de gigantes.

Era entre os indígenas mais altos que o chefe de Raivavaé

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era escolhido, e devia passar a prova da toesa (medida), no marae de Rangiura6.

No centro do marae está um menir, com dois metros de altura: é a pedra para medir os chefes.

((O candidato à prova, para ganhar, devia ter uma altura tal que a pedra lhe ficasse debaixo da axila. O túmulo do rei Mahaota, com três metros, dá uma ideia da estatura impressionante daquele que ali repousa!»7

Na tradição popular, os tikis são habitados durante algum tempo pelo espírito de um morto. Só os membros da família lhe podem tocar, e ai dos estrangeiros e das pessoas mal-intenciona-das que ousem violar a proibição: a morte é o castigo que os espera em pouco tempo.

Alguns tikis, pelo contrário, sabem ligar-se ao seu proprietário, se o consideram de boa fé, honesto e digno de confiança; nesse caso a sua influência é benéfica.

MO ANA, A ESTATUA MALÉFICA

A 12 de Novembro de 1933, o comandante de uma goleta, Stevens Higgins, e ò seu imediato, Tetua Mervin, levaram para Papeete os dois grandes tikis de Raivavaé, que foram primeiro postos diante do Palácio da Justiça, e depois colocados em frente do antigo museu de Mamão.

Pouco depois, a goleta de Higgins naufragou; o comandante salvou-se mas dias mais tarde morria com uma doença desconhecida.

Quanto aos operários que procederam à instalação dos tikis, quase todos morreram de um modo acidental ou imprevisível.

Cada uma das duas estátuas tem um nome: Heiata para o homem e Moanaheiata para a sua companheira, a que chamam Moana para simplificar.

s Um marae é uma espécie de altar ou de estrada construída de pedra. É o ahuda da ilha de Páscoa.

7 Esta documentação foi-nos fornecida pelos nossos amigos correspondentes em Papeete: Janine Bosc e M. Graindorge.

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Heiata está «morto»; mede dois metros e dezassete centímetros, pesa novecentos quilos e está castrado8.



Moana está «viva», mede dois metros e dois centímetros e

{>esa dois mil cento e dez quilos. Ela é quem tem a carga e quem anca as maldições. Particularidades: tinha primitivamente seis dedos em cada uma das mãos e umas inscrições indecifráveis gravadas nas costas.

Estas estátuas são talhadas numa rocha macia, uma espécie de basalto vermelho, como os gigantes da ilha de Páscoa.

Quando em Raivavaé, estavam colocadas de frente para o norte e eram consideradas génios da areia e do rio, que protegiam contra as usurpações do mar.

Quando foi projectada a construção do hospital em Mamão, o tabo que as estátuas representavam começou a causar aborrecimentos: nenhuma empresa privada aceitou desenterrá-las para as levar para outro lado.

Chamou-se então a Marinha, que ia executar o trabalho, quando um comandante na reserva, em Taiti, onde os militares dificilmente são aceites, dissuadiu a autoridade naval de violar as crenças dos indígenas.

Finalmente, os trabalhos públicos foram encarregados da operação, que se efectuou em Junho de 1965, com dez autóctones. Os tikis foram definitivamente colocados diante do Museu Paul-Gauguin, em Papeari, a cinquenta e cinco quilómetros de Papeete.

A maldição voltou de novo a exercer-se. O contramestre das obras morreu com uma crise cardíaca; um dos seus empregados desapareceu na lagoa durante uma pescaria de piroga; um homem que havia escarnecido dos tikis durante o seu transporte (e parece até que teria dado um pontapé em Moana) matou-se de moto.

Desde então deixou de se ouvir falar dos tikis, mas nenhum velho taitiano ousaria tocar-lhe ou aproxímar-se a menos de seis passos.

* Como Heiata está «morto», ou seja, não é habitado por um espírito, não precisa dos seus atributos sexuais. Foi castrado por essa razão.

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Moana, o íiki portador de azar de Taiti



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«Se, na Polinésia, encontrardes uma pedra trabalhada de forma antropomórfica, não lhe toqueis», dizem os indígenas.

((Se a desejardes, é preciso primeiro informares-te da sua família de origem, levá-la em seguida a um feiticeiro para saber se o tiki está ainda vivo.

Se estiver, o feiticeiro ficará com a estátua em casa o tempo necessário para expulsar o espírito que a habita. Em seguida, sem qualquer receio, podes receber a tua aquisição.»

BOSSUET, O FEITICEIRO NEGRO

Há muito mais feiticeiras do que feiticeiros, talvez por as mulheres carregarem em si o pecado original legado por Eva ou por Lilith.

No século xvu, o terrível e maquiavélico Bossuet, «a águia de Meaux», era muito mais diabólico do que as infelizes que ele condenava à fogueira.

Não só foi um dos principais responsáveis da revogação do Edicto de Nantes, tão funesto para a França, mas na própria semana em que os protestantes foram expulsos ele apropriava-se dos seus despojos.

((Este facto odioso é comprovado pelo despacho oficial, de 29 de Outubro de 1685, Fontainebleau.»

Ainda mais repugnante: mandou internar umas infelizes cujo único crime era o de serem obstáculos para as suas ambições.

Um despacho de 28 de Outubro de 1699, dirigido por Pot-chartrain a Phelipeaux, grande vigário de Meaux, contém esta frase significativa: «Há também, na mesma paróquia de Ussy, duas raparigas, cujo nome é Molliers, que Monsenhor de Meaux (Bossuet) julga necessário prender...»

A odiosa personagem, numa das suas delirantes prédicas, pretendeu que uma conspiração de cento e oitenta mil feiticeiras ameaçava o futuro da Europa, e como bom cristão que era propôs que as queimassem todas juntas numa imensa e única fogueira!

Bossuet utilizava a tremenda magia do seu verbo para lison-

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jear os poderosos, mas também para levar a miséria, a injustiça e a morte aos infelizes e aos deserdados.

A sua magia negra acabou por se virar contra ele, e morreu com a doença da pedra, depois de dois anos de justos e cruéis sofrimentos.

O Diabo levou a sua alma.

UMA FOGUEIRA PARA O ANO 2000

Actualmente, apesar de ter mudado de rosto e de forma, a feitiçaria continua viva.

A 25 de Novembro de 1970, o escritor japonês Yukio Mis-hima fazia hara-kiri em Tóquio e, em seguida, era decapitado pelo seu adjunto Morita, que depois abriu também o ventre, sendo por sua vez decapitado por Masayoshi Koga.

Tratava-se de celebrar um rito segundo o espírito dos samurais, aristocracia militar do Japão, sempre fiel a um cerimonial de vários séculos, que, de facto, é magia negra.

Haveria ainda em Paris dez mil feiticeiros, dizem umas estatísticas, mas incluem-se aí a maior parte dos empíricos: videntes, cartomantes, astrólogos, radiestesistas, que nada têm a ver com feitiçaria.

Em 1971, em Saigão, uns feiticeiros ou crentes na feitiçaria lançaram umas crianças a um afluente do Mekong para conjurar os malefícios de um monstro aquático, que exercia as suas devastações no momento da monção!

O jornal cambojano impresso em língua francesa Le Cour-rier Phompenhois anunciou, em Setembro de 1970, que o Viet-cong tinha utilizado para a sua guerra, e sobretudo nos combates de Prek Tamaeak, umas guerreiras escolhidas pela sua beleza e pela perfeição da sua anatomia.

Nuas da cabeça aos pés, estas combatentes de charme tinham uma espingarda, mas a sua missão era sobretudo a de «distrair» o inimigo.

Os Cambojanos estão convencidos de que a presença destas mulheres neutraliza o talismã que os faz invulneráveis quando o usam ao peito.

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O jornal France-Soir de 23-9-71 noticiou durante muito tempo a crise de loucura histérico-mística de que foi vítima uma jovem suíça da Fraternité Blanche Universelle do ((mestre» Ouraam Mikhaél Aivanhov.



«Mutilei-me para me punir e me aproximar de Deus», disse a jovem discípula dos Adoradores do Sol, que se desfigurou cruelmente, perto de Fréjus... ((No decorrer das suas investigações de terça-feira», prossegue o France-Soir, «o comissário Gonzalès soube que, no passado mês de Agosto, um homem se havia suicidado nessa mesma zona. O inquérito que na altura se fez concluiu pelo suicídio de um desesperado...»

A rapariga, Diane Bontey, feriu-se horrivelmente nos olhos, nos pés e no peito.

Os polícias descobriram-na, completamente nua, a 15 de Setembro, não longe de Bagnols-du-Var, na floresta.

Feitiçaria? Histeria? Estes nossos tempos agitados, condicionados por governantes e por pensadores sem consciência, são propícios, sem dúvida mais do que na Idade Média, a todos os excessos do intelecto e dos sentidos9.

Satanás conduz a festa com os seus hippies, os seus drogados, os seus magos e os seus mercenários votados ao ouro e ao poder. Os pobres feiticeiros de outrora não passavam de aprendizes, os mestres é que hoje em dia oficiam e são eles que prometem a Moloch o grande genocídio universal do ano 2000.

' A medicina não escapa a estas desordens, que o Dr. Grégoire Jauvais denunciou no seu livro Erreurs Scandaleuses des Théories Officielles em Matière de Santé. Ed. «Série Radieuse», 34, Rue Porte Dijeaux, Bordéus.

OS MISTÉRIOS DO CÉU

CAPÍTULO XXIII AVENTURAS NO CÉU

SE a origem do homem é extraterrestre ou se a Terra foi povoada por seres vindos de um outro planeta, é lógico pensar que a primeira terrena, mãe da nossa humanidade evoluída, foi uma criatura seleccionada, escolhida quer

Êela sua capacidade para sobreviver, quer pela sua excepcional eleza.

Já estudámos1 a maneira de se pôr o problema da nossa génese: ou a teoria de Darwin é exacta no que se refere à nossa espécie, e então há pluralidade de mundos habitados, ou então, e é a nossa tese, o homem é um ser excepcional, criado por um feliz acaso, ou uma inteligência superior, e sendo assim deve existir nalgum lado do cosmo a sua Central Iniciática.

É neste sentido que alguns escritores vanguardistas, tais como Gilbert A. Bourquin e Jimmy Guieu2, acreditam em Antepassados Superiores aparecidos outrora para favorecer a nossa evolução e que hoje em dia voltam—ou vão voltar—porque a nossa aventura é fundamentalmente cósmica e conforme ao destino privilegiado que é o nosso.

1 Reler capítulo III: «Os Antepassados Superiores».

2 Gilbert A. Bourquin, VInvisible nous Fait Signe, ed. Robert S. A., 2740, Moutier (Suíça); Jimmy Guieu, Le Retour des Dieux, Les Sept Sceaux du Cosmos, La Voix qui Venait d'ailleurs, etc, romances de antecipação, ed. Fleuve Noir, 69, Boulevard Saint-Marcel, Paris, 13.°.

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Segundo esta óptica, mais racional que a dos pré-historiado-res, o macaco é um animal natural e o homem uma criatura sobrenatural.



Os pré-historiadores, para valorizar as suas teorias, deveriam descobrir crânios humanos que nos relacionassem com antepassados simiescos. Mas não os encontraram, facto estranho, porque esses vestígios desapareceram, ou porque não existiram, ou porque se encontram num outro planeta.

Estas verificações explicam o bem fundado das teses dos que pensam—e são milhões — que a conquista espacial dos nossos dias é a reminiscência de uma emigração longínqua dos nossos antepassados, extraterrestres.

O professor Hurzeler, da Universidade de Viena, sacode o bastião dos ((racionalistas» e dá um primeiro passo nesta direcção quando declara: Não há uma probabilidade em mil que o homem descenda do macaco.

O VALE DAS MARAVILHAS NO MÉXICO

O escritor-arqueólogo Carlos Villanueva, do México, pensa ter feito a descoberta da sua vida, um verdadeiro Vale das Maravilhas, ainda mais interessante do que o da região de Tend, em França.

«É uma zona de desenhos gravados na rocha», segundo diz, ((que se estende por mais de três quilómetros entre San Pedro de las Colónias e a vila de Saltillo (estado de Coahuila).

Em frente à aldeia de San Rafael de los Milagros e na direcção sudoeste, encontra-se uma imensidão de rochedos cobertos de traços, de figuras e de formas geométricas. Pormenor extraordinário: o corpo dos seres humanos está gravado na pedra, mas todas as cabeças estão pintadas; não têm nem olhos, nem nariz, nem boca, e são de forma ovóide ou esférica, com uma espécie de vigia na parte central. Só vejo uma razão para este fenómeno: trata-se de escafandristas ou de cosmonautas, o que de resto explicaria a razão por que várias destas personagens parecem

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Os desenhos rupestres de San Rafael de los Milagros

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voar ou estar em estado de não gravitação, com os pés e as mãos virados para cima.



Também descobri, no mesmo local, espirais, quadrados, círculos e triângulos...»

MENSAGENS GRAVADAS POR EXTRATERRESTRES

Instigado a emitir um parecer, Carlos Villanueva acabou por exprimir tudo o que pensava:

«Vários destes desenhos têm uma semelhança extraordinária com as naves espaciais O. V. N. I., mas nunca é aconselhável, em certos meios, sugerir tais ideias!

No entanto, podem distinguir-se com nitidez umas cúpulas, uns objectos circulares donde saem umas escadinhas e umas formas triangulares com aquilo a que se poderia chamar trem de aterragem.

Vêem-se também uns círculos no chão e marcas de pés que se dirigem para uns esboços de montanhas.

Estes desenhos constituem talvez a prova mais tangível da vinda de cosmonautas extraterrestres ao nosso globo.

A gravura mais sugestiva é a que representa um homem, vestido com um verdadeiro equipamento espacial.

Do centro do capacete do seu escafandro sai uma antena, e dos lados vêem-se uns tubos que parecem estabelecer a conexão do homem com a nave...

Este cosmonauta emerge de qualquer coisa semelhante a uma escotilha e o seu braço direito toca o flanco do engenho, como faz, habitualmente, o condutor de um tanque, de pé na torrinha. À altura da cabeça, e à esquerda, vê-se um objecto ovóide donde saem quatro luzes. Talvez se trate de um O.V.N.I.»

Assim é o texto que nos mandou a nossa amiga e correspondente no México, senhora M. Gaston, segundo as próprias palavras de Carlos Villanueva.

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GIGANTES E COSMONAUTAS

0 Vale das Maravilhas no México ainda não revelou todos os seus segredos, que um outro investigador, o engenheiro Mário J. Donde, de Mérida, no Iucatão, se esforça por lhe arrancar.

Mário Donde descobriu na região de Parras, a poucos quilómetros do «cosmonauta», os corpos de cinco homens, de pé, num vasto túmulo circular.

Os cadáveres, meio mumificados, estavam envolvidos num tecido que parecia ser feito de matéria sintética; eram de estatura gigantesca — no mínimo dois metros e meio — e tanto quanto se podia julgar tinham cabelos louros3.

As suas características humanas, muito diferentes das nossas, levam a pensar que estes homens não pertenciam à nossa raça e que eram talvez extraterrestres.

Além disso, outras descobertas e umas tantas tradições locais apoiam esta hipótese.

Um camponês da região, que fazia explorações na montanha em companhia de alguns amigos, conta que na serra das Delícias, na estrada que vai de San Pedro a Cuarto Cienagas, havia encontrado numa gruta o esqueleto de um homem que media entre três e quatro metros de altura.

Os exploradores, que queriam passar a noite na gruta, partiram o esqueleto em bocados e deitaram-no para fora do seu refúgio.

Uma família de camponeses possui uns enormes dentes, que diz ter arrancado ao maxilar de um homem gigantesco.

Em Santa Eulália, aldeia situada na estrada de San Lorenzo, conta-se que há muito, muito tempo, a região era ocupada por uma tribo de génios-feiticeiros que realizavam milagres «maiores que os dos nossos dias».

1 O que os assemelha ao Iniciador divino Quetzalcoatl, que era um deus vindo do planeta Vénus. Os Antigos Maias descrevem-no grande, com barbas, louro e de olhos azuis. Uma mecha dos seus cabelos lourissimos está conservada numa igreja do México. Quetzalcoatl, a «serpente voadora», era um viajante do espaço.

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Por exemplo, pegavam nos ossos de um touro, punham-nos na terra, cumpriam um certo rito e o animal ressuscitava.

Mário J. Donde vê nisso a transmissão truncada, deformada, de um antigo conhecimento científico.

A tribo dos génios-feiticeiros desapareceu um dia na montanha de Santa Eulália, que passou a ser encantada e onde podemos ver, depois disso, uma multidão de homens pequenos desenhados nas rochas.

Mário Donde descobriu outros desenhos gravados, muito maiores, mas que só podem ser observados a umas certas horas e com uma certa luz.

Em Saltillo (a doze quilómetros), podemos vê-los das sete às oito horas, e na região de Parras, mais a oeste, os momentos favoráveis são entre as nove e as onze horas; distingue-se então com bastante nitidez um homem, de pé, metido num escafandro com vigia.

A opinião da senhora M. Gaston é que estas inscrições, visíveis só a determinadas horas, poderiam ser mensagens ou sinais destinados a viajantes do espaço.

OS DEUSES VOADORES DA AUSTRÁLIA

A noroeste da Austrália, nos Ungarinyin, o arqueólogo Elkin descobriu umas wondjina (galerias de génios) onde estavam pintados na rocha uns rostos sem boca como as do México e das cerâmicas de Glozel4.

Lévy-Bruhl5 nota que wondjina também significa: «que tem o poder de fazer chuva», o que lembra os deuses venusianos da mitologia assírio-babilónica, deuses cosmonautas que vinham ao mesmo tempo que as chuvas fertilizantes ou então que as podiam provocar mediante ordens6. ■

4 Os rostos sem boca representam geralmente a morte.

5 Lévy-Bruhl, La Mythologie Primitive, Librairie Félix Alcan, Paris, 1936.

6 O problema destas chuvas que acompanham a vinda dos deuses venusianos, sobretudo da Astart fenícia, não está completamente resolvido.

Simbolicamente, os Iniciadores, que ensinavam uns segredos científicos até então desconhecidos, traziam uma riqueza comparável à de uma chuva benfei-

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O cosmonauta de San Rafael descoberto por Carlos Villanueva

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Estas wondjina têm na cabeça uma pala resplandecente, o gari, que, segundo os indígenas, é um aparelho muito leve, que oferece ao vento uma vasta superfície.



Nos Majo, o gari que o feiticeiro usa torna-o semelhante a um homem voador, e de facto o aparelho, que muitas vezes tem três a quatro metros de altura, sugere os primeiros engenhos aéreos e o planador de Lilienthal, que voou em 1896.

Wondjina tem o seu equivalente: ungud, que significa «serpente arco-íris, serpente voadora», e que se refere ao período mítico dos deuses que conhecem todos os segredos.

É difícil não ver aí a reminiscência de uma imiscuição de extraterrestres I

Os deuses sem boca e, mais ainda, o cosmonauta de San Pedro de las Colónias fazem pensar no deus das riquezas dos antigos Hindus: Couvera, espécie de monstro disforme — sobretudo se estava revestido de uma carapaça—e que tinha, no sítio dos olhos, uma mancha amarela.

Couvera deslocava-se num magnífico carro chamado pouch-paka, que ia sozinho, tanto por terra como pelo ar, ao gosto do condutor.

LUAS, SÓIS E RODAS NO CÉU

Os ((prodígios no céu» impressionaram fortemente os povos da Antiguidade, que davam destes fenómenos uma explicação à medida dos seus conhecimentos.

No De Prodigiis, de Julius Obsequens, escritor latino do século iv, fala-se de três luas que apareceram no céu do mar Egeu e da horrível detonação que acompanhou a aparição de um globo de fogo ((do lado de setentrião».

tora. Num país desértico, a água é mais preciosa do que o ouro. Por outro lado, é bem conhecido que máquinas voadoras — as dos cosmonautas antigos — podiam dissolver nuvens «m chuva, mas, na nossa opinião, a verdadeira explicação é a seguinte: a irrupção do planeta Vénus no nosso sistema solar provocou, dizem os textos, incêndios e dilúvios.

Estes dilúvios, que coincidiam com a chegada dos deuses — ou que os precediam—, estão na base da tradição.

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«Na Tarquínia foi vista, de vários sítios, uma tocha ardente cair do céu, numa queda maravilhosamente súbita. Ao poente, um corpo esférico parecidíssimo com um escudo foi visto a seguir de ocidente para oriente.»



Uma outra vez, foi em plena noite que apareceram dois sóis, e, algum tempo depois, um brandão de fogo em forma de tocha.

Phénomènes Spatiaux, órgão do G. E. P. A.7, transcreve, segundo a Histoire Naturelle de VAir et des Météores do abade Richard (1771), o texto de um célebre marinheiro francês, Claude de Forbin, quando viajava de noite junto ao cabo Pássaro, na Sicília.

Tinham acabado de o advertir de que um novo sol se mostrava no céu.

((Subi», diz ele, «à coberta, e efectivamente vi um grande fogo que ardia no ar, e que brilhava o suficiente para se poder ler uma carta. Apesar de o vento ser muito violento, este meteoro não se mexia; ardeu durante aproximadamente duas horas e desapareceu apagando-se pouco a pouco.»

Ovídio, nas suas Metamorfoses, diz que a Via Láctea é a estrada que os deuses tomam para irem para os seus palácios, e Esquilo, no Prometeu Agrilhoado, escreve que Oceano voou montado num pássaro sem rédeas, de asas ágeis, que numa nota é classificado de «carro alado».

Os Antigos, como nós, viam portanto estranhas coisas no céu e não eram nada hostis à ideia de planetas habitados por uma certa categoria de seres.

Os Mexicanos sabiam que os seus deuses Quetzalcoatl e Huitzilopochtli eram venusianos que iam até ao seu planeta empregando a máquina voadora a reacção, a qual muitas vezes desenharam8 nos seus mais antigos manuscritos.

7 Ver Phénomènes Spatiaux, 69, Rue de la Tombe-Issoire, Paris, 14.°, Dezembro, 1971.

8 Reproduzimos em O Livro dos Senhores do Mundo, ed. Livraria Ber-trand, a laje de Palenque, que representa um cosmonauta maia manobrando uma cápsula, e os principais desenhos de hélices e de máquinas voadoras do Manuscrito Troano e dos Códices de Dresde, Perez, Magliabecchiano e Cortesianus. Ver cap. XIII, pp. 275-306.

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Quando os deuses cosmonautas partiram, a memória esfu-mou-se e em vez de desenharem uma máquina com hélice, como no Manuscrito Troano ou nos Códices de Dresde, Perez e Corte-sianus, eles representaram a sua forma romantizada; uma serpente voadora, com plumas e flechas que simbolizavam a deslocação no espaço.

Os Celtas, do mesmo modo, imaginaram Abaris (Apolo) a viajar pelos ares, a cavalo numa flecha.

Neunis, cronista inglês do século III, menciona nos seus textos a presença de «misteriosos navios demoníacos vogando pelos ares».

O escritor bretão Claude Yvon fala de um manuscrito onde o tema é a roth ramarach, ou roda em redemoinho, a voar por cima de terras e oceanos.

«Um dia, despedaçou-se em terra, atraída pelos eflúvios mágicos que emanavam do pilar de pedra (menir) que estava situado numa floresta, perto do actual Tipperary.»

É possível que a roda tenha outrora sido venerada, não porque representasse o globo solar, mas talvez porque as rodas de ouro que navegavam no céu tinham transportado deuses.

Não foi esse o caso da roda de Ezequiel, das rodas célticas, bascas e hindus?

AS «BOLAS» EXTRATERRESTRES DE MANILA

Os lgorots, habitantes das províncias montanhosas do Norte das Filipinas, construíram a «oitava maravilha do Mundo»: os imensos arrozais em terraços de Ifugao, que têm dez vezes o comprimento da Grande Muralha da China, ou seja, trinta mil quilómetros.

As tradições locais contam que uns deuses, os Kabunians, viveram durante quinze mil luas neste país.

Tinham vindo do céu, a bordo de naves voadoras em forma de bolas, que aterraram nesses terraços.

Depois, um dia, as bolas voltaram a partir; os lgorots esperaram por elas mais de mil luas, mas os deuses cosmonautas não regressaram.

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Na tradição lituana, a Via Láctea chama-se Pauksciu Kelias, o Caminho dos Pássaros, ou seja, dos pássaros... de ferro, como dizem os Esquimós!



UMA ILHA FANTASMA NO RADAR

A relação que um radiotelegrafista de uma linha transatlântica fez chegar às nossas mãos não parece referir-se propriamente ao enigma dos O. V. N.I., mas esclarece de forma especial as observações feitas por radar, tão preciosas para detectar os engenhos voadores.

O incidente deu-se numa noite de Outubro de 1970, ao largo das ilhas Canárias.

Eis o que o nosso correspondente nos escreveu:

«Estou de quarto ao posto de rádio quando o oficial de serviço me manda chamar.

Navegamos numa rota de muito movimento, longe de terra e, no entanto, o radar assinala diante de nós, a aproximadamente vinte e cinco milhas, uma ilha que, entenda-se, não figurava na nossa carta marítima. Um rápido controle convence--nos de que não cometemos nenhum erro de navegação, e essa foi a razão que levou o oficial de dia, sem saber o que fazer, a pedir a minha opinião.

Tratar-se-ia de uma interferência ou de uma falha do material? Sou positivo: o radar funciona perfeitamente e se, com rigor, lhe pode acontecer não indicar um eco, é-lhe impossível reflectir o que não existe.

Eliminamos o problema das interferências com outros radares, porque nesse caso os falsos ecos ver-se-iam sob a forma de rastos luminosos e não apareceriam sempre no mesmo lugar no écran, de uma rotação à outra. Além disso depressa desapareceriam, e este fenómeno persiste e vai durar à volta de duas horas. Sendo a visibilidade medíocre não conseguimos ver a ilha, que, no entanto, vem para nós à medida que avançamos. Se é real, vamos, de um momento para o outro, chocar. Distinguimos com nitidez os pormenores típicos de uma terra recortada e monta-

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nhosa, com uma dezena de milhas de comprimento, segundo os nossos cálculos.



Conhecendo muito bem a nossa rota e sabendo que não pode haver uma ilha naquele sítio, mantemo-nos no posto como se de nada se tratasse e não avisamos o comandante, mas continuamos ansiosos!

Quanto mais nos aproximamos, mais os ecos são nítidos. Distinguimos agora um cabo e uns maciços montanhosos.

Estamos pertíssimo do obstáculo e, no entanto, diante de nós, ante os nossos olhos, só o mar livre se estende!

Estamos prestes a dar uma guinada, mas mudar de rota para evitar uma ilha que não existe é uma história de malucos!

Vamos lá explicar isto!?

A uma milha de distância do obstáculo, a imagem desaparece lentamente e passamos no local exacto do eco sem reparar em nada de anormal!»

ACONTECIMENTOS ESTRANHOS NO MEDITERRÂNEO

M. L., de quem recebemos esta observação certamente verídica, testemunhou, em 1969, um outro fenómeno que poderia desta vez estar em relação directa com os O. V. N. I.

«Tudo se passou em Julho de 69, no Mediterrâneo, e eu estava a bordo de um navio de cabotagem.

Como no incidente passado no Atlântico, sou chamado pelo oficial que vigiava o radar: um eco acabava de atravessar o écran.

Quando cheguei diante do aparelho não havia nada de visível, mas de repente formaram-se vários ecos, deslocavam-se em formação e traçavam no écran uma estrada que percorriam a uma velocidade inimaginável.

Fizeram meia volta, voltaram em todos os sentidos ao radar e a manobra durou vários minutos.

Por um rápido e aproximativo cálculo avaliámos a velocidade: aproximadamente dez mil quilómetros por hora!

Por várias vezes passaram diante do navio, mas nada vimos a olho nu e nada ouvimos.

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Vínhamos de Antibes, íamos para Lavera (Berre) e passámos entre a ilha do Levante e o cabo Cicie. Ora, nessa noite, precisamente no local onde vimos os ecos, dois petroleiros de grande tonelagem chocaram a toda a velocidade. Houve vários mortos, entre eles mulheres que viajavam com os respectivos maridos. A visibilidade era excelente e os aparelhos de navegação estavam em óptimo estado. Quando fizeram o inquérito, o incidente pareceu incompreensível.



Foi nesta altura, lembro-me muito bem, que o primeiro homem pousou na Lua. Alguns dias antes, para precisar a data.»9

Pensamos que estas narrações sinceras podem ser úteis para o estudo do fenómeno dos objectos voadores não identificados e das observações por radar.

OS RADARES NÃO SE ENGANAM, MAS...

Em princípio, um radar dá sempre o eco de uma presença real, mas o objecto, em certos casos, pode não ter qualquer consistência apreciável.

Muitas vezes, trata-se de formações cerradas de electrões e de iões, que se produzem na atmosfera. >

Estas espécies de nuvens eléctricas, quer luminosas, quer invisíveis, são produzidas pela energia proveniente dos planetas, sob a forma de ondas hertzianas.

As ondas de luz e de calor são assim transformadas por um mecanismo interno e reflectem as ondas do radar. Podem por isso emitir radiações que representam o mesmo papel, sem que seja possível distinguir no écran se a imagem provém de um meteorito, de uma nave, de um avião ou de um amontoado de partículas.

No dia 24 de Novembro de 1960, o chefe da base americana de Thulé, na Gronelândia, esteve quase a carregar no botão

' O primeiro voo à Lua efectuou-se no dia 21 de Julho de 1969, com o cosmonauta Neíl Armstrong.

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vermelho, que teria desencadeado uma guerra atómica, porque os radares do seu posto registavam as imagens de dezenas de cápsulas intercontinentais que se dirigiam para os Estados Unidos.

Felizmente que este militar cauteloso teve o bom senso de proceder a umas verificações que permitiram explicar o fenómeno: a emissão de ondas-rádio da Lua, nessa noite, era particularmente intensa e tinha-se desenhado nos écransl

Todos os planetas e o Sol, em certas ocasiões, podem produzir o mesmo fenómeno, que é bem conhecido dos especialistas.

Por um excepcional acaso, as imagens dos radares de Thulé tinham a forma de cápsulas!

O MOTOR SEM CARBURANTE DE VAN DEN BERG

O engenheiro sul-africano Basil van den Berg estava, em 1962, tão convencido da autenticidade dos discos voadores que, partindo de objectos e de mensagens extraterrestres, muito contestáveis, inventou e construiu um motor sem carburante, ao qual o hebdomadário Stem, de 29 de Abril, consagrou um longo estudo.

Tratava-se de um engenho antigravítico que Van den Berg se propunha ir experimentar no México, por motivos que não justificou10.

Contudo, desde o dia em que a sua invenção começou a ser conhecida, desapareceu sem deixar rasto.

Este curioso e talvez, também, dramático incidente foi interpretado de diversos modos por aqueles que seguiam os trabalhos do engenheiro, e murmurou-se que tinha sido levado por seres estranhos ao nosso planeta. Outros propuseram, com um ar

10 Relatado por J. G. Dohmen no seu livro A Jdentifier et le Cas Adamski, ed. Travox, 26, Av. de 1'Impératrice, 64, Biarritz.

Consideramos este trabalho como o melhor já consagrado ao fenómeno dos O. V. N. I.

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entendido, que estaria pura e simplesmente sequestrado por um poderoso grupo industrial, o que deixaria supor que o problema dos O.V.N.I. e das viagens interplanetárias interessa, muito mais do que se julga, os meios científicos do nosso globo.

De resto, há fotografias de certos elementos do motor sem carburante,

CAPÍTULO XXIV

AS SOCIEDADES SECRETAS EXTRATERRESTRES

COM razão ou sem ela, há muita gente que acredita que extraterrestres vivem entre nós. É uma hipótese difícil de rebater, mas impossível de provar. Estamos pessoalmente em relação com várias personagens que se pretendem estrangeiros na Terra, ou que dizem ter ido a um outro planeta.

Porque esse fenómeno invade os nossos dias e porque-é necessário reflectir nele para se ser objectivo, resolvemos incluir no dossier do insólito o caso do misterioso senhor Mn Y, logo conhecido por Emen Y.

A AETHERIUS SOCIETY

Será Emen Y verdadeiramente um representante oficial do planeta Baavi de Próxima do Centauro? Nunca o saberemos ao certo!

O seu delegado em França ministra um ensino científico e, simultaneamente, espiritualista, que tem a simpática particularidade de ser gratuito.

Em Rambouillet, René D. afirma que é o único representante autorizado dos extraterrestres que se manifestam na Terra,

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mas temos boas razões para acreditar que a personagem é vítima de uma imaginação desordenada.



Pretende ele que «as altas potências extraterrestres e operárias cósmicas (sic) trabalham para Nosso Senhor Jesus Cristo» e exigem a demissão do presidente da República, do Governo e das duas assembleias!

Em Dax, uma personagem misteriosa encarnou—diz ele — na pele de um Terreno. Só se mostra a um pequeno grupo, a quem revela a magnificência da ciência do seu planeta.

A Aetherius Society, Aetherius House, 757 Fulham Road, Londres S. W. 6, é um círculo de vocação metapsíquica dirigido pelo doutor George King, iogi e professor de ciências ocultas, nascido em 1919 no Stropshire, em Inglaterra.

Corresponde-se telepaticamente com extraterrestres e visita planetas «em estado de projecção do seu corpo físico».

Das suas viagens, o doutor King traz segredos científicos cuja natureza só divulga aos seus aderentes: a teleportação, a utilização dos radiónicos, a possibilidade de viajar a uma velocidade quatro milhões de vezes maior que a da luz, o controle perfeito das forças cósmicas, etc.

Os Venusianos, segundo ele, têm o poder de alterar o lugar que os planetas ocupam no sistema solar.

Os Venusianos e os Marcianos, se viessem visitar a Terra num estado dito «terceiro aspecto», teriam à volta de dois metros e trinta centímetros de altura, a pele cor de canela, cabelos compridos, olhos azuis e um fato feito de uma única peça.

Em Vénus, os animais, e sem dúvida que também as pessoas, têm uma temperatura interna de cento e dez a cento a cinquenta graus Fahrenheit (sessenta e um a oitenta e três graus centígrados).

Não há escrita venusiana; como em todas as civilizações muito avançadas as comunicações não se fazem nem pela palavra nem pela escrita, mas por telepatia.

Os membros da Aetherius Society confirmam a existência dos discos voadores e a vontade dos extraterrestres de salvarem os Terrenos dos seus erros.

Os mestres, Jesus, Buda e Shri Krishna, eram Inteligências

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do espaço e serviam-se de corpos terrestres para realizarem as suas missões particulares.

Em resumo, é este o programa da dita associação.

A LENDA DO INFERNO

Uma lenda, que antes seria uma história verídica — segundo o doutor King—mas deformada por transmissões sucessivas, dá uma estranha explicação do mito do Inferno.

Há perto de vinte mil anos, sábios da Atlântida teriam chegado ao centro da Terra com o objectivo de dominar «o fogo da vida eterna)) e de afirmar o seu poder sobre todo o sistema solar.

Estes aprendizes de feiticeiro falharam a sua missão, e se adquiriram o privilégio de uma longevidade infinita, por outro lado ficaram prisioneiros no núcleo central durante milhares de anos.

Foram finalmente libertados por adeptos dos grandes conhecimentos científicos e diz-se que a lenda do Inferno teria tido esta aventura como origem.

Também circula, entre Iniciados, uma informação relacionada com o ((fogo da vida eterna»: por volta de 1950, uns mineiros que trabalhavam na Sibéria teriam rejuvenescido de um modo espectacular.

Desapareciam-lhes as rugas e deixavam de sentir qualquer necessidade de comer.

Um médium, delegado pelo Governo inglês, teria oferecido ao doutor King uma fortuna considerável para conhecer o local de uma rocha de juventude.

O doutor teria dado seguimento favorável ao pedido, mas Sua Majestade (a Rainha) não quis prometer que se limitaria a utilizar o segredo para fins pacíficos.

Estas e muitas outras histórias são contadas publicamente durante as conferências da Aetherius Society...

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O LIVRO DO MISTERIOSO



EUGÉNIO SIRAGUSA

O Centre d'Étude Fraternité Cosmique tem a sua sede em Lausana —CEFC Fracos, CP. 2798, 1000 Lausana 22.

Este centro emite mensagens «da parte dos extraterrenos em serviço no planeta Terra» e refere-se à Lei Divina e ao mestre Jesus.

O mensageiro da Fraternidade Cósmica é uma espécie de arcanjo, cujo nome é Ashtar Sheran; o representante terreno é o senhor Eugénio Siragusa, um siliciano de cinquenta anos.

Apareceu um sinal mágico no céu, quando ele tinha trinta e três anos, que lhe deu consciência da sua missão e conhecimento do seu eu eterno.

Desde então, uma voz interior passou a instruí-lo sobre geologia e cosmogonia, abrindo-lhe o espírito para os mistérios da criação e das suas vidas anteriores. Engenio Siragusa soube assim que doze mil anos antes havia sido estudante em Poseidon, na Atlântida, numa sociedade que tinha por fundamento a sabedoria e o amor.

É por contacto telepático, como o doutor King, que ele está em relação com os extraterrestres, que, no entanto, encontrou, uma noite, em 1962, em corpo físico, no Etna.

Dois seres, vestidos com conjuntos espaciais prateados, espe-ravam-no aí.

Eram grandes, atléticos, com cabelos louros sobre os ombros. Usavam, nos punhos e nos tornozelos, uma espécie de braçadeiras tão brilhantes como o ouro, e à volta da cintura um cinto luminescente.

Sobre o peito brilhavam umas estranhas placas.

Um dos homens fez incidir sobre ele, com o objecto que tinha na mão, um raio de luz verde, o qual deu a Eugénio Siragusa um maravilhoso sentimento de bem-estar e de confiança.

— Estávamos à tua espera — disse. — Grava na tua memória o que te vamos dizer.

Tratava-se de uma mensagem dirigida a todos os chefes de Estado do globo.

Os dois seres eram os enviados de uma «Confederação Inter-

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galáctica» que reunia vários planetas, a qual tinha feito, de certo modo, o processo da civilização terrena: conjuras de mentira, crimes intitulados actos de heroísmo, violência, ódio racial, religião deformada e fanática.

De uma distância de vários anos-luz, os dois seres lumines-centes tinham vindo para nos ajudar, e a nossa recusa de nos emendarmos mergulhava-os numa grande perplexidade.

Conclusão tranquilizante: somos vigiados por uma raça superior, a qual não autorizará que deixemos cair a nossa civilização numa catástrofe nuclear.

EXTRATERRESTRES SOBRE A LUA NEGRA

Será Eugénio Siragusa um iluminado, um missionário?

Pode fazer-se a pergunta, mas em qualquer caso o seu desinteresse é total e a sua boa fé parece evidente, mesmo quando em público faz declarações assustadoras.

— Há seis milhões de extraterrestres no nosso planeta! — disse.

O Governo dos Estados Unidos está ao corrente desta situação, que, sem que se saiba porquê, está etiquetada de top-secret. A O.T. A.N. teria uma prova da existência dos viajantes vindos de um outro mundo: o trajo espacial de um piloto de disco voador'.

Os extraterrestres têm uma duração de vida de alguns doze mil anos; todos os Grandes Iniciados, e sobretudo Jesus e Buda, eram originários de um outro planeta diferente do nosso.

Para tranquilidade dos Terrenos, é preciso explicar que o seu quociente intelectual médio é muito baixo: três e meio

1 Depois de termos investigado, conseguimos ficar certos de que esta afirmação é destituída de fundamento.

Eugénio Siragusa é mandatário da «Confederação Intergaláctica», cuja «ede é algures para as bandas de Sirius

413

Jean Roy, de Paris, é o representante na Terra dos extraplanetános de Baavi



414

contra quinze em relação aos extraterrestres e sessenta para os habitantes de Alfa do Centauro!

Da exposição do profeta siciliano resulta que o fenómeno dos discos voadores corresponde a uma realidade de facto, encon-trando-se a base destes engenhos num pequeno satélite artificial da Lua, que foi colocado numa certa órbita para impedir o nosso satélite natural de entrar em colisão com a Terra.

Esse pequeno satélite tem nome: Lua Negra, o que oferece uma certa coincidência com a tradição de Lilith e com as observações de Cassini e de vários outros astrónomos, que já no século xvn tinham identificado este corpo celeste, difícil de localizar.

A Lua Negra, se é verdadeiramente artificial, existiria assim de há trezentos anos ou menos para cá, mas nesse caso deve pensar-se que os extraterrestres que nos vigiam não servem para outra coisa senão para marcar encontros clandestinos e brincar aos espantalhos junto das cancelas e dos cultivadores de lavanda!

UM FENÓMENO MESSIÂNICO

Há ainda muitas outras associações ou seitas que afirmam pertencer a uma sociedade «intergaláctica»; há várias outras personagens que pretendem haver nascido ou ter ido a planetas distantes da Terra muitos anos-luz.

É de uma grande importância, para um escritor testemunha do nosso tempo, estudar estes fenómenos e deixar deles um registo nos arquivos do século.

De facto, Emen Y, o doutor King e Eugénio Siragusa apre-sentam-se diante de nós como os novos profetas, os Jeremias, os Ezequiéis e os Job do nosso planeta.

Como eles, lançam um grito de alarme, insultam os ricos e os poderosos, os comerciantes e os políticos, os maus e os ignorantes.

Dentro de alguns séculos, quem sabe, talvez uma Conjura tenha necessidade de um chefe, de um Iniciador, e pode ser que Emen Y ou o senhor Siragusa se tornem os novos messias que atravessaram os nossos tempos sem ser reconhecidos!

415


A História está cheia de aventuras maravilhosas deste tipo.

Devemos considerar como estabelecidas a decrepitude e a sem-razão da velha e terrível religião cristã.

«Julgar-se-á a árvore pelos seus frutos», disse alguém na Palestina, e, se julgarmos a nossa civilização judaico-cristã do século xx, as vítimas da sentença correm o risco de ser severos para Abraão, Moisés, Jesus e os pontífices das Igrejas.

Com o testemunho dos milhões e milhões de pobres herejes crucificados, trucidados, queimados, exilados, prisioneiros, interditos, expulsos, insultados, que se levantarão em nuvens de dentro da lenda dos séculos e dos milénios, não se duvida da condenação aos Infernos!

Com a maior má-fé do mundo, torna-se cada vez mais impossível construir catedrais, partir em cruzada ou trabalhar para o magnífico ou para o sublime, sob o signo de fogo da nossa época.

Os homens procuram e esperam, assim, um socorro do Além.

As suas preocupações, desejos, inquietações e apelos criam forças de grande potência, que acabam fatalmente por invadir um cérebro e subjugá-lo.

É o fenómeno do messianismo.

Os Jesus do nosso tempo são Emen Y, o doutor King, Eugénio Siragusa e outros que não conhecemos, que vieram ou hão-de vir.

Bastava acreditar num, não importa qual, para que ele passasse a ser o verdadeiro Messias e mudasse a face do globo.

Vêm todos como mensageiros da paz e mesmo como continuadores de Cristo.

Siragusa, mais inspirado ou mais reflectido, escalou o Etna para receber a palavra dos deuses. Exactamente como Moisés!

Se acontecesse ao profeta siciliano ser perseguido, ou melhor, crucificado, então as suas possibilidades de um dia ser reconhecido como consagrado pelo Senhor seriam reais, sobretudo se o drama se desse em circunstâncias muito ((cinemascópicas»!

Houve precedentes...

416

AS ARMAS MARAVILHOSAS DOS CELTAS



Apolo, deus hiperbóreo, aliás Abaris, que viajava numa flecha, e Melusina, a serpente alada iniciadora venusiana, eram para a mitologia francesa praticamente os únicos elementos que a ligavam à imiscuição dos extraterrestres no nosso longínquo passado.

Pertencia ao druida escritor E. Coarer-Kalondan recensear na história dos Celtas os factos e indícios que longinquamente se pudesse referir a Iniciadores vindos do Céu.

O seu livro, Les Extra-Terrestres chez les Celtes2, que assinou em colaboração com a sua mulher, a ovata Gwezenn Dana, é uma verdadeira bíblia do ensino e dos altos feitos dos nossos antepassados herdeiros dos construtores de dólmenes e de me-nires.

Belisama (semelhante à chama), Belenus (o esplêndido) e Grannus (o brilhante) são deuses célticos que lembram estranhamente Astart e Baal, os deuses venusianos da Fenícia, brilhantes e parecidos com a chama do cometa Vénus.

O rei Brân, ((navegador das regiões misteriosas», desloca-va-se num barca rápida que o levava numa noite da Irlanda ao País dos Tertres (a América).

O esquife do mágico Manannan Mac Llyr, sem vela e sem remos, ((ia para onde o seu dono quisesse».

Sendo estas relações exactas, convém ver nestes dois engenhos ultra-rápidos aviões ou barcos comandados por um gerador de energia de que ainda não temos sequer a ideia.

Coarer-Kalondan e Gwezenn Dana vêem nesses aparelhos máquinas voadoras e vão até às origens mitológicas para se certificarem de que os Tuatha Danann, invasores da Irlanda, tinham um arsenal de guerra que em nada ficava atrás das nossas armas mais modernas.

2 E. Coarer-Kalondan e Gwezenn Dana, Les Extra-T errestres chez les Celtes, ed. Le Marabout (col. Univers Secrels), Verviers.

Recomendamos vivamente a leitura deste livro, que faz o balanço da pri-mistória céltica e refere relações mitológicas dignas de fazer crer na tese de um povo do Céu no tempo dos nossos antepassados.

14

417


Conheciam o submarino, se nos lembrarmos da «barca de prata sob as águas», que serviu a Elatha para ir procurar o filho depois da batalha de Mag Tured.

Um poema irlandês chega mesmo a contar um combate entre tanques anfíbios:

«Um dia, os habitantes do Connaught viram no Shannon dois animais enormes que combatiam.

Saíam das suas goelas espadas de fogo que atingiam as nuvens do Céu (seriam tiros de canhão?).

?".J*Vr©

nfrae» 6' A?TÍ8*,Í,ÍÍO

Assim descrevem os extraterrestres os seus veículos intergalácticos

Aterraram e tomaram forma humana (saíram homens dos engenhos).»

Quanto aos habitantes de Munster, viram uma coisa maravilhosa: dois grandes pássaros barulhentos, corvos, que depois de

418


O LIVRO DO PASSADO MISTERIOSO

terem chocado nos céus também se metamorfosearam em seres humanos, o que aconteceu igualmente ao carro voador da deusa Badb, que era uma gralha em pleno voo. Restabelecendo os factos à luz dos nossos conhecimentos, é lógico pensar que, na realidade, se tratava de aparelhos de navegação aérea.

O LASER DOS TUATHA DANANN

Sempre segundo esta óptica, o olho de Balor que fulminava os adversários, por muitos que fossem, era uma espécie de laser, que lançava os raios da morte ((quando, com a ajuda de um gancho, se levantava o obturador que barrava as radiações fulgurantes».

Balor tinha de resto um servo cuja missão em combate era ((levantar o obturador, cujo peso enorme se devia ao facto de o metal ordinário ser forrado na parte interior por um revestimento de chumbo destinado a servir de écran.))

A lança maravilhosa de Lug descarregava projécteis movidos pela energia solar, a moca de Dagda era «uma espécie de bazuca ou um canhão, tão pesado que em vez de o carregarem tinham de o rolar».

A gaebolg de Cuchulain, o Esus irlandês, esticava-se à vontade e nunca falhava o adversário.

Era um longo tubo na extremidade do qual jorrava um raio mortal.

A utilização que os Celtas faziam do que pensamos ser o laser confirma-se assim por três vezes com o olho de Balor, a lança maravilhosa de Lug e a gaebolg, e uma tal repetição deste poder mágico leva a crer que há nestas relações uma certa base de verdade científica.

Tanto mais que os Tuatha Danann, esses mágicos reputados e misteriosos, eram na realidade deuses vindos de um país longínquo aonde um dia regressavam, vencidos pela multidão dos povos da Terra, mas exigindo que se lhes preste, mesmo estando ausentes, um culto que, efectivamente, foi durante muito tempo honrado.

Para apoio das suas teses fantásticas mas fascinantes, os

419


Bailado de discos voadores no céu da Costa Brava, em Setembro de 1968! Trata-se, na realidade, de um contraluz com luz solar, que provoca reflexos na objectiva do aparelho fotográfico. Se houvesse discos voadores no céu, o operador tê-los-ia visto e, em vez de apanhar um primeiro-plano sem interesse, teria antes centrado a sua fotografia no céu. O cavalo não está assustado como se disse: recua, e o condutor solta as rédeas como é costume fazer para que uma

carroça recue

420

co-autores notam, segundo a tradição, que a lança de Cuchulain, quando estava em repouso, devia ter a extremidade metida em agua para evitar que pegasse fogo em volta.



<(Ora essa precaução)), dizem eles, ((apesar de diferente quanto ao líquido utilizado, também se aplica a certos geradores de laser.))

Com os lança-chamas que incendiaram Tara, as nuvens atómicas que vitrificaram a torre de Toriniz e destruíram as habitações, os rebanhos e todo o campo de Gorsedd Alberth (arma total), os antigos Celtas da Irlanda e os Tuatha do país misterioso aparecem assim como povos que tinham em seu poder, durante um certo tempo, armas científicas cuja origem não podia ser planetária.

Esta é a tese defendida por E. Coarer-Kalondan e por Gwe-zenn Dana, tese que, mesmo que esteja errada no pormenor, tem o mérito de ligar a história dos Celtas à grande e maravilhosa aventura dos outros povos onde a vinda de Iniciadores extrapla-netários é muito mais evidente.

OS DISCOS VOADORES: ILUSÃO OU REALIDADE?

O dossier dos O. V. N. I. e da imiscuição dos supostos viajantes do espaço é muito mais rica de suposições, de hipóteses e de relações casuais do que de realidades tangíveis, mas é incontestável um facto importante: o próprio fenómeno.

Não é insensato crer na vinda dos extraterrestres, é lógico acreditar na possibilidade de um tal acontecimento, seria abusivo ignorá-lo ou negá-lo.

Segundo o nosso ponto de vista e para limitar o debate, arece-nos altamente provável que as antigas civilizações tenham eneficiado de conhecimentos trazidos por seres estranhos à Terra.

Estes seres, os deuses antigos, pela fé de tradições que julgamos autênticas, vinham de um outro mundo.

As mitologias mencionam com insistência Vénus (antes de se^ tornar um planeta no nosso sistema solar) e esta designação não nos parece nada extravagante.

E

421



No entanto, no estudo do fenómeno, que parece prefigurai a verdade de amanhã, é interessante conhecer a opinião dos meios científicos, geralmente hostis às teses que propomos.

Para François, o Lionês, trata-se de uma ilusão colectiva, porque a ilusão é a má interpretação das coisas.

O astrónomo Paul Muller vê os O.V. N. I. como nuvens lenticulares (as que são em forma de carteiras de aspirinas).

O doutor René Held, psiquiatra, dá uma explicação mais científica: desde há três mil anos, afirma, que se vêem coisas estranhas no céu e não se deram factos aditivos, ou seja, a tese dos discos voadores não avançou. Ora, numa ciência erra-se, recua-se, descobre-se, experimenta-se, muitas vezes apaga-se, mas nunca completamente: há sempre alguma coisa de bom a manter, uma adição.

Portanto, não havendo factos aditivos, não há O.V.N.I., assim como não há fantasmas, gnomos e reencarnações.

O CÉU É UMA BOLA DE CRISTAL

Na percepção dos objectos singulares, é certo que entra quase sempre uma intensa participação subjectiva. Por exemplo, a observação de uma qualquer luz no céu suscita no consciente e no inconsciente a ideia de um disco voador, assim como no Dia do Corpo de Deus a chuva provoca em nós o sentimento de uma desaprovação divina, mesmo se não dermos importância a essa ideia.

É a participação subjectiva que actua.

Para que uma observação de O. V. N.I. seja válida, seria necessário, além do controle do fenómeno, o estudo da «psicologia do inconsciente» da testemunha.

Temos sempre posições afectivas e impressionamo-nos com os «fantasmas» que alimentamos desde a infância e que projectamos poeticamente no nosso céu de adultos.

De resto, um céu nocturno representa quase na perfeição o papel da bola de cristal das videntes.

A quem o contempla com assiduidade sucede ficar hipnoti-

422

zado e criar no seu eu interior imagens, fantasmas e toda uma imaginação de vida.



Os pastores são bons narradores de histórias, não param de inventar ((feras», lobos monstruosos, dragões, e também tesouros, ((damas» e outras personagens imaginárias, só porque contemplam o céu, ao longo de intermináveis horas.

Os apaixonados, que vão para uma colina olhar para a abóbada estrelada, acabam infalivelmente por descobrir nela sinais premonitórios, cenas alucinantes, visões apocalípticas ou paradisíacas.

Estas efabulações provocadas pelo espectáculo do céu, da floresta ou do mar são inerentes ao ((subjectivo» do homem e à sua inata necessidade do maravilhoso.

Estas motivações subjectivas merecem incontestavelmente ser tomadas em consideração, e não há dúvida de que as inúmeras testemunhas relacionadas com os O. V. N. I. são sujeitas de caução.

No entanto, também é certo, justamente pelo estudo do inconsciente, que o imaginário mais fantástico se liga de maneira imperceptível mas tangível a realidades passadas ou futuras, cuja invenção é uma projecção cromossómica ou uma prefiguração.

E segundo esta linha de pensamento que acreditamos na autenticidade do fenómeno O.V. N.I.

MENSAGEM DOS TERRENOS PARA OS EXTRATERRESTRES

Esta opinião está tão assente e corresponde tão bem a uma realidade possível que os astrofísicos redigiram, a seu modo, uma mensagem com destino aos povos do espaço.

Em Março de 1972, o satélite americano Pioneer 10 levou para o planeta Júpiter, que evolui no nosso sistema solar, entre Marte e Saturno, uma placa de alumínio de quinze por vinte e dois centímetros que dá as indicações essenciais para que as inteligências extraterrestres possam imaginar a nossa existência e a forma da vida sobre a Terra.

423


Foi assim que Eugénio Siragusa tomou contacto com os três enviados da «Confederação Intergaláctica», no vulcão Etna

O Pionner 10 chegará perto de Júpiter em 1975, talvez se «atelize à volta do planeta, talvez se esmague num oceano glacial de amoníaco, de metano e de gelo a cento e cinquenta graus negativos.

Não pode existir qualquer vida humana sobre Júpiter, onde a gravidade é enorme e o frio intenso, mas se o satélite se perder no cosmo, o que não é de excluir depois de uma viagem de mil

424


milhões de quilómetros3, terá então a possibilidade de encontrar uma estrela mais acolhedora ou de ser interceptado por uma civilização avançada.

O metal da mensagem foi tratado para resistir a uma viagem espacial de três mil anos-luz, o que representa cem milhões de anos terrestres. A placa está atarrachada num suporte de antena de modo bem visível.

A mensagem consiste num desenho do sistema solar com catorze linhas radiais representando pulsars, e uma décima quinta linha que situa a posição da Terra em relação ao centro da nossa galáxia.

Um homem e uma mulher, nus, dão a ideia da nossa imagem; o homem ergue o braço direito para saudar os eventuais descobridores e fazer-lhes compreender o nosso desejo de encetar um diálogo.

Resta saber se seres inteligentes do espaço, com natureza, formas e consistência desconhecidas, poderão decifrar esta mensagem sibilina.

Aos homens da Terra não faltam qualidades cerebrais, no entanto não parecem inclinados para interpretar como um possível diálogo estes O.V. N.I., estas imagens fantasmas que se desenham nos seus radares e estes sinais do céu que são talvez enviados por uma civilização do espaço.

Mas pode sempre esperar-se que os extraterrestres das estrelas longínquas sejam mais inteligentes do que nós...

3 Júpiter está a quinhentos e sessenta milhões de quilómetros da Terra, mas o Pioneer 10, se o atingir, deverá seguir uma imensa curva, que duplicará o

trajecto.

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Mensagem dos Terrenos aos extraterrestres, levada pelo satélite americano

Pioneer 10

ORIGEM DAS ILUSTRAÇÕES

Foto de Pág.

Robert Charroux..................................................... 17

Robert Charroux ...................................................... 19

Robert Charroux ...................................................... 21

Robert Charroux ...................................................... 24

Gilbert Bovard ........................................................ 25

Gilbert Bovard........................................................ 49

Lolc Jahan ........................................................... 52

Loic Jahan........................................................... 52

Robert Charroux ...................................................... 53

Popperfoto ............................................................ 58

Popperfoto ............................................................ 58

Popperfoto ............................................................ 59

Popperfoto ..................................".......................... 59

Robert Charroux ...................................................... 76

Robert Charroux ...................................................... 76

Irish Board — Bord Frailte............................................. 78

Robert Charroux ...................................................... 86

Robert Charroux ...................................................... 87

Robert Charroux ...................................................... 94

Robert Charroux ...................................................... 97

Robert Charroux ....................................................... 99

lgnatieff.............................................................. 101

Robert Charroux ...................................................... 113

Robert Charroux .................. .................................... 117

Robert Charroux ...................................................... 120

Pueblo, Madrid ...................................................... 140

Pueblo, Madrid ...................................................... 141

Robert Charroux ....................................... ... ............ 143

Metapschica, Génova, Itália............................................ 152

Metapschica, Génova, Itália............................................ 153

Metapschica, Génova, Itália............................................ 156

Metapschica, Génova, Itália .; .......................................... 156

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Foto de Pág



Robert Charroux ...................................................... 158

Gendarmerie Regionale ................................................ 187

Robert Charroux ...................................................... 214

Willy Endress ......................................................... 268

Robert Charroux ...................................................... 269

Willy Endress ......................................................... 269

Pepe ................................................................. 270

Robert Charroux ...................................................... 271

Edith Gérin........................................................... 274

Edith Gérin........................................................... 274

Edith Gérin........................................................... 275

Edith Gérin........................................................... 275

Edith Gérin........................................................... 275

Robert Charroux ...................................................... 277

Robert Charroux ...................................................... 279

Robert Charroux ...................................................... 279

Robert Charroux ...................................................... 281

Robert Charroux ...................................................... 283

Robert Charroux ...................................................... 283

Robert Charroux.............................. ......................... 285

Robert Charroux ...................................................... 291

Chigi à Sienne ........................................................ 295

La Domenica dei Corrièrc, Itália ....................................... 299

Robert Charroux ....................................... ,.............. 301

Robert Charroux ...................................................... 346

J. P. Moret (Lusignan) ............ .................................... 348

Robert Charroux ....................................................... 364

Robert Charroux ...................................................... 366

Robert Charroux ...................................................... 380

Robert Charroux ...................................................... 383

Robert Charroux ...................................................... 389

Excelsior .............................................................. 395

Robert Charroux ...................................................... 399

Centre d'Études de Fraternité Cosmique.................... ............ 412

Centre d'Études de Fraternité Cosmique................................ 414

Centre d'Études de Fraternité Cosmique................................ 418

André Bernier ........................................................ 420

Centre d'Études de Fraternité Cosmique................................ 424

Robert Charroux ...................................................... 426

ÍNDICE


Pág.

PREFACIO ........................................................... 9

O homem que faz milagres. Uma frase misteriosa pronunciada na Lua. Uma emissão de origem desconhecida. Eis a frase proibida.

CAPÍTULO I PRIMISTÓRIA

O INSÓLITO TERRESTRE .......................................... 15

Escadarias misteriosas. Caminhos para o desconhecido. A porta com uma cruz. Chave para abrir as portas proibidas. A Rocha dos Pés. Sinais de pertença.

CAPÍTULO II

ILHAS E PAÍSES DE UM OUTRO MUNDO ........................... 27

A miragem de São Brandão. O mistério da ilha Antilia. Deixou de ser vista. Antília-Atlanta. Crianças de cor verde. Um país debaixo da montanha. Seres verdes extraterrestres.

CAPÍTULO III

OS ANTEPASSADOS SUPERIORES ................................... 37

Uma ilha para os Iniciadores. Homens unicamente na Terra. Tentativa de aclimatação. Uma central iniciática cósmica. Iniciados sem frio. Os grandes antepassados brancos.

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CAPÍTULO IV



1. CIVILIZAÇÕES PERDIDAS ....................................

Os arqueólogos «selvagens». O pilar de Ashoka. Feito de ferro impuro. O Vale das Maravilhas. Os homens do Bego. A lenda do Vale de la Masque. Os cavalos brancos dos downs. Cidades esquecidas na selva.

2. REINOS IMAGINÁRIOS .......................................

A cidade subterrânea dos Lemures. Homens de duas línguas) Manoa. Americanas. La Ciudad de los Césares. O El Dorado original. Sonhos, delírios e morte. Paititi. A fonte de juventude.

CAPÍTULO V

CIVILIZAÇÕES MISTERIOSAS: NA ESCÓCIA, EM FRANÇA, NA SARDENHA, EM MALTA ...... ....................................

A vingança do deus Azuria. O Craig Phoedrick. Os fortes vitrificados da Creuse. As pedras queimadas. A hipótese do druida E. Coarer-Kalondan. Os brochs. Dun Aengus. A Vénus de Quinipily. A Feiticeira da Guarda. A Mater gaulesa contra a Virgem Santa. Uma groach indecente. A civilização dos murajes. Um templo em forma de mão. O Hipogeu de Hal--Saflieni. Uma central de estereofonia com seis mil anos. «As Enormes». A máquina de ressuscitar os mortos. A Mater de cabeça substituível. A Nazca de Malta.

CAPÍTULO VI O MISTERIOSO DESCONHECIDO

A MAGIA E CRISTÓVÃO COLOMBO .................................

O paraíso terrestre. A carta de Toscanelli. A miragem das ilhas Afortunadas. A Vinlândia e o México antes de Colombo. Martin Alonzo e Vincente Pinzon. Os precursores de Colombo. Cabot chega a terra antes de Colombo. O verdadeiro objectivo: reconstruir o Templo de Jerusalém. Fim do mundo em 1656. Colombo grão-mestre do Templo. Uma missão templária. Colombo cabalista. Um talismã de Senhor do mundo. Um pacto com Satanás.

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CAPÍTULO VII



O FORMULÁRIO DO GRANDE ALBERTO ........................

Quando se tem a Baraka. Factos estranhos. O sinal do Além. Os segredos do Grande Alberto. Para se corresponder magicamente a grande distância. Para transformar o chumbo em ouro fino. O conde de Saint-Germain. Não há milagres na televisão. O homem vermelho das Tulherias.

CAPÍTULO VIII

OS RETRATOS MÁGICOS DE BELMEZ DE LA MORALEDA .........

A casa encantada. Um túmulo debaixo da lareira. As sombras falam. A casa é assombrada. Aparece um outro rosto. Raios ultravioletas. Supranormal. Correntes telúricas e materialização. Uma criação do mundo.

CAPÍTULO IX

AGPAOA, O ATRAVESSA-PAREDES ............... ..................

As suas mãos entram na carne como se fora água. Um único passo: as feridas abrem-se e fecham-sc Três operações sem luvas. As emanações Kirlian. A cirurgia espiritual (psychic surgery). Uma herança dos extraterrestres? Levanta-se uma ponta do véu. Ilusionismo e magia. Os racionalistas contestam. Não passa de um simulacro... A múmia da cripta hermética.

CAPÍTULO X

O MISTERIOSO DESCONHECIDO DO FOGO ... ....................

Incêndios estranhos. Fogos misteriosos. JUÍZOS de Deus ou do Diabo? O diácono Paris. Os milagres da histeria. Mulheres nuas crucificadas. Deus proibido de fazer milagres. Marie Sonnet dorme sobre o fogo. Na confluência do físico e do psiquismo. O ignorante troça das leis físicas.

431


APÍTULO XI

OS LIVROS SIBILINOS E JOANA D'ARC ...........................

Os Livros Sibilinos e o fim de Roma. Fim do mundo, destruição de Nova Iorque e de São Francisco. Pedras oraculares. Fim de Marselha! O sinal do fim do mundo. A telepatia de Èlack. As ondas do pensamento. O terceiro olho de Joana. A espada mágica. Misteriosa Joana d'Arc. Filha de rainha? Quem ardeu na fogueira? Tratava-se de um caso de magia.

CAPÍTULO XII FANTÁSTICO

A MATER, LILITH E O HOMEM SUPERIOR ........................

A Mater hermafrodita. A Mater e a partenogénese. O canal de Muller. A mulher vive mais tempo. Lilith. A avó demónia! O homem seria mais inteligente.

CAPÍTULO XIII

A ESCRITA CROMOSSÓMICA E O PECADO ........................

A psicoesfera. As correntes telúricas. O grande medo ancestral. Os asilos de paz. A serpente e o espermatozóide. A escrita biológica. Invenção do nome. A alcunha ou nome cromossó-mico. Protesto contra a mulherl A estranha seita dos cainitas Dois pesos, duas medidas. Louvor ao racismo. Toda a natureza é racista. O pecado mortal.

CAPÍTULO XIV

A CRIAÇÃO DO MUNDO .................................... ......

Em tudo há vida. A tese do Mestre Desconhecido. Proteu, o viajante do tempo. O mais, o menos e o tempo zero. Imaginemos o universo. O paradoxo de Zenão. O homem do neutrão. Um morto e um vivo. O Pai, o Filho e o Espírito Santo. Ilusão do tempo: universo instantâneo. O Rig Veda dis-sera-o... Deus foi inventado pela intelligentsia. Manou sabia-o... A cosmogénese dos Iniciados.

432

Pág.


CAPÍTULO XV

A VIDA E A INTELIGÊNCIA ....................................... 242

Vida primitiva no cosmo. Deus é o continuum espaço-tempo. Atoum, o deus-átomo. Os deuses atómicos. O tempo prisioneiro. Como nasce a inteligência. Os cromossomas-memórias da Natureza. O círculo mágico sem espaço-tempo.

CAPÍTULO XVI

A NATUREZA PENSA ............................................. 252

1. A INTELIGÊNCIA DAS PLANTAS ........................... 252

A inteligência e a alma. Inteligência das flores. A genial orquídea. Uma planta que calcula.

2. A INTELIGÊNCIA DOS ANIMAIS .............................. 257

O radar do icnêumon. Instinto e inteligência.

3. A VIDA NA MATÉRIA ...................................... 261

Os nossos antepassados de pedra. Os pontos de amor. Os pontos de agressividade. A Terra vinga-se.

CAPÍTULO XVII

OS MUSEUS PRÉ-HISTÓRICOS DO PETRIMUNDO .................. 267

A gravidez nervosa da Natureza. O museu fantástico de Fon-tainebleau. Montpellier-le-Vieux, a cidade do Diabo. Paiolive. A Aldeia dos ídolos. O planalto de Marcahuasi. Máquinas do futuro nos rochedos. O petrimundo e os museus pré-his-tóricos.

431

Pág.


CAPÍTULO XVIII

A MÁQUINA DE FILMAR O PASSADO .............................. 289

Engenhos do futuro. O elixir da juventude. Cápsula de dois andares no século xvi. O passado nunca morre. Uma fotografia das Tábuas da Lei. Eis o retrato de Cristo. A chave do enigma...

CAPÍTULO XIX ENSAIO DE MITOLOGIA FRANCESA

QUANDO OS DEUSES ERAM HOMENS .............................. 304

O caso dos países cristianíssimos. O tempo do sonho. O génio, o Iniciador e a «estrela». Evémero, o ateu. As ilhas flutuantes. Hesíodo desvenda a lenda. Os carvalhos de Dodona. Os falsos deuses. A lenda de Montmarte. Predestinação dos lugares. O falcão divino e o ouràios. As mitologias e as convergências. Osíris, deus recente. Jesus era um deus egípcio. A crucificação de Osíris. Os mitos e Jesus. O imperador Juliano.

CAPÍTULO XX

QUANDO OS HOMENS SONHAM COM VÉNUS ..................... 326

Regresso à fonte de Sée. Uma história de extraterrestres. A nuvem do Senhor Voador. A verdade com cheiro a enxofre. As muito brilhantes e Vénus. Belo como um deus. Fadas da água e serpentes. O mito da serpente voadora. A mitologia céltico--gaulesa. Lusignan, capital da Céltica.

CAPÍTULO XXI MELUSINA

MELUSINA, A SERPENTE ALADA .................. ............... 344

Preliminar. Louvar a Deus sobre todas as coisas. A grande caçada do conde Aimery. Escrito nos astros. Realiza-se o presságio. As três jovens da fonte. Todas as noites de sábado para domingo. O segredo de Melusina. Encantamentos na floresta. O casamento de Melusina. A fada construtora. A dorne de Melusina. Os três sinais do destino. O segredo da torre. O licórnio maravilhoso. O voo da serpente. Comentários. '

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CAPÍTULO XXII A FEITIÇARIA



DEMÓNIOS E MARAVILHAS .......................................

As ((chaves de Salomão». O Enchyridion. Para ser invencível... e a jarreteira para a marchai Quando o fogo queima a vossa casa. Denise de la Caille, a possessa. Berra e voa. Satanás ameaçado de excomunhão. Belzebu, Satanás, Lisis, Matelu e Briffault assinam a capitulação! A maldição que matou Papus. A morte de Fabre d'01ivet. Sacrilégio em Raivavaé. Moana, a estátua maléfica. Bossuet, o feiticeiro negro. Uma fogueira para o ano 2000.

CAPÍTULO XXIII OS MISTÉRIOS DO CÉU

AVENTURAS NO CÉU .............................................

O Vale das Maravilhas no México. Mensagens gravadas por extraterrestres. Gigantes e cosmonautas. Os deuses voadores da Austrália. Luas, sóis e rodas no céu. As «bolas» extraterrestres de Manila. Uma ilha fantasma no radar. Acontecimentos estranhos no Mediterrâneo. Os radares não se enganam, mas... O motor sem carburante de Van den Berg.

CAPÍTULO XXIV

AS SOCIEDADES SECRETAS EXTRATERRESTRES ..................

A Aetherius Society. A lenda do Inferno. Eugénio Siragusa. Extraterrestres sobre a Lua Negra. Um fenómeno messiânico. As armas maravilhosas dos Celtas. O laser dos Tuatha Danann. Os discos voadores: ilusão ou realidade? O céu é uma bola de cristal. Mensagem dos Terrenos para os extraterrestres.



Origem das ilustrações


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